sexta-feira, 3 de abril de 2026

TRÍDUO PASCAL: Solene Vigília Pascal (Mt 28,1-10):


 

A liturgia desta noite santa, Mãe de todas as vigílias, nos convida a tomar o texto mateano que narra a experiência da ressurreição, Mt 28,1-10, o último capítulo da catequese do evangelista, o qual conclui de modo magnifico todo este evangelho eclesial. Mas qual a finalidade deste relato? Mostrar uma forma de se fazer experiência com Jesus ressuscitado. Fazer memória às Palavras de Jesus e refazer o sentido de sua vida, acolhendo o convite de retornar à Galileia.

Nenhum evangelho descreveu a ressurreição de Jesus. A imagem clássica e tradicional do Cristo triunfante, de fato, não pertence a tradição do Novo Testamento, mas a um escrito apócrifo do Século II, chamado “evangelho de Pedro”. Contudo, os quatro evangelistas dão indicações, através de seus escritos e das experiências comunitárias com o ressuscitado de como puderam encontra-lo. A ressurreição não foi um privilégio concedido a um pequeno grupo dois mil anos atrás, mas se torna uma possibilidade aos crentes de todos os tempos. Apropriemo-nos também desta experiência, meditando o texto.

“Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro” (v.1). O evangelista inicia o relato com uma observação temporal, “Depois do sábado”. O sábado era dia a ser observado rigorosamente pelo judeu do tempo de Jesus. Violá-lo significava falta gravíssima. Mateus coloca esta referência cronológica para transmitir uma mensagem teológica: a observância deste preceito faz com que a comunidade dos discípulos retarde a sua experiência com o Ressuscitado. Enquanto existirem esquemas antigos, ainda não rompidos, não se conseguirá fazer experiência de vida. O evangelista utiliza o verbo “ver” para descrever a atitude das mulheres. Este verbo não traduz apenas o sentido da visão física, mas também a atitude de se fazer experiência com algo ou alguém. É uma atitude também ligada aos afetos que nutriam pelo mestre. Mas elas se dirigiram ao sepulcro para vê-lo, ou seja, para fazer a experiência com a realidade da morte, apenas.

“Ao amanhecer do primeiro dia da semana”, o evangelista faz memória do primeiro dia da criação. O primeiro dia da semana constitui-se também como o oitavo, já que o sábado era o sétimo dia. O número oito, na Igreja primitiva foi associado ao Cristo ressuscitado. O evangelista pretende ensinar à sua comunidade que aquele oitavo/primeiro dia é, agora, o novo e definitivo dia da Nova Criação. A ressureição do Senhor é a nova criação, ou a recriação da história, da humanidade e do universo a partir, agora, de Jesus Ressuscitado.

“Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”, mas falta uma mulher. Recorde-se que, próximo à cruz de Jesus estavam Maria, mãe de Jesus, Maria de Magdala, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ela não está no grupo que vai ao sepulcro. Por quê? Era ela uma mulher ambiciosa, lembremos que ela havia pedido os lugares de honra para seus filhos, mas quando se deu conta de que aquele Jesus fracassou no seu projeto de messias, perdeu toda a sua esperança e não se tornou testemunha da ressurreição. Mateus pretende dar um sinal claro para seus discípulos e para nós: se quisermos fazer a experiência com Jesus, o vivente, é importante que todo o caminho do Senhor seja passado a limpo em nossas vidas, a fim de se crescer na consciência de que a vida do mestre é perpassada pela via da cruz.

“De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela” (v.2). O terremoto, na teologia bíblica é um sinal simbólico da manifestação divina. Acontece, ali, portanto, uma teofania reveladora. Ela já ocorreu uma vez, no calvário, quando Jesus entregou o seu espírito nas mãos do Pai. O terremoto é um indicativo de que um novo tempo está surgindo, pois no A.T, os autores bíblicos se serviam deste fenômeno da natureza para marcar o fim de uma época e o começo de uma nova história. Ora, se na morte de Cruz de seu Filho, Deus se revelou presente, tanto mais agora, na ressurreição, a fim de revelar que toda a vida deste Jesus recebe do Pai a aprovação. Se no Crucificado Deus revelou-se presente, ainda mais no Ressuscitado.

“o anjo do Senhor desceu do céu”, a personagem angelical aqui presente não pode ser tomada ao pé da letra; não é uma criatura intermediária ou etérea. O anjo, na bíblia, simboliza a ação de Deus, ao entrar em contato com o ser humano. No evangelho de Mateus, esta figura simbólica aparece por três vezes: para anunciar o nascimento de Jesus; para protege-lo do olhar homicida de Herodes; e, por fim, para anunciar àquelas primeiras testemunhas a novidade da vida indestrutível em Jesus de Nazaré.

Interessante: não é o terremoto que faz rolar a pedra, desobstruindo o sepulcro, mas o anjo de Deus, que é o próprio Deus. O Pai mesmo confirma a vida do Filho Jesus. Ele é soberano na vida de seu Cristo. O anjo senta-se sobre a pedra retirada do sepulcro:  na antiguidade, o gesto de se sentar sobre algo era símbolo da conquista e vitória. Ali, naquele sepulcro, Deus realiza sua soberania sobre a morte e a vida. A aparência e vestimentas do mensageiro celeste são descritas por Mateus com os mesmos tons e cores da cena da transfiguração em relação à Jesus, em 17,1-13: “Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve” (v.3). São as cores e os elementos pertencentes ao âmbito de Deus, ou seja, manifestam a sua glória.

“Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos” (v.4), nos informa Mateus. Diante de uma experiência que pertence ao âmbito da vida, qualquer um que pertença aos sistemas e realidades de morte, como os soldados do império, fazem apenas uma experiência de morte. O evangelista é irônico. Aqueles que eles pensavam estar morto, está vivo; e aqueles que pensavam-se vivos, ficam, agora, como mortos.

“Então o anjo disse às mulheres: 'Não tenhais medo!” (v.5). O medo, na bíblia, é o contrário da fé. Pois ele paralisa; ao mesmo tempo que mantém na zona de conforto, e, por isso, não possibilita realizar o confronto com a realidade. Se o discípulo deseja, verdadeiramente, fazer a experiência da ressurreição e com o ressuscitado, com sua nova vida, com as novas possibilidades e novos horizontes precisa, pois, vencer o medo. Que medo te impede, hoje, de fazer uma experiência nova de vida, a partir da vida plena que Deus através do Ressuscitado está a oferecer?.

E continua, “Sei que procurais Jesus, que foi crucificado” (v.5b). Muito importante esta nota, pois ele deseja acenar para a mentalidade que se nutria a respeito de quem fosse crucificado; era tido como maldito perante a Lei (Dt 21,22). Mateus deseja mostrar para a sua comunidade que essa concepção acerca de Jesus está equivocada. Por isso a declaração do versículo seguinte é explosiva.

“Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava” (v.6). Atenção! anjo não diz “ele não está mais aqui”, mas, “Ele não está aqui”, pois o sepulcro nunca foi lugar para Jesus, por isso ele não pode conter o vivente! Ele lhes apresenta uma prova, as palavras de Jesus: “como havia dito”. Elas são o critério para que os discípulos e a comunidade consigam realizar a memória de Sua vida e experimentar a ressurreição. O Sepulcro não é, e nunca será o lugar definitivo para a existência de ninguém. Não o foi para Jesus. Por isso, não o será para o discípulo e para a discípula do Reino.

As mulheres são chamadas a fazerem primeiro esta memória, e, com isso, a experimentar o triunfo da vida. Memória é um primeiro critério para que se possa fazer a experiência da ressurreição e mesmo com Jesus Ressuscitado. O que seria esta memória? A capacidade de recordar, ou seja, procurar no coração e na mente as Palavras do Senhor e seus ensinamentos; revivê-los e torna-los existencialmente vividos novamente através da vida e das histórias pessoais de cada homem e mulher que aderiu ao sentido de Sua vida. E, por fim, torna-las presentes e atuantes na história. Com isso, atualizar a vida e a presença do Cristo em meio. A memória é o passar a limpo a vida, missão, obra do mestre na vida do discípulo e da discípula.

Às mulheres são destinadas as palavras de Jesus como chave de compreensão para o acontecido com o mestre. Esta é a uma profunda inversão dos esquemas e das lógicas humanas daquele tempo, pois elas não eram consideradas. Para se dar como verdade uma notícia ou um fato, a cultura e a sociedade de Jesus exigiam através da lei a verificação de duas testemunhas qualificadas, ou seja, homens e em número de dois. O testemunho das mulheres não tinha peso. Mesmo se fossem em número de duas, como o texto relata. Por isso, o testemunho do qual são elas incumbidas de dar tem muita força pois rompe com os padrões da época e é o que garante a veracidade do anúncio e do fato da ressurreição. Mulher alguma, ou, pessoa alguma se arriscaria por uma mentira. Mas, ao mesmo tempo, o evangelista deseja ensinar que a experiência da vida nova deve atingir a todos, sem exclusão; rompendo com toda e qualquer mentalidade sexista, machista, misógina, sectarista, elitista. Ou seja, a força de vida que contém a vida vitoriosa de Jesus deve ser doada a todos. Por isso, esta experiência não deve ficar “sepultada”, guardada unicamente para elas; antes, devem “ir de pressa contar aos discípulos que Jesus ressuscitou dos mortos”.

O mensageiro estabelece um segundo critério pedagógico para as mulheres, além das palavras de Jesus (da experiência da memória): retornar para a Galileia. Porque o mestre “vai à vossa frente para a Galiléia. Lá vós o vereis” (v.7). A localidade parece ser importante para o evangelista, porque ela aparece três vezes. Lá a comunidade dos discípulos poderá ver o ressuscitado. É importante o verbo “ver” de que Mateus faz uso. Ele aparece também nas Bem-aventuranças (Mt 5,8, “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”). Este verbo não indica apenas uma capacidade física atrelada aos sentidos do ser humano, mas uma profunda experiência interior com Deus.

Ligada a esta ordem divina, é o mesmo que afirmar, “na Galileia da realidade da vida é que vocês poderão fazer experiência com o ressuscitado”. Note-se, que Mateus diz que Jesus ressuscitado não se manifestará em Jerusalém, sede do poder e da dominação (cidade assassina dos enviados de Deus), mas na Galileia, lugar das primeiras experiências que os discípulos fizeram com Jesus; lugar de sua pregação e primeiro anúncio do Reino.

