quinta-feira, 2 de abril de 2026

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA DA CEIA DO SENHOR – Jo 13,1-15:


 

O Tríduo Pascal se abre com a celebração vespertina (ao final da tarde, começo da noite) da Missa da Ceia do Senhor, e se prolonga até o final da tarde da Sexta-Feira da Paixão. A Quinta-feira santa, no plano simbólico-sacramental, isto é, celebrativo, se faz memória e antecipação daquilo que depois será realizado na cruz: na ceia, Jesus, simbólica e existencialmente, se entrega. Hoje inicia-se a nossa Páscoa.

O caráter memorial desta noite, que perpassa os outros dois dias do Sagrado Tríduo Pascal reside no fato de se fazer memória, isto é, atualizar o evento fundador da fé cristã: a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Somos convidados, através desta solene e grande celebração a sermos contemporâneos ao acontecido com o Senhor. Ou seja, a partir da dinâmica memorial, com nossos pés teológicos (da fé), a ir para a ceia, para o calvário e para o sepulcro vazio, e, ao mesmo tempo eles virem até cada um de nós. Por isso, esta noite “é diferente das outras noites”.

Esta noite começa a ser para nós, povo da Nova Aliança, uma noite diferente, que culminará na grande e solene “noite mil vezes feliz” da Vigília Pascal. Nesta noite recebemos a oportunidade de termos nossos pés lavados a fim de podermos tomar parte / comungar do mesmo gesto de Jesus.

A Ceia do Senhor carrega consigo profecia e testemunho. Profecia, porque ela se torna antecipação da entrega de Jesus mediante o gesto de lavar os pés dos seus; e testemunho, porque convida, interpela e questiona a conduta e a atitude do discípulo de todos os tempos, provocando-o a “seguir o exemplo” do mestre e Senhor, no fazer memória de Seu gesto, que institui o sacramento do amor servidor (Ministério Ordenado), e do sacramento de seu Mistério Pascal, presente entre nós (Eucaristia). O “fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24), alcança sua plenitude histórico-salvífica quando estreitamente vinculado ao “dei-vos o exemplo para que façais como eu fiz” (Jo 13,15). Isto posto, podemos meditar o texto do Quarto Evangelho, Jo 13,1-15.

O leitor-discípulo é convidado, agora, neste capítulo 13, a tomar parte do Ensinamento Final de Jesus; chamado a entrar na dinâmica da sua Glória, através dos sinais realizados por Ele na primeira parte do evangelho Joanino, os quais preparam para esta Hora, a revelação da Glória de Deus em Jesus. Estes últimos ensinamentos constituem, ao interno do Quarto Evangelho, o bloco literário que contém o chamado Testamento Senhor (Jo 13 – 17). Um testamento é aquilo de muito precioso que é deixado ou dado para quem se ama.

O autor do Quarto Evangelho situa a narrativa no tempo: “Era antes da festa da pascoa” (v.1). Diferentemente da tradição sinótica (Mc, Mt e Lc), o evangelista situa a ceia de Jesus na véspera da solenidade pascal. De modo que a ceia pascal seja celebrada no dia seguinte (coincidentemente no Sábado, aquele ano). Por que? O evangelista não pretende negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com seus discípulos, mas diferenciar para mostrar a superação dela: a páscoa do Senhor já não é mais a mesma do templo. Celebrando antes, Jesus a substitui e a supera. A dele não exige ofertas e sacrifícios, não é instrumento de exploração como se praticava no templo. Naquela, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros. Na do Cristo com sua comunidade se celebra o triunfo da vida na forma do amor, a mais eficaz manifestação visível do serviço; nessa, não há morte, há doação de vida por amor.

O v.1 anuncia a chegada da hora que vinha sendo preparada desde os primeiros sinais realizados por Jesus, e, que, agora, começa a ser levada a termo. É a hora de glorificar ao Pai, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. Esta forma solene com a qual João inicia o versículo primeiro, aponta para a finalidade da missão do Senhor: manifestar o amor do Pai até o fim. A expressão “Amou-os até o fim” pretende indicar plenitude intensidade e realização final.

O evangelista coloca o seu leitor diante de personagens que servirão de espelhos para a comunidade. Primeiro, focaliza-se internamente a personagem de Judas Iscariotes, ao informar que “o Diabo (o divisor; o opositor)” o havia seduzido para que entregasse Jesus (cf. Jo13,2). João, ao focalizar a consciência diabólica (cindida / dividida) de Judas realiza um contraste com a consciência livre e orientada para o projeto de Deus que Jesus possui: a de que o Pai, “tudo” (semitismo para Todos) havia colocado em Suas mãos. O Senhor é apresentado como soberano. Não será uma vítima das circunstâncias. Ninguém o toma de surpresa. Ele é livre em sua vida e obra.

Com tal consciência, Jesus levanta-se da mesa. Depõe seu manto. Um gesto simbólico: ao depor o manto está, na verdade, despojando-se da imagem de mestre e de sua dignidade enquanto pessoa. Estava sentado, ocupando a posição privilegiada de mestre que ensina. Cinge-se com uma toalha à cintura. Cingir os rins significa a atitude de estar de prontidão para o serviço. Em seguida derrama água na bacia e começa a lavar os pés dos discípulos (v.4-5).

Compreenda-se o peso e a dramaticidade do gesto realizado por Jesus. Tal era realizado por um escravo; quando não, pelos filhos ou pela esposa, e, numa demonstração de profunda estima, pelo próprio anfitrião. Mesmo assim, continuava sendo um gesto de muita humilhação. Os rabinos até orientavam escravos judeus a não realizarem este gesto para com seus patrões. Para Jesus, os distintivos de sua comunidade e de seus discípulos são o amor e o serviço! Esta é a sua real e mais essencial identidade. Estes símbolos servem para explicar o gesto de Jesus: uma transfiguração às avessas! Jesus depõe a sua imagem de Senhor, e assume a forma de servo (Fl 2,7). Ele não veste os paramentos sagrados dos sumos sacerdotes, mas os do serviço; não as alfaias da casta sacerdotal, mas o avental dos servos.

Agora, desloquemos o olhar para outro personagem que o evangelista faz aparecer na narrativa: Pedro. Consciente da conotação humilhante daquele gesto, ele protesta: “Senhor, tu me lavas os pés?”(v.6). Para o discípulo pescador de Betsaida e para os demais, tal gesto é incompreensível. E, de fato, o é para aqueles que ainda não conheceram em profundidade o mistério do Filho de Deus. Por isso, Jesus afirma, que, por hora, eles não sabem o significado daquele gesto (isto só acontecerá à luz do enaltecimento na cruz e mediante o dom do Espírito de Jesus Ressuscitado). Para aqueles que pensam em termos de hierarquia, o mundo vira de pernas para o ar quando o superior se torna inferior!

“Tu não me lavarás os pés, nunca!” (v.8), declara o discípulo. O que o discípulo não quer aceitar e, demora a assimilar, é que a originalidade do gesto de Jesus reside na inversão dos valores; de que o mestre se faça servo; que o senhor se torne escravo. Não aceita para não se comprometer. Porque, uma vez que se deixa lavar os pés deverá fazer o mesmo. Mas Jesus retruca, dizendo “que não terá parte com ele, caso não deixe lavar os pés” (v.8b). Em termos joaninos, “não ter parte” com o Senhor significa não participar da plenitude e inteireza de sua vida, que atingirá a qualidade de uma vida eterna. Ter parte com Jesus, significaria, por outro lado, ter em si a vida de Jesus, e torná-la existencialmente vivida de novo, através da vida do discípulo e da comunidade. Não é possível comungar da vida do Filho, sem aceitar sua lógica do serviço radical. A profundidade de seu gesto reside no fato de que ele é símbolo e profecia da entrega / doação da própria vida. O gesto de lavar os pés acena para o que Ele realizará mais adiante: sua vida consumada na cruz.

Se Pedro (e qualquer outro discípulo) não aceitar o gesto de Jesus, não participará do efeito da obra messiânica de Jesus. Por isso, o discípulo deve deixar que a água de Jesus o lave. A água é símbolo para a vida, e a para a existência do Senhor. Ou seja, o fiel precisa ser limpo e purificado pela exemplaridade da vida do Mestre. Ao deixar que a água Dele caia sobre os pés, deve permitir que sua vida seja transformada a partir do sentido da vida do Cristo.

O Jesus joanino, depois da incompreensão demonstrada por Pedro, volta à mesa, retoma sua condição de mestre e explica-lhes, então, o gesto. De fato, os discípulos reconhecem-no como Mestre e Senhor. Mas se Ele, nesta condição lhes lava os pés, devem também eles fazer a mesma coisa: lavar os pés uns dos outros, tornando-se servidores uns dos outros pelo amor fraterno.

A lógica radical desta páscoa do Senhor iniciada nesta Quinta-feira da Ceia e do Lava-pés consiste em aprender a lavar os pés, mesmo quando não há quem lave os seus. Aprender a amar quando não se é amado; quando não há quem te ame. O discípulo que se dispõe a viver esta radicalidade aprende a passar pela logica da Páscoa do Senhor. Por isso, não há como sentar-se à mesa (tomar parte da ceia do Senhor, comungando de sua vida, corpo e sangue) sem que se tenha lavado os pés dos irmãos. Não há Eucaristia sem lava-pés!

O texto suscita algumas perguntas para nós mediante este Sagrado Tríduo: 1) Com qual das personagens me identifico: Judas, que não mais se identifica com Senhor, a ponto de tornar-se adversário do projeto de Jesus e de seu Pai, ou com Pedro, que reluta ainda em assimilar a forma servidora de Jesus? 2) Tenho me deixado lavar os pés por Jesus (e com isso aceitado o Seu Dom-Salvação), para poder lavar os pés dos irmãos (através do serviço do amor/doação fraterno)? 3) Tenho crescido na consciência de que ao comungar da Vida do Senhor (através de seu Corpo e Sangue), devo igualmente comungar (assimilar e realizar) no lava-pés do Senhor? Não há Eucaristia sem lava-pés!


Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu  / Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 28 de março de 2026

DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR – Paixão segundo Mateus (Mt 27,11-54; forma breve):

 


O Domingo de Ramos da Paixão do Senhor abre a semana santa, na qual a Igreja celebra a centralidade de sua Fé: o Mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus – o seu Mistério Pascal. Para isso, a liturgia escolhe uma narrativa da paixão dos três evangelhos sinópticos (Mc, Mt e Lc) conforme o ciclo litúrgico vigente. No caso, nesta ocasião, a Igreja meditará o relato da paixão segundo Mateus. O texto é denso, e, por isso dividido em duas opções: a forma longa e a breve. Opta-se, aqui, em meditar algumas cenas da narrativa breve. Porém, serão oferecidas as devidas contextualizações para que seja possível conectar uma cena a outra. Pois, mesmo servindo-se do texto breve, este ainda é assaz longo. Tanto o relato da Paixão em questão, como o relato da entrada em Jerusalém são extraídos da mesma catequese mateana.

A intenção da liturgia, como caminho para o mistério celebrado será a de tentar mostrar a verdadeira identidade deste Jesus, de modo a gerar o seguinte questionamento no fiel: Quem é este Cristo que desejo seguir? Com qual Jesus se deseja subir para Jerusalém, a fim de se renovar a participação em seu mistério de Salvação?

O contexto amplo da narrativa breve, proposta pelos subsídios litúrgicos também, é o do julgamento de Jesus diante do Sinédrio, órgão máximo da justiça judaica no tempo da sociedade dos anos 30. O Cristo, capturado no Jardim é levando diante do conselho dos anciãos, sacerdotes e levitas, presidido pelo sumo sacerdote daquele ano.

Uma constatação histórica. Nenhuma parte da narrativa da Paixão tem sido mais discutida historicamente do que o julgamento de Jesus diante do Sinédrio judeu. Uma sessão no meio da noite, na véspera da maior festa judaica, em que o sumo sacerdote encoraja uma falsa testemunha e então intervém para dizer aos juízes que o prisioneiro é culpado, e em que eles próprios cospem no prisioneiro e o esbofeteiam tudo isto violava a jurisprudência em geral e a jurisprudência rabínica em particular. A morte de Jesus foi um homicídio muito bem planejado.

Entre os altos e baixos do julgamento diante das autoridades, Mateus alterna a narrativa com as figuras de Simão Pedro e Judas Iscariótes, ambos discípulos difíceis que visam mostrar as dificuldades de assimilação acerca da missão e da identidade do Mestre, obtendo cada um, o desfecho narrativo diferente. Pedro, após a negação se retira para chorar amargamente. Judas, após devolver as trinta moedas do sangue do inocente, caindo na real, desesperado vai colocar fim em sua vida. Isto posto, o texto litúrgico breve se inicia com uma nova cena que abre o contexto imediato da narrativa: o julgamento romano, cuja a sentença será cabal: morte ao justo e inocente Senhor da vida. O objetivo de Mateus é claro e simples: Jesus era totalmente inocente e morre como o justo de Deus.

“Jesus foi posto diante do governador, e este o interrogou:

"Tu és o rei dos judeus?"

Jesus declarou: "É como dizes" (v.11).

A cena que agora se desenrola é sóbria, mas rica em questionamento: quem é este Pilatos, procurador romano? Uma pessoa temerária, apegado à sua reputação, cioso do “poder e da autoridade” que possui, ainda que em nome de Tibério César. Alguém que julga também pelo o quê ouviu falar. Pelas aparências. Um sujeito inconstante e, de tão imparcial que deseja ser, consegue ficar em cima do muro. Estas características não são uma psicologização da personagem. São oferecidas pelo texto e pela compreensão da realidade sociopolítica da Palestina dos anos 30. Ele se coloca diante de Jesus e o interroga. A resposta do Senhor: “É como dizes”, é uma clara resposta de Mateus que deseja afirmar para a sua comunidade leitora de seu evangelho e para a geração futura dos cristãos, que o Senhor nunca afirmou isso. Ao responder desta maneira ao governador, ele está colocando em evidência que esta é uma pergunta e uma concepção equivocada acerca de Jesus: “é você quem está dizendo isto. Eu nunca disse tal coisa; jamais me auto revelei como rei.” Na narrativa da Paixão em João a resposta é muito mais irônica (típica da ironia joanina).

Durante sua vida e seu ministério, Jesus nunca se aproximou desta imagem ideológica do rei. Ele sabia que esta concepção acerca do messias esperado era muito alimentada. Três eram as concepções acerca do Messias esperado: ele deveria vir como um grande profeta, assim como os grandes de seu povo; após o exílio, com o pano de fundo da promessa feita à Davi no fim de sua vida, o povo esperava a reconstrução da monarquia a partir de um novo Davi, por isso, crescia a ideia de um Messias rei. Mas, no período da reconstrução da vida do povo, após o exílio babilônico, a figura dos sacerdotes do templo foi muito valorizada, por isso, crescia a cresça a expectativa de um Messias de origem sacerdotal. Contudo, no tempo e na sociedade de Jesus é que as duas expectativas, régia e sacerdotal, se unem, dando a entender que o ungido para realizar o projeto de Deus seria de origem real e sacerdotal. O messianismo do Senhor não se enquadra nesta dupla imagem. Sua missão foi vivida inteiramente na linha dos grandes profetas do povo, assimilando também para si a identidade do Filho do Homem, isto é, o realizador da vontade e do Senhorio de Deus nesta história. Jamais rei! Disso, e de nada ele poderia ser verdadeiramente acusado. Aliás, as acusações feitas no Sinédrio não tinham fundamento algum; apenas distorções e manipulações.

Mateus mostra Jesus em silêncio, após responder denunciando o equivoco de Pilatos. Nada mais responde. Ele não tem nada a dizer a quem não deseja fazer uma experiência profunda com sua Pessoa. Nada adianta explicar ou ensinar a quem não quer aprender. Todavia, o autocontrole do Cristo nesta cena é o que mais impressiona. Ele não precisa se defender porque sabe que sua vida está nas mãos de um só: o Pai. É a imagem verdadeira do Justo que confia em Deus. Por isso, habilmente, o evangelista insere uma personagem feminina. A esposa do governador. Ela interrompe o julgamento.

Enquanto Pilatos estava sentado no tribunal,

sua mulher mandou dizer a ele:

"Não te envolvas com esse justo! Porque esta noite,

em sonho, sofri muito por causa dele". (v,19)

Como toque dramático a inserção particular de Mateus é altamente eficaz: uma mulher pagã, através de um sonho-revelação, reconhece a inocência de Jesus e procura sua libertação. A esposa do procurador, na sua condição de mulher, pagã (não pertencia a fé de Israel e nada conhecia sobre), injustiçada, sem voz, sem vez, sabe reconhecer os que se encontram na mesma situação. Se torna uma denúncia profética em nome dos muitos inocentes e justos que sofrem as injustiças desta história. Ela reconhece que Jesus é inocente e Justo. Ao passo que as autoridades judaicas, que tinham tudo em suas mãos para reconhecerem a ação de Deus em Jesus permaneciam de coração fechado. Os peritos e especialistas da fé e sobre Deus decidiram dar morte ao Filho de Deus.

Pilatos viu que nada conseguia

e que poderia haver uma revolta.

Então mandou trazer água,

lavou as mãos diante da multidão, e disse:

"Eu não sou responsável pelo sangue deste homem.

Este é um problema vosso!" (v.24).

Os versículos 24-25 são catequéticos mais que polêmicos. Pilatos lava as mãos. Ao que parece, o gesto pode ser interpretado como indiferença, como isenção de responsabilidade, como imparcialidade. Mas Mateus se serve para transmitir uma mensagem teológica. O governador é oprimido pela exigência de todos que queriam a crucificação de Jesus; e assim, num dramático gesto, exclusivo do evangelista, ele publicamente lava suas mãos para significar que, como sua esposa, o pagão reconhece a inocência do Cristo. Recorda o Antigo Testamento ao descrever aqueles que devem ser considerados responsáveis pela morte (2Samuel 3, 28-29; Josué 2, 19; Jeremias 26, 15), pois que, quando alguém, no Antigo Testamento, lava as mãos, esse ato significa inocência em relação a um crime de morte (Deuteronômio 21, 6-9).

Jesus, após ser agredido, insultado pelos soldados e coroado de espinhos foi levado para ser crucificado. O auxílio de um desconhecido no caminho faz lembrar todos aqueles a quem o Senhor parou no meio do caminho da missão para servir e salvar-lhes. Agora são pessoas como estas que acompanham o Senhor, juntamente com as mulheres, ao passo que os discípulos debandam para longe do Mestre. Feita esta transição, podemos meditar os versículos do bloco final do relato da paixão.

Dos versículos 38-44 o evangelista registra uma série de insultos dirigidas a Jesus na cruz. Primeiro, a população passante, que recordava as palavras ditas (que foram distorcidas) contra o templo de Jerusalém, com a provocação “Se és filho de Deus, desce da cruz!”, que será repetido também pelos sumos sacerdotes, mestres da lei e os anciãos do povo, colocando a prova o amor de Deus por Jesus (“Confiou em Deus. Que ele o livre agora, se é que Ele o ama”); por fim, também os malfeitores o insultam. Note-se que a forma como estas provocações aparecem são semelhantes às tentações sofridas pelo Senhor no deserto. Satanás apresentava as seduções desta forma. Mateus quer ensinar que esta é a ultima tentação de Jesus: descer da cruz. Romper com a fidelidade e a relação com o Pai. Viver a sua condição de Cristo e Filho de Deus na contramão da lógica de Deus, utilizando sua autoridade e identidade em benefício próprio, baseado no poder, no domínio, na violência, segundo a lógica deste mundo. A tentação de fazer-se deus no lugar do Pai. Diante da prova mais difícil e dura é que o ser humano é colocado diante de sua fidelidade. Com Jesus não foi diferente. Mas sua resposta sim. Plenamente distinta.

“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito:

"Eli, Eli, lamá sabactâni?",

que quer dizer: "Meu Deus, meu Deus,

por que me abandonaste?” (v.46)

A atitude de Jesus não é a do desespero ou da descrença; da falência, da frustração ou do fracasso, como a má compreensão acerca deste versículo pode sugerir. Não. Ele não está chamando pelo profeta Elias. Mateus sabe muito bem escrever. Não se trata de um erro de tradução ou de escrita, mas sim de interpretação, mas não por parte do discípulo e da comunidade, e, sim, da parte dos que não aderiram a fé em Cristo, bem como aqueles que podem ser resistentes. O grito de Jesus é uma oração de confiança ao Deus de Israel, justo e libertador. Ele está recitando, na cruz, o Sl 21 (22), que é a oração da confiança do Justo na ação salvadora de YHWH. Esta é a forma com a qual Jesus responde aos insultos a à tentação última de abandonar o Pai: colocando a sua vida e sua confiança e sua vida nas mãos de Deus. Confiando que ao final de tudo, Ele intervirá para salvar o seu justo. É assim que se conclui o salmo, no v.24: “Anunciarei o vosso nome a meus irmãos e no meio da assembleia hei de louvar-vos! Vós que temeis ao Senhor Deus, dai-lhe louvores, glorificai-o, descendentes de Jacó, e respeitai-o, toda a raça de Israel!”. Nesta confiança inabalável de um justo é que o Senhor entrega sua vida (v.50).

“E eis que a cortina do santuário

rasgou-se de alto a baixo, em duas partes,

a terra tremeu e as pedras se partiram” (v.51)

O detalhe da cortina que se rasga e do terremoto são importantes mensagens teológicas, e não notícias de jornal que desejam narrar com exatidão os fatos. Há uma mensagem de fé, e, portanto, de salvação, a ser colhida destas imagens. O véu do Santo dos Santos, no Templo, mantinha separado o lugar mais sagrado do santuário do resto do templo se rasga com a morte de Jesus. O evangelista deseja ensinar que com o dom da Sua vida, levada até às últimas consequências com sua entrega na cruz abrem e inauguram a nova relação com Deus. Não há mais nenhum véu/obstáculo entre o ser humano e Deus. A forma da vida e da missão de Cristo serão, agora, o novo modo com o qual a pessoa humana poderá se relacionar com o Pai. Não existe mais uma cortina a separar o divino do humano. O tempo antigo acabou. É o que o terremoto quer mostrar. No Antigo Testamento, para se falar do fim de uma época ou de um determinado tempo se utilizava da imagem do tremor de terra. Mateus deseja ensinar com essa imagem simbólica que tudo o que é ultrapassado, antigo, e, que não mais leva o ser humano à Deus acabou. A vida e a missão de Jesus inauguram o novo tempo de Deus nesta história para todos os discípulos e discípulas; para todos os seu filhos e filhas que abraçam a existência do Senhor como caminho de vida para si.

Jesus coloca a humanidade, através do mistério de sua vida, paixão e morte, na mesma condição que Ele possui: “Filho de Deus”. Eis o Cristo que o discípulo necessita aprender a assimilar em sua vida e história. Acompanhemos, pois, o Senhor em sua Paixão.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 21 de março de 2026

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA QUARESMA – Jo 11,1-45:

 


A liturgia deste quinto domingo da Quaresma, apresenta-nos o capítulo onze do Evangelho segundo João, o qual relata a reanimação de Lázaro. Esta narrativa carrega consigo o último sinal realizado por Jesus ao interno da catequese joanina. O fiel leitor ainda se situa no livro dos sinais (Jo 1,18 – 12,51), os quais preparam para a Hora da Glória (Jo 13 – 20), e tratam, através de seu sentido simbólico, de apontar e revelar a identidade do Senhor.

O relato da reanimação de Lázaro foi inserido entre as ameaças de morte a Jesus por parte dos fariseus (que o evangelista chama de “os judeus”), após o episódio de Betesda (Jo 5), da multiplicação dos pães (Jo 6, o discurso do pão da vida), e, posterior ao sinal da cura do cego de nascença, em Jo 9, que resulta na alegoria do pastor ideal, em Jo 10,38. Todo este panorama narrativo está eivado de crises, mal-entendidos, polêmicas e muita ira por parte das autoridades judaicas em relação ao Senhor. Por isso, imediatamente a realização do sinal (Jo 11,46-54), as autoridades se põem a tramar descaradamente a morte do mestre. Uma fina ironia emerge deste complô: na iminência da sua morte, Jesus responderá com o dom da vida. É a mensagem que o relato pretende transmitir.

Convém recordar que, o sinal narrado não trata propriamente de uma ressurreição, mas de uma “reanimação”. A ressurreição é a passagem da morte para uma vida definitiva e plena, graças à obra do Cristo. A narrativa joanina relata a reanimação de um corpo, já em estado de decomposição (a nota cronológica “quatro dias após a morte”, indica também esta realidade biológica). Todavia, continuava corruptível. O que Jesus faz não é apenas prolongar os dias de Lázaro, mas, através deste sinal extraordinário, revelar que a vida plena se encontra definitivamente Nele. Por isso, o discípulo-leitor não pode ficar preso na superfície do gesto profético e simbólico que o sinal representa. Deve ir além. Mirar a ressurreição do Senhor. Acolher o dom supremo da vida de Deus doada através do Senhor, para ser libertado das amarras que por ventura mantém o ser humano atado. Agora se pode mergulhar no horizonte da narrativa. Dada a extensão do relato, se fará necessário, mais uma vez, pinçar alguns versículos que funcionarão como chave de leitura para a interpretação do texto.

O autor situa a cena: “Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta” (v. 1). O evangelista apresenta Betânia (hbr. “casa da aflição”), como o espaço de uma comunidade, onde a fraternidade, de fato, reinava. As personagens são apresentadas como irmãos. Não há maior e menor entre eles; não há hierarquia entre aqueles que a compõem. Uma comunidade ideal. Todavia, ainda presa à mentalidade equivocada, resistente e tradicionalista. Recorde-se, que todas as vezes em que o termo povoado é citado nos textos bíblicos está sempre carregado deste aspecto negativo: rigorismo, mentalidade fechada e ultrapassada; resistência e oposição. O adjetivo “amado” faz alusão ao discípulo amado, o qual não é um personagem identificável. Ele é símbolo para aquele que assumiu o propósito, a vida, a missão e a obra realizada por Jesus como programa para sua vida.

No v.4, Jesus, informado sobre a enfermidade de Lázaro, responde que essa enfermidade é ocasião para a Glória de Deus. Este versículo faz memória do que fora dito em Jo 9,3 quando se referia, do mesmo modo, ao cego de nascença e sua enfermidade. O que o evangelista quer ensinar para sua comunidade é o seguinte: em Jesus de Nazaré, Deus está presente. Sua vida, missão e obra, através dos sinais que opera revelam a presença do Pai agindo nele. O que o Senhor realizará, para o bem dos discípulos (ocasião favorável), será um sinal que revela o divino nele. Ali, onde a vida parece ter acabado, sempre há espaço para a presença de Deus.

Se faz necessário dar um salto narrativo e tomar o v.17: “Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias”. Esta informação é importante, porque revela a ideia da impossibilidade de vida. Na Palestina, os rituais funerários aconteciam no mesmo dia da morte, devido às condições climáticas. Pensava-se, na cultura da sociedade de Jesus, que após este dia, o espírito deixava definitivamente o corpo e descia para o lugar chamado Sheol, a mansão dos mortos (a qual era, conforme a mentalidade, uma caverna subterrânea). Interessante é que o sinal se realiza neste quarto dia. Se Jesus tivesse atendido o chamado, vindo antes do terceiro dia, operado o sinal, a “glória de Deus não seria manifestada” aos olhos daquela gente.

No v.19, o evangelista informa que muitos judeus (devido à proximidade de Jerusalém) tinham vindo para Betânia consolar Marta e Maria. A primeira é mais agitada que a outra. E é ela quem toma a atitude e vai encontrar a Jesus nas portas da cidade. A morte gerava desespero e medo. Curioso, o evangelista informa que o Senhor não entra no povoado, tampouco na casa da família de Betânia. Deseja ensinar que Ele não era conivente com a mentalidade de um culto a um deus que ressuscita mortos. Este é o verdadeiro motivo da ida dos judeus até Bethania: cultuar a morte. Jesus, pelo contrário, revelará um Deus doador de vida aos que estão vivos. Somente rompendo com antigas estruturas e mentalidades de morte e obscurantismo se torna possível vivenciar o triunfo da vida: de fora do povoado, Jesus chama as irmãs a saírem.

“Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele to concederá” (v.21). Haviam avisado a Jesus de que seu amigo, Lázaro, estava doente. Jesus, por sua vez, nem se moveu. Então a personagem Marta expressa toda a sua reprovação. Ora, pensemos: na expectativa dela estava a possibilidade de que o Senhor realizasse um gesto poderoso em relação ao irmão defunto. Como que Ele, que havia curado o filho do funcionário de Herodes, um estranho, reabilitado a vida de um enfermo na fonte de Betesda, também estranho e anônimo, feito lama (recriou) os olhos de um cego nascença desconhecido, poderia tratar dessa forma um amigo?

Aqui, se faz necessário adentrar um pouco na fineza da redação de João, que é um verdadeiro teólogo e mestre da fé para sua comunidade. Ele usa dois verbos diferentes para expressar a mesma coisa. O verbo “pedir”, aplicado à Marta expressa a exigência de um inferior ao seu superior. Enquanto que, para expressar uma necessidade entre iguais, se utiliza o verbo “perguntar”. Os dois revelam que ela possui uma compreensão errada acerca de Jesus: uma pessoa intermediária que pode realizar aquilo que se lhe ordena. Ela não entendeu que Jesus e o Pai são um, ou que as obras do Filho são as obras de Deus. Deseja tão somente uma intervenção que prolongue a vida do irmão.

Jesus muda o sentido da morte e da vida: Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará (v.23)”. Ele não responde à Marta como se desse a entender “eu ressuscitarei teu irmão”, mas, “Teu irmão ressuscitará”. A ressurreição do irmão dela não é uma intervenção miraculosa, mas o efeito da vida definitiva que é comunicada Senhor ao discípulo que aderiu à Sua pessoa.

Marta não gosta da resposta de Jesus, e retruca expressando a mentalidade da época (v.24): “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. Lembra o Livro de Daniel, o qual menciona, pela primeira vez, a ressurreição nos últimos tempos. Pensamento este, presente na cabeça dos fariseus. Ela nada mais faz que reproduzir esta concepção.

Então, no v.25, Jesus, solenemente declara: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”. João recorda as palavras do Senhor, utilizando uma fórmula de revelação, que alude ao nome divino “Eu Sou (YHWH)”. Emerge também aqui o tema da Escatologia presente, muito cara aos seus escritos e à sua teologia. Ele pretende afirmar para a sua comunidade que a ressurreição esperada para o fim dos tempos chegou! Está presente em Jesus. Ele é a novidade da vida do âmbito de Deus!

Jesus continua no v.26, “E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” Aqueles, que durante a vida e a existência acreditaram, isto é, aderiram a Jesus, tomaram a iniciativa de abraçar a Sua vida, o Seu modo de ser, tem a oportunidade de experimentar desta mesma existência e vida qualitativamente distinta no aqui e no agora. Fazem a experiência de viverem já, no agora, uma vida sob cores e tons de eternidade; dão um salto qualitativo para a vida divina. Esta qualidade de vida se faz presente através do dom que Deus oferece em Jesus. Marta faz, então, a sua profissão de fé, “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo"( v.27). A personagem dá o passo da fé. Faz uma profissão de Fé, reconhecendo que Ele pode administrar aquilo que Deus dá.

Os vv.33-36 desenvolvem-se ao redor das sensações vivenciada pelo Senhor. O Jesus da cristologia dos evangelhos e, principalmente, do Quarto Evangelho é um homem autêntico. É a única vez que se menciona dessa maneira que Ele chora. Ele chora (gr. δακρύω/κλαίω). Não motivado pela frustração ou pelos limites inerentes à morte. Deixa-se tocar pelo sofrimento e condição de desumanização que o ser humano se encontra. E isso lhe causa indignação (gr. ἐμβριμάομαι). Esta comoção do Senhor é, na verdade, uma indignação profética, frente à rejeição ao projeto de Deus e à dúvida em relação ao Seu agir manifestadas pelos Judeus e pelos discípulos É a indignação daquele que sente e vê que as estruturas podem desumanizar uma vida. E, por isso, se coloca em ação. E, daqui, se pode muito bem saltar para o v.43.

A narrativa é bem construída. Jesus faz uma prece ao Pai, a qual é a expressão da comunicação e comunhão íntima e profunda entre Eles. Então ordena, exclamando com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” (v.43). Lazaro (hbr. Eleazar, Deus Ajuda) é chamado novamente à vida, mas ainda caminha amarrado. Por isso, o Senhor ordena que o desamarrem e o deixem ir. Esta ordem, de fato, significa o convite final que Jesus faz para a liberdade. É necessário “desatar” (v. 44) o ser humano de tudo o que o impede de caminhar livremente em busca da vida plena e da dignidade.

O sinal aponta para uma realidade última, como se sabe. E o discípulo não pode parar na simples materialidade dele, que no caso é a reanimação de um cadáver, ainda atado e com dificuldades (sua existência ainda é caduca). Este gesto profético de Jesus alude para uma verdade muito profunda: a Sua ressurreição.

Qual o nível da nossa relação com o Cristo, é semelhante a mentalidade das duas irmãs que concebem a Jesus somente como um meio para obter algo? Temos escutado a voz do Senhor que nos chama pelo nome a sair do túmulo? Quais são as amarras que nos impedem de caminhar e abraçar a vida que Ele tem para dar?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP.


sábado, 14 de março de 2026

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA QUARESMA – Jo 9,1.6-9.13-17.34-38 (breve):

 


A liturgia do quarto domingo da quaresma propõe para a meditação, a leitura do capítulo nono da catequese joanina. É uma narrativa densa e cheia de significado para a comunidade de João e para às gerações subsequentes. Para compreender o texto litúrgico assimilemos a perspectivas do contexto e das personagens, meditando alguns versículos centrais, a fim recolher a mensagem útil à comunidade e aos leitores-discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares.

O capítulo nono encontra-se na primeira parte do Evangelho joanino, no assim chamado livro dos sinais. O Quarto Evangelho estrutura-se sobre dois blocos, o dos sinais, Jo 1,18 – 12,51, que tratam de introduzir o discípulo de Jesus no conhecimento acerca de sua identidade, vida, missão e obra. O segundo pilar é o livro da Glória, Jo 13 – 20, que trata de preparar para a contemplação da glória do Senhor, de seu enaltecimento, através da Hora da Cruz. Somente quando o fiel adere ao Seu projeto, conhecendo-o mediante os sinais, gestos simbólicos, sabendo por onde passa sua vida e sua missão, é que ele poderá dar o passo para a contemplação da hora da Glória do mestre. Neste capítulo, o autor apresenta a narrativa de mais um sinal realizado pelo Senhor. É o sexto que Ele realiza no Quarto Evangelho.

Outra consideração se faz necessária. É importante, para a interpretação deste relato utilizar a técnica da “fusão de horizontes”: o tempo narrado, ou seja, o sinal realizado por Jesus, curando o cego (anos 30); e o tempo da comunidade Joanina, a qual está passando por um momento de crise histórica e de fé (anos 90). Através desta técnica, se visualiza a situação da comunidade cristã frente ao judaísmo da época. O ex-cego torna-se símbolo tanto para o discípulo como para a comunidade joanina que, por professar a fé no Messias Jesus que fora crucificado sofre a perseguição e expulsão dos meios judaicos, como mostrará o relato nos versículos 12-34. Toda a polêmica criada pelos fariseus contra a atitude de Jesus pode ser vista nesta seção, mas o versículo 22 sintetiza a intenção deles: “De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias”.  

O cego, como todo enfermo era tido como amaldiçoado, segundo a tradição de Israel. As enfermidades eram vistas como castigos oriundos de algum pecado cometido pela pessoa ou por seus antepassados. Como, no caso, a personagem era cega de nascença, evidentemente não seria ela a ter pecado, e sim seus pais, conforme a crendice religiosa da época. A cegueira era tida como o pior dos castigos, pois privava a pessoa de ter acesso à leitura da Palavra de Deus, para ler e aprender a Lei. Eram considerados pecadores públicos e não podiam ser admitidos ao Templo, ficando nas portas da cidade e dos locais de culto, vivendo da mendicância. Acreditava-se também que uma criança pudesse pecar ainda no ventre materno.

No entanto, para o Quarto Evangelho o cego tem sua polivalência simbólica. Em primeiro lugar simboliza os fariseus e as lideranças judaicas (os Judeus), cegas em relação à Jesus. Em segundo lugar, se torna símbolo daquele que ainda não fez sua opção pelo mestre. Mas num ponto importante da narrativa, após a cura, ele vai assumindo a identidade do discípulo que começa a dar os passos na fé em relação a Jesus. Torna-se, assim, uma figura do candidato à fé, que, ao interno da comunidade cristã assume o batismo.

Última contextualização. O contexto do capítulo nono é o da festa das tendas (Jo 7,1-2.14). Nela, se esperava a manifestação do Messias glorioso. A atmosfera de Jerusalém se confirmava devido a decoração da esplanada do templo, bem como toda a edificação do Santuário, que eram decorados com lamparinas. O evangelista deseja manter o relato do sinal do cego nesta festa para ensinar para a sua comunidade a identificação de Jesus como verdadeira Luz. Também a ambientação da cena próxima à fonte de Siloé pode conter uma mensagem importante: o Senhor é o enviado por excelência do Pai para comunicar sua água viva e sua Luz.

O evangelista informa que Jesus estava passando, ou seja, em movimento. Na verdade, ele estava em fuga, pois as lideranças dos judeus queriam apedrejá-lo devido ao seu ensinamento (cf. Jo 8). Mas ali, diante daquele cego, onde a vida era escassa e escura, ele se detém e coloca-se a sanar suas necessidades. Por onde passa, Ele vê, não importam as circunstâncias. Ninguém é indiferente ao Seu olhar.

 “Os discípulos perguntaram a Jesus: "Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?" Jesus respondeu: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (vv.2-3), devem ser bem compreendidos. A cegueira não é vontade de Deus e nem punição à possíveis pecados cometidos. Também não é a condição para que a glória de Deus se manifeste, como poderia ser interpretada sua afirmação no v. 3. O dito do Senhor deve ser entendido assim: onde a vida é escassa, onde a criação não encontrou sua plenitude, há, então, espaço para que a glória de Deus se manifeste, sanando a deficiência.

As Palavras e os gestos de Jesus são carregados de simbologia e significado. “É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo. Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé (que quer dizer: enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando” (vv. 5-7). O evangelista deseja ensinar para a sua comunidade que Jesus é o realizador das obras do Pai. Tudo o que o Filho realiza é da vontade de Deus. Ao fazer barro com a Saliva, ele alude à criação; é a matéria prima do ser humano, conforme a mentalidade bíblica. A saliva é gerada pelo hálito, e esse é o sopro, o Espírito. Com isso, o evangelista quer dizer que Jesus repete o gesto criador de Deus (cf. Gn 2,7), ou seja, aperfeiçoa a criação do Pai.

O homem que vivia na escuridão da cegueira foi iluminado e passou a viver de verdade a partir do encontro com Jesus que lhe deu vida. Jesus o envia para se lavar na piscina de Siloé. Uma mensagem interessante, pois o texto não afirma que o Senhor o tivesse conduzido, mas que ele, após a sua cura (iluminação) se dirigiu à fonte. Isso significa a participação e a responsabilidade humana no projeto amoroso e redentor de Deus. Ele não espera e tampouco deseja um ser humano passivo, mas participante ativo de sua obra. Significa a capacidade de tomar a vida nas mãos! Ao se declarar “luz do mundo” (v. 5), Jesus está apontando o caminho e quem lhe obedece e segue encontra a luz e pode ver com clareza, como o cego, que “voltou enxergando” da piscina. Portanto, mediante o sinal realizado, o catequista e autor do evangelho quer recuperar para sua comunidade em crise a identidade do Mestre. Pois, “recuperar a visão dos cegos” era um dos principais sinais messiânicos anunciados pelos profetas (cf. Is 29,18; 42,7). Jesus é Luz do mundo, ou seja: o Cristo de Deus. Aqui fica, pois, entendida a intenção de João ao situar a narrativa ao interno da festa das tendas, na qual a cidade ficava toda iluminada.

Para um judeu piedoso, tal afirmação deste rabino que ensina gente simples seria inconcebível. Por que? A luz, conforme a tradição bíblica e religiosa do povo de Israel era uma imagem simbólica aplicada à cidade santa, Jerusalém, ao Templo e à Torá, enquanto Palavra de Deus. Para João eles, não são mais estas realidades que iluminam o mundo, mas o próprio Jesus.

O ex-cego, por ter aderido à Jesus e sua Palavra, acabou sendo marginalizado pela religião daquele tempo. Mas o Senhor se supera mais uma vez. Ele se manifesta novamente, ao saber que o homem tinha sido expulso da sinagoga e vai ao seu encontro (v. 35). Embora a versão litúrgica afirme que o Senhor “encontrou” o homem, a tradução correta seria “foi encontrá-lo” (v. 35), o que significa que Ele foi procurá-lo. Como sempre, Ele resgata o que a falsa e superficial religiosidade descartou. Os sistemas dominantes separam e divide, mas o Mestre une e reconcilia tudo; Ele liberta e ilumina.

O Senhor, luz do mundo, ilumina o ser humano para que este possa ver a si próprio como ser aberto e repleto de horizonte de vida e de possibilidade. Ilumina o homem não para o desmascarar mas para revelar a sua verdadeira condição de filho de Deus. Ilumina para que quem foi iluminado possa ser luz e iluminar a realidade que o rodeia.

Diante deste texto belíssimo, que ainda fica muito por comentar, dada sua profundidade e riqueza simbólica, quem somos no horizonte desta narrativa, o cego, que ao longo do percurso da fé vai deixando sua condição, porque se propõe a viver segundo a Palavra de Jesus, ou os fariseus que se recusam a acolher a novidade do Dom de Deus em Jesus, luz do mundo e no mundo? Qual cegueira necessita ser eliminada e iluminada por Jesus, Luz do mudo?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 7 de março de 2026

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DA QUARESMA – Jo 4,5-42 (Forma breve):


A liturgia do terceiro domingo da quaresma deixa de lado o evangelho de Mateus e assume as leituras bíblicas extraídas do Quarto Evangelho, o qual fará parte das catequeses quaresmais dos próximos domingos. O episódio proposto para a meditação é o relato da Samaritana no poço, Jo 4,5-42, o qual se divide em três momentos: 1) Jesus e a samaritana junto do poço de Jacó (4,1-26); 2) um diálogo instrutivo aos discípulos (4,27-38); 3) o encontro com os samaritanos, que passam a crer Nele a partir do testemunho da mulher, e pela escuta da palavra do Senhor (4,39-42). Interessa para a nossa meditação o primeiro momento. O texto litúrgico é longo. Por isso, pinçaremos alguns versículos que são capazes de oferecer chaves de leitura para a interpretação da mensagem evangélica.

Uma chave de leitura para se compreender o texto é o tema da novidade escatológica trazida por Jesus, que o autor do Quarto Evangelho vem apresentando desde o capítulo segundo, a partir da narrativa das Bodas de Caná (2,1-12), o primeiro sinal de Jesus. Ali, e na passagem da purificação do Templo de Jerusalém (2,13ss), o evangelista desejou mostrar que o sistema religioso, com as prescrições rituais e os sacrifícios levíticos estariam superados a partir da Obra realizada pelo Cristo. Nele estaria a presença toda nova de Deus agindo na história, possibilitando à humanidade uma nova experiência com Ele. Ele é a superação e a plenitude da palavra de Deus. No capítulo seguinte, Jo 3, desenrola-se um diálogo com um certo Nicodemos, chefe dos fariseus. Nesta homilia do capítulo terceiro destinado ao discípulo iniciado na fé (imagem simbólica de Nicodemos), o Senhor fala do novo nascimento através da Água e do Espírito. Na sequência, o Quarto Evangelista situa a narrativa do capítulo quatro, sob o prisma do nascimento da Água e do Espírito (gerando inclusive unidade literária e temática para a obra). Posto isso, se pode mergulhar na meditação do texto bíblico.

Nos vv.5-6, o evangelista situa o leitor na geografia: “Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó”. Ali, conforme Gn 33,19, Jacó havia comprado um terreno e dado a José, para que os seus descendentes fossem sepultados. Parece que o autor também se serviu do relato de Gn 24 (o poço de Nacar) como pano de fundo para esta passagem, pois havia ali uma fonte, ou mina d’agua. Optamos traduzir poço por fonte, porque dá a ideia de água corrente, imagem importante para o evangelista. Estejamos atentos a este simbolismo.

“Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber" (6b-7). João nos informa que Jesus parou para descansar, ao meio-dia, a hora Sexta. Interessante notar que por duas vezes o evangelista informa este horário. A primeira, neste texto. E a segunda, ao interno da narrativa da paixão, em Jo 19, quando Pilatos apresenta a Jesus açoitado, coroado de espinhos e com manto vermelho, dizendo “eis o homem”, e o catequista anotava “era por volta do meio dia”. Qual o ensinamento que ele deseja transmitir para a sua comunidade e para os leitores de seu evangelho? Que Jesus é apresentado como aquele que traz o dom de Deus.

Naquela hora, conforme a narrativa, apareceu uma mulher samaritana para tirar água. Não era o melhor momento do dia, uma vez que elas iam bem cedo, no frescor da manhã para executar a tarefa. Ele, então, entabula um diálogo, pedindo-lhe água. Ela lhe responde: “tu, que és judeu, pede de beber a mim que sou uma mulher samaritana?” Não é sem sentido esta fina ironia do autor: pretende-se ressaltar a diferença cultural e social existentes entre Judeus e Samaritanos. Interessante, que o evangelista dá peso à cena, ao mostrar o diálogo entre elas na ausência dos discípulos, uma vez que um judeu não conversava em público com uma mulher. Muito menos com uma samaritana. Ora, aos olhos de seus adversários, o fato de Jesus ter iniciado uma conversa com um samaritano já seria motivo de grave falta, tanto mais o uso de um utensílio pertencente à um deles.

Não era a melhor hora para uma mulher que se prezasse ir ao poço retirar água, como dito acima. Quem a visse nesse momento poderia suspeitar de sua fama. Estaria ela procurando uma nova relação? Por isso é necessário compreender o significado simbólico do poço. O primeiro, religioso, é que na tradição de Israel ele é símbolo para a Torá, a Palavra de Deus. Vale lembrar a denúncia do Profeta Jeremias, que chamava a atenção do povo por abandonar a YHWH, fonte de água viva, cavando para si as cisternas (Jr 2,13). O segundo, mais “social”, está vinculado a realidade esponsal. Foi na beira do poço que Eliezer e Rebeca se conheceram (Gn 24); bem como Jacó conheceu sua amada Raquel (Gn 29); também Moisés e Zippora (Ex 2,15-22).

João deseja ensinar que no encontro entre Jesus a samaritana, está para acontecer um novo encontro: neste poço, agora, conforme a narrativa evangélica, um novo casal se encontra para uma nova e definitiva história de amor, Deus e seu povo. A samaritana simboliza, em primeiro lugar o antigo Israel, bem como a humanidade, infiéis à YHWH e à Aliança, desposadas pelo noivo que é Jesus. Por isso, o texto não pode ser lido como se fosse crônica ou notícia de jornal. É preciso colher o dinamismo simbólico destas imagens e personagens. Haja visto também que a personagem feminina não possui nome. Nesse sentido, estaria ela servindo de espelho para que todos os leitores se enxerguem nela.

Jesus pede a ela, “dá-me de beber”. Semelhante ao que ele dirá na cruz: “tenho sede” (Jo 19). Dar de beber, e, no caso, oferecer água, na cultura semítica significa dar acolhimento. Diante desta simbólica personagem samaritana, Ele está pedindo para ser acolhido por ela; está pedindo a água dela. A água é símbolo do amor.  Ou seja, ele mostra ter sede de nossa humanidade. Sede de nossa água, do poço da nossa vida. Ele deseja ter para si a nossa humana condição com tudo o que ela contém, para assim transforma-la numa fonte de água que jorra para a vida do âmbito de Deus. Ele pede “dá-me da tua vida”, “dá-me da tua história”, “dá-me de teus sonhos, desejos, projetos”, para que eu possa transformar esta água em fonte de água viva, isto é, de vida plena de força de sentido através do amor. Aquele que pede, na verdade é quem pode dar/doar, pois oferece algo totalmente novo e além do que se pode esperar. Neste encontro, somos chamados a acolher a realidade daquela que tem sede de sentido e significado da vida, e, portanto do divino, com aquele que tem sede da nossa humanidade, a fim de dar sentido a ela.

O v.10, “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva", e o v.14 “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna", podem ser compreendidos conjuntamente pois se referem ao símbolo da água. Em todas as culturas, a água é símbolo de vida. Quando Jesus fala da Água que brota para a vida eterna, na verdade está se referindo a vida que pertence ao âmbito de Deus que no crente produz a existência mesma de Deus. É um convite para que a samaritana receba como dom, oferta gratuita, esta água viva, que são o amor e a vida eterna presentes em Cristo.

A samaritana não conseguiu romper com o nível material, por isso pede água comum, a fim de não ter mais sede, nem precisar vir tira-la da fonte. Ela ainda pensa na água que gera mais sede. O que seria esta água? As paixões desordenadas, as posses e os acúmulos, o sucesso, o status, o poder, ou seja, tudo aquilo que gera ainda mais insatisfações no ser humano. Estas águas podem inclusive secar. Diferente daquela que Jesus dá. Com Sua Água viva Ela transforma o poço/cisterna de água acumulada e parada do discípulo em fonte que jorra.

A mentalidade equivocada ainda se faz presente na personagem. Por isso, Jesus experimenta uma didática mais radical para derrubar as resistências daquela mulher. No v.17, ele pede que ela lhe chame o marido. Imediatamente ela responde que não é casada. O mestre confirma e declara que ela, de fato, possuíra cinco maridos, e, naquele momento, possuía um sexto (emprestado), que não era dela. Quem são os seis maridos? No nível do texto, são símbolos para os povos que foram trazidos pelos assírios para a Samaria (2Rs 17), por ocasião da dominação e deportação de 722 a.C, quando da queda do Reino de Israel – babilônios, assírios, persas, elamitas, gregos e os romanos. Estes povos trouxeram consigo suas religiões, seus deuses e costumes, os quais passaram a ser cultuados e assimilados também pelos israelitas que ali permaneciam. Temos cinco povos e culturas que não são dali, e um sexto que é tomado de empréstimo (Roma). O estilo de vida (água) desses povos/maridos alimentava ainda mais aquela sede.

A mensagem central desta simbologia é a seguinte: abandonar os esquemas antigos e de morte nos quais se vive para abraçar a novidade de Deus em Jesus. Deixar de lado a incompletude e a falta, uma vez que, ao interno da tradição bíblica, o número seis acena para a imperfeição e incompletude. A sede da personagem, que a faz ir ao poço ao meio-dia, revela a inconsistência, a falta, a insatisfação, a frustração da vida sem sentido que possuía, buscando sempre preencher seu vazio. É a vida atrofiada pelos esquemas antigos.

Os versículos se interconectam. A samaritana tem sede do divino, como exposto acima. Mas ainda está no nível material do lugar e do espaço. Jesus é reconhecido por ela como um profeta. Como alguém que sabe da Palavra de Deus, ele poderia ensinar o lugar correto para Sua adoração. Por isso ela interroga Jesus acerca do lugar autêntico para adoração de Deus, se seria o monte Garizim ou Jerusalém, no Templo (v.22). O lugar da adoração do Pai não é no Garizim, nem em Jerusalém, mas em Espírito e em Verdade.

O que significa isso? Primeiramente, desmistifiquemos aquela intepretação errônea de que a expressão “em Espírito e em Verdade” insinue uma adoração intimista ou individualista. A expressão joanina muito menos acenaria para uma concepção carismática da religião, com suas manifestações extraordinárias ou sobrenaturais. O texto joanino não permite entender “adoração em Espírito e em Verdade” como fenômenos (psíquicos) que de carismáticos não tem nada, ou daquilo que se costumou identificar como os “repousos espirituais” ou “fenômenos das línguas”. Nada disso.

Em Espírito e em Verdade significa, em primeiro lugar, um modo de ser e de viver, isto é, assumir e viver a vida de Jesus em sua própria história; deixar que o sentido pleno de sua história, missão, opção e modo de ser perpasse-lhe a vida, de modo a ser uma continuidade da vida do próprio Senhor. Prestar um culto agradável a Deus com a própria vida encarnada na história e iluminada pela fé. Em simples palavras: a adoração à Deus não se dá num lugar, mas através de um modo de viver. Uma vida pautada pelo Espírito e o amor-fiel (Verdade) de Deus, doada em serviço e em amor até o fim, que deram o tom da existência e da Obra de Jesus. Portanto, não se trata de um lugar, mas de um modo de ser e de existir que identificam o ser humano como um verdadeiro discípulo de Jesus.

Nessa lógica, a mulher diz no v.25: “Sei que o messias-Ungido vem. Quando ele vier, ele nos esclarecerá todas essas coisas”. Ela imagina o ungido de Deus como o novo Moisés, que explicará todas as coisas. Quando ele vier saciará a sua sede. Ele será a plenitude da Lei e da profecia. Nesse sentido, a (reveladora) declaração de Jesus assume um peso importante: “Sou eu que está falando contigo”. Ele se coloca na condição de cumprir o desejo de conhecimento do Dom de Deus que a mulher samaritana tem. É Ele o anunciador e revelador de Deus, e o dom de sua vida e Espírito constituem a água viva, que transforma a existência do discípulo numa fonte que jorra água viva.

A lição pragmática que o texto pretende dar ao leitor-discípulo é a seguinte. Aquele que faz a experiência da novidade que Jesus traz, o Dom de Deus, que na verdade é Deus mesmo, não pode ficar indiferente. Deverá deixar fluir a partir de si a água da vida divina, para que os outros possam fazer a mesma experiência.

Assim, a samaritana aprendeu a lição: vai, então, anunciar essa novidade para os seus. Ela deixou ali o seu cântaro. De poço seco e sedento de água, torna-se uma fonte de água vive, em movimento, na direção dos outros. Da condição de discípula, ela passa para a condição de missionária e vai anunciar aos seus o modo através do qual se vive a vida mesma Deus.

E nós, a partir da experiência pessoal e comunitária com Jesus, somos poço (que retém a água, a ponto de deixa-la parada) ou somos fonte que está sempre a nutrir? Vivemos o modo da existência de Jesus, “Em Espírito e em Verdade”?

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA QUARESMA – Mt 17,1-9:


 

A liturgia do segundo domingo da quaresma nos convida a meditar a narrativa da transfiguração de Jesus. Ela se encontra três evangelhos sinóticos. Mas cada evangelista deu a esse fato cores próprias, conforme as necessidades de suas comunidades. A intenção deste relato no tempo quaresmal é a de fazer com que o fiel se coloque na predisposição de se transfigurar mediante o seguimento a Jesus. Ainda insistindo na dinâmica litúrgico-mistagógica podemos tomar o texto de hoje e pô-lo em sintonia com o evangelho do primeiro domingo do tempo quaresmal, no qual meditamos as tentações de Jesus. A última tentação à que foi seduzido se deu no alto de uma montanha. Ali, foi lhe oferecido o caminho do messianismo dominador e do poder.

O evangelista oferece a informação temporal e geográfica. A primeira, “seis dias depois”, conecta o texto de hoje ao episódio da confissão Simão Pedro acerca da identidade de Jesus como Messias e Filho de Deus, em Cesareia, e o primeiro anúncio que Ele faz de Sua Paixão e Morte. O discípulo-pescador de Betsaida não aceita essa lógica do Mestre, e se torna um opositor (satanás). A indicação temporal, portanto, relaciona o episódio do capítulo dezesseis com a narrativa proposta pela liturgia. Mas o número seis assume um significado simbólico: imperfeição, incompletude, falta. A intenção do evangelista será a de mostrar que algo de fundamental acontecerá que trará plenitude.

A narrativa evangélica não é uma crônica dos fatos; não é um texto jornalístico que pretende documentar e registrar os acontecimentos. Os evangelhos são catequeses narrativas, que se servem de elementos e linguagens muitas vezes simbólicas. É o caso do número três, que aparece neste versículo, quando identifica número dos discípulos levados por Jesus. Ele simboliza a constituição do ser humano na Antropologia judaica: espírito, alma e corpo. Portanto, é uma imagem da natureza humana. O evangelista deseja ensinar que o que está para acontecer diz e implica muito a condição humana tanto de Jesus quanto dos três discípulos. É verdade que os três personificam, também, o grupo dos Doze. E, na cultura e tradição judaicas atuam na função de testemunhas qualificadas, ou seja, aquelas que dão veracidade ao fato ocorrido e narrado. O que era exigido na época.

O aspecto geográfico funciona como motivo teológico. Mateus situa-os na montanha. A montanha, para a teologia bíblica, é o lugar ideal para se fazer a experiência com Deus, bem como o lugar de Sua manifestação (as teofanias). Ora, toda a possibilidade e ocasião de encontro com Deus acaba sendo uma “subir a montanha”. Neste sentido, é preferível que não se tente identificar a montanha desta narrativa com o Monte Tabor, uma vez que ela surgiu com Origenes (escritor e teólogo) entre os séculos II e III. A informação não se sustenta com a leitura da bíblia. É melhor mantê-la anônima, tomando-a somente como a possibilidade de um encontro com Deus.

Interessante. Fazendo uma relação com texto evangélico das tentações meditado anteriormente, aqui se realiza o contrário: na narrativa das tentações, satanás leva Jesus para um monte, e lá mostra e oferece-lhe todos os poderes e glórias deste mundo, tentando-O a usar a sua condição divina para dominar e ter poder. Na narrativa deste segundo domingo da Quaresma é o próprio Senhor que leva Simão (a quem chamou de satanás) e irmãos Zebedeu de temperamento inflamado para outra alta montanha, a fim de lhes mostrar o caminho contrário às seduções oferecidas sempre e constantemente pelo tentador. A presença destes três na cena não pode ser entendida como privilégio concedido pelo Mestre, mas a necessidade de corrigir lhes a mentalidade equivocada acerca do projeto do Pai e de Jesus. Eles seriam, como todo o grupo, os mais necessitados da experiência da transfiguração/conversão. Primeiramente da mentalidade.

Mateus informa: “E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (v.2). O verbo grego utilizado para ilustrar esta ação é “Metamorphein (gr. μετεμορφώθη)”, na voz passiva (lit. “Foi transfigurado diante deles”). O que indica que a ação é realizada por Deus (passivum divinum ou theologicum). Ou seja, o Pai revela quem Jesus é, a partir de dentro; a partir da humanidade do Filho. Atenção: não é o Filho que se autotransfigura, mas é o Pai do Céu a transfigurá-lo. É como se revelasse a incrível beleza de sua humanidade, jamais reconhecida pelos adversários, decididos a tirar-lhe a vida (Mt 12,14). O rosto (a face) indica a identidade da pessoa.

Ao realizarem esta experiência, os três discípulos estão em condições de fazer uma leitura distinta da morte injusta do Mestre (Mt 16,21). Nesta perspectiva, o texto cumpre sua função para o leitor-discípulo, a de mostrar como será o caminho de Jesus. O seu messianismo não será vivido na perspectiva do poder, do domínio, da força, da submissão, do prestígio como alertou no primeiro anúncio da paixão (Mt 16,21). Tampouco a morte violenta e ignominiosa terá a última palavra na sua vida, porque a cena narrada é uma antecipação da vida ressuscitada, tanto para o discípulo que o acompanha até o monte, quanto para o leitor do evangelho. Por isso, o detalhe cronológico que Mateus sublinha dos “seis dias depois”, torna-se ainda mais importante: Jesus mostra, mediante a transfiguração, a plena realização daquilo que Deus planejou para o ser humano. Esse dado merece consideração, porque o evangelista está pensando na semana da criação (Gn 1). No sexto dia Deus criou o ser humano.

Jesus transfigurado revela o ser humano redimido, salvo e, portanto, recriado a partir Dele. A condição divina de Jesus é obtida mediante o poder, mas com o dom total de si. Aos discípulos a filiação divina, condição nova a ser alcançada também deve acontecer da mesma forma: na entrega, no serviço e no amor.

No v.3, o evangelista continua a fazer uso da linguagem simbólica. Informa a presença de outras duas personagens, Moisés e Elias. Ambos simbolizam a Palavra de Deus e as expectativas e promessas do Reino. O primeiro, faz alusão à Lei; o segundo, à profecia. Ao lado de Jesus, eles O indicam como a plenitude e realização das Escrituras através de seu modo de vida. Um detalhe interessante: os dois personagens não se dirigem aos discípulos. Conversam apenas com o Senhor. Isto é, a correta compreensão da tradição religiosa de Israel passa pelo Mestre, para quem convergem toda a Escritura e Revelação Divina. Trata-se de uma chamada de atenção do evangelista para a sua comunidade: à comunidade cristã, a lei e os profetas não tem nada a dizer a não ser por meio de Jesus. Tudo o que no A.T não estiver em sintonia com a mensagem de Jesus, não terá valor para vida do fiel.

No entanto, a incompreensão e resistência dos discípulos diante do evento se fazem notar. Pedro interrompe a cena dizendo que a aquela experiência era boa (v.4). Muito se vê na atitude dele algo de negativo. Ele estaria desempenhando o papel de satanás, uma vez mais. Continua sendo pedra de tropeço para o Cristo, e seu agir segue sendo segundo “os homens e não segundo Deus (Mt 16,23). Com a proposta de construir três tendas, o evangelista alude a uma festa importante do A.T, a festa das Cabanas (Sukkot), a qual fazia memória da permanência do povo no deserto, habitando em tendas. A festa era celebrada durante sete dias na época de Jesus, e nela se esperava também a manifestação gloriosa do messias libertador de Israel. Expressando o desejo de construir tendas, o discípulo revela que sua mentalidade ainda está presa ao poder, domínio, privilegio; à mentalidade equivocada acerca do Messias de Deus. E, pior, deseja induzir a Jesus a revelar a sua condição divina e de messias como messias nacionalista amparado nas escrituras antigas.

Outras duas atitudes necessitam ser recusadas pelo discípulo: o comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo, que configura uma nova tentação. E o perigo do apego à tradição e não reconhecimento de Jesus como o centro da vida, ilustrada pela atitude de Pedro: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias”. Ocupando Moisés o centro da frase dita pelo discípulo, sendo elencada em segundo lugar, se induz a entender que a personagem principal para a qual se deve voltar a atenção seria Moisés. Uma vez que era costume colocar a pessoa de maior destaque e importância no centro da estrutura frasal. Ou seja, Jesus ainda não ocupava o centro na vida de Pedro e na dos discípulos, e sim a lei de Moisés. O discípulo deseja enquadrar Jesus nas pegadas de Moisés e não o substituir: o messias desejado por eles é aquele que se conforma à lei e às conveniências deles. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho do Senhor; na primeira vez, foi Ele quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, ao interrompê-lo.

Agora é Deus a falar. Outro símbolo importante, que aponta para a centralidade da pessoa e missão de Jesus, cume e ápice da Lei e da Profecia, é a “nuvem brilhante” que envolve a todos (Ex 24,15; Ml 24,30; 26,64). Dela, o Pai faz ouvir sua voz, declarando a autoridade do Filho: “Este é o meu Filho amado. Só nele eu encontro alegria. Fiquem atentos ao que ele diz” (Mt 3,17; ís 42,1). Deus O credencia como o único que tem a autoridade para falar e ser ouvido pela comunidade. É uma forma categórica de se afirmar que Moisés e Elias já disseram o que tinham para dizer. Eles foram apenas servos a comunicar uma aliança entre um Senhor e seus servos. A atuação de Jesus é diferente: é o Filho de Deus, que comunica uma Aliança entre Pai e filhos.  Por isso, à comunidade cristã, só interessa ouvir o Evangelho do Cristo. A nuvem os envolve, indicativo de que os discípulos foram acolhidos por Deus, que fala de Jesus como seu Filho querido. O bem-querer do Pai pelo Filho, portanto, alarga-se a ponto de abarcar, acolher e abraçar os discípulos e toda a humanidade.

A experiência divina acaba, e os discípulos são, novamente, colocados na realidade. Os reabilita ao tocar neles para que se levantassem, no v.17. O seu gesto foi o mesmo utilizado para restituir a saúde aos enfermos e a vida aos mortos (Mt 8,3.15), e lhes dá força para levantar e assumir a missão que virá. O toque de Jesus, que é a sua própria palavra, levanta e transforma a comunidade dos discípulos: “Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus” (v. 8). Moisés e Elias desapareceram para que as atenções dos discípulos se voltem somente para Jesus, o centro da vida e da comunidade que já não precisa mais dos antepassados. Já não sai mais nenhuma voz de Deus das nuvens, porque quem vê Jesus, vê o Pai (cf. Jo 14,9) e, portanto, quem escuta o Filho, escuta-O também. Não vendo mais ninguém como referencial além de Jesus, a comunidade renovada é convidada a descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz.

Só pode assimilar e viver uma vida transfigurada, aquele discípulo que se propõe a subir a montanha com Jesus e ouvir sua voz, ou seja, referenciar sua vida à vida mesma de Jesus, a qual supera a Lei (Moisés) e a Profecia (Elias), levando-as à sua plena realização. Assim, viverão uma vida verdadeiramente transfigurada, que outra coisa não é senão viver a vida do Filho de Deus. Peçamos a Graça de transfigurar-nos como o Senhor, e a força de recusar toda a desfiguração que as estruturas e projetos contrários ao Reino oferecem.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO PARA O I DOMINGO DA QUARESMA – Mt 4,1-11:

 


A liturgia do primeiro domingo da quaresma propõe a meditação do quarto capítulo do evangelho de Mateus, o qual apresenta a narrativa das tentações sofridas por Jesus. Para bem compreendê-las se faz necessário situa-las no horizonte da catequese evangélica, como também entender o sentido existencial delas para Jesus e para o discípulo que a Ele deseja configurar a vida.

No capítulo terceiro, o evangelista apresenta a narrativa do batismo do Senhor, o ponto de partida para a sua missão. Em seguida, o Espírito, que havia inundado a Sua vida e realizado Sua investidura para a missão messiânica, O leva para o deserto. Com efeito, a narrativa do batismo do Senhor (3,1-13) estabelece uma relação com o evento fundante de Israel enquanto povo: a travessia do Mar, por ocasião da fuga do Egito e do Faraó. Assim, como Israel passou pelas águas, Jesus refaz o mesmo caminho de seu povo, passando pelo batismo. Mas a história do povo também foi marcada pelas constantes infidelidades e rupturas com a Aliança. Por isso, Mateus, ao narrara as tentações deseja mostrar que elas estarão presentes constantemente na vida do Cristo, assim como estiveram presentes na vida e na história dos hebreus. Com uma diferença significativa: Jesus permanece fiel do inicio ao fim de sua vida, obra e missão, para mostrar que é possível permanecer na comunhão com o querer de Deus. Nesse sentido, Ele é o modelo da humanidade fiel à Deus.

Importante compreender a intenção catequética do evangelista, a qual se revela também uma bonita composição literária. Ora, a comunidade de Mateus é corpus mixtum, ou seja composta por judeu-cristãos. Por isso, as tradições religiosas e históricas de Israel lhes são muito apreciadas e servirão de pano de fundo para que ele possa narrar a vida e obra Jesus de Nazaré para os iniciados na fé, em sua comunidade. Imagens e lugares como deserto, travessia/êxodo, mar, lei, os números (gematria), personagens como Moisés, Davi, Elias e os demais profetas sempre serão trazidos para a catequese evangélica. E o leitor-ouvinte deverá sempre estar familiarizado com esses temas, de modo a facilitar a compreensão do texto.

O evangelista inicia o capítulo quatro informando ao leitor que “Jesus foi conduzido ao Deserto pelo Espírito (1a)”. Se no capítulo 3 Jesus em seu batismo revive a experiência do povo de Israel ao passar pelas águas, Mateus quer ensinar para sua comunidade que a experiência do povo no deserto, é igualmente vivida pelo Senhor. Jesus, no deserto reviveu o êxodo de seu povo. Antes, e fundamentalmente, viveu o êxodo de si, a saída/ruptura de tudo aquilo que lhe poderia dificultar a caminhada e a missão. No sentido de sair e desorbitar-se do que poderia se tornar um caminho oposto ao querer do Pai.

A narrativa se dá no deserto. Na tradição bíblica, como muito já refletimos, mas é sempre bom fazer memória, o deserto é o lugar apropriado de se fazer a experiência de Deus. É o lugar, por um lado, do estabelecimento da Aliança entre YHWH e o povo (Ex 19 – 21). Mas, por outro lado, lugar de seu restabelecimento, porque fora rompida pelo povo (Os 2,16). É lugar de retorno. Mas, também de prova e de sofrimento. Por isso, na ambivalência do deserto (lugar teológico, mais do que geográfico) o ser humano pode fazer a experiência de Deus.

O número 40 é simbólico. Evoca a vida a experiência de sofrimento do povo de Israel no deserto. Ser tentado por quarenta dias alude para a situação de uma tentação constante e cotidiana. O verbo utilizado pelo evangelista peiráso (gr. πειράζω) pode ser aplicado para duas situações: aplicado à Deus, tem o sentido de prova/provação que Ele realiza com os seus. É atitude de submeter à prova a fidelidade do justo. Portanto, uma ação sempre benevolente e pedagógica em relação ao ser humano. Nesse sentido, possui caráter positivo e instrutivo. Neste processo, em nenhum momento se colocará em jogo ou em risco a integridade da pessoa/discípulo, ou mesmo sua salvação. Tampouco terá caráter punitivo. Consiste em revelar o positivo que o discípulo traz em si, e que ainda era desconhecido, como também revelar seus limites, e diante disso, invocar a Graça de Desus. Quando aplicado a Satanás terá sempre a conotação de artifício, sedução, ou distração que visam romper a relação com Deus. Colocando a pessoa, inclusive, na contramão do projeto do Reino, provocando a ruptura com Deus. Aqui, o ser humano se encontra diante da possível desfiguração de sua imagem de filho de Deus. As tentações, no caso de Jesus, são apresentadas pelo inimigo, e não vem da parte do Pai.

Se faz necessário compreender a figura de Satanás/Diabo. Sempre, na teologia bíblica e na Tradição da Fé deve se compreender esta figura como “aquele” que se opõe (opositor) ao projeto de Deus, e que causa divisão (divisor). O diabo, nesta narrativa, tem a intenção de dividir e contrapor Jesus em relação ao Pai. Procuremos progressivamente eliminar de nosso imaginário aquela figura horrorosa de chifre e cara feia, com um tridente na mão. Isso não é cristão. Aliás, a bíblia nunca se preocupou em descrever dessa forma aquele que faz frente aos projetos de Deus. Não é na feiura e no grotesco que ele se apresenta. Pelo contrário, são nas “boas aparências” que ele desempenha seu papel. Até porque, personagens muito humanos desempenharam no decorrer das narrativas bíblicas (e nas grandes narrativas da história, não nos esqueçamos) a função de opositor em relação à Deus.  Em outra oportunidade abordaremos mais a fundo esta questão. Para a compreensão deste texto, o que dissemos já é suficiente.

No v.2, Mateus nos informa que Jesus jejuou durante os 40 dias de permanência no deserto. O jejum deve ser visto muito além de uma simples privação ou prática exteriores. Praticado pelo Senhor adquire um sentido elevado: a capacidade da descentralização ou o desorbitamento de si mesmo: a experiência de desreferenciar-se (tirar a referência de si) para referenciar-se em Deus e seu projeto. A primeira etapa de seu êxodo pessoal. Nesse sentido o Jejuar significa dizer não a toda possibilidade de posse, de acúmulo, de poder, que tendem a tomar o lugar de Deus na vida do homem, fazendo-o centrar-se em si. O Jejum deve abrir-nos para o outro, em atitude de solidariedade humanizadora. Desapoderar a si mesmo para promover e humanizar o outro que nada tem ou tem pouco. E, de nada adianta jejuar se a carne do irmão é devorada até mesmo pelo meu acúmulo. Abstenho-me, mas não reparto.

Agora sim, analisemos as tentações. A primeira tentação sofrida por Ele é a da fome. "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!" (v.3). Ela começa com uma dúvida semeada pelo sedutor na consciência de Jesus. “Se és Filho de Deus..” Não se trada de uma desconfiança acerca de Sua identidade. É, antes, uma confirmação. O acento desta frase deve cair na forma como o Senhor viverá a sua condição de Filho. Não se pode esquecer que, para o povo do tempo de Jesus, a filiação não se enquadrava somente na questão biológica/sanguínea. O filho era reconhecido como tal a partir das atitudes semelhantes a de seu pai, isto é, ao imitar as ações de seu genitor. Dito de outra forma, só se poderia identificar alguém como filho de uma pessoa, se este agisse tal e qual seu o pai. A grande dúvida que Satanás deseja semear no coração de Jesus é a seguinte: a sua atitude corresponderia ao agir de Deus? O contrário é verdadeiro: o Pai agiria da mesma forma que o Cristo? Esta pergunta é importante porque a primeira tentação é a do poder espetacular, do messianismo glorioso e exibicionista. Satanás O tenta a transformar a pedra em pão. Ou seja, a sedução para usar em benefício próprio o poder recebido do Pai, visando ter só para si. Ele é tentado a orbitar e curvar-se em si. A fechar-se sobre o dom de si.

A esta tentação Jesus responde: “Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (v.4). O homem deve centrar-se sobre a Palavra de Deus – ou seja, Deus mesmo. Ele se põe a reinterpretar Dt 8,3.  Ele refuta a tentação do materialismo crasso, onde as pessoas centram seus corações nos bens deste mundo, na posse desordenada, no acúmulo e na retenção, e se descuidam da justiça e do amor. A tentação do ter. Se Ele caísse nessa tentação negaria o projeto do Pai que exigia dele caminhar na pobreza, no desapego as coisas, rejeitando a lógica da posse. A resposta que ele oferece é a de colocar a vida unicamente nas mãos do Pai.

A segunda tentação aparece no v.5. Ato continuo, o Diabo leva Jesus para Jerusalém, até a parte alta do templo. “Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: "Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: 'Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra” (v.5-6). Mateus cita o Sl 91. Esta tentação sofrida faz recordar ao discípulo o quanto o povo de Israel assumiu esta postura em relação a Deus em todo o AT. A intenção do tentador é clara, a de induzir a Jesus a pensar que o Pai pode fazer milagres extraordinários para salvar seus filhos. “Se existe um Deus que é Pai, então que ele realize o milagre que de necessito!” “Que este Deus que chamo de Pai realize o extraordinário gesto de seu poder em meu favor!”. Nesta sedução se faz ver o modo equivocado da relação com Deus: a necessidade do prova de seu Amor, a necessidade do milagre a todo custo. A ideia subjacente é esta: não confiar mais em Deus, se ele não dá as provas de seu amor.

O senhor, pelo contrário, não entra nessa lógica. Jesus lhe respondeu: "Também está escrito: 'Não tentarás o Senhor teu Deus!" (v.7). Ele rebate o tentador citando Dt 6,16, onde se afirma: "Não tentem o Senhor, seu Deus, como vocês o tentaram em Massa". Ele refaz e reescreve a história de Israel a partir de sua vida centrada e orbitada em Deus, de sua fidelidade ao projeto do Pai. Em relação a esta tentação, existe outro ensinamento nas palavras do Senhor que Mateus faz questão de recordar para sua comunidade: é o convite a uma fé pura, a qual não necessita de milagres. Também colocar limite à ideia de que se podem fazer coisas levianas ou irresponsáveis no nível de nossa vida ou em relação aos outros e depois clamar “Deus me acuda”; eliminar aquele pensamento comum, “faço meus cinquenta por cento, e Deus faz o Dele”. Isso é errado. É o mesmo que conceber um Deus a altura de nossas irresponsabilidades; um deus “bombeiro”.  A resposta de Jesus é um freio a essa inconsequência, porque para segui-lo se faz necessário ir após ele, tomar a cruz: ou seja, medir as responsabilidade e consequências para que não ocorram arrependimentos ou frustrações.

A terceira tentação nos é mostrada no v.8: “Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, e lhe disse: "Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar". Jesus lhe disse: "Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: 'Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto” (v.8-10). Note-se que a narrativa apresentada por Mateus se desenvolve num “creccendo”, isto é, as tentações, uma mais elevada que a outra, colocam o Cristo cada vez mais próximo de tomar o lugar do Pai, tornando-se independente dele, como os primeiros pais no paraíso (Gn 3,5). A tentação da idolatria.

O diabo diz que tudo será de Jesus se ele se prostrar em adoração. O tentador tem a pretensão de ser a origem de tudo, inclusive do poder do Filho, quando este, em sua consciência, sabe que tudo recebeu das mãos do Pai (Mt 28,13). No v.10 o Senhor dá um basta às investidas do tentador, ordenando-o que se afaste. Jesus cita a Lei: somente a Deus devemos adorar e prestar culto (Dt 6,13). A tentação da idolatria foi uma constante na vida do povo de Israel, tanto no deserto, quanto já instalado na terra. Ela foi a causa da ruína do povo. Também teria sido a causa da ruína de Jesus. Porém, o Seu coração está totalmente enraizado no Pai. Sua consciência e sua vida estão num êxodo em direção ao Pai e ao projeto do Reino.

As tentações de Jesus foram, e sempre serão as tentações dos discípulos de ontem, de hoje e de todos os tempos e lugares. Mateus quer ensinar para sua comunidade que se o mestre foi tentado durante sua vida, igualmente acontecerá na vida do discípulo. Na vida de Jesus, e posteriormente, no itinerário catequético de Mateus, as tentações sofridas, em última análise, pretendiam convence-lo de realizar sua tarefa messiânica fugindo da consequência da sua fidelidade, a cruz. Ele foi continuamente seduzido a abusar de sua condição de filho de Deus. Porém, Sua atitude foi de firme resistência, tornando-se, assim, um modelo para a comunidade cristã, tentada por toda espécie de falsos messianismos.

Hoje, quais seriam os falsos messianismos relacionados à Jesus e aos discípulos? O messianismo glorioso, da ruptura/cisão diabólica com o projeto do Pai; da autossuficiência e autorreferência; da lógica do poder a qualquer custo; da dominação do outro e de sua consciência, seja através da violência e da força, seja mediante o entorpecimento religioso. É isso que a personagem Satanás coloca diante dos olhos do homem Jesus.

Por isso, o texto que temos para a nossa meditação não quer mostrar uma situação pontual da vida do Senhor, mas que o acompanhará durante toda a sua vida e ministério. Tampouco apresentar respostas prontas e moralismos diante das seduções do tentador, e sim ensinar que Jesus se torna o modelo do ser humano fiel, que venceu as tentações em sua vida, e que aponta o caminho para a comunidade cristã superar as ilusões das tentações: tendo o projeto do Pai diante dos olhos, o pão da Palavra, a consciência da missão e da vida.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.