Paixão
dos apóstolos, paixão e missão de uma Igreja.
Pároco da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.
Espaço dedicado para reflexão teológica, estudos bíblicos, liturgia.
Paixão
dos apóstolos, paixão e missão de uma Igreja.
Pároco da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.
A
liturgia deste décimo segundo domingo do tempo comum propõe a continuidade da
leitura do discurso missionário de Jesus, situado no capítulo décimo do
Evangelho segundo Mateus. A seção literária consiste numa série de ensinamentos
destinados aos discípulos acerca da missão. O que o mestre realizará, valerá,
igualmente e integralmente para eles.
O discurso missionário foi motivado pelo inconformismo de Jesus em face a situação das multidões, cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, ou seja, abandonadas e exploradas pelos chefes religiosos da época. Nesse sentido, a missão consiste no anúncio do Reino que restitui a vida, a dignidade e a esperança das pessoas, denunciando tudo o que as impedia de viver plenamente. Consequência? Quem luta por isso, inevitavelmente, será vítima de perseguições e hostilidades, como previu o próprio Jesus (Mt 10,16-25). Diante dos sentimentos do discípulos-apóstolos em face a este cenário e contexto, o Senhor lhes faz o convite à coragem e à confiança Nele e no Pai, que sempre cuidarão com amor fiel de suas vidas.
O texto lido hoje – Mt 10,26-33 – já coloca a seção próxima de sua conclusão. Dos versículos 26-27, Jesus exorta aos discípulos, “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”. O medo, ao interno da tradição bíblica, e na vida espiritual, constitui o contrário à Fé. Ele acomoda e paralisa a pessoa, impedindo-a de assumir e tomar as rédeas da vida e da história diante do horizonte de Deus. Chamados para a missão, todos devem saber as consequências inerentes a ela, sem sucumbir ao medo. É interessante notar que será por três vezes que Jesus repetirá esta ordem “não tenhais medo”.
O número três é, na teologia bíblica, um número completo. Ele indica a composição do ser humano (corpo – alma – espírito), conforme a antropologia bíblica (a compreensão acerca do ser humano naquele contexto). Nesse sentido, quando o leitor/ouvinte do evangelho se deparar com este tríplice convite deverá acolhe-lo como uma ordem que serve para a sua vida e existência como um todo, que quando aderida e assimilada na vida é capaz de cumula-la de sentido e de força; isto é, de plenitude.
O dito de Jesus precisa ser muito bem compreendido, de modo a evitar confusões que possam gerar interpretações equivocadas ou mais medo ainda. O Versículo não é uma apologia à fofoca. Não é se trata de uma advertência a quem quer tenha feito algo de errado, que precise ser corrigido, ou então uma ameaça do tipo “olha, atento! Eu sei o que você fez e isso será descoberto!” Nada disso! O versículo não se trata disto.
O que havia de “encoberto” e que não poderia mais permanecer oculto era o que Jesus já tinha ensinado somente aos discípulos, até aquele momento! Eles deverão ser os porta-vozes do Mestre. Havia chegado o momento de tornar público, de espalhar, de transmitir e proclamar o que eles tinham aprendido, especialmente o modo de viver do Senhor. O ensinamento escutado “ao pé do ouvido”, isto é, no privado da vida e da relação Jesus-discípulo, deve ser revelado com toda a transparência e integralidade. Sem Medo. Sem omitir a nada (não se pode ceder a tentação de mascarar ou maquiar o evangelho). O imperativo “proclamai-o sobre os telhados” é um convite ao esforço e à criatividade no anúncio. Por que? Precisamente porque as autoridades religiosas do tempo de Jesus (fariseus, escribas, sacerdotes) e os poderes imperiais tratavam de sufocar a Boa Nova do Reino. O Senhor lhes assegura que estes não terão poder e eficácia na tentativa de frear ou intimidar o poder do Evangelho.
No v.28, Jesus é mais enfático ainda: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” Os discípulos-missionários não deverão se amedrontar diante dos que colocarem obstáculos para seu trabalho missionário. Antes, só temerão aquele que, além de tirar a vida física, pode privar as pessoas da vida eterna, ou seja, Deus. Só a ele se deve o temor.
O tema do temor a Deus precisa ser sempre reconstruído e bem compreendido. Quando se fala de temor se deve entender o seguinte: reverência, respeito, admiração que gera a confiança. Pois o verbo Phobeo/Phobeomai (gr. φοβέω/φοβέομαι) utilizado pelo evangelista admite esta compreensão. Nesse sentido se compreende também o dito acerca da destruição da vida. A perda total da vida de alguém não será jamais um castigo divino, mas consequência das próprias escolhas. Na perspectiva de Jesus, o Pai protege sempre. Cuida sempre. Está sempre ao lado dos seus.
Para desfazer qualquer mal-entendido acerca da realidade da perseguição que os discípulos sofrerão (e ainda sofrem), Jesus toca no tema da providência divina. Ele se serve de duas parábolas nos vv. 29-30, as quais ajudam os discípulos a tomar consciência da proteção que gozam da parte de Deus. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai” (v.29). Este dito precisa ser traduzido do original grego, pois a versão litúrgica enfraqueceu sentido e deu margens para interpretações erradas, as quais poderiam sugerir, inclusive, que o que acontece de mal, ou de forma acidental, ou mesmo os sofrimentos inerentes a vida humana fossem da vontade de Deus. Isso é um absurdo. Isso não é verdadeiro.
O texto original pode ser traduzido da seguinte maneira: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o vosso Pai”. Ou seja, nada acontece ou foge dos olhos do Pai do Céu. Se os pássaros caem, o Pai cai com eles. Se algo acontece com seus filhos, acontece também com ele. O Senhor está a assegurar aos discípulos o atento e intenso cuidado que Ele e o Pai tem para com os seus.
