sábado, 16 de maio de 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – Mt 28, 16-20:

 


A liturgia da Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor. Qual o significado desta solenidade para este grande e único domingo que é o tempo da páscoa? Confessar e professar que o Senhor ressuscitado, ao retornar para o âmbito (esfera e mundo) de Deus leva consigo a natureza humana. Jesus não volta sozinho para o Pai, mas leva a nossa humanidade com Ele e a reorienta para seu fim último e definitivo: a vida divina.

A perícope que solenidade da Ascensão nos apresenta é a conclusão do Evangelho segundo Mateus. O contexto amplo é o da experiência da comunidade dos discípulos com o Senhor Ressuscitado. O contexto imediato é o do discurso de comissionamento/envio, ou seja, realizar o que ele já havia feito (Mt 10, discurso missionário). Não se trata de um discurso de despedida, porque Ele não se vai, mas permanece com os seus. Apenas uma advertência acerca deste texto. Para compreendê-lo, se faz necessário lançar um olhar para toda a catequese mateana. O Primeiro Evangelho tem por finalidade “fazer discípulos-missionários todos os povos”. Mas para que o discípulo possa vivenciar a missão, ao final do Evangelho, deverá percorrer o caminho trilhado pelo Mestre. E não poderá furtar-se ao fato de que este é perpassado pela dinâmica da Cruz. O discípulo só poderá assumir a missão depois de percorrer a vida de Jesus e tê-la como seu modelo.

“Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v.16). Uma constatação importante: doze representava o novo Israel reunido através do chamado feito aos discípulos. Na simbologia do AT, o número aludia ao Povo de Israel. Nesta narrativa, o evangelista informa que são somente onze, significa que o antigo Israel não foi reconstituído ainda e, portanto, a mensagem de Jesus se torna universal. Destina-se para toda a humanidade. A comunidade está incompleta. Ao mostrar a comunidade neste estado, o evangelista não se envergonha revela-la fragmentada, imperfeita. É com essa comunidade imperfeita e incompleta que o Ressuscitado deseja contar. São estes homens e mulheres imperfeitos que Ele espera.

O indicativo da Galileia, mencionada por três vezes somente neste relato pascal, representa a ruptura com Jerusalém. Jesus não se manifesta ressuscitado na cidade santa, mas lá no lugar onde tudo começou. Uma oportunidade de releitura, ressignificação da vida e da história, e de retorno à experiência fontal com Deus através da vida do Filho muito amado.

Na Galileia o Senhor começou seu ministério. Boa parte de Sua vida se deu ao redor daquele lago. Ali, os discípulos fizeram a primeira experiência com Ele. Na cena do anúncio da Ressurreição às mulheres, o mensageiro celestial, no começo do capítulo dissera que o Ressuscitado esperava por eles lá. É uma forma que o evangelista tem para dizer à sua comunidade que, para se fazer a experiência com o Vivente, se fará necessário sempre revisitar, fazer memória, atualizar aquele primeiro encontro com o amor do Senhor.

Mateus informa que o lugar onde os discípulos se encontram com Jesus é “o monte”, na região da Galileia (v.16). Interessante, ele usa o artigo definido “o” para indicar que não é qualquer um. Contudo, Jesus não havia indicado nenhum monte. Por que Mateus faz isto? Em primeiro lugar, a informação não tem significado geográfico, mas teológico. É importante recordar que, na teologia bíblica, a montanha/o monte é um lugar para se fazer experiência com Deus. Local da manifestação (teofania) de YHWH. Por exemplo, a Lei foi dada a Moisés na montanha do Sinai.

“O monte”, neste evangelho, deve recordar aos discípulos o lugar das bem-aventuranças, onde Jesus inaugurou sua mensagem de salvação. Recorde-se que a versão mateana das bem-aventuranças compreende oito ditos de Jesus. O número oito é o número da ressurreição do Senhor. O evangelista pretende ensinar que só será possível experimentar a Jesus Ressuscitado e o dinamismo de Sua vida plena se o discípulo, novamente, situar-se sobre o monte das bem-aventuranças, e assumir em suas vidas o ensinamento nelas contido.

O autor informa que, ao verem o Senhor, os discípulos se prostraram. Aqui, o verbo ver não indica uma capacidade física e biológica que o termo grego Blepo (gr. Βλέπω) alude, mas “ver” como sendo uma experiência que se dá desde a profundidade do coração do homem. É a atitude do “ver” relacionado à Fé, por isso o emprego do verbo Orao (gr. ὁράω). Por isso, Mateus informa o gesto da prostração (gr. προσκυνέω/proskinêo). Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus.

O v.17 informa que alguns duvidavam. Não de que Jesus tenha ressuscitado, pois o veem. Nem que Ele esteja na condição divina, uma vez que se prostram. Compreendamos: o evangelista usou o verbo “duvidar” (gr. διστάζω) somente uma vez, na narrativa da caminhada sobre as águas, na qual Pedro pede-Lhe para ir ao encontro, isto é, obter a condição divina. Naquela ocasião Jesus consente, mas no decorrer do caminho, o discípulo sucumbe e começa a afundar ao se dar conta das dificuldades. Pensava ele que a condição divina seria um dom concedido por Deus, ignorando as dificuldades que passaria.  Jesus o reprovou, chamando a Pedro de homem de pouca fé. E o questionava: “Por que duvidastes?”.

A dúvida que o evangelista menciona toca a consciência dos discípulos, porque agora eles sabem por quais dificuldades passou Jesus (a morte infame como desprezado e amaldiçoado, suspenso na cruz) e, por isso, duvidam se serão capazes de viver e levar a missão até o fim. Eis, porque duvidam.

A dúvida não faz mal à comunidade. Podemos dizer que o Jesus mateano apresenta uma característica necessária para a sua comunidade: para a solidez da fé, a dúvida se faz necessária, pois o seu antídoto não é a certeza, mas a procura, a busca por uma vida carregada de sentido. Portanto, quanto mais se duvida, mais necessidade se tem de buscar o sentido para a vida. Podemos dizer que a dúvida e a fé são companheiras inseparáveis na vida da comunidade, porque impulsionam para a capacidade de amar.

Jesus, então, diz-lhes: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”. Aqui, o evangelista faz eco a Daniel, que retrata a personagem “Filho do Homem”, o qual recebeu de Deus todo o poder no céu e na terra. Mas o poder/autoridade que Jesus recebe não é para servir-se a si mesmo, mas para colocar-se à serviço de todos. E ao interior da comunidade de Mateus, a autoridade é a de Jesus, e não mais a lei de Moisés.

Jesus continua: “ide e fazei discípulos meus todos os povos”. O evangelista utiliza o verbo "ir" no imperativo: “Ide”. É um verbo de movimento. Ou seja, coloca o discípulo e a comunidade em movimento. Será a partir deste dinamismo que se poderá fazer a experiência da Ressurreição de Jesus na vida, e transmiti-la às pessoas. Não se faz experiência de vida quem fica parado. Pelo contrário, só saboreará a morte.

“Fazer discípulos”, significa transmitir a todos (sem excessão) o novo modo de viver e de relacionar-se com Deus, através do modo de vida de Jesus. O discípulo não aprende somente teorias de seu mestre. Mas o sentido e a forma da vida que ele vive. Por isso, fazer discípulos é muito mais do que ensinar doutrina; antes, testemunhar, existencialmente, o sentido da vida do Senhor. Ensinar os outros a viver a vida de Jesus!

Batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito”. O evangelista se serve do verbo Baptizo (gr. βαπτίζω) que significa essencialmente submergir, mergulhar. Ou seja, o discípulo-missionário é enviado para mergulhar as pessoas na vida mesma de Deus, em seu mistério de amor trinitário. O termo “Nome” indica a realidade e a identidade do ser. Com o sentido de Sua vida, Jesus quer inserir e envolver o seu discípulo no mistério de amor e de vida de Deus, a fim de que eles realizem o mesmo na vida das pessoas.

“ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v.20). O que Jesus havia ordenado aos discípulos? A forma nova de se viver a relação com o Deus que ele chamou de Pai: as bem-aventuranças, que se tornaram a plenitude de sentido com a qual o o ser humano experimentará a Palavra de Deus e se relacionará com ela. Através desta nova rede de pesca [As bem-aventuranças], cooperar com a missão de “pescar homens”. Ou seja, tirá-los da morte (simbolizada pela água), das situações nocivas, para colocá-los na vida, mergulhando-os em Deus mesmo e na plenitude de Seu amor.

“Estarei convosco todos os dias até que o tempo esteja pleno”(v.20). O evangelista pretende, com as últimas palavras de Jesus, indicar uma qualidade da presença do Senhor, e não indicar um período cronológico ou determinado da presença. Na perspectiva de Mateus, o Cristo assegura à sua comunidade que, na medida que ela viver as bem-aventuranças, fazendo experiência de Deus como fonte de vida e de Amor, a Sua presença será garantida. O autor bíblico conclui sua catequese assumindo, novamente, o tema do Emanuel abraçado por Jesus, que, através do dom de Sua existência e missão, revela Deus presente à humanidade, caminhando com ela.

Em Jesus, o Vivente, e agora entronizado junto do Pai, Deus está conosco, e nós, em Deus.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 2 de maio de 2026

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 14,1-12:

 


O quinto domingo da páscoa nos insere no horizonte do capítulo catorze do Evangelho segundo João. Os primeiros doze versículos são lidos neste tempo pascal a partir, agora, da experiência da ressurreição de Jesus, embora esteja o texto inserido na segunda parte do Quarto Evangelho, o livro da glória. Nesta seção literária, de Jo 13-17, se encontra o testamento do Senhor.