“As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos” (v.8). A medida que as mulheres vão se afastando do sepulcro, que remete à impossibilidade de vida, vão recuperando a alegria, e se preparando para transmitirem o anúncio. No meio do caminho acontece algo: “Jesus foi ao encontro delas, e disse: 'Alegrai-vos!” (v.9). Enquanto estão indo pelo caminho para anunciar a vida, o Senhor da vida lhes vem ao encontro, para com Sua presença reforçar o anúncio. Então as mulheres se aproximaram, prostraram-se e beijaram os pés de Jesus. A menção dos pés indica e confirma que as mulheres tiveram um encontro real com Jesus; indica a realidade física de alguém. Não com um espírito ou fantasma. O gesto da prostração recorda o reconhecimento e a reverência do ser humano diante da glória divina. Ou seja, elas reconhecem agora a Jesus como Deus e doador da vida divina. Na medida em que elas se dirigem para levar a alegria e a força da vida para os discípulos, elas fazem a experiência com o vivente Jesus, no caminho, isto é, na realidade e na concretude da vida.

De fato, trata-se do encontro com alguém que está vivo. Jesus fala com elas, e lhes recomenda, mais uma vez, a não terem medo. E confirma as palavras do mensageiro celeste: “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão” (v.10). Agora, elas são encorajadas a cumprirem a função do anjo: elas devem se tornar as anunciadoras da vitória do Mestre; devem ser as mensageiras da grande notícia do triunfo da vida sobre a morte. Devem fazê-lo, primeiramente aos discípulos, os quais são chamados de “irmãos”, por Jesus. Repete, novamente, a ordem de se dirigirem para a Galileia. Por quê esta insistência de Jesus, que Mateus recupera? Porque somente refazendo os passos de Jesus, de sua vida e de seu ensinamento se pode fazer experiência com o ressuscitado.

O texto evangélico nos provoca: 1) O que procuramos “ver”, um sepulcro, um defunto ou um Vivo? 2) Qual o nosso estado de ânimo: medo paralisante e “confortante” como as mulheres que se dirigem ao túmulo fazer experiência com a morte, ou como as mulheres que se permitiram transformar no caminho com o Vivente? 3) Estamos dispostos a atualizar a presença da vida do Senhor através da nossa vida (fazer memória)? 4) Estamos igualmente dispostos a refazer sempre e constantemente o caminho da primeira experiência com Jesus, voltar para a Galileia?

Ao nos colocarmos nestas provocações poderemos encontrar-nos no caminho com o Vivente, o Ressuscitado.

Feliz e santa Páscoa.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

TRÍDUO PASCAL – Sexta-feira Santa da Paixão do Senhor (Jo 18,1 – 19,42):


Paixão. O que significa esta palavra? Sempre nos deparamos com ela no decorrer da semana santa, e no Tríduo Pascal ela ressoa quase como que um eco ao fundo, até que na Sexta-feira, a Igreja, continuando a celebração do Tríduo recebe este nome. É preciso entende-la sob dois sentidos: afetivo (da ordem dos afetos) e operativo (da ordem da ação). 

Paixão, segundo a ordem dos afetos, é uma força de sentido. Vem da palavra grega Pathos, que significa sentir. É a capacidade humana de, utilizando toda as dimensões sensoriais, psíquicas, de sentir algo. Seja positivo ou negativo. Uma série de impulsos demasiadamente humanos e biológicos. Ela esta sempre ligada a dimensão relacional do ser humano. Segundo a ordem da ação, a paixão se torna impulso para a vida, ou seja, faz a vida acontecer e se mover. Neste sentido, a paixão move uma vida.

Unindo estas duas perspectivas, como entende-las em Jesus? Por que dizemos que este dia é o da “Paixão do Senhor”? Compreendendo que Jesus, sentiu em sua carne, em sua existência todas as dimensões humanas. Deixou-se afetar pelas necessidades do ser humano. Teve a capacidade der perpassado por todas as inquietações, contingências, dores, angustias, até às últimas consequências. Até a morte. Somente uma pessoa que sente as necessidades dos outros, mesmo as mais gritantes e desumanas. Ou seja, sentiu a que ponto pode chegar a desumanização e, portanto, desfiguração do homem e da mulher. O verbo se fez carne e se apaixonou por nós!

A Paixão de Jesus foi apenas uma passividade do sentir, e tudo bem? Não. E aqui, se pode entender o segundo sentido da paixão, a sua dinâmica operativa (a ação). Somente porque ele se deixou perpassar pelo sentir da humanidade é que ele pôde colocar sua vida em movimento, ou seja, agir. Assim, a paixão transforma uma vida, enriquecendo-a de plenitude de sentido. Para onde a Paixão moveu Jesus a viver a sua vida? Para a relação com o Pai e para o Reino. Este duplo horizonte se tornou a causa da vida e da missão do Senhor. Somente um Deus que se apaixona é que pode mover-se na direção de cada pessoa humana. Somente um Deus apaixonado é que humanizar-se para salvar e redimir a humanidade. Somente uma paixão bem vivida (vivida plenamente) é que pode se transformar em amor e gerar vida plena naqueles que estão ao redor. É em virtude desta paixão, entendida a partir destes dois significados, é que se pode entender inclusive a vida levada até às últimas consequências. Assim entendida dinâmica da paixão relacionada à Jesus, se pode meditar o texto evangélico deste dia solene.  

A narrativa da paixão no evangelho joanino é diferente das contidas nos sinóticos (Mc, Mt e Lc). O evangelista segue um fio narrativo de Mc (o primeiro evangelho escrito), porém distancia-se e muito na forma de narrar e de apresentar a personagem principal da “opera”, por assim dizer. Trata-se de um relato que vai a fundo ao apresentar e revelar a Glória de Deus em Jesus. O catequista bíblico não economiza ao mostrar a realeza de Jesus. Pode-se dizer com toda a segurança que, ao interno da narrativa da paixão joanina, e somente nesta seção, o Cristo é mostrado como soberano; é rei.

Se faz necessário situar o texto ao interno do contexto litúrgico, isto é, na sequência do texto da quinta-feira santa da ceia do Senhor. Ora, somente o discípulo que segue Jesus até à “bacia, o Jarro e à mesa”, poderá tomar parte da hora da glorificação.

Chegou a Hora de Jesus. Durante toda a primeira parte do evangelho joanino – o livro dos sinais – os gestos simbólicos operados por ele possuem a finalidade de revela-lo como enviado do Pai, Aquele que realizará sua obra, como também aprontar o discípulo para a Hora da Glória (seu enaltecimento/elevação). Um esclarecimento importante: a Glória da qual fala o evangelista João não pode ser entendida como um brilho ou algo resplandecente. No vocabulário do evangelista, que é todo proveniente da tradição bíblica do Antigo Testamento, a palavra “glória” (hbr. Kabod) é traduzida por “presença”. Logo, ao se falar da “Glória de Deus” (Ez 10; Ez 43,1-27), está se referindo à presença (ao peso) de Deus. A glória, portanto, da qual o Jesus joanino fala é a realidade da presença de Deus mesmo no dom da Sua vida, existência e obra. Quando se revela a Glória de Jesus? Na Hora da Cruz. Ela revela a que a vida de Jesus é o [novo] lugar/santuário da presença de Deus na história. Agora podemos tomar o texto a partir das personagens.

No Jardim (Jesus e Judas) – Jo 18,1-12:

O evangelista chama a atenção do discípulo-leitor para Jesus. Na teologia do Quarto Evangelho, João o apresenta sempre consciente e onisciente. Na ceia (13,4), o havia relatado ciente de que havia chegado a sua Hora, e de que tudo o Pai havia posto em suas mãos.  Não seria diferente na narrativa da paixão. Ele não é vitimizado pela situação. Não permite que ninguém, exceto o Pai, tenha a Sua vida nas mãos. É um homem senhor-de-si.  Por isso, não é surpreendido por Judas e pelas pessoas que vieram prendê-lo. Note-se que Ele mesmo vai ao encontro do traidor (Jo 18, 4). Típica ironia joanina, o evangelista nos conta que Judas vem equipado com lanternas e tochas, que são iluminações artificiais. O evangelista gosta de redigir as cenas com nítidos contrastes. Luz, escuridão, iluminação natural contra artificial; dia versus noite. Para mostrar que a verdadeira luz é Jesus. Judas, ao sair do convívio da ceia já era noite fechada (13, 30). O evangelista quer mostrar que este discípulo fez a opção contrária à luz; cindiu com ela. E agora, ele é quem precisa de luz artificial. Esta personagem contrasta com o Senhor na medida em que decide-se por agir contra o projeto e o querer de Deus que se realiza através do Filho. Judas é o anti-modelo que o verdadeiro discípulo deve rejeitar, ou se distanciar na medida em que vai relacionando-se com Jesus.

Anás, Pedro e o discípulo amado - Jo 18,13-27:

O evangelista apresenta três personagens. Anás, sogro de Caifás, o sumo sacerdote em exercício. O segundo personagem é Pedro. Notemos um contraste operado pelo evangelista entre Pedro e Jesus: enquanto este está demonstrando sua inocência naquele interrogatório viciado, seu mais conhecido seguidor está mostrando fraqueza. Pedro, durante a narrativa da ceia se mostra todo resistente. Esta personagem serve ao discípulo que lê o Evangelho de João como símbolo daquele que precisa assimilar verdadeiramente o sentido da vida de Jesus, para poder fazer a sua opção pró-Jesus. Emerge uma outra personagem, presumivelmente “o discípulo que Jesus amava”. Não há fundamento em identificá-lo com João, o autor do Quarto Evangelho (o que seria demasiado simplista). Mas, fato é, ele está à frente de Pedro e contrasta com ele. Ele é sempre mais rápido ao ver, ao compreender e em acreditar, precisamente porque fez a experiência com o amor de Jesus, que é uma marca da verdadeira condição de discípulo

Jesus diante de Pilatos – Jo 18, 28-42:

O evangelista apresenta uma personagem confusa. Um camaleão. Um amedrontado Pilatos. Soma-se a isso a alternância dos cenários externos e internos. Nesse vai-e-vem, Pilatos vai mudando e assimilando as imagens de seus ambientes. Ao interno do palácio ocorre a alternância entre luz (externo) e trevas (interno). Na maneira como João dispõe a narrativa, o inquérito acontece ao interno do palácio, para revelar esta oposição típica de seu evangelho: luz / trevas. A intenção (ainda que através de sua ironia) é revelar Jesus, mesmo solitário e recluso no palácio, como Luz diante de Pilatos, envolvido em dúvidas e trevas.

