sábado, 27 de junho de 2020

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO - Mt 16,13-19:



A cada ciclo litúrgico que a Igreja vive, somos convidados a fazer a memória de Pedro e de Paulo. Para isto, a liturgia nos propõe a perícope pertencente ao capítulo dezesseis do Evangelho segundo São Mateus (Mt 16,13-19).

É oportuno situar o texto ao interno do contexto para retirarmos a mensagem essencial do Evangelho. O texto que hoje temos começa no v.13. Mas ele iniciara com duas situações que servem de estopim para a narrativa que se segue. O primeiro acontecimento foi uma controvérsia entre Jesus e os fariseus, os quais pediram a ele um sinal de que seria realmente o messias (Mt 16,1-4). Ora, Jesus, a esta altura do evangelho, já havia realizado muitos sinais e realizado muitos ensinamentos. A segunda situação foi motivada pela advertência que feita aos discípulos para que estes tomassem cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus (Mt 16,5-12). O fermento dos fariseus a que Jesus se refere consiste numa ideia errada que nutriam em relação a Deus e ao messias, bem como a própria maneira hipócrita de viver. Agora pode-se entrar no horizonte do texto de hoje.

Mateus indica geograficamente a seus leitores-discípulos onde o fato se dá. “Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe” (v.13a). Cidade situada ao norte de Israel; dedicada à Cesar, imperador romano. Sede do poder romano na província da Palestina e, portanto, lugar de culto ao imperador e de cultivo da ideologia imperial. Um território pagão. Por outro lado, Cesaréia fica distante de Jerusalém, sede do poder religioso. Jesus e seus discípulos encontram-se longe das influências do poder religioso. Ali poderiam fazer uma experiência nova e pura com Deus em Jesus.

“ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (v. 13b). Filho do Homem é aquela personagem bíblica de que nos fala a literatura apocalíptica de Dn 7. É o encarregado por Deus de executar o Seu Senhorio e vontade na história. É o plenipotenciário enviado em nome de Deus. Jesus se identifica e reconhece-se a partir desta personagem. Mas a personagem alude também a sua condição humana.

É verdade que não há concordância entre os biblistas a respeito da intencionalidade de Jesus na pergunta. Uns alegam que ele estaria preocupado com sua auto imagem. Outros, que ele não estaria preocupado com sua imagem, mas com a correta compreensão de sua pessoa e missão. Mais do que preocupado com a imagem que a multidão fazia dele, estava preocupado com a ideia que faziam de sua missão.

Segundo os discípulos, a opinião pública dizia: “alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (v. 14). A atuação de Jesus tinha dado margem para variadas interpretações, e as figuras do passado serviam aos espectadores de Jesus fazerem alguma imagem Dele. Acontece que Jesus não foi um reformador como Elias (e Eliseu, no Antigo Testamento), muito menos como João Batista, na transição do Antigo para o Novo. Ele inaugura uma novidade em relação ao modo com de se relacionar e experimentar o Deus de Israel, e uma novidade quanto ao modo de se relacionar com o próximo. É bem verdade que o modo através do qual Jesus decide-se por viver sua missão se inseriu na tradição profética.

Mas Jesus é muito mais. Embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. A comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado. Isso impede a comunidade de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história (CORNÉLIO, F, Homilia Domincal, in, porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Após a resposta dos discípulos, Jesus retorna a pergunta, agora, para ele: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v.15). Trata-se de uma pergunta importante, porque ela revela como os discípulos, o círculo mais próximo e pessoal de Jesus, o concebia. Mais ainda, a reposta revelaria ainda as expectativas que traziam consigo, e qual mentalidade nutriam acerca dele.

“Tu és o Cristo, 0 Filho do Deus vivo” (v.16), responde acertadamente Simão, em nome dos doze. É uma reposta que ele dá em nome do grupo, e, portanto, eclesial. Uma profissão de fé comunitária. Os demais discípulos componentes do grupo dos doze também responderam com Pedro.

“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17). Jesus admira-se com a resposta tão acertada. E reconhece ser Pedro um bem-aventurado, ao compreender uma verdade muito profunda. Entretanto, seu entendimento não provém do esforço humano; só pode ser revelação do Pai dos céus. Esta bem-aventurança não provém do mérito do discípulo, mas unicamente da iniciativa de Deus (VITÓRIO, 2017, p.105).

O que Jesus faz é uma constatação: as coisas começam a funcionar na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (cf. 10,21), e Pedro está falando a partir do que o Pai lhe sugere, ele está demonstrando adesão plena ao projeto do Reino, inserindo-se no mundo dos pequeninos! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição pertencer ao mundo dos pequeninos. A bem-aventurança de Pedro consiste em abrir-se à vontade do Pai e deixar-se conduzir por essa (CORNÉLIO, F, Homilia Domincal, in, porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

“Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18a). Jesus declara Simão-Pedro como rocha firme devido à Fé que professara. O acento aqui não recai sobre o discípulo Pedro, mas sobre a Fé que ele, conjuntamente com a comunidade dos discípulos, a Igreja, professa. A pedra firme por sobre o qual se edifica a comunidade dos crentes em Cristo é o conteúdo e núcleo da Fé professada pelo discípulo. Pedro, na verdade, é o garantidor da unidade em torno desta Fé. Esta não se baseia num conjunto de ideias ou de proclamações dogmáticas, mas se embasa numa pessoa: o Messias e Filho do Deus vivo, Jesus de Nazaré.

É importante esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: Πέτρος– Petros e πέτρα - petra. Embora muito próximas, é possível distingui-las: “Petros”, que foi transformada no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível, uma pedra de construção; “petra”, por sua vez, designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Portanto, Jesus diz que Pedro (petros) é uma pedra-tijolo da construção, e a pedra-rocha (petra) é a fé que ele professou, a superfície rochosa sobre a qual a Igreja é edificada (CORNÉLIO, F, Homilia Domincal, in, porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Só aqui e em Mt 18,17, o evangelista chama de “Igreja” a comunidade dos discípulos do Reino, evocando o antigo povo de Deus (hbr. qahal). A missão da igreja consiste em ser, na história humana, um sinal da presença do Reino, vivendo os seus valores e o seu projeto.

A chave simboliza a autoridade conferida a Pedro, da qual a comunidade também participa. Mais que delegando poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer já aqui na terra. A comunidade recebe “as chaves do Reino dos céus” porque é nela que se faz a experiência da fé e da comunhão profunda com Deus, através da prática das bem-aventuranças (cf. 5,1-12), e é isso que torna alguém apto para entrar nos céus. Qualquer um que professa convictamente a fé em Jesus e vive seu programa de vida expresso nas bem-aventuranças tem a chave de acesso ao Reino. “Ligar e desligar” são, acima de tudo, responsabilidades, e não um poder.

O texto litúrgico de hoje termina, mas, ao mesmo tempo encaminha para conclusão do capítulo dezesseis, o qual apresenta o primeiro anúncio da paixão, que visa abrir a compreensão dos discípulos para que comecem a compreender o verdadeiro modo pelo qual Jesus decide-se encaminhar a sua vida e missão, vaticinando a eventualidade de sua paixão e morte, coroadas pelo evento redentor e salvífico da ressurreição. O modo pelo qual Jesus exercerá plenamente seu messianismo é o modo da cruz. O caminho da cruz que foi assimilado, com não pouca dificuldade, pelo discípulo Simão-Pedro, através de sua vida gasta pelo Evangelho da libertação e da Graça.

A pergunta que Jesus faz aos discípulos se direciona também à nós. 1) Quem é Jesus de Nazaré para mim? 2) Qual a ideia de messias e Filho de Deus possuo e fiz experiência? O triunfalista, opressor, belicoso, poderoso? Ou o messias e Filho de Deus que realiza sua missão através da obediência ao Pai e ao projeto do Reino, vivendo uma existência em amor, compaixão, misericórdia e serviço aos irmãos?

Que Pedro e Paulo nos ajudem através da Fé que viveram e professaram, através da entrega de suas próprias vidas.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 20 de junho de 2020

HOMILIA PARA O XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 10,26-33:



A liturgia deste décimo segundo domingo do tempo comum, propõe a continuidade da leitura do discurso missionário de Jesus, situado no capítulo décimo do Evangelho segundo Mateus. O discurso consiste numa série de ensinamentos de Jesus, destinados aos discípulos, a respeito da missão. O que o mestre realizará, valerá, igualmente para o discípulo. O texto lido hoje – Mt 10,26-33 – já coloca o discurso próximo de seu final. O discurso missionário foi motivado pelo inconformismo de Jesus em face da situação das multidões, cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, ou seja, abandonadas e exploradas pelos chefes dos poderes político, econômico e religioso da época. Nesse sentido, a missão consiste no anúncio do Reino, como conteúdo fundamental. E este anúncio se visibiliza através da tarefa de restituir vida, dignidade e esperança, denunciando tudo o que impedia o ser humano de viver com dignidade.

Quem luta por isso, inevitavelmente, será vítima de perseguições hostilidades, como previu o próprio Jesus (Mt 10,16-25). Após alertar os discípulos sobre a quase certeza da perseguição, Jesus os encoraja para não desanimarem. E é isso o que compreende o texto lido hoje: o convite à coragem e à confiança no Pai e no próprio Jesus (CORNÉLIO, F, Homilia dominical. in. Porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

Após situar o contexto imediato ao texto de hoje, podemos entrar no horizonte da cena bíblica. Dos versículos 26-27, Jesus exorta aos discípulos, “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”.  O medo, ao interno da tradição bíblica, e na vida espiritual, constitui o contrário da Fé. Ele acomoda e paralisa a pessoa, impedindo-a de assumir e tomar as rédeas da vida e da história, ao interno do horizonte de Deus. Aquele que é chamado para a missão deve saber das consequências inerentes à ela, e não poderá sucumbir ao medo. 

O que havia de encoberto até então, e que não poderia mais permanecer oculto, era o que Jesus já tinha ensinado somente aos discípulos. Eles deverão ser os porta-vozes do mestre. Tinha chegado o momento de tornar público, fazer espalhar o que os discípulos tinham aprendido do mestre, especialmente o seu jeito de viver. O imperativo “proclamai-o sobre os telhados” é um convite ao esforço e à criatividade no anúncio.

No v.28, Jesus é mais enfático ainda. Os discípulos missionários não deverão se intimidar diante dos que colocarem obstáculos para seu trabalho missionário. Antes, só temerão aquele que, além de tirar a vida física, pode privar as pessoas da vida eterna, ou seja, Deus. Só a ele se deve temer. A perda total da vida não é um castigo, mas consequência das próprias escolhas. (cf. VITÓRIO, J. 2017, p.72).

Para desfazer este mal-entendido acerca da perseguição que os discípulos sofrerão (e ainda sofrem), Jesus toca no tema da providência divina. Ele se serve de duas parábolas nos vv. 29-30, as quais ajudam os discípulos a tomar consciência da proteção que gozam da parte de Deus. Se o Pai do Céu está atento a um passarinho, o animal de valor mais baixo no mercado, não permitindo que morra, sem sua expressa vontade, quanto mais um discípulo de Jesus! Se nem um cabelo cai de nossa cabeça sem o expresso consentimento do Pai, tanto mais um discípulo. O cabelo era considerado o menor e mais inútil elemento do corpo humano e, mesmo assim, contado pelo Pai. A confiança na providência de Deus é o que encoraja o discípulo no decorrer da missão.

“Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus” (v. 32-33). Para viver a missão é preciso ter a coragem e a coerência de viver. O testemunho corajoso do discípulo diante dos homens terá como contrapartida o testemunho de Jesus, a seu favor, diante do Pai. Pelo contrário, quem se deixa levar pelo medo e renega o Senhor será renegado por Jesus, diante do Pai, por ocasião do juízo.

Declarar-se a favor de Jesus significa ser no mundo sinal da sua própria presença; indignando-se ao contemplar pessoas abandonadas e sofridas, e buscar soluções transformadoras; é agir com misericórdia diante do sofrimento das pessoas, denunciando as injustiças e todos os impedimentos ao florescer do Reino dos Céus. Negá-lo não é deixar de proclamar uma fórmula de fé, mas deixar de viver seu programa de vida expresso nas bem-aventuranças (CORNÉLIO, F, Homilia dominical. in. Porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu - SP

sábado, 13 de junho de 2020

HOMILIA PARA O XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 9,36 – 10,8:



A Liturgia do décimo primeiro domingo do tempo comum, nos reinsere na leitura do Evangelho segundo Mateus, a partir do final do capítulo nono, o qual serve de dobradiça para o capítulo décimo, no qual o evangelista concentra todo o assim chamado “Discurso Missionário”.

O Evangelho segundo Mateus é composto de cinco discursos, os quais são as catequeses do evangelista para a sua comunidade, que se encontra em crise de fé e de identidade. Através destes ensinamentos recuperados pelo catequista bíblico diretamente da pregação de Jesus, a comunidade vai discernindo sua experiência com o Ressuscitado, e dando o passo no discipulado. O Discurso Missionário (Mt 10 – 11,1), compõe, juntamente com o Discurso Inaugural (Mt 5 – 7), o Discurso em Parábolas (Mt 13), o Discurso comunitário (Mt 18) e o Discurso escatológico (Mt 24 -25), o ensinamento essencial de Jesus para o discípulo do Reino. Ora, a intenção do evangelho de Mateus é o de fazer discípulos de Jesus entre todas as nações.

Desde o Discurso inaugural de Jesus, o sermão da Montanha (Mt 5 – 7), Mateus tratou de apresentar a Jesus como novo Moisés, intérprete da Palavra de Deus ao novo povo de Israel, e, assim, o Messias por Palavras. Agora, no capítulo dez em diante, Jesus será confirmado como Messias, não só por palavras, mas por obras.

Faz parte da pedagogia teológica de Mateus, as seguintes categorias: multidão, discípulo, apóstolo (missionário). A multidão é aquela grande massa que vai até Jesus por conta daquilo que ele realiza; se seduz somente por aquilo que Ele faz. Todavia, não se compromete com seu estilo de vida e com seu ensinamento. O grupo dos discípulos é formado por aqueles que ouviram as Palavras e aderiram ao modo de vida do Senhor, e, por isso, saíram do meio da multidão; romperam com ela, para fazerem uma experiência existencial e profunda com Jesus. O discípulo, após ter feito experiência com Jesus, e ter visto, sentido, comprovado por onde passou a vida do Mestre, pode, então, tornar-se apóstolo, enviado, missionário do Reino. No entanto, este esquema não é definitivo, uma vez que o discípulo ou apóstolo sempre corre o risco de retornar para a multidão, quando não vive fielmente segundo a vida de Jesus. Por isso, o discípulo deve carregar consigo sempre a disponibilidade de ser um missionário, e não deve esquecer-se jamais de sua condição de discípulo. A dinâmica existente neste discurso missionário, que começamos a ler neste XI Domingo do tempo ordinário, apresenta-nos este esquema ao longo de sua leitura.