Deus sente com os seus! Ele está atento às suas dificuldades e sofrimentos, a ponto de sofrer juntamente com eles. Mas, acima de tudo, comunicar-lhes a força de sua presença ao lado deles. Ora, se Ele está atento a um passarinho, o animal de valor mais baixo no mercado, isto é, com algo tão insignificante, quanto mais estará sempre atento e zeloso a um discípulo de Jesus e filho Seu! A parábola do cabelo deve ser também compreendida nessa perspectiva. O cabelo era considerado o menor e mais inútil elemento do corpo humano e, mesmo assim, contado pelo Pai. A confiança na providência de Deus é o que encoraja o discípulo no decorrer da missão, pois Ele está sempre atento e providente às necessidades de seus filhos.
“Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus” (v. 32-33). Para viver a missão é preciso ter a coragem e a coerência de vida. Declarar-se a favor de Jesus significa, no decorrer da vida e da missão viver segundo a Sua vida. Assimilar seu modo ser; realizar o que Ele fez, isto é, identificar-se com o Senhor.
O testemunho corajoso do discípulo diante dos homens terá como contrapartida o testemunho de Jesus, a seu favor, diante do Pai. Ele se identificará com o discípulo, encontrando na vida daquela pessoa os sinais de Sua própria vida e missão. Pelo contrário, quem se deixa levar pelo medo e O renega será renegado por Ele diante do Pai no dia do juízo. Aqui não se trata de uma sentença dita por Ele, mas a consequência das escolhas da pessoa, apenas confirmadas pelo Senhor.
Que o evangelho deste domingo possa impulsionar o discípulo a viver a missão dada pelo Senhor sem medo. Possa crescer sempre mais na confiança no Pai, sabendo-se sempre acolhido e cuidado, assim como os pássaros do céu ou como fios de cabelo. E que possa encontrar-se constantemente identificado ao Senhor.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Pároco
e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu
- SP
A
Liturgia do décimo primeiro domingo do tempo comum, continua a leitura do
Evangelho segundo Mateus, a partir do final do capítulo nono, o qual serve de
dobradiça para o capítulo décimo, no qual o evangelista concentra o chamado
“Discurso Missionário”. A obra do evangelista é composta de cinco discursos/ensinamentos
de Jesus para seus discípulos, que o autor bíblico recupera e transmite para
sua comunidade que se encontra em crise de fé e de identidade. Algumas
considerações prévias precisam ser feitas de modo a ajudar na interpretação,
assimilação e acolhimento da mensagem trazida pelo ensinamento bíblico.
O Discurso Missionário (Mt 10 – 11,1), compõe, juntamente com o Discurso Inaugural (Mt 5 – 7), o Discurso em Parábolas (Mt 13), o Discurso comunitário (Mt 18) e o Discurso escatológico (Mt 24 -25), o ensinamento essencial de Jesus para o discípulo do Reino. Ora, a intenção do evangelho de Mateus é o de fazer discípulos de Jesus entre todas as nações. Fazem parte da teologia do catequista bíblico as seguintes categorias: multidão, discípulo, apóstolo (missionário).
A multidão é aquela grande massa que vai até Jesus por conta daquilo que ele realiza; o procura por interesse e não se compromete com o sentido de sua vida e com seu ensinamento. Uma minoria apenas está disponível para ouvir a Palavra e se tornar discípulo. O grupo dos discípulos é formado por aqueles que ouviram as Palavras e aderiram ao modo de vida do Senhor, e, por isso, saíram do meio da multidão, para fazerem uma experiência existencial e profunda com Jesus. Só então são constituídos como apóstolos, enviados, missionários do Reino. Contudo, este esquema não é definitivo, uma vez que o discípulo ou apóstolo sempre corre o risco de retornar para a multidão, quando não vive fielmente segundo a vida de Jesus.
O autêntico discípulo do Reino e de Jesus deve carregar sempre consigo a disponibilidade de ser um missionário, e não deve esquecer-se jamais de sua condição de discípulo. A dinâmica existente neste discurso missionário, que começamos a ler neste XI Domingo do tempo ordinário, apresenta-nos este esquema ao longo de sua leitura. Considerações feitas, podemos mergulhar no horizonte do texto.
A conclusão do nono capítulo informa a respeito de um sentimento de Jesus: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (v.36). Ele sentiu compaixão. A compaixão / misericórdia na bíblia, já refletimos, não é um sentimento piedoso ou adocicado, mas uma atitude operativa em favor de quem sofre. É a capacidade de colocar-se no lugar do outro, porque o sofrimento daquele faz remexer as vísceras. No original grego, o autor se serve do verbo splanchnizomai (gr. σπλαγχνίζομαι), que traduz o hebraico Rehem e Rahamim que significa literalmente vísceras (as entranhas; as “tripas”), cuja raiz das duas palavras provém de Hesed (amor/misericórdia). O fato daquela multidão (símbolo da humanidade) se encontrar sem pastor, e, portanto, lançada a própria sorte, mexe com o íntimo de Jesus, o qual extravasa este amor entranhado de Deus pela humanidade sofredora movendo-O a agir em seu favor. Todas as ações do Senhor serão motivadas por esta misericórdia.
Os
mestres da Lei não se interessavam pela multidão de gente simples da Galileia,
considerada, com desprezo, povo da terra. E então, faz uma constatação e uma
recomendação em forma de parábola: “A Messe é grande, mas os trabalhadores são
poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua
colheita!" (v.37-38). Com isso, fica preparado o ambiente para o discurso
missionário.
O dito de Jesus precisa ser compreendido. Curioso é o fato de que ele instigue as pessoas a pedir à Deus que envie os trabalhadores para a messe, quando, na verdade, ele mesmo e o Pai podem providenciar. Por isso se deve sempre ter presente que os evangelhos não são crônicas do cotidiano de Jesus, mas uma mensagem de fé.
“Pedir ao dono da messe” significa rezar. Entrar na dinâmica da oração. Esta, se torna a ocasião privilegiada na vida do discípulo para se entrar em relação com o Pai e com Jesus. Discernir a vida diante de Deus, e saber agir como Ele deseja. Muito importante: a oração do discípulo e da discípula do Reino não é uma repetição de formulas; também não pode ser uma tentativa de convencer a Deus a realizar o que se pede, a ponto de alterar a Sua vontade (tentativa inútil, inclusive). Mas a oportunidade de ter o coração e a mentalidade mudadas diante do querer do Pai. Ou seja, a oração não muda a Deus, e sim a nossa relação com Ele. É a oportunidade de colocar os olhos humanos diante dos olhos divinos para perceber para onde eles apontam, a fim de que se possa orientar os olhos para aquela direção.
A segunda parte da orientação deve ajudar a entender o convite “pedir ao dono”. O que se deve pedir? Que o dono envie trabalhadores para a messe. Ou seja, que o discípulo se torne operário da messe. A oração precisa iluminar a consciência da pessoa a tomar a decisão de se tornar trabalhador, enviado, missionário. É muito cômodo pedir para que o outro se torne missionário, enquanto fico eu bem confortável instalado e estagnado em minha bolha. A missão é universal. Não é uma tarefa destinada a poucos (ministros ordenados e consagrados a vida religiosa), mas chamado e realidade à todos os batizados.
Ainda mais interessante é o fato de que o texto começa com uma constatação feita pelo evangelista acerca da condição do povo enquanto ovelhas sem pastor. Seria natural ouvir de Jesus o seguinte, “Pedi ao dono da messe que envie pastores” em lugar dos existentes. Mas não é o que acontece. Ele expressa a necessidade de se pedir por operários, ou seja, servidores. Não há mais necessidade de pastores porque o Cristo é o único pastor de seu povo.
As palavras de Jesus sempre são acompanhadas por suas ações. Aquilo que ele disse acima, acerca do pedido ao Pai para que envie operários, ele próprio realiza. Chama para mais perto de si, doze homens. E os constitui como apóstolos (enviados). É a primeira vez que o evangelista usa o termo Apóstolo em seu Evangelho. Ele ocorrerá novamente quando do envio definitivo em Mt 28,16, ao final do evangelho. Em relação ao número doze, ele evoca a totalidade de Israel, simbolizado pelas doze tribos. Mas Jesus extrapola esta mentalidade, e vê naqueles homens a semente do novo e verdadeiro Israel que deve expandir-se a todas as nações.
Jesus lhes dá autoridade. Esta é a melhor tradução para este dito do evangelista “deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (10,1). Mateus toca no tema da autoridade de Jesus (gr. Exousia). Esta não significa a faculdade de mandar e desmandar, pelo contrário, isto se chama “poder”. E não faz parte da lógica do Senhor. A autoridade / exousia de Jesus consiste na missão que lhe foi confiada pelo Pai. Ela encontra-se na coerência entre seu agir e falar. Jesus vive o que anuncia e anuncia vivendo. Esta autoridade, que outra coisa não é que viver conforme a vida, Palavra e obra do mestre, Ele a comunica aos discípulos. Assim, transfere para eles o poder recebido do Pai. Eles deverão continuar a missão de Jesus. O ideal do discípulo é ser como o Mestre.
O grupo é encabeçado por Pedro, e segue-se a lista dos outros onze (v.2-4). Ele será porta-voz e representante do grupo. Nas narrativas seguintes ele sempre aparecerá como primeiro. A leitura do conjunto destas cenas permite reconstruir sua caminhada discipular, feita de altos e baixos, como acontece com os discípulos e as discípulas de todos os tempos.
Jesus lhes dá uma recomendação que parece contraditória a toda sua mensagem. Esta orientação de não ir aos samaritanos, nem onde moram os pagãos, precisa ser bem compreendida. Não se trata da exclusão deles. E a orientação seguinte, no v.6, explicita esta constatação: “Ide, antes (lit. primeiramente) às ovelhas perdidas da casa de Israel”. O adverbio “antes / primeiro” (gr. Μαλλον) indica precedência e não exclusividade ou exclusão. O Cristo privilegia o povo da antiga aliança, mas não lhe dá exclusividade. Os pagãos, também, têm o direito de ser convidados a participar do Reino. A missão junto a Israel (particularidade) serve de ponte e de acesso para os outros povos (universalidade), inclusive aos pagãos. A Ressurreição do Senhor marca a abertura da Igreja para a universalidade da missão (Mt 28,19).
A ação dos discípulos consistirá em proclamar que o Reino dos Céus se aproxima (Mt 4,17), bem como curar os enfermos, ressuscitar os mortos, limpar os leprosos, expulsar os demônios. Portanto, têm como tarefa refazer o caminho de Jesus, Messias, por palavras e por obras. Mas com uma característica muito importante: a gratuidade. Já que receberam tudo de graça, também de graça devem oferecer. O discípulo deve sempre ter em mente que o primeiro agraciado com o amor e a misericórdia do Pai e de Jesus é ele mesmo. Desta forma deverá estar sempre pronto a multiplicar a misericórdia recebida e experimentada com todos aqueles que estão à sua volta. Gratuitamente e “agradecidamente”. Quem é gratuito – e, portanto, livre em suas ações – sabe ser e ter um coração e uma vida agradecidos. A gratuidade e a gratidão são características de um verdadeiro discípulo do Reino.
O Evangelho de Cristo é a medida do discípulo do Reino. Ele será a última palavra em relação a cada um de nós e nos fará discernir se ainda estamos na multidão ou no discipulado-missionário. Mas é bem verdade que ele sempre nos dará a oportunidade de refazermos o trajeto, sempre mais avante
O discurso missionário é endereçado a todos nós, os discípulos e discípulas (missionários) de todos os tempos e lugares. Por isso, diante do texto que funciona como um espelho para a nossa vida podemos nos questionar: 1) diante da proposta de Jesus, em que categoria me encontro: ainda em meio à multidão (mais um no meio dela); ou no grupo dos discípulos, que escutam e aderem à Palavra de Deus em Jesus, e, portanto, vão se configurando ao discipulado-missionário? 2) Como temos vivido nosso discipulado-missionário: com aquele senso de privilégio e exclusivismo, concebendo-nos como os tais e já salvos; ou temos exercido a missão na disponibilidade e no serviço a todos, indistintamente? 3) Somos comunidade em saída e servidora ou apenas um grupo exclusivo de amiguinhos, ou, pior ainda, um gueto bem fechado e excludente?
Pe. João Paulo Sillio.
Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP
A
liturgia dominical retoma a leitura do evangelho segundo Mateus, a partir deste
décimo domingo do tempo comum. E o texto proposto é retirado do capítulo nono
da catequese do evangelista, que se encontra na seção narrativa, imediatamente
após o Sermão da Montanha, o discurso inaugural de Jesus. Através daquele
ensinamento, Ele ofereceu as balizas para os discípulos e as multidões
iniciarem e perseverarem no seguimento/discipulado do Reino. No primeiro discurso,
o catequista apresentou o Senhor como Messias por meio da Palavra. É
característica própria de Mateus estruturar desta maneira o seu escrito: após
um discurso-catequese se seguir um bloco narrativo, através do qual mostrará o mestre
realizando o ensinamento anterior, ao mesmo tempo em que mostra ao discípulo
como este deve agir.
O texto de Mt 9,9-13 encontra-se no bloco narrativo que mostrará ação de Jesus como verdadeiro Messias pelas obras. O evangelista apresentará curas, gestos e atitudes que têm por finalidade comprovar a autoridade do Senhor como enviado de Deus para inaugurar e realizar Seu Reinado. São gestos de poder que Jesus realiza movido por amor e misericórdia, que visam realizar a libertação e a humanização das pessoas, a fim de restituir-lhes a vida e a dignidade delas, para que possam acolher e responder com liberdade a Boa Nova do Reino. Assim, a narrativa, a partir do chamado de Mateus e do convite à misericórdia possuem uma dupla finalidade: assimilar o modo de agir do mestre (v.v 9-10.12-13), e evitar a atitude (conduta, pensamento) dos fariseus (v.11).
“Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me!" Ele se levantou e seguiu a Jesus” (v.9). Jesus chama um cobrador de impostos. Esta categoria não era aceita e bem vista pelo povo. O publicano ou cobrador de impostos trabalhava para o Império Romano cobrando os altos e abusivos impostos e, conforme ocasião, desviando para o bolso. Eram considerados inimigos públicos, traidores do seu povo, e, somado a isso, o aspecto religioso: eram rotulados de pecadores, pois o seu trabalho os fazia conviver com os dominadores pagãos, o que os colocavam em situação de impureza. E, portanto, incluídos nessa categoria. Alguém para não se ter por perto.
O chamado de Mateus segue o gênero literário de “chamados” ou de vocação. Há um chamado da parte de Deus e a resposta imediata (ou quase) da personagem. Jesus passa, vê e chama. E a pessoa chamada deixa o que estava fazendo para segui-lo. Isso mostra a importância daquela pessoa, pois a tradição sinótica narra o chamado vocacional de apenas cinco que pertencem ao grupo dos doze: Pedro, André, Tiago, João e, por fim, Mateus. Um detalhe muito significativo é o lugar em que o chamado é feito: na realidade cotidiana. Nos cinco casos, no ambiente de trabalho. E, nestes dois cenários, estão profissões profundamente rejeitadas. Interessante: não é no ambiente religioso do Templo ou da Sinagoga que Jesus realiza o chamado aos seus discípulos. Os quatro primeiros eram pescadores. Mateus, como dissemos acima, era cobrador de impostos. Ele chama cada pessoa em sua situação existencial, sem exigir um atestado de pureza, santidade, perfeição ou boa conduta.
Um segundo aspecto deste chamado é apresentado pelo verbo “Seguir” utilizado pelo autor no modo imperativo. O verbo akoloutheō (gr. ἀκολουθέω) aparece no Novo Testamento 73 vezes. Não se trata de uma simples caminhada, um ir atrás de Jesus. Antes, um convite a uma mudança de vida: um seguimento pleno e convicto. Ou seja, a capacidade de colocar a própria vida em relação à vida do mestre. A oportunidade de ficar com ele para ver e aprender suas atitudes, seu modo de ser e de proceder, assimilando seu ensinamento, a fim de viver como ele.
O v.9 é denso pois não mostra só o chamado feito por Jesus, mas narra também a resposta da personagem. Nos fixemos na atitude dela pois revela um ensinamento importante. “Ele se levantou e seguiu a Jesus”. A experiência com o olhar do Senhor, e o convite verbal feito por Ele desinstalou a Mateus. Conforme a narrativa, ele estava sentado em seu telônio (banca de coletoria). Sinal de comodismo, proteção, apego e bem-estar pessoal. Satisfeito, até então, com o seu estilo de vida. Ao ser visto e chamado pelo Senhor, o cobrador de impostos se levanta e, imediatamente, começa a segui-lo. Não trata de um movimento corporal corriqueiro, mas a mudança de um estilo de vida. O evangelista deseja ensinar que a experiência feita com o Cristo muda a história do discípulo: de uma vida segura, calma, bem servida (ainda que erroneamente), ele passa para uma existência itinerante, desinstalada, desafiadora, seguindo alguém que não tem onde repousar a cabeça (Mt 8,20). Ele deixou o bem-estar econômico para viver da providência, em sinal de plena confiança em Jesus. Uma vida fora dos esquemas e dos cálculos.
Importante! Em primeiro lugar o chamado é feito para que o discípulo esteja com o Mestre, e não para realizar tarefas. É para estabelecer uma permanência, um vínculo e uma relação com Jesus. O chamado é feito para restaurar e reconfigurar a vida da pessoa, a fim de oferecer a ela uma força de sentido para a vida. Quem receber este chamado para seguir/estar com o Senhor, de coração aberto, desarmado e despossuído poderá fazer uma verdadeira experiência de sentido em sua vida. E, então, se colocar em movimento com o Senhor.
Mateus acolheu o chamado de Jesus como fonte de sentido para a sua vida, a ponto de ressignificar a sua existência a partir daquele momento em diante. Qual a sua atitude? Para marcar a sua nova vida e jornada, a personagem oferece um jantar e convida o Senhor e os outros discípulos para sentar-se a mesa com ele (em sua casa). Não só: chamou também os seus amigos cobradores de impostos e outras pessoas identificadas como “pecadores”. Este gesto é profundamente importante e precisa ser compreendido.
Sentar-se à mesa e tomar refeição com outras pessoas era uma ocasião privilegiada de convivência e de aperfeiçoamento das relações e dos laços humanos para a sociedade do tempo de Jesus. É, pois, ao redor da mesa que Ele se reúne com estas pessoas. Supõe-se que seja a casa de Mateus (embora o original grego não mencione isso, diferente da tradução litúrgica), devido ao fato de que muitos cobradores de impostos e pecadores se faziam presentes. É interessante notar que o Mestre se sente à vontade com eles, pois possuía a consciência de ter sido enviado pelo Pai para resgatá-los das muitas formas de desumanização que atingiam a essas pessoas. Por outro lado, eles se sentem a vontade com o Senhor, porque Ele não os tratava com violência, hostilidades e moralismos. Ao contrário, era-lhes próximo, acolhia. Mas há um aspecto religioso aplicado ao sentar-se à mesa. O banquete/refeição era sinal de que o tempo messiânico havia chegado, de que o Messias seria revelado.
Recorde-se, que, nesta seção narrativa Mateus trata de mostrar a identidade de Jesus como messias pelas obras. Por isso, a integração de Mateus à comunidade dos discípulos revela um traço da identidade messiânica do mestre: a solidariedade com os pecadores e marginalizados, porque eles são os destinatários de Sua missão salvadora, por serem os mais dependentes da misericórdia do Pai dos Céus. Ora, o evangelista quer ensinar para a sua comunidade (e para nós, comunidade de todos os tempos), que faz parte da obra do Ungido de Deus, o Messias-Jesus, recuperar a vida e a dignidade das pessoas marginalizadas e excluídas; é sua missão realizar a reunião dos pecadores, ou seja, promover e dar lugares na mesa do Reino à todas as pessoas. E não somente a quem tiver sido merecedor (eis a logica dos fariseus que aparecem na narrativa, a seguir).
Imbuídos da mentalidade religiosa da perfeição e do exclusivismo, aparecem os fariseus: “Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” (v.11). Incomodados com este ensinamento repreensível (e inaceitável) de Jesus querem explicações e, ao mesmo tempo, censuram sua conduta: “Por que ele faz isso? Não está certo! Estas pessoas são impuras; são escórias; são inimigas de nosso povo. Ele está se contaminando com a impureza destes! Ele os está legitimando! Está se desautorizando, e a nós também!” São os fiscais da vida e da fé alheia. Desejam chamar a atenção dos discípulos acerca da inconveniência de seguirem a Jesus, desviando-se, assim, da “autêntica” religiosidade dos chefes religiosos.
Os versículos seguintes trazem a lição a ser assimilada e aprendida. “Jesus ouviu a pergunta e respondeu: Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes” (v.12). O Senhor se dá ao trabalho de responder aos fariseus. Faz uso, primeiramente, da metáfora do médico. Aqueles que estão doentes precisam dos seus serviços. Fica evidente que, os doentes dos quais Ele se refere são os pecadores e os cobradores de impostos. Mas não fica estabelecido quem são os sadios, isto é, os que não precisam de médicos. Jesus não diz na metáfora que os fariseus são os saudáveis. Porque, na verdade, não o são. Eles apresentam uma doença religiosa: a religiosidade hipócrita, desconectada da vida e das relações humanas.
No v.13, Jesus dá cartada final, ao recuperar a mensagem do profeta Oseas (Os 6,6): “Aprendei, pois, o que significa: Quero misericórdia e não sacrifício. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”. O Senhor chama a atenção e corrige os fariseus, recordando a pregação do profeta que, já no século VIII, censurava a incoerência da fé do povo de Israel. Ela encontrava-se desvinculada da vida e das relações fraternas. Assim como o profeta, o Senhor questiona aquela religiosidade. A citação profética que toma para si é uma declaração da preferência do Pai pela prática da misericórdia em detrimento a religiosidade estéril e de preceito.
O discípulo é convidado a assimilar o modo de vida e o agir de Jesus, que se coloca ao lado dos excluídos, dos pecadores, pois ele também se insere nesta condição. E evitar a mentalidade e o modo de agir dos fariseus. Mesmo sendo discípulo pode-se correr o risco de carregar em si os resquícios de um farisaísmo extremo: viver a vida pautada pelo “sacrifício” que de religioso não tem nada. Há um perigo nisso, o de confundir sacrifício com tortura religiosa e com verniz de santidade. O primeiro significa conduzir a vida mediante atitudes ou práticas religiosas exteriores que só alienam, causam feridas profundas, e não geram uma madura relação com Deus. É aquela relação condicionada com um deus fiscal, cobrador, punitivo, juiz, que retribui a cada um conforme sua conduta. Aquela mentalidade que se expressa muitas vezes assim: “se não fizer isso, serei condenado ao inferno”, “Deus não me amará mais”, “não alcançarei a minha conversão, ou serei imperfeito nesse caminho”. Isso leva o ser humano a pensar-se autossuficiente diante dos outros e, inclusive, diante de Deus. Já o segundo, o verniz da santidade, é aquela conduta de mera aparência, a atitude superficial. Só para que os outros possam ver. Ser cristão e discípulo de Jesus desta maneira é fácil. Porém, o próprio Senhor já rotulou pessoas assim: “hipócritas”, ou seja, atores.
A lógica que Jesus oferece para se viver é a da misericórdia. Esta é uma atitude. A capacidade de sentir as realidades, as dores, os sofrimentos, as angústias do outro, se colocar no lugar dele e agir em seu favor. É deixar as entranhas (as vísceras, as tripas) se remexerem de indignação em virtude do sofrimento alheio e mover-se para socorrer e ameniza-los, ou mesmo apontar caminhos, e se for o caso, promovê-los. O termo misericórdia em hebraico é “rehem”, proveniente da palavra “rahramim”, “estômago” (vísceras). Deus-Pai, foi o primeiro a sentir suas vísceras se moverem de indignação pela condição de sofrimento de seus filhos, e sempre agiu em favor deles. Expressão máxima desta misericórdia é a Pessoa do Filho. Ele traduz a misericórdia de Deus através de suas atitudes, de seu amor e de sua vida doada. A misericórdia é a vida transformada em atitudes de amor, que são capazes de resgatar a vida e a dignidade das pessoas. A misericórdia experimentada na vida deve se traduzir em misericórdia vivida com os outros. A misericórdia, portanto, é o melhor sacrifício. É a melhor experiência de conversão.
A misericórdia de Deus é e sempre será humanizadora. É resgate e devolução da vida e da dignidade do outro. Ela será o termômetro da fé e da prática religiosa. Uma religião que não se traduza em misericórdia não terá sentido para Jesus.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Santuário
São Judas Tadeu, Avaré; Arquidiocese de Botucatu-SP.
A Igreja
celebra a conclusão do tempo pascal, o grande dia solene que o Senhor fez para
o gênero humano e para toda a criação mediante a Páscoa de seu Cristo. O
Pentecoste marca a plenitude do mistério pascal de Jesus, sua paixão, morte,
ressurreição (ascensão). A nova criação (ou recriação) operada pelo Pai na
páscoa do Filho atinge seu ápice com a manifestação e doação do Espírito à toda
a criação e a cada pessoa. Nesta ocasião optamos por meditar At 2,1-11, o
pentecostes lucano, com suas particularidades e simbolismos.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP
A
liturgia da Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor.
Qual o significado desta solenidade para este grande e único domingo que é o
tempo da páscoa? Confessar e professar que o Senhor ressuscitado, ao retornar
para o âmbito (esfera e mundo) de Deus leva consigo a natureza humana. Jesus
não volta sozinho para o Pai, mas leva a nossa humanidade com Ele e a reorienta
para seu fim último e definitivo: a vida divina.
A perícope que solenidade da Ascensão nos apresenta é a conclusão do Evangelho segundo Mateus. O contexto amplo é o da experiência da comunidade dos discípulos com o Senhor Ressuscitado. O contexto imediato é o do discurso de comissionamento/envio, ou seja, realizar o que ele já havia feito (Mt 10, discurso missionário). Não se trata de um discurso de despedida, porque Ele não se vai, mas permanece com os seus. Apenas uma advertência acerca deste texto. Para compreendê-lo, se faz necessário lançar um olhar para toda a catequese mateana. O Primeiro Evangelho tem por finalidade “fazer discípulos-missionários todos os povos”. Mas para que o discípulo possa vivenciar a missão, ao final do Evangelho, deverá percorrer o caminho trilhado pelo Mestre. E não poderá furtar-se ao fato de que este é perpassado pela dinâmica da Cruz. O discípulo só poderá assumir a missão depois de percorrer a vida de Jesus e tê-la como seu modelo.
“Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v.16). Uma constatação importante: doze representava o novo Israel reunido através do chamado feito aos discípulos. Na simbologia do AT, o número aludia ao Povo de Israel. Nesta narrativa, o evangelista informa que são somente onze, significa que o antigo Israel não foi reconstituído ainda e, portanto, a mensagem de Jesus se torna universal. Destina-se para toda a humanidade. A comunidade está incompleta. Ao mostrar a comunidade neste estado, o evangelista não se envergonha revela-la fragmentada, imperfeita. É com essa comunidade imperfeita e incompleta que o Ressuscitado deseja contar. São estes homens e mulheres imperfeitos que Ele espera.
O indicativo da Galileia, mencionada por três vezes somente neste relato pascal, representa a ruptura com Jerusalém. Jesus não se manifesta ressuscitado na cidade santa, mas lá no lugar onde tudo começou. Uma oportunidade de releitura, ressignificação da vida e da história, e de retorno à experiência fontal com Deus através da vida do Filho muito amado.
Na Galileia o Senhor começou seu ministério. Boa parte de Sua vida se deu ao redor daquele lago. Ali, os discípulos fizeram a primeira experiência com Ele. Na cena do anúncio da Ressurreição às mulheres, o mensageiro celestial, no começo do capítulo dissera que o Ressuscitado esperava por eles lá. É uma forma que o evangelista tem para dizer à sua comunidade que, para se fazer a experiência com o Vivente, se fará necessário sempre revisitar, fazer memória, atualizar aquele primeiro encontro com o amor do Senhor.
Mateus informa que o lugar onde os discípulos se encontram com Jesus é “o monte”, na região da Galileia (v.16). Interessante, ele usa o artigo definido “o” para indicar que não é qualquer um. Contudo, Jesus não havia indicado nenhum monte. Por que Mateus faz isto? Em primeiro lugar, a informação não tem significado geográfico, mas teológico. É importante recordar que, na teologia bíblica, a montanha/o monte é um lugar para se fazer experiência com Deus. Local da manifestação (teofania) de YHWH. Por exemplo, a Lei foi dada a Moisés na montanha do Sinai.
“O monte”, neste evangelho, deve recordar aos discípulos o lugar das bem-aventuranças, onde Jesus inaugurou sua mensagem de salvação. Recorde-se que a versão mateana das bem-aventuranças compreende oito ditos de Jesus. O número oito é o número da ressurreição do Senhor. O evangelista pretende ensinar que só será possível experimentar a Jesus Ressuscitado e o dinamismo de Sua vida plena se o discípulo, novamente, situar-se sobre o monte das bem-aventuranças, e assumir em suas vidas o ensinamento nelas contido.
O autor informa que, ao verem o Senhor, os discípulos se prostraram. Aqui, o verbo ver não indica uma capacidade física e biológica que o termo grego Blepo (gr. Βλέπω) alude, mas “ver” como sendo uma experiência que se dá desde a profundidade do coração do homem. É a atitude do “ver” relacionado à Fé, por isso o emprego do verbo Orao (gr. ὁράω). Por isso, Mateus informa o gesto da prostração (gr. προσκυνέω/proskinêo). Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus.
O v.17 informa que alguns duvidavam. Não de que Jesus tenha ressuscitado, pois o veem. Nem que Ele esteja na condição divina, uma vez que se prostram. Compreendamos: o evangelista usou o verbo “duvidar” (gr. διστάζω) somente uma vez, na narrativa da caminhada sobre as águas, na qual Pedro pede-Lhe para ir ao encontro, isto é, obter a condição divina. Naquela ocasião Jesus consente, mas no decorrer do caminho, o discípulo sucumbe e começa a afundar ao se dar conta das dificuldades. Pensava ele que a condição divina seria um dom concedido por Deus, ignorando as dificuldades que passaria. Jesus o reprovou, chamando a Pedro de homem de pouca fé. E o questionava: “Por que duvidastes?”.
A dúvida que o evangelista menciona toca a consciência dos discípulos, porque agora eles sabem por quais dificuldades passou Jesus (a morte infame como desprezado e amaldiçoado, suspenso na cruz) e, por isso, duvidam se serão capazes de viver e levar a missão até o fim. Eis, porque duvidam.
A dúvida não faz mal à comunidade. Podemos dizer que o Jesus mateano apresenta uma característica necessária para a sua comunidade: para a solidez da fé, a dúvida se faz necessária, pois o seu antídoto não é a certeza, mas a procura, a busca por uma vida carregada de sentido. Portanto, quanto mais se duvida, mais necessidade se tem de buscar o sentido para a vida. Podemos dizer que a dúvida e a fé são companheiras inseparáveis na vida da comunidade, porque impulsionam para a capacidade de amar.
Jesus, então, diz-lhes: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”. Aqui, o evangelista faz eco a Daniel, que retrata a personagem “Filho do Homem”, o qual recebeu de Deus todo o poder no céu e na terra. Mas o poder/autoridade que Jesus recebe não é para servir-se a si mesmo, mas para colocar-se à serviço de todos. E ao interior da comunidade de Mateus, a autoridade é a de Jesus, e não mais a lei de Moisés.
Jesus continua: “ide e fazei discípulos meus todos os povos”. O evangelista utiliza o verbo "ir" no imperativo: “Ide”. É um verbo de movimento. Ou seja, coloca o discípulo e a comunidade em movimento. Será a partir deste dinamismo que se poderá fazer a experiência da Ressurreição de Jesus na vida, e transmiti-la às pessoas. Não se faz experiência de vida quem fica parado. Pelo contrário, só saboreará a morte.
“Fazer discípulos”, significa transmitir a todos (sem excessão) o novo modo de viver e de relacionar-se com Deus, através do modo de vida de Jesus. O discípulo não aprende somente teorias de seu mestre. Mas o sentido e a forma da vida que ele vive. Por isso, fazer discípulos é muito mais do que ensinar doutrina; antes, testemunhar, existencialmente, o sentido da vida do Senhor. Ensinar os outros a viver a vida de Jesus!
Batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito”. O evangelista se serve do verbo Baptizo (gr. βαπτίζω) que significa essencialmente submergir, mergulhar. Ou seja, o discípulo-missionário é enviado para mergulhar as pessoas na vida mesma de Deus, em seu mistério de amor trinitário. O termo “Nome” indica a realidade e a identidade do ser. Com o sentido de Sua vida, Jesus quer inserir e envolver o seu discípulo no mistério de amor e de vida de Deus, a fim de que eles realizem o mesmo na vida das pessoas.
“ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v.20). O que Jesus havia ordenado aos discípulos? A forma nova de se viver a relação com o Deus que ele chamou de Pai: as bem-aventuranças, que se tornaram a plenitude de sentido com a qual o o ser humano experimentará a Palavra de Deus e se relacionará com ela. Através desta nova rede de pesca [As bem-aventuranças], cooperar com a missão de “pescar homens”. Ou seja, tirá-los da morte (simbolizada pela água), das situações nocivas, para colocá-los na vida, mergulhando-os em Deus mesmo e na plenitude de Seu amor.
“Estarei convosco todos os dias até que o tempo esteja pleno”(v.20). O evangelista pretende, com as últimas palavras de Jesus, indicar uma qualidade da presença do Senhor, e não indicar um período cronológico ou determinado da presença. Na perspectiva de Mateus, o Cristo assegura à sua comunidade que, na medida que ela viver as bem-aventuranças, fazendo experiência de Deus como fonte de vida e de Amor, a Sua presença será garantida. O autor bíblico conclui sua catequese assumindo, novamente, o tema do Emanuel abraçado por Jesus, que, através do dom de Sua existência e missão, revela Deus presente à humanidade, caminhando com ela.
Em Jesus, o Vivente, e agora entronizado junto do Pai, Deus está conosco, e nós, em Deus.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Santuário
São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP.
O
quinto domingo da páscoa nos insere no horizonte do capítulo catorze do
Evangelho segundo João. Os primeiros doze versículos são lidos neste tempo
pascal a partir, agora, da experiência da ressurreição de Jesus, embora esteja
o texto inserido na segunda parte do Quarto Evangelho, o livro da glória. Nesta
seção literária, de Jo 13-17, se encontra o testamento do Senhor.
Um testamento é a plenitude de todos os bens que uma pessoa deixa para aqueles a quem muito se ama. Qual o conteúdo deste, que Jesus entrega aos seus discípulos? O mandamento do amor, ilustrado através do gesto de lavar os pés dos discípulos, e a sua própria vida. Mas qual o sentido da leitura desta seção do Quarto Evangelho? No âmbito da vida das primeiras comunidades, responder a demanda existencial dos discípulos, preocupados em como viver a missão e a vida sem a presença física do Senhor. Transcendendo o tempo das primeiras testemunhas oculares, a liturgia, como pedagoga, deseja mostrar e ensinar ao discípulo de todos os tempos e lugares o modo através do qual se poderá fazer a experiência com Jesus, o vivente, e, assim, continuar sua existência, vida e missão em meio a esta realidade. Como o discípulo deverá viver, agora, sem a presença física de Jesus, o dom de Sua vida ressuscitada na própria existência, dotando-a de força de sentido e de plenitude. Com esta contextualização já se pode mergulhar no mar do texto.
O capítulo catorze inicia-se com Jesus encorajando os seus discípulos: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (v.1). É importante recordar que a cena se desenvolve no contexto da última ceia. Jesus já lavou os pés deles. Um gesto desconcertante para o grupo. Talvez haja desconforto. E, ao final do capítulo, acrescentou a informação de que seria entregue nas mãos dos chefes religiosos do povo por alguém do grupo, fazendo o coração de Jesus se perturbar igualmente. Estes motivos fazem perturbar os corações dos Doze. O evangelista aplica o verbo tarasso (gr. ταράσσω). É um verbo utilizado para descrever o mar quando está agitado, revolto. Deseja, portanto, ilustrar o estado de ânimo de Jesus e dos discípulos. E aqui, uma beleza narrativa e existencial emerge: o Cristo não tem medo de mostrar-se em sua fragilidade humana. Ele sente com os discípulos as mesmas angústias. Todavia, a atitude de Jesus é oposta às dos discípulos. Ele, mesmo diante da “agitação/perturbação”, como que um mar revolto, não deixa de se ancorar confiante no Pai. Já os discípulos, diante do balanço que sentem em suas vidas pela ausência iminente do Mestre, manifestam incompreensão e resistência diante das atitudes e das palavras Dele. Por isso, os convida novamente a uma atitude: refazer a opção por Deus (“tendes fé em Deus”) e por Ele (“tende fé em mim também”), pois a fé é, e sempre será uma relação em resposta a ser vivida com Deus e Jesus.
Jesus continua: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (v.2-3). João conseguiu captar bem os ditos do Senhor, e agora os transmite para a sua comunidade. O evangelista trabalha com o tema da “morada/habitação” em seu evangelho. É um tema que já apareceu no prólogo, em 1,14 (“o verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”). O termo casa (gr. οἰκίᾳ/oikia) é muito significativo, pois ele alude à plenitude de vida que se encontra ao interno de um lar. Por isso “casa” não está aludindo a uma edificação de alvenaria, mas à realidade de vida plena e de amor representada pela imagem do lar que o Pai é. O termo “casa” varia para “morada”, no mesmo versículo, que, agora sim, assume sentido da habitação. Não é por acaso. Na perspectiva do evangelista, Deus constrói sua morada, sua habitação, em Jesus. Ele é e será o novo e definitivo Lugar de Deus. Através Dele, o Pai agirá e falará. Com isso, todos os sistemas e projetos antigos, a lei de Moisés, as práticas exteriores rituais encontram-se superadas e substituídas em Jesus, sobretudo o Templo de Jerusalém, considerado pelo judeu piedoso a morada de YHWH.
O lugar que o Senhor prepara é a vida divina, que se despontará no mistério da Sua entrega na cruz. Isso é que o discípulo precisará se esforçar para compreender. A vida de Jesus apresenta e oferece a vida mesma de Deus e, aquele que a acolhe torna-se morada de Jesus. “Está” em Jesus e no Pai.
“E para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (v.4). Evidentemente, esse dito só pode ser compreendido à luz do capítulo anterior. O caminho que Jesus deu a conhecer foi o do lavar os pés. O discípulo que reconhece este caminho que Mestre aponta, como seu próprio, transforma sua existência em habitação/morada do Pai e Dele, e, portanto, de seu amor.
O discípulo que sente dificuldades em acolher o sentido da vida e missão de Jesus apresenta ainda resistência. São simbolizados por Tomé e por Filipe. O primeiro manifesta sua dificuldade de compreensão: "Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" (v.5) Com uma fina ironia, João mostra para seu fiel-leitor que os discípulos sabem, sim, qual é o caminho do Senhor. O problema é que eles não querem aceita-lo como modo de se viver a vida. Este é o equívoco e a resistência que o discípulo não pode ter.
Jesus faz, então, uma declaração em forma de revelação: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v.6). Através do nome divino “Eu sou”, habitualmente utilizado por ele para revelar que Deus se faz presente em sua existência, ele se declara “o Caminho”. Na tradição religiosa de Israel, a Lei/Torá era considerada “o Caminho” através do qual o povo seria conduzido ao amor-fiel (verdade) de Deus, fonte e plenitude da vida divina. Mas, durante a sua história, o povo de Israel foi atrofiando esta mentalidade, a ponto de transformá-la em lei de Moisés, com suas 613 prescrições e proibições, tirando dela o Espírito e a Vida, restando apenas a letra. Esta, só poderá gerar morte e uma experiência equivocada com Deus.
Na intenção de João, Jesus, ao se proclamar “o Caminho”, está se revelando aos discípulos de todos os tempos e lugares como a superação do caminho antigo. O Senhor é o Caminho, porque toda a sua existência e obra revelam o novo caminho. Assim, o discípulo que assume a vida do Mestre para si, pauta a vida e as ações a partir Dele. O Jesus joanino revela-se também como a verdade, e, conforme dito anteriormente, esta palavra deve ser entendida a partir de seu original hebraico, Hesed/emet: amor fiel ou amor e fidelidade.
Aquele que adere à existência e à obra de Jesus como “o Caminho” definitivo e pleno através do qual Deus se revela, e faz dele o seu sentido de caminhar, consegue reconhecer o Senhor como a expressão do amor-fiel (verdade) do Pai e se encaminha para o encontro com uma plenitude de sentido, a vida. E não é qualquer vida, mas a vida do âmbito de Deus, por isso o evangelista emprega o termo ζωή/Dzoé, uma vida abundante, carregada de força de sentido, e, por isso, indestrutível, ainda que passe pela morte.
Jesus, no v.12 faz uma nova afirmação: “Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai”. Com uma declaração solene (“amém, amém”) o Senhor transmite, então, o sentido de uma vida que se tornou morada do Pai e Dele: realizar suas mesmas obras. Ser, portanto, sinal da presença do Senhor nesta realidade, vivendo Sua missão.
Que o Senhor nos ajude a transformar a vida em Sua permanente morada, expressão de amor e de vida do Pai e Dele, e a realizar a Sua Obra: manifestar o Seu amor-fiel e Sua vida.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.