O
sexto domingo do tempo comum continua a leitura do sermão da montanha. O texto
proposto para a nossa meditação é Mt 5,17-37. Denso, composto de vinte
versículos que, devido a sua dimensão, não é possível refleti-los
individualmente. Por isso, optamos por realizar uma leitura e compreensão de
seu conjunto. Para isso tomemos alguns versículos norteadores que servirão como
chave de leitura e auxiliarão a compreender o texto enquanto Palavra de
Salvação.
Os versículos 17-37 estão estreitamente conectados com os anteriores. "Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento” (v.17), diz Jesus. Os ouvintes – multidão e discípulos – se deparam com esta afirmação do mestre, a qual Mateus recupera e transmite para a sua comunidade. Este dito necessita ser lido e compreendido a partir destes dois horizontes. Na verdade, o Senhor não diz que veio para abolir. A tradução latina empobrece o termo, que melhor aparece no original grego. O evangelista, ao escrever o texto, se serve do verbo “demolir” (gr. καταλύω/katalûo). A tradução mais coerente seria “Não penseis que vim demolir a Lei e os Profetas...” Lei e Profetas acenam para a completude das Sagradas Escrituras: as Escrituras como um todo.
Jesus, na perspectiva de Mateus é o novo Moisés, o qual levará à sua plenitude, isto é, a seu cumprimento e realização, a Lei e os Profetas, ou seja, a Palavra de Deus. A forma através da qual Ele realizará esta plenitude das escrituras serão a sua vida, as suas Palavras que, agora, adquirem força de ensinamento autorizado, que apresentam um novo modo de relação com Deus. Não mais através de normas e preceitos, doutrinas e rubricas, mas do amor, da misericórdia e do serviço a todos e a cada um.
Jesus adverte: “Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus” (v.19). A que mandamentos o Senhor se refere? Não são os mandamentos da lei de Moisés, os quais estavam obrigados a viver. E sim as bem-aventuranças. Quem não as viver, e, pior, ensinar os outros a descumprir ou anula-las será considerado menor no reino. Menor, não no sentido da estatura ou da posição que ocupa hierarquicamente, ou seja, no âmbito quantitativo, mas no sentido qualitativo. Não será considerado discípulo do Reino.
“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (v.19). A fé e a religiosidade devem acompanhar a vida do discípulo do Reino, segundo Jesus. Por isso, insiste na chamada de atenção. O que seria esta justiça? Este termo aparecerá novamente no capítulo sexto, com a mesma sentença. Mas aqui está relacionada ao agir do discípulo em consonância com as bem-aventuranças. Suas atitudes devem se diferenciar das dos religiosos e líderes do povo, os quais cumpriam a lei e a justiça de uma forma automática, descomprometida da vida e das relações. Bastava que fossem agradáveis à Deus, e que os colocassem numa posição de vantagem diante Dele, em detrimento dos outros. Este era o ensinamento dos chefes religiosos do povo; era a teologia da época de Jesus. Ele não concorda com essa forma de ser, pensar e agir.
Dos versículos 21-37, Mateus pretende mostrar a interpretação que Jesus faz dos preceitos da lei. Interessante que o evangelista acena para o fato de que o mestre interpreta as normas que estavam relacionadas às relações humanas. A cada afirmação da lei, o catequista bíblico coloca a fórmula “Eu, porém, vos digo” nos lábios de Jesus. Esta é uma formula de reinterpretação. São cinco os preceitos que o Senhor se põe a reinterpretar e reordenar à sua forma original, ou seja, ao seu pleno cumprimento. Cinco é um número simbólico que acena para os cinco primeiros livros da lei. O autor do evangelho quer ensinar para sua comunidade leitora e para as gerações seguintes que Jesus é o verdadeiro legislador e intérprete das Escrituras. Ele está, portanto, reinterpretando as leis e levando-as a sua perfeição. Ou seja, o que Jesus está falando está em perfeita sintonia com a Palavra de Deus. A legislação que o Cristo realiza leva, portanto, ao desejo original do Pai ao comunicar sua palavra de Aliança.
A
primeira prescrição sobre a qual Jesus se debruça a interpretar e reorientar é
a que se refere ao mandamento de “não matar”. Ela serve de chave interpretativa
para as outras quatro. “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás!
Quem matar será condenado pelo tribunal'. Eu, porém, vos digo: todo aquele que
se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão:
'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será
condenado ao fogo do inferno” (v.21-22). Estes insultos, traduzidos pelos
adjetivos “patife (gr. Ῥακά/Raká)” ou tolo “(gr. μωρός - Μωρέ/Moré)” dão a
conotação de uma pessoa incapaz, desabilitada.
Jesus conhece muito bem os sentimentos humanos, mas adverte para o descontrole a que pode chegar o discípulo. Se a raiva se transforma em insulto, e, se com o insulto se pretende eliminar e excluir o irmão do horizonte de convivência e fraternidade, já se está matando o irmão. A interpretação profunda do delito de matar que Jesus oferece deve levar o discípulo a refletir sobre suas atitudes. Não se mata com violência física, apenas. Mata-se, e, portanto, tira-se a possibilidade de vida e a dignidade do outro com as palavras que ferem e que tem poder de gerar a diminuição, exclusão, marginalização. Desconsideração, marginalização e exclusão são mecanismos de morte!
Para Jesus, matar as relações com outro seria o mesmo que matar a relação com Deus. Assim como para os profetas, que já chamavam a atenção do povo de Israel para o perigo de uma vida de fé (a relação de Aliança com Deus), descomprometida da vida real, social e das relações com o outro, o Senhor também alerta os discípulos de todos os tempos e lugares para o perigo de uma vida de aparências com Deus, através de uma religiosidade descompromissada com o amor, a fraternidade, a misericórdia e o serviço para com o outro.
Não há, para ele, relação com Deus, que não passe pelas relações humanas e fraternas. Por isso, qualquer juramento feito à Deus fica comprometido. É para este perigo que o mestre quer advertir, de modo que seus discípulos não vivam de aparências e da incoerência entre a fé, a vida e as relações interpessoais.
O entendimento e a nova interpretação que o Mestre tem acerca do preceito “não matar” lança luzes para as outras quatro prescrições também interpretadas por Ele. Dos versículos 27-32, ele faz uma nova interpretação acerca dos mandamentos de não cometer adultério e de não se divorciar, os quais também tocam as relações humanas. Estas atitudes eram frequentemente condenadas pelos profetas, pois atentar contra o matrimônio era atentar contra a Aliança com Deus, da qual esta realidade relacional era metáfora. O casamento era símbolo da Aliança e sinal da Realidade do Reino de Deus. Romper ou atentar contra ela representava o risco da quebra da relação com o próprio Deus, mas não só: a quebra da relação com outro.
No caso do divórcio e do adultério, desintegrava-se a relação de alteridade, o amor de um para com o outro, e, pior, promovia a marginalização da parte mais frágil, a mulher – conforme a mentalidade machista, patriarcal, mercantil e utilitarista do homem da época. Colocava-se numa dinâmica de diminuição, marginalização, hostilização quem se devia proteger e considerar. Estas atitudes, na compreensão de Jesus, correspondem também ao delito de matar.
Jesus não está preocupado unicamente com o sentido de uma lei ou interpretação humana que os religiosos de seu tempo faziam com muita habilidade, inclusive para legitimar o modo de vida deles, mas com a vida da pessoa humana colocada em situações de vulnerabilidade como era o caso da mulher, que, naquele contexto seria a parte mais lesada tanto no adultério como no divórcio. Uma vez que o homem conseguiria muito bem se safar de todas as situações. Nada diferente de hoje. Porém, para o Cristo, o ser humano está acima, sim, de qualquer lei, principalmente os frágeis e indefesos.
O que Jesus quer dizer com “uniões irregulares”? Há uma dificuldade de se traduzir e, portanto, compreender hoje o que o termo grego “pornéias” (gr. πορνείας). Os destinatários imediatos do texto, isto é, a comunidade para a qual Mateus escreve sabiam o seu significado. Os leitores-ouvintes de hoje, não. Por isso, é plausível traduzir uniões irregulares por uniões ilegítimas. Uniões ilegítimas são aquelas que não devem nem deveriam ter existido jamais. Que ao invés de gerar vida e amor para o casal e para cada um, na verdade se tornam lugares de impossibilidade de vida e, portanto, morte. Na perspectiva de Jesus, tais uniões não podem ser a meta da vida a dois para o discípulo do Reino, pois podem representar o risco da perda de sua humanidade e da dignidade de Filho (a) de Deus. Quais seriam elas? Interesses (ele (a) pode me proporcionar vantagens, bem-estar, conforto, ascensão e prestigio social), mesmo sabendo que a pessoa não possui um mínimo de equilíbrio emocional, psíquico; por aparência (principalmente para salvaguardar a imagem de uma das partes diante das exigências dos padrões atuais), mesmo sabendo que a pessoa é violenta, possessiva, abusiva, falha de caráter; por carências e necessidades afetivas, as quais apontam para possíveis inseguranças, medo de rejeição, de desamparo. Isso para ambos os lados.
De 33-37, Jesus abole a permissão de se fazer juramentos. Os chamados “juramentos ao Senhor”, contidos em Dt 23,22-24 e Nm 30,3.33. Por que? Precisamente devido ao fato de que a palavra do discípulo do Reino deve ser autêntica, e, por isso, digna de crédito, podendo dispensar qualquer reforço para que sua eficácia fosse garantida. Basta a sua palavra e verdade de si, porque aderiu ao projeto do Pai e de Jesus. Seu Sim é sim, e seu Não é não, ou seja, coerência em relação à proposta do Reino, sintetizada pelas Bem-aventuranças.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Santuário
São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.
Excurso:
Ninguém
nasceu para ser infeliz, principalmente numa relação a dois, ainda mais se ela
foi elevada à dignidade de matrimônio/sacramento. Todavia diante dos fatos que se
avolumam em nosso contexto social no tocante à violência doméstica, se faz
necessário também, à luz deste texto evangélico, uma reflexão. Estamos no
quadragésimo quinto dia do ano de 2026, e, desde o seu início chovem notícias
dessa natureza. Diante das infelicidades vividas numa relação, qual a
orientação da Igreja? Acima de tudo acolhimento, empatia e compreensão.
Ninguém adultera sozinho, nem por esporte ou hoby. A não ser que que uma das partes apresente um desequilíbrio psicológico. Ninguém se divorcia por diversão, salvo por imaturidade e irresponsabilidade afetiva. E não se trata justificar uma atitude ou outra; antes, se faz necessário compreender as histórias pessoais de ambas as partes.
A propósito, Jesus era muito consciente da realidade que o rodeava e das hipocrisias religiosas de seu tempo. Ele sabia que o homem com suas atitudes machistas e descompensadas também favorecia o adultério da mulher. Falta de amor, falta de companheirismo, falta de cumplicidade, de afeto, falta de compreensão para com o tempo e necessidades básicas da esposa, tratamentos indevidos e vexatórios, expondo as feridas do relacionamento ou limites pessoais, humilhações, e, por fim, a violência que elas sofriam. Por exemplo, fazendo uma relação com o texto de Jo 8, na narrativa da mulher adúltera, Sua atitude diante daquela situação foi a de não julgar, muito menos condenar: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais.” E, a bem da verdade, com esse dito, sequer ordena que ela volte para antiga relação, a qual Ele sabia que não era mais espaço de vida para ela. “Vai e não peques mais” é um incentivo para que a personagem se reconstrua e possa viver uma nova vida.
Ninguém se divorcia somente por diversão. Também aqui se faz mais do que necessário compreender a história antes de julgar. Existem feridas no âmbito da vida a dois que já nasceram inclusive antes de se contrair Matrimônio, que precisam ser levadas em consideração, porque não foram dadas as devidas atenções no início, e, que, agora, influenciam na manutenção na ruptura do vínculo. Ou que vão nascendo no curso da relação. Por isso, se existem problemas, procure-se ajuda. Um acompanhamento terapêutico. Todavia, se a infelicidade existe e persiste, e dela decorrem desamor, desrespeito, e todo e qualquer tipo de violência, a Igreja orienta e ensina que: “A separação dos esposos, permanecendo o vínculo matrimonial, pode ser legítima em certos casos previstos pelo direito canônico. Se o divórcio civil for a única maneira possível de garantir certos direitos legítimos, tais como o cuidado dos filhos ou a defesa do património, pode ser tolerado sem constituir falta moral” (cf. C.Ecc.Cath, n.2383). Recorrendo ao Código de Direito Canônico, pode-se encontrar no cân.1153 o seguinte: “Se um dos cônjuges é causa de grave perigo para a alma ou para o corpo do outro cônjuge ou dos filhos ou, de outra forma, torna muito difícil a convivência, está oferecendo ao outro causa legítima de separação (cf. C.I.C, cân.1153)”.
Uma orientação absolutamente cristã, porque advém do Evangelho: quem passa por esta situação reconcilie-se e refaça o vínculo, cada um procurando os auxílios necessários, isto é, terapia e aconselhamento. Porém, se a vida se torna difícil e insustentável, a tal ponto de que a vida e a dignidade de ambos se encontrem ameaçadas procurem outro caminho. Não se obriguem, tampouco se torturem. Não se violentem.
Termino
com uma máxima da Teologia Moral pré-Vaticano II: “ninguém está obrigado ao
impossível.” Entendamos um pouco mais e melhor do Evangelho do Senhor, que gera
e orienta a Sã doutrina da Igreja.
A quem passa ou passou por isso, e, graças a Deus, não teve um desfecho nefasto (ainda), procure ajuda enquanto é tempo.
A
quem não passa, Graças a Deus: mas menos julgamentos e mais compreensão. Menos hipocrisia
e mais empatia.
Não
transformemos a vida alheia num tribunal popular.
Absolutamente nada justifica um homicídio. Principalmente para se culpar alguém. Isto está muito longe de ser considerado algo tão sagrado como o AMOR.






