sábado, 5 de setembro de 2026

REFLEXÃO PARA O XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,15-20:


 

A liturgia nos introduz na leitura do quarto discurso do Evangelho segundo Mateus, o “Discurso Eclesial” contido em Mt 18,1-35 Através deste ensinamento, Jesus coloca para seus discípulos as balizas para serem reconhecidos como membros da ekklesia, a comunidade do Reino. Esta catequese é dirigida aos discípulos, primeiramente; mas no horizonte da obra, o autor, recuperando o ensinamento do Senhor, aplica-o a vida e ao contexto de sua comunidade, dados os desafios que começam a surgir. Mateus, de sua parte, apresenta os ensinamentos contidos no Discurso para lançar luzes para a vida de sua comunidade. O discurso visa levar a comunidade dos discípulos a pautar sua ação pela justiça do Reino.

No contexto amplo, Mateus narra o início do capítulo mostrando Jesus exortando os discípulos a assumirem a atitude exemplar dos pequeninos, com o gesto metafórico de colocar ao seu meio uma criança, visando coibir a mentalidade e a tentação da superioridade ao interno da comunidade (18,1-5). Em seguida, adverte para o perigo dos escândalos ao interno da comunidade, os quais geram obstáculos aos pequeninos (os recém-iniciados na Fé em Jesus e na vida comunitária, 18,6-9). Em seguida, tem-se a primeira parábola do mestre ao interno do discurso, a da ovelha extraviada, Mt 18,10-14 (ela foi tornada assim pela intransigência das lideranças e dos escândalos ao interno da comunidade).

O trecho bíblico de hoje, Mt 18,15-20, apresenta o texto da chamada “correção comunitária”. Como bom mestre, Jesus propõe uma situação: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, à sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão” (v.15). O texto contido nos originais, em grego, omite o pronome obliquo de segunda pessoa, “ti”, ficando assim: “se teu irmão pecar”. Qual o sentido deste dito? Se o irmão começar a tomar atitudes incompatíveis com o projeto do Reino, levando uma vida que não condiz com o modo de ser de Jesus. Nesse sentido, o pecado reside no ato de se colocar contrário ao projeto prescrito em Mt 5 – 7, no Sermão da Montanha: as bem-aventuranças.

Qual o passo a ser dado? A pessoa deve ser chamada, e ser mostrado a ela que o seu modo de vida está incompatível com o a ética do Reino. Pode haver dois resultados: positivo e negativo, que acompanharão os próximos passos. O positivo resulta na conversão (retomada do caminho do discipulado), enquanto o negativo, na redução do indivíduo à categoria de multidão. Algo desta natureza deve estar acontecendo na comunidade do evangelista e, por isso, ele retoma este ensinamento de Jesus. O termo irmão, utilizado nesta pericope, reflete uma relação comunitária.

Outro elemento que nos chama a atenção é o fato de que não é o culpado que deve vir pedir perdão. Mas o irmão ofendido, que deve ir ao encontro daquele. O verbo “corrigir”, utilizado na tradução litúrgica pode dar sempre a impressão de superioridade a quem corrige e de inferioridade ao corrigido. O verbo correto é convencer, isto é, fazer  que o irmão tome consciência do erro cometido. Não há espaço para superioridade e inferioridade ao interno da comunidade.

O texto de Mateus mostra que o aconselhamento deve ser feito três vezes. O número três na teologia bíblica simboliza a condição humana. Representam as três dimensões constitutivas da pessoa: alma, espírito e corpo. Sua totalidade. Significa, aqui, a opção incondicional pelo ser humano que a comunidade, constantemente, deverá exercitar. Por isso, Jesus orienta, na segunda vez, a presença de mais duas testemunhas. De modo que o procedimento siga as orientações de Dt 19,15, onde elas dão veracidade ao ato, e, acima de tudo, a questão não seja decidida por uma só pessoa, evitando o risco de que o procedimento ou a decisão venha a ser fruto do autoritarismo do líder.

Os três passos da correção comunitária ensinam o seguinte: A comunidade é a instância de decisão, e não o arbítrio, o humor ou gostinho das lideranças; ela deve ter os mecanismos para a integração da pessoa no horizonte do projeto de Deus, ainda que deva ela mesma encaminhar o indivíduo para recomeçar o caminho, para refazer o processo do discipulado.

Nas três tentativas, Jesus deixa bem claro que existe a possibilidade da pessoa fechar-se diante do aconselhamento comunitário. A pessoa é livre em sua decisão e o Senhor preserva a liberdade do outro. Nada se impõe. Muito menos a comunidade deverá se colocar de modo impositivo diante do irmão que errou. Por isso, a atitude eclesial não é uma sentença escatológica, isto é, a palavra final na vida da pessoa. A última palavra é sempre a de Deus.

O recurso do aconselhamento (correção) comunitário é, acima de tudo, pastoral. Porque ele recoloca a pessoa no grupo da multidão, a fim de busca-la novamente e habilita-la para o seguimento. A atitude da comunidade não é, e não poderá ser, a da exclusão. É contra isso que ela deve lutar, iluminada pelas palavras e atitude de Jesus. Por isso, as palavras contidas no v.17, “Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público”, devem ser entendidas nesta perspectiva. Ser declarado como pagão ou pecador, nada mais é que reconhecer que o indivíduo ainda não deu o passo na fé. Mas ao se tratar de um membro da comunidade que já aderiu à Cristo, ser considerado uma pessoa como esta significa receber a chance de recomeçar e retomar o caminho. A comunidade deve ser lugar do perdão e espaço da misericórdia; ambiente de recomeço.

“Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (v.18). Com a mesma expressão utilizada para Pedro (Mt 16,19), transmite à comunidade uma responsabilidade, e não um poder retentor, relacionado ao perdão. O que Jesus quer dizer? Que quem não perdoa retém o perdão de Deus. O perdão de Deus já foi dado, mas se torna eficaz e operativo somente se traduz-se e se transforma em perdão aos irmãos.

Os vv.19-20 concluem: “De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”. Ao contrário do que costumeiramente se pensa, este dito não alude à importância e a eficácia da oração comunitária. Estes ditos devem ser entendidos a partir do contexto do aconselhamento comunitário. Céu refere-se ao âmbito do Pai. Terra refere-se ao lugar da comunidade cristã. O evangelista quer ensinar que existe uma estreita relação entre o Pai e a comunidade. Ele utiliza o verbo synfoneo (gr. συμφωνηω / συμφωνησωσιν), “estar de acordo”, “agir segundo a mesma sinfonia”. Daqui se origina o termo sinfonia. O que é uma sinfonia? Uma música, que, a partir de uma partitura é tocada por instrumentos diferentes, num mesmo tom (na diversidade dos instrumentos). Nesse sentido, a comunidade cristã é uma orquestra sinfônica, e age como tal, quando toca sob a partitura do amor de Deus que perdoa, acolhe, recupera a pessoa, integra e gera vida. Sua partitura é o Evangelho. Assim, a comunidade deverá fazer sua oração para discernir a respeito da decisão a ser tomada em relação ao irmão. Ser consciente de que no meio dela está Jesus. Portanto, é uma oração que se faz na presença do ressuscitado, conduzida por seu Espírito.

Emerge do texto evangélico de hoje todo o esforço do evangelista em coibir, no interno de sua comunidade, qualquer postura vingativa, revanchista, autoritária, moralista por parte das lideranças comunitárias. Quando essas mentalidades são alimentadas, os indivíduos ficam completamente fragilizados e a comunidade se fragmenta. E passa a se submeter aos caprichos e às vontades das lideranças. Com isso, se distancia da sintonia e da sinfonia do Reino e do Pai.

