sábado, 22 de agosto de 2026

REFLEXÃO PARA O XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 16,13-20:

 


O texto proposto para a meditação deste vigésimo primeiro domingo do tempo comum, é retirado do capítulo dezesseis do evangelho segundo Mateus. A perícope começa no v.13. mas ela deve ser compreendida em seu contexto amplo, a partir de duas situações que servem de estopim para a narrativa que se segue. O primeiro acontecimento foi uma controvérsia entre Jesus e os fariseus, os quais pediram a ele um sinal que comprovasse sua identidade de messias (Mt 16,1-4), onde respondia que nenhum sinal seria dado, a não ser o de Jonas. A segunda situação foi motivada pela advertência contra o fermento dos chefes religiosos (Mt 16,5-12), isto é, a ideia equivocada acerca do messias, bem como a própria hipocrisia. Diante deste contexto, o Senhor leva os discípulos para a cidade de Cesaréia de Filipe. Indicação importante para os leitores da catequese mateana.

 

Cidade situada ao norte de Israel, dedicada à Cesar, imperador romano, era sede do poder administrativo da província da Palestina e, portanto, lugar de culto ao imperador e de cultivo da ideologia imperial. Um território pagão. Por outro lado, a cidade fica distante de Jerusalém, sede do poder religioso. Jesus e seus discípulos encontram-se longe das influências do poder religioso. Lugar propício para fazer uma experiência nova e pura com Deus. É o que Ele deseja propor. “ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (v. 13b). Não há concordância entre os biblistas a respeito da intencionalidade dele na pergunta. Porém, a preocupação do Senhor não reside na questão de sua autoimagem. Ele estava preocupado com a receptividade de sua missão, ou seja, como o povo simples estava recebendo, acolhendo e compreendendo sua obra. Ora, tendo ensinado e realizado tantas coisas em benefício das multidões, com toda a certeza transmitira alguma imagem de si, pela qual se guiavam no trato com ele.

 

A resposta dos discípulos pode lhe revelar algum cenário: “alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (v. 14). A atuação de Jesus tinha dado margem para variadas interpretações, e as figuras do passado serviam para que as pessoas fizessem alguma imagem Dele: era tido e compreendido como um profeta do passado. Importante notar esse detalhe, que pode acenar para um reconhecimento positivo mas, na verdade, revela o erro, ou seja, conceber a Jesus como um personagem de um passado distante. É bem verdade que o modo através do qual ele decidiu viver sua missão e obra foi a via profética, perpassada pela dinâmica do justo sofredor e “Filho do Homem”, como realizador da vontade e do juízo divinos.

 

Após a resposta dos discípulos, Jesus dirige a pergunta para eles: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v.15). Afinal, são eles os mais próximos, e, por isso, os primeiros destinatários dos ensinamentos do Mestre. A compreensão da multidão se justifica plenamente, uma vez que ela não adere em profundidade ao ensinamento do Senhor. Por isso, interessa saber como estava sendo compreendido pelos discípulos. Estariam a altura de dar um passo a mais em relação à multidão? Trata-se de uma pergunta importante, porque a resposta revelará a percepção dos discípulos a respeito dele. Mais ainda, revelaria também as expectativas que traziam consigo, e qual mentalidade nutriam acerca dele. A comunidade cristã não pode ver Jesus como uma personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado.

 

“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (v.16), responde acertadamente Simão, em nome dos doze. É uma reposta que ele dá em nome do grupo, e, portanto, eclesial. Uma profissão de fé comunitária. Os demais discípulos também manifestavam a mesma compreensão de Simão. Eles compreendem a messianidade de Jesus. A resposta está religiosamente correta. Mas há que ser aprofundada, pois ela só representa a ponta do iceberg. Há muito ainda a se descobrir e compreender acerca desta declaração. Existe muita coisa a ser amadurecida nesta concepção de messias. Deus está a agir em seu ungido. Toda ação de Cristo revela o querer do Pai. Mas não como os discípulos pensam e querem.

 

Há que se ter clareza acerca de uma coisa muito importante. A mentalidade dos discípulos acerca do messias era ainda eivada pela ideologia nacionalista e monárquica. Pensavam e desejavam um messias guerreiro, político e poderoso. E que recuperasse toda a glória e a realeza davidica. Ainda que pela violência e pelo poder. Jesus rejeitou e rejeitará essa identidade messiânica. Sua missão passa por outro caminho, a doação de si por amor através do serviço. A revelação do agir de Deus através do amor, da compaixão/misericórdia, do acolhimento aos rejeitados pela sociedade, dos pecadores. Há ainda muito o que aprender a respeito deste Jesus confessado agora como Cristo e Filho do Deus vivo. Voltemos ao comentário do texto bíblico.

 

“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17). Jesus admira-se com a resposta tão acertada. E reconhece em Simão um bem-aventurado. Seu entendimento não provém do esforço humano; só pode ser revelação do Pai dos céus. A capacidade de compreensão do discípulo acerca da identidade de Jesus provém da capacidade de escutar a voz de Deus. Quem desejar fazer um caminho de fé semelhante ao de Simão precisa estar atento à Palavra do Pai para assimilar quem Jesus é.

 

Mais uma nota importante. Mateus utiliza três nomes para se referir ao discípulo pescador: Simão, Simão Pedro e Pedro, apenas. O apóstolo é chamado pelo seu nome “Simão”. Todas as vezes que Jesus se dirigir ao discípulo desta maneira, significa que o seu agir e seu pensamento estão corretos e condizem com o querer do Pai. Quando o evangelista utilizar o nome composto (Simão Pedro) é para mostrar a dificuldade e a resistência do discípulo. Ao se referir ao pescador somente com o nome Pedro é porque ele está errado “como uma pedra” de tropeço.

 

“Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18a). Jesus declara Simão Pedro como rocha firme devido a Fé que professa juntamente com a comunidade dos discípulos, a Igreja. A pedra firme por sobre o qual se edifica a comunidade dos crentes é o conteúdo e o núcleo da Fé professada pelo discípulo: Cristo, o filho do Deus vivente.

 

Mateus se serve de duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: Πέτρος– Petros e πέτρα - petra. Embora muito próximas, é possível distingui-las. “Petros” corresponde à pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena, uma pedra de construção; “petra”, por sua vez, alude à rocha, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. Nesse sentido, o Senhor diz que Simão é Pedro Πέτρος /petros, ou seja, uma pedra-tijolo da construção. Ele deve estar assentado sobre a rocha πέτρα /petra, que são Jesus e a fé que professou: “Tu és o Messias e Filho do Deus vivente”.  Só aqui, e em Mt 18,17, o evangelista chama de “Igreja” a comunidade dos discípulos do Reino, evocando o antigo povo de Deus (hbr. qahal). A missão da igreja consiste em ser, na história humana, um sinal da presença do Reino, vivendo os seus valores e o seu projeto. Alicerçada sobre a rocha.

 

O Mestre confia plenamente no discípulo e na comunidade. Por isso, lhe dá plena autoridade para liderar e pregar o Reino ilustrada pelas “chaves do Reino dos céus”. A entrega das chaves como imagem para autoridade para ligar e desligar só é respaldada no céu, lugar de Deus, quando a vida do discípulo e da comunidade assimilam a vida e o Espírito do Mestre da forma mais profunda possível. Qualquer um que professa convictamente a fé em Jesus e vive seu programa de vida expressado nas bem-aventuranças (Mt 5 – 7), tem a chave de acesso ao Reino. Mais que delegar poderes, o Senhor está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino acontecer já aqui na terra, vivendo segundo sua existência.

 

“Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias” (v.20). A ordem dada aos discípulos deve ser entendida como precaução para se evitar confundi-lo com o messias glorioso e esperado com ansiedade pelo povo e pelas elites religiosas. Mas serve igualmente de advertência para a comunidade que ouve, medita, lê e recebe o texto, a fim de que ela não reproduza o pensamento equivocado sobre Jesus, e se coloque sempre em sintonia com o Pai para acolher e compreender a vida do Cristo e assimilá-la para si. O texto litúrgico termina, preparando a sua continuação, o primeiro anúncio da paixão. O modo pelo qual Jesus exercerá plenamente seu messianismo será a da cruz.

 

O texto precisa nos questionar. Num determinado momento de nossas vidas, precisamos deixar que o Senhor nos leve para uma Cesareia, ou seja, longe das experiências religiosas equivocadas, e, ao mesmo tempo, lugar da realidade onde a vida, em meio as crises acontece para, ali, com Ele (jamais sozinhos), fazermos uma experiência toda nova de Deus (Em que lugar estou? Ele me ajuda a experimentar a Deus a e seu amor?). As vezes precisamos sentir a realidade para se colocar na escuta da voz do Pai que nos revela o Filho, e quem ele é (tenho escutado a Palavra do Pai, ou outras vozes que falam erroneamente acerca do Filho?). Por isso, assim como Simão, cultivar o coração e a mente abertos para a voz de Deus a nos revelar o Jesus que temos e não o Cristo que queremos (Que Cristo Quero?).

 

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

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