sábado, 1 de agosto de 2026

REFLEXÃO PARA O XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 14,13-21:


 

A liturgia do décimo oitavo domingo do tempo comum apresenta o capítulo catorze para a nossa meditação. Desenvolve-se, a partir de agora, no horizonte da catequese mateana, uma longa parte narrativa que culminará no capítulo dezoito. É da pedagogia do evangelista que, logo após um discurso de Jesus, siga-se uma parte narrativa a fim de mostrar a aplicabilidade do discurso/ensinamento. Nesse sentido, os capítulos 14 – 17 descrevem um caminho de fé e de compreensão dos discípulos e da Igreja, comunidade do Reino, diante das palavras do Senhor.

O contexto imediato do evangelho deste domingo é o martírio de João, o Batista, pelas mãos de Herodes. Fato que chega ao conhecimento de Jesus, e, como o próprio evangelista informa, provoca uma mudança de rumo em sua vida. Ele deve deixar a região da Judeia. Seguramente chegou à conclusão que sua vida corria perigo. Na intenção de Mateus, o martírio do profeta do Jordão é uma prolepse – antecipação literária e histórica – da morte de Cristo. “Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado” (v. 13a). Retira-se não por medo, mas por comoção. Seu estado interior pedia um momento de recolhimento. O lugar deserto e afastado seria ideal para isso, para rezar, refletir e, por que não, chorar também. Sentir as entranhas remexidas! É preciso, ainda, se acostumar com uma imagem assim de Jesus. Um homem que se deixa comover.

Novamente a sensibilidade de Jesus aparece no texto de hoje, mas, agora, por uma situação concreta: a situação de marginalização das pessoas. “Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (v. 14). A compaixão significa um amor visceral; um comover-se no mais profundo do ser – as vísceras ou entranhas – que resulta em ação concreta de libertação. Não se trata de um mero sentimento, mas de ação libertadora; é nisso que consiste a misericórdia de Deus, cuja expressão mais concreta é a própria pessoa de Jesus. Mateus, ao falar dos “doentes” emprega o termo grego aróstos (gr. άρρωστος), que abarca todo o tipo de enfermidade, não só as físicas. Uma das formas de enfermidade presentes na sociedade daquela época era a fome. O que se segue será uma resposta a esta situação.

A narrativa da “multiplicação” dos pães é comum aos quatro evangelhos. Isso indica a importância que o episódio teve para as primeiras comunidades cristãs e, provavelmente, o cuidado para que não fosse distorcido e nem fantasiado; por isso, prefere-se chamá-lo de condivisão, ao invés de multiplicação, podendo acenar para um gesto mágico operado por Jesus, algo que não lhe agradava, pois esta compreensão poderia alimentar as imagens equivocadas acerca de si como messias. Por isso, rechaçava toda a mentalidade triunfalista e nacionalista que pudesse ser associada ao seu ministério.

O v.15 deve ser inquietante para o leitor: “Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: ‘Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” (v. 15). A noite já vem caindo; muita coisa já deve ter acontecido entre Jesus e a multidão. Muitos ensinamentos devem já ter sido compartilhado entre eles. Os discípulos pedem que Ele despeça o povo, para que possam também comprar comida. Uma falha grave! Não conseguem captar o sentido da vida e da missão do Senhor ainda. Não querem comprometer a vida com a do Mestre.

Jesus lhes dá uma ordem. O verbo está no imperativo precisamente porque se trata de uma lição que, depois de ter sido assimilada, precisa ser imediatamente colocada em prática. É como que se Ele verbalizasse, “se eu estou mostrando e fazendo isso diante de vossos olhos, é porque vocês devem fazer”. Por isso lhes diz: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (v. 16). Os discípulos são convidados a comprometer e empenhar a vida no processo de transformar a vida das pessoas. Dar de comer significa empoderar as pessoas, torná-las senhores e senhoras da própria vida e da história. Faz parte deste processo a dinâmica e perspectiva serviçal dos discípulos. Ora, o Senhor lhes estava ensinando a muito tempo; corrigia lhes a mentalidade acerca da ideia de messias que possuíam, embasada no domínio, no poder e na submissão, propondo-lhes a ótica e a perspectiva do serviço e do amor, que deveriam traduzir-se em cuidados e em atitudes fraternas para com os outros, gerando vida, promovendo a vida dos irmãos. De modo mais específico, à gente simples, aos excluídos, marginalizados.  

Os discípulos custam a compreender e, por isso, respondem: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (v. 17). Certamente, foram realistas. Tinham pouca coisa. Provavelmente o suficiente para eles, mas quase nada para as multidões. Pão e peixe era comida comum do povo daquela região (Mt 7,9-10). Mateus articula bem a narrativa. O número sete, como resultado de cinco mais dois (5+2=7), significa totalidade.

“Jesus disse: ‘Trazei-os aqui” (v. 18). O Senhor não se importa com a quantidade; pede que os discípulos lhe levem tudo o que tem. Aqui começa a ação transformadora e, ao mesmo tempo, a catequese: o problema começa a ser solucionado quando se coloca a disposição aquilo que se têm. É isso o que Jesus espera do discípulo e da comunidade. Quando cada um apresenta o seu pouco, então a realidade superabunda.

“Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (v. 19). Este versículo, por si só, é cheio de particularidades. Jesus toma tudo que os discípulos possuíam. Bendiz à Deus por tudo o que eles têm. “Erguer os olhos” significa a atitude da oração, enquanto relação com Deus. Ou seja, o Cristo deseja mostrar que o gesto que realizará a seguir brota da relação e da intimidade com o Pai, bem vivida e compreendida. Mateus revela a clareza que Jesus tem de que todas as suas atitudes brotam da intima relação com Deus. E reparte os pães e os peixes entre eles. Interessante, esta atitude deve ser absorvida primeiro pelos discípulos, depois continuada por eles e realizada em favor da multidão. Esta, assimila e repete os mesmos gestos de Jesus.

São os passos que a comunidade cristã não pode deixar de dar. Sobretudo onde e quando existem pessoas famintas de pão. É interessante perceber que os discípulos recebem a responsabilidade de curar a fome. Ora, esta era também uma doença, segundo o panorama bíblico, que devia ser curada, conforme ensinou Jesus, ao ordenar aos discípulos que dessem de comer às multidões. Mas tudo deve começar e passar por Jesus. Primeiro, devem apresentar a ele o que se têm; nesse gesto está o reconhecimento de que tudo é dom de Deus e, por isso, deve ser destinado à partilha. Não se pode deixar de considerar que esta narrativa também é uma alusão vida celebrativa das primeiras comunidades através da celebração eucarística, memorial da páscoa do Senhor. Por isso, a comunidade dos discípulos, ao partir do pão/corpo de Cristo precisa partir o pão material com todos aqueles que necessitam. É o que Mateus quer dizer com a nota que ele faz, “a multidão era grande, cerca de cinco mil pessoas, sem contar mulheres e crianças”. Estas duas categorias não eram consideradas na sociedade palestinense, e também são símbolos para os marginalizados. Com essa informação, o evangelista quer indicar para a sua comunidade que, se ela pretende ser continuadora dos gestos de Jesus, deve ser também sinal de inclusão, serviço e partilha.

“Todos comeram e ficaram satisfeitos e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (v. 20). A compaixão de Jesus o leva a curar as enfermidades do povo e a saciar lhe a fome. Mais ainda, provoca nos discípulos (símbolos da comunidade) a predisposição de colocar em comum tudo o que possuíam, gesto que motiva também outras pessoas, fazendo de tudo uma ação de graças a Deus, a ponto de deixar a todos satisfeitos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, tem alimento para todos. Essa não deve ser um ato isolado, mas uma práxis da comunidade.

Os ensinamentos que Jesus pretende dar aos discípulos e que Mateus recolhe para a sua comunidade são: 1) A comunidade, se ela é, de fato, comunidade dos discípulos de Jesus – comunidade do Reino – não pode descomprometer-se de sua missão, que é a de ser servidora e geradora de vida, repartindo. Mesmo quando ela não tem condições. Ela não deve esperar ter as condições necessárias para viver o Reino, mas promover desde dentro as iniciativas para vive-lo; vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. 2) A abundância é gerada quando não se considera somente seu o que possui, mas oferece, como dom, às necessidades do próximo. 3) A comunidade dos discípulos e das discípulas do Reino é autêntica quando se abre a todos, sem distinção. Estes são os distintivos da comunidade que assimilou os gestos e a vida de Jesus.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco e reitor da paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.


sábado, 18 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,24-43:

 


A liturgia do décimo sexto domingo do tempo comum dá continuidade à meditação do Discurso em Parábolas de Jesus, contido em Mt 13 a partir do v.24, que já nos insere no horizonte do texto. A partir deste versículo, Mateus recorda três novas parábolas: o joio e o trigo, a semente de mostarda e o fermento (24-33).

“O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora” (vv. 24-25). O joio (gr, ζιζάνια– zizânia), era uma planta muito parecida com o trigo. Mas o que a diferenciava? Os efeitos nocivos que possui, pois os grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumia. Fora semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), a noite, símbolo das trevas e da ausência de Deus na tradição bíblica.

A parábola apresenta o Reino numa realidade de tensão e hostilidade: a semente boa e a semente nociva; o mal e o bem; o amor e o ódio; a vida e a morte. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam-se como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. O Mestre deseja ensinar o contrário: quem adere ao Seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o mal, sem compactuar com ele. Nesse sentido, a tentação a ser vencida pelo discípulo do reino, que ouve e se põe à discernir (“Quem tem ouvidos, ouça”) é a do puritanismo (querer ser uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas), e vem expressa através da preocupação dos funcionários do dono da plantação, “Queres que vamos arrancar o joio?” (v. 28b). Eles simbolizam aquelas pessoas muito religiosas de todos os tempos. Dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje. São as pessoas intolerantes que, por causa de um zelo fundamentalista e doentio alimentam e disseminam ódio e violência.

A estes, o patrão responde: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita” (vv. 29-30a). Ou seja, o discípulo e a discípula do reino não podem apresentar-se como juiz de ninguém. Julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos.

A segunda parábola é a da semente de mostarda. “O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (v.31-32).  Esta parábola é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Diante da estrutura imperial e da grande organização da sinagoga, o projeto do Reino anunciado pelo Senhor era praticamente invisível, ou, conforme a mentalidade equivocada dos discípulos, ineficaz. Por isso, eles, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. É necessário que a comunidade aceite a condição de pequenez em que se encontra e a reconheça como necessidade para compreender a dinâmica do Reino, o qual não pode impor-se por sinais de grandeza. Pelo contrário, precisa ser cultivado, e colocar-se no mundo a partir da dinâmica do serviço, agindo como abrigo e promovendo acolhimento para os mais necessitados, “Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”.

A terceira parábola é a do fermento. “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). Trata-se de uma das parábolas mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento; e com a atividade de uma mulher.

Na tradição judaica, antes da celebração da festa da Páscoa, solene memória da libertação, a família, uma semana antes, realizava uma faxina minuciosa da casa, no intuito de se eliminar todos os alimentos levedados, bem como o próprio fermento (hbr. Chemetz/fermento velho), para se comer pão sem fermento (ázimo) e celebrar a vitória contra Faraó e a libertação da casa da escravidão. Ora, para a cultura e tradição da época a mulher não tinha voz e nem espaço. Pouco teriam a contribuir com um projeto de sociedade, principalmente como o do Reino dos céus e, no entanto, Jesus se serve delas.

A tentação que Ele quer fazer a comunidade vencer, na verdade, são duas:o desânimo e a impaciência, por não ver os resultados nem os efeitos gerados pela pregação e pela forma da vida cristã. Com uma parábola como essa, o Senhor quis injetar ânimo e perseverança neles e, ao mesmo tempo, desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores.

O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade, sua ação deve ser sempre como a do fermento, que atua escondido. Mas que só se vê e se sabe de sua presença devido ao crescimento da massa. Assim, só é possível ver a ação deste Reino (a massa que cresce) quando se constatam os sinais de sua presença: vida plena, fraternidade, igualdade, justiça, amor e misericórdia emanadas através da existência dos discípulos-missionários.

Dos vv.36-43, o Mestre explica aos discípulos – portanto, um ensinamento reservado – apenas a parábola do Joio. Ele a explica detalhadamente com uma alegoria, ou seja, destrinchando aos discípulos alguns elementos da parábola que ainda não haviam ficado claros. Cada elemento da ilustração é identificado com precisão. O semeador do trigo é o Filho do Homem, ou seja, Jesus. O campo é a humanidade, o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. A cizânia-jôio são os “filhos do maligno”. O termo “filhos” pode ser entendido como simpatizantes de uma causa. O semeador da semente má é o diabo, divisor e opositor do Reino. A colheita simboliza o fim do mundo. Mas última palavra em relação à qualidade das sementes será, única e tão somente, o mesmo Filho do Homem, que realiza a colheita em nome de Deus. Ele será o encarregado de constatar a qualidade do fruto. Somente ele terá a ultima palavra ao realizar o julgamento.

Quem pensa a si como boa semente precisa sempre estar consciente para não deixar crescer em sua vida o Joio. Se faz necessário estar em constante vigilância, pois poderá acontecer de se tornar semente ruim mesmo antes da colheita. E, para aqueles que vivem como cizânia sempre será tempo de conversão, até que chegue o tempo da colheita. Nada está definido na aventura da existência humana, pois a qualidade do fruto será atestada somente pelo Pai do Céu.

Mesmo incompatíveis com a Boa Nova do Reino, as três tendências a serem combatidas ao interno da comunidade, o puritanismo (farisaísmo), a grandeza (poder), o desânimo (impaciência) marcam a sua história, desde as suas origens com os Doze até os dias atuais. Por isso, motivados pelo texto, qual um espelho para (e da) nossa vida, cabe-nos questionar: a que grupo pertencemos? Que semente temos sido (trigo, joio ou mostarda)? A quais tentações temos cedido?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco da paróquia santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 11 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,1-9:

 


A liturgia deste décimo quinto domingo do tempo comum propõe para a meditação o capítulo treze do Evangelho segundo Mateus, o qual apresenta uma nova catequese importante do segundo evangelho a ser trabalhada também nos próximos domingos: o discurso em parábolas.

As parábolas eram utilizadas na antiguidade bíblica, bem como no tempo de Jesus. Pertencem ao gênero literário sapiencial denominado mashal. O narrador ou os rabinos se serviam dos acontecimentos e das coisas simples da realidade e do cotidiano para transmitirem o seu ensinamento acerca da interpretação da Lei. Elas possuem três funções características para atingir seu fim pedagógico: 1) chamar a atenção dos ouvintes a partir do exagero dos elementos simples; 2) provocar os mesmos ouvintes; 3) gerar uma mudança de comportamento na audiência, no público alvo – nos leitores. Jesus igualmente se serviu deste gênero para ensinar os discípulos e as multidões.

Qual o conteúdo central do ensinamento de Jesus? O Reino de Deus. Mateus reúne, pois, no capítulo treze, o ensinamento do Mestre acerca do Reinado dos Céus, maneira que o evangelista se refere a esta realidade, dado que sua comunidade é composta de judeus-cristãos, e, por reverência ao nome de Deus, não o menciona.