Que estejamos sob a mesma partitura, sob um único maestro, executando a sinfonia do amor, do perdão e da vida.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco da paróquia santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 29 de agosto de 2026

REFLEXÃO PARA O XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 16,21-27:


 

A liturgia deste vigésimo segundo domingo do tempo comum continua a leitura do capítulo 16 do Evangelho segundo Mateus. A profissão de fé acertada por parte do discípulo, que fora revelada pelo Pai do Céu, é o ponto de partida para nossa reflexão. Na cena anterior, Pedro, em nome dos Doze, reconhece Jesus como Messias e Filho de Deus. Mas Jesus ordena-lhes não contar nada a ninguém sobre sua identidade. Ele precisa conduzir os discípulos ao amadurecimento desta proclamação. Isso posto, podemos meditar o texto em questão, Mt 16,21-27.

Os discípulos que reconheceram em Jesus, o Messias e Filho de Deus necessitam compreender por onde passará a missão do mestre. “Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 21). Eis, o primeiro anúncio que Jesus faz de sua paixão, morte e ressurreição. Chama-nos a atenção, dois focos que Jesus delimita em sua fala, a ação das lideranças religiosas que o levará à morte e a do Pai que lhe restituirá a vida, ao ressuscitá-lo.

A compreensão destas palavras não pareceu fácil aos discípulos. Isso, porque eles traziam consigo uma ideia em relação ao Messias. Pensavam e concebiam-no como um justiceiro, guerreiro político, o qual dominaria sobre o povo, libertando-o da tirania do poder vigente, e, que, por fim, reinauguraria a dinastia de Davi. Na mentalidade dos discípulos, se Jesus é reconhecido como Messias, eles, de algum modo, poderiam ser beneficiados por estarem ao seu redor. “Se ele reinar sobre Israel, como messias esperado, então governaremos com ele como seus ministros”. Entretanto, Ele se revelará um messias “às avessas”: ao invés de impor-se pela força e violência, tomará lugar entre as vítimas do poder, sofrerá violentamente até morrer, assassinado como um bandido da pior espécie. Impossível aceitar um messias assim!

Tanto, que Pedro – aquele que fizera uma acertada profissão de Fé – protesta: “Então Pedro, tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não te permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!” (v. 22). Na cabeça de Pedro, não cabe a imagem de um Messias sofredor. Fidelidade a Deus e glória seriam, na concepção popular, duas características do Messias esperado. Sofrimento e morte, jamais!

Atenção a forma como Mateus articula bem a cena ao colocar ênfase na atitude de Pedro. O evangelista utiliza o verbo proslambanomai/proslambomenos (gr. προσλαβόμενος), que significa “tomar pelas mãos”. Dá a entender que Pedro pegue Jesus pelo braço e o leve para um lugar para repreende-lo. É correto, pois, em seguida, o discípulo começa a reprovar o mestre. Aqui, o autor usa o verbo grego επιτιμαω – epítimao, que significa, repreender, condenar por erro, reprovar. É interessante, porque os evangelistas só usam este verbo para narrar os episódios de exorcismos realizados pelo Senhor. O que está fazendo Pedro? Exorcizar esta ideia de messias que Jesus possui. Na cabeça do discípulo, somente uma força maligna poderia ter incutido no Cristo uma ideia assim. Poderia pensar o apóstolo, “o que se passa na cabeça deste homem? Deus leva à gloria e ao sucesso o seu ungido, e não à falência e ao fracasso”. Ou seja, o caminho e a missão de Jesus precisam ser tirados de sua cabeça; exorcizar o mestre. Porque não condiz com a mentalidade e estilo de vida desejados pelo discípulo. Agindo assim, ele, e, em última análise, a comunidade dos discípulos rejeitam a condição do discipulado, tomando, assim, o lugar do mestre.

"Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!" (v.22b). A fala do discípulo é o que cumula de densidade a cena narrada. Na verdade, o texto original grego não diz “Deus não permita”, mas sim “Deus tenha misericórdia de ti, Senhor (gr. Ἵλεώς σοι, κύριε). O termo hileos (gr. ἵλεως) é utilizado aqui como uma censura. Pedro está afirmando que o caminho de Jesus, de ir para Jerusalém, ofertar a vida ao Pai e libertar as pessoas através do amor e do serviço é uma blasfêmia. Por isso pede que Deus o perdoe por dizer tal coisa. Pois na cabeça dos discípulos, simbolizados por Pedro, há uma grande dificuldade de compreender e aceitar o projeto de Jesus. Ora, eles só conhecem, e muito bem, o caminho glorioso do messias esperado, conforme canta inclusive o Sl 78 e Is 60. Como poderia, então, o Senhor falar de um messias derrotado?

Jesus, recoloca, então a Pedro e os discípulos em sua condição primeira: o discipulado. “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensa as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens” (v. 23). Ao contrário do que se pensou, esta não é uma condenação ou reprovação. Ele não o está expulsando. Tampouco renegando-o. Mas chamando-o novamente ao seguimento; a retomar o caminho do discípulo, o qual se dá a partir do “vir para trás”, “vir depois de”, que é o sentido correto contido no Original, em Grego. Mateus faz uso do verbo opisein (ὀπίσω μου – opíssô mou), sinônimo do verbo Akolutheo, seguimento.

Satanás, significa adversário, opositor. Pedro ao invés de ser um facilitador para que o projeto do Reino acontecesse, se revelava – por não compreender e aceitar o mesmo projeto de Jesus – em opositor. De pedra de construção (cf. o evangelho do domingo passado) passa à condição de pedra de obstáculo ou tropeço – eskandalon – para o mestre. Os Doze não conseguem pensar as coisas de Deus, ou seja, não estão sensíveis nem sintonizados com o querer do Pai. Interessante, Jesus está se dirigindo para onde o amor e o serviço o levam. Este é o Seu caminho. Mas Pedro deseja leva-lo para outro caminho, o do domínio, do poder, da vanglória. Mas, mesmo assim, Deus, em Jesus, não os rejeita, não os descarta; antes, chama-os, novamente ao discipulado. O Senhor não desiste dos seus. Por isso se volta para o discípulo e lhe chama e pede para retomar o caminho, isto é, a condição de discípulo; que se coloque atras do mestre para caminhar pela mesma estrada que Ele. “É você, Pedro, que está sendo movido pelas pulsões diabólicas do poder e do domínio; é você que possui a mentalidade equivocada acerca do caminho a seguir”. O mestre consegue fazer com que Pedro mude sua mentalidade? Naquele exato momento, não. Ainda permanecerá resistente; almejará os primeiros lugares e ser o maior e mais importante. Somente após a ressurreição é que ele e os demais compreenderão a lógica de vida do Senhor.

Ninguém tem obrigação de segui-lo, pois o seguimento é livre e opcional. No entanto, a quem opta pelo seguimento, são feitas exigências bastante radicais, e isso Jesus deixa muito claro. Em síntese, estar disposto à vir após Jesus, segui-lo, significa ter consciência por onde passa sua vida. O mestre esclarece as condições para se tomar seu discípulo. Para segui-lo, é necessário abrir mão das próprias comodidades e interesses.

Jesus coloca, então, as condições para o seguimento. “Se alguém que me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (v. 24). Também aqui, merecem destaques estas exigências, que precisam ser bem compreendidas para não gerar uma má interpretação do caminho a ser vivido pelo cristão.

“Renunciar a si mesmo”, o que significa isto? Literalmente, recusar a si. O evangelista utiliza o verbo aparneomai (gr. ἀπαρνέομαι). Ou seja, recusar toda a lógica do egoísmo. O que prega a mentalidade deste mundo? Pensar em si mesmo; viver por si; a lógica do “eu me basto”. Possuir uma mentalidade de fechamento diante do outro. Uma vida autorreferenciada. Construir-se sobre si mesmo. A tentação de fazer o bem, esperando receber algo em troca. Portanto, renunciar a si mesmo é o convite a sair de si e romper com o ego, colocando-se sempre em relação a quem quer necessite. É a capacidade de gerar e promover vida naqueles que estão a sua volta. Proporcionar um encontro pleno com o amor fie e verdadeiro de Deus, oferecendo sentido e plenitude de vida. Amar somente e fazer o bem. Isso significa estar unido ao sentido da vida do Senhor, isto é, viver como ele.

“Tomar a cruz”, significa assumir o testemunho do Reino (Mt 10,38). A palavra cruz sintetiza as consequências da opção pelo discipulado, ou seja, o preço a ser pago pela aceitação do convite de Jesus. Seu caminho será perpassado pela cruz e ela se torna caminho para o autêntico discipulado.

O convite a carregar a cruz é a certeza de que o projeto de Jesus é incompatível com a ordem vigente. É importante ressaltar que não é Jesus quem oferece a cruz. A cruz é consequência do seu seguimento fiel. Implica saber em que se está empenhando (perdendo) a vida. Vida, aqui, tem um sentido polissêmico, mas pode ser traduzido numa forma bem compreensível: aceitar perder a própria reputação em vista do projeto do Reino e do Seguimento à Jesus; ser até mesmo renegado, a partir do modo de viver do Senhor, que anda na contramão da mentalidade deste tempo. Assumir a coragem de ser encontrado entre os últimos, entre as vítimas desta realidade e de todos os tempos.

O versículo pode correr o risco de ser mal compreendido, dando a entender que “o tomar a cruz” significa resignar-se diante dos problemas ou da vida sem saída ou sem solução, ou quando as coisas não vão bem, “suportar porque é inevitável”. Não é isso. Jesus não disse “suportar”, e, sim, “tomar” (como bem expressa o verbo grego airô/ αἴρω). Ele pede que se “tome nas mãos” as escolhas de quem acaba na cruz. Quem são os que tem o seu fim na cruz? Os excluídos pelo poder, os escravos, os marginalizados, os bandidos, ou seja, os últimos e os miseráveis. O Senhor deseja ensinar que os discípulos devem se colocar entre os últimos, os crucificados da história, para servirem a todos os que necessitam, através, inclusive, da capacidade da doação da própria vida.

Não se trata de uma cruz qualquer. Mas a própria: cada um chamado a um serviço específico, aquilo que se pode fazer e realizar com base nas próprias capacidades e dons recebidos de Deus. O discípulo precisa crescer na consciência de que deve ser servo de quem quer que necessite, onde quer que se encontre; em todas as situações, lugares e contextos. No trabalho, nas relações humanas, no cotidiano.

“e me siga (v.24)”. A ultima recomendação do Senhor, a qual abraça também as quatro sentenças sapienciais com que se conclui o texto de hoje. Seguir a Jesus significa sempre tê-lo diante dos olhos. Configurar a vida ao Mestre. Viver uma relação íntima e constante. Tê-lo como direção e meta, sem jamais perde-lo de vista. Manter constantemente diálogo com ele, para poder saber o que ele pensa, como age e como vive. Saber gastar e empenhar (perder) a vida da mesma maneira que o Mestre fez.

O último versículo é interessante, porque toca no tema da recompensa do discípulo. Ela virá no dia do Filho do Homem. Em que consistirá, nos critérios destes mundo? Não. A retribuição do discípulo será a de ser reconhecido a partir da conduta do Filho do Homem, isto é, ser encontrada na vida dele a vida mesmo de Jesus sendo novamente vivida e transmitida nesta história. É isto que o Senhor deseja dizer com “o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”. A conduta do discípulo deverá ser sempre a conduta do Cristo. Ser reconhecido assim, como possuidor e realizador desta mesma conduta será a sua retribuição. Significa que o discípulo já alcançou a estatura de Cristo Jesus.

Estamos dispostos a assumirmos sempre e constantemente nosso lugar de discípulo? Temos consciência de que este seguimento é perpassado pela dinâmica da Cruz? Sabemos reconhecer que o caminho do discípulo deve ser o mesmo que o do mestre?

Pe. João Paulo Sillio.

Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 22 de agosto de 2026

REFLEXÃO PARA O XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 16,13-20:

 


O texto proposto para a meditação deste vigésimo primeiro domingo do tempo comum, é retirado do capítulo dezesseis do evangelho segundo Mateus. A perícope começa no v.13. mas ela deve ser compreendida em seu contexto amplo, a partir de duas situações que servem de estopim para a narrativa que se segue. O primeiro acontecimento foi uma controvérsia entre Jesus e os fariseus, os quais pediram a ele um sinal que comprovasse sua identidade de messias (Mt 16,1-4), onde respondia que nenhum sinal seria dado, a não ser o de Jonas. A segunda situação foi motivada pela advertência contra o fermento dos chefes religiosos (Mt 16,5-12), isto é, a ideia equivocada acerca do messias, bem como a própria hipocrisia. Diante deste contexto, o Senhor leva os discípulos para a cidade de Cesaréia de Filipe. Indicação importante para os leitores da catequese mateana.

 

Cidade situada ao norte de Israel, dedicada à Cesar, imperador romano, era sede do poder administrativo da província da Palestina e, portanto, lugar de culto ao imperador e de cultivo da ideologia imperial. Um território pagão. Por outro lado, a cidade fica distante de Jerusalém, sede do poder religioso. Jesus e seus discípulos encontram-se longe das influências do poder religioso. Lugar propício para fazer uma experiência nova e pura com Deus. É o que Ele deseja propor. “ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (v. 13b). Não há concordância entre os biblistas a respeito da intencionalidade dele na pergunta. Porém, a preocupação do Senhor não reside na questão de sua autoimagem. Ele estava preocupado com a receptividade de sua missão, ou seja, como o povo simples estava recebendo, acolhendo e compreendendo sua obra. Ora, tendo ensinado e realizado tantas coisas em benefício das multidões, com toda a certeza transmitira alguma imagem de si, pela qual se guiavam no trato com ele.

 

A resposta dos discípulos pode lhe revelar algum cenário: “alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (v. 14). A atuação de Jesus tinha dado margem para variadas interpretações, e as figuras do passado serviam para que as pessoas fizessem alguma imagem Dele: era tido e compreendido como um profeta do passado. Importante notar esse detalhe, que pode acenar para um reconhecimento positivo mas, na verdade, revela o erro, ou seja, conceber a Jesus como um personagem de um passado distante. É bem verdade que o modo através do qual ele decidiu viver sua missão e obra foi a via profética, perpassada pela dinâmica do justo sofredor e “Filho do Homem”, como realizador da vontade e do juízo divinos.

 

Após a resposta dos discípulos, Jesus dirige a pergunta para eles: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v.15). Afinal, são eles os mais próximos, e, por isso, os primeiros destinatários dos ensinamentos do Mestre. A compreensão da multidão se justifica plenamente, uma vez que ela não adere em profundidade ao ensinamento do Senhor. Por isso, interessa saber como estava sendo compreendido pelos discípulos. Estariam a altura de dar um passo a mais em relação à multidão? Trata-se de uma pergunta importante, porque a resposta revelará a percepção dos discípulos a respeito dele. Mais ainda, revelaria também as expectativas que traziam consigo, e qual mentalidade nutriam acerca dele. A comunidade cristã não pode ver Jesus como uma personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado.

 

“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (v.16), responde acertadamente Simão, em nome dos doze. É uma reposta que ele dá em nome do grupo, e, portanto, eclesial. Uma profissão de fé comunitária. Os demais discípulos também manifestavam a mesma compreensão de Simão. Eles compreendem a messianidade de Jesus. A resposta está religiosamente correta. Mas há que ser aprofundada, pois ela só representa a ponta do iceberg. Há muito ainda a se descobrir e compreender acerca desta declaração. Existe muita coisa a ser amadurecida nesta concepção de messias. Deus está a agir em seu ungido. Toda ação de Cristo revela o querer do Pai. Mas não como os discípulos pensam e querem.

 

Há que se ter clareza acerca de uma coisa muito importante. A mentalidade dos discípulos acerca do messias era ainda eivada pela ideologia nacionalista e monárquica. Pensavam e desejavam um messias guerreiro, político e poderoso. E que recuperasse toda a glória e a realeza davidica. Ainda que pela violência e pelo poder. Jesus rejeitou e rejeitará essa identidade messiânica. Sua missão passa por outro caminho, a doação de si por amor através do serviço. A revelação do agir de Deus através do amor, da compaixão/misericórdia, do acolhimento aos rejeitados pela sociedade, dos pecadores. Há ainda muito o que aprender a respeito deste Jesus confessado agora como Cristo e Filho do Deus vivo. Voltemos ao comentário do texto bíblico.

 

“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17). Jesus admira-se com a resposta tão acertada. E reconhece em Simão um bem-aventurado. Seu entendimento não provém do esforço humano; só pode ser revelação do Pai dos céus. A capacidade de compreensão do discípulo acerca da identidade de Jesus provém da capacidade de escutar a voz de Deus. Quem desejar fazer um caminho de fé semelhante ao de Simão precisa estar atento à Palavra do Pai para assimilar quem Jesus é.

 

Mais uma nota importante. Mateus utiliza três nomes para se referir ao discípulo pescador: Simão, Simão Pedro e Pedro, apenas. O apóstolo é chamado pelo seu nome “Simão”. Todas as vezes que Jesus se dirigir ao discípulo desta maneira, significa que o seu agir e seu pensamento estão corretos e condizem com o querer do Pai. Quando o evangelista utilizar o nome composto (Simão Pedro) é para mostrar a dificuldade e a resistência do discípulo. Ao se referir ao pescador somente com o nome Pedro é porque ele está errado “como uma pedra” de tropeço.

 

“Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18a). Jesus declara Simão Pedro como rocha firme devido a Fé que professa juntamente com a comunidade dos discípulos, a Igreja. A pedra firme por sobre o qual se edifica a comunidade dos crentes é o conteúdo e o núcleo da Fé professada pelo discípulo: Cristo, o filho do Deus vivente.

 

Mateus se serve de duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: Πέτρος– Petros e πέτρα - petra. Embora muito próximas, é possível distingui-las. “Petros” corresponde à pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena, uma pedra de construção; “petra”, por sua vez, alude à rocha, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. Nesse sentido, o Senhor diz que Simão é Pedro Πέτρος /petros, ou seja, uma pedra-tijolo da construção. Ele deve estar assentado sobre a rocha πέτρα /petra, que são Jesus e a fé que professou: “Tu és o Messias e Filho do Deus vivente”.  Só aqui, e em Mt 18,17, o evangelista chama de “Igreja” a comunidade dos discípulos do Reino, evocando o antigo povo de Deus (hbr. qahal). A missão da igreja consiste em ser, na história humana, um sinal da presença do Reino, vivendo os seus valores e o seu projeto. Alicerçada sobre a rocha.

 

O Mestre confia plenamente no discípulo e na comunidade. Por isso, lhe dá plena autoridade para liderar e pregar o Reino ilustrada pelas “chaves do Reino dos céus”. A entrega das chaves como imagem para autoridade para ligar e desligar só é respaldada no céu, lugar de Deus, quando a vida do discípulo e da comunidade assimilam a vida e o Espírito do Mestre da forma mais profunda possível. Qualquer um que professa convictamente a fé em Jesus e vive seu programa de vida expressado nas bem-aventuranças (Mt 5 – 7), tem a chave de acesso ao Reino. Mais que delegar poderes, o Senhor está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino acontecer já aqui na terra, vivendo segundo sua existência.

 

“Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias” (v.20). A ordem dada aos discípulos deve ser entendida como precaução para se evitar confundi-lo com o messias glorioso e esperado com ansiedade pelo povo e pelas elites religiosas. Mas serve igualmente de advertência para a comunidade que ouve, medita, lê e recebe o texto, a fim de que ela não reproduza o pensamento equivocado sobre Jesus, e se coloque sempre em sintonia com o Pai para acolher e compreender a vida do Cristo e assimilá-la para si. O texto litúrgico termina, preparando a sua continuação, o primeiro anúncio da paixão. O modo pelo qual Jesus exercerá plenamente seu messianismo será a da cruz.

 

O texto precisa nos questionar. Num determinado momento de nossas vidas, precisamos deixar que o Senhor nos leve para uma Cesareia, ou seja, longe das experiências religiosas equivocadas, e, ao mesmo tempo, lugar da realidade onde a vida, em meio as crises acontece para, ali, com Ele (jamais sozinhos), fazermos uma experiência toda nova de Deus (Em que lugar estou? Ele me ajuda a experimentar a Deus a e seu amor?). As vezes precisamos sentir a realidade para se colocar na escuta da voz do Pai que nos revela o Filho, e quem ele é (tenho escutado a Palavra do Pai, ou outras vozes que falam erroneamente acerca do Filho?). Por isso, assim como Simão, cultivar o coração e a mente abertos para a voz de Deus a nos revelar o Jesus que temos e não o Cristo que queremos (Que Cristo Quero?).

 

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 15 de agosto de 2026

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – Lc 1,39-56:

 


A Igreja celebra a Solenidade da Assunção de Maria, Mãe do Senhor, aos céus. Um dogma de fé relacionado à pessoa de Maria. Contudo, ao lançarmos um olhar para o fundamento do dogma – da verdade de fé proclamada e celebrada, acima de tudo – os dogmas marianos estão radicalmente fundamentados na fé cristológica. Dito de outra maneira, só se pode afirmar alguma coisa a respeito de Maria, porque, antes, e, primeiramente, se afirmou a respeito de Jesus. Aqui urge corrigir a expressão cunhada pela mariologia antiga, “Sobre Maria nunca se poderá falar suficientemente (De Maria Nunquam Satis)”. Ao contrário! Diz-se o suficiente a respeito dela e, tão somente o necessário, porque foi afirmado primeira e suficientemente acerca do Cristo.

O dogma mariano da assunção reafirma a índole escatológica da Igreja peregrina, da qual Maria é imagem – ícone. Ou seja, ao declarar e professar que Maria foi acolhida na Glória de Deus, a Igreja confessa sua fé na ressurreição. Ele reafirma e reflete o futuro e fim escatológico que está reservado para todo o crente: a vida definitiva e plena em Deus. Dizer que Maria foi assunta aos céus significa dizer que sua vida e história foram assumidas por Deus, em seu projeto salvador e redentor, em virtude do fato de que ela assumiu para si o projeto de Deus, vivendo como verdadeira discípula do Reino.

No Evangelho de Lucas, ela é o exemplo que deve ser assumido por todos aqueles que querem ser discípulos de Jesus e viver segundo a ética do Reino. O catequista bíblico faz questão de tipificar em Maria as atitudes fundamentais: ouvir a Palavra de Deus, acolhê-la (confronta-la) e frutifica-la através da vida concreta, em amor e serviço aos outros. Estas características estão bem ilustradas na cena da Anunciação do nascimento do Salvador versículos antes.

Na cena anterior (Lc 1,25-38), Maria, ao encarnar em si a Palavra geradora de vida, se assume serva desta mesma Palavra e parte apressadamente para a região montanhosa da Judéia, a fim de assistir a sua parenta, a antes estéril Isabel, de idade avançada, e, agora, grávida. A esterilidade era uma vergonha naquele tempo. A jovem de Nazaré decide-se por viver a Palavra de Deus colocando-se ao lado dos envergonhados e humilhados, assumindo, pois, a Palavra libertadora e geradora de vida e sendo instrumento de libertação.

Maria, ao assumir viver pela Palavra, se torna Sua servidora, e é capaz de assumir os irmãos. Mas nesta ocasião, meditaremos o seu cântico, o qual reflete a vida assumida que a serva do Senhor viveu, para ser assumida por Deus.

O cântico de Maria (Lc 1.46-55) ganhou o nome de Magnificat em virtude da primeira palavra com a qual Lucas iniciou o hino, que significa "engrandecer” ou "exaltar”. A maioria dos exegetas está de acordo que este hino não é da autoria literal de Maria. Ela não o proclamou daquela forma e, talvez, não naquele momento. É uma construção literária do evangelista, que coloca nos lábios da jovem de Nazaré expressões que traduzem a visão do evangelista a respeito da mãe de Jesus.

Em Lucas, os relatos da infância de Jesus apresentam vários hinos. É provável que eles já existiam no âmbito da vida celebrativa da comunidade, e tenham sido tomados pelo evangelista e inseridos em sua narrativa evangélica com finalidade teológica, ou seja, a no intuito de transmitir uma mensagem e uma experiência de fé para a sua comunidade e seu leitor/ouvinte.

Na catequese lucana se apresentam os cânticos de Maria (Lc 1.46-55), de Zacarias (Lc 1,67-79) e de Simeão (Lc 2,29-32). Neles também se pode ver um certo perfil psicológico das personagens, suas expectativas e convicções. Nos três são comuns a presença do Espírito Santo, o anúncio da salvação acontecendo em Jesus, a promessa que se estenderá para toda a humanidade, um clima de esperança, a certeza da vitória do Bem. A história da redação supôs que o cântico de Maria foi elaborado a partir de um ou mais cantos de louvor judaico-cristãos, sendo claras as semelhanças com o hino de Ana, mãe de Samuel (1Sm 2.2-10).

Uma explosão de alegria em duas dimensões da composição do ser humano, alma e espírito inicia o hino: “A minh’alma engradece ao Senhor; meu espírito exulta em Deus meu salvador”. A alma (em grego: psiche) significa a vida humana em sua raiz mais profunda. Assemelha-se à imagem bíblica de "coração", que expressa os sentimentos profundos do eu, o direcionamento que a pessoa confere aos seus afetos e o sentido que dá à sua existência. O ser humano tem a tendência de orientar-se para satisfazer seus impulsos egocêntricos ou pouco evoluídos. Enquanto o espírito (em grego: pneuma) é o espaço no qual a pessoa se introduz no divino. Ambas expressam dimensões interiores do "eu", vistos na perspectiva da espiritualidade.

"Minha psiché exalta o Senhor" expressa uma postura de Maria. Ela renuncia à auto segurança de uma existência construída em torno do ego. Como humilde serva, coloca-se nas mãos do Senhor e reconhece que só ele é grande. Sai de si, acolhendo a alteridade absoluta de Deus, bem como o próximo. Mas com isso não deixa sua originalidade e individualidade. Sua psique é transmutada. Quando a pessoa se eleva a Deus, em processo de evolução espiritual, o espírito humano (pneuma) prova a alegria incomparável de encontrar sua raiz última. No seu cântico, Maria expressa uma personalidade integrada e dirigida para Deus.

“porque olhou para a humildade de sua serva”. No Magnifícat, a palavra “humildade” deve ser melhor traduzida por “humilhação”. Fala-se de humilhação na escravidão do Egito, na derrota da monarquia e na destruição do templo, especialmente no tempo do exílio. O fracasso de um projeto histórico comporta humilhação. Nessas situações, o povo de Deus é humilhado ao perder a dignidade, a liberdade e a sua identidade.

No mesmo povo eleito, o pobre e o "pequeno'' são humilhados pelo rico e poderoso (ver Eclo 13,23; Pr 30,14; Am 8,6), ou pelo malvado (ímpio). No tempo do exílio, desenvolve-se um sentido ético e espiritual para o termo. O humilde não cede diante da humilhação, mas resiste na fé. Persiste em acreditar que Deus é justo e fará valer sua causa. Assim se desenvolve a espiritualidade dos “pobres de coração”, em hebraico: anawin. Os justos são forçados a se curvarem diante da força e do poder dos que os dominam. Ao se empenharem para defender sua dignidade, exercitam a fé na grandeza de Deus e se reconhecem pequenos diante dos seus projetos incompreensíveis. Proclamam que Javé é o defensor dos pobres e dos humildes (ver Dt 10,1 SI 103,6; 140,13).

Maria sintetiza esse duplo sentido de “humildade”. Enquanto mulher pobre de Nazaré, experimenta condições de humilhação. Ao mesmo tempo, a atitude qualificadora de sua pessoa é a fé perseverante, a entrega nas mãos de Deus em toda a inteireza de seu ser (humildade).

Maria reconhece-se como uma mulher especial, agraciada por Deus. Diz claramente que todas as gerações, de agora em diante, a chamarão feliz (Lc 1,48). Não se esconde debaixo da falsa modéstia. Aqui está o segredo de sua humildade: conhece seu valor, suas potencialidades, mas não utiliza isso para fortalecer o ego voltado para si mesmo. Ela reconhece que tudo é dom de Deus. Não toma nenhum louvor para si, mas tudo leva de volta para Deus, em gesto de reverência e ação de graças: “porque o Poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo (Lc 1,49)”.

Não se pode entender literalmente as expressões do cântico de Maria, a começar da imagem do “braço forte” (1,51), pois Deus não tem membros como nós. "Agir com a força do braço” significa intervir, tomar iniciativa, operar.

“Dispersou os soberbos de coração” (v.51). A primeira ruptura que Deus opera nas pessoas diz respeito a uma postura de vida. Os soberbos são homens e mulheres autossuficientes e orgulhosos. O ser humano soberbo/orgulhoso não espera nada de Deus, nada suplica; ostenta-se a si mesmo, reconhecendo-se com grande banca diante do Senhor. Estão sempre "cheios de si mesmos”. Possuem certezas demais. Não sobra espaço para dialogar e aprender com os outros e com as situações. Maria profetiza que Deus os dispersa, isto é, desvela suas limitações e a fragilidade de suas pretensões.

“Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes” (v.52). Na Bíblia, a palavra "trono" simboliza o poder político (2Srn 3,10), com a sua consequente força jurídica (SI 122,5). A segunda ruptura toca o poder, tanto nas instâncias pequenas quanto nas macroestruturas. No tempo da monarquia em Israel (e Judá), os profetas denunciam como os poderosos usam o poder em benefício próprio, arrebatando-o das mãos do Povo de Deus. Os reis, os anciãos/juízes, os sacerdotes e os profetas da corte (do rei), que deveriam respeitai a Deus e defender “o direito e a justiça” abandonaram o Senhor e praticam a corrupção, a mentira, a rapina (ver Jr 5,23- 31).

Nesse espirito profético, Maria afirma que Deus tira o poder dos que o utilizam para o mal e o restabelece aos despojados. Deus refaz seu projeto salvífico a partir dos fracos e dos humildes. O Deus poderoso, que faz maravilhas em Maria (Lc 1,49) é radicalmente diferente dos poderosos (Le 1,52) deste mundo pois, com sua misericórdia, restitui a dignidade, promove e eleva o ser humano.

“Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias” (v.53). A terceira ruptura diz respeito ao âmbito econômico, que toca a produção e distribuição dos bens, a começar do nível básico da alimentação. Maria preconiza que com a vinda do Reino de Deus, as carências humanas básicas serão superadas.

Assim, o cântico de Maria proclama, de forma profética, a ação transformadora de Deus nas relações sociais. Embora use termos em contraposição, não defende uma mera troca de papéis: quem está em cima passaria para baixo e vice-versa. Expressa a indignação contra a injustiça que reina no mundo. Denuncia como o orgulho, o mau uso do poder e a concentração da riqueza estragam a todos, ricos e pobres. Maria alimenta a esperança de que vale a pena sonhar e criar alternativas em vista de uma nova sociedade. A garantia dessa esperança vem da misericórdia e da fidelidade de Deus, que socorre seu povo (Lc 1,50.55).

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 1 de agosto de 2026

REFLEXÃO PARA O XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21:


 

A liturgia do décimo oitavo domingo do tempo comum apresenta o capítulo catorze para a nossa meditação. Desenvolve-se, a partir de agora, no horizonte da catequese mateana, uma longa parte narrativa que culminará no capítulo dezoito. É da pedagogia do evangelista que, logo após um discurso de Jesus, siga-se uma parte narrativa a fim de mostrar a aplicabilidade do discurso/ensinamento. Nesse sentido, os capítulos 14 – 17 descrevem um caminho de fé e de compreensão dos discípulos e da Igreja, comunidade do Reino, diante das palavras do Senhor.

O contexto imediato do evangelho deste domingo é o martírio de João, o Batista, pelas mãos de Herodes. Fato que chega ao conhecimento de Jesus, e, como o próprio evangelista informa, provoca uma mudança de rumo em sua vida. Ele deve deixar a região da Judeia. Seguramente chegou à conclusão que sua vida corria perigo. Na intenção de Mateus, o martírio do profeta do Jordão é uma prolepse – antecipação literária e histórica – da morte de Cristo. “Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado” (v. 13a). Retira-se não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento de recolhimento. O lugar deserto e afastado seria ideal para isso, para rezar, refletir e, por que não, chorar também. Sentir as entranhas remexidas! É preciso, ainda, se acostumar com uma imagem assim de Jesus. Um homem que se deixa comover.

Novamente a sensibilidade de Jesus aparece no texto de hoje, mas, agora, por uma situação concreta: a situação de marginalização das pessoas. “Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (v. 14). A compaixão significa um amor visceral; um comover-se no mais profundo do ser – as vísceras ou entranhas – que resulta em ação concreta de libertação. Não se trata de um mero sentimento, mas de ação libertadora; é nisso que consiste a misericórdia de Deus, cuja expressão mais concreta é a própria pessoa de Jesus. Mateus, ao falar dos “doentes” emprega o termo grego aróstos (gr. άρρωστος), que abarca todo o tipo de enfermidade, não só as físicas. Uma das formas de enfermidade presentes na sociedade daquela época era a fome. O que se segue será uma resposta a esta situação.

A narrativa da “multiplicação” dos pães é comum aos quatro evangelhos. Isso indica a importância que o episódio teve para as primeiras comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e nem fantasiado; por isso, prefere-se chamá-lo de condivisão, ao invés de multiplicação, podendo acenar para um gesto mágico operado por Jesus, algo que não lhe agradava, pois esta compreensão poderia alimentar as imagens equivocadas acerca de si como messias. Por isso, rechaçava toda a mentalidade triunfalista e nacionalista que pudesse ser associada ao seu ministério.

O v.15 deve ser inquietante para o leitor: “Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: ‘Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” (v. 15). A noite já vem caindo; muita coisa já deve ter acontecido entre Jesus e a multidão. Muitos ensinamentos devem já ter sido compartilhado entre eles. Os discípulos pedem que Ele despeça o povo, para que possam também comprar comida. Uma falha grave! Não conseguem captar o sentido da vida e da missão do Senhor ainda. Não querem comprometer a vida com a do Mestre.

Jesus lhes dá uma ordem. O verbo está no imperativo precisamente porque se trata de uma lição que, depois de ter sido assimilada, precisa ser imediatamente colocada em prática. É como que se Ele verbalizasse, “se eu estou mostrando e fazendo isso diante de vossos olhos, é porque vocês devem fazer”. Por isso lhes diz: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (v. 16). Os discípulos são convidados a comprometer e empenhar a vida no processo de transformar a vida das pessoas. Dar de comer significa empoderar as pessoas, torná-las senhores e senhoras da própria vida e da história. Faz parte deste processo a dinâmica e perspectiva serviçal dos discípulos. Ora, o Senhor lhes estava ensinando a muito tempo; corrigia lhes a mentalidade acerca da ideia de messias que possuíam, embasada no domínio, no poder e na submissão, propondo-lhes a ótica e a perspectiva do serviço e do amor, que deveriam traduzir-se em cuidados e em atitudes fraternas para com os outros, gerando vida, promovendo a vida dos irmãos. De modo mais específico, à gente simples, aos excluídos, marginalizados.  

Os discípulos custam a compreender e, por isso, respondem: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa. Provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. Pão e peixe era comida comum do povo daquela região (Mt 7,9-10). Mateus articula bem a narrativa. O número sete, como resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade.

“Jesus disse: ‘Trazei-os aqui” (v. 18). O Senhor não se importa com a quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que tem. Aqui começa a ação transformadora e, ao mesmo tempo, a catequese: o problema começa a ser solucionado quando se coloca a disposição aquilo que se têm. É isso o que Jesus espera do discípulo e da comunidade. Quando cada um apresenta o seu pouco, então a realidade superabunda.

“Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (v. 19). Este versículo, por si só, é cheio de particularidades. Jesus toma tudo que os discípulos possuíam. Bendiz à Deus por tudo o que eles têm. “Erguer os olhos” significa a atitude da oração, enquanto relação com Deus. Ou seja, o Cristo deseja mostrar que o gesto que realizará a seguir brota da relação e da intimidade com o Pai, bem vivida e compreendida. Mateus revela a clareza que Jesus tem de que todas as suas atitudes brotam da intima relação com Deus. E reparte os pães e os peixes entre eles. Interessante, esta atitude deve ser absorvida primeiro pelos discípulos, depois continuada por eles e realizada em favor da multidão. Esta, assimila e repete os mesmos gestos de Jesus.

São os passos que a comunidade cristã não pode deixar de dar. Sobretudo onde e quando existem pessoas famintas de pão. É interessante perceber que os discípulos recebem a responsabilidade de curar a fome. Ora, esta era também uma doença, segundo o panorama bíblico, que devia ser curada, conforme ensinou Jesus, ao ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. Mas tudo deve começar e passar por Jesus. Primeiro, devem apresentar a ele o que se têm; nesse gesto está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado à partilha. Não se pode deixar de considerar que esta narrativa também é uma alusão vida celebrativa das primeiras comunidades através da celebração eucarística, memorial da páscoa do Senhor. Por isso, a comunidade dos discípulos, ao partir do pão/corpo de Cristo precisa partir o pão material com todos aqueles que necessitam. É o que Mateus quer dizer com a nota que ele faz, “a multidão era grande, cerca de cinco mil pessoas, sem contar mulheres e crianças”. Estas duas categorias não eram consideradas na sociedade palestinense, e também são símbolos para os marginalizados. Com essa informação, o evangelista quer indicar para a sua comunidade que, se ela pretende ser continuadora dos gestos de Jesus, deve ser também sinal de inclusão, serviço e partilha.

“Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (v. 20). A compaixão de Jesus o leva a curar as enfermidades do povo e a saciar lhe a fome. Mais ainda, provoca nos discípulos (símbolos da comunidade) a predisposição de colocar em comum tudo o que possuíam, gesto que motiva também outras pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, a ponto de deixar a todos satisfeitos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, tem alimento para todos. Essa não deve ser um ato isolado, mas uma práxis da comunidade.

Os ensinamentos que Jesus pretende dar aos discípulos e que Mateus recolhe para a sua comunidade são: 1) A comunidade, se ela é, de fato, comunidade dos discípulos de Jesus – comunidade do Reino – não pode descomprometer-se de sua missão, que é a de ser servidora e geradora de vida, repartindo. Mesmo quando ela não tem condições. Ela não deve esperar ter as condições necessárias para viver o Reino, mas promover desde dentro as iniciativas para vive-lo; vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. 2) A abundância é gerada quando não se considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. 3) A comunidade dos discípulos e das discípulas do Reino é autêntica quando se abre a todos, sem distinção. Estes são os distintivos da comunidade que assimilou os gestos e a vida de Jesus.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco e reitor da paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.


sábado, 18 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,24-43:

 


A liturgia do décimo sexto domingo do tempo comum dá continuidade à meditação do Discurso em Parábolas de Jesus, contido em Mt 13 a partir do v.24, que já nos insere no horizonte do texto. A partir deste versículo, Mateus recorda três novas parábolas: o joio e o trigo, a semente de mostarda e o fermento (24-33).

“O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora” (vv. 24-25). O joio (gr, ζιζάνια– zizânia), era uma planta muito parecida com o trigo. Mas o que a diferenciava? Os efeitos nocivos que possui, pois os grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumia. Fora semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), a noite, símbolo das trevas e da ausência de Deus na tradição bíblica.

A parábola apresenta o Reino numa realidade de tensão e hostilidade: a semente boa e a semente nociva; o mal e o bem; o amor e o ódio; a vida e a morte. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam-se como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. O Mestre deseja ensinar o contrário: quem adere ao Seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o mal, sem compactuar com ele. Nesse sentido, a tentação a ser vencida pelo discípulo do reino, que ouve e se põe à discernir (“Quem tem ouvidos, ouça”) é a do puritanismo (querer ser uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas), e vem expressa através da preocupação dos funcionários do dono da plantação, “Queres que vamos arrancar o joio?” (v. 28b). Eles simbolizam aquelas pessoas muito religiosas de todos os tempos. Dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje. São as pessoas intolerantes que, por causa de um zelo fundamentalista e doentio alimentam e disseminam ódio e violência.

A estes, o patrão responde: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita” (vv. 29-30a). Ou seja, o discípulo e a discípula do reino não podem apresentar-se como juiz de ninguém. Julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos.

A segunda parábola é a da semente de mostarda. “O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (v.31-32).  Esta parábola é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Diante da estrutura imperial e da grande organização da sinagoga, o projeto do Reino anunciado pelo Senhor era praticamente invisível, ou, conforme a mentalidade equivocada dos discípulos, ineficaz. Por isso, eles, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. É necessário que a comunidade aceite a condição de pequenez em que se encontra e a reconheça como necessidade para compreender a dinâmica do Reino, o qual não pode impor-se por sinais de grandeza. Pelo contrário, precisa ser cultivado, e colocar-se no mundo a partir da dinâmica do serviço, agindo como abrigo e promovendo acolhimento para os mais necessitados, “Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”.

A terceira parábola é a do fermento. “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). Trata-se de uma das parábolas mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento; e com a atividade de uma mulher.

Na tradição judaica, antes da celebração da festa da Páscoa, solene memória da libertação, a família, uma semana antes, realizava uma faxina minuciosa da casa, no intuito de se eliminar todos os alimentos levedados, bem como o próprio fermento (hbr. Chemetz/fermento velho), para se comer pão sem fermento (ázimo) e celebrar a vitória contra Faraó e a libertação da casa da escravidão. Ora, para a cultura e tradição da época a mulher não tinha voz e nem espaço. Pouco teriam a contribuir com um projeto de sociedade, principalmente como o do Reino dos céus e, no entanto, Jesus se serve delas.

A tentação que Ele quer fazer a comunidade vencer, na verdade, são duas:o desânimo e a impaciência, por não ver os resultados nem os efeitos gerados pela pregação e pela forma da vida cristã. Com uma parábola como essa, o Senhor quis injetar ânimo e perseverança neles e, ao mesmo tempo, desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores.

O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade, sua ação deve ser sempre como a do fermento, que atua escondido. Mas que só se vê e se sabe de sua presença devido ao crescimento da massa. Assim, só é possível ver a ação deste Reino (a massa que cresce) quando se constatam os sinais de sua presença: vida plena, fraternidade, igualdade, justiça, amor e misericórdia emanadas através da existência dos discípulos-missionários.

Dos vv.36-43, o Mestre explica aos discípulos – portanto, um ensinamento reservado – apenas a parábola do Joio. Ele a explica detalhadamente com uma alegoria, ou seja, destrinchando aos discípulos alguns elementos da parábola que ainda não haviam ficado claros. Cada elemento da ilustração é identificado com precisão. O semeador do trigo é o Filho do Homem, ou seja, Jesus. O campo é a humanidade, o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. A cizânia-jôio são os “filhos do maligno”. O termo “filhos” pode ser entendido como simpatizantes de uma causa. O semeador da semente má é o diabo, divisor e opositor do Reino. A colheita simboliza o fim do mundo. Mas última palavra em relação à qualidade das sementes será, única e tão somente, o mesmo Filho do Homem, que realiza a colheita em nome de Deus. Ele será o encarregado de constatar a qualidade do fruto. Somente ele terá a ultima palavra ao realizar o julgamento.

Quem pensa a si como boa semente precisa sempre estar consciente para não deixar crescer em sua vida o Joio. Se faz necessário estar em constante vigilância, pois poderá acontecer de se tornar semente ruim mesmo antes da colheita. E, para aqueles que vivem como cizânia sempre será tempo de conversão, até que chegue o tempo da colheita. Nada está definido na aventura da existência humana, pois a qualidade do fruto será atestada somente pelo Pai do Céu.

Mesmo incompatíveis com a Boa Nova do Reino, as três tendências a serem combatidas ao interno da comunidade, o puritanismo (farisaísmo), a grandeza (poder), o desânimo (impaciência) marcam a sua história, desde as suas origens com os Doze até os dias atuais. Por isso, motivados pelo texto, qual um espelho para (e da) nossa vida, cabe-nos questionar: a que grupo pertencemos? Que semente temos sido (trigo, joio ou mostarda)? A quais tentações temos cedido?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco da paróquia santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 11 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,1-9:

 


A liturgia deste décimo quinto domingo do tempo comum propõe para a meditação o capítulo treze do Evangelho segundo Mateus, o qual apresenta uma nova catequese importante do segundo evangelho a ser trabalhada também nos próximos domingos: o discurso em parábolas.

As parábolas eram utilizadas na antiguidade bíblica, bem como no tempo de Jesus. Pertencem ao gênero literário sapiencial denominado mashal. O narrador ou os rabinos se serviam dos acontecimentos e das coisas simples da realidade e do cotidiano para transmitirem o seu ensinamento acerca da interpretação da Lei. Elas possuem três funções características para atingir seu fim pedagógico: 1) chamar a atenção dos ouvintes a partir do exagero dos elementos simples; 2) provocar os mesmos ouvintes; 3) gerar uma mudança de comportamento na audiência, no público alvo – nos leitores. Jesus igualmente se serviu deste gênero para ensinar os discípulos e as multidões.

Qual o conteúdo central do ensinamento de Jesus? O Reino de Deus. Mateus reúne, pois, no capítulo treze, o ensinamento do Mestre acerca do Reinado dos Céus, maneira que o evangelista se refere a esta realidade, dado que sua comunidade é composta de judeus-cristãos, e, por reverência ao nome de Deus, não o menciona.

A vida de Jesus se pauta a partir de dois absolutos, a saber: a relação com o Deus de Israel que ele chama de Pai, e o anúncio do Reino. O Reino ou Reinado – como a exegese atual prefere assim nomear – é a ação soberana de Deus na História humana através de Cristo. Por isso, o Reino é uma pessoa, como já dizia Orígenes, nos primórdios da tradição eclesial. A adesão a pessoa de Jesus de Nazaré, confessado como Senhor e Cristo gera um novo modo de viver para o discípulo, na história humana; gerando e propondo um modo de ser e de viver, uma ética.

As parábolas de Jesus sobre o Reinado dos Céus, são, na verdade, modos diferentes de se mostrar – misteriosamente – a atuação de Deus na história. Mateus as reúne em número de sete precisamente para ensinar que este ensinamento é carregado de plenitude, uma vez que o número sete indica perfeição. Elas também cumprem um papel pedagógico importante em relação à vida do discípulo e da comunidade: São chaves para interpretar a ação de Jesus e o destino do Reino quando sua morte já está decretada (Mt 12,14), e os discípulos (daquele tempo e das gerações futuras) correm o risco de cultivar ideias equivocadas a respeito do Mestre.

Ao revelar os “mistérios do Reino”, isto é, como Deus age na história, Jesus quer alertar os discípulos. Por isso, as parábolas são decifradas e interpretadas somente para eles, em particular. As multidões, que ainda não aderiram ao Senhor o veem com suspeita. Por isso, são inaptas para compreendê-las; daí, que as parábolas permaneçam enigmáticas para elas.

A primeira parábola a ser meditada é a da semeadura. Dos vv.1-3, Mateus situa-nos na cena. Jesus está nas margens do mar da Galileia. Ali uma multidão se reúne para ouvi-lo. Toma a iniciativa de subir numa embarcação e começa a ensinar. O evangelista não quer que o Mestre seja comparado aos rabinos de seu tempo, que ensinavam em pequenos grupinhos e de modo privado. Sua preocupação centra-se, antes, no desafio de ser discípulo em contextos adversos. Por isso, o ensino se dá fora da casa (segurança), sobre uma barca (símbolo da Igreja), nas margens do mar (lugar das forças contrárias ao querer de Deus, onde o discípulo é chamado, junto de Jesus, a realizar a vida e a missão). Com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, o Senhor convida a Igreja de todos os tempos a ser uma Igreja em saída. A comunidade cristã não pode fechar-se em si, nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens.

De 4-9, Jesus começa a ensinar, servindo-se da imagem do semeador, que sai para semear. A semente que carrega consigo vai, ao longo do caminho caindo. Cai em terreno pedregoso, em meio a espinhos, em solo arenoso e, por fim, em terra boa e fértil. O elemento-surpresa da parábola que deve chamar a atenção do ouvinte e, posteriormente, do leitor discípulo do evangelho, que é, por si só paradoxal é o próprio semeador. O ouvinte ou leitor poderá se questionar: “mas que tipo de semeador é esse, que não percebe que as sementes vão caindo pelo caminho? Que desatento! Ou não sabe trabalhar!”. Esta provocação, como dissemos no início, é intencional. Ela serve para despertar o discípulo e manter a atenção na lição.

As realidades em que a semente cai ou é lançada merecem atenção. Estrada, areia, espinhos e o terreno bom são realidades ou situações que podem se fazer presentes na vida da pessoa e do discípulo, que podem favorecer ou não a acolhida para com a mensagem. Não se tratam de quatro tipos de pessoas. Tampouco são quatro tipos de corações ou de mentalidades.

A estrada pode simbolizar as situações de imediatismos. A Semente é lançada, e se esperam resultados rápidos. E como não há tempo para germinar e, portanto, acolhimento, ela fica exposta e os pássaros a comem, ou seja, algo a retira da vida da pessoa.

A areia, acena para aquilo que é frágil e superficial. A Semente do Reino que nela cai não encontra profundidade, brota logo, e, por não possuir raízes, que dependem de profundidade e nutrição, morre. Ela pode nascer, pode produzir fruto, mas será momentâneo, frágil demais – assim como a areia, leve e sem consistência.

Os espinhos, terceira situação ou contexto em que a semente é lançada ou pode cair, simbolizam tudo aquilo que possa sufocar e, portanto, impedir o desenvolvimento e a germinação da semente. Aquilo que pode ser obstáculo e impedimento na pessoa para que o Reino e o Evangelho encontre lugar e aconteça na vida dela.  

A terra boa na qual a semente cai é aquela situação ou contexto de acolhimento da palavra e anúncio do Reino. Nela acontece a germinação e o desenvolvimento da semente; ali ela produz.  Cem, sessenta e trinta por cento dizem respeito à capacidade de cada um acolher a mensagem do Reino e fazê-la frutificar em boas obras. Essa imagem exagerada dos frutos é importante: o máximo que se esperava de uma espiga de trigo eram trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. Os frutos que se esperam deste solo bom são o amor, o perdão, a reconciliação, a fraternidade, a justiça, desejados por Jesus, os quais são símbolos de plenitude de vida. Contudo, só quem tem discernimento é capaz de compreender o significado da parábola (Mt 11,15; 13,43). E, com muita reflexão, poderá captar a mensagem de esperança e encorajamento desse ensinamento do Senhor.

O texto propõe quatro eixos interpretativos, a saber, o cristológico (revela algo de Jesus), o teológico (acerca da ação de Deus), o eclesiológico (que toca a vida da comunidade) e, por fim, o escatológico (enquanto meta, finalidade, “para qual fim a parábola leva”).  

O semeador, numa leitura cristológica é o próprio Jesus. Na perspectiva teológica, a semente lançada é o próprio Reinado de Deus na história. No âmbito eclesiológico a missão do semeador é a missão mesma da comunidade. A missão do Semeador, e, consequentemente, dos discípulos, consiste apenas no lançar a semente. Ainda nesta perspectiva, a parábola serve de advertência contra as tentações do sucesso e do eficientíssimo, em decorrência disso, na pastoral do milagre e do sucesso. “Tudo aquilo que se faz deve ser bom!” Mas Jesus quer ensinar que o mistério do Reino vai acontecendo, sim, porém por força própria, mesmo em meio a muitas perdas. A força do crescimento desta semente depende de Deus. Por isso, o investimento deve ser total, principalmente nas pequenas coisas; naquilo que não se vê; que pode não chamar a atenção por não ser extraordinário ou diferenciado. Quando se começa a perceber muito sucesso, é porque a mentalidade do Anti-Reino entrou em suas estruturas

A dimensão escatológica se mostra na qualidade dos frutos. Somente no final da missão é que se verá, de fato, se aquele solo em que caiu a semente favoreceu a sua produção. Os que se acham os tais, poderão se reconhecer também como solos inférteis. Os que achavam que nada produziram poderão se descobrir como terra boa, que cooperaram para que a semente produzisse frutos em abundância.

Ao discípulo e à comunidade cabem somente a semeadura a exemplo do Semeador. Mesmo não vendo os frutos. Por isso, não deverá ter a pretensão do sucesso garantido. Não deverá julgar a sua identidade mediante a isso. Mas poderá medir sua autenticidade diante das muitas perdas. Percebamos que o próprio Jesus foi quem muito semeou, e, ao final de sua vida, não “colheu” nada aos olhos dos esquemas mundanos. Não poderá trazer para si a responsabilidade de determinar se alguém produziu ou não, se foi terra boa ou não. Esta tarefa pertence somente ao Senhor. Ele dará a ultima palavra no tempo da colheita.

Que a Igreja seja estimulada sair constantemente de si mesma para lançar a semente do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias. O importante é ter coragem de assumir as margens sem medo. É necessário, inclusive, ter a coragem de fracassar.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.