Considerações feitas, podemos mergulhar no horizonte do texto. A conclusão do nono capítulo nos informa a respeito de um sentimento de Jesus diante da multidão, que parecia ovelha sem pastor, cansada e abatida (v.36). Ele sentiu compaixão dela. A compaixão / misericórdia na bíblia, já refletimos, não é um sentimento apiedado ou adocicado, mas uma atitude operativa em favor de quem sofre. É a capacidade de colocar-se no lugar do outro, porque o sofrimento daquele faz remexer as vísceras. Compaixão é traduzido do hebraico Rahamim (lit. visceras), cuja raiz provém de Hesed (amor/misericórdia). Jesus extravasa este amor entranhado de Deus pela humanidade sofredora através de sua práxis existencial e salvífica.

Jesus vê o povo deixado à própria sorte e sente compaixão, ao constatar que está cansado e prostrado como um rebanho sem pastor (Ez 34; Jr 23,1-4; SI 23[22]). Os mestres da Lei não se interessavam pela multidão de gente simples da Galileia, considerada, com desprezo, povo da terra. E então, faz uma constatação e uma recomendação em forma de parábola: “A colheita é imensa, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da plantação que envie mais trabalhadores para a colheita”. Com isso, fica preparado o ambiente para o discurso missionário, que vem a seguir (cf. VITORIO, 2017, p.67).

Assim, o “discurso missionário” provém da compaixão de Jesus ao ver a gente simples semelhantes a “ovelhas sem pastor”. Os discípulos são constituídos apóstolos com a mesma missão de proclamar o evangelho do Reino e curar os enfermos, como acontece com Jesus. O ideal do discípulo é ser como o Mestre.

Por isso, chama para mais perto de si, doze homens. E os constitui como enviados (apóstolos) Seu. Os discípulos são constituídos na condição de apóstolos. É a primeira vez que o evangelista usa o termo Apóstolo em seu Evangelho. Ele ocorrerá novamente quando do envio definitivo em Mt 28,16, por parte de Jesus. Em relação ao número doze, ele evoca a totalidade de Israel, simbolizado pelas doze tribos. Mas Jesus extrapola esta mentalidade, e vê naqueles homens a semente do novo e verdadeiro Israel, mas que deve expandir-se a todas as nações.

Jesus lhes dá autoridade. Esta é a melhor tradução para este dito do evangelista “Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade”. Mateus toca no tema da autoridade de Jesus (gr. Exousia). Esta não significa a faculdade de mandar e desmandar. A autoridade / exousia de Jesus consiste na missão que lhe foi confiada pelo Pai. Ela encontra-se na coerência entre seu agir e falar. Jesus vive o que anuncia e anuncia vivendo. Esta autoridade, que outra coisa não é que viver conforme a vida, Palavra e obra do mestre, Ele a comunica aos discípulos. Assim, transfere para eles o poder recebido do Pai. Eles deverão continuar a missão de Jesus.

O grupo é encabeçado por Pedro, e segue-se a lista dos outros onze (v.2-4). Este discípulo virá sempre como um porta-voz e representante do grupo. Nas narrativas seguintes ele sempre aparecerá como primeiro. A leitura do conjunto destas cenas permite reconstruir sua caminhada discipular, feita de altos e baixos, como acontece com os discípulos e as discípulas de todos os tempos. Pedro serve de modelo para o discípulo de todos os tempos (cf. VITORIO, 2017, p.69).

Jesus lhes dá uma recomendação, que a olhos superficiais parece contraditória a toda sua mensagem. Esta orientação de não ir aos samaritanos, nem onde moram os pagãos, precisa ser bem compreendida. Não se trata da exclusão deles. E a orientação seguinte, no v.6, explicita esta constatação: “Ide, antes (lit. primeiramente) às ovelhas perdidas da casa de Israel”. O adverbio “antes / primeiro” (gr. Μαλλον) indica precedência e não exclusividade ou exclusão.

Jesus privilegia o povo judeu, mas não lhe dá exclusividade. Os pagãos, também, têm o direito de ser convidados para participar do Reino. A missão junto a Israel (particularidade) serve de trampolim para a missão junto aos pagãos (universalidade). A Ressurreição de Jesus marca a abertura da Igreja para a universalidade da missão (Mt 28,19). A ação dos discípulos consistirá em proclamar que o Reino dos Céus se aproxima (Mt 4,17), bem como curar os enfermos, ressuscitar os mortos, limpar os leprosos, expulsar os demônios. Portanto, têm como tarefa refazer o caminho de Jesus, Messias, por palavras e por obras. Um traço característico da ação do discípulo enviado é a gratuidade. Já que receberam tudo de graça, também de graça devem dar. (cf. VITORIO, 2017, p.70).

O discurso missionário é endereçado a todos nós, os discípulos e discípulas (missionários) de todos os tempos e lugares. Por isso, diante do texto que funciona como um espelho para a nossa vida, podemos nos perguntar: 1) diante da proposta de Jesus, em que categoria me encontro: ainda em meio à multidão (mais um no meio dela); ou no grupo dos discípulos, que escutam e aderem à Palavra de Deus em Jesus, e, portanto, vão se configurando ao discipulado-missionário? 2) Como temos vivido nosso discipulado-missionário: com aquele senso de privilégio e exclusivismo, concebendo-nos como os tais e já salvos; ou temos exercido a missão na disponibilidade e no serviço a todos, indistintamente? 3) Somos comunidade em saída e servidora ou apenas um grupo exclusivos de amigos, ou, pior ainda, um gueto bem fechado e excludente?

O Evangelho de Cristo é a nossa medida. Ele será a última palavra em relação a cada um de nós e nos fará discernir se ainda estamos na multidão ou no discipulado-missionário. Mas é bem verdade que ele sempre nos dará a oportunidade de refazermos o trajeto, sempre mais avante.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP

sábado, 6 de junho de 2020

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Jo 3,16-18:



Celebra-se em toda a Igreja a solenidade da Santíssima Trindade, ao interno do tempo comum, já retomado após Pentecostes. No entanto, a liturgia ainda propõe a leitura do Quarto Evangelho. A perícope oferecida é a que se encontra no capítulo três do Evangelho segundo João. O presente texto, Jo 3,16-18, nos faz mergulhar na solenidade de hoje.

O evangelista João situa o capítulo 3 de sua obra, imediatamente às palavras (episódio) contra o templo (Jo 2,13-25), ou seja, durante os dias da pascoa dos judeus. Naquele episódio, Jesus apontava para a novidade escatológica que ele mesmo trazia, em nome de Deus, a partir de si mesmo: seu corpo (templo) lugar da manifestação da glória de Deus, simbolizado pela purificação-superação do templo, feita por ele. A novidade da presença de Deus em seu Cristo, Jesus de Nazaré, e não mais no sistema levítico-cultual da tradição judaica. É neste capítulo que, pela primeira e única vez, aparece a temática acerca do Reino de Deus, que depois é substituído pelo conceito Vida ou Vida Eterna.

João traz, nesta narrativa, uma nova situação: um diálogo com um judeu importante, de nome Nicodemos. A temática apresentada neste diálogo é muito rica: desde o entusiasmo de Nicodemos pelos sinais realizados por Jesus, passando pela novidade das coisas do alto (novo nascimento, 3,1-15), culminando numa homilia, por parte do evangelista (que esquece um pouco seu papel de narrador), acerca do dom da salvação (3,16-21). Nossa reflexão, aborda esta parte do diálogo com o fariseu Nicodemos.

Importante para nós é uma nota do evangelista: o diálogo entre Jesus e o líder judeu se dá na noite. João faz questão de informar esta particularidade por dois motivos concernentes ao seu público. 1º) É da pedagogia do Quarto Evangelho apresentar, em tons simbólicos (e mistagógicos, como que uma catequese pós-batismal para os já iniciados na fé) o contraste entre Luz e Treva. Nesta hora (de treva) do mundo e da história, Jesus é apresentado para a comunidade cristã e para o mundo como a Luz. 2º) mostrar Nicodemos como uma pessoa que está em vias de tomar uma decisão pró-Jesus, mas que ainda não tomou, e por isso vai “de noite”, para não se comprometer com Jesus diante de seus colegas judeus.

Ora, o evangelho joanino é conhecido como o evangelho da decisão: o evangelho (que serve para o discernimento) para aqueles e aquelas que estão no processo da tomada de decisão pró ou contra Jesus, principalmente dentro do contexto daqueles anos 90, em que o autor concebe sua obra. Um momento de crise de fé das comunidades cristãs. Diante da crise se opta pela fidelidade (adesão) à Jesus de Nazaré (como revelador pleno da Glória de Deus e Vida do mundo) ou abandona-se a fé? Acolhe-se o Dom de Deus em Jesus, Luz do mundo, ou recusa-lo? Eis o sentido da segunda intenção do evangelista ao situar a conversa “pela noite”. Nesse sentido, pode-se identificar a Nicodemos como um símbolo do candidato / iniciado na fé cristã.

Mais uma consideração acerca da natureza do Quarto Evangelho se faz necessária. O Evangelho de João, quando fora escrito trazia como uma de suas temáticas a superação das instituições do Antigo Testamento, principalmente de todo o sistema levítico-cultual de Israel (Templo, sacrifícios ou holocaustos, sacerdócio judaico). Este chefe dos judeus está inserido neste contexto das tradições e sistema religioso. Ele é, pois, a metáfora do velho que precisa ser superado; elevado a um novo sentido ou mesmo abolido.

Nicodemos é um fariseu, e, enquanto tal, faz parte dos que pensam e concebem ideologicamente a manifestação do Messias e de Deus como sendo ocasião do juízo e da condenação para os pecadores. Mas Jesus lhes revela uma face diferente do Deus de Israel, a quem chama de Pai. Trata-se, portanto, de uma novidade: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (v.16). Jesus se declara como a expressão do amor de Deus pela humanidade. Deus expressa seu amor dando seu Filho. Crer, na bíblia, não significa dar adesão à uma doutrina, mas a uma pessoa. É uma experiência existencial com uma pessoa e não com uma ideia. Note-se que, pela segunda vez neste capítulo aparece o tema da vida eterna, muito caro ao evangelista. Os fariseus pensavam-na como um prêmio a receber no futuro, a partir dos méritos e do cumprimento das prescrições levíticas e rituais, observando estritamente a lei mosaica. Para Jesus, ao contrário, é uma condição na vida presente. O termo “vida eterna” não pode ser compreendido a partir da duração indefinida da vida. Mas pela qualidade de uma vida que se torna indestrutível.

Os vv.16-18 apresentam, ainda, a novidade escatológica inaugurada através de Jesus. João substitui o termo “Filho do Homem” por Filho Unigênito (traduzido mais familiarmente por único (yahid), “o imensamente querido”, como foi Isaac para Abraão). O autor do Quarto Evangelho pretende mostrar a profundidade do mistério que está sendo evocado. Deus nos amou tanto, que nos deu seu filho unigênito (o seu imensamente querido), para nos salvar, e não para condenar. Uma constatação importante: “Deus deu seu Filho...”: o verbo usado não é “entregou”, mas “doou”! Deus não enviou Jesus especificamente para sofrer, não o entregou para que pagasse com seu sangue os nossos pecados. Deus não é um sanguinário que quer ser pago com sangue, nem com sofrimentos ou mortificações.

A verdade é que Jesus é o “dom” de Deus para manifestar seu amor e sua graça. Essa vida, pautada pela ótica e dinâmica do Amor e da Fidelidade é o que o fará ser fiel a Deus e ao Reino, até as últimas consequências. Deus, em Jesus, só nos quis mostrar em quê consiste o Amor e a Fidelidade.

O v.18 aprofunda o sentido do verbo “julgar/condenar” (v.17). Aquele que aceita esse Dom, quem na fé adere a Jesus, não é condenado por Ele. Mas quem não crê, já condenou a si mesmo. Isso, se realmente conhece a Jesus. João não está falando de pessoas que nunca ouviram falar de Jesus (quer seja naquela época ou hoje). Mas se dirige àqueles que já conhecem a mensagem cristã. É como que se lançasse a pergunta “vocês comprometem as suas vidas a este Jesus que vocês conheceram como Dom de Amor de Deus?” O Quarto Evangelista dirige esta pergunta àqueles que perceberam o valor vital de Jesus e nem mesmo assim o querem aceitar. É a estes que é dirigido o julgamento e autocondenação.

Para quem despreza esse dom, a vinda de Jesus ao mundo como luz significa julgamento (cf. 9,41). Fogem da Luz, preferindo ficar nas trevas, e por isso não aguentam a Luz. Quem “pratica a verdade” e age com lealdade em relação a Deus e aos irmãos, esse aproxima-se da luz que é Jesus. Suas obras são “feitas em Deus”, sua prática é solidária com a obra de Deus. “Praticar a verdade” significa agir segundo a verdade, o reto proceder que Deus, de diversas maneiras, nos dá a conhecer, especialmente na própria prática de Jesus (KONINGS, 2005, p.117-118).

Deus Uno e trino se dá a conhecer através de Jesus de Nazaré. E é sob o mistério do amor-doação, comunhão e unidade que O Deus uno e trino pauta o seu viver desde o interno de sua vida divina. Esta vida, num mesmo mistério de amor é doada pela Trindade Santa, e quem a revela é Jesus, no Espírito.

Da vida da Trindade somos todos chamados a participar através do Batismo recebido, o qual nos dá o Dom do Espírito, que habilita a chamar Deus de Pai e Jesus de Senhor. Assim, o Espírito nos garante acesso a vida de Jesus e do Pai, porque nos leva para dentro de sua relação de comunhão e amor, para vivermos segundo a vida do mesmo Filho, inscrita em nós pelo Espírito. Ou seja, para vivermos uma vida segundo o modelo da Trindade, em amor, comunhão, doação e unidade.

Diante do espelho do texto, emergem algumas perguntas. 1) Com quais personagens nos identificamos: com Nicodemos, que ainda não fez sua opção/decisão por Jesus, ou por aqueles que aderiram ao Dom de Deus, em Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo? 2) Temos acolhido, de fato, a Jesus de Nazaré como Dom por excelência de Deus em nossas vidas? 3) Em nosso discipulado-seguimento a Jesus, em quais horas de nossas vidas nos dirigimos à Jesus para ter com ele, durante a noite (na treva da escuridão, da indecisão, do descompromisso, do medo, da rejeição ao seu projeto) ou na hora da Luz (da decisão, da verdade, da fidelidade e do Amor a ele ao irmão)?

Habitados que fomos pela Trindade, somos chamados a irradiar, como discípulos-missionários, e, enquanto comunidade, a vida e ação do Deus Uno e Trino.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 30 de maio de 2020

HOMILIA DE PENTECOSTES – Jo 20,19-23 (ANO A):




O tempo pascal chega a sua plenitude com o a solenidade de Pentecostes. O Mistério Pascal do Senhor, que compreendem os eventos de sua paixão, morte e ressurreição, engloba a ascensão e o Pentecostes. Cumprindo sua promessa, o Senhor não nos deixa sozinhos. Envia seu Espírito para performar a vida dos discípulos e discípulas de todos os tempos e lugares, inscrevendo (escrevendo a partir de dentro) neles a Sua vida.

O Pentecostes era uma das três maiores festas do calendário litúrgico judaico, juntamente com as festas da páscoa e das tendas. Na Bíblia hebraica é chamada de “festa das semanas”, pois contavam-se sete semanas após a páscoa, mais um dia, o que totalizava cinquenta dias. Por isso, ganhou o nome de “pentecostes” (em grego: πεντηκοστή – pentecoste) a partir da dominação grega, cujo significado é simplesmente quinquagésimo dia (cf. Tb 2,1; 2Mc 12,32).

Como todas as festas judaicas, também pentecostes tem suas origens ligadas à vida agrícola do povo; era a festa da colheita. Os peregrinos iam a Jerusalém agradecer pela colheita, levando os melhores grãos e frutos da terra como oferta, em gratidão a Deus. Com o passar do tempo, ela foi perdendo sua relação com a agricultura, e adquiriu um novo significado, com uma conotação mais religiosa. O motivo da celebração passou, então, a ser o agradecimento a Deus pelo dom da Lei ao seu povo. Na época de Jesus e dos apóstolos, esse novo sentido já estava consolidado: os judeus de todas as partes do mundo, conforme as condições, iam a Jerusalém, para agradecer a Deus pelo dom da Lei dada através de Moisés (CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in. Porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

Lucas prefere coincidir o conferimento do Espírito de Jesus à comunidade dos discípulos com a cronologia histórica da festa judaica do Pentecostes, cinquenta dias após a festa da páscoa. O autor do terceiro evangelho e dos Atos dos Apóstolos, se serve desse contexto como artifício literário e teológico, para ensinar às suas comunidades que a nova lei é o Espírito Santo. Para permanecer fiel a Jesus e ao seu Evangelho, a comunidade cristã já não necessita das prescrições da Lei de Moisés, deve apenas estar sensível e aberta aos dons do Espírito Santo. Conforme vislumbrado na primeira leitura desta solenidade.

Diversamente de João, que faz coincidir o dia da ressurreição de Jesus com o ato da doação de Seu Espírito aos discípulos, símbolo da comunidade que vai sendo ressuscitada paulatinamente, na medida em que vai compreendendo e relendo a vida e a missão do Senhor à luz de sua ressurreição, pautando-se naquele esquema que já nos é conhecido, a saber, a superação das instituições judaicas e levítico-cultuais a partir de Jesus de Nazaré e de sua obra. Ora, a finalidade do quarto evangelista é muito clara: enquanto os hebreus celebravam o dom da Lei, a comunidade cristã celebra o dom do Espírito. Com Jesus não existe mais uma lei externa ao homem a ser observada, mas uma força e dinâmica interna a acolher que irradia um dinamismo de vida e de amor. Este é o dom do Espírito. Agora podemos adentrar no horizonte do texto.

João situa o leitor no tempo e no espaço, “Ao anoitecer daquele mesmo dia (v.19)”. A narrativa insere-se na cronologia das cenas anteriores. O primeiro dia. Note-se, no entanto, que já não se trata do amanhecer do primeiro dia, após o sábado, como foi descrito no começo da seção narrativa. Aquele indicativo temporal servia para ilustrar a condição da comunidade dos discípulos: ela não havia conseguido desvencilhar-se ainda dos costumes judaicos do repouso sabático e da Lei, e, portanto, não desfrutava da realidade da ressurreição.

A partir deste novo indicativo temporal (ao anoitecer ou “ao entardecer”), João dá mostras de que a comunidade está despertando de seu sono de morte. Está fazendo, processualmente, a experiência da ressurreição. Sinal, também, de que ela já estava dedicando aquele “primeiro dia” para celebrar a Memória do Senhor Ressuscitado. Ocorre, igualmente, a transição de cenário. O espaço já não é o mesmo; a comunidade dos discípulos não se situa mais no sepulcro, mas noutro espaço, o da própria comunidade. Isto já é um sinal de que ela venceu o sepulcro (cf. KONINGS, 2005, p. 354).

“Estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam” (v.1b), mostra que, mesmo a comunidade tendo dado os passos no processo da experiência da ressurreição, ainda estava bloqueada pelo medo. Ora, Na Teologia Bíblica, o Medo é sempre contrário à Fé. Esta condição amedrontada acaba sendo incompatível com o desenlace da trajetória de Jesus (cf. 16,33). O medo preocupa, impede a missão; fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns. Acena também, para a ausência do Senhor.

Eis, que Jesus põe-se no meio deles. É importante a informação dada pelo evangelista, pois ela indica que na comunidade do Ressuscitado (e na comunidade joanina) não existe supremacia nem relações piramidais. Ela é uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: Jesus. Na Memória do Ressuscitado celebrada pela comunidade ninguém é maior e todos estão referenciados – numa circularidade – ao Senhor.

Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado. Encontrando-se com os discípulos (no meio deles), o Ressuscitado realiza neles o processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada (CORNÉLIO, F. Homilia Dominical in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

“A paz esteja convosco (ειρηνη υμιν, Eiréne ymín)”. À primeira vista, isso parece a saudação comum do ambiente bíblico. Mas esta saudação se repete por três vezes, o que indica completude, e, ao mesmo tempo a plenitude do ser humano. O número três, na bíblia indica plenitude. Por isso, esta primeira palavra dirigida por Jesus aos seus possui conotações de manifestação da realidade divina. A Paz, no ambiente bíblico, alude à plenitude da Benção (ou garantia) dos bens no tempo do Messias. O Shalom (שָׁלוֹם) bíblico remete ao ambiente dos sacrifícios cultuais (Shelamim), cujo pagamento (o Shalom) que o povo recebe em virtude daquele sacrifício é a Paz.  Aqui, parece implicar também a realização das promessas anunciadas por Jesus na hora da despedida: os seus haviam de revê-lo (14,19; 16,16s) com alegria (16,21s.24; cf. 15,11), e ele lhes daria a sua paz (14,27). A paz e a alegria contrastam com o medo mencionado no início. O Jesus joanino, ao desejar a paz pretende ensinar que através do Dom de sua vida vivida, em amor até o fim, tudo encontra-se “pago”, “quitado”. As promessas feitas encontram-se cumpridas, ninguém deve mais nada (cf. KONINGS, 2005, p. 355).

Jesus mostra-lhes, então, as mãos e o lado marcados e feridos pelos pregos e pela lança. É intenção de João mostrar a continuidade entre Jesus Crucificado e Ressuscitado. Sua condição ressuscitada traz as marcas de sua Paixão. E os principais traços característicos da identidade de Jesus são o serviço e o amor. As mãos são sinais do serviço, do agir, e o “lado”, que representa o coração é o sinal do amor.

“Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (v. 21). A missão de Jesus estava fundamentada na tarefa recebida do Pai; a deles, na incumbência de Jesus, que constitui com o Pai uma unidade. Aqui, encontramos três termos importantes: os verbos apostellein e pempein (enviar, ἀποστέλλω; mas aqui é απεσταλκεν (apestalkén), cujo tempo verbal encontra-se no perfeito, que indica ação contínua) e a conjunção kathôs (καθως, como). Os verbos e a conjunção têm a intenção de exprimir semelhança e causalidade, isto é, a missão dos discípulos é continuação daquela que Jesus recebeu do Pai e encontra nela seu modelo e origem.

A ressurreição de Jesus é uma ressignificação na vida da Comunidade dos discípulos.  Ao enviá-los, ele sopra sobre eles o seu Espírito. O gesto de soprar recorda a narrativa da criação em Gn 2,7, onde Deus sopra nas narinas do vivente seu sopro de vida. O Gesto de Jesus remete à Criação, e por isso, na Ressurreição de Jesus acontece uma nova Criação. Ao receber o Espírito Santo, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. O verbo soprar (em grego: έμφυσάω – emfysáo) significa doação de vida. No seu gesto, Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira. Ao receber o Espírito, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. Não é um simples carisma que recebem, algo que vem acrescentar-se à sua vida. É sopro divino; vida nova! É uma nova criação (cf. Sl 104,30). Sua vida tem outra força que antes. A ressurreição e o dom de Seu Espírito é, portanto, uma recriação através do Espírito do Ressuscitado.

“A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). O Espírito é dado à comunidade para que ela continue fazendo a Obra de Jesus. Essa missão é: tirar o pecado do mundo. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do Ressuscitado a todas as pessoas, de todos os lugares em todos os tempos. A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o Ressuscitado com a sua paz.

A comunidade tem a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo (cf. Jo 1,29). Os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo.

A comunidade cristã deve ser luz e irradiar esta luz de vida e amor para a humanidade, de acordo com a vida e o amor de Jesus. Todos aqueles que veem, recebem e assimilam a vida, o amor e o testemunho da comunidade e são atraídos pelo amor e pela vida de Jesus, refletido através da comunidade, tem o seu passado injusto cancelado. Aqueles que renegam este modo de vida e amor de Jesus irradiados pela comunidade permanecem nas traves e sobre o domínio do pecado. Mas os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade da vida e do testemunho da comunidade cristã.

Nesse sentido, o envio e o mandato que Jesus confere à comunidade não são para julgar ou condenar, mas oferecer a todas as pessoas uma proposta de plenitude de vida. Desta vida no Espírito de Jesus somos tornados participantes pelo batismo-crisma: fomos investidos pelo Espírito, que inscreve a letra de Cristo na página de nossa vida, para vivermos a própria vida do Senhor. O Espírito Santo inscreve (escreve a partir de dentro) Cristo em nós. A este Dom que o Senhor nos dá, chamamos Graça. A Graça é Cristo em nós através de seu Espírito, que nos faz filhos no Filho, a fim de vivermos como este mesmo Filho de Deus.

O texto nos questiona: 1) Estamos celebrando o Pentecostes. Já faz cinquenta dias que estamos envolvidos pela ressurreição do Senhor. Por isso, qual a nossa condição e predisposição interior: amedrontados e fechados, ou alegres e reedificados na Fé, pela virtude do Ressuscitado, que é seu Espírito em nós? 2) Nossas comunidades encontram-se ressuscitadas e animadas conforme o Espírito, ou seja, conseguem testemunhar Cristo Ressuscitado para o mundo, e, com isso, viver a missão confiada?

Pe. João Paulo Sillio
Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 23 de maio de 2020

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Mt 28,16-20




O tempo pascal encaminha-se para sua conclusão. A liturgia da Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor. A comunidade eclesial professa a plenitude da ressurreição do Senhor. O Senhor ressuscitado, ao retornar para o âmbito (esfera e mundo) de Deus leva consigo a natureza humana. Ele não volta sozinho para o Pai, mas leva a nossa humanidade com Ele e a reorienta para seu fim último e definitivo: a vida de Deus.

O final do evangelho de Mateus reúne cinco versículos, através dos quais o evangelista sintetiza toda a sua catequese. Interessante é que o catequista bíblico não narra a ascensão de Jesus, como fazem Lucas e Marcos (ainda que este seja um acréscimo ao final original do evangelho marcano). O evangelho de Mateus tem como temática a teologia do Emanuel. Jesus manifesta a presença de Deus-conosco. Desde o início de sua obra, o primeiro evangelista acena para esta vocação-missão de Jesus, a de ser o Emanuel: a presença de Deus no meio da humanidade.

A pericope que solenidade da Ascensão nos apresenta para a nossa meditação é a conclusão do Evangelho segundo Mateus. Apenas uma advertência acerca deste texto. Para compreendê-lo, se faz necessário lançar um olhar para toda a catequese mateana. O Primeiro Evangelho tem por finalidade “fazer discípulos-missionários todos os povos”. Mas para que o discípulo possa vivenciar a missão recebida por Jesus, ao final do Evangelho, deverá percorrer o caminho do discipulado. E não poderá furtar-se ao fato de que este discipulado-missionário é perpassado pela dinâmica da Cruz. Ora, a narrativa da paixão, morte e ressurreição de Jesus, na perspectiva de Mateus funciona como um dos eixos centrais de seu evangelho. O discípulo só poderá assumir a missão depois de percorrer a vida de Jesus e tê-la como seu modelo.

Compreendida esta peculiaridade do Evangelho segundo Mateus, por assim dizer, somos mergulhados no horizonte do texto. O contexto amplo é o da experiência da comunidade dos discípulos com o Senhor Ressuscitado. O contexto imediato é o do discurso de comissionamento/envio: Jesus Ressuscitado envia os onze para realizar o que ele já havia feito. Não se trata de um discurso de despedida, porque Jesus não se vai, mas permanece com eles.

“Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v.16). Os discípulos já não são Doze, mas onze. O número dos discípulos não foi reconstituído. Doze, na simbologia do AT aludia ao antigo Israel, que durante a pregação e missão de Jesus é chamado a se tornar o novo povo de Deus. De fato, doze representava o novo Israel visibilizado pelos discípulos de Jesus. Onze, significa que o Novo Israel não foi reconstituído ainda e, portanto, a mensagem de Jesus se torna universal. Destina-se para toda a humanidade. O indicativo da Galileia, mencionada por três vezes somente neste relato pascal, representa a ruptura com Jerusalém. Jesus não se manifesta ressuscitado na cidade santa, mas lá no lugar onde tudo começou. Uma oportunidade de releitura, ressignificação da vida e da história, e de retorno à experiência fontal com Deus, em Jesus.

Mateus informa aos seus leitores duas coisas importantes. Primeiro, o lugar onde os discípulos se encontram com Jesus: a montanha, na região da Galileia, que o Senhor mesmo lhes havia indicado. E é interessante que o evangelista usa o artigo definido “o” para indicar que não é qualquer monte. Mas Jesus não havia indicado nenhum monte. Por que Mateus faz isto? Por que os discípulos se dirigem para o monte? O significado não é topográfico, mas teológico. 

O Monte, na teologia bíblica é mais do que uma localização geográfica, mas um lugar teológico, ou seja, um lugar para se fazer experiência com Deus. É o lugar da manifestação (teofania) de YHWH. No AT Deus se manifestara muitas vezes sobre a montanha. A Lei foi dada a Moisés na montanha do Sinai. 

O monte, neste evangelho é o monte das bem-aventuranças, onde Jesus inaugurou sua mensagem de salvação, as bem-aventuranças. A versão mateana apresenta oito ditos de Jesus. O número oito é o número da ressurreição do Senhor: o primeiro dia da semana, depois do sábado, era, na verdade o oitavo dia, que na tradição das comunidade cristãs foi reinterpretado como o Primeiro dia, o dia da nova criação realizada por Deus através da obra de Jesus, que culmina na ressurreição.

O evangelista diz que os discípulos sobem a montanha. Ele pretende ensinar à sua comunidade que a experiência com Jesus Ressuscitado não é uma realidade exclusiva de um determinado grupo, num determinado lugar. Não se trata de um privilegio concedido dois mil anos atrás à um pequeno grupo. Mas uma oportunidade para todos, de todos os tempos e lugares. Basta situar-se sobre o monte das bem-aventuranças, isto é, acolher a sua mensagem de salvação que foi formulada e assumida nas bem-aventuranças.

O autor informa que, ao verem o Senhor, os discípulos se prostraram. Aqui, o verbo ver não indica uma capacidade física e biológica, mas uma experiência que se dá desde a profundidade do coração do homem. Mateus relata a ainda a o gesto da prostração. Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus. Aqui, o evangelista emprega o mesmo verbo que tinha usado para indicar a atitude dos magos quando visitaram Jesus recém-nascido em Belém (cf. Mt 2,2): prostrar-se em adoração (gr. proskinêo). O verbo indica adoração e sujeição a alguém.

Mas o v.17 informa que alguns duvidavam. Mas de que coisa duvidam? Não de que Jesus tenha ressuscitado, pois o veem. Nem que Ele esteja na condição divina, uma vez que se prostram. Compreendamos: o evangelista usou o verbo duvidar somente uma vez, na narrativa da caminhada sobre as águas, que indica a condição e a realidade divina de Jesus, onde Pedro pede-Lhe que conceda também a si caminhar sobre as águas, isto é, obter a condição divina. Naquela ocasião Jesus consente, mas no decorrer do caminho, o discípulo sucumbe e começa a afundar ao se dar conta das dificuldades. Pensava ele que a condição divina seria um dom concedido por Deus, e não sabia por quais dificuldades passaria. Naquela ocasião, Jesus o reprovou, chamando-o de homem de pouca fé. E o questionava: “Por que duvidastes?”. Então, esta dúvida que o evangelista menciona toca a consciência dos discípulos porque agora eles sabem por quais dificuldades passou Jesus, a morte infame do mestre, como desprezado e amaldiçoado por ter morrido suspenso na cruz, e, por isso, duvidam de si mesmos. São convidados a assumirem a condição divina, mas não sabem se serão capazes de afrontarem a perseguição e, também, a morte. Eis, porque duvidam.

A dúvida não faz mal à comunidade. Mesmo que Jesus os tenha reprovado na atitude de duvidar. Podemos dizer que o Jesus mateano apresenta uma característica necessária para a sua comunidade. Para a solidez da fé, a dúvida se faz necessária, pois o seu antídoto não é a certeza, mas a atitude do amor. Portanto, quanto mais se duvida, mais necessidade se tem de amar. Ora, o amor, assim como a fé, é uma aposta, uma decisão. Quanto maiores forem as dúvidas, tanto maior a necessidade de apostar, de decidir-se. De amar. Podemos dizer que a dúvida e a fé são companheiras inseparáveis na vida da comunidade, porque engendram ao seu interno a capacidade de amar.

Jesus, então, diz-lhes: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”. Aqui, o evangelista faz eco a Daniel, que retrata a personagem “Filho do Homem”, o qual recebeu de Deus todo o poder, no céu e na terra. Mas o poder/autoridade que Jesus recebe não é para servir-se a si mesmo, mas para colocar-se à serviço de todos. E ao interior da comunidade de Mateus, a autoridade é a de Jesus, e não mais a do legalismo da lei mosaica.

Jesus continua: “ide e fazei discípulos meus todos os povos”. O evangelista resgata o imperativo de “Ide”. É uma ordem, um mandato. Que se destina a todos os povos (lit. todas as nações, que alude aos pagãos). Deteremos-nos um pouco sobre este dito de Jesus. “Fazer discípulos”, significa transmitir a todos (sem excessão) o novo modo de viver e de relacionar-se com Deus, através do modo de vida de Jesus. Batizar significa imergir, mergulhar, ou seja, inserir as pessoas na vida, na realidade mesma de Deus, é o que significa “em nome do Pai, do Filho e do Espírito”. A palavra “Nome” indica a realidade mais profunda e a identidade do ser. Ou seja, fazer experimentar a realidade profunda de Deus e de quem é Deus.

“ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v.20). Pela primeira vez aparece no evangelho de Mateus o termo mandamento, através da locução “tudo o que vos ordenei”. Jesus havia chamado seus discípulos para serem pescadores de homem. Pescar homens significa tirar da água, símbolo da morte, das situações nocivas e dar-lhes a vida. Jesus lhes indica como se tornar pescador de homens: imergindo-os no Espírito do Senhor, na realidade mais profunda do amor de Deus.

Os discípulos não são enviados a transmitir uma doutrina acerca de Deus, mas uma experiência pessoal, através do Amor e da prática da fraternidade indicadas pelas Bem-aventuranças, as quais foram assumidas pelo próprio Jesus. É importante enfatizar e insistir nisso: Jesus não envia apregoar doutrinas metafisicas. O Senhor envia sua comunidade de discípulos-missionários para que ela dê testemunho da experiência de ter sido mergulhada, imergida, entranhada (batizada) no íntimo da vida amorosa do Pai. As pessoas que se encontrarem e aderirem ao Evangelho de Jesus deverão fazer a experiência de imergir, mergulhar, entranhar-se em Deus mesmo, em seu Amor.

O evangelista pretende, com as últimas palavras de Jesus, “Estarei convosco todos os dias até que o tempo esteja pleno”, indicar uma qualidade da presença de Jesus, e não indicar um período cronológico ou determinado da presença. Jesus, na verdade, está assegurando à sua comunidade que se ela colocar em prática as bem-aventuranças, fazendo com que outros tenham igualmente acesso a elas e as pratiquem, fazendo experiência de Deus como fonte de vida e de Amor, Sua presença ao interno da comunidade será garantida. Mateus assume, novamente, o fio condutor de sua catequese, o tema do Emanuel, Deus-Conosco, realidade revelada por Jesus: através do dom de sua existência e missão, Deus está com a humanidade, caminha com ela. Deus está conosco.

O evangelista conclui seu evangelho com certa semelhança com o último livro da bíblia hebraica, 2Crônicas, com a ordem dada por Ciro, rei da Pérsia, ao povo de Israel para que retornasse e reconstruísse o Templo. Também Jesus envia os seus. Mas para irem, saírem, romperem com as mentalidades e as estruturas religiosas do judaísmo antigo, e não para construírem um templo. Porque, de acordo com a perspectiva de Mateus, o novo templo não será mais um templo estático, mas a própria comunidade Cristã, único e verdadeiro Santuário, por meio da qual se irradiam Amor, Misericórdia, Compaixão e a Ternura do Senhor.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP

sábado, 16 de maio de 2020

HOMILIA PARA O VI DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 14,15-21:




No tempo pascal, o discípulo (leitor-ouvinte) de Jesus é recolocado na pedagogia do Senhor ressuscitado. Neste quinto domingo do tempo pascal, a liturgia nos oferece como texto para nossa meditação, a continuidade do capítulo catorze do Quarto Evangelho, dos versículos 15 à 21.

O capítulo catorze encontra-se no segundo bloco do Evangelho de João, o Livro da Glória. O discípulo que trilhou os passos no seguimento à Jesus durante a primeira parte do evangelho joanino, contemplando os sinais que Ele realizava, os quais atestavam visibilizava a ação de Deus na história através de seu Filho, e, tendo feito a opção pela pessoa de Jesus, pode tomar parte da hora da glória de Jesus, que é a revelação da presença de Deus ao mundo a partir do crucificado.

Antes, porém, o discípulo é convidado a tomar parte do ensinamento de Jesus acerca do dom / entrega de si e da vida, e do mandamento do amor. Estes ensinamentos soam como que um discurso de despedida da parte de Jesus. O bloco literário que começou no capítulo catorze se estende até o dezesseis, e é conhecido como o “Testamento” de Jesus. Ora, o testamento consiste, em essência, naquele conjunto de bens e pertences mais preciosos que alguém pode deixar para quem se ama. Assim, o evangelista João concentra neste bloco de 14 – 16 o conjunto de ensinamentos importantes de Jesus: a explicitação do dom da própria vida e o mandamento do amor. Mas é verdade que Ele não deixa de alertar seus discípulos sobre as dificuldades de se viver este testamento, este modo de ser e de existir no mundo amparada pela força (dinamismo) do Espírito do Ressuscitado.

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (v.15), declara Jesus. Pela primeira vez no evangelho joanino, Ele toca no tema do amor, agora relacionado a si mesmo, o qual depois deverá se manifestar no amor aos outros. Ora, o gesto realizado por Jesus no lava-pés (Jo 13), tornou os discípulos capazes de assimilarem o seu amor, e de serem capazes de amar. O mandamento do qual ele se refere é único: “eu vos dou um novo mandamento: “que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei”. É o mandamento do amor. Ele é novo na medida que supera os demais. Novidade significa, aqui, últimidade, perfeição, meta. Interessante, o mandamento que Jesus se refere, ele o considera como seu. Não são os de Moisés.

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor” (v.16). O evangelista João usa um termo de difícil tradução. No original grego temos o termo Parakletos (gr. Παρακλητον), que tentou ser traduzida por consolador, não exprimindo ainda a profundidade da intenção e da tradução. É preferível a transliteração do termo. Parakletos significa “aquele que foi chamado em socorro”, “em defesa”; talvez a tradução mais acertada seria “socorredor”. Este termo é exclusivo do Quarto Evangelho. Atenção: Parakletos não é o nome do Espírito de Jesus, mas a sua função, isto é, aquilo que ele realiza: a ação de socorrer.

Jesus dá uma indicação importante e preciosa: “para que permaneça sempre convosco” (16b). O Espírito de Jesus, doado por Ele para socorrer os seus não é um dom passageiro ou temporário. Tampouco vem somente nos momentos de desespero ou de necessidade, quando invocado. Mas a Sua presença é permanente na comunidade. O amor de Deus não vai ao encontro do individuo e da comunidade quando estes necessitam, somente, mas está já ali. Os precede!

Jesus o chama de “Espírito da Verdade (gr. το πνευμα της αληθειας / tô pneuma thes aletheias) (v.17)”. Este Espírito faz conhecer a verdade sobre Deus, e sobre quem é Deus. Mas não se deve pensar na “verdade” como se ela fosse um conceito abstrato como a dos filósofos. Essa não é função do Espírito de Jesus, nem faz parte da intenção do autor do Quarto Evangelho. Este Espírito da Verdade revela quem é Deus: é amor que se doa e se mostra visível à humanidade. Um amor que está sempre em socorro e a favor do homem. Este é o Espírito da Verdade, que é o Espírito mesmo de Jesus, que revela o Pai e seu amor.

Todavia, diz Jesus, “o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece” (v.17b). O termo “mundo”, utilizado muitas vezes no Quarto Evangelho, se refere ao ambiente hostil e antagonista (opositor) à Jesus e suas Palavras. Nem Ele, nem o evangelista querem “demonizar” o mundo, como uma realidade maléfica e imperfeita. Mas alude aos sistemas injustos, e, em particular, ao poder religioso da época, o “mundo” das autoridades judaicas, que opõem-se firme e decididamente a Jesus. Em outras palavras, quando João se refere fala de “mundo” em caráter negativo, ele está se referindo à realidade e à situação hostil e opositora que Jesus e o discípulo podem (e vão) encontrar. Mas que devem ser iluminadas e convertidas a fim de que se reorientem ao fim último e definitivo que é o horizonte mesmo de Deus. Ora, a missão discípulo de Jesus, animado pelo Seu Espírito, se dá no mundo, na realidade.

Por que este “mundo” não pode receber o Espírito da Verdade? Porque, precisamente, o Espírito de Jesus revela o amor do Pai, que está sempre a favor do homem. O “mundo”, representado pelas instituições religiosas do tempo de Jesus e todo o sistema hostil à sua pessoa, pensam somente de acordo com suas próprias conveniências. Sustentam o bem e mal de acordo com suas próprias conveniências, e, por isso, não podem recebê-lo. Jesus insiste nesta permanência do Espírito da Verdade: “Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (v.17c). Como o Espírito desceu sobre Jesus e permaneceu Nele, assim o Espírito de Jesus permanecerá na Comunidade.

“Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (v.18). O órfão, no ambiente bíblico, é aquele que não goza de nenhuma proteção; que não tem ninguém que lhe possa vir aos cuidados. Jesus assegura que isso não acontecerá, reafirmando a sua presença em meio a comunidade. “Eu virei a vós” se torna, portanto, a segurança para o discípulo e para a discípula de que Sua morte não será uma ausência, mas presença; não será distanciamento, e, sim, proximidade.

“Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis” (v.19). Jesus não está falando da capacidade biológica / física do sentido da visão, mas da capacidade da percepção, que emerge da profundidade do coração do discípulo. O “ver” bíblico é, na verdade, a oportunidade e a capacidade que o discípulo tem de fazer a experiência com Deus.

Na afirmação “eu vivo e vós vivereis”, o evangelista usa um termo que se refere à vida que se vive para sempre: a vida inextinguível, do âmbito de Deus. Não se trata de uma vida biológica que precisa ser nutrida para crescer. Trata-se de outra vida, a interior, que para crescer necessita ser nutrida. Nesse sentido, aquele que reorienta a sua própria vida, dando-a como nutrimento aos outros, coloca-se em sintonia com Aquele que é o Vivente por excelência.

“Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós” (v.20). A quê dia Jesus se refere? Ao de sua morte. Para o catequista bíblico, Jesus antecipa aos seus o dom do Espírito no momento da entrega de sua vida nas mãos do Pai. O evangelista antecipa o que se desenvolverá nos capítulos seguintes acerca da comunhão plena entre Jesus e o Pai e Jesus e o discípulo e a comunidade. O que pretende dizer o autor do Quarto Evangelho para a sua comunidade? Na comunidade dos fiéis, Deus assume seu rosto humano, e, da sua parte, o homem e a comunidade assumem o rosto divino. Fazendo existir uma comunhão entre Deus e o homem. É um Deus que deseja ser acolhido na vida do indivíduo, de se fundir com ele, dilatando a sua capacidade de amar e tornando a mesma comunidade naquele espaço onde todos podem fazer aquela experiência de amor, de misericórdia e compaixão. A presença de Jesus no Pai e do Pai em Jesus se realiza também na vida dos discípulos, eliminando, assim, toda distância entre o humano e o divino. A comunidade cristã aberta ao Espírito da Verdade é, portanto, morada de Jesus e do Pai, tornando-se profeta capaz de expressar com sua vida aos fiéis, a verdadeira presença do Senhor.

“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (v. 21). Literalmente, o evangelista escreve “Quem tem os meus mandamentos”. Ora, os mandamentos de Jesus não são as imposições da lei antiga, ou normas externas ao homem. Mas é o Seu dinamismo vital interior, que, quando se manifestam liberam toda a sua força. A observância do mandamento de Jesus, o amor, não diminui o homem, antes o potencializa para a vida. É o que realiza o Espírito da Verdade, Espírito de Jesus, no fiel. A este Espírito que inscreve o amor – a grafia, a vida – de Cristo em nós, chamamos Graça.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu / SP.