A vida de Jesus se pauta a partir de dois absolutos, a saber: a relação com o Deus de Israel que ele chama de Pai, e o anúncio do Reino. O Reino ou Reinado – como a exegese atual prefere assim nomear – é a ação soberana de Deus na História humana através de Cristo. Por isso, o Reino é uma pessoa, como já dizia Orígenes, nos primórdios da tradição eclesial. A adesão a pessoa de Jesus de Nazaré, confessado como Senhor e Cristo gera um novo modo de viver para o discípulo, na história humana; gerando e propondo um modo de ser e de viver, uma ética.

As parábolas de Jesus sobre o Reinado dos Céus, são, na verdade, modos diferentes de se mostrar – misteriosamente – a atuação de Deus na história. Mateus as reúne em número de sete precisamente para ensinar que este ensinamento é carregado de plenitude, uma vez que o número sete indica perfeição. Elas também cumprem um papel pedagógico importante em relação à vida do discípulo e da comunidade: São chaves para interpretar a ação de Jesus e o destino do Reino quando sua morte já está decretada (Mt 12,14), e os discípulos (daquele tempo e das gerações futuras) correm o risco de cultivar ideias equivocadas a respeito do Mestre.

Ao revelar os “mistérios do Reino”, isto é, como Deus age na história, Jesus quer alertar os discípulos. Por isso, as parábolas são decifradas e interpretadas somente para eles, em particular. As multidões, que ainda não aderiram ao Senhor o veem com suspeita. Por isso, são inaptas para compreendê-las; daí, que as parábolas permaneçam enigmáticas para elas.

A primeira parábola a ser meditada é a da semeadura. Dos vv.1-3, Mateus situa-nos na cena. Jesus está nas margens do mar da Galileia. Ali uma multidão se reúne para ouvi-lo. Toma a iniciativa de subir numa embarcação e começa a ensinar. O evangelista não quer que o Mestre seja comparado aos rabinos de seu tempo, que ensinavam em pequenos grupinhos e de modo privado. Sua preocupação centra-se, antes, no desafio de ser discípulo em contextos adversos. Por isso, o ensino se dá fora da casa (segurança), sobre uma barca (símbolo da Igreja), nas margens do mar (lugar das forças contrárias ao querer de Deus, onde o discípulo é chamado, junto de Jesus, a realizar a vida e a missão). Com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, o Senhor convida a Igreja de todos os tempos a ser uma Igreja em saída. A comunidade cristã não pode fechar-se em si, nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens.

De 4-9, Jesus começa a ensinar, servindo-se da imagem do semeador, que sai para semear. A semente que carrega consigo vai, ao longo do caminho caindo. Cai em terreno pedregoso, em meio a espinhos, em solo arenoso e, por fim, em terra boa e fértil. O elemento-surpresa da parábola que deve chamar a atenção do ouvinte e, posteriormente, do leitor discípulo do evangelho, que é, por si só paradoxal é o próprio semeador. O ouvinte ou leitor poderá se questionar: “mas que tipo de semeador é esse, que não percebe que as sementes vão caindo pelo caminho? Que desatento! Ou não sabe trabalhar!”. Esta provocação, como dissemos no início, é intencional. Ela serve para despertar o discípulo e manter a atenção na lição.

As realidades em que a semente cai ou é lançada merecem atenção. Estrada, areia, espinhos e o terreno bom são realidades ou situações que podem se fazer presentes na vida da pessoa e do discípulo, que podem favorecer ou não a acolhida para com a mensagem. Não se tratam de quatro tipos de pessoas. Tampouco são quatro tipos de corações ou de mentalidades.

A estrada pode simbolizar as situações de imediatismos. A Semente é lançada, e se esperam resultados rápidos. E como não há tempo para germinar e, portanto, acolhimento, ela fica exposta e os pássaros a comem, ou seja, algo a retira da vida da pessoa.

A areia, acena para aquilo que é frágil e superficial. A Semente do Reino que nela cai não encontra profundidade, brota logo, e, por não possuir raízes, que dependem de profundidade e nutrição, morre. Ela pode nascer, pode produzir fruto, mas será momentâneo, frágil demais – assim como a areia, leve e sem consistência.

Os espinhos, terceira situação ou contexto em que a semente é lançada ou pode cair, simbolizam tudo aquilo que possa sufocar e, portanto, impedir o desenvolvimento e a germinação da semente. Aquilo que pode ser obstáculo e impedimento na pessoa para que o Reino e o Evangelho encontre lugar e aconteça na vida dela.  

A terra boa na qual a semente cai é aquela situação ou contexto de acolhimento da palavra e anúncio do Reino. Nela acontece a germinação e o desenvolvimento da semente; ali ela produz.  Cem, sessenta e trinta por cento dizem respeito à capacidade de cada um acolher a mensagem do Reino e fazê-la frutificar em boas obras. Essa imagem exagerada dos frutos é importante: o máximo que se esperava de uma espiga de trigo eram trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. Os frutos que se esperam deste solo bom são o amor, o perdão, a reconciliação, a fraternidade, a justiça, desejados por Jesus, os quais são símbolos de plenitude de vida. Contudo, só quem tem discernimento é capaz de compreender o significado da parábola (Mt 11,15; 13,43). E, com muita reflexão, poderá captar a mensagem de esperança e encorajamento desse ensinamento do Senhor.

O texto propõe quatro eixos interpretativos, a saber, o cristológico (revela algo de Jesus), o teológico (acerca da ação de Deus), o eclesiológico (que toca a vida da comunidade) e, por fim, o escatológico (enquanto meta, finalidade, “para qual fim a parábola leva”).  

O semeador, numa leitura cristológica é o próprio Jesus. Na perspectiva teológica, a semente lançada é o próprio Reinado de Deus na história. No âmbito eclesiológico a missão do semeador é a missão mesma da comunidade. A missão do Semeador, e, consequentemente, dos discípulos, consiste apenas no lançar a semente. Ainda nesta perspectiva, a parábola serve de advertência contra as tentações do sucesso e do eficientíssimo, em decorrência disso, na pastoral do milagre e do sucesso. “Tudo aquilo que se faz deve ser bom!” Mas Jesus quer ensinar que o mistério do Reino vai acontecendo, sim, porém por força própria, mesmo em meio a muitas perdas. A força do crescimento desta semente depende de Deus. Por isso, o investimento deve ser total, principalmente nas pequenas coisas; naquilo que não se vê; que pode não chamar a atenção por não ser extraordinário ou diferenciado. Quando se começa a perceber muito sucesso, é porque a mentalidade do Anti-Reino entrou em suas estruturas

A dimensão escatológica se mostra na qualidade dos frutos. Somente no final da missão é que se verá, de fato, se aquele solo em que caiu a semente favoreceu a sua produção. Os que se acham os tais, poderão se reconhecer também como solos inférteis. Os que achavam que nada produziram poderão se descobrir como terra boa, que cooperaram para que a semente produzisse frutos em abundância.

Ao discípulo e à comunidade cabem somente a semeadura a exemplo do Semeador. Mesmo não vendo os frutos. Por isso, não deverá ter a pretensão do sucesso garantido. Não deverá julgar a sua identidade mediante a isso. Mas poderá medir sua autenticidade diante das muitas perdas. Percebamos que o próprio Jesus foi quem muito semeou, e, ao final de sua vida, não “colheu” nada aos olhos dos esquemas mundanos. Não poderá trazer para si a responsabilidade de determinar se alguém produziu ou não, se foi terra boa ou não. Esta tarefa pertence somente ao Senhor. Ele dará a ultima palavra no tempo da colheita.

Que a Igreja seja estimulada sair constantemente de si mesma para lançar a semente do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias. O importante é ter coragem de assumir as margens sem medo. É necessário, inclusive, ter a coragem de fracassar.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 4 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 11,25-30:


 

O décimo quarto domingo do tempo comum apresenta o capítulo onze do Evangelho segundo Mateus para a nossa meditação. Sempre se faz importante contextualizar o texto, a fim de se compreender a mensagem de Jesus transmitida pelo catequista bíblico à sua comunidade e para as gerações seguintes dos discípulos e das discípulas do Reino.

No capítulo décimo, Jesus transmitiu o ensinamento acerca da missão – o discurso missionário. Porém, o envio missionário não aconteceu imediatamente ao ensino. Mas é postergado para o final do Evangelho. Uma atitude pedagógica do Mestre, pois o discípulo só poderá ser enviado em missão depois de ter aprendido e vivenciado todo o sentido da vida do Senhor. Deverá passar por todos os dinamismos que o próprio Cristo passou, inclusive pelo mistério de Sua paixão, morte e ressureição. Do contrário, não transmitirá (pregará, anunciará, ensinará) com exatidão o sentido da vida de Jesus.

A catequese de Mateus, como se sabe, é composta de cinco ensinamentos principais de Jesus, os quais chamamos de discursos. Neles, o evangelista apresenta o Senhor ensinando como verdadeiro Mestre. Imediatamente após encerrar a sessão do ensinamento, o autor insere um bloco narrativo onde mostra-o realizando aquilo que falou. É o caso do texto de hoje.

Jesus, no texto de hoje, se encontra diante de um momento de intensa hostilidade por parte dos fariseus e dos escribas que rechaçam o seu ensinamento e sua forma de vida. Reprovam a pregação de um Deus que é cheio de amor e misericórdia, que perdoa e oferece sempre a plenitude de Sua vida. O que é profundamente contrária à ideia e experiência [equivocada] de Deus que os chefes do povo transmitiam em seus ensinamentos.

A crise é ainda maior para Jesus, quando ele se dá conta de que a multidão que o seguia até então o abandonava. Por que? As pessoas procuravam-no somente por aquilo que Ele poderia realizar; não estavam interessadas na profundidade de suas palavras, de seu ensinamento, de seu modo de ser. Acompanhava o seu ensinamento o convite à conversão, isto é, a mudança da mentalidade, da forma de pensar, da maneira de se relacionar com Deus e com o próximo. E isso, elas não estavam abertas a assimilar. Ora, Jesus ensinava a doar, a oferecer-se; elas, ao contrário, só desejavam receber sem se comprometer. Percebendo, então, que Ele não satisfazia mais as suas necessidades e as conveniências, se decidem por abandoná-lo. Isso configura, em seu ministério, uma crise. Uma desolação. O senso da frustração – e até mesmo do fracasso (no evangelho de Marcos, chamamos este momento da vida de Jesus de “a crise da Galileia”).

Os capítulos 11 – 12 apresentam, nesse sentido, as várias reações diante do ensino e da ação de Jesus, transformado em objeto de controvérsia por parte dos adversários, escribas e fariseus, e dos incapazes de compreender sua pregação. A partir de então, o evangelho apresentará uma contínua rejeição à Sua pessoa. E, mais, seus inimigos tomam a decisão de matá-lo (Mt 12,14). Em contraste a estes grupos rivais e a multidão descontente encontra-se o grupo dos pequeninos. Com essa deixa, se pode entrar no horizonte do texto litúrgico proposto para a meditação.

Ao mesmo tempo que Jesus encontra-se consciente da crise que enfrenta, a partir da sabedoria religiosa de seu povo (presentes inclusive nos Salmos de súplica e agradecimento) elabora um antídoto muito eficaz: a capacidade de agradecer e bendizer ao Pai pelos feitos, pelas realizações e maravilhas que realizou e sempre realiza na história, tanto de seu povo, quanto na vida concreta de cada pessoa. Ele ensina a dar o passo na superação da crise, da desolação, da frustração, através da atitude de bendizer e agradecer a Deus por tudo aquilo que Ele realizou em sua vida. Somente aquele que tem a disponibilidade e a coragem de olhar para a própria vida e reconhecer nela a ação soberana do Senhor – seja com Sua presença ou com alguma intervenção libertadora e geradora de vida – consegue dar o passo na superação da crise ou dos momentos de desolação. É olhar para a vida e reconhecer nela o quanto o Pai, em Jesus, foram e continuam sendo presentes.

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (v.25). O evangelista constata um louvor em forma de bênção elevado por Jesus ao Pai, Senhor do céu e da terra (isto é, senhor de tudo). Mas o louvor tem um motivo: foi do agrado de Deus revelar os mistérios do Reino aos pequeninos. Ou seja, a forma da missão e da vida do Senhor revelam uma nova e plena forma de se relacionar com o Pai e com Ele; revelam o Seu amor sempre fiel, que acolhe, que nutre, que salva e gera vida. E isso correspondeu a iniciativa do próprio Deus, em Jesus. Ou seja, é da vontade (do agrado) do Pai a ação do Cristo. O modo de agir de Deus vai na contramão do pensamento, dos esquemas e da lógica humana. Pelo contexto dos capítulos anteriores fica evidente que “os sábios e entendidos” são os chefes religiosos de Israel. Eles, em seu conhecimento religioso se fecharam à ação de Deus através de Jesus. Se tornaram refratários e resistentes, a ponto de endurecerem o coração. Mas se estes se fecham e a multidão o abandona, existem, em contra partida, aqueles que acolhem a sua Palavra: os pequeninos.

Quem são os pequeninos? Antes de tudo, há que se ter presente o seguinte, que um mesmo vocábulo grego, dependendo do contexto em que é usado, assume conotações diferentes, dando origem a traduções diferentes. Isso acontece com a palavra “pequenino”. Ao interno de seu evangelho, Mateus se serve de dois termos para falar deste grupo: mikrós e nepios.

Nepios ou Nepioi (gr. νήπιος), utilizado no texto de hoje, significa criança, menor de idade. É símbolo daquele que se deixa instruir. Aquele que não se julga proprietário, dono, detentor da verdade, e que está sempre aberto à novidade do Reino ensinada pelo Senhor. Eles possuem a precedência na revelação do projeto de Deus em Jesus.  

No v.27, Jesus declara: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. O Pai, Senhor de tudo, coloca tudo nas mãos de Jesus, o Filho. E este, por sua vez, tem a autoridade de colocar tudo a respeito de Deus nas mãos de quem ele quiser. Dito de outra maneira, o conhecimento e nova forma de relação com Deus passa por Jesus. Rejeitá-Lo e fechar-se para sua pregação significa, em última análise, rejeitar Deus e fechar o coração para Sua palavra.

No v.28, Jesus reorienta a vida e a direção dos pequeninos e dos discípulos através de um convite ressignificador: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Este versículo foi sempre mal compreendido, dando margem para compreensões moralistas e escrupulosas ao texto. O fardo a que se refere Jesus não são os pecados, frutos das atitudes humanas; tampouco são as aflições ou os sofrimentos que decorrem da liberdade do ser humano. Fardo se refere à Lei mosaica, com suas 613 prescrições, as quais são derivações forçadas das interpretações que os escribas e fariseus faziam sobre os mandamentos da Torá. Estas seiscentas e treze normas oprimiam as pessoas, dada sua complexidade (Mt 23.4), e não geravam mais vida, senão somente o nutrimento de sistemas e mecanismos injustos, promotores de alienação e de morte para o povo simples. 

Jesus, Sabedoria encarnada na história (Pr 8), em contrapartida, propõe um julgo, diferente do fardo/peso. Fazendo-se discípulo dele, aprendendo com ele, manso e humilde de coração, que não busca dominar, é possível encontrar descanso, pois seu jugo não machuca ninguém e seu peso é leve. Ele exige dos discípulos somente o essencial, a justiça do Reino (Mt 7,33), a qual é, quantitativamente mais simples, mas qualitativamente muito mais exigente que a justiça dos escribas e fariseus (Mt 5,20). Jesus propõe reorientar a vida do discípulo a partir das exigências do coração, do amor e da misericórdia, que promovem a Justiça do Reino. Nesse sentido, o Evangelho do Reino não é peso ou fardo. Ele gera vida e promove libertação.

O texto evangélico de hoje nos questiona: quem somos? Encontramo-nos inseridos entre os pequeninos – abertos, disponíveis e livres para acolher o projeto de Jesus –, ou entre os sábios e entendidos, ciosos e fechados sobre si mesmo e sobre o que sabem – impermeáveis e resistentes ao projeto do Reino anunciado por Jesus? Tenho assumido o jugo suave de Jesus, que é Graça, liberdade, vida e gratuidade, ou vivido sob o peso de uma religiosidade exterior, aparente, exigente, opressora e teatral? Nossas comunidades, são comunidades dos pequeninos ou dos sábios formatados?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP


sábado, 27 de junho de 2026

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO – At 12,1-11 e 2Tm 4,6-8.17.18:

 


Paixão dos apóstolos, paixão e missão de uma Igreja.

 A Igreja celebra a solenidade de São Pedro e São Paulo nestes dias. Digo desta maneira em decorrência do adiantamento desta comemoração para este final de semana, vinte e sete e vinte e oito de julho, de acordo com as diretrizes da Conferência Episcopal, a fim de favorecer a maior participação dos fiéis. Uma vez que a celebração do martírio das colunas da comunidade cristã se consolidou no dia vinte e nove. De qualquer modo, durante estes três dias, as comunidades de fé se encontrarão envolvidas nesta atmosfera celebrativa.

 Para esta solenidade não preparei a reflexão habitual do evangelho proposto, porque ele será meditado nos próximos domingos do tempo comum. Por isso escolhi as duas leituras bíblicas que, a seu modo, mostram o sentido da vida e da missão do Senhor abraçada por eles.

 O princípio e o fundamento da vida do discípulo é a existência e o modo exemplar do agir do Mestre. Por isso, todos os dinamismos de Sua vida deverão se fazer presentes em cada gesto e modo de ser de seus seguidores. Principalmente no tocante à paixão. Assim sendo, a vida do verdadeiro discípulo-apóstolo também será marcada pela paixão do Senhor. Por isso, os textos em questão são classificados como a “Páscoa de Pedro” (At 12,1-11) e a “Paixão de Paulo” através de seu “testamento” (2Tm 4,6-8.17.18). Sobre eles lançaremos nossos olhares e nos colocaremos a meditá-los, a fim de recolher duas provocações importantes: ambos revelam, a seu modo, que a Fé em Cristo Jesus é “testemunhal” e missionária. Isto posto, podemos meditar os dois textos.

 At 12,1-11:

 O livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito pelo evangelista Lucas, muito provavelmente em meados de 80 d.C, primeiro século da vida das comunidades apostólicas, sendo possíveis lugares de sua redação, Antioquia e Roma. O evangelista compõe esta catequese narrativa como continuação de seu primeiro livro, o evangelho. A finalidade da obra é a de narrar a vida dos primeiros discípulos e das primeiras comunidades cristãs iluminadas pela Fé em Cristo Jesus, o Ressuscitado, e o anúncio de sua Palavra a todas as nações “até os confins do mundo”. Nesse sentido, a vida, missão, obra, bem como a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor serão prolongadas através dos primeiros cristãos. Também os temas teológicos, muito apreciados pelo evangelista, os quais já se faziam presentes em seu evangelho retornam com força ainda maior neste segundo livro.

 Lucas estrutura a sua obra em duas partes. A primeira, que compreende de 1 – 13 é chamada de Ciclo de Pedro. Nesta primeira fase da vida e da missão dos discípulos e das comunidades, o anúncio da Boa Nova do Reino será narrado ainda dentro dos limites de Jerusalém, a vida das mesmas comunidades será mostrada com traços muito particulares e distintivos, bem como as dificuldades e perseguições sofridas. A figura do apóstolo Pedro aparecerá com maior proeminência, assim como a comunidade de Jerusalém, liderada pelos da família do Senhor (ex. apóstolo Tiágo, irmão/primo do Senhor). Acontece ainda nesta primeira parte o surgimento de uma personagem marcante, um certo Saulo de Tarso e os acontecimentos envolvendo a ele na estrada para Damasco, isto é, sua reorientação à Cristo e seu Evangelho. Então, de 13 – 28, tem-se o ciclo de Paulo, onde serão narradas a missão da Igreja aos pagãos, e a expansão do Evangelho às nações, através do apóstolo das gentes. Contextualização feita. Meditemos At 12,1-11.

 O texto proposto encontra-se na conclusão do ciclo de Pedro, o qual apresenta a imediata transição para a segunda parte do livro dos Atos dos Apóstolos. Esta narrativa é importante, pois servirá de impulso missionário para a comunidade cristã: através da prisão de Pedro, a igreja deverá tomar consciência de que já não é mais possível e seguro permanecer em solo hostil. Deverá sair dali e pregar o Evangelho em outros lugares. Não se trata de uma fuga. Mas de uma abordagem estratégica em vista do anúncio que não pode, em hipótese alguma, parar. Com este capítulo, fecha-se a primeira parte da história da Igreja, cujo centro de gravidade é Jerusalém. Assinala, portanto, a ruptura definitiva com o centro religioso e com a fé judaica. Se abre, pois, um caminho novo para a missão cristã.

 Lucas nos contextualiza acerca da ânsia de Herodes Agripa (Júlio Agripa I, neto de Heródes, o Grande) em colocar fim a seita do messias crucificado, Jesus, no intuito de agradar a judeus e romanos. Manda prender as lideranças da igreja de Jerusalém, e, em seguida, ordena matar a espada Tiago, “irmão de João”, e vendo que isso agradava os chefes dos judeus, mandou também prender a Pedro (v.1-3). Aqui reside um ponto importante para a compreensão do texto. Algumas evocações bíblicas dão à narração um tom religioso e um significado teológico. O discípulo é preso como Jesus, na proximidade da páscoa, nos dias de festa “dos pães não-fermentados” ou ázimos (cf. Lc 22,1). No plano de Lucas, o episódio pode ser chamado “a páscoa de Pedro”, à semelhança de Lc 22-24, “a páscoa de Jesus”. O apóstolo está sofrendo por causa do Evangelho. Assim como o Senhor foi perseguido, rejeitado e morto pela Boa Nova do Reino. Assim, a vida do verdadeiro discípulo apóstolo reflete a do Mestre e Senhor.

 A personagem importante, porém, é o mensageiro divino, e não o apóstolo ou a comunidade. Por que? Lucas deseja ensinar que o Anjo do Senhor, que outro não é que o próprio Deus. Sua extraordinária e poderosa iniciativa liberta e salva Pedro. Assim como o Ele libertou Jesus da morte, o anjo do Senhor liberta o apóstolo da prisão. A comunidade encontra-se apoiada em duas atitudes: oração e confiança, únicas formas de resistência a esta situação. A primeira, a capacidade de colocar a vida nas mãos do Pai, e a segunda, a certeza de que Ele jamais abandona. Ao contrário, sempre presente.

 Assim como libertou Jesus da morte, de igual modo conduzirá a comunidade através dos conflitos. Para que libertada, possa continuar anunciando o projeto de Deus e promover libertação. A comunidade, por sua vez, vivendo sua missão em meio aos conflitos e as crises, reflete e prolonga em sua vida a paixão e a páscoa de Jesus Ressuscitado.  Com isso, chegamos a finalidade deste relato: a última palavra não é do prepotente humano, rei ou senhor, que ao seu bel-prazer esmaga os homens, mas do Senhor único da história, que dá liberdade aos oprimidos e defende os fracos e que sustenta o anúncio do Evangelho, que nada e ninguém consegue deter.

 2Tm 4,6-8.17.18:

 A Segunda Carta de Paulo à Timoteo é chamada de escrito pastoral por abordar uma série de recomendações ao personagem Timoteo, destinatário, bem como para a comunidade cristã sob a liderança deste proeminente Bispo. No entanto, há que se esclarecer o seguinte, o escrito não é da autoria do apóstolo das nações.

 O escrito em questão é um típico caso – muito frequente na antiguidade – de pseudoepigrafia, a técnica de se reunir as ideias (no caso, os ensinamentos ou pregações), coloca-las por escrito e atribuir a autoria real ao personagem famoso. No caso, um discípulo de Paulo pôs sob a autoridade do apóstolo o conjunto de orientações para a organização da comunidade e as normas para a vida dos cristãos. Para fazer isso, endereçou idealmente três cartas a dois dos mais conhecidos colaboradores de Paulo, Timóteo e Tito, apelando para informações históricas conservadas nos documentos escritos (cartas e At), na tradição ou escola paulina. 

 Nesse sentido, pode-se dizer que as duas cartas à Timoteo são verdadeiramente paulinas, porque na sua origem, como fonte, está a pessoa, a obra missionária e o impulso espiritual de Paulo. Em outras palavras os dois escritos possuem o selo da autenticidade paulina não no plano histórico-literário, mas no espiritual. Provavelmente escritas na região da Ásia Menor por um judeu-cristão de diáspora, entorno dos anos 70 do Primeiro Século. Colocadas estas posições, poderíamos sem medo inferir que o redator da carta possa ter escutado, ou mesmo visto com vivacidade o testemunho de Paulo ou mesmo de seus colaboradores, devido a forma com a qual ele mesmo transmite – apaixonadamente – o testemunho contido no testamento do apóstolo e doutor das nações. Acompanhemos.

 O sangue derramado, ele o interpreta como sacrifício de valor expiatório: “já fui oferecido em libação” (v. 6a). A libação de vinho, água ou óleo era, nos sacrifícios judaicos, derramada sobre a vítima (Ex 29,40; Nm 28,7). Ou seja, o autor consegue transmitir aos leitores/ouvintes que Paulo está derramado sobre a vítima, isto é, o próprio Cristo, sugerindo, portanto, uma total conformação ou identificação ao Senhor Jesus. Ou seja, está unido a Cristo na totalidade de sua existência, até as ultimas consequências, a entrega da vida.

 Paulo interpreta sua partida como o soltar as velas do barco, permitindo que a embarcação possa partir. Começando uma viagem. Ora, para ele, a morte não é o fim, mas o início da nova viagem. É o último gesto de oferta de si, ou seja, a porta de entrada para a meta definitiva. Qual o destino? Nas palavras do apóstolo: “O Senhor... me levará para o seu Reino eterno” (4,18b).

 A dinâmica interna do gênero literário “testamento” propõe como recurso de compreensão para a mensagem o exercício de olhar para o passado, a fim de se fazer o balanço da vida. Paulo faz isso servindo-se duas imagens a fim de compreender o sentido de sua vida. Toma como exemplo o soldado que lutou com risco e seriedade: “combati o bom combate”, e o atleta que corre no estádio: “terminei a minha corrida”. Mas o fundamental para ele é ter corrido em vista da evangelização, conservando a fé (v. 7). E com isso, faz projeção para o futuro: tem esperança de receber a coroa da justiça. Também aqui ele faz uso de linguagem própria das lutas e disputas esportivas daquele tempo. Do mesmo modo que o atleta vitorioso recebia a coroa da vitória, o apóstolo (e todos os discípulos de Jesus) receberá a coroa da justiça, que é símbolo da imortalidade, da vitória, da alegria.

 A vida nova e definitiva que Paulo espera e tem a certeza de que possuirá, é a mesma vida ressuscita de Cristo Jesus, porque ele tem a firme consciência de estar vivendo a mesma paixão de Seu Senhor em sua própria carne e história. A paixão do mestre e senhor sendo abraçada pela existência de seu discípulo. Isso fica claro quando ele (ou o redator) relata os sofrimentos vividos por causa do Evangelho: levado ao julgamento, sem defesa ou amigos (companhia). Tal e qual o Senhor Jesus (“todos me abandoram”, cf. Mt 26,31). Mesmo assim não reclama vingança. Ao contrário, pede que não leve em conta a falta cometida pelos amigos, assim como o Senhor: “Pai, perdoa-lhes. Eles não sabem o que fazem”, cf. Lc 23,24).

 O apóstolo, como o Senhor, possui a consciência de que não está sozinho nem abandonado por Deus. Ele mesmo declara: “O senhor esteve ao meu lado e me deu forças. Eu fui libertado da boca do leão”. Assim, a paixão de Paulo é o prolongamento da paixão de Jesus (cf. Cl 2,14: “Completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo”).

 As duas personagens celebradas nestes dias festivos ensinam a toda Igreja o verdadeiro sentido de encontrar-se unidos a Cristo. Um discipulado que se espelhe e que reflita todo o sentido da vida do Senhor. Que seja capaz de viver o mesmo caminho de vida de Jesus, permanecendo sempre fieis à missão.


 Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 20 de junho de 2026

REFLEXÃO PARA O XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 10,26-33:

 


A liturgia deste décimo segundo domingo do tempo comum propõe a continuidade da leitura do discurso missionário de Jesus, situado no capítulo décimo do Evangelho segundo Mateus. A seção literária consiste numa série de ensinamentos destinados aos discípulos acerca da missão. O que o mestre realizará, valerá, igualmente e integralmente para eles.

O discurso missionário foi motivado pelo inconformismo de Jesus em face a situação das multidões, cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, ou seja, abandonadas e exploradas pelos chefes religiosos da época. Nesse sentido, a missão consiste no anúncio do Reino que restitui a vida, a dignidade e a esperança das pessoas, denunciando tudo o que as impedia de viver plenamente. Consequência? Quem luta por isso, inevitavelmente, será vítima de perseguições e hostilidades, como previu o próprio Jesus (Mt 10,16-25). Diante dos sentimentos do discípulos-apóstolos em face a este cenário e contexto, o Senhor lhes faz o convite à coragem e à confiança Nele e no Pai, que sempre cuidarão com amor fiel de suas vidas.

O texto lido hoje – Mt 10,26-33 – já coloca a seção próxima de sua conclusão. Dos versículos 26-27, Jesus exorta aos discípulos, “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”.  O medo, ao interno da tradição bíblica, e na vida espiritual, constitui o contrário à Fé. Ele acomoda e paralisa a pessoa, impedindo-a de assumir e tomar as rédeas da vida e da história diante do horizonte de Deus. Chamados para a missão, todos devem saber as consequências inerentes a ela, sem sucumbir ao medo. É interessante notar que será por três vezes que Jesus repetirá esta ordem “não tenhais medo”.

O número três é, na teologia bíblica, um número completo. Ele indica a composição do ser humano (corpo – alma – espírito), conforme a antropologia bíblica (a compreensão acerca do ser humano naquele contexto). Nesse sentido, quando o leitor/ouvinte do evangelho se deparar com este tríplice convite deverá acolhe-lo como uma ordem que serve para a sua vida e existência como um todo, que quando aderida e assimilada na vida é capaz de cumula-la de sentido e de força; isto é, de plenitude.  

O dito de Jesus precisa ser muito bem compreendido, de modo a evitar confusões que possam gerar interpretações equivocadas ou mais medo ainda. O Versículo não é uma apologia à fofoca. Não é se trata de uma advertência a quem quer tenha feito algo de errado, que precise ser corrigido, ou então uma ameaça do tipo “olha, atento! Eu sei o que você fez e isso será descoberto!” Nada disso! O versículo não se trata disto.

O que havia de “encoberto” e que não poderia mais permanecer oculto era o que Jesus já tinha ensinado somente aos discípulos, até aquele momento! Eles deverão ser os porta-vozes do Mestre. Havia chegado o momento de tornar público, de espalhar, de transmitir e proclamar o que eles tinham aprendido, especialmente o modo de viver do Senhor. O ensinamento escutado “ao pé do ouvido”, isto é, no privado da vida e da relação Jesus-discípulo, deve ser revelado com toda a transparência e integralidade. Sem Medo. Sem omitir a nada (não se pode ceder a tentação de mascarar ou maquiar o evangelho). O imperativo “proclamai-o sobre os telhados” é um convite ao esforço e à criatividade no anúncio. Por que? Precisamente porque as autoridades religiosas do tempo de Jesus (fariseus, escribas, sacerdotes) e os poderes imperiais tratavam de sufocar a Boa Nova do Reino. O Senhor lhes assegura que estes não terão poder e eficácia na tentativa de frear ou intimidar o poder do Evangelho.

No v.28, Jesus é mais enfático ainda: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” Os discípulos-missionários não deverão se amedrontar diante dos que colocarem obstáculos para seu trabalho missionário. Antes, só temerão aquele que, além de tirar a vida física, pode privar as pessoas da vida eterna, ou seja, Deus. Só a ele se deve o temor.

O tema do temor a Deus precisa ser sempre reconstruído e bem compreendido. Quando se fala de temor se deve entender o seguinte: reverência, respeito, admiração que gera a confiança. Pois o verbo Phobeo/Phobeomai (gr. φοβέω/φοβέομαι) utilizado pelo evangelista admite esta compreensão. Nesse sentido se compreende também o dito acerca da destruição da vida. A perda total da vida de alguém não será jamais um castigo divino, mas consequência das próprias escolhas. Na perspectiva de Jesus, o Pai protege sempre. Cuida sempre. Está sempre ao lado dos seus.

Para desfazer qualquer mal-entendido acerca da realidade da perseguição que os discípulos sofrerão (e ainda sofrem), Jesus toca no tema da providência divina. Ele se serve de duas parábolas nos vv. 29-30, as quais ajudam os discípulos a tomar consciência da proteção que gozam da parte de Deus. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai” (v.29). Este dito precisa ser traduzido do original grego, pois a versão litúrgica enfraqueceu sentido e deu margens para interpretações erradas, as quais poderiam sugerir, inclusive, que o que acontece de mal, ou de forma acidental, ou mesmo os sofrimentos inerentes a vida humana fossem da vontade de Deus. Isso é um absurdo. Isso não é verdadeiro.

O texto original pode ser traduzido da seguinte maneira: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o vosso Pai”. Ou seja, nada acontece ou foge dos olhos do Pai do Céu. Se os pássaros caem, o Pai cai com eles. Se algo acontece com seus filhos, acontece também com ele. O Senhor está a assegurar aos discípulos o atento e intenso cuidado que Ele e o Pai tem para com os seus.  

Deus sente com os seus! Ele está atento às suas dificuldades e sofrimentos, a ponto de sofrer juntamente com eles. Mas, acima de tudo, comunicar-lhes a força de sua presença ao lado deles. Ora, se Ele está atento a um passarinho, o animal de valor mais baixo no mercado, isto é, com algo tão insignificante, quanto mais estará sempre atento e zeloso a um discípulo de Jesus e filho Seu!  A parábola do cabelo deve ser também compreendida nessa perspectiva. O cabelo era considerado o menor e mais inútil elemento do corpo humano e, mesmo assim, contado pelo Pai. A confiança na providência de Deus é o que encoraja o discípulo no decorrer da missão, pois Ele está sempre atento e providente às necessidades de seus filhos.

“Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus” (v. 32-33). Para viver a missão é preciso ter a coragem e a coerência de vida. Declarar-se a favor de Jesus significa, no decorrer da vida e da missão viver segundo a Sua vida. Assimilar seu modo ser; realizar o que Ele fez, isto é, identificar-se com o Senhor.

O testemunho corajoso do discípulo diante dos homens terá como contrapartida o testemunho de Jesus, a seu favor, diante do Pai. Ele se identificará com o discípulo, encontrando na vida daquela pessoa os sinais de Sua própria vida e missão. Pelo contrário, quem se deixa levar pelo medo e O renega será renegado por Ele diante do Pai no dia do juízo. Aqui não se trata de uma sentença dita por Ele, mas a consequência das escolhas da pessoa, apenas confirmadas pelo Senhor.

Que o evangelho deste domingo possa impulsionar o discípulo a viver a missão dada pelo Senhor sem medo. Possa crescer sempre mais na confiança no Pai, sabendo-se sempre acolhido e cuidado, assim como os pássaros do céu ou como fios de cabelo. E que possa encontrar-se constantemente identificado ao Senhor.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu - SP


sábado, 13 de junho de 2026

REFLEXÃO PARA O XI PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 9,36 – 10,8:

 


A Liturgia do décimo primeiro domingo do tempo comum, continua a leitura do Evangelho segundo Mateus, a partir do final do capítulo nono, o qual serve de dobradiça para o capítulo décimo, no qual o evangelista concentra o chamado “Discurso Missionário”. A obra do evangelista é composta de cinco discursos/ensinamentos de Jesus para seus discípulos, que o autor bíblico recupera e transmite para sua comunidade que se encontra em crise de fé e de identidade. Algumas considerações prévias precisam ser feitas de modo a ajudar na interpretação, assimilação e acolhimento da mensagem trazida pelo ensinamento bíblico.

O Discurso Missionário (Mt 10 – 11,1), compõe, juntamente com o Discurso Inaugural (Mt 5 – 7), o Discurso em Parábolas (Mt 13), o Discurso comunitário (Mt 18) e o Discurso escatológico (Mt 24 -25), o ensinamento essencial de Jesus para o discípulo do Reino. Ora, a intenção do evangelho de Mateus é o de fazer discípulos de Jesus entre todas as nações.  Fazem parte da teologia do catequista bíblico as seguintes categorias: multidão, discípulo, apóstolo (missionário).

A multidão é aquela grande massa que vai até Jesus por conta daquilo que ele realiza; o procura por interesse e não se compromete com o sentido de sua vida e com seu ensinamento. Uma minoria apenas está disponível para ouvir a Palavra e se tornar discípulo. O grupo dos discípulos é formado por aqueles que ouviram as Palavras e aderiram ao modo de vida do Senhor, e, por isso, saíram do meio da multidão, para fazerem uma experiência existencial e profunda com Jesus. Só então são constituídos como apóstolos, enviados, missionários do Reino. Contudo, este esquema não é definitivo, uma vez que o discípulo ou apóstolo sempre corre o risco de retornar para a multidão, quando não vive fielmente segundo a vida de Jesus.

O autêntico discípulo do Reino e de Jesus deve carregar sempre consigo a disponibilidade de ser um missionário, e não deve esquecer-se jamais de sua condição de discípulo. A dinâmica existente neste discurso missionário, que começamos a ler neste XI Domingo do tempo ordinário, apresenta-nos este esquema ao longo de sua leitura. Considerações feitas, podemos mergulhar no horizonte do texto.

A conclusão do nono capítulo informa a respeito de um sentimento de Jesus: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (v.36). Ele sentiu compaixão. A compaixão / misericórdia na bíblia, já refletimos, não é um sentimento piedoso ou adocicado, mas uma atitude operativa em favor de quem sofre. É a capacidade de colocar-se no lugar do outro, porque o sofrimento daquele faz remexer as vísceras. No original grego, o autor se serve do verbo splanchnizomai (gr. σπλαγχνίζομαι), que traduz o hebraico Rehem e Rahamim que significa literalmente vísceras (as entranhas; as “tripas”), cuja raiz das duas palavras provém de Hesed (amor/misericórdia). O fato daquela multidão (símbolo da humanidade) se encontrar sem pastor, e, portanto, lançada a própria sorte, mexe com o íntimo de Jesus, o qual extravasa este amor entranhado de Deus pela humanidade sofredora movendo-O a agir em seu favor. Todas as ações do Senhor serão motivadas por esta misericórdia.

Os mestres da Lei não se interessavam pela multidão de gente simples da Galileia, considerada, com desprezo, povo da terra. E então, faz uma constatação e uma recomendação em forma de parábola: “A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!" (v.37-38). Com isso, fica preparado o ambiente para o discurso missionário.

O dito de Jesus precisa ser compreendido. Curioso é o fato de que ele instigue as pessoas a pedir à Deus que envie os trabalhadores para a messe, quando, na verdade, ele mesmo e o Pai podem providenciar. Por isso se deve sempre ter presente que os evangelhos não são crônicas do cotidiano de Jesus, mas uma mensagem de fé.

“Pedir ao dono da messe” significa rezar. Entrar na dinâmica da oração. Esta, se torna a ocasião privilegiada na vida do discípulo para se entrar em relação com o Pai e com Jesus. Discernir a vida diante de Deus, e saber agir como Ele deseja. Muito importante: a oração do discípulo e da discípula do Reino não é uma repetição de formulas; também não pode ser uma tentativa de convencer a Deus a realizar o que se pede, a ponto de alterar a Sua vontade (tentativa inútil, inclusive). Mas a oportunidade de ter o coração e a mentalidade mudadas diante do querer do Pai. Ou seja, a oração não muda a Deus, e sim a nossa relação com Ele. É a oportunidade de colocar os olhos humanos diante dos olhos divinos para perceber para onde eles apontam, a fim de que se possa orientar os olhos para aquela direção.

A segunda parte da orientação deve ajudar a entender o convite “pedir ao dono”. O que se deve pedir? Que o dono envie trabalhadores para a messe. Ou seja, que o discípulo se torne operário da messe. A oração precisa iluminar a consciência da pessoa a tomar a decisão de se tornar trabalhador, enviado, missionário. É muito cômodo pedir para  que o outro se torne missionário, enquanto fico eu bem confortável instalado e estagnado em minha bolha. A missão é universal. Não é uma tarefa destinada a poucos (ministros ordenados e consagrados a vida religiosa), mas chamado e realidade à todos os batizados.

Ainda mais interessante é o fato de que o texto começa com uma constatação feita pelo evangelista acerca da condição do povo enquanto ovelhas sem pastor. Seria natural ouvir de Jesus o seguinte, “Pedi ao dono da messe que envie pastores” em lugar dos existentes. Mas não é o que acontece. Ele expressa a necessidade de se pedir por operários, ou seja, servidores. Não há mais necessidade de pastores porque o Cristo é o único pastor de seu povo.

As palavras de Jesus sempre são acompanhadas por suas ações. Aquilo que ele disse acima, acerca do pedido ao Pai para que envie operários, ele próprio realiza. Chama para mais perto de si, doze homens. E os constitui como apóstolos (enviados). É a primeira vez que o evangelista usa o termo Apóstolo em seu Evangelho. Ele ocorrerá novamente quando do envio definitivo em Mt 28,16, ao final do evangelho. Em relação ao número doze, ele evoca a totalidade de Israel, simbolizado pelas doze tribos. Mas Jesus extrapola esta mentalidade, e vê naqueles homens a semente do novo e verdadeiro Israel que deve expandir-se a todas as nações.

Jesus lhes dá autoridade. Esta é a melhor tradução para este dito do evangelista “deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (10,1). Mateus toca no tema da autoridade de Jesus (gr. Exousia). Esta não significa a faculdade de mandar e desmandar, pelo contrário, isto se chama “poder”. E não faz parte da lógica do Senhor. A autoridade / exousia de Jesus consiste na missão que lhe foi confiada pelo Pai. Ela encontra-se na coerência entre seu agir e falar. Jesus vive o que anuncia e anuncia vivendo. Esta autoridade, que outra coisa não é que viver conforme a vida, Palavra e obra do mestre, Ele a comunica aos discípulos. Assim, transfere para eles o poder recebido do Pai. Eles deverão continuar a missão de Jesus. O ideal do discípulo é ser como o Mestre.

O grupo é encabeçado por Pedro, e segue-se a lista dos outros onze (v.2-4). Ele será porta-voz e representante do grupo. Nas narrativas seguintes ele sempre aparecerá como primeiro. A leitura do conjunto destas cenas permite reconstruir sua caminhada discipular, feita de altos e baixos, como acontece com os discípulos e as discípulas de todos os tempos.

Jesus lhes dá uma recomendação que parece contraditória a toda sua mensagem. Esta orientação de não ir aos samaritanos, nem onde moram os pagãos, precisa ser bem compreendida. Não se trata da exclusão deles. E a orientação seguinte, no v.6, explicita esta constatação: “Ide, antes (lit. primeiramente) às ovelhas perdidas da casa de Israel”. O adverbio “antes / primeiro” (gr. Μαλλον) indica precedência e não exclusividade ou exclusão. O Cristo privilegia o povo da antiga aliança, mas não lhe dá exclusividade. Os pagãos, também, têm o direito de ser convidados a participar do Reino. A missão junto a Israel (particularidade) serve de ponte e de acesso para os outros povos (universalidade), inclusive aos pagãos. A Ressurreição do Senhor marca a abertura da Igreja para a universalidade da missão (Mt 28,19).

A ação dos discípulos consistirá em proclamar que o Reino dos Céus se aproxima (Mt 4,17), bem como curar os enfermos, ressuscitar os mortos, limpar os leprosos, expulsar os demônios. Portanto, têm como tarefa refazer o caminho de Jesus, Messias, por palavras e por obras. Mas com uma característica muito importante: a gratuidade. Já que receberam tudo de graça, também de graça devem oferecer. O discípulo deve sempre ter em mente que o primeiro agraciado com o amor e a misericórdia do Pai e de Jesus é ele mesmo. Desta forma deverá estar sempre pronto a multiplicar a misericórdia recebida e experimentada com todos aqueles que estão à sua volta. Gratuitamente e “agradecidamente”. Quem é gratuito – e, portanto, livre em suas ações – sabe ser e ter um coração e uma vida agradecidos. A gratuidade e a gratidão são características de um verdadeiro discípulo do Reino.  

O Evangelho de Cristo é a medida do discípulo do Reino. Ele será a última palavra em relação a cada um de nós e nos fará discernir se ainda estamos na multidão ou no discipulado-missionário. Mas é bem verdade que ele sempre nos dará a oportunidade de refazermos o trajeto, sempre mais avante

O discurso missionário é endereçado a todos nós, os discípulos e discípulas (missionários) de todos os tempos e lugares. Por isso, diante do texto que funciona como um espelho para a nossa vida podemos nos questionar: 1) diante da proposta de Jesus, em que categoria me encontro: ainda em meio à multidão (mais um no meio dela); ou no grupo dos discípulos, que escutam e aderem à Palavra de Deus em Jesus, e, portanto, vão se configurando ao discipulado-missionário? 2) Como temos vivido nosso discipulado-missionário: com aquele senso de privilégio e exclusivismo, concebendo-nos como os tais e já salvos; ou temos exercido a missão na disponibilidade e no serviço a todos, indistintamente? 3) Somos comunidade em saída e servidora ou apenas um grupo exclusivo de amiguinhos, ou, pior ainda, um gueto bem fechado e excludente?

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP