sábado, 1 de agosto de 2026

REFLEXÃO PARA O XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21:


 

A liturgia do décimo oitavo domingo do tempo comum apresenta o capítulo catorze para a nossa meditação. Desenvolve-se, a partir de agora, no horizonte da catequese mateana, uma longa parte narrativa que culminará no capítulo dezoito. É da pedagogia do evangelista que, logo após um discurso de Jesus, siga-se uma parte narrativa a fim de mostrar a aplicabilidade do discurso/ensinamento. Nesse sentido, os capítulos 14 – 17 descrevem um caminho de fé e de compreensão dos discípulos e da Igreja, comunidade do Reino, diante das palavras do Senhor.

O contexto imediato do evangelho deste domingo é o martírio de João, o Batista, pelas mãos de Herodes. Fato que chega ao conhecimento de Jesus, e, como o próprio evangelista informa, provoca uma mudança de rumo em sua vida. Ele deve deixar a região da Judeia. Seguramente chegou à conclusão que sua vida corria perigo. Na intenção de Mateus, o martírio do profeta do Jordão é uma prolepse – antecipação literária e histórica – da morte de Cristo. “Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado” (v. 13a). Retira-se não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento de recolhimento. O lugar deserto e afastado seria ideal para isso, para rezar, refletir e, por que não, chorar também. Sentir as entranhas remexidas! É preciso, ainda, se acostumar com uma imagem assim de Jesus. Um homem que se deixa comover.

Novamente a sensibilidade de Jesus aparece no texto de hoje, mas, agora, por uma situação concreta: a situação de marginalização das pessoas. “Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (v. 14). A compaixão significa um amor visceral; um comover-se no mais profundo do ser – as vísceras ou entranhas – que resulta em ação concreta de libertação. Não se trata de um mero sentimento, mas de ação libertadora; é nisso que consiste a misericórdia de Deus, cuja expressão mais concreta é a própria pessoa de Jesus. Mateus, ao falar dos “doentes” emprega o termo grego aróstos (gr. άρρωστος), que abarca todo o tipo de enfermidade, não só as físicas. Uma das formas de enfermidade presentes na sociedade daquela época era a fome. O que se segue será uma resposta a esta situação.

A narrativa da “multiplicação” dos pães é comum aos quatro evangelhos. Isso indica a importância que o episódio teve para as primeiras comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e nem fantasiado; por isso, prefere-se chamá-lo de condivisão, ao invés de multiplicação, podendo acenar para um gesto mágico operado por Jesus, algo que não lhe agradava, pois esta compreensão poderia alimentar as imagens equivocadas acerca de si como messias. Por isso, rechaçava toda a mentalidade triunfalista e nacionalista que pudesse ser associada ao seu ministério.

O v.15 deve ser inquietante para o leitor: “Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: ‘Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” (v. 15). A noite já vem caindo; muita coisa já deve ter acontecido entre Jesus e a multidão. Muitos ensinamentos devem já ter sido compartilhado entre eles. Os discípulos pedem que Ele despeça o povo, para que possam também comprar comida. Uma falha grave! Não conseguem captar o sentido da vida e da missão do Senhor ainda. Não querem comprometer a vida com a do Mestre.

Jesus lhes dá uma ordem. O verbo está no imperativo precisamente porque se trata de uma lição que, depois de ter sido assimilada, precisa ser imediatamente colocada em prática. É como que se Ele verbalizasse, “se eu estou mostrando e fazendo isso diante de vossos olhos, é porque vocês devem fazer”. Por isso lhes diz: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (v. 16). Os discípulos são convidados a comprometer e empenhar a vida no processo de transformar a vida das pessoas. Dar de comer significa empoderar as pessoas, torná-las senhores e senhoras da própria vida e da história. Faz parte deste processo a dinâmica e perspectiva serviçal dos discípulos. Ora, o Senhor lhes estava ensinando a muito tempo; corrigia lhes a mentalidade acerca da ideia de messias que possuíam, embasada no domínio, no poder e na submissão, propondo-lhes a ótica e a perspectiva do serviço e do amor, que deveriam traduzir-se em cuidados e em atitudes fraternas para com os outros, gerando vida, promovendo a vida dos irmãos. De modo mais específico, à gente simples, aos excluídos, marginalizados.  

Os discípulos custam a compreender e, por isso, respondem: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa. Provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. Pão e peixe era comida comum do povo daquela região (Mt 7,9-10). Mateus articula bem a narrativa. O número sete, como resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade.

“Jesus disse: ‘Trazei-os aqui” (v. 18). O Senhor não se importa com a quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que tem. Aqui começa a ação transformadora e, ao mesmo tempo, a catequese: o problema começa a ser solucionado quando se coloca a disposição aquilo que se têm. É isso o que Jesus espera do discípulo e da comunidade. Quando cada um apresenta o seu pouco, então a realidade superabunda.

“Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (v. 19). Este versículo, por si só, é cheio de particularidades. Jesus toma tudo que os discípulos possuíam. Bendiz à Deus por tudo o que eles têm. “Erguer os olhos” significa a atitude da oração, enquanto relação com Deus. Ou seja, o Cristo deseja mostrar que o gesto que realizará a seguir brota da relação e da intimidade com o Pai, bem vivida e compreendida. Mateus revela a clareza que Jesus tem de que todas as suas atitudes brotam da intima relação com Deus. E reparte os pães e os peixes entre eles. Interessante, esta atitude deve ser absorvida primeiro pelos discípulos, depois continuada por eles e realizada em favor da multidão. Esta, assimila e repete os mesmos gestos de Jesus.

São os passos que a comunidade cristã não pode deixar de dar. Sobretudo onde e quando existem pessoas famintas de pão. É interessante perceber que os discípulos recebem a responsabilidade de curar a fome. Ora, esta era também uma doença, segundo o panorama bíblico, que devia ser curada, conforme ensinou Jesus, ao ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. Mas tudo deve começar e passar por Jesus. Primeiro, devem apresentar a ele o que se têm; nesse gesto está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado à partilha. Não se pode deixar de considerar que esta narrativa também é uma alusão vida celebrativa das primeiras comunidades através da celebração eucarística, memorial da páscoa do Senhor. Por isso, a comunidade dos discípulos, ao partir do pão/corpo de Cristo precisa partir o pão material com todos aqueles que necessitam. É o que Mateus quer dizer com a nota que ele faz, “a multidão era grande, cerca de cinco mil pessoas, sem contar mulheres e crianças”. Estas duas categorias não eram consideradas na sociedade palestinense, e também são símbolos para os marginalizados. Com essa informação, o evangelista quer indicar para a sua comunidade que, se ela pretende ser continuadora dos gestos de Jesus, deve ser também sinal de inclusão, serviço e partilha.

“Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (v. 20). A compaixão de Jesus o leva a curar as enfermidades do povo e a saciar lhe a fome. Mais ainda, provoca nos discípulos (símbolos da comunidade) a predisposição de colocar em comum tudo o que possuíam, gesto que motiva também outras pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, a ponto de deixar a todos satisfeitos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, tem alimento para todos. Essa não deve ser um ato isolado, mas uma práxis da comunidade.

Os ensinamentos que Jesus pretende dar aos discípulos e que Mateus recolhe para a sua comunidade são: 1) A comunidade, se ela é, de fato, comunidade dos discípulos de Jesus – comunidade do Reino – não pode descomprometer-se de sua missão, que é a de ser servidora e geradora de vida, repartindo. Mesmo quando ela não tem condições. Ela não deve esperar ter as condições necessárias para viver o Reino, mas promover desde dentro as iniciativas para vive-lo; vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. 2) A abundância é gerada quando não se considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. 3) A comunidade dos discípulos e das discípulas do Reino é autêntica quando se abre a todos, sem distinção. Estes são os distintivos da comunidade que assimilou os gestos e a vida de Jesus.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco e reitor da paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.