Um testamento é a plenitude de todos os bens que uma pessoa deixa para aqueles a quem muito se ama. Qual o conteúdo deste, que Jesus entrega aos seus discípulos? O mandamento do amor, ilustrado através do gesto de lavar os pés dos discípulos, e a sua própria vida. Mas qual o sentido da leitura desta seção do Quarto Evangelho? No âmbito da vida das primeiras comunidades, responder a demanda existencial dos discípulos, preocupados em como viver a missão e a vida sem a presença física do Senhor. Transcendendo o tempo das primeiras testemunhas oculares, a liturgia, como pedagoga, deseja mostrar e ensinar ao discípulo de todos os tempos e lugares o modo através do qual se poderá fazer a experiência com Jesus, o vivente, e, assim, continuar sua existência, vida e missão em meio a esta realidade. Como o discípulo deverá viver, agora, sem a presença física de Jesus, o dom de Sua vida ressuscitada na própria existência, dotando-a de força de sentido e de plenitude. Com esta contextualização já se pode mergulhar no mar do texto.

O capítulo catorze inicia-se com Jesus encorajando os seus discípulos: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (v.1). É importante recordar que a cena se desenvolve no contexto da última ceia. Jesus já lavou os pés deles. Um gesto desconcertante para o grupo. Talvez haja desconforto. E, ao final do capítulo, acrescentou a informação de que seria entregue nas mãos dos chefes religiosos do povo por alguém do grupo, fazendo o coração de Jesus se perturbar igualmente. Estes motivos fazem perturbar os corações dos Doze. O evangelista aplica o verbo tarasso (gr. ταράσσω). É um verbo utilizado para descrever o mar quando está agitado, revolto. Deseja, portanto, ilustrar o estado de ânimo de Jesus e dos discípulos. E aqui, uma beleza narrativa e existencial emerge: o Cristo não tem medo de mostrar-se em sua fragilidade humana. Ele sente com os discípulos as mesmas angústias. Todavia, a atitude de Jesus é oposta às dos discípulos. Ele, mesmo diante da “agitação/perturbação”, como que um mar revolto, não deixa de se ancorar confiante no Pai. Já os discípulos, diante do balanço que sentem em suas vidas pela ausência iminente do Mestre, manifestam incompreensão e resistência diante das atitudes e das palavras Dele. Por isso, os convida novamente a uma atitude: refazer a opção por Deus (“tendes fé em Deus”) e por Ele (“tende fé em mim também”), pois a fé é, e sempre será uma relação em resposta a ser vivida com Deus e Jesus.

Jesus continua: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (v.2-3). João conseguiu captar bem os ditos do Senhor, e agora os transmite para a sua comunidade. O evangelista trabalha com o tema da “morada/habitação” em seu evangelho. É um tema que já apareceu no prólogo, em 1,14 (“o verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”). O termo casa (gr. οἰκίᾳ/oikia) é muito significativo, pois ele alude à plenitude de vida que se encontra ao interno de um lar. Por isso “casa” não está aludindo a uma edificação de alvenaria, mas à realidade de vida plena e de amor representada pela imagem do lar que o Pai é. O termo “casa” varia para “morada”, no mesmo versículo, que, agora sim, assume sentido da habitação. Não é por acaso. Na perspectiva do evangelista, Deus constrói sua morada, sua habitação, em Jesus. Ele é e será o novo e definitivo Lugar de Deus. Através Dele, o Pai agirá e falará. Com isso, todos os sistemas e projetos antigos, a lei de Moisés, as práticas exteriores rituais encontram-se superadas e substituídas em Jesus, sobretudo o Templo de Jerusalém, considerado pelo judeu piedoso a morada de YHWH.

O lugar que o Senhor prepara é a vida divina, que se despontará no mistério da Sua entrega na cruz. Isso é que o discípulo precisará se esforçar para compreender. A vida de Jesus apresenta e oferece a vida mesma de Deus e, aquele que a acolhe torna-se morada de Jesus. “Está” em Jesus e no Pai.

“E para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (v.4). Evidentemente, esse dito só pode ser compreendido à luz do capítulo anterior. O caminho que Jesus deu a conhecer foi o do lavar os pés. O discípulo que reconhece este caminho que Mestre aponta, como seu próprio, transforma sua existência em habitação/morada do Pai e Dele, e, portanto, de seu amor.

O discípulo que sente dificuldades em acolher o sentido da vida e missão de Jesus apresenta ainda resistência. São simbolizados por Tomé e por Filipe. O primeiro manifesta sua dificuldade de compreensão: "Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" (v.5) Com uma fina ironia, João mostra para seu fiel-leitor que os discípulos sabem, sim, qual é o caminho do Senhor. O problema é que eles não querem aceita-lo como modo de se viver a vida. Este é o equívoco e a resistência que o discípulo não pode ter.

Jesus faz, então, uma declaração em forma de revelação: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v.6). Através do nome divino “Eu sou”, habitualmente utilizado por ele para revelar que Deus se faz presente em sua existência, ele se declara “o Caminho”. Na tradição religiosa de Israel, a Lei/Torá era considerada “o Caminho” através do qual o povo seria conduzido ao amor-fiel (verdade) de Deus, fonte e plenitude da vida divina. Mas, durante a sua história, o povo de Israel foi atrofiando esta mentalidade, a ponto de transformá-la em lei de Moisés, com suas 613 prescrições e proibições, tirando dela o Espírito e a Vida, restando apenas a letra. Esta, só poderá gerar morte e uma experiência equivocada com Deus.

Na intenção de João, Jesus, ao se proclamar “o Caminho”, está se revelando aos discípulos de todos os tempos e lugares como a superação do caminho antigo. O Senhor é o Caminho, porque toda a sua existência e obra revelam o novo caminho. Assim, o discípulo que assume a vida do Mestre para si, pauta a vida e as ações a partir Dele. O  Jesus joanino revela-se também como a verdade, e, conforme dito anteriormente, esta palavra deve ser entendida a partir de seu original hebraico, Hesed/emet: amor fiel ou amor e fidelidade.

Aquele que adere à existência e à obra de Jesus como “o Caminho” definitivo e pleno através do qual Deus se revela, e faz dele o seu sentido de caminhar, consegue reconhecer o Senhor como a expressão do amor-fiel (verdade) do Pai e se encaminha para o encontro com uma plenitude de sentido, a vida. E não é qualquer vida, mas a vida do âmbito de Deus, por isso o evangelista emprega o termo ζωή/Dzoé, uma vida abundante, carregada de força de sentido, e, por isso, indestrutível, ainda que passe pela morte.

Jesus, no v.12 faz uma nova afirmação: “Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai”. Com uma declaração solene (“amém, amém”) o Senhor transmite, então, o sentido de uma vida que se tornou morada do Pai e Dele: realizar suas mesmas obras. Ser, portanto, sinal da presença do Senhor nesta realidade, vivendo Sua missão.

Que o Senhor nos ajude a transformar a vida em Sua permanente morada, expressão de amor e de vida do Pai e Dele, e a realizar a Sua Obra: manifestar o Seu amor-fiel e Sua vida.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP. 


sábado, 25 de abril de 2026

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10,1-10:


 

A liturgia deste quarto domingo da páscoa apresenta sempre a temática do Bom Pastor aplicada a Jesus. O texto evangélico é tomado do capítulo décimo do Evangelho segundo João, variando os versículos deste capítulo. Para o ciclo litúrgico A, o qual a Igreja este ano vivencia, os versículos propostos são os iniciais, de 1-10. Mas, qual a função deste capítulo para a catequese do tempo pascal? A de ensinar o discípulo a passar pela porta da vida que é Jesus ressuscitado, deixando para trás os recintos de morte. Ouvir a palavra do pastor Ressuscitado a fim de ter a vida plena, e, com Ele conduzir para fora dos lugares de morte todos aqueles que se encontram presos nestas circunstâncias. Para melhor compreender a mensagem evangélica deste domingo pascal, se faz necessário algumas constatações.

O contexto amplo do texto precisa ser levado em consideração. O capítulo décimo, que apresenta a alegoria do pastor e o discurso de Jesus acerca do pastor ideal é precedido pelo capítulo nono. Se poderia pensar e facilmente afirmar que o tema do pastoreio-rebanho-pastor emerge no Quarto Evangelho precisamente em virtude do sinal realizado pelo Senhor no capítulo precedente, a cura do cego de nascença. Estes acontecimentos narrados em Jo 9 – 10 possuem como pano de fundo a festa das cabanas, uma das grandes festas de peregrinação do povo de Israel, na qual se fazia a memória do tempo em que o povo não havia conquistado a terra, vivendo em tendas. Após a dominação dos Selêucidas, no período dos Macabeus (1Mc 4), o templo destruído foi recuperado e dedicado. Por isso, à festa das tendas foi associada a da dedicação do templo. Importante: nestas festas solenes de peregrinação, o povo esperava a manifestação pública do Messias. É devido a este contexto de festa religiosa que Jesus se encontra na cidade santa, e faz lá suas declarações mais bombásticas: declara-se como Luz do mundo e Bom Pastor.

O Sinal em Jo 9 consiste na revelação do Senhor como sendo o enviado (hbr. siloé) para trazer a Luz para o mundo. O cego de nascença se torna metáfora para as lideranças do povo, cegadas pelo poder, que recusam conscientemente ver a Luz de Deus que se manifestava em Jesus de Nazaré. O capítulo décimo surge, então, como resposta e advertência à postura destas lideranças judaicas. Ao invés de cuidar, acolher, promover-lhes a vida e a dignidade, acabavam expulsando de seu meio as pessoas simples do povo; aqueles que lhes representavam alguma ameaça (entre estes, os seguidores do Nazareno), ou, porque, simplesmente viviam fora de seus “padrões”, como o ex-cego. Sabendo disso, Jesus vai ao seu encontro (Jo 9,35-37), e o discurso acerca do Bom Pastor é desencadeado. O Senhor se apresentará, portanto, como contraponto às lideranças religiosas do povo, que deveriam pastorear, tarefa que não estavam cumprindo, segundo o coração de Deus, o pastor supremo de Israel.

O tema do pastoreio era muito presente na vida do povo de Israel. É importante, primeiramente, saber que o rebanho/ovelha foi um símbolo aplicado ao povo de Israel. Já a imagem do pastor era atribuída ao próprio Deus. Mas, no decorrer da história do povo, foi deslocada para as lideranças do povo: os reis e sacerdotes. Após estas constatações, o texto pode ser meditado. Por isso, João utiliza como pano de fundo para redigir seu relato o texto do profeta Ezequiel, no capítulo 34, onde o profeta denuncia os maus pastores de Israel, os quais apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2). De acordo com o profeta, Deus tomaria a iniciativa de destituir os maus pastores e cuidaria, ele mesmo, do rebanho (cf. Ez 34,11). Com base nestas contextualizações, podemos tomar o texto nas mãos.

“Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas” (vv.1-2). João inicia o discurso com um solene “Em verdade, em verdade”, literalmente, “amém, amém”, que significa que “o que será dito é verdadeiro, é seguro; te digo com firmeza”. O autor quer mostrar que as palavras que se seguirão serão um  ensinamentos importante, e, que, por isso, devem estar atentos. Qual é o conteúdo desta declaração? “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas”. Estas palavras são direcionadas aos fariseus, aos líderes do povo, os quais não exerciam esta função corretamente.

O evangelista usa o termo recinto (gr. αὐλή/aulé) – e não redil ou rebanho, como a tradução litúrgica sugere. Com “aulé/recinto”, ele se refere ao átrio do templo, o pátio onde se situava a casa dos sumos sacerdotes. Na perspectiva de João, o Senhor, mesmo estando no ambiente religioso judaico deseja, na verdade colocar-se como alternativa àquele recinto, isto é, ao Templo e a todo o sistema religioso, que já não eram capazes de colocar a pessoa na relação com Deus. E apontar para a superação de todo esse sistema de escravidão, opressão, domínio e morte em que a religião de Israel havia se transformado.

O evangelista pretende ensinar aos seus que as instituições religiosas do judaísmo são superadas e substituídas pelo dom da vida Jesus, o qual será o novo lugar, o pasto seguro e viçoso em que o homem encontrará vida e poderá se relacionar com Deus. Serão com os recintos/espaços de morte que o discípulo deverá romper!

A leitura e compreensão deste versículo não podem ser moralizantes, ou seja, viciar o entendimento desta passagem no aspecto do pecado, subentendido como recinto de morte. Para muito além o texto deve direcionar o olhar do leitor/ouvinte do evangelho. Ou melhor, muito para dentro! Isto é, para a experiência religiosa equivocada. O recinto mais perigoso do qual o discípulo deve sair é o daquela religiosidade que transmite e ensina uma imagem errada acerca de Deus e da vida de Fé. Não há recinto mais diabólico do que aquele que promove, inculca, forja e formata na pessoa humana uma experiência de Deus que oprime, que subjuga e que mata. Será deste recinto que Jesus, como pastor, conduzirá para fora a suas ovelhas. Serão de lugares e contextos como estes que o discípulo deverá sempre sair, permitindo ser conduzido pelo Cristo.

“Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v.2-3). Por que as ovelhas escutam Sua voz? Reconhecem e encontram na voz e na pessoa do Senhor a resposta para os seus anseios de vida. É bonito notar o nível da relação que Jesus estabelece com os seus. Não é superficial. Para Ele ninguém é um número, e sim uma pessoa bem concreta. Tal nível de relação faz com que a ovelha-discípulo seja “conduzida para fora”. O verbo utilizado pelo evangelista é exagein (gr. εξαγει), o mesmo usado no livro do Êxodo para indicar a libertação Egito para a terra da liberdade e da vida nova. O discípulo, que rompe com os esquemas de morte (recinto/redil) é convidado a trilhar um caminho novo de libertação e vida.

“E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (v.4-5). Jesus, depois de as fazer sair não as aprisiona em outro recinto, mas as conduz para a plena liberdade. Uma característica toda peculiar deste pastor joanino é a de caminhar com suas ovelhas. Não as deixa solta, sem qualquer compromisso com elas, mas vai a frente, conduzindo e caminhando junto. No v. 5 (“Mas não seguem um estranho”), o mestre não faz uma constatação. Na verdade, ele dá um conselho. É necessário fugir daqueles que se apresentam como pretensos pastores, que, como se verá mais adiante, serão lobos disfarçados. As ovelhas só escutam e reconhecem a voz Daquele que as ama, e não dos que desfrutam e usufruem de suas vidas. Só pode ser verdadeiro e exemplar pastor aquele que dá a vida, e não quem a tira.

“Jesus contou-lhes essa parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer”. Qual o motivo da incompreensão dos fariseus? Resistência e não-pertencimento ao rebanho do Senhor. Antes, fazem-Lhe uma firme oposição. A incompreensão das parábolas de Jesus por parte dos discípulos ou dos chefes religiosos do povo não se deve a uma dificuldade intelectual. Mas à uma postura de resistência e oposição; uma mente e corações fechados e endurecidos. É impensável, para eles, reconhecer o erro e sair da zona de conforto, de domínio e de poder. No caso dos fariseus e saduceus, angariam seus próprios rebanhos para desfrutar aproveitarem-se deles.  

“Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas (gr. εγω ειμι η θυρα των προβατων)”. O evangelista usa uma formula de revelação, “Eu sou (εγω ειμι / Egô eimî)”, que alude à revelação de Deus no Êxodo, YHWH. A intenção de Jesus é de revelar aos seus discípulos a presença de Deus através de sua vida e existência. Já a do autor do Quarto Evangelho é a de revelar à sua comunidade a condição divina de Jesus e de que ele é  “a porta das ovelhas”. Ele se revela a porta através da qual as ovelhas devem passar, saindo do recinto da dominação e da impossibilidade de vida. Ao passar por Jesus tudo o que é antigo encontra-se superado. Ele não quer ninguém preso dentro das estruturas ultrapassadas.

“Eu sou a porta. Quem entrar por mim será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (v.9). Jesus declara-se, novamente, como a porta através da qual se adentra e se pode tomar parte do novo rebanho de Deus. O evangelista usa dois verbos, “entrar” e “sair” para enfatizar que o mestre não encerra – encarcera – suas ovelhas, mas as conduz para a liberdade. A porta, que é Jesus, não se encontra fechada. Somente pessoas maduras são livres. Por isso, é tarefa do pastor criar na ovelha/discípulo a maturidade. Esta, só pode crescer quando se cria a consciência no discípulo. Assim, a porta (que é Jesus) sempre estará aberta, indicando o caminho da liberdade. Este é o segundo critério do autêntico pastor.

Ora, somente seguindo ao Senhor se encontra plenitude de vida e liberdade, simbolizadas pela imagem da pastagem. O evangelista realiza um jogo de palavras com no original grego através do termo pastagem e lei. Ambas possuem o mesmo radical “nom”: nomén (gr.νομην) significa pasto, e Nômos (gr. νόμος), Lei. Em Jesus, o ser humano não se encontra com uma Lei a ser cumprida, mas com uma pastagem, ou seja, um alimento que dá vida.

Neste sentido é que Jesus declara: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (v.10). Trata-se de um convite de Jesus às pessoas para que tenham vida plena, ou seja, a emancipar-se das relações de poder e domínio, a libertarem-se dos pastores que impõem e obrigam, a deixarem os antigos recintos e ambientes de morte, contrários ao projeto de Deus, e que geram a experiência equivocada acerca de Deus. A fim de a acolherem o dom da vida plena e inextinguível que Ele, em Jesus, oferece incondicionalmente a todos que escutam sua voz.

Nesse sentido, o papel do verdadeiro pastor, de acordo com o evangelho de João não consistirá em carregar ninguém ao colo – símbolo da dependência, domínio, paternalismos infantilizadores, que não geram vida nem fazem crescer – mas apontar caminhos, conduzir (ir com) e caminhar junto (ou em meio) aos seus; fazê-los caminhar para a vida e para a liberdade, sem medo.