O diálogo entre eles revela muito, de acordo com o evangelista. Na intenção dele está para começar o processo de Jesus contra o Mundo, representado pelo Império. João disse no prólogo do evangelho que “O mundo não o conheceu (Jesus), e os seus não O acolheram”. Jesus está diante do procurador romano, que o interroga com base naquilo que ouviu. “Tu és o rei dos judeus?” A resposta de Jesus soa desafiadora: “Estas dizendo isso por ti mesmo, ou outros te disseram isso de mim?” Jesus não responde nem que sim, nem que não. Ele deixa que o próprio Pilatos tome sua decisão e tire suas conclusões. Ao insistir na culpabilidade de Jesus, emerge, pois, uma declaração muito importante acerca de Jesus, de sua vida e obra. Ele responde: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. O que o Jesus joanino quer dizer com essa reposta?

Se faz necessário tomar o texto dos originais, em grego, para captar o sentido da resposta de Jesus, que se expressa assim: “o meu reino não vem deste mundo ( gr. Ἡ βασιλεία ἡ ἐμὴ οὐκ ἔστιν ἐκ τοῦ κόσμου τούτου / ek tou kosmou tuotou)”. A realeza de Jesus não provém das realidades mundanas, das estruturas de poder, domínio, opressão. Vem do alto. Jesus declara, pois, que sua realeza depende e está estritamente relacionada à Deus. A autoridade que ele exerce, só a faz porque é da vontade do Pai. As palavras “meu reino não é daqui (= deste mundo)”, portanto, não dão margem para sugerir uma fuga do mundo, da realidade, da história humana, nem justificam qualquer tipo de alienação. Pelo contrário, convocam o discípulo a uma lucidez superior. Aderir ao reino de Jesus é aderir à verdade daquele que, em tudo o que faz, é palavra de Deus e que liberta de toda escravidão, e que restaura o mundo, enquanto realidade criada por Deus.

Mas neste diálogo emerge mais uma novidade muito profunda e marcante. Pensemos. Pela lógica do inquérito, Pilatos faz as vezes do juiz que interroga, questiona e apura os fatos para dar cabo de uma sentença. Entretanto, a partir das respostas eloquentes que Jesus dá aponta para uma revelação importante: o juiz não é Pilatos. No inquérito, quem assume a figura do juiz é Jesus, deixando para Pilatos o papel de investigado. Mais uma vez, a finalidade é mostrar Jesus superior a realidade e a trama que o circundam, porque só quem autoridade sobre sua vida é o Pai. E mesmo assim, é através de sua liberdade enquanto homem que Jesus vive sua fidelidade ao projeto de vida plena, em amor até o fim, ao Deus que chama de Abá-Pai. Porque este Abá não exige do seu Filho qualquer sacrifício de sangue, ou mesmo uma morte expiatória.

A morte (19,28-37):

Após um caminho longo, Jesus chega ao lugar da crucifixão. Depois de tomar o vinho azedo, Jesus exclama: “Tudo está consumado” (mesma expressão do v. 28), inclina a cabeça e “entrega o espírito”. Nestes versículos 28-30 ocorre duas vezes o verbo teléo, “consumar/levar ao fim” (vv. 28 e 30). O dito “Tudo está consumado” acena para a realidade de que toda a vida de Jesus, através de suas obras e Palavra refletem a vontade de Deus. Significa, ainda, que a vida e obra de Jesus atingem a Plenitude. Mas também revela a superação dos sistemas antigos dos sacrifícios levítico-cultuais. João faz coincidir a morte de Jesus no calvário com o exato momento em que se imolavam os cordeiros no templo, por ocasião da festa da pascoa. Jesus supera, com o dom de sua vida em amor, os antigos sacrifícios e se torna, pois, o único mediador entre a humanidade e Deus. Não são mais a observância da Lei, nem das prescrições cultuais os meios necessários para se ter acesso a Deus, mas a humanidade, a vida e a obra de Jesus. Esta vida, Ele a entrega nas mãos do Pai.

O “entregar o espírito” (a existência) acena para aquela onisciência e senhorio de Jesus, de que se falou a pouco. O verbo grego paradidomai (entregar/doar) percorre toda a narrativa da paixão, mas aqui ele revela e, ao mesmo tempo, afirma o domínio de Jesus diante da situação: quem entrega sua vida é ele mesmo, sabendo que tem o poder de retomá-la novamente. Ele livremente a doa, para que o Pai reconheça esta mesma vida como salvífica e redentora, dizendo a última palavra sobre a vida deste seu Filho.

A morte de Jesus, de maneira tão crua, só pode ser entendida à luz de sua vida vivida, através de seu ministério. Ela é a consequência e o resultado da vida, das opções, decisões, vividas à luz do amor fiel ao Pai e aos irmãos, mesmo em face às hostilidades dos chefes do povo. Isso não é fazer uma leitura política da vida de Jesus. Sua vida era conflituosa pelas questões que provocava e pelos interesses que abalava. Isto vê-se no seu modo de viver, na sua práxis escandalosa, não facilmente aceita, principalmente no tocante a Sua opção pelos últimos. Nesse sentido, a pregação de Jesus foi uma inversão de valores. Rompeu com os esquemas estabelecidos. Assim, a condenação de Jesus é uma rejeição a sua pessoa e a tudo o que Ele faz durante sua vida.

O relato de hoje nos deixa diante de duas perguntas: 1) Com quais personagens me identifico? 2) Como tenho vivido minha existência cristã e meu discipulado? A chave e o modo para viver o discipulado é a forma da Paixão. Não existe discipulado que não seja perpassado pela Cruz. Mas Ela não será a última palavra.

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

quinta-feira, 2 de abril de 2026

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA DA CEIA DO SENHOR – Jo 13,1-15:


 

O Tríduo Pascal se abre com a celebração vespertina (ao final da tarde, começo da noite) da Missa da Ceia do Senhor, e se prolonga até o final da tarde da Sexta-Feira da Paixão. A Quinta-feira santa, no plano simbólico-sacramental, isto é, celebrativo, se faz memória e antecipação daquilo que depois será realizado na cruz: na ceia, Jesus, simbólica e existencialmente, se entrega. Hoje inicia-se a nossa Páscoa.

O caráter memorial desta noite, que perpassa os outros dois dias do Sagrado Tríduo Pascal reside no fato de se fazer memória, isto é, atualizar o evento fundador da fé cristã: a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Somos convidados, através desta solene e grande celebração a sermos contemporâneos ao acontecido com o Senhor. Ou seja, a partir da dinâmica memorial, com nossos pés teológicos (da fé), a ir para a ceia, para o calvário e para o sepulcro vazio, e, ao mesmo tempo eles virem até cada um de nós. Por isso, esta noite “é diferente das outras noites”.

Esta noite começa a ser para nós, povo da Nova Aliança, uma noite diferente, que culminará na grande e solene “noite mil vezes feliz” da Vigília Pascal. Nesta noite recebemos a oportunidade de termos nossos pés lavados a fim de podermos tomar parte / comungar do mesmo gesto de Jesus.

A Ceia do Senhor carrega consigo profecia e testemunho. Profecia, porque ela se torna antecipação da entrega de Jesus mediante o gesto de lavar os pés dos seus; e testemunho, porque convida, interpela e questiona a conduta e a atitude do discípulo de todos os tempos, provocando-o a “seguir o exemplo” do mestre e Senhor, no fazer memória de Seu gesto, que institui o sacramento do amor servidor (Ministério Ordenado), e do sacramento de seu Mistério Pascal, presente entre nós (Eucaristia). O “fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24), alcança sua plenitude histórico-salvífica quando estreitamente vinculado ao “dei-vos o exemplo para que façais como eu fiz” (Jo 13,15). Isto posto, podemos meditar o texto do Quarto Evangelho, Jo 13,1-15.

O leitor-discípulo é convidado, agora, neste capítulo 13, a tomar parte do Ensinamento Final de Jesus; chamado a entrar na dinâmica da sua Glória, através dos sinais realizados por Ele na primeira parte do evangelho Joanino, os quais preparam para esta Hora, a revelação da Glória de Deus em Jesus. Estes últimos ensinamentos constituem, ao interno do Quarto Evangelho, o bloco literário que contém o chamado Testamento Senhor (Jo 13 – 17). Um testamento é aquilo de muito precioso que é deixado ou dado para quem se ama.

O autor do Quarto Evangelho situa a narrativa no tempo: “Era antes da festa da pascoa” (v.1). Diferentemente da tradição sinótica (Mc, Mt e Lc), o evangelista situa a ceia de Jesus na véspera da solenidade pascal. De modo que a ceia pascal seja celebrada no dia seguinte (coincidentemente no Sábado, aquele ano). Por que? O evangelista não pretende negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com seus discípulos, mas diferenciar para mostrar a superação dela: a páscoa do Senhor já não é mais a mesma do templo. Celebrando antes, Jesus a substitui e a supera. A dele não exige ofertas e sacrifícios, não é instrumento de exploração como se praticava no templo. Naquela, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros. Na do Cristo com sua comunidade se celebra o triunfo da vida na forma do amor, a mais eficaz manifestação visível do serviço; nessa, não há morte, há doação de vida por amor.

O v.1 anuncia a chegada da hora que vinha sendo preparada desde os primeiros sinais realizados por Jesus, e, que, agora, começa a ser levada a termo. É a hora de glorificar ao Pai, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. Esta forma solene com a qual João inicia o versículo primeiro, aponta para a finalidade da missão do Senhor: manifestar o amor do Pai até o fim. A expressão “Amou-os até o fim” pretende indicar plenitude intensidade e realização final.

O evangelista coloca o seu leitor diante de personagens que servirão de espelhos para a comunidade. Primeiro, focaliza-se internamente a personagem de Judas Iscariotes, ao informar que “o Diabo (o divisor; o opositor)” o havia seduzido para que entregasse Jesus (cf. Jo13,2). João, ao focalizar a consciência diabólica (cindida / dividida) de Judas realiza um contraste com a consciência livre e orientada para o projeto de Deus que Jesus possui: a de que o Pai, “tudo” (semitismo para Todos) havia colocado em Suas mãos. O Senhor é apresentado como soberano. Não será uma vítima das circunstâncias. Ninguém o toma de surpresa. Ele é livre em sua vida e obra.

Com tal consciência, Jesus levanta-se da mesa. Depõe seu manto. Um gesto simbólico: ao depor o manto está, na verdade, despojando-se da imagem de mestre e de sua dignidade enquanto pessoa. Estava sentado, ocupando a posição privilegiada de mestre que ensina. Cinge-se com uma toalha à cintura. Cingir os rins significa a atitude de estar de prontidão para o serviço. Em seguida derrama água na bacia e começa a lavar os pés dos discípulos (v.4-5).

Compreenda-se o peso e a dramaticidade do gesto realizado por Jesus. Tal era realizado por um escravo; quando não, pelos filhos ou pela esposa, e, numa demonstração de profunda estima, pelo próprio anfitrião. Mesmo assim, continuava sendo um gesto de muita humilhação. Os rabinos até orientavam escravos judeus a não realizarem este gesto para com seus patrões. Para Jesus, os distintivos de sua comunidade e de seus discípulos são o amor e o serviço! Esta é a sua real e mais essencial identidade. Estes símbolos servem para explicar o gesto de Jesus: uma transfiguração às avessas! Jesus depõe a sua imagem de Senhor, e assume a forma de servo (Fl 2,7). Ele não veste os paramentos sagrados dos sumos sacerdotes, mas os do serviço; não as alfaias da casta sacerdotal, mas o avental dos servos.

Agora, desloquemos o olhar para outro personagem que o evangelista faz aparecer na narrativa: Pedro. Consciente da conotação humilhante daquele gesto, ele protesta: “Senhor, tu me lavas os pés?”(v.6). Para o discípulo pescador de Betsaida e para os demais, tal gesto é incompreensível. E, de fato, o é para aqueles que ainda não conheceram em profundidade o mistério do Filho de Deus. Por isso, Jesus afirma, que, por hora, eles não sabem o significado daquele gesto (isto só acontecerá à luz do enaltecimento na cruz e mediante o dom do Espírito de Jesus Ressuscitado). Para aqueles que pensam em termos de hierarquia, o mundo vira de pernas para o ar quando o superior se torna inferior!

“Tu não me lavarás os pés, nunca!” (v.8), declara o discípulo. O que o discípulo não quer aceitar e, demora a assimilar, é que a originalidade do gesto de Jesus reside na inversão dos valores; de que o mestre se faça servo; que o senhor se torne escravo. Não aceita para não se comprometer. Porque, uma vez que se deixa lavar os pés deverá fazer o mesmo. Mas Jesus retruca, dizendo “que não terá parte com ele, caso não deixe lavar os pés” (v.8b). Em termos joaninos, “não ter parte” com o Senhor significa não participar da plenitude e inteireza de sua vida, que atingirá a qualidade de uma vida eterna. Ter parte com Jesus, significaria, por outro lado, ter em si a vida de Jesus, e torná-la existencialmente vivida de novo, através da vida do discípulo e da comunidade. Não é possível comungar da vida do Filho, sem aceitar sua lógica do serviço radical. A profundidade de seu gesto reside no fato de que ele é símbolo e profecia da entrega / doação da própria vida. O gesto de lavar os pés acena para o que Ele realizará mais adiante: sua vida consumada na cruz.

Se Pedro (e qualquer outro discípulo) não aceitar o gesto de Jesus, não participará do efeito da obra messiânica de Jesus. Por isso, o discípulo deve deixar que a água de Jesus o lave. A água é símbolo para a vida, e a para a existência do Senhor. Ou seja, o fiel precisa ser limpo e purificado pela exemplaridade da vida do Mestre. Ao deixar que a água Dele caia sobre os pés, deve permitir que sua vida seja transformada a partir do sentido da vida do Cristo.

O Jesus joanino, depois da incompreensão demonstrada por Pedro, volta à mesa, retoma sua condição de mestre e explica-lhes, então, o gesto. De fato, os discípulos reconhecem-no como Mestre e Senhor. Mas se Ele, nesta condição lhes lava os pés, devem também eles fazer a mesma coisa: lavar os pés uns dos outros, tornando-se servidores uns dos outros pelo amor fraterno.

A lógica radical desta páscoa do Senhor iniciada nesta Quinta-feira da Ceia e do Lava-pés consiste em aprender a lavar os pés, mesmo quando não há quem lave os seus. Aprender a amar quando não se é amado; quando não há quem te ame. O discípulo que se dispõe a viver esta radicalidade aprende a passar pela logica da Páscoa do Senhor. Por isso, não há como sentar-se à mesa (tomar parte da ceia do Senhor, comungando de sua vida, corpo e sangue) sem que se tenha lavado os pés dos irmãos. Não há Eucaristia sem lava-pés!

O texto suscita algumas perguntas para nós mediante este Sagrado Tríduo: 1) Com qual das personagens me identifico: Judas, que não mais se identifica com Senhor, a ponto de tornar-se adversário do projeto de Jesus e de seu Pai, ou com Pedro, que reluta ainda em assimilar a forma servidora de Jesus? 2) Tenho me deixado lavar os pés por Jesus (e com isso aceitado o Seu Dom-Salvação), para poder lavar os pés dos irmãos (através do serviço do amor/doação fraterno)? 3) Tenho crescido na consciência de que ao comungar da Vida do Senhor (através de seu Corpo e Sangue), devo igualmente comungar (assimilar e realizar) no lava-pés do Senhor? Não há Eucaristia sem lava-pés!


Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu  / Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 28 de março de 2026

DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – Paixão segundo Mateus (Mt 27,11-54; forma breve):

 


O Domingo de Ramos da Paixão do Senhor abre a semana santa, na qual a Igreja celebra a centralidade de sua Fé: o Mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus – o seu Mistério Pascal. Para isso, a liturgia escolhe uma narrativa da paixão dos três evangelhos sinópticos (Mc, Mt e Lc) conforme o ciclo litúrgico vigente. No caso, nesta ocasião, a Igreja meditará o relato da paixão segundo Mateus. O texto é denso, e, por isso dividido em duas opções: a forma longa e a breve. Opta-se, aqui, em meditar algumas cenas da narrativa breve. Porém, serão oferecidas as devidas contextualizações para que seja possível conectar uma cena a outra. Pois, mesmo servindo-se do texto breve, este ainda é assaz longo. Tanto o relato da Paixão em questão, como o relato da entrada em Jerusalém são extraídos da mesma catequese mateana.

A intenção da liturgia, como caminho para o mistério celebrado será a de tentar mostrar a verdadeira identidade deste Jesus, de modo a gerar o seguinte questionamento no fiel: Quem é este Cristo que desejo seguir? Com qual Jesus se deseja subir para Jerusalém, a fim de se renovar a participação em seu mistério de Salvação?

O contexto amplo da narrativa breve, proposta pelos subsídios litúrgicos também, é o do julgamento de Jesus diante do Sinédrio, órgão máximo da justiça judaica no tempo da sociedade dos anos 30. O Cristo, capturado no Jardim é levando diante do conselho dos anciãos, sacerdotes e levitas, presidido pelo sumo sacerdote daquele ano.

Uma constatação histórica. Nenhuma parte da narrativa da Paixão tem sido mais discutida historicamente do que o julgamento de Jesus diante do Sinédrio judeu. Uma sessão no meio da noite, na véspera da maior festa judaica, em que o sumo sacerdote encoraja uma falsa testemunha e então intervém para dizer aos juízes que o prisioneiro é culpado, e em que eles próprios cospem no prisioneiro e o esbofeteiam tudo isto violava a jurisprudência em geral e a jurisprudência rabínica em particular. A morte de Jesus foi um homicídio muito bem planejado.

Entre os altos e baixos do julgamento diante das autoridades, Mateus alterna a narrativa com as figuras de Simão Pedro e Judas Iscariótes, ambos discípulos difíceis que visam mostrar as dificuldades de assimilação acerca da missão e da identidade do Mestre, obtendo cada um, o desfecho narrativo diferente. Pedro, após a negação se retira para chorar amargamente. Judas, após devolver as trinta moedas do sangue do inocente, caindo na real, desesperado vai colocar fim em sua vida. Isto posto, o texto litúrgico breve se inicia com uma nova cena que abre o contexto imediato da narrativa: o julgamento romano, cuja a sentença será cabal: morte ao justo e inocente Senhor da vida. O objetivo de Mateus é claro e simples: Jesus era totalmente inocente e morre como o justo de Deus.

“Jesus foi posto diante do governador, e este o interrogou:

"Tu és o rei dos judeus?"

Jesus declarou: "É como dizes" (v.11).

A cena que agora se desenrola é sóbria, mas rica em questionamento: quem é este Pilatos, procurador romano? Uma pessoa temerária, apegado à sua reputação, cioso do “poder e da autoridade” que possui, ainda que em nome de Tibério César. Alguém que julga também pelo o quê ouviu falar. Pelas aparências. Um sujeito inconstante e, de tão imparcial que deseja ser, consegue ficar em cima do muro. Estas características não são uma psicologização da personagem. São oferecidas pelo texto e pela compreensão da realidade sociopolítica da Palestina dos anos 30. Ele se coloca diante de Jesus e o interroga. A resposta do Senhor: “É como dizes”, é uma clara resposta de Mateus que deseja afirmar para a sua comunidade leitora de seu evangelho e para a geração futura dos cristãos, que o Senhor nunca afirmou isso. Ao responder desta maneira ao governador, ele está colocando em evidência que esta é uma pergunta e uma concepção equivocada acerca de Jesus: “é você quem está dizendo isto. Eu nunca disse tal coisa; jamais me auto revelei como rei.” Na narrativa da Paixão em João a resposta é muito mais irônica (típica da ironia joanina).

Durante sua vida e seu ministério, Jesus nunca se aproximou desta imagem ideológica do rei. Ele sabia que esta concepção acerca do messias esperado era muito alimentada. Três eram as concepções acerca do Messias esperado: ele deveria vir como um grande profeta, assim como os grandes de seu povo; após o exílio, com o pano de fundo da promessa feita à Davi no fim de sua vida, o povo esperava a reconstrução da monarquia a partir de um novo Davi, por isso, crescia a ideia de um Messias rei. Mas, no período da reconstrução da vida do povo, após o exílio babilônico, a figura dos sacerdotes do templo foi muito valorizada, por isso, crescia a cresça a expectativa de um Messias de origem sacerdotal. Contudo, no tempo e na sociedade de Jesus é que as duas expectativas, régia e sacerdotal, se unem, dando a entender que o ungido para realizar o projeto de Deus seria de origem real e sacerdotal. O messianismo do Senhor não se enquadra nesta dupla imagem. Sua missão foi vivida inteiramente na linha dos grandes profetas do povo, assimilando também para si a identidade do Filho do Homem, isto é, o realizador da vontade e do Senhorio de Deus nesta história. Jamais rei! Disso, e de nada ele poderia ser verdadeiramente acusado. Aliás, as acusações feitas no Sinédrio não tinham fundamento algum; apenas distorções e manipulações.

Mateus mostra Jesus em silêncio, após responder denunciando o equivoco de Pilatos. Nada mais responde. Ele não tem nada a dizer a quem não deseja fazer uma experiência profunda com sua Pessoa. Nada adianta explicar ou ensinar a quem não quer aprender. Todavia, o autocontrole do Cristo nesta cena é o que mais impressiona. Ele não precisa se defender porque sabe que sua vida está nas mãos de um só: o Pai. É a imagem verdadeira do Justo que confia em Deus. Por isso, habilmente, o evangelista insere uma personagem feminina. A esposa do governador. Ela interrompe o julgamento.

Enquanto Pilatos estava sentado no tribunal,

sua mulher mandou dizer a ele:

"Não te envolvas com esse justo! Porque esta noite,

em sonho, sofri muito por causa dele". (v,19)

Como toque dramático a inserção particular de Mateus é altamente eficaz: uma mulher pagã, através de um sonho-revelação, reconhece a inocência de Jesus e procura sua libertação. A esposa do procurador, na sua condição de mulher, pagã (não pertencia a fé de Israel e nada conhecia sobre), injustiçada, sem voz, sem vez, sabe reconhecer os que se encontram na mesma situação. Se torna uma denúncia profética em nome dos muitos inocentes e justos que sofrem as injustiças desta história. Ela reconhece que Jesus é inocente e Justo. Ao passo que as autoridades judaicas, que tinham tudo em suas mãos para reconhecerem a ação de Deus em Jesus permaneciam de coração fechado. Os peritos e especialistas da fé e sobre Deus decidiram dar morte ao Filho de Deus.

Pilatos viu que nada conseguia

e que poderia haver uma revolta.

Então mandou trazer água,

lavou as mãos diante da multidão, e disse:

"Eu não sou responsável pelo sangue deste homem.

Este é um problema vosso!" (v.24).

Os versículos 24-25 são catequéticos mais que polêmicos. Pilatos lava as mãos. Ao que parece, o gesto pode ser interpretado como indiferença, como isenção de responsabilidade, como imparcialidade. Mas Mateus se serve para transmitir uma mensagem teológica. O governador é oprimido pela exigência de todos que queriam a crucificação de Jesus; e assim, num dramático gesto, exclusivo do evangelista, ele publicamente lava suas mãos para significar que, como sua esposa, o pagão reconhece a inocência do Cristo. Recorda o Antigo Testamento ao descrever aqueles que devem ser considerados responsáveis pela morte (2Samuel 3, 28-29; Josué 2, 19; Jeremias 26, 15), pois que, quando alguém, no Antigo Testamento, lava as mãos, esse ato significa inocência em relação a um crime de morte (Deuteronômio 21, 6-9).

Jesus, após ser agredido, insultado pelos soldados e coroado de espinhos foi levado para ser crucificado. O auxílio de um desconhecido no caminho faz lembrar todos aqueles a quem o Senhor parou no meio do caminho da missão para servir e salvar-lhes. Agora são pessoas como estas que acompanham o Senhor, juntamente com as mulheres, ao passo que os discípulos debandam para longe do Mestre. Feita esta transição, podemos meditar os versículos do bloco final do relato da paixão.

Dos versículos 38-44 o evangelista registra uma série de insultos dirigidas a Jesus na cruz. Primeiro, a população passante, que recordava as palavras ditas (que foram distorcidas) contra o templo de Jerusalém, com a provocação “Se és filho de Deus, desce da cruz!”, que será repetido também pelos sumos sacerdotes, mestres da lei e os anciãos do povo, colocando a prova o amor de Deus por Jesus (“Confiou em Deus. Que ele o livre agora, se é que Ele o ama”); por fim, também os malfeitores o insultam. Note-se que a forma como estas provocações aparecem são semelhantes às tentações sofridas pelo Senhor no deserto. Satanás apresentava as seduções desta forma. Mateus quer ensinar que esta é a ultima tentação de Jesus: descer da cruz. Romper com a fidelidade e a relação com o Pai. Viver a sua condição de Cristo e Filho de Deus na contramão da lógica de Deus, utilizando sua autoridade e identidade em benefício próprio, baseado no poder, no domínio, na violência, segundo a lógica deste mundo. A tentação de fazer-se deus no lugar do Pai. Diante da prova mais difícil e dura é que o ser humano é colocado diante de sua fidelidade. Com Jesus não foi diferente. Mas sua resposta sim. Plenamente distinta.

“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito:

"Eli, Eli, lamá sabactâni?",

que quer dizer: "Meu Deus, meu Deus,

por que me abandonaste?” (v.46)

A atitude de Jesus não é a do desespero ou da descrença; da falência, da frustração ou do fracasso, como a má compreensão acerca deste versículo pode sugerir. Não. Ele não está chamando pelo profeta Elias. Mateus sabe muito bem escrever. Não se trata de um erro de tradução ou de escrita, mas sim de interpretação, mas não por parte do discípulo e da comunidade, e, sim, da parte dos que não aderiram a fé em Cristo, bem como aqueles que podem ser resistentes. O grito de Jesus é uma oração de confiança ao Deus de Israel, justo e libertador. Ele está recitando, na cruz, o Sl 21 (22), que é a oração da confiança do Justo na ação salvadora de YHWH. Esta é a forma com a qual Jesus responde aos insultos a à tentação última de abandonar o Pai: colocando a sua vida e sua confiança e sua vida nas mãos de Deus. Confiando que ao final de tudo, Ele intervirá para salvar o seu justo. É assim que se conclui o salmo, no v.24: “Anunciarei o vosso nome a meus irmãos e no meio da assembleia hei de louvar-vos! Vós que temeis ao Senhor Deus, dai-lhe louvores, glorificai-o, descendentes de Jacó, e respeitai-o, toda a raça de Israel!”. Nesta confiança inabalável de um justo é que o Senhor entrega sua vida (v.50).

“E eis que a cortina do santuário

rasgou-se de alto a baixo, em duas partes,

a terra tremeu e as pedras se partiram” (v.51)

O detalhe da cortina que se rasga e do terremoto são importantes mensagens teológicas, e não notícias de jornal que desejam narrar com exatidão os fatos. Há uma mensagem de fé, e, portanto, de salvação, a ser colhida destas imagens. O véu do Santo dos Santos, no Templo, mantinha separado o lugar mais sagrado do santuário do resto do templo se rasga com a morte de Jesus. O evangelista deseja ensinar que com o dom da Sua vida, levada até às últimas consequências com sua entrega na cruz abrem e inauguram a nova relação com Deus. Não há mais nenhum véu/obstáculo entre o ser humano e Deus. A forma da vida e da missão de Cristo serão, agora, o novo modo com o qual a pessoa humana poderá se relacionar com o Pai. Não existe mais uma cortina a separar o divino do humano. O tempo antigo acabou. É o que o terremoto quer mostrar. No Antigo Testamento, para se falar do fim de uma época ou de um determinado tempo se utilizava da imagem do tremor de terra. Mateus deseja ensinar com essa imagem simbólica que tudo o que é ultrapassado, antigo, e, que não mais leva o ser humano à Deus acabou. A vida e a missão de Jesus inauguram o novo tempo de Deus nesta história para todos os discípulos e discípulas; para todos os seu filhos e filhas que abraçam a existência do Senhor como caminho de vida para si.

Jesus coloca a humanidade, através do mistério de sua vida, paixão e morte, na mesma condição que Ele possui: “Filho de Deus”. Eis o Cristo que o discípulo necessita aprender a assimilar em sua vida e história. Acompanhemos, pois, o Senhor em sua Paixão.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 21 de março de 2026

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA QUARESMA – Jo 11,1-45:

 


A liturgia deste quinto domingo da Quaresma, apresenta-nos o capítulo onze do Evangelho segundo João, o qual relata a reanimação de Lázaro. Esta narrativa carrega consigo o último sinal realizado por Jesus ao interno da catequese joanina. O fiel leitor ainda se situa no livro dos sinais (Jo 1,18 – 12,51), os quais preparam para a Hora da Glória (Jo 13 – 20), e tratam, através de seu sentido simbólico, de apontar e revelar a identidade do Senhor.

O relato da reanimação de Lázaro foi inserido entre as ameaças de morte a Jesus por parte dos fariseus (que o evangelista chama de “os judeus”), após o episódio de Betesda (Jo 5), da multiplicação dos pães (Jo 6, o discurso do pão da vida), e, posterior ao sinal da cura do cego de nascença, em Jo 9, que resulta na alegoria do pastor ideal, em Jo 10,38. Todo este panorama narrativo está eivado de crises, mal-entendidos, polêmicas e muita ira por parte das autoridades judaicas em relação ao Senhor. Por isso, imediatamente a realização do sinal (Jo 11,46-54), as autoridades se põem a tramar descaradamente a morte do mestre. Uma fina ironia emerge deste complô: na iminência da sua morte, Jesus responderá com o dom da vida. É a mensagem que o relato pretende transmitir.

Convém recordar que, o sinal narrado não trata propriamente de uma ressurreição, mas de uma “reanimação”. A ressurreição é a passagem da morte para uma vida definitiva e plena, graças à obra do Cristo. A narrativa joanina relata a reanimação de um corpo, já em estado de decomposição (a nota cronológica “quatro dias após a morte”, indica também esta realidade biológica). Todavia, continuava corruptível. O que Jesus faz não é apenas prolongar os dias de Lázaro, mas, através deste sinal extraordinário, revelar que a vida plena se encontra definitivamente Nele. Por isso, o discípulo-leitor não pode ficar preso na superfície do gesto profético e simbólico que o sinal representa. Deve ir além. Mirar a ressurreição do Senhor. Acolher o dom supremo da vida de Deus doada através do Senhor, para ser libertado das amarras que por ventura mantém o ser humano atado. Agora se pode mergulhar no horizonte da narrativa. Dada a extensão do relato, se fará necessário, mais uma vez, pinçar alguns versículos que funcionarão como chave de leitura para a interpretação do texto.

O autor situa a cena: “Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta” (v. 1). O evangelista apresenta Betânia (hbr. “casa da aflição”), como o espaço de uma comunidade, onde a fraternidade, de fato, reinava. As personagens são apresentadas como irmãos. Não há maior e menor entre eles; não há hierarquia entre aqueles que a compõem. Uma comunidade ideal. Todavia, ainda presa à mentalidade equivocada, resistente e tradicionalista. Recorde-se, que todas as vezes em que o termo povoado é citado nos textos bíblicos está sempre carregado deste aspecto negativo: rigorismo, mentalidade fechada e ultrapassada; resistência e oposição. O adjetivo “amado” faz alusão ao discípulo amado, o qual não é um personagem identificável. Ele é símbolo para aquele que assumiu o propósito, a vida, a missão e a obra realizada por Jesus como programa para sua vida.

No v.4, Jesus, informado sobre a enfermidade de Lázaro, responde que essa enfermidade é ocasião para a Glória de Deus. Este versículo faz memória do que fora dito em Jo 9,3 quando se referia, do mesmo modo, ao cego de nascença e sua enfermidade. O que o evangelista quer ensinar para sua comunidade é o seguinte: em Jesus de Nazaré, Deus está presente. Sua vida, missão e obra, através dos sinais que opera revelam a presença do Pai agindo nele. O que o Senhor realizará, para o bem dos discípulos (ocasião favorável), será um sinal que revela o divino nele. Ali, onde a vida parece ter acabado, sempre há espaço para a presença de Deus.

Se faz necessário dar um salto narrativo e tomar o v.17: “Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias”. Esta informação é importante, porque revela a ideia da impossibilidade de vida. Na Palestina, os rituais funerários aconteciam no mesmo dia da morte, devido às condições climáticas. Pensava-se, na cultura da sociedade de Jesus, que após este dia, o espírito deixava definitivamente o corpo e descia para o lugar chamado Sheol, a mansão dos mortos (a qual era, conforme a mentalidade, uma caverna subterrânea). Interessante é que o sinal se realiza neste quarto dia. Se Jesus tivesse atendido o chamado, vindo antes do terceiro dia, operado o sinal, a “glória de Deus não seria manifestada” aos olhos daquela gente.

No v.19, o evangelista informa que muitos judeus (devido à proximidade de Jerusalém) tinham vindo para Betânia consolar Marta e Maria. A primeira é mais agitada que a outra. E é ela quem toma a atitude e vai encontrar a Jesus nas portas da cidade. A morte gerava desespero e medo. Curioso, o evangelista informa que o Senhor não entra no povoado, tampouco na casa da família de Betânia. Deseja ensinar que Ele não era conivente com a mentalidade de um culto a um deus que ressuscita mortos. Este é o verdadeiro motivo da ida dos judeus até Bethania: cultuar a morte. Jesus, pelo contrário, revelará um Deus doador de vida aos que estão vivos. Somente rompendo com antigas estruturas e mentalidades de morte e obscurantismo se torna possível vivenciar o triunfo da vida: de fora do povoado, Jesus chama as irmãs a saírem.

“Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele to concederá” (v.21). Haviam avisado a Jesus de que seu amigo, Lázaro, estava doente. Jesus, por sua vez, nem se moveu. Então a personagem Marta expressa toda a sua reprovação. Ora, pensemos: na expectativa dela estava a possibilidade de que o Senhor realizasse um gesto poderoso em relação ao irmão defunto. Como que Ele, que havia curado o filho do funcionário de Herodes, um estranho, reabilitado a vida de um enfermo na fonte de Betesda, também estranho e anônimo, feito lama (recriou) os olhos de um cego nascença desconhecido, poderia tratar dessa forma um amigo?

Aqui, se faz necessário adentrar um pouco na fineza da redação de João, que é um verdadeiro teólogo e mestre da fé para sua comunidade. Ele usa dois verbos diferentes para expressar a mesma coisa. O verbo “pedir”, aplicado à Marta expressa a exigência de um inferior ao seu superior. Enquanto que, para expressar uma necessidade entre iguais, se utiliza o verbo “perguntar”. Os dois revelam que ela possui uma compreensão errada acerca de Jesus: uma pessoa intermediária que pode realizar aquilo que se lhe ordena. Ela não entendeu que Jesus e o Pai são um, ou que as obras do Filho são as obras de Deus. Deseja tão somente uma intervenção que prolongue a vida do irmão.

Jesus muda o sentido da morte e da vida: Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará (v.23)”. Ele não responde à Marta como se desse a entender “eu ressuscitarei teu irmão”, mas, “Teu irmão ressuscitará”. A ressurreição do irmão dela não é uma intervenção miraculosa, mas o efeito da vida definitiva que é comunicada Senhor ao discípulo que aderiu à Sua pessoa.

Marta não gosta da resposta de Jesus, e retruca expressando a mentalidade da época (v.24): “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. Lembra o Livro de Daniel, o qual menciona, pela primeira vez, a ressurreição nos últimos tempos. Pensamento este, presente na cabeça dos fariseus. Ela nada mais faz que reproduzir esta concepção.

Então, no v.25, Jesus, solenemente declara: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”. João recorda as palavras do Senhor, utilizando uma fórmula de revelação, que alude ao nome divino “Eu Sou (YHWH)”. Emerge também aqui o tema da Escatologia presente, muito cara aos seus escritos e à sua teologia. Ele pretende afirmar para a sua comunidade que a ressurreição esperada para o fim dos tempos chegou! Está presente em Jesus. Ele é a novidade da vida do âmbito de Deus!

Jesus continua no v.26, “E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” Aqueles, que durante a vida e a existência acreditaram, isto é, aderiram a Jesus, tomaram a iniciativa de abraçar a Sua vida, o Seu modo de ser, tem a oportunidade de experimentar desta mesma existência e vida qualitativamente distinta no aqui e no agora. Fazem a experiência de viverem já, no agora, uma vida sob cores e tons de eternidade; dão um salto qualitativo para a vida divina. Esta qualidade de vida se faz presente através do dom que Deus oferece em Jesus. Marta faz, então, a sua profissão de fé, “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo"( v.27). A personagem dá o passo da fé. Faz uma profissão de Fé, reconhecendo que Ele pode administrar aquilo que Deus dá.

Os vv.33-36 desenvolvem-se ao redor das sensações vivenciada pelo Senhor. O Jesus da cristologia dos evangelhos e, principalmente, do Quarto Evangelho é um homem autêntico. É a única vez que se menciona dessa maneira que Ele chora. Ele chora (gr. δακρύω/κλαίω). Não motivado pela frustração ou pelos limites inerentes à morte. Deixa-se tocar pelo sofrimento e condição de desumanização que o ser humano se encontra. E isso lhe causa indignação (gr. ἐμβριμάομαι). Esta comoção do Senhor é, na verdade, uma indignação profética, frente à rejeição ao projeto de Deus e à dúvida em relação ao Seu agir manifestadas pelos Judeus e pelos discípulos É a indignação daquele que sente e vê que as estruturas podem desumanizar uma vida. E, por isso, se coloca em ação. E, daqui, se pode muito bem saltar para o v.43.

A narrativa é bem construída. Jesus faz uma prece ao Pai, a qual é a expressão da comunicação e comunhão íntima e profunda entre Eles. Então ordena, exclamando com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” (v.43). Lazaro (hbr. Eleazar, Deus Ajuda) é chamado novamente à vida, mas ainda caminha amarrado. Por isso, o Senhor ordena que o desamarrem e o deixem ir. Esta ordem, de fato, significa o convite final que Jesus faz para a liberdade. É necessário “desatar” (v. 44) o ser humano de tudo o que o impede de caminhar livremente em busca da vida plena e da dignidade.

O sinal aponta para uma realidade última, como se sabe. E o discípulo não pode parar na simples materialidade dele, que no caso é a reanimação de um cadáver, ainda atado e com dificuldades (sua existência ainda é caduca). Este gesto profético de Jesus alude para uma verdade muito profunda: a Sua ressurreição.

Qual o nível da nossa relação com o Cristo, é semelhante a mentalidade das duas irmãs que concebem a Jesus somente como um meio para obter algo? Temos escutado a voz do Senhor que nos chama pelo nome a sair do túmulo? Quais são as amarras que nos impedem de caminhar e abraçar a vida que Ele tem para dar?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP.


sábado, 14 de março de 2026

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA QUARESMA – Jo 9,1.6-9.13-17.34-38 (breve):

 


A liturgia do quarto domingo da quaresma propõe para a meditação, a leitura do capítulo nono da catequese joanina. É uma narrativa densa e cheia de significado para a comunidade de João e para às gerações subsequentes. Para compreender o texto litúrgico assimilemos a perspectivas do contexto e das personagens, meditando alguns versículos centrais, a fim recolher a mensagem útil à comunidade e aos leitores-discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares.

O capítulo nono encontra-se na primeira parte do Evangelho joanino, no assim chamado livro dos sinais. O Quarto Evangelho estrutura-se sobre dois blocos, o dos sinais, Jo 1,18 – 12,51, que tratam de introduzir o discípulo de Jesus no conhecimento acerca de sua identidade, vida, missão e obra. O segundo pilar é o livro da Glória, Jo 13 – 20, que trata de preparar para a contemplação da glória do Senhor, de seu enaltecimento, através da Hora da Cruz. Somente quando o fiel adere ao Seu projeto, conhecendo-o mediante os sinais, gestos simbólicos, sabendo por onde passa sua vida e sua missão, é que ele poderá dar o passo para a contemplação da hora da Glória do mestre. Neste capítulo, o autor apresenta a narrativa de mais um sinal realizado pelo Senhor. É o sexto que Ele realiza no Quarto Evangelho.

Outra consideração se faz necessária. É importante, para a interpretação deste relato utilizar a técnica da “fusão de horizontes”: o tempo narrado, ou seja, o sinal realizado por Jesus, curando o cego (anos 30); e o tempo da comunidade Joanina, a qual está passando por um momento de crise histórica e de fé (anos 90). Através desta técnica, se visualiza a situação da comunidade cristã frente ao judaísmo da época. O ex-cego torna-se símbolo tanto para o discípulo como para a comunidade joanina que, por professar a fé no Messias Jesus que fora crucificado sofre a perseguição e expulsão dos meios judaicos, como mostrará o relato nos versículos 12-34. Toda a polêmica criada pelos fariseus contra a atitude de Jesus pode ser vista nesta seção, mas o versículo 22 sintetiza a intenção deles: “De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias”.  

O cego, como todo enfermo era tido como amaldiçoado, segundo a tradição de Israel. As enfermidades eram vistas como castigos oriundos de algum pecado cometido pela pessoa ou por seus antepassados. Como, no caso, a personagem era cega de nascença, evidentemente não seria ela a ter pecado, e sim seus pais, conforme a crendice religiosa da época. A cegueira era tida como o pior dos castigos, pois privava a pessoa de ter acesso à leitura da Palavra de Deus, para ler e aprender a Lei. Eram considerados pecadores públicos e não podiam ser admitidos ao Templo, ficando nas portas da cidade e dos locais de culto, vivendo da mendicância. Acreditava-se também que uma criança pudesse pecar ainda no ventre materno.

No entanto, para o Quarto Evangelho o cego tem sua polivalência simbólica. Em primeiro lugar simboliza os fariseus e as lideranças judaicas (os Judeus), cegas em relação à Jesus. Em segundo lugar, se torna símbolo daquele que ainda não fez sua opção pelo mestre. Mas num ponto importante da narrativa, após a cura, ele vai assumindo a identidade do discípulo que começa a dar os passos na fé em relação a Jesus. Torna-se, assim, uma figura do candidato à fé, que, ao interno da comunidade cristã assume o batismo.

Última contextualização. O contexto do capítulo nono é o da festa das tendas (Jo 7,1-2.14). Nela, se esperava a manifestação do Messias glorioso. A atmosfera de Jerusalém se confirmava devido a decoração da esplanada do templo, bem como toda a edificação do Santuário, que eram decorados com lamparinas. O evangelista deseja manter o relato do sinal do cego nesta festa para ensinar para a sua comunidade a identificação de Jesus como verdadeira Luz. Também a ambientação da cena próxima à fonte de Siloé pode conter uma mensagem importante: o Senhor é o enviado por excelência do Pai para comunicar sua água viva e sua Luz.

O evangelista informa que Jesus estava passando, ou seja, em movimento. Na verdade, ele estava em fuga, pois as lideranças dos judeus queriam apedrejá-lo devido ao seu ensinamento (cf. Jo 8). Mas ali, diante daquele cego, onde a vida era escassa e escura, ele se detém e coloca-se a sanar suas necessidades. Por onde passa, Ele vê, não importam as circunstâncias. Ninguém é indiferente ao Seu olhar.

 “Os discípulos perguntaram a Jesus: "Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?" Jesus respondeu: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (vv.2-3), devem ser bem compreendidos. A cegueira não é vontade de Deus e nem punição à possíveis pecados cometidos. Também não é a condição para que a glória de Deus se manifeste, como poderia ser interpretada sua afirmação no v. 3. O dito do Senhor deve ser entendido assim: onde a vida é escassa, onde a criação não encontrou sua plenitude, há, então, espaço para que a glória de Deus se manifeste, sanando a deficiência.

As Palavras e os gestos de Jesus são carregados de simbologia e significado. “É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo. Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé (que quer dizer: enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando” (vv. 5-7). O evangelista deseja ensinar para a sua comunidade que Jesus é o realizador das obras do Pai. Tudo o que o Filho realiza é da vontade de Deus. Ao fazer barro com a Saliva, ele alude à criação; é a matéria prima do ser humano, conforme a mentalidade bíblica. A saliva é gerada pelo hálito, e esse é o sopro, o Espírito. Com isso, o evangelista quer dizer que Jesus repete o gesto criador de Deus (cf. Gn 2,7), ou seja, aperfeiçoa a criação do Pai.

O homem que vivia na escuridão da cegueira foi iluminado e passou a viver de verdade a partir do encontro com Jesus que lhe deu vida. Jesus o envia para se lavar na piscina de Siloé. Uma mensagem interessante, pois o texto não afirma que o Senhor o tivesse conduzido, mas que ele, após a sua cura (iluminação) se dirigiu à fonte. Isso significa a participação e a responsabilidade humana no projeto amoroso e redentor de Deus. Ele não espera e tampouco deseja um ser humano passivo, mas participante ativo de sua obra. Significa a capacidade de tomar a vida nas mãos! Ao se declarar “luz do mundo” (v. 5), Jesus está apontando o caminho e quem lhe obedece e segue encontra a luz e pode ver com clareza, como o cego, que “voltou enxergando” da piscina. Portanto, mediante o sinal realizado, o catequista e autor do evangelho quer recuperar para sua comunidade em crise a identidade do Mestre. Pois, “recuperar a visão dos cegos” era um dos principais sinais messiânicos anunciados pelos profetas (cf. Is 29,18; 42,7). Jesus é Luz do mundo, ou seja: o Cristo de Deus. Aqui fica, pois, entendida a intenção de João ao situar a narrativa ao interno da festa das tendas, na qual a cidade ficava toda iluminada.

Para um judeu piedoso, tal afirmação deste rabino que ensina gente simples seria inconcebível. Por que? A luz, conforme a tradição bíblica e religiosa do povo de Israel era uma imagem simbólica aplicada à cidade santa, Jerusalém, ao Templo e à Torá, enquanto Palavra de Deus. Para João eles, não são mais estas realidades que iluminam o mundo, mas o próprio Jesus.

O ex-cego, por ter aderido à Jesus e sua Palavra, acabou sendo marginalizado pela religião daquele tempo. Mas o Senhor se supera mais uma vez. Ele se manifesta novamente, ao saber que o homem tinha sido expulso da sinagoga e vai ao seu encontro (v. 35). Embora a versão litúrgica afirme que o Senhor “encontrou” o homem, a tradução correta seria “foi encontrá-lo” (v. 35), o que significa que Ele foi procurá-lo. Como sempre, Ele resgata o que a falsa e superficial religiosidade descartou. Os sistemas dominantes separam e divide, mas o Mestre une e reconcilia tudo; Ele liberta e ilumina.

O Senhor, luz do mundo, ilumina o ser humano para que este possa ver a si próprio como ser aberto e repleto de horizonte de vida e de possibilidade. Ilumina o homem não para o desmascarar mas para revelar a sua verdadeira condição de filho de Deus. Ilumina para que quem foi iluminado possa ser luz e iluminar a realidade que o rodeia.

Diante deste texto belíssimo, que ainda fica muito por comentar, dada sua profundidade e riqueza simbólica, quem somos no horizonte desta narrativa, o cego, que ao longo do percurso da fé vai deixando sua condição, porque se propõe a viver segundo a Palavra de Jesus, ou os fariseus que se recusam a acolher a novidade do Dom de Deus em Jesus, luz do mundo e no mundo? Qual cegueira necessita ser eliminada e iluminada por Jesus, Luz do mudo?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 7 de março de 2026

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DA QUARESMA – Jo 4,5-42 (Forma breve):


A liturgia do terceiro domingo da quaresma deixa de lado o evangelho de Mateus e assume as leituras bíblicas extraídas do Quarto Evangelho, o qual fará parte das catequeses quaresmais dos próximos domingos. O episódio proposto para a meditação é o relato da Samaritana no poço, Jo 4,5-42, o qual se divide em três momentos: 1) Jesus e a samaritana junto do poço de Jacó (4,1-26); 2) um diálogo instrutivo aos discípulos (4,27-38); 3) o encontro com os samaritanos, que passam a crer Nele a partir do testemunho da mulher, e pela escuta da palavra do Senhor (4,39-42). Interessa para a nossa meditação o primeiro momento. O texto litúrgico é longo. Por isso, pinçaremos alguns versículos que são capazes de oferecer chaves de leitura para a interpretação da mensagem evangélica.

Uma chave de leitura para se compreender o texto é o tema da novidade escatológica trazida por Jesus, que o autor do Quarto Evangelho vem apresentando desde o capítulo segundo, a partir da narrativa das Bodas de Caná (2,1-12), o primeiro sinal de Jesus. Ali, e na passagem da purificação do Templo de Jerusalém (2,13ss), o evangelista desejou mostrar que o sistema religioso, com as prescrições rituais e os sacrifícios levíticos estariam superados a partir da Obra realizada pelo Cristo. Nele estaria a presença toda nova de Deus agindo na história, possibilitando à humanidade uma nova experiência com Ele. Ele é a superação e a plenitude da palavra de Deus. No capítulo seguinte, Jo 3, desenrola-se um diálogo com um certo Nicodemos, chefe dos fariseus. Nesta homilia do capítulo terceiro destinado ao discípulo iniciado na fé (imagem simbólica de Nicodemos), o Senhor fala do novo nascimento através da Água e do Espírito. Na sequência, o Quarto Evangelista situa a narrativa do capítulo quatro, sob o prisma do nascimento da Água e do Espírito (gerando inclusive unidade literária e temática para a obra). Posto isso, se pode mergulhar na meditação do texto bíblico.

Nos vv.5-6, o evangelista situa o leitor na geografia: “Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó”. Ali, conforme Gn 33,19, Jacó havia comprado um terreno e dado a José, para que os seus descendentes fossem sepultados. Parece que o autor também se serviu do relato de Gn 24 (o poço de Nacar) como pano de fundo para esta passagem, pois havia ali uma fonte, ou mina d’agua. Optamos traduzir poço por fonte, porque dá a ideia de água corrente, imagem importante para o evangelista. Estejamos atentos a este simbolismo.

“Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber" (6b-7). João nos informa que Jesus parou para descansar, ao meio-dia, a hora Sexta. Interessante notar que por duas vezes o evangelista informa este horário. A primeira, neste texto. E a segunda, ao interno da narrativa da paixão, em Jo 19, quando Pilatos apresenta a Jesus açoitado, coroado de espinhos e com manto vermelho, dizendo “eis o homem”, e o catequista anotava “era por volta do meio dia”. Qual o ensinamento que ele deseja transmitir para a sua comunidade e para os leitores de seu evangelho? Que Jesus é apresentado como aquele que traz o dom de Deus.

Naquela hora, conforme a narrativa, apareceu uma mulher samaritana para tirar água. Não era o melhor momento do dia, uma vez que elas iam bem cedo, no frescor da manhã para executar a tarefa. Ele, então, entabula um diálogo, pedindo-lhe água. Ela lhe responde: “tu, que és judeu, pede de beber a mim que sou uma mulher samaritana?” Não é sem sentido esta fina ironia do autor: pretende-se ressaltar a diferença cultural e social existentes entre Judeus e Samaritanos. Interessante, que o evangelista dá peso à cena, ao mostrar o diálogo entre elas na ausência dos discípulos, uma vez que um judeu não conversava em público com uma mulher. Muito menos com uma samaritana. Ora, aos olhos de seus adversários, o fato de Jesus ter iniciado uma conversa com um samaritano já seria motivo de grave falta, tanto mais o uso de um utensílio pertencente à um deles.

Não era a melhor hora para uma mulher que se prezasse ir ao poço retirar água, como dito acima. Quem a visse nesse momento poderia suspeitar de sua fama. Estaria ela procurando uma nova relação? Por isso é necessário compreender o significado simbólico do poço. O primeiro, religioso, é que na tradição de Israel ele é símbolo para a Torá, a Palavra de Deus. Vale lembrar a denúncia do Profeta Jeremias, que chamava a atenção do povo por abandonar a YHWH, fonte de água viva, cavando para si as cisternas (Jr 2,13). O segundo, mais “social”, está vinculado a realidade esponsal. Foi na beira do poço que Eliezer e Rebeca se conheceram (Gn 24); bem como Jacó conheceu sua amada Raquel (Gn 29); também Moisés e Zippora (Ex 2,15-22).

João deseja ensinar que no encontro entre Jesus a samaritana, está para acontecer um novo encontro: neste poço, agora, conforme a narrativa evangélica, um novo casal se encontra para uma nova e definitiva história de amor, Deus e seu povo. A samaritana simboliza, em primeiro lugar o antigo Israel, bem como a humanidade, infiéis à YHWH e à Aliança, desposadas pelo noivo que é Jesus. Por isso, o texto não pode ser lido como se fosse crônica ou notícia de jornal. É preciso colher o dinamismo simbólico destas imagens e personagens. Haja visto também que a personagem feminina não possui nome. Nesse sentido, estaria ela servindo de espelho para que todos os leitores se enxerguem nela.

Jesus pede a ela, “dá-me de beber”. Semelhante ao que ele dirá na cruz: “tenho sede” (Jo 19). Dar de beber, e, no caso, oferecer água, na cultura semítica significa dar acolhimento. Diante desta simbólica personagem samaritana, Ele está pedindo para ser acolhido por ela; está pedindo a água dela. A água é símbolo do amor.  Ou seja, ele mostra ter sede de nossa humanidade. Sede de nossa água, do poço da nossa vida. Ele deseja ter para si a nossa humana condição com tudo o que ela contém, para assim transforma-la numa fonte de água que jorra para a vida do âmbito de Deus. Ele pede “dá-me da tua vida”, “dá-me da tua história”, “dá-me de teus sonhos, desejos, projetos”, para que eu possa transformar esta água em fonte de água viva, isto é, de vida plena de força de sentido através do amor. Aquele que pede, na verdade é quem pode dar/doar, pois oferece algo totalmente novo e além do que se pode esperar. Neste encontro, somos chamados a acolher a realidade daquela que tem sede de sentido e significado da vida, e, portanto do divino, com aquele que tem sede da nossa humanidade, a fim de dar sentido a ela.

O v.10, “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva", e o v.14 “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna", podem ser compreendidos conjuntamente pois se referem ao símbolo da água. Em todas as culturas, a água é símbolo de vida. Quando Jesus fala da Água que brota para a vida eterna, na verdade está se referindo a vida que pertence ao âmbito de Deus que no crente produz a existência mesma de Deus. É um convite para que a samaritana receba como dom, oferta gratuita, esta água viva, que são o amor e a vida eterna presentes em Cristo.

A samaritana não conseguiu romper com o nível material, por isso pede água comum, a fim de não ter mais sede, nem precisar vir tira-la da fonte. Ela ainda pensa na água que gera mais sede. O que seria esta água? As paixões desordenadas, as posses e os acúmulos, o sucesso, o status, o poder, ou seja, tudo aquilo que gera ainda mais insatisfações no ser humano. Estas águas podem inclusive secar. Diferente daquela que Jesus dá. Com Sua Água viva Ela transforma o poço/cisterna de água acumulada e parada do discípulo em fonte que jorra.

A mentalidade equivocada ainda se faz presente na personagem. Por isso, Jesus experimenta uma didática mais radical para derrubar as resistências daquela mulher. No v.17, ele pede que ela lhe chame o marido. Imediatamente ela responde que não é casada. O mestre confirma e declara que ela, de fato, possuíra cinco maridos, e, naquele momento, possuía um sexto (emprestado), que não era dela. Quem são os seis maridos? No nível do texto, são símbolos para os povos que foram trazidos pelos assírios para a Samaria (2Rs 17), por ocasião da dominação e deportação de 722 a.C, quando da queda do Reino de Israel – babilônios, assírios, persas, elamitas, gregos e os romanos. Estes povos trouxeram consigo suas religiões, seus deuses e costumes, os quais passaram a ser cultuados e assimilados também pelos israelitas que ali permaneciam. Temos cinco povos e culturas que não são dali, e um sexto que é tomado de empréstimo (Roma). O estilo de vida (água) desses povos/maridos alimentava ainda mais aquela sede.

A mensagem central desta simbologia é a seguinte: abandonar os esquemas antigos e de morte nos quais se vive para abraçar a novidade de Deus em Jesus. Deixar de lado a incompletude e a falta, uma vez que, ao interno da tradição bíblica, o número seis acena para a imperfeição e incompletude. A sede da personagem, que a faz ir ao poço ao meio-dia, revela a inconsistência, a falta, a insatisfação, a frustração da vida sem sentido que possuía, buscando sempre preencher seu vazio. É a vida atrofiada pelos esquemas antigos.

Os versículos se interconectam. A samaritana tem sede do divino, como exposto acima. Mas ainda está no nível material do lugar e do espaço. Jesus é reconhecido por ela como um profeta. Como alguém que sabe da Palavra de Deus, ele poderia ensinar o lugar correto para Sua adoração. Por isso ela interroga Jesus acerca do lugar autêntico para adoração de Deus, se seria o monte Garizim ou Jerusalém, no Templo (v.22). O lugar da adoração do Pai não é no Garizim, nem em Jerusalém, mas em Espírito e em Verdade.

O que significa isso? Primeiramente, desmistifiquemos aquela intepretação errônea de que a expressão “em Espírito e em Verdade” insinue uma adoração intimista ou individualista. A expressão joanina muito menos acenaria para uma concepção carismática da religião, com suas manifestações extraordinárias ou sobrenaturais. O texto joanino não permite entender “adoração em Espírito e em Verdade” como fenômenos (psíquicos) que de carismáticos não tem nada, ou daquilo que se costumou identificar como os “repousos espirituais” ou “fenômenos das línguas”. Nada disso.

Em Espírito e em Verdade significa, em primeiro lugar, um modo de ser e de viver, isto é, assumir e viver a vida de Jesus em sua própria história; deixar que o sentido pleno de sua história, missão, opção e modo de ser perpasse-lhe a vida, de modo a ser uma continuidade da vida do próprio Senhor. Prestar um culto agradável a Deus com a própria vida encarnada na história e iluminada pela fé. Em simples palavras: a adoração à Deus não se dá num lugar, mas através de um modo de viver. Uma vida pautada pelo Espírito e o amor-fiel (Verdade) de Deus, doada em serviço e em amor até o fim, que deram o tom da existência e da Obra de Jesus. Portanto, não se trata de um lugar, mas de um modo de ser e de existir que identificam o ser humano como um verdadeiro discípulo de Jesus.

Nessa lógica, a mulher diz no v.25: “Sei que o messias-Ungido vem. Quando ele vier, ele nos esclarecerá todas essas coisas”. Ela imagina o ungido de Deus como o novo Moisés, que explicará todas as coisas. Quando ele vier saciará a sua sede. Ele será a plenitude da Lei e da profecia. Nesse sentido, a (reveladora) declaração de Jesus assume um peso importante: “Sou eu que está falando contigo”. Ele se coloca na condição de cumprir o desejo de conhecimento do Dom de Deus que a mulher samaritana tem. É Ele o anunciador e revelador de Deus, e o dom de sua vida e Espírito constituem a água viva, que transforma a existência do discípulo numa fonte que jorra água viva.

A lição pragmática que o texto pretende dar ao leitor-discípulo é a seguinte. Aquele que faz a experiência da novidade que Jesus traz, o Dom de Deus, que na verdade é Deus mesmo, não pode ficar indiferente. Deverá deixar fluir a partir de si a água da vida divina, para que os outros possam fazer a mesma experiência.

Assim, a samaritana aprendeu a lição: vai, então, anunciar essa novidade para os seus. Ela deixou ali o seu cântaro. De poço seco e sedento de água, torna-se uma fonte de água vive, em movimento, na direção dos outros. Da condição de discípula, ela passa para a condição de missionária e vai anunciar aos seus o modo através do qual se vive a vida mesma Deus.

E nós, a partir da experiência pessoal e comunitária com Jesus, somos poço (que retém a água, a ponto de deixa-la parada) ou somos fonte que está sempre a nutrir? Vivemos o modo da existência de Jesus, “Em Espírito e em Verdade”?

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP