sábado, 17 de outubro de 2026

REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,15-22:

 


A liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum continua a leitura do capítulo 22 do evangelho de Mateus a partir do v.15. O evangelista apresenta mais uma controvérsia entre Jesus e as lideranças do povo. O tema do conflito é o imposto a ser destinado ao imperador. Unem-se neste conflito dois grupos que rivalizam entre si: fariseus e os herodianos (partidários à Herodes). É a vez, agora, deste grupo atacar e tramar contra o Cristo. Eles tratarão de desacreditá-lo diante de seus seguidores. A cena se desenvolve dentro do Templo de Jerusalém.

“Os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra” (v.15). A conveniência é o que determina o agir das lideranças religiosas. A expressão “fizeram um plano (lit. reuniram-se / juntaram-se; gr. συμβούλιον)” nos evangelhos soa sempre negativa e indica uma trama, um complô. Atenção para a informação que Mateus dá à seus leitores. “Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes” (v.16a). Ambos se odiavam. Os Herodianos, partido de Herodes, assim como ele, se colocavam favoráveis à dominação romana, uma vez que o tetrarca era um fantoche do poder imperial. Os fariseus, por sua vez, eram contrários à dominação romana. Mas para estes dois grupos existe um perigo em comum: Jesus. Agora, colocam-se lado a lado para eliminá-lo.

Os rivais iniciam um diálogo com Jesus, chamando-o de “Mestre”. Este vocativo está sempre na boca dos adversários. Faz parte do vocabulário adulador. Típica tapinha nas costas que precede a punhalada. Não reconhecem a autoridade do Senhor como mestre. Apenas zombam dele. Todavia, a afirmação que fazem é correta: “sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências” (v.16b). Existe uma diferença entre Ele e os chefes do povo: estes procuravam realizar as coisas visando admiração e a própria vanglória. Na verdade, Mateus pretende mostrar através desta constatação feita pelos fariseus e herodianos, que Jesus é diferente daquelas autoridades.

As autoridades desferem uma pergunta auspiciosa. “Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” (v.17). Observe-se que a fala dos chefes está na forma imperativa. Eles não estão pedindo uma opinião. Antes, estão exigindo de Jesus uma resposta. Não é um ensinamento que pedem ao mestre, mas uma imposição. Estão exigindo Dele uma posição acerca do imposto que devia ser pago por todos (entre 12 a 65 anos) ao poder dominador: Roma. O imposto já havia gerado muitas revoltas ao interno da vida do povo. Basta recordar a revolta liderada por Judas, o Galileu, que se levantou contra o poder imperial por conta desse tributo. É, pois, uma armadilha em forma de pergunta. A resposta à pergunta desencadeará a reação dos líderes.

Há que compreender o contexto sociopolítico da Palestina da época. Se Jesus responde afirmativamente estará indo contra a Lei, segundo a qual o único Senhor do povo é Deus, e, neste caso estaria afirmando ser Cesar maior que Deus. No nível religioso seria uma blasfêmia imperdoável. Não esqueçamos o fato de que a cena se dá ao interno do pátio do Templo. Jesus poderia ser preso imediatamente pela guarda do templo, caso se posicionasse dessa forma. No nível político, se respondesse de maneira negativa – “não paguem o imposto” – poderia ser acusado de agitador e de subversivo frente ao poder romano. A arapuca está armada.

No v.18, Jesus desmascara a intenção diabólica dos adversários: “Jesus percebeu a maldade deles e disse: "Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha?” O evangelista utiliza o verbo peiraso (gr. πειράζω) que significa “tentar”. Ele apareceu em Mt 4, no relato das tentações no deserto e estava aplicado a satanás. O que Jesus e Mateus desejam mostrar é que a atitude dos chefes corresponde a uma tentação. Ou seja, eles agem como o maligno que atenta contra a vida e a missão de Jesus. São tentadores e estão, assim, agindo na contramão do querer de Deus ao rejeitar o Cristo.

Ora, se os chefes se dão ao direito de preparar uma armadilha a Jesus, da mesma forma lhes devolve a resposta em gesto e pergunta. Depois de chamá-los de hipócritas e constatar a armadilha, lhes pede uma moeda e pergunta: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda? Eles responderam: De César” (v.20). Os chefes mostram-no uma moeda romana. Estas eram confeccionadas com a efigie do imperador, no caso Tibério, numa das faces da moeda, em que se trazia a inscrição “Divus Augustus Pontificis Maximus (Divino Cesar, Augusto e máximo pontífice)”, e, na outra face da moeda encontrava-se gravada a efigie de sua mãe Livia, representada pela deusa da paz. A moeda era símbolo do poder dominador. Portanto, aonde chegavam as moedas do Imperador chegava, igualmente o seu domínio. Que ironia, Jesus e Mateus revelarem isso! Ao interno do Templo era proibido trazer o dinheiro romano, justamente devido ao fato de que elas apresentavam o imperador como um ídolo, conforme o Deuteronômio, que legislava contra fazer representações de figuras humanas, porque era considerado pecado de idolatria, e era isso que as religiões pagãs faziam. Os símbolos pagãos eram proibidos dentro do Santuário. Por isso, a existência das bancas de cambio no pátio do templo, para trocar a moeda romana pelo dinheiro do templo.

Jesus, muito sábio e desejoso de fazer lhes ver o erro em que caiam, ao pedir que lhes mostrassem a moeda de Cesar quer perguntar: o que os chefes religiosos do povo fazem ali com uma moeda romana, proibida por ser símbolo de idolatria? Precisamente é essa a denúncia que se deseja fazer: mostrar que são pelos seus próprios interesses que as autoridades do povo agem. Este é o verdadeiro deus a quem os fariseus prestam culto. Ora, aqueles que travavam com o povo uma luta sobre o que é puro e o que é impuro – escrupulosos e meticulosos no cumprimento do preceito – trazem consigo, ao interno do templo, casa de Deus, lugar da pureza ritual, algo que é impuro diante da Lei. Quando se tratam de suas próprias conveniências, ideologias e vontades passam por cima de tudo; relativizam a tudo. Eis a armadilha que lhes faz cair Jesus.

“Dai, pois, a Cesar o que é de Cesar” (v.21). Jesus não responde se é lícito ou não dar (gr. δίδωμι/didômi) o imposto. Ele usa outro verbo, restituir (gr. ἀποδίδωμι/apodidômi) que dá a ideia de restituição. Ou seja, se as lideranças são contrárias a ideia da dominação romana, deverão, pois, devolver e restituir à Cesar a moeda que lhe pertence, e não ficar com ela em poder deles. Aquela moeda era de César, e era a ele que deveria ser restituída, rejeitando, assim, o seu senhorio e reafirmar o senhorio de Deus. Se não querem, portanto, a dominação de Cesar, não devem usar para benefício próprio aquilo que é dele. Devolvam-no, é o que quer dizer Jesus. 

“A Deus, o que é de Deus”. O que é preciso dar a Deus, segundo Jesus? Aqui deve se recordar a parábola dos vinhateiros homicidas. Aqueles vinhateiros eram metáforas para as lideranças do povo, os quais usurparam o lugar de Deus na vida religiosa do povo. Portanto, o que deve ser devolvido a Deus é o seu lugar, tomado pelos chefes. Mas também restituir a Deus o seu povo, que fora tomado de suas mãos pelas lideranças religiosas e políticas. Esta é tarefa realizada por Jesus em toda a sua vida e ministério público.

A partir do ensinamento de Jesus, como entender este dito? O Senhor está contrapondo Cesar e Deus. Existem coisas que pertencem ao imperador (símbolo de tudo o que possa representar a realidade de poder, domínio; a lógica do anti-reino) e coisas que pertencem à Deus em níveis de abrangência diametralmente distintas. O imposto está no nível de César, que corresponderia a uma obrigação civil, por isso, não seria um absurdo pagá-lo. Porém, existe uma coisa que só a Deus pertence: a adoração. De maneira alguma se pode cair na tentação da pretensão do imperador de ser adorado como um deus. Isto não lhe pertence e ninguém deve se submeter a esta vontade. O usurpador da condição e da adoração divina deve ser colocado em seu devido lugar, por ser uma pessoa humana como qualquer outra.

Dobrar os joelhos diante de Deus significa logicamente recusar dobrá-los diante dos homens. Reconhecê-lo como Senhor significa negar qualquer pretensão de ser senhor sobre as pessoas. Devolva-se o imposto ao imperador, mas a Deus seja tributada a adesão total e exclusiva de cada um porque não há e não se tem outro Senhor. Devolver a César é, portanto, dizer não a todo poder que se absolutiza – seja ele religioso ou político – gerando usurpação, exploração e dominação. Dar a Deus o que é de Deus significa lutar para que todos tenham liberdade e vida, sejam quais forem as formas de dominação e de morte. Significa recusar a mentalidade dos Césares deste mundo; vencer o apego às próprias conveniências e vontades, à tentação de fazer-se ídolo ou senhor de si ou dos outros. O Discípulo deve recusar levar consigo a moeda de Cesar.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 10 de outubro de 2026

REFLEXÃO PARA XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 22,1-14:


 

O capítulo 22 do evangelho de Mateus insere-se no bloco narrativo que compreende os capítulos 20 – 22. A seção se abre com a entrada de Jesus em Jerusalém (21,1-11). As lideranças – sumo sacerdotes, fariseus (escribas) e anciãos do povo – permanecem indiferentes à sua pessoa e à mensagem que traz consigo, tornando-se, até mesmo, hostis e refratários. Este capítulo se insere num conjunto de cinco controvérsias entre o Senhor e as autoridades da cidade santa, tanto em âmbito político como religioso: a discussão acerca de Sua autoridade diante da expulsão dos vendedores no Templo (21,23-27); a legalidade do imposto ao imperador romano (22,15-22); a ressurreição dos mortos (22,23-33); o mandamento importante (22,34-40), e finalmente, a problemática acerca da descendência davídica (22,41-46) do Messias. O mestre, no entanto, sai vitorioso de todas estas situações. Agora, vamos ao texto!

Jesus dirige uma vez mais aos líderes do povo (sacerdotes e anciãos) uma parábola. Ele começa comparando o Reino dos Céus a um rei que prepara um banquete de festa para o casamento de seu filho (v.1-3). Elementos importantes que precisam ser absorvidos do ensinamento em parábolas que estão presentes na tradição da fé de Israel: 1) Na Sagrada Escritura, o banquete – e principalmente o banquete nupcial – era símbolo da iminente vinda do Messias. Tal concepção teve sua origem no pós-exílio. 2) O rei/pai prepara o banquete, o que é algo incomum, uma vez que esta tarefa ficava sob a responsabilidade dos empregados e de todos os que eram convidados a participar. Ora, no tempo e na realidade de Jesus, onde os recursos para subsistência eram escassos, e constantemente o povo passava muita necessidade, as festas de casamento tornavam-se oportunidade para o povo se alimentar melhor, e renovar as esperanças futuras. Portanto, 3) o banquete de casamento era sinal de alegria em vista da plenitude de vida que seria inaugurada por Deus através de seu Messias.

O rei da parábola é Deus mesmo. O banquete de casamento é imagem para o Reino dos Céus, que começa a ser vivido no aqui e no agora. Por isso, se faz necessário compreender bem a lógica deste “banquete/Reino”. Trata-se do projeto de Deus. Note-se: o banquete é preparado pelo rei/pai, ou seja, a iniciativa de acolher, preparar e convidar é Dele. Não deseja ou concebe que alguém fique de fora. O fato de ser ele mesmo a preparar a festa indica que ao interno desta realidade todos são iguais, não há um organizador mais importante em relação a um empregado; todos são convidados e, portanto, são importantes. Não há superiores, nem inferiores. Há espaço e lugar para todos. Todos são comensais.

Posto que a imagem do banquete/festa simboliza o Reino e o projeto de Deus, Jesus, desde o começo de sua missão e vida mostra claramente a sua lógica: o amor fiel de Deus destinado a todos; acolhida aos excluídos e marginalizados, aos enfermos e pecadores; libertação das consciências; uma vida baseada no amor mutuo, na fraternidade, que se manifesta na capacidade da entrega de si em serviço aos irmãos; o convite à conversão, enquanto mudança de mentalidade na relação com Deus e com os outris, saindo de uma religiosidade de aparência e desconectada do contato com os sofredores. E, também, no tocante à relação com as coisas, com as posses, alertando para o perigo do acúmulo, da riqueza, do egoísmo, do fechamento, tendo como antídoto a estas práticas a lógica da partilha. Esta é a lógica do banquete de casamento proposta pelo rei/pai. Tal é a lógica do Reino. O convite, portanto, está feito.

Os primeiros convidados, evidentemente, são o povo de Israel e seus líderes. O gênero das parábolas chama a atenção do leitor justamente por suas particularidades, que numa primeira leitura podem parecer incomuns: diante de um convite importante (a festa de casamento de um príncipe), os convidados não dão a mínima. A atitude deles serve de imagem para a recusa do povo de Deus dos líderes diante da proposta dos profetas, os primeiros empregados enviados para fazer o convite, no Antigo Testamento; e, a recusa consciente a Jesus e sua obra. Estes primeiros já possuem seu “banquete”; nele ninguém imperfeito pode tomar parte; é lugar de exclusão e não de acolhimento. É lugar de uns poucos privilegiados. Na festa deles não há lugar para uma relação livre e gratuita com o Deus e Pai de Jesus, mas uma forma de relação condicionada pelo mérito e pela barganha. Estes, ao ouvirem o convite, já sabem muito bem porque recusar: não querem fazer parte da lógica de vida proposta pelo banquete do Pai e de Jesus.

O rei insistiu (v.4-7). Essa insistência do monarca revela, na verdade, a do próprio Deus, que acena para a necessidade de se decidir pelo Reino dos Céus com urgência. Não é possível adiar a decisão de acolher os apelos de Deus. Tudo em vão: uma parte dos convidados foi para os campos; outra foi cuidar de seus negócios; e outra, mais hostil, responde com violência frente aos funcionários do rei. A parábola apresenta um segundo tipo de convidados: aqueles que fazem a opção pela lógica e pelo sistema desta realidade; os que colocaram a sua vida sobre os bens, o acúmulo, o dinheiro, o trabalho, o conforto, isto é, a segurança da posse e do ter. São aqueles que não conseguem assimilar e viver a lógica do desapego, da partilha e do serviço fraterno; que fizeram da ganancia e da prosperidade o seu “deus”.

No v.7, o rei irrompe, então, em fúria, e envia seu exército para dar fim aos convidados negligentes. Imagem que precisa ser bem compreendida. Aqui tem-se a inserção de um versículo que não faz parte dos ditos de Jesus, mas corresponde uma elaboração e redação de Mateus. É a tentativa de explicar – ainda que interrompendo a narrativa da parábola – o destino da cidade santa, destruída em 70. Tal fato seria interpretado como consequência da recusa ao projeto de Deus. Não se trata, neste ponto, de um castigo divino. Antes, uma consequência das escolhas e atitudes. O castigo nunca vem da parte de Deus. Ele é consequência das ações humanas. Na ordem da narrativa, este versículo, se fosse omitido não traria problema para a compreensão da parábola.

O rei ordenou, então, aos seus funcionários, que fossem pelos caminhos e pelas encruzilhadas, e que chamassem aqueles que encontrassem: bons e maus (v.8-10). A festa não deixou de acontecer em face a recusa dos primeiros convidados. Os que não esperavam, tiveram a honra de tomar parte de um banquete de alto nível. Chamo a atenção, aqui, para um termo que foi mal traduzido. “Encruzilhada” enfraquece o termo “Diéxodos (Diexódous; gr. διεξόδους)”, que seria melhor traduzido por “saída”, “fronteira” e “periferia”. “Ide, pelas saídas (fronteiras – periferias) dos caminhos” traduz melhor a intenção de Jesus e do evangelista Mateus em dar enfoque, a partir da rejeição e auto exclusão de Israel do convite recebido, à universalidade da salvação.

O ensino subjacente destes versículos reside, de acordo com a lógica da parábola, na mudança de atitude de Deus, ao redirecionar o convite a todos, e não exclusivamente aos judeus. O anúncio do Reino não é mais exclusivo à Israel, mas inclusivo, agora, aos que não fazem parte do povo. Isso é o que significa convidar Bons e Maus. A categoria dos maus simbolizava aqueles que não pertenciam a Israel. Não se trata aqui de uma conotação moral, necessariamente.

Mas não basta ser convidado para festa. É necessário mostrar-se predisposto e com atitudes de justiça. Todavia, houve quem ousou participar da festa sem o traje festivo. O rei notou, e, imediatamente mandou expulsar o penetra (v.11-14). O traje, em toda a Sagrada Escritura (e principalmente no Apocalipse), é símbolo para as boas ações, as obras de Justiça, Amor e Misericórdia. Simboliza a fé traduzida e encarnada em obras de misericórdia e justiça aos irmãos, principalmente aos que estão nas margens, nas fronteiras e periferias.

A comunidade de Éfeso, recordando os ensinamentos de Paulo e a pregação do Evangelho, foi a que melhor percebeu que a veste do cristão são a caridade e a Justiça, que brotam da vivência da Palavra de Deus, encarnada na vida do fiel discípulo de Jesus, em Ef 6,10-17 (famoso texto da "armadura ou veste do cristão", que infelizmente foi tão deturpado em sua interpretação). Jesus não está falando de uma veste física, de grife (até mesmo das “grifes religiosas”), tampouco estaria ele imbuído de moralismos acerca de como se vestir. O texto não permite tal abordagem.

Nem todos os que são chamados são escolhidos. O chamado de Jesus vai, então, noutra direção. O fato de se pertencer à comunidade do Reino, não significa ter assimilado o modo de ser peculiar ao Reino. Ora, o chamado inicial se distingue na perseverança final e consequente salvação. Infelizmente, existirão aqueles que não experimentarão a alegria final do Reino, pela incapacidade de perseverar, até o fim, no caminho iniciado (Mt 24,13), pela indiferença ao convite ao modo de ser e de existir exigidos por Jesus, ou por não estarem vestidos com o traje das obras de justiça. Se faz necessário revestir-se das vestes de Cristo Jesus, isto é, do sentido existencial de sua vida. Esta é a veste da festa!

Quem somos diante do texto de Mt 22,1-14: os primeiros, os segundos ou os últimos convidados? Qual a nossa atitude diante do convite para a festa do Reino? Estamos nas periferias (às saídas ou nas fronteiras e limites humanos, sociais, religiosas), ou indo até elas? Temos vestido a veste das obras? Que possamos ver nossa vida no espelho deste texto bíblico. O convite está feito. Participemos. Vistamo-nos de Cristo!


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

REFLEXÃO PARA O XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 21,33-43:

 


O vigésimo sétimo domingo do tempo comum prossegue com a leitura e meditação do capítulo vinte e um do evangelho de Mateus. Jesus está em Jerusalém. Seguem-se confrontos e controvérsias entre ele as autoridades do povo. Na cena anterior, contou uma parábola de dois filhos que apresentavam condutas distintas no falar e no agir (Mt 21,28-32), aplicando-a aos anciãos e aos sumos sacerdotes. Os versículos propostos hoje, 33-43, seguem direcionados às mesmas personagens, os chefes religiosos do povo.

 

A assim chamada parábola dos vinhateiros homicidas possui três intenções: a) denunciar a atitude de recusa dos chefes religiosos em relação a Jesus e ao seu ensinamento, no âmbito do tempo da narrativa; b) chamar a atenção dos discípulos para não caírem na atitude dos chefes religiosos do tempo de Jesus; c) provocar o leitor-discípulo do evangelho em relação aos frutos que devem apresentar.

 

Mateus se serve de um texto do AT, situado em Is,5,1-7, o cântico da vinha, onde o profeta Isaias relata a história de uma vinha plantada por seu amigo, que não produziu uvas boas, senão frutos amargos. A imagem da vinha é apresentada novamente. Ela simboliza, como já sabemos, o próprio povo de Israel e sua história perpassadas por altos e baixos. O evangelista utiliza uma técnica de interpretação, o midrash, reinterpretando os textos antigos da fé do povo de Israel, aplicando-os à realidade e à vida de sua comunidade, a fim de confirmar a identidade de Jesus de Nazaré como Messias. A própria parábola deixa isso muito evidente. O Senhor, ao transmiti-la, realiza uma recapitulação de toda a história salvífica de Israel.

 

Há duas perspectivas de leitura e interpretação. Ler a parábola a partir de Jesus, isto é, cristológico: identifica-la à Sua própria vida e missão, através de sua práxis, e reconhece-lo como enviado de Deus; e a perspectiva eclesial (comunitária, eclesiológica), que aplica o texto para a situação da vida da comunidade, a Igreja, o Novo Israel: produzir frutos de Justiça. Isto posto, pode-se meditar o texto.

 

Dos vv. 33-39, Jesus descreve a ação de um proprietário de terra que planta uma vinha, prepara-lhe tudo para a sua subsistência, e, partindo para o estrangeiro, decide-se arrenda-la à terceiros. Chegada a época da colheita, enviou seus empregados para recolher os frutos e os lucros. Estes foram desrespeitados pelos administradores, os quais agiram com violência, espancando um, matando outro e apedrejando o terceiro. Mais uma vez o dono envia outros empregados, que são tratados da mesma forma. O terceiro enviado foi o filho do dono. Nenhuma novidade! Ao filho agarraram, levaram para fora da vinha e o mataram. Jesus conclui com uma pergunta aos ouvintes destinatários da parábola: “Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?” (v.40). Com essa pergunta, Jesus utiliza-se da técnica antiga de envolver os leitores, a fim de se identificarem com as personagens de forma a se comprometerem com a resposta que derem.

 

A quem simbolizam estas personagens? O dono da vinha é o próprio Deus, os vinhateiros homicidas simbolizam os líderes religiosos, os anciãos (fariseus e escribas) e sacerdotes. Os empregados enviados são imagens dos profetas de Israel, enviados muitas vezes ao povo. O filho do dono da vinha é Jesus.

 

A interpretação da parábola em chave cristológica se dá assim: o terceiro enviado, o filho do dono é Jesus, que denúncia a atitude das lideranças do povo que se fecharam em relação à sua pessoa, rejeitando-o. A recusa chegará ao radicalismo de eliminar a sua vida. O levarão para morrer porque não suportam a forma do seu viver; não toleram a sua Justiça, ou seja, sua vida colocada em relação ao projeto e ao querer do Deus que chama de Pai; não aguentam a fidelidade radical de Jesus à Palavra de Deus, que desmantela e revela a infidelidade deles. O evangelista descreve a história da fidelidade e da infidelidade do povo e das lideranças ao longo da história. E ao interno desta história está a de Jesus, que permanece sempre fiel.

 

Na parábola (// com Is 5,1) são diversos os servos que são mandados. A referência aos profetas do AT não podia ser mais clara. Nesse sentido, Jesus tem seu lugar na longa série daqueles que Deus enviou a seu povo. Até a recusa feita pelos judeus tem atrás de si uma longa história de infelicidade como a dos profetas. Assim como eles, Jesus também será perseguido e morto. Mas o Senhor não é um dos profetas, e sim o Filho de Deus enviado ao mundo. E a sua missão consiste em revelar a salvação do Pai. Tê-lo rejeitado e levado à morte será o gravíssimo pecado dos chefes de Israel.

 

Agora, emerge a perspectiva eclesial da parábola, a partir do v.43, “Por isso eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos”. Devido à recusa, rejeição e a trama homicida em relação à Jesus, na perspectiva das primeiras comunidades cristãs, especialmente a de Mateus, o antigo Israel dá lugar à comunidade cristã. Um novo povo nasce a partir do antigo. Este é um tema muito apreciado pelo o evangelista: o verdadeiro Israel. O primeiro, com a sua obstinada incredulidade e rejeição a Jesus, negou os frutos de fidelidade que Deus esperava deles. É precisamente esta passagem o ponto crucial da interpretação de Mateus.

 

As duas perspectivas, cristológica e eclesiológica, complementam e iluminam-se. A primeira, ajuda o discípulo-leitor do evangelho a reconhecer no mistério da vida, missão, e morte trágica (e tramada) de Jesus, o sentido de uma vida e existência segundo o querer e o projeto de Deus. E, que, por outra parte, ilumina a compreensão da comunidade em relação à sua vocação e missão: produzir os frutos que o antigo povo não produziu. E a não reproduzir a história antiga, tampouco as condutas e atitudes dos antigos líderes do povo frente ao projeto de Deus em Jesus.

 

O exemplo das lideranças judaicas infiéis é colocado diante dos olhos do discípulo e da comunidade do Reino como advertência. A graça salvífica que se revelou na comunidade é exigente: ser o novo povo de Deus, produzindo frutos de fidelidade, de justiça, de amor, de bondade, de misericórdia e de vida. O texto incide na vida. Com quais personagens nos identificamos? Que frutos temos produzidos? Não sejamos como os vinhateiros homicidas.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

 

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 26 de setembro de 2026

REFLEXÃO PARA O XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,28-32:

 


A liturgia nos insere na leitura do capítulo vinte e um do Evangelho segundo Mateus. O evangelista, neste capítulo, transmite um ensino em parábolas de Jesus exclusivo de seu evangelho: a parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32). Para compreende-la, se faz necessário lançar um olhar para o contexto amplo no qual ela se situa. Este capítulo abre narrativamente a etapa final da vida do Senhor: a entrada em Jerusalém. Ali, passa a sofrer forte resistência e oposição por parte dos líderes do povo, os chefes do judaísmo. O catequista bíblico procura oferecer um panorama histórico para seus leitores/ouvintes através dos temas do pecado da rejeição e da recusa dos líderes que não acreditaram na missão de João (21,25 e 32), que mataram os profetas de Deus (21,34-36), e, que, concluirão a perversidade de suas ações tramando a morte do Filho de Deus (21,39).

O contexto imediato é delimitado pela cena anterior, a discussão com os chefes religiosos no templo. Eles questionam a Jesus acerca de Sua autoridade. O Senhor coloca uma condição para responder ao questionamento deles: “Responderei se me responderem uma pergunta: De onde vêm o batismo de João Batista, do alto ou dos homens?”. Diante da questão, os religiosos viram-se em apuros. Se respondessem que a ação profética de João era autorizada por Deus (vinda do alto), então estariam obrigados a reconhecer e responder que ele viria de Deus, e, que, portanto, estariam errados. Se respondessem que a missão de João era terrena cairiam na ira do povo, porque consideravam o Batista um profeta. A pergunta é envolvente e a resposta, comprometedora. Preferem dizer que não sabem. De sua parte, Jesus responde: “Então, eu também não direi com que autoridade eu faço estas coisas”.

Entretanto, com uma provocação que lhe é própria, o Mestre não perde a oportunidade de chamar-lhes a atenção através de uma parábola. Os seus destinatários são as lideranças do povo. No tempo da comunidade, Mateus se apropria do ensinamento para corrigir os rumos. Sempre é necessário unir (ou fundir) estes dois horizontes. Uma vez mais, a parábola se serve do tema da vinha. Já nos é sabido que ela sempre foi tida na tradição de Israel como metáfora do Povo de Deus. Isto posto, podemos mergulhar no texto bíblico.

O texto bíblico começa com esta pergunta para os chefes do povo, “Que vos parece?” (v.28), para narrar lhes a parábola de um pai de família, dono de uma vinha, que convida os filhos a trabalharem na plantação. A pergunta é típica e comumente usada pelos mestres daquele tempo, os rabinos. Contudo, possui ainda a função de provocação, pois ela tem a intenção de envolver os ouvintes, e, aqui, de modo claro, os chefes religiosos do povo.

“Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!” (v.28). O primeiro filho, diante do convite recusa, mas depois vai. Mas a cena deve focalizar a iniciativa do pai. Por que? No original grego não se utiliza o verbo “dirigir”. O evangelista se serve do verbo “aproximar” (gr. προσέρχομαι/proserchomai). Isso é muito importante pois deseja transmitir a imagem da proximidade que é própria de um pai em relação a seu filho. Diferentemente da imagem de um patrão que chega para intimar ou cobrar seu funcionário. Na perspectiva de Mateus, este dono da vinha é verdadeiramente um pai amoroso que sempre se aproxima de seus filhos com afeto  a fim de envolve-los com seu amor em seus projetos, para oferecer lhes o melhor que tem para dar.

O termo "filho" utilizado aqui no texto também comprova a ideia, pois é o termo Teknon (gr. τέκνον), que, literalmente, significa "aquele a quem foi dado à luz". Ou seja, o termo indica uma conotação materna. Trata-se, portanto, de uma atitude paterna profundamente carregada de uma imagem materna e cheia de ternura da parte do Pai que deseja que o filho tome parte de seu bem, a vinha, a qual é símbolo do Reino. Mesmo assim, filho recusa. É interessante: não há na parábola um juízo moral acerca dele. Por isso, se faz necessário compreender bem esta personagem. É aquele homem ou mulher que, diante da boa nova do Reino anunciada por Jesus tem consciência da exigência que brota ao aceitar este anúncio (conversão, vida nova, amor, fraternidade, justiça, entrega absoluta ao querer do Pai dos Céus e de Jesus; serviço e doação de si ao próximo), e que nega por não estar a altura deste projeto. Mas, após um exame de consciência, a ponto de perceber que o convite feito para assumir a vida da vinha, aceita e vai. Este compreendeu que seu pai não é um patrão; que Seu projeto corresponde a uma plenitude de vida.

O segundo, prontamente responde de modo afirmativo, mas não cumpre o que diz. O relato é privado de colorido e de particulares, centrando-se sobre a contraposição dos dois filhos nas respostas e no comportamento. Esta personagem mostra a mentalidade equivocada que possui do seu pai. Considera-o um Senhor, isto é, um patrão. O termo grego que evangelista utiliza ao se referir à personagem do pai é Kyrios (gr. κύριος), ou seja, Senhor. Ele não reconhece a paternidade de seu pai. Apenas a sua utilidade: a de ser um patrão. A este é muito fácil desobedecer. Mas não a quem se ama. A quem se ama, é possível reconhecer no pedido ou na exigência feita que através dela se lhe oferece uma plenitude de vida. Mas a segunda personagem não vai. Não se compromete existencialmente com o projeto da vinha de seu pai. Evidentemente, por se tratar de uma parábola, esta personagem é a imagem do entusiasmado que não mede as consequências das escolhas que faz. Diz sim ao projeto do Reino, mas sabendo da exigência deste não assume e, portanto, não toma parte da plenitude de vida oferecida por Deus através de seu Filho.

Com a pergunta, “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31), Jesus amarra ainda mais o grupo dos fariseus e sacerdotes. As perguntas têm a intenção de envolver e comprometer os ouvintes tornando-os participantes do ensino, e identificando-se com as personagens. Deste modo, consegue colocá-los contra a parede tirando deles um juízo de autocondenação.

Eles respondem e são censurados por Jesus: “Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele” (vv.31-32). Com esta resposta, o Mestre joga na cara dos líderes religiosos do povo suas incoerências e resistências. Ele declara, de forma muito lógica que o caminho aberto por João foi conforme o querer do Pai; e, que os pecadores, as prostitutas e os publicanos acolheram a pregação dele. Ao passo que aqueles entendidos sobre Deus, não. Ora, Se o Batista veio preparar e abrir o caminho, Jesus é o realizador pleno deste projeto de Deus. Com isso, responde a pergunta que lhe fora feita acerca de Sua autoridade. Ela vem do Alto e é destinada a todos, sem exclusão.

Um olhar mais acurado para as personagens da parábola se faz necessário. O primeiro filho, que se nega a trabalhar na vinha, mas que depois vai, na perspectiva de Jesus, torna-se metáfora para os publicanos e às prostitutas, símbolos dos marginalizados, excluídos; dos sem voz e nem daquele tempo, os quais tanto a religião, como o poder imperial marginalizavam.

As lideranças do povo – os anciãos e sacerdotes – são caricaturados pelo segundo filho, que contradisse com a atitude o sim dos lábios. Não podem iludir-se e pensar que estão obedecendo à vontade de Deus apenas porque dizem ter aderido a ele, ostentando um culto estéril à lei, mas sem comprometimento com os excluídos e marginalizados.

Entendida as personagens da parábola, lancemos agora um olhar para a pergunta de Jesus aos líderes “Qual dos dois fez a vontade do pai?” O pai é o termo de comparação aplicado a Deus. Fazer a vontade de Deus era o eixo sobre o qual girava toda a religião do AT e do judaísmo. E a lei era sua expressão escrita e clara. Mas agora, a revelação plena e perfeita da vontade divina acontece em Jesus, que anuncia a vinda do Reino e chama à conversão (4,17). A obediência não é feita de palavras estéreis e descompromissadas, mas com atitudes concretas e precisas. Os verdadeiros obedientes são exatamente os pecadores, porque creram. A obediência, portanto, chama-se fé/adesão ao Filho.

Ora, se a parábola, no tempo de Jesus serve para denunciar a oposição e rejeição das lideranças do povo frente ao Projeto de Deus anunciado por Ele, para Mateus ela tem fins bem catequéticos e comunitários. Apresentar dois tipos de cristãos: os que vivem segundo o projeto do Reino e os que só falam, sem praticar. A comunidade do Reino não pode reproduzir as mesmas atitudes dos líderes antigos do povo. O evangelista deseja coibir, ao interno da comunidade, que o discípulo/fiel caia na tentação de levar uma vida de aparências, descompromissada e incoerente, que assume, inclusive, facetas puritanas e excludente com o intuito de se autopreservar.

A coerência do discípulo e da comunidade do Reino está na sintonia entre o falar e o fazer. Não se torna discípulo de Jesus e membro de sua comunidade somente pelo bonito, perfeito, acertado – e, portanto, ortodoxo – discurso que se verbaliza ou assimila; não se torna discípulo ao se decorar fórmulas, ritos e preceitos. A pessoa se torna discípulo (a) quando assimila e faz a vontade de Deus, que passa pela opção pelo Cristo e pela decisão de assumir seu modo de viver, no acolhimento aos excluídos e marginalizados desta história – a ortopraxis. Corre-se o risco de se viver muita ortodoxia (discurso correto), mas totalmente descolado da realidade, e, por isso, pouca ortopraxia (o agir correto). Diante da parábola deste domingo cabe-nos sempre a pergunta qual tem sido nossa atitude/resposta ao querer de Deus manifestado por Jesus? Qual dos filhos pode refletir nossa imagem?

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 19 de setembro de 2026

REFLEXÃO PARA O XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 20,1-16:


 

A liturgia do vigésimo quinto domingo do tempo comum avança na leitura e meditação do evangelho segundo Mateus, propondo a parábola dos trabalhadores da vinha contida em Mt 20, 1-16 dirigida aos discípulos e aos fariseus escribas. Ela serve-se de imagens conhecidas das pessoas do tempo de Jesus, bem como absorve elementos da tradição religiosa do povo. A vinha, por exemplo, servia de imagem comparativa e simbólica para o povo de Israel (Is 5,1-7; Jr 2,21; Ez 15,1-8; Os 10,1; SI 80[79]). Mais a diante esta imagem retornará noutra parábola (mais forte ainda, a dos vinhateiros maus, em Mt 21,33-46). Assimilando mais ainda a imagem simbólica, a vinha, por assim dizer, trata-se do campo da atuação histórica de Deus.

O contexto próximo da parábola de hoje situa-se na seção narrativa imediatamente após o Discurso Eclesial. Neste bloco, 19 – 23, o evangelista narra o começo da viagem de subida de Jesus para Jerusalém. Encerra-se a missão na Galileia. Na cidade santa, a sua pregação passará pelo filtro dos homens religiosos e a fé dos discípulos será posta em xeque. Uma opção deverá ser feita: aceitação ou recusa ao projeto de Deus que Ele anuncia. Nesta viagem, os discípulos serão instruídos na sabedoria e pedagogia do Reino, contemplando as ações e as palavras do Mestre e pondo-se a refletir sobre elas.

O contexto imediato, corresponde ao capítulo vinte da catequese de Mateus. A parábola dos trabalhadores se liga à cena anterior, o diálogo-ensinamento de Jesus aos discípulos. Ao final da narrativa do jovem rico (Mt 19,16-30), Pedro, em nome dos doze, questiona Jesus acerca da recompensa que o discípulo, que deixou tudo pelo Reino, ganharia: “Eis que deixamos tudo e te seguimos. O que receberemos?” (Mt 19,27). Aqui está o problema que o Senhor precisa solucionar: a desejável recompensa por fazer parte de Seu grupo. Com a parábola a seguir, Mateus retoma o tema da recompensa dos discípulos: ela não corresponde às consequências das ações realizadas. Antes, porém, com a misericórdia do Pai dos céus.

Dos vv.1-7, Jesus ilustra aos discípulos as ações de um certo dono de vinha. Por ser uma parábola, os contadores de histórias (seja o evangelista ou o próprio Jesus) transmitem imagens exageradas para chamar a atenção do leitor-ouvinte. O dono sai contratar trabalhadores para sua vinha, de manhã, bem cedo; de novo, às nove da manhã. Uma vez mais, ao meio-dia. Depois, às três, e, por fim, às cinco da tarde.

A atitude do dono é questionadora: é ele quem sai em busca dos trabalhadores, quando, na verdade, os feitores eram encarregados da tarefa. A atitude mostra a urgência que ele tem. Em que consiste tal urgência? Satisfazer vontades próprias? Enriquecer? Não. Ele pensa nas necessidades dos outros. Se ele estivesse pensando nas necessidades próprias, bastariam os que foram chamados na primeira hora. Parece espantoso um proprietário que pense primeiro nos outros, que em suas necessidades.

O patrão sai, última vez, às cinco. O leitor, aqui, já deve estar surpreso. Ele conhece o ambiente e o costume; sabe que é o último horário antes do sol se pôr, para iniciar a vigília do dia seguinte. Mas também a estes, na última hora, o patrão chama. É mais uma forma de Jesus e de Mateus enfatizarem que a atitude do patrão não é pautada por suas próprias necessidades ou ganancias, mas está toda ela orientada para o bem-estar do outro.

Na realidade do tempo de Jesus, quem não tivesse trabalho, não teria chance de comer, de se sustentar e à sua família. Os que estavam nas praças desocupados não estavam ali porque queriam, mas porque não encontravam trabalho. A falta de emprego não significa preguiça! É sinal de uma realidade e contexto históricos injustos. Com os primeiros, combinou uma moeda de prata, o equivalente a uma jornada inteira de trabalho, a qual começava às seis da manhã, terminando seis da tarde. Com os demais, ele combina “aquilo que for justo” pagar.

Dos vv. 8-10, Jesus narra o acerto de contas, ao final da diária. O patrão (lit. O Senhor / gr. κύριος/Kyrios, o que dá a entender que Jesus e Mateus identificam o dono à Deus), manda o encarregado do pessoal chamar primeiro os últimos, em consonância com a prescrição de Dt 24,15, onde se ordena pagar ao operário, no final do dia, antes do pôr-do-sol o equivalente a uma jornada de trabalho, para que não passem necessidade. A postura dos trabalhadores da primeira hora chama a atenção: murmuram contra o fato do patrão pagar a mesma quantia combinada com estes, no início da jornada, aos que chegaram por último. É logico – dentro dos esquemas humanos – pensar que os que trabalharam desde o primeiro momento, devessem ser mais favorecidos. A generosidade e a solidariedade do patrão os deixavam desconcertados e estupefatos. Não esperavam tal coisa. Começam a protestar contra a “injustiça” recebida. Murmurar é agir contra o projeto de Deus. Mas aqui no horizonte do texto ela representa o protesto dos privilegiados, contra a gratuidade / Graça outorgada aos que não tem nada.

A resposta do patrão é uma correção e visa abrir lhes os olhos: “Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?” (vv.13-15). Por três vezes no evangelho de Mateus Jesus usa o vocativo “amigo” (gr. ἑταῖρος/ehtaîros). Em todas elas, o termo é usado para mostrar que a pessoa está errada e precisa ser corrigida.

Na resposta do dono da vinha, “Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti” (v.14), Jesus enfoca o sentido da parábola: ilustrar o agir de Deus em relação ao ser humano que ainda não foi alcançado pelo projeto de Deus, pela dinâmica do Reino. Este projeto não é para poucos, alguns ou privilegiados, mas para todos, indistintamente. Os que estão dando o passo na fé e na salvação até mesmo na última hora da história humana tem lugar e espaço. Todos têm lugar. Sempre o agora da vida é hora da salvação. Diante deste ensinamento, o discípulo veterano deve tirar “o olho mal” (olhar maldoso) de si. Inveja é a tradução para expressão contida no original grego “olho mal”. “Estás com inveja (olho mal), porque estou sendo bom?”.

Eis a novidade que Jesus transmite através desta parábola: Deus não trata o ser humano segundo seus méritos, sua religiosidade, a assiduidade ou conduta do cristão de bem; mas o trata conforme a Sua gratuidade e generosidade, levando em conta a necessidade das pessoas. Não é o mérito que motiva Deus a agir, mas a necessidade que o ser humano apresenta. Necessidade de ter junto de si todos aqueles que ainda não foram alcançados pelo projeto do Reino aberto até na última hora da história de cada pessoa.

Ao terminar a parábola, Jesus faz uma consideração importante acerca do modo de agir de Deus: “Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (v.16). O modo de pensar e de agir de Deus diametralmente diferente do pensar e agir dos homens. Ele inverte (ou subverte) os esquemas humanos. Estamos diante do tema da inversão escatológica realizada por Deus através de Jesus. Que é a reviravolta radical que Deus opera na história reinserindo os últimos – pecadores, excluídos, marginalizados – no seu horizonte salvífico.

O discípulo do Reino é desafiado a se inspirar em Deus (Mt 5,48). Esta parábola pode ter sido dirigida tanto aos fariseus, interlocutores e opositores de Jesus, incapazes de imaginar que os recém-convertidos seriam recompensados, isto é, salvos por Deus na mesma medida que eles. Como pode ser aplicada a parábola também aos líderes da comunidade cristã, que, no contexto da vida comunitária poderiam  cair na tentação de se sentirem superiores e mais dignos de recompensa (aplausos, elogios, lugares de honras, adulações, senso de importância, méritos) do que aqueles que começaram a pouco na caminhada de fé, no seguimento a Jesus e à vida da comunidade. Não há nenhum privilégio a quem quer que seja. Isso vale para o discípulo e para a comunidade que se identifica como cristã.

Quem somos no horizonte deste evangelho? Em qual horário da nossa vida fomos chamados por Deus? Em que horário do discipulado estamos? Quais atitudes existem em nós, que não corresponde ao proceder de Deus diante dos últimos? Peçamos a Graça de um olhar sadio em relação ao irmão. Que nossas comunidades sejam espaço de vida e de acolhimento especialmente para os trabalhadores da última hora, porque jamais podemos nos esquecer que, talvez, estejamos entre eles também.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 12 de setembro de 2026

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 18,21-35:


 A leitura do capítulo dezoito do evangelho segundo Mateus chega a sua conclusão. A liturgia dominical propõe a meditação evangélica a partir dos vv.21-35. O discurso comunitário contido neste capítulo serve para iluminar e oferecer balizas para os discípulos de todos os tempos e lugares acerca do modo de se viver e crescer enquanto comunidade do Reino, e como seguidores e das seguidoras de Jesus. Ela deve ser espaço de acolhimento, de perdão e de promoção da vida das pessoas.

O v.21-22 Pedro parece não entender o que Jesus havia dito anteriormente acerca do Perdão: “Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”. A pergunta pode soar intimista. Interessante notar, que, no texto da correção (fraterna) comunitária, Jesus foi quem introduziu a questão do irmão pecador, colocando-a de forma geral. Agora, é o discípulo quem refaz a pergunta, direcionando-a para si.

A insistência do tema do pecado do outro deve apontar para alguma dificuldade que a comunidade está passando ao seu interno. A recorrência de temas indica que o ensinamento não está sendo bem compreendido ou sofre resistência.

O discípulo tenta induzir a resposta do Mestre, “até 7 vezes?”. O número sete indica plenitude. Aqui, portanto, terá o sentido de “plenitude da ação”.  Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas setenta e sete vezes” (v.22). Ele recorda para os discípulos uma passagem de Gn 4,24, onde o autor-narrador menciona um personagem chamado Lamec. Se trata de um descendente de Caim, conforme o texto de Gn 3,1 – 4,26. Em Gn 4,23-24 se lê: “Lamec disse à suas mulheres: (...) Eu matei um homem por uma ferida, uma criança por uma contusão. É que Caim é vingado sete vezes, mas Lamec, setenta e sete vezes”. Este trecho encontra-se nos primeiros capítulos do Livro do Gênesis. Neles, o autor sagrado se serve de um gênero literário antigo chamado de formulas de origens (relatos etiológicos / formulas de Toledoth), as quais tentavam explicar o surgimento dos nomes, dos lugares, das pessoas e das coisas.

Em Gn 3, narra-se a origem da descendência de Adão. Mas também se aproveita para tentar explicar a origem da violência. Ela surgiria do assassinato de Abel, por seu irmão Caim. Neste capítulo, Deus, depois de sentir falta de Abel, diz que “escutou seu sangue clamar”. Clamar, aqui, refere-se a intenção da vingança. O que o autor do livro pretende ensinar aos israelitas? Uma possível origem da vingança no mundo, e, ao mesmo tempo, indicar que o caminho do violento será sempre pautado pela sede da retribuição. Este número é, portanto, uma representação da máxima vingança, para o A.T. Infelizmente, no tempo de Jesus dava-se muito mais ênfase a esta atitude que ao ensinamento que os autores de Gênesis pretendiam dar: não pode haver este tipo de atitude no meio do Povo de Israel. Contudo, vigorava a máxima de Talião: “olho por olho; dente por dente”.

A intenção de Pedro, que reflete o pensamento do grupo (que era a mentalidade do povo) pode ser compreendida da seguinte forma: “quantas vezes se pode permitir ao irmão que pecou contra o projeto do reino voltar para comunidade?” “Existem limites a serem impostos?”

Jesus, ao responder “setenta e sete vezes” pretende, na verdade, corrigir o pensamento equivocado dos discípulos e do povo. Não há espaço para vingança na comunidade do Reino, nem limites ou condições a serem impostos. Sempre que a pessoa quiser voltar, deverá ser acolhida, mesmo que se vislumbre a sua queda. Assim, a resposta do Senhor não visa estabelecer uma quantidade matemática (70x7), mas ilustrar a qualidade do perdão e da acolhida fraterna em relação ao irmão que errou. O discípulo que procura fazer parte da comunidade do Reino necessita romper com a lógica da retribuição, o pagar na mesma moeda. Deve ser meta da comunidade e do discípulo perdoar sempre. Não à máxima vingança! Sim, ao máximo perdão! Não será a quantidade da misericórdia oferecida, mas a qualidade do perdão. O que torna o ser humano plenamente uma pessoa, a vingança ou o perdão?

Talvez, problemas na comunidade de Mateus estivessem surgindo. Por isso, compreender os horizontes se faz necessário. A comunidade se depara com o problema dos “Lapsis”, aqueles que caíram diante da perseguição do Império Romano e do Judaísmo da época. Eles renegavam a fé por medo de morrer. Mais tarde voltavam arrependidos para comunidade, pedindo acolhimento. Existiam correntes severas de cristãos que pensavam que, uma vez acontecida a queda da pessoa, esta seria definitiva, e não se podia admiti-la à comunidade. Ora, o indivíduo renegou a fé por medo, e não por convicção. Então, nesse caso, ao invés da máxima vingança, ainda mais o máximo perdão deve tomar lugar na vida comunitária.

Voltando para o horizonte do texto. Jesus, percebendo a dificuldade dos discípulos diante do tema do perdão ilustra o ensinamento com uma parábola, dos v.23-34. Tomemos a primeira parte dela (23-27). Começa com a história de um rei-patrão a quem se lhe devia muito dinheiro. Ele manda chamar, primeiramente, a um servo que lhe devia dez mil talentos (de ouro ou prata). Talento representava uma unidade de medida na época. Um talento pesava em torno de 34,232kg. Multiplique-se por dez mil. Logo, uma dívida impagável!

O empregado, não tendo condições de pagar, foi sentenciado a ser vendido como escravo, juntamente com sua mulher e filhos. Este, por sua vez, se ajoelhando diante do soberano pediu um prazo para o pagamento da dívida. O verbo utilizado pelo evangelista dá a entender que o servo peça ao rei-patrão que tenha um “coração grande” (gt Μακροθύμησον/makrotymison).

Uma parábola traz sempre elementos que chamam a atenção por meio do exagero. É o que acontece a seguir. O poderoso compadecido (cheio de misericórdia, lit. gr. σπλαγχνίζομαι/splangizomai), atende-o, perdoando a dívida. Parece um absurdo: o sujeito deve uma enorme fortuna, uma quantia impagável, está preste a ser penalizado, e o soberano o perdoa! Aqueles que escutam o ensinamento com certeza ficam perturbados porque aquela não era a lógica vigente. Se paramos aqui a meditação, então precisaremos colocar a nós mesmo a pergunta: “se este patrão-rei serve de imagem simbólica para Deus-Pai, estou disposto a aceitar este agir de Deus em minha vida? Estou disposto a agir como Pai do céu age? Me encontro de coração aberto para acolher esta imagem de Deus que Jesus me transmite? Se sim, então meu agir deverá ser diferente do que será narrado a seguir. De qual deus desejo ser filho, do justiceiro que condena e destrói os seus servos e empregados, ou do Deus e Pai que ama incondicionalmente e perdoa incansavelmente a seus filhos?

Uma certeza brota desta primeira parte da parábola: não há dívida, débito, pecado, falta, infidelidade que o Deus e Pai de Jesus não cancele, não destrua, não elimine, não perdoe. Não há pecado que Deus não perdoe!

Ao sair dali o empregado encontra com um colega que lhe devia a importância de cem denários (menos de 30g de ouro; ou equivalente a três meses de trabalho). O servo não compreende a dívida irrisória de seu companheiro. Este, por sua vez, suplicava-lhe um prazo para o pagamento. Pede que também ele tenha um coração alargado. O colega não lhe dá ouvidos e o lança na prisão. Interessante, o primeiro foi destinatário da misericórdia do seu patrão diante da dívida impagável. Mas ele mesmo não usou de misericórdia para com o companheiro devedor.

Os que ficaram sabendo da atitude do servo foram ao patrão e o delataram. Este, o chama e o interroga: “Servo malvado, eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”. A partir da fala do rei, o que se esperava do servo? Assim como foi plenamente perdoado, que desse o passo da misericórdia e do perdão ao irmão. Multiplicasse a misericórdia e o perdão recebidos.

Chegamos, pois, à conclusão do discurso eclesial, com o v.35: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. Em Mt 6,9-13, Jesus ensinara a seus discípulos a rezar. Na oração do discípulo do Reino contém o pedido do perdão: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. É um perdão gratuito de Deus, mas que será medido na vida do fiel a partir de seus atos.  Essa atitude do fiel servirá de modelo para atitude de Deus. Isto é profundamente comprometedor! Pois, na oração do Senhor, o discípulo pede ao Pai do Céu, que, no dia do juízo tenha a mesma atitude da pessoa no decorrer de sua história e de seu discipulado-missionário.

A conclusão da parábola toca diretamente o modo de proceder da comunidade. Quem não perdoar o irmão de coração, será tratado pelo Pai do Céus como um devedor desumano. A cena dá a entender que o rei-patrão condena o servo malvado. Mas Jesus deseja mostrar aos discípulos a verdadeira imagem de Deus contida na primeira parte. Nesta segunda, a intenção do Senhor é da mostrar que quem não vive conforme o agir do Pai, não será reconhecido por Ele como seu filho. Não se trata de uma sentença, mas de uma constatação. Não se pode cair no equívoco. Por maior que seja – no nosso modo de pensar – o perdão que concedemos ao irmão cotidianamente, ainda será menor que a misericórdia recebida diariamente do Pai do Céus.

Mateus, recuperando o ensino de Jesus propõe, para sua comunidade, que ela seja, constantemente, multiplicadora do perdão e da misericórdia de Deus.  Portanto, quando o discípulo a comunidade se dispõem a perdoar irrestritamente, imitam o modo de proceder do Pai, donde provem uma misericórdia e um perdão sem limites.

Questionemo-nos se nos identificamos com algumas destas personagens da parábola; se com Pedro, que tenta impor ao Mestre sua maneira de ser (pensar) e agir. Interroguemos se, enquanto discípulos, e como comunidade, temos agido segundo o querer de Deus. Temos vivido a máxima vingança (7x) ou a misericórdia sem limites (70x7)?

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco da paróquia santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 5 de setembro de 2026

REFLEXÃO PARA O XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,15-20:


 

A liturgia nos introduz na leitura do quarto discurso do Evangelho segundo Mateus, o “Discurso Eclesial” contido em Mt 18,1-35 Através deste ensinamento, Jesus coloca para seus discípulos as balizas para serem reconhecidos como membros da ekklesia, a comunidade do Reino. Esta catequese é dirigida aos discípulos, primeiramente; mas no horizonte da obra, o autor, recuperando o ensinamento do Senhor, aplica-o a vida e ao contexto de sua comunidade, dados os desafios que começam a surgir. Mateus, de sua parte, apresenta os ensinamentos contidos no Discurso para lançar luzes para a vida de sua comunidade. O discurso visa levar a comunidade dos discípulos a pautar sua ação pela justiça do Reino.

No contexto amplo, Mateus narra o início do capítulo mostrando Jesus exortando os discípulos a assumirem a atitude exemplar dos pequeninos, com o gesto metafórico de colocar ao seu meio uma criança, visando coibir a mentalidade e a tentação da superioridade ao interno da comunidade (18,1-5). Em seguida, adverte para o perigo dos escândalos ao interno da comunidade, os quais geram obstáculos aos pequeninos (os recém-iniciados na Fé em Jesus e na vida comunitária, 18,6-9). Em seguida, tem-se a primeira parábola do mestre ao interno do discurso, a da ovelha extraviada, Mt 18,10-14 (ela foi tornada assim pela intransigência das lideranças e dos escândalos ao interno da comunidade).

O trecho bíblico de hoje, Mt 18,15-20, apresenta o texto da chamada “correção comunitária”. Como bom mestre, Jesus propõe uma situação: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, à sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão” (v.15). O texto contido nos originais, em grego, omite o pronome obliquo de segunda pessoa, “ti”, ficando assim: “se teu irmão pecar”. Qual o sentido deste dito? Se o irmão começar a tomar atitudes incompatíveis com o projeto do Reino, levando uma vida que não condiz com o modo de ser de Jesus. Nesse sentido, o pecado reside no ato de se colocar contrário ao projeto prescrito em Mt 5 – 7, no Sermão da Montanha: as bem-aventuranças.

Qual o passo a ser dado? A pessoa deve ser chamada, e ser mostrado a ela que o seu modo de vida está incompatível com o a ética do Reino. Pode haver dois resultados: positivo e negativo, que acompanharão os próximos passos. O positivo resulta na conversão (retomada do caminho do discipulado), enquanto o negativo, na redução do indivíduo à categoria de multidão. Algo desta natureza deve estar acontecendo na comunidade do evangelista e, por isso, ele retoma este ensinamento de Jesus. O termo irmão, utilizado nesta pericope, reflete uma relação comunitária.

Outro elemento que nos chama a atenção é o fato de que não é o culpado que deve vir pedir perdão. Mas o irmão ofendido, que deve ir ao encontro daquele. O verbo “corrigir”, utilizado na tradução litúrgica pode dar sempre a impressão de superioridade a quem corrige e de inferioridade ao corrigido. O verbo correto é convencer, isto é, fazer  que o irmão tome consciência do erro cometido. Não há espaço para superioridade e inferioridade ao interno da comunidade.

O texto de Mateus mostra que o aconselhamento deve ser feito três vezes. O número três na teologia bíblica simboliza a condição humana. Representam as três dimensões constitutivas da pessoa: alma, espírito e corpo. Sua totalidade. Significa, aqui, a opção incondicional pelo ser humano que a comunidade, constantemente, deverá exercitar. Por isso, Jesus orienta, na segunda vez, a presença de mais duas testemunhas. De modo que o procedimento siga as orientações de Dt 19,15, onde elas dão veracidade ao ato, e, acima de tudo, a questão não seja decidida por uma só pessoa, evitando o risco de que o procedimento ou a decisão venha a ser fruto do autoritarismo do líder.

Os três passos da correção comunitária ensinam o seguinte: A comunidade é a instância de decisão, e não o arbítrio, o humor ou gostinho das lideranças; ela deve ter os mecanismos para a integração da pessoa no horizonte do projeto de Deus, ainda que deva ela mesma encaminhar o indivíduo para recomeçar o caminho, para refazer o processo do discipulado.

Nas três tentativas, Jesus deixa bem claro que existe a possibilidade da pessoa fechar-se diante do aconselhamento comunitário. A pessoa é livre em sua decisão e o Senhor preserva a liberdade do outro. Nada se impõe. Muito menos a comunidade deverá se colocar de modo impositivo diante do irmão que errou. Por isso, a atitude eclesial não é uma sentença escatológica, isto é, a palavra final na vida da pessoa. A última palavra é sempre a de Deus.

O recurso do aconselhamento (correção) comunitário é, acima de tudo, pastoral. Porque ele recoloca a pessoa no grupo da multidão, a fim de busca-la novamente e habilita-la para o seguimento. A atitude da comunidade não é, e não poderá ser, a da exclusão. É contra isso que ela deve lutar, iluminada pelas palavras e atitude de Jesus. Por isso, as palavras contidas no v.17, “Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público”, devem ser entendidas nesta perspectiva. Ser declarado como pagão ou pecador, nada mais é que reconhecer que o indivíduo ainda não deu o passo na fé. Mas ao se tratar de um membro da comunidade que já aderiu à Cristo, ser considerado uma pessoa como esta significa receber a chance de recomeçar e retomar o caminho. A comunidade deve ser lugar do perdão e espaço da misericórdia; ambiente de recomeço.

“Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (v.18). Com a mesma expressão utilizada para Pedro (Mt 16,19), transmite à comunidade uma responsabilidade, e não um poder retentor, relacionado ao perdão. O que Jesus quer dizer? Que quem não perdoa retém o perdão de Deus. O perdão de Deus já foi dado, mas se torna eficaz e operativo somente se traduz-se e se transforma em perdão aos irmãos.

Os vv.19-20 concluem: “De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”. Ao contrário do que costumeiramente se pensa, este dito não alude à importância e a eficácia da oração comunitária. Estes ditos devem ser entendidos a partir do contexto do aconselhamento comunitário. Céu refere-se ao âmbito do Pai. Terra refere-se ao lugar da comunidade cristã. O evangelista quer ensinar que existe uma estreita relação entre o Pai e a comunidade. Ele utiliza o verbo synfoneo (gr. συμφωνηω / συμφωνησωσιν), “estar de acordo”, “agir segundo a mesma sinfonia”. Daqui se origina o termo sinfonia. O que é uma sinfonia? Uma música, que, a partir de uma partitura é tocada por instrumentos diferentes, num mesmo tom (na diversidade dos instrumentos). Nesse sentido, a comunidade cristã é uma orquestra sinfônica, e age como tal, quando toca sob a partitura do amor de Deus que perdoa, acolhe, recupera a pessoa, integra e gera vida. Sua partitura é o Evangelho. Assim, a comunidade deverá fazer sua oração para discernir a respeito da decisão a ser tomada em relação ao irmão. Ser consciente de que no meio dela está Jesus. Portanto, é uma oração que se faz na presença do ressuscitado, conduzida por seu Espírito.

Emerge do texto evangélico de hoje todo o esforço do evangelista em coibir, no interno de sua comunidade, qualquer postura vingativa, revanchista, autoritária, moralista por parte das lideranças comunitárias. Quando essas mentalidades são alimentadas, os indivíduos ficam completamente fragilizados e a comunidade se fragmenta. E passa a se submeter aos caprichos e às vontades das lideranças. Com isso, se distancia da sintonia e da sinfonia do Reino e do Pai.

Que estejamos sob a mesma partitura, sob um único maestro, executando a sinfonia do amor, do perdão e da vida.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco da paróquia santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.