De quais recintos precisamos sair ou romper? Jesus aponta a pastagem, o alimento e o cuidado que só Ele dá; temos comido do alimento que ele nos oferece? Tenho ouvido a voz do Senhor, ou outras vozes dissonantes tem falado mais alto em minha vida? Nos caminhos da vida, Jesus está à frente e caminhando conosco, tenho ido após Ele, ou insisto em tomar-lhe o lugar? Permitamos que o Senhor nos conduza da morte para a vida, qual pastor conduz suas ovelhas, a fim de que possamos colaborar com Ele na missão de pastorear, isto é, apontar caminhos, trilhá-los juntos, criar e formar consciências, e oferecer vida plena aos irmãos.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.


sábado, 18 de abril de 2026

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DA PÁSCOA – Lc 24,13-35:

 


A liturgia deste Terceiro Domingo da Páscoa nos apresenta o relato conhecido por todos como os discípulos de Emaús. Lucas conserva os dados comuns a Marcos, Mateus e João, mas transmite a experiência com o ressuscitado a seu modo para a sua comunidade e para as gerações seguintes. O texto, na verdade, tem a função de apresentar um verdadeiro itinerário para o discípulo fazer a experiência da ressurreição e com o Ressuscitado. Mergulhemos na cena.

“Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém” (v.13). Lucas situa a cena ao redor dos acontecimentos do dia da ressurreição. Mas revela que a comunidade ainda encontra dificuldades para fazer a experiência com aquele evento. Prova disso são os dois discípulos, um de nome Cléofas, e outro, anônimo, que pertenciam ao grupo dos Doze, dirigindo-se para o povoado de Emaús.

Por que seguem para Emaús? Para responder a essa indagação, se faz necessário compreender a teologia da catequese lucana e os expedientes literários dos quais ele se serve para transmitir seu evangelho (e também o livro de Atos) para sua comunidade também em crise. O projeto teológico de Lucas revela como meta e centro da missão de Jesus a cidade de Jerusalém. Desde o capítulo nono, se narra a viagem do Senhor para a cidade santa. Lá Ele revelará a ação de Deus, através de sua entronização a partir da morte de Cruz e da ressurreição. O evangelista se apropria da profecia de Isaias, que “de Jerusalém vem a Palavra de Deus”, para ensinar à sua comunidade que a vida, missão e obra (paixão-morte-ressurreição) de Jesus se tornam Palavra a ser revelada e anunciada a partir de Jerusalém.

Os discípulos se deslocam em direção a Emaús, caminho oposto à Jerusalém. Caminham na contramão da vida e da missão de Jesus. O fato de irem para a direção contrária à do grupo revela que ficaram, de fato, desorientados após a morte do mestre. Eles não conseguem assumir como meta para si o sentido da vida de seu mestre. Emaús, significa, portanto, o estado de ânimo do discípulo e da comunidade: frustrados, fracassados, desolados e desorientados. Isso se deve ao fato de possuírem uma noção equivocada acerca da identidade de Jesus. Nutriam falsas esperanças em relação ao mestre. Almejavam a restauração de um reino terreno, e por isso, concebiam um messias triunfante, dominador, guerreiro, revolucionário. No entanto, se deparavam com um crucificado, que, sob hipótese alguma poderia ser o ungido, da descendência davídica, pois o messias não poderia morrer.

“Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles” (v.15). Aqui, o evangelista se apropria daquela imagem de Jesus, enquanto pastor ideal (pertencente ao Quarto Evangelho), que não abandona suas ovelhas. Antes, caminha com elas. “Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (v.16). Por que não conseguem reconhece-lo? Enquanto mirarem pelo retrovisor para um sepulcro, para a realidade da morte, não conseguirão fazer experiência da vida; a medida em que vivem de coisas sem sentido, de expectativas frustradas e cultuando decepções não conseguirão fazer experiência com o Vivente. Não se darão conta de que é o Senhor quem caminha com eles.  

Diante da pergunta do peregrino acerca do conteúdo da conversa deles durante a viagem, eles o colocam a par dos últimos acontecimentos. Note-se, eles não abandonam o adjetivo nazareno, o qual aludia a condição de revolucionário. Ainda se prendem a essa expectativa. Mas a incompreensão é tamanha quando identificam a Jesus como um profeta. Não entenderam absolutamente nada acerca da vida e da missão do Senhor. Passaram tanto tempo em sua companhia e só o que conseguiram (ou quiseram) absorver é que ele era um poderoso profeta em palavras e obras. Não conseguiram vem Nele a presença de Deus. Eles ainda relatam que as mulheres do grupo lhes deram um susto, ou seja, não bastou o testemunho delas.

A resposta de Jesus a eles soa como reprovação: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória? (vv.25-26). O verbo utilizado por Lucas, “dever/necessidade” precisa ser bem entendido: a necessidade deste sofrimento só pode ser compreendida diante da liberdade de Jesus ao assumi-lo, não enquanto predestinação ou determinismo, mas como consequência de uma vida inteira vivida na fidelidade ao Pai.

O que Jesus faz, em seguida, é emblemático: lhes interpreta as escrituras, “E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (v.27). Mais do que explicar (conforme faz uso a tradução litúrgica) Lucas usa o verbo “interpretar” (Gr. διηρμηνευεν / dihermhenêuesen), verbo do qual provem o termo técnico hermenêutica, a arte ou a técnica de interpretar o texto. Jesus não se limita a narrar, dizer ou explicar lhes os textos das Escrituras, mas a interpretá-los. Ou seja, ler toda a sua vida e missão à luz das Escrituras, e vice-versa. Mas, para ler e compreender as Escrituras é necessário lê-la e interpretá-la com o mesmo Espírito que as inspirou, o amor criador e gerador de vida de Deus-Pai, por toda a obra da criação. E este será um critério que permitirá aos discípulos compreender as Escrituras sob o signo da vida de Jesus. Ele está, primeiramente, preparando e abrindo os corações dos discípulos a partir da Palavra de Deus.

“Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: "Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!" Jesus entrou para ficar com eles” (v.28-29). Informação interessante, pois o povoado nos evangelhos representa a mentalidade equivocada, a resistência e o fechamento. Ou seja, condiz com o estado dos dois peregrinos. Ao simular seguir viagem, o Senhor tenta provocar e instiga-los a não parar ali. A continuar o caminho; a refazer a trajetória.

Mas diante da insistência deles aceita ficar. Compreende lhes a dificuldade, pois é o pastor que não abandona seu rebanho. Uma outra lição importante: mesmo diante de um ambiente e contexto refratários e resistentes em que os discípulos e a comunidade estão, Jesus não deixa de ensina-los a fazer experiência de vida com Ele. Para mostrar que, mesmo diante das situações contrárias e das dificuldades, sempre é possível fazer experiência de vida com o Ressuscitado que está sempre presente ao lado dos seus.

Um critério a mais é necessário ao discípulo, para compreender o sentido (caminho, direção) da vida de Jesus. O qual emerge da cena, a seguir. O evangelista recorda a última ceia do Senhor através do gesto do sentar-se à mesa com os discípulos e partir o pão com (e para) eles: “Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. (v.30). A forma como o autor organiza a cena no relato é interessante: sentados à mesa estão Jesus, Cléofas e o outro, anônimo. Estas personagens são sempre um convite a colocar o nosso nome nelas. O discípulo anônimo pode ser cada um de nós. Pois, diante dos limites que trazemos conosco, há também lugar na mesa; podemos tomar parte dos gestos e dos ensinamentos do Senhor que, ao redor da mesa tudo refaz.

Os mesmos gestos, a mesma ação que Jesus realizara com os discípulos na ceia pascal. Lucas é o único evangelista que faz memória das palavras do Senhor naquela ceia, e, que, após narra a ordem de iteração “Fazei isto em memória de mim”. Assim, Jesus, realizando os mesmos gestos da Ceia da Nova Aliança atualiza para eles a sua presença. Isso faz com que os olhos dos discípulos se abram e possam reconhecê-lo.

Os olhos dos discípulos só podem se abrir diante de Jesus que parte o pão, porque primeiro foram abertos os corações a partir da escuta da Palavra de Deus que o mestre explicara e proclamara durante o caminho. Uma lição importante: para se fazer uma genuína experiência com o Senhor Ressuscitado os dois sentidos, audição e visão, precisam estar sintonizados na escuta da Palavra e no ver Jesus partir o pão.

Por que, precisamente, no gesto do partir do pão os discípulos reconheceram a Jesus? É no partir do pão que o Ressuscitado se apresenta todo inteiro; se faz presente todo o sentido de Sua vida em amor. Para se compreender melhor essa dinâmica se faz necessário retomar a narrativa da última ceia e recordar os gestos e as palavras do Senhor. Ao dizer “tomai e comei, isto é o meu corpo”, ele está afirmando “isto sou Eu”. É como se perguntasse aos discípulos (de todos os tempos): “vocês querem saber quem sou eu e como se vive o sentido da minha existência? Basta olhara para este pão. Eu sou (semelhante) este Pão. Toda a minha vida se oferece como se doa um pão para a vida das pessoas. Neste pão se encontra toda a minha vida e história”. Por isso, se o discípulo quiser unir a vida a de Jesus precisará comer do Pão, ou seja, assimilar todo o sentido de Sua existência.

Ao realizar a sua memória diante dos discípulos à mesa, Jesus tornou-se invisível aos olhos deles (v.31). O texto litúrgico diz que Ele desapareceu, o que não expressa bem o sentido dado pelo evangelista. A melhor tradução é “ficou invisível”. Desparecer significa não estar mais presente, alude ao perigo de conceber o Senhor como ausente, o que não é verdade. “Ficar invisível” significa permanecer presente sem ser visto, acenando para a certeza da sua presença, mesmo sem vê-lo. Esta é a mensagem que o Evangelista quer transmitir para sua comunidade: Jesus se torna visível todas as vezes que a comunidade se reúne para partir o pão, ainda que invisível, porque será a vida do discípulo e da comunidade a torna-la visível, atual e, portanto, presente.

Somado à Palavra de Deus reinterpretada por Jesus (à luz de sua vida), o pão repartido se torna critério para experimentá-lo como Ressuscitado. Assimilando seu gesto de entrega-em-amor, a comunidade poderá fazer o que Ele fez e viver como Ele vive. Poderá experimentar a força ressignificadora de Sua ressurreição ao ouvir Sua palavra e sentar-se à mesa, a fim de retomar o caminho certo.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São  Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 11 de abril de 2026

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 20,19-31:

 


A oitava pascal, um longo domingo da Ressurreição do Senhor se concluiu. A narrativa proposta pela liturgia é tomada da conclusão original do Quarto Evangelho, Jo 20,19-31 (uma vez que o vigésimo primeiro capítulo do Evangelho segundo João é um apêndice, o qual possui finalidade que ainda não cabe comentar). O texto continua a experiência daquele primeiro dia da semana, omitindo apenas o encontro de Maria Madalena com Jesus Ressuscitado.

Nesta seção o leitor-discípulo é convidado a tomar parte da experiência da comunidade dos discípulos com Jesus. Não se tratam de aparições, propriamente, mas de Encontros com o Crucificado-Ressuscitado. É evidente, que para aquelas testemunhas oculares não se constituiu tarefa fácil encarar as horas e os dias seguintes ao “acontecido” com Jesus de Nazaré. Por isso, o fiel e leitor do Quarto Evangelho e a geração posterior (na qual somos incluídos), deverá se colocar no mesmo horizonte deles. Caberá a esta geração “Crer sem ver”, e por isso ser considerados o bem-aventurados. Para João, morte e ressurreição não são realidades estanques, mas dois aspectos inseparáveis da mesma realidade, a glorificação de Jesus.

João situa o leitor no tempo e no espaço, “Ao anoitecer daquele mesmo dia (v.19)”. A narrativa insere-se na cronologia das cenas anteriores. O primeiro dia. Mas a variação temporal revela que a comunidade dos discípulos já deu passos significativos: saiu da escuridão da “madrugada”; da escuridão da incompreensão dos acontecimentos da primeira hora da ressurreição. A partir deste novo indicativo temporal, João dá mostras de que a comunidade está despertando de seu sono de morte. Está fazendo, processualmente, a experiência da ressurreição. Ocorre, igualmente, a transição de cenário. O espaço já não é o mesmo; a comunidade dos discípulos não se situa mais no sepulcro, mas noutro espaço, o da própria comunidade. Isto já é um sinal de que ela venceu o sepulcro.

“Estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam” (v.1b), mostra que, mesmo a comunidade tendo dado os passos no processo da experiência da ressurreição, ainda estava bloqueada pelo medo. Ora, Na Teologia Bíblica, o Medo é sempre contrário à Fé. Esta condição, mentalidade e atitude acaba sendo incompatível com o desenlace da trajetória de Jesus (cf. 16,33). O medo preocupa, impede a missão; fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns. Acena também, para a ausência do Senhor. Ainda, é sinal de que o discípulo e a comunidade possuem ainda resistências em assumir o sentido da vida do Senhor. Todavia, é preciso fundir os horizontes. O leitor é chamado à unir o panorama temporal da comunidade dos discípulos, que fazia a experiência com o ressuscitado com a realidade da comunidade joanina dos anos 90 d.C, que sofria perseguição por parte dos Judeus e das autoridades romanas.

Eis que Jesus põe-se no meio deles, conforme a narrativa. É importante a informação dada pelo evangelista. Jesus Ressuscitado não vem ao encontro dos seus “flutuando” ou “suspenso” no éter; não se revela à distância. Mas torna manifesta a Sua presença colocando-se no meio deles. Neste sentido, reorienta o olhar de todos no ambiente para ele. É uma bela lição: para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado. Na comunidade do Ressuscitado (e na comunidade joanina) não existe supremacia nem relações piramidais. Ela é uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: Jesus. Encontrando-se com os discípulos (no meio deles), o Ressuscitado realiza neles o processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada.

“A paz esteja convosco (gr. ειρηνη υμιν/Eiréne ymín)”. À primeira vista, isso parece a saudação comum do ambiente bíblico. Mas esta saudação se repete por três vezes, o que indica completude, e, ao mesmo tempo a plenitude do ser humano. O número três, na bíblia indica plenitude. Por isso, esta primeira palavra dirigida por Jesus aos seus possui conotações de manifestação da realidade divina. A Paz, no ambiente bíblico, alude à plenitude da Benção (ou garantia) dos bens no tempo do Messias. O Shalom (שָׁלוֹם) bíblico remete ao ambiente dos sacrifícios cultuais (Shelamim), cujo pagamento que o povo recebe em virtude daquele sacrifício é a Paz.  Aqui, parece implicar também a realização das promessas anunciadas por Jesus na hora da despedida: os seus haviam de revê-lo (14,19; 16,16s) com alegria (16,21s.24; cf. 15,11), e ele lhes daria a sua paz (14,27). A paz e a alegria contrastam com o medo mencionado no início. O Jesus joanino, ao desejar a paz pretende ensinar que através do Dom da vida de Jesus vivida, em amor até o fim, tudo encontra-se “pago”, “quitado”. As promessas feitas encontram-se cumpridas, ninguém deve mais nada.

Jesus mostra-lhes, então, as mãos e o lado marcados e feridos pelos pregos e pela lança. Interessante, Ele poderia, na condição de ressuscitado, se manifestar plenamente glorioso, com um corpo limpo e sem feridas, sem cicatrizes; sem as marcas de sua humana derrota ou frustração. O Ressuscitado escolhe os sinais da cruz para se fazer reconhecer, os rastros de seu martírio o acompanham em sua nova condição. As marcas de sua crucificação são ainda visíveis porque são eles propriamente a indicar a identidade do ressuscitado: é intenção de João mostrar a continuidade entre Jesus Crucificado e Ressuscitado. E os principais traços característicos da identidade de Jesus são o serviço e o amor. As mãos são sinais do serviço, do agir, e o lado é sinal do amor, pois representa o coração. Jesus Ressuscitado não renega, oculta, foge daquilo que ocasionou sua Paixão. Ele é ressuscitado com as marcas de sua vida para ensinar que aquilo que ele viveu na carne e na história (suas atitudes, suas escolhas, seu ensino, seu amor servidor e incondicional) se tornaram modelo e garantia de vida plena. A morte não teve a última palavra em Jesus.

“Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (v. 21). A missão de Jesus estava fundamentada na tarefa recebida do Pai e na Sua fidelidade ao realiza-la; a dos discípulos, na de Jesus. Aqui, encontramos três termos importantes: os verbos apostellein e pempein (enviar, gr. ἀποστέλλω; mas aqui απεσταλκεν (apestalkén), cujo tempo verbal encontra-se no perfeito, que indica ação contínua) e a conjunção kathôs (gr. καθως, como). Os verbos e a conjunção têm a intenção de exprimir semelhança e causalidade, isto é, a missão dos discípulos é continuação daquela que Jesus recebeu do Pai e encontra nela seu modelo e origem.

Ao enviar os discípulos, ele sopra sobre eles o seu Espírito. O gesto de soprar recorda a narrativa da criação em Gn 2,7, onde Deus soprou nas narinas do vivente seu sopro de vida. O Gesto de Jesus remete à Criação, e por isso, na Sua ressurreição acontece uma nova Criação. Ao receber o Espírito Santo, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. A ressurreição de Jesus é uma ressignificação na vida da Comunidade dos discípulos.

A comunidade tem a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo (cf. Jo 1,29). Os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo. “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). O Espírito é dado à comunidade para que ela continue fazendo a Obra de Jesus. Essa missão é: tirar o pecado do mundo. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo; transformar as realidades. O que perdoa os pecados é o amor de Jesus; logo, ficam sem a experiência do perdão, o discípulo que recusa amar como Ele amou. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade e do discípulo diante do mandamento do amor, e a atitude de negação do fiel em relação à pessoa de Jesus.

A comunidade não está completa. Falta um certo Tomé, que, diga-se de passagem, precisa ser compreendido bem. Ora, ele não se encontra ali, naquele ambiente fechado. O que pode acenar para o fato de que ele não compartilhasse da mesma mentalidade.  Dídimo (gr. διδυμος), cujo significado é gêmeo, era seu nome. Mas quem seria o seu outro irmão gêmeo? Teríamos um personagem anônimo na narrativa? Os personagens anônimos têm, no Quarto Evangelho (e em toda a Sagrada Escritura), a função de paradigmas – ou de espelhos – para a comunidade e os leitores. Ou seja, eles servem para que os leitores assumam aquela identidade; se identifiquem com ele. Um convite aos leitores e discípulos de todos os tempos a tomarem Tomé como seu gêmeo: questionador, corajoso, atento, perspicaz e convicto; mas reconhecer também suas dificuldades.

Tomé não estava com eles porque não tinha medo (oposição da Fé), e, por isso, não se deixou paralisar diante da experiência negativa e, portanto, circulava livremente e sem temor algum. Porém, sua coragem foi ofuscada pelo rótulo inadequado de incrédulo. O seu erro foi o de não aceitar o testemunho da comunidade. Por isso pediu os mesmos privilégios dos dez, ver, e, também, tocar o Senhor.

Oito dias depois (que continua sendo o primeiro da semana, o dia da Memória do Ressuscitado), Jesus novamente se pões no meio deles, deseja-lhes a Paz; se dirige a Tomé. Convida-o a executar o gesto que havia pedido como prova. Ele, ao invés de tocar o Senhor formula uma confissão de fé de valor incomparável: “Meu Senhor e meu Deus!” O título de Senhor (Kyrios) é o que cabe àquele que entrou na glória de Deus. João reserva este título para Jesus ressuscitado. O título “Deus” aplicado a Jesus retoma a dupla menção no Prólogo (Jo 1,1.18) e cria, assim, uma inclusão que abarca e resume o Evangelho segundo João.

Aqui, revela-se a intencionalidade do texto. A bem-aventurança proclamada por Jesus: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto” (v. 28), reflete a preocupação do evangelista com as novas gerações de discípulos, muito questionadores chegavam a duvidar do anúncio, exigindo provas concretas da ressurreição. O evangelista responde a essa realidade: não há necessidade de visões e aparições; basta integrar-se a uma comunidade de fé para experimentar a presença do Ressuscitado. A comunidade reunida é o lugar por excelência de manifestação do Ressuscitado.

1) Em qual momento da ressurreição estou: na madrugada, no entardecer ou no dia novo? 2) a experiência pascal destes últimos dias me recriou, assim como o Senhor recriou a sua comunidade com o sopro do Espírito (tenho permitido que Ele me recrie)? 3) Qual experiência venho fazendo: medo, dúvida ou fé? 4) O que fazemos com as marcas de nossa Paixão: As escondemos? As negligenciamos? As cobrimos com um verniz de santidade? São marcas históricas que constituem a existência, sejam elas positivas ou negativas. Não tenhamos medo de ressuscitar com as marcas de nossa Paixão.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco de São Judas Tadeu, Avaré-SP / Arquidiocese de Botucatu.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

TRÍDUO PASCAL: Solene Vigília Pascal (Mt 28,1-10):


 

A liturgia desta noite santa, Mãe de todas as vigílias, nos convida a tomar o texto mateano que narra a experiência da ressurreição, Mt 28,1-10, o último capítulo da catequese do evangelista, o qual conclui de modo magnifico todo este evangelho eclesial. Mas qual a finalidade deste relato? Mostrar uma forma de se fazer experiência com Jesus ressuscitado. Fazer memória às Palavras de Jesus e refazer o sentido de sua vida, acolhendo o convite de retornar à Galileia.

Nenhum evangelho descreveu a ressurreição de Jesus. A imagem clássica e tradicional do Cristo triunfante, de fato, não pertence a tradição do Novo Testamento, mas a um escrito apócrifo do Século II, chamado “evangelho de Pedro”. Contudo, os quatro evangelistas dão indicações, através de seus escritos e das experiências comunitárias com o ressuscitado de como puderam encontra-lo. A ressurreição não foi um privilégio concedido a um pequeno grupo dois mil anos atrás, mas se torna uma possibilidade aos crentes de todos os tempos. Apropriemo-nos também desta experiência, meditando o texto.

“Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro” (v.1). O evangelista inicia o relato com uma observação temporal, “Depois do sábado”. O sábado era dia a ser observado rigorosamente pelo judeu do tempo de Jesus. Violá-lo significava falta gravíssima. Mateus coloca esta referência cronológica para transmitir uma mensagem teológica: a observância deste preceito faz com que a comunidade dos discípulos retarde a sua experiência com o Ressuscitado. Enquanto existirem esquemas antigos, ainda não rompidos, não se conseguirá fazer experiência de vida. O evangelista utiliza o verbo “ver” para descrever a atitude das mulheres. Este verbo não traduz apenas o sentido da visão física, mas também a atitude de se fazer experiência com algo ou alguém. É uma atitude também ligada aos afetos que nutriam pelo mestre. Mas elas se dirigiram ao sepulcro para vê-lo, ou seja, para fazer a experiência com a realidade da morte, apenas.

“Ao amanhecer do primeiro dia da semana”, o evangelista faz memória do primeiro dia da criação. O primeiro dia da semana constitui-se também como o oitavo, já que o sábado era o sétimo dia. O número oito, na Igreja primitiva foi associado ao Cristo ressuscitado. O evangelista pretende ensinar à sua comunidade que aquele oitavo/primeiro dia é, agora, o novo e definitivo dia da Nova Criação. A ressureição do Senhor é a nova criação, ou a recriação da história, da humanidade e do universo a partir, agora, de Jesus Ressuscitado.

“Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”, mas falta uma mulher. Recorde-se que, próximo à cruz de Jesus estavam Maria, mãe de Jesus, Maria de Magdala, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ela não está no grupo que vai ao sepulcro. Por quê? Era ela uma mulher ambiciosa, lembremos que ela havia pedido os lugares de honra para seus filhos, mas quando se deu conta de que aquele Jesus fracassou no seu projeto de messias, perdeu toda a sua esperança e não se tornou testemunha da ressurreição. Mateus pretende dar um sinal claro para seus discípulos e para nós: se quisermos fazer a experiência com Jesus, o vivente, é importante que todo o caminho do Senhor seja passado a limpo em nossas vidas, a fim de se crescer na consciência de que a vida do mestre é perpassada pela via da cruz.

“De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela” (v.2). O terremoto, na teologia bíblica é um sinal simbólico da manifestação divina. Acontece, ali, portanto, uma teofania reveladora. Ela já ocorreu uma vez, no calvário, quando Jesus entregou o seu espírito nas mãos do Pai. O terremoto é um indicativo de que um novo tempo está surgindo, pois no A.T, os autores bíblicos se serviam deste fenômeno da natureza para marcar o fim de uma época e o começo de uma nova história. Ora, se na morte de Cruz de seu Filho, Deus se revelou presente, tanto mais agora, na ressurreição, a fim de revelar que toda a vida deste Jesus recebe do Pai a aprovação. Se no Crucificado Deus revelou-se presente, ainda mais no Ressuscitado.

“o anjo do Senhor desceu do céu”, a personagem angelical aqui presente não pode ser tomada ao pé da letra; não é uma criatura intermediária ou etérea. O anjo, na bíblia, simboliza a ação de Deus, ao entrar em contato com o ser humano. No evangelho de Mateus, esta figura simbólica aparece por três vezes: para anunciar o nascimento de Jesus; para protege-lo do olhar homicida de Herodes; e, por fim, para anunciar àquelas primeiras testemunhas a novidade da vida indestrutível em Jesus de Nazaré.

Interessante: não é o terremoto que faz rolar a pedra, desobstruindo o sepulcro, mas o anjo de Deus, que é o próprio Deus. O Pai mesmo confirma a vida do Filho Jesus. Ele é soberano na vida de seu Cristo. O anjo senta-se sobre a pedra retirada do sepulcro:  na antiguidade, o gesto de se sentar sobre algo era símbolo da conquista e vitória. Ali, naquele sepulcro, Deus realiza sua soberania sobre a morte e a vida. A aparência e vestimentas do mensageiro celeste são descritas por Mateus com os mesmos tons e cores da cena da transfiguração em relação à Jesus, em 17,1-13: “Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve” (v.3). São as cores e os elementos pertencentes ao âmbito de Deus, ou seja, manifestam a sua glória.

“Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos” (v.4), nos informa Mateus. Diante de uma experiência que pertence ao âmbito da vida, qualquer um que pertença aos sistemas e realidades de morte, como os soldados do império, fazem apenas uma experiência de morte. O evangelista é irônico. Aqueles que eles pensavam estar morto, está vivo; e aqueles que pensavam-se vivos, ficam, agora, como mortos.

“Então o anjo disse às mulheres: 'Não tenhais medo!” (v.5). O medo, na bíblia, é o contrário da fé. Pois ele paralisa; ao mesmo tempo que mantém na zona de conforto, e, por isso, não possibilita realizar o confronto com a realidade. Se o discípulo deseja, verdadeiramente, fazer a experiência da ressurreição e com o ressuscitado, com sua nova vida, com as novas possibilidades e novos horizontes precisa, pois, vencer o medo. Que medo te impede, hoje, de fazer uma experiência nova de vida, a partir da vida plena que Deus através do Ressuscitado está a oferecer?.

E continua, “Sei que procurais Jesus, que foi crucificado” (v.5b). Muito importante esta nota, pois ele deseja acenar para a mentalidade que se nutria a respeito de quem fosse crucificado; era tido como maldito perante a Lei (Dt 21,22). Mateus deseja mostrar para a sua comunidade que essa concepção acerca de Jesus está equivocada. Por isso a declaração do versículo seguinte é explosiva.

“Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava” (v.6). Atenção! anjo não diz “ele não está mais aqui”, mas, “Ele não está aqui”, pois o sepulcro nunca foi lugar para Jesus, por isso ele não pode conter o vivente! Ele lhes apresenta uma prova, as palavras de Jesus: “como havia dito”. Elas são o critério para que os discípulos e a comunidade consigam realizar a memória de Sua vida e experimentar a ressurreição. O Sepulcro não é, e nunca será o lugar definitivo para a existência de ninguém. Não o foi para Jesus. Por isso, não o será para o discípulo e para a discípula do Reino.

As mulheres são chamadas a fazerem primeiro esta memória, e, com isso, a experimentar o triunfo da vida. Memória é um primeiro critério para que se possa fazer a experiência da ressurreição e mesmo com Jesus Ressuscitado. O que seria esta memória? A capacidade de recordar, ou seja, procurar no coração e na mente as Palavras do Senhor e seus ensinamentos; revivê-los e torna-los existencialmente vividos novamente através da vida e das histórias pessoais de cada homem e mulher que aderiu ao sentido de Sua vida. E, por fim, torna-las presentes e atuantes na história. Com isso, atualizar a vida e a presença do Cristo em meio. A memória é o passar a limpo a vida, missão, obra do mestre na vida do discípulo e da discípula.

Às mulheres são destinadas as palavras de Jesus como chave de compreensão para o acontecido com o mestre. Esta é a uma profunda inversão dos esquemas e das lógicas humanas daquele tempo, pois elas não eram consideradas. Para se dar como verdade uma notícia ou um fato, a cultura e a sociedade de Jesus exigiam através da lei a verificação de duas testemunhas qualificadas, ou seja, homens e em número de dois. O testemunho das mulheres não tinha peso. Mesmo se fossem em número de duas, como o texto relata. Por isso, o testemunho do qual são elas incumbidas de dar tem muita força pois rompe com os padrões da época e é o que garante a veracidade do anúncio e do fato da ressurreição. Mulher alguma, ou, pessoa alguma se arriscaria por uma mentira. Mas, ao mesmo tempo, o evangelista deseja ensinar que a experiência da vida nova deve atingir a todos, sem exclusão; rompendo com toda e qualquer mentalidade sexista, machista, misógina, sectarista, elitista. Ou seja, a força de vida que contém a vida vitoriosa de Jesus deve ser doada a todos. Por isso, esta experiência não deve ficar “sepultada”, guardada unicamente para elas; antes, devem “ir de pressa contar aos discípulos que Jesus ressuscitou dos mortos”.

O mensageiro estabelece um segundo critério pedagógico para as mulheres, além das palavras de Jesus (da experiência da memória): retornar para a Galileia. Porque o mestre “vai à vossa frente para a Galiléia. Lá vós o vereis” (v.7). A localidade parece ser importante para o evangelista, porque ela aparece três vezes. Lá a comunidade dos discípulos poderá ver o ressuscitado. É importante o verbo “ver” de que Mateus faz uso. Ele aparece também nas Bem-aventuranças (Mt 5,8, “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”). Este verbo não indica apenas uma capacidade física atrelada aos sentidos do ser humano, mas uma profunda experiência interior com Deus.

Ligada a esta ordem divina, é o mesmo que afirmar, “na Galileia da realidade da vida é que vocês poderão fazer experiência com o ressuscitado”. Note-se, que Mateus diz que Jesus ressuscitado não se manifestará em Jerusalém, sede do poder e da dominação (cidade assassina dos enviados de Deus), mas na Galileia, lugar das primeiras experiências que os discípulos fizeram com Jesus; lugar de sua pregação e primeiro anúncio do Reino.

“As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos” (v.8). A medida que as mulheres vão se afastando do sepulcro, que remete à impossibilidade de vida, vão recuperando a alegria, e se preparando para transmitirem o anúncio. No meio do caminho acontece algo: “Jesus foi ao encontro delas, e disse: 'Alegrai-vos!” (v.9). Enquanto estão indo pelo caminho para anunciar a vida, o Senhor da vida lhes vem ao encontro, para com Sua presença reforçar o anúncio. Então as mulheres se aproximaram, prostraram-se e beijaram os pés de Jesus. A menção dos pés indica e confirma que as mulheres tiveram um encontro real com Jesus; indica a realidade física de alguém. Não com um espírito ou fantasma. O gesto da prostração recorda o reconhecimento e a reverência do ser humano diante da glória divina. Ou seja, elas reconhecem agora a Jesus como Deus e doador da vida divina. Na medida em que elas se dirigem para levar a alegria e a força da vida para os discípulos, elas fazem a experiência com o vivente Jesus, no caminho, isto é, na realidade e na concretude da vida.

De fato, trata-se do encontro com alguém que está vivo. Jesus fala com elas, e lhes recomenda, mais uma vez, a não terem medo. E confirma as palavras do mensageiro celeste: “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão” (v.10). Agora, elas são encorajadas a cumprirem a função do anjo: elas devem se tornar as anunciadoras da vitória do Mestre; devem ser as mensageiras da grande notícia do triunfo da vida sobre a morte. Devem fazê-lo, primeiramente aos discípulos, os quais são chamados de “irmãos”, por Jesus. Repete, novamente, a ordem de se dirigirem para a Galileia. Por quê esta insistência de Jesus, que Mateus recupera? Porque somente refazendo os passos de Jesus, de sua vida e de seu ensinamento se pode fazer experiência com o ressuscitado.

O texto evangélico nos provoca: 1) O que procuramos “ver”, um sepulcro, um defunto ou um Vivo? 2) Qual o nosso estado de ânimo: medo paralisante e “confortante” como as mulheres que se dirigem ao túmulo fazer experiência com a morte, ou como as mulheres que se permitiram transformar no caminho com o Vivente? 3) Estamos dispostos a atualizar a presença da vida do Senhor através da nossa vida (fazer memória)? 4) Estamos igualmente dispostos a refazer sempre e constantemente o caminho da primeira experiência com Jesus, voltar para a Galileia?

Ao nos colocarmos nestas provocações poderemos encontrar-nos no caminho com o Vivente, o Ressuscitado.

Feliz e santa Páscoa.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

TRÍDUO PASCAL – Sexta-feira Santa da Paixão do Senhor (Jo 18,1 – 19,42):


Paixão. O que significa esta palavra? Sempre nos deparamos com ela no decorrer da semana santa, e no Tríduo Pascal ela ressoa quase como que um eco ao fundo, até que na Sexta-feira, a Igreja, continuando a celebração do Tríduo recebe este nome. É preciso entende-la sob dois sentidos: afetivo (da ordem dos afetos) e operativo (da ordem da ação). 

Paixão, segundo a ordem dos afetos, é uma força de sentido. Vem da palavra grega Pathos, que significa sentir. É a capacidade humana de, utilizando toda as dimensões sensoriais, psíquicas, de sentir algo. Seja positivo ou negativo. Uma série de impulsos demasiadamente humanos e biológicos. Ela esta sempre ligada a dimensão relacional do ser humano. Segundo a ordem da ação, a paixão se torna impulso para a vida, ou seja, faz a vida acontecer e se mover. Neste sentido, a paixão move uma vida.

Unindo estas duas perspectivas, como entende-las em Jesus? Por que dizemos que este dia é o da “Paixão do Senhor”? Compreendendo que Jesus, sentiu em sua carne, em sua existência todas as dimensões humanas. Deixou-se afetar pelas necessidades do ser humano. Teve a capacidade der perpassado por todas as inquietações, contingências, dores, angustias, até às últimas consequências. Até a morte. Somente uma pessoa que sente as necessidades dos outros, mesmo as mais gritantes e desumanas. Ou seja, sentiu a que ponto pode chegar a desumanização e, portanto, desfiguração do homem e da mulher. O verbo se fez carne e se apaixonou por nós!

A Paixão de Jesus foi apenas uma passividade do sentir, e tudo bem? Não. E aqui, se pode entender o segundo sentido da paixão, a sua dinâmica operativa (a ação). Somente porque ele se deixou perpassar pelo sentir da humanidade é que ele pôde colocar sua vida em movimento, ou seja, agir. Assim, a paixão transforma uma vida, enriquecendo-a de plenitude de sentido. Para onde a Paixão moveu Jesus a viver a sua vida? Para a relação com o Pai e para o Reino. Este duplo horizonte se tornou a causa da vida e da missão do Senhor. Somente um Deus que se apaixona é que pode mover-se na direção de cada pessoa humana. Somente um Deus apaixonado é que humanizar-se para salvar e redimir a humanidade. Somente uma paixão bem vivida (vivida plenamente) é que pode se transformar em amor e gerar vida plena naqueles que estão ao redor. É em virtude desta paixão, entendida a partir destes dois significados, é que se pode entender inclusive a vida levada até às últimas consequências. Assim entendida dinâmica da paixão relacionada à Jesus, se pode meditar o texto evangélico deste dia solene.  

A narrativa da paixão no evangelho joanino é diferente das contidas nos sinóticos (Mc, Mt e Lc). O evangelista segue um fio narrativo de Mc (o primeiro evangelho escrito), porém distancia-se e muito na forma de narrar e de apresentar a personagem principal da “opera”, por assim dizer. Trata-se de um relato que vai a fundo ao apresentar e revelar a Glória de Deus em Jesus. O catequista bíblico não economiza ao mostrar a realeza de Jesus. Pode-se dizer com toda a segurança que, ao interno da narrativa da paixão joanina, e somente nesta seção, o Cristo é mostrado como soberano; é rei.

Se faz necessário situar o texto ao interno do contexto litúrgico, isto é, na sequência do texto da quinta-feira santa da ceia do Senhor. Ora, somente o discípulo que segue Jesus até à “bacia, o Jarro e à mesa”, poderá tomar parte da hora da glorificação.

Chegou a Hora de Jesus. Durante toda a primeira parte do evangelho joanino – o livro dos sinais – os gestos simbólicos operados por ele possuem a finalidade de revela-lo como enviado do Pai, Aquele que realizará sua obra, como também aprontar o discípulo para a Hora da Glória (seu enaltecimento/elevação). Um esclarecimento importante: a Glória da qual fala o evangelista João não pode ser entendida como um brilho ou algo resplandecente. No vocabulário do evangelista, que é todo proveniente da tradição bíblica do Antigo Testamento, a palavra “glória” (hbr. Kabod) é traduzida por “presença”. Logo, ao se falar da “Glória de Deus” (Ez 10; Ez 43,1-27), está se referindo à presença (ao peso) de Deus. A glória, portanto, da qual o Jesus joanino fala é a realidade da presença de Deus mesmo no dom da Sua vida, existência e obra. Quando se revela a Glória de Jesus? Na Hora da Cruz. Ela revela a que a vida de Jesus é o [novo] lugar/santuário da presença de Deus na história. Agora podemos tomar o texto a partir das personagens.

No Jardim (Jesus e Judas) – Jo 18,1-12:

O evangelista chama a atenção do discípulo-leitor para Jesus. Na teologia do Quarto Evangelho, João o apresenta sempre consciente e onisciente. Na ceia (13,4), o havia relatado ciente de que havia chegado a sua Hora, e de que tudo o Pai havia posto em suas mãos.  Não seria diferente na narrativa da paixão. Ele não é vitimizado pela situação. Não permite que ninguém, exceto o Pai, tenha a Sua vida nas mãos. É um homem senhor-de-si.  Por isso, não é surpreendido por Judas e pelas pessoas que vieram prendê-lo. Note-se que Ele mesmo vai ao encontro do traidor (Jo 18, 4). Típica ironia joanina, o evangelista nos conta que Judas vem equipado com lanternas e tochas, que são iluminações artificiais. O evangelista gosta de redigir as cenas com nítidos contrastes. Luz, escuridão, iluminação natural contra artificial; dia versus noite. Para mostrar que a verdadeira luz é Jesus. Judas, ao sair do convívio da ceia já era noite fechada (13, 30). O evangelista quer mostrar que este discípulo fez a opção contrária à luz; cindiu com ela. E agora, ele é quem precisa de luz artificial. Esta personagem contrasta com o Senhor na medida em que decide-se por agir contra o projeto e o querer de Deus que se realiza através do Filho. Judas é o anti-modelo que o verdadeiro discípulo deve rejeitar, ou se distanciar na medida em que vai relacionando-se com Jesus.

Anás, Pedro e o discípulo amado - Jo 18,13-27:

O evangelista apresenta três personagens. Anás, sogro de Caifás, o sumo sacerdote em exercício. O segundo personagem é Pedro. Notemos um contraste operado pelo evangelista entre Pedro e Jesus: enquanto este está demonstrando sua inocência naquele interrogatório viciado, seu mais conhecido seguidor está mostrando fraqueza. Pedro, durante a narrativa da ceia se mostra todo resistente. Esta personagem serve ao discípulo que lê o Evangelho de João como símbolo daquele que precisa assimilar verdadeiramente o sentido da vida de Jesus, para poder fazer a sua opção pró-Jesus. Emerge uma outra personagem, presumivelmente “o discípulo que Jesus amava”. Não há fundamento em identificá-lo com João, o autor do Quarto Evangelho (o que seria demasiado simplista). Mas, fato é, ele está à frente de Pedro e contrasta com ele. Ele é sempre mais rápido ao ver, ao compreender e em acreditar, precisamente porque fez a experiência com o amor de Jesus, que é uma marca da verdadeira condição de discípulo

Jesus diante de Pilatos – Jo 18, 28-42:

O evangelista apresenta uma personagem confusa. Um camaleão. Um amedrontado Pilatos. Soma-se a isso a alternância dos cenários externos e internos. Nesse vai-e-vem, Pilatos vai mudando e assimilando as imagens de seus ambientes. Ao interno do palácio ocorre a alternância entre luz (externo) e trevas (interno). Na maneira como João dispõe a narrativa, o inquérito acontece ao interno do palácio, para revelar esta oposição típica de seu evangelho: luz / trevas. A intenção (ainda que através de sua ironia) é revelar Jesus, mesmo solitário e recluso no palácio, como Luz diante de Pilatos, envolvido em dúvidas e trevas.

O diálogo entre eles revela muito, de acordo com o evangelista. Na intenção dele está para começar o processo de Jesus contra o Mundo, representado pelo Império. João disse no prólogo do evangelho que “O mundo não o conheceu (Jesus), e os seus não O acolheram”. Jesus está diante do procurador romano, que o interroga com base naquilo que ouviu. “Tu és o rei dos judeus?” A resposta de Jesus soa desafiadora: “Estas dizendo isso por ti mesmo, ou outros te disseram isso de mim?” Jesus não responde nem que sim, nem que não. Ele deixa que o próprio Pilatos tome sua decisão e tire suas conclusões. Ao insistir na culpabilidade de Jesus, emerge, pois, uma declaração muito importante acerca de Jesus, de sua vida e obra. Ele responde: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. O que o Jesus joanino quer dizer com essa reposta?

Se faz necessário tomar o texto dos originais, em grego, para captar o sentido da resposta de Jesus, que se expressa assim: “o meu reino não vem deste mundo ( gr. Ἡ βασιλεία ἡ ἐμὴ οὐκ ἔστιν ἐκ τοῦ κόσμου τούτου / ek tou kosmou tuotou)”. A realeza de Jesus não provém das realidades mundanas, das estruturas de poder, domínio, opressão. Vem do alto. Jesus declara, pois, que sua realeza depende e está estritamente relacionada à Deus. A autoridade que ele exerce, só a faz porque é da vontade do Pai. As palavras “meu reino não é daqui (= deste mundo)”, portanto, não dão margem para sugerir uma fuga do mundo, da realidade, da história humana, nem justificam qualquer tipo de alienação. Pelo contrário, convocam o discípulo a uma lucidez superior. Aderir ao reino de Jesus é aderir à verdade daquele que, em tudo o que faz, é palavra de Deus e que liberta de toda escravidão, e que restaura o mundo, enquanto realidade criada por Deus.

Mas neste diálogo emerge mais uma novidade muito profunda e marcante. Pensemos. Pela lógica do inquérito, Pilatos faz as vezes do juiz que interroga, questiona e apura os fatos para dar cabo de uma sentença. Entretanto, a partir das respostas eloquentes que Jesus dá aponta para uma revelação importante: o juiz não é Pilatos. No inquérito, quem assume a figura do juiz é Jesus, deixando para Pilatos o papel de investigado. Mais uma vez, a finalidade é mostrar Jesus superior a realidade e a trama que o circundam, porque só quem autoridade sobre sua vida é o Pai. E mesmo assim, é através de sua liberdade enquanto homem que Jesus vive sua fidelidade ao projeto de vida plena, em amor até o fim, ao Deus que chama de Abá-Pai. Porque este Abá não exige do seu Filho qualquer sacrifício de sangue, ou mesmo uma morte expiatória.

A morte (19,28-37):

Após um caminho longo, Jesus chega ao lugar da crucifixão. Depois de tomar o vinho azedo, Jesus exclama: “Tudo está consumado” (mesma expressão do v. 28), inclina a cabeça e “entrega o espírito”. Nestes versículos 28-30 ocorre duas vezes o verbo teléo, “consumar/levar ao fim” (vv. 28 e 30). O dito “Tudo está consumado” acena para a realidade de que toda a vida de Jesus, através de suas obras e Palavra refletem a vontade de Deus. Significa, ainda, que a vida e obra de Jesus atingem a Plenitude. Mas também revela a superação dos sistemas antigos dos sacrifícios levítico-cultuais. João faz coincidir a morte de Jesus no calvário com o exato momento em que se imolavam os cordeiros no templo, por ocasião da festa da pascoa. Jesus supera, com o dom de sua vida em amor, os antigos sacrifícios e se torna, pois, o único mediador entre a humanidade e Deus. Não são mais a observância da Lei, nem das prescrições cultuais os meios necessários para se ter acesso a Deus, mas a humanidade, a vida e a obra de Jesus. Esta vida, Ele a entrega nas mãos do Pai.

O “entregar o espírito” (a existência) acena para aquela onisciência e senhorio de Jesus, de que se falou a pouco. O verbo grego paradidomai (entregar/doar) percorre toda a narrativa da paixão, mas aqui ele revela e, ao mesmo tempo, afirma o domínio de Jesus diante da situação: quem entrega sua vida é ele mesmo, sabendo que tem o poder de retomá-la novamente. Ele livremente a doa, para que o Pai reconheça esta mesma vida como salvífica e redentora, dizendo a última palavra sobre a vida deste seu Filho.

A morte de Jesus, de maneira tão crua, só pode ser entendida à luz de sua vida vivida, através de seu ministério. Ela é a consequência e o resultado da vida, das opções, decisões, vividas à luz do amor fiel ao Pai e aos irmãos, mesmo em face às hostilidades dos chefes do povo. Isso não é fazer uma leitura política da vida de Jesus. Sua vida era conflituosa pelas questões que provocava e pelos interesses que abalava. Isto vê-se no seu modo de viver, na sua práxis escandalosa, não facilmente aceita, principalmente no tocante a Sua opção pelos últimos. Nesse sentido, a pregação de Jesus foi uma inversão de valores. Rompeu com os esquemas estabelecidos. Assim, a condenação de Jesus é uma rejeição a sua pessoa e a tudo o que Ele faz durante sua vida.

O relato de hoje nos deixa diante de duas perguntas: 1) Com quais personagens me identifico? 2) Como tenho vivido minha existência cristã e meu discipulado? A chave e o modo para viver o discipulado é a forma da Paixão. Não existe discipulado que não seja perpassado pela Cruz. Mas Ela não será a última palavra.

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP