quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO PARA A QUARTA-FEIRA DE CINZAS – Mt 6, 1-6.16-18:


 

A Igreja inicia com a quarta-feira de cinzas a Quaresma, tempo de graça, reconciliação e preparação para o ápice da vida cristã que é a celebração da Páscoa do Senhor. Com este período litúrgico favorável, a comunidade dos fiéis é chamada a viver em plenitude esta etapa de conversão, de mudança de mentalidade e de atitude. Eis o sentido do simbolismo do qual é revestido o número quarenta. Na tradição do Antigo Testamento este número já aparece com força metafórica: alude ao tempo da duração de uma geração, ou seja, de uma vida. Ao dizer que a quaresma assume a dinâmica da duração de uma vida, a Igreja deseja enfatizar que este tempo assume os contornos da vida humana, a qual é uma quaresma preparatória para a nossa páscoa definitiva.  

O texto proposto como alimento para a meditação eclesial é o de Mt 6,1-6.16-18, que se situa no sermão da montanha – discurso inaugural de Jesus na catequese mateana. Neste primeiro discurso/catequese, o evangelista mostra o Cristo como verdadeiro interprete da Palavra de Deus, qual novo Moisés, e, portanto, Messias através da Palavra. Neste bloco, que se estende até o capítulo sétimo, o Senhor ressignificará todas as tradições religiosas de Israel e transmitirá uma interpretação autêntica da Palavra de YHWH. Às três práticas da piedade judaica – oração, caridade, jejum – também serão dadas um novo e verdadeiro sentido. Feita uma breve contextualização, já se pode mergulhar no horizonte do texto.

“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (v.1). Este versículo funciona como uma lente através da qual se pode ver corretamente o significado das orientações feitas por Jesus nos versículos seguintes no que tange as práticas da piedade judaica. Ele adverte os discípulos e a multidão a serem atentos em não praticar a justiça diante dos outros. O que seria esta justiça? Não é aquela do tribunal, pertencente ao sistema jurídico. Por justiça, ao interno do panorama bíblico, se entende como o agir de Deus.

O Senhor está chamando a atenção do discípulo – e de todos aqueles que escutam ou leem seu evangelho) para que seu agir, seja conforme ao agir de Deus, para poder ter em si a vida mesma Dele. Suas atitudes não podem ser pautadas pela lógica da recompensa dos homens: ser visto e elogiado por eles. Se assim o fizer, não receberão a recompensa do Pai do céu.

O que Jesus quer dizer com o termo recompensa? Na verdade, ele aparece de duas maneiras: pagamento (gr, μισθός/mistos) e restituição (gr. ἀποδίδωμι/apodidomi). Aplicado aos discípulos, para se falar de recompensa o evangelista utiliza o termo apodidomi. A restituição é a devolução. Jesus está ensinado aos discípulo que se o agir deles (justiça) for semelhante ao do Pai, Este restituirá/devolverá à pessoa a sua condição de filho de Deus. Esta primeira orientação servirá de fio condutor para as outras três a seguir.

No v.2, Jesus chamou a atenção dos discípulos e da multidão para o cuidado com a prática da esmola. Um dos pilares da espiritualidade judaica. Não a realizar como os hipócritas, só para serem notados ou elogiados publicamente na sinagoga. Ele está se referindo a uma prática muito constante de seu tempo. Sempre que alguém, dentro ou fora do ambiente de culto, cumprisse este gesto era chamado pelo rabino diante de toda a assembleia, elogiado pela sua atitude publicamente e convidado a se sentar num dos lugares de honra e destaque. Recebendo, assim, seu salário, o seu “mistos”. Com muita frequência o Cristo deve ter visto uma cena como esta. Mas para Ele, esta prática não pode assumir uma imagem teatral ou de aparência. Deve ser uma atitude constante de empenho pelo bem do outro que necessita. E não uma ação isolada.

A orientação continua: “Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, de modo que a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa” (v.3-4). A esmola/caridade deve ficar no segredo. A mão esquerda, que é aquela que faz o mal, não pode saber o que a direita, responsável pela ação boa está fazendo.

A prática da caridade/esmola é a ação que possibilita sair de si para colocar-se em relação com o outro, com suas necessidades. Sem alarde. Porque este é o agir do Pai celeste: ele é o primeiro a sair de si, em direção da humanidade. É ele o primeiro a doar-se, sem esperar recompensas. “E o teu Pai, que vê o que está oculto, te restituirá a Sua imagem”. Quando o discípulo age da mesma forma que Deus, ele é restituído em sua condição de filho de Deus.

“Ao contrário, quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa” (v.6). Depois de Jesus chamar a atenção sobre um segundo pilar da piedade judaica, a oração, que não deve ser feita como mero teatro, como os hipócritas (atores da fé) fazem, ele orienta a, literalmente, entrar na despensa (gr. ταμεῖον). A despensa das casas do tempo de Jesus eram lugares fechados, escuros, sem janelas, e, portanto, silenciosos. É um sinônimo para um lugar tranquilo, sem distrações. Sem oportunidades de ser visto. Mas, ao mesmo tempo, representa um lugar da simplicidade do lar ou da vida. É possível entrar em oração no metrô, no carro, na praça inclusive, desde que se silencie tudo aquilo que possa perturbar, e, numa atitude de interiorização estabelecer relação com o Pai e com Jesus. O que Ele não quer é que esta relação chamada oração seja ocasião de espetáculo, de exibição pública.

A oração precisa ser muito bem compreendida. Muitas vezes se pensa ou se cresce com uma mentalidade equivocada acerca desta prática. Por exemplo, a mais comum, a de pensar que ela pode, por conta da insistência “perseverante”, mudar a vontade de Deus. A partir das muitas palavras que se usa, da atitude as vezes arrogante, ou mesmo com a mentalidade da troca – faço isso para receber aquilo – tentar comprar ou dobrar a Deus, a fim de que ele realize os caprichos humanos. Não é assim. A verdadeira oração é, acima de tudo, uma atitude de verdadeira relação pessoal com o Pai e com Jesus. O tempo ou momento do cultivo da relação com ele. Podendo, sim, apresentar a vida, a história, a angustia, os problemas. Mas sem pensar que Ele os resolverá, como num passe de mágica ou sem nossa cooperação.

A oração é apresentar a vida e história diante do olhar de Deus, contemplando o olhar Dele e percebendo para onde este olhar está apontando, de modo que consigamos direcionar a vida para onde ele aponta! A eficácia da nossa oração consiste em olhar para a direção em que está o olhar de Deus e discernir para qual direção ele aponta em relação à nossa vida. Quando o discípulo olha para a mesma direção em que o Pai olha, através da oração que se dá no silêncio, ele é restituído em sua condição de filho de Deus. “E o teu Pai, que vê o que está oculto, te restituirá a Sua imagem”.

“Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa” (v.18). Jesus encerra seu ensinamento tocando na prática do Jejum. Para ele, não há razão de se fazer esta prática com espírito e atitudes fúnebres, pois o noivo (que é ele mesmo) está no meio da festa. O que se precisa é mudar a mentalidade.

O jejum que o Senhor deseja propor é aquele que socorre o irmão. Quando se vai ao encontro da necessidade do outro, tendo a autonomia e a liberdade de se abrir mão ou renunciar mesmo àquilo que lhe pertence em favor dele, então o jejum não será causa de tristeza, e sim de alegria, porque foi gerado vida no irmão. É a capacidade de saber ler em si os sinais de que tal coisa (alimento, vestimenta, recurso, oportunidade) não fará falta e poder renunciar aquilo para que o outro tenha. Não é o que está sobrando, mas é o que não fará falta, e que pode estar fazendo falta para o outro, por isso, posso abrir mão. Equilibrar-se, através do Jejum, para poder nutrir ao outro naquilo que lhe falta e, que, portanto, está a gerar desequilíbrio na vida dele. Assim age o Pai do Céu com seus filhos. Quando o discípulo age da mesma forma que Deus, ele é restituído em sua condição de filho de Deus. “E o teu Pai, que vê o que está oculto, te restituirá a Sua imagem”.

Assim, a quaresma não pode ser vista e compreendida como tortura ou “autoflagelo” do coração e da alma. Ela é, sim, sinal de mortificação para aquilo que é morte em nós e nos tira a condição de filhos de Deus. As cinzas que são colocadas sobre nossas cabeças possuem um duplo significado: morte e vida. Morte no sentido de recordar a condição finita do ser humano como pó. Mas de vida também. Na vida rural, em tempos antigos, as cinzas eram utilizadas como fertilizante durante o inverno, para ajudar a manter o solo rico, a fim de que a plantação pudesse florescer. Ao receber as cinzas sobre a cabeça, o fiel se abre ao convite para bem preparar a sua caminhada, recordando que é do pó da terra, da adamah performada por Deus; assim como é um solo a ser cultivado para que nele floresça a força da vida nova, através da Páscoa da Ressurreição do Senhor, e lhes seja restituída a condição de filhos e filhas de Deus.  

Para viver um pleno itinerário quaresmal se faz necessário assimilar o agir do Pai celeste. Só assim será possível florescer em ressurreição e vida.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco de São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO PARA O VI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,17-37:


O sexto domingo do tempo comum continua a leitura do sermão da montanha. O texto proposto para a nossa meditação é Mt 5,17-37. Denso, composto de vinte versículos que, devido a sua dimensão, não é possível refleti-los individualmente. Por isso, optamos por realizar uma leitura e compreensão de seu conjunto. Para isso tomemos alguns versículos norteadores que servirão como chave de leitura e auxiliarão a compreender o texto enquanto Palavra de Salvação.

Os versículos 17-37 estão estreitamente conectados com os anteriores. "Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento” (v.17), diz Jesus. Os ouvintes – multidão e discípulos – se deparam com esta afirmação do mestre, a qual Mateus recupera e transmite para a sua comunidade. Este dito necessita ser lido e compreendido a partir destes dois horizontes. Na verdade, o Senhor não diz que veio para abolir. A tradução latina empobrece o termo, que melhor aparece no original grego. O evangelista, ao escrever o texto, se serve do verbo “demolir” (gr. καταλύω/katalûo). A tradução mais coerente seria “Não penseis que vim demolir a Lei e os Profetas...” Lei e Profetas acenam para a completude das Sagradas Escrituras: as Escrituras como um todo.

Jesus, na perspectiva de Mateus é o novo Moisés, o qual levará à sua plenitude, isto é, a seu cumprimento e realização, a Lei e os Profetas, ou seja, a Palavra de Deus. A forma através da qual Ele realizará esta plenitude das escrituras serão a sua vida, as suas Palavras que, agora, adquirem força de ensinamento autorizado, que apresentam um novo modo de relação com Deus. Não mais através de normas e preceitos, doutrinas e rubricas, mas do amor, da misericórdia e do serviço a todos e a cada um.

Jesus adverte: “Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus” (v.19). A que mandamentos o Senhor se refere? Não são os mandamentos da lei de Moisés, os quais estavam obrigados a viver. E sim as bem-aventuranças. Quem não as viver, e, pior, ensinar os outros a descumprir ou anula-las será considerado menor no reino. Menor, não no sentido da estatura ou da posição que ocupa hierarquicamente, ou seja, no âmbito quantitativo, mas no sentido qualitativo. Não será considerado discípulo do Reino.

 “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (v.19). A fé e a religiosidade devem acompanhar a vida do discípulo do Reino, segundo Jesus. Por isso, insiste na chamada de atenção. O que seria esta justiça? Este termo aparecerá novamente no capítulo sexto, com a mesma sentença. Mas aqui está relacionada ao agir do discípulo em consonância com as bem-aventuranças. Suas atitudes devem se diferenciar das dos religiosos e líderes do povo, os quais cumpriam a lei e a justiça de uma forma automática, descomprometida da vida e das relações. Bastava que fossem agradáveis à Deus, e que os colocassem numa posição de vantagem diante Dele, em detrimento dos outros. Este era o ensinamento dos chefes religiosos do povo; era a teologia da época de Jesus. Ele não concorda com essa forma de ser, pensar e agir.

Dos versículos 21-37, Mateus pretende mostrar a interpretação que Jesus faz dos preceitos da lei. Interessante que o evangelista acena para o fato de que o mestre interpreta as normas que estavam relacionadas às relações humanas. A cada afirmação da lei, o catequista bíblico coloca a fórmula “Eu, porém, vos digo” nos lábios de Jesus. Esta é uma formula de reinterpretação. São cinco os preceitos que o Senhor se põe a reinterpretar e reordenar à sua forma original, ou seja, ao seu pleno cumprimento. Cinco é um número simbólico que acena para os cinco primeiros livros da lei. O autor do evangelho quer ensinar para sua comunidade leitora e para as gerações seguintes que Jesus é o verdadeiro legislador e intérprete das Escrituras. Ele está, portanto, reinterpretando as leis e levando-as a sua perfeição. Ou seja, o que Jesus está falando está em perfeita sintonia com a Palavra de Deus. A legislação que o Cristo realiza leva, portanto, ao desejo original do Pai ao comunicar sua palavra de Aliança.

A primeira prescrição sobre a qual Jesus se debruça a interpretar e reorientar é a que se refere ao mandamento de “não matar”. Ela serve de chave interpretativa para as outras quatro. “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal'. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno” (v.21-22). Estes insultos, traduzidos pelos adjetivos “patife (gr. Ῥακά/Raká)” ou tolo “(gr. μωρός - Μωρέ/Moré)” dão a conotação de uma pessoa incapaz, desabilitada.

Jesus conhece muito bem os sentimentos humanos, mas adverte para o descontrole a que pode chegar o discípulo. Se a raiva se transforma em insulto, e, se com o insulto se pretende eliminar e excluir o irmão do horizonte de convivência e fraternidade, já se está matando o irmão. A interpretação profunda do delito de matar que Jesus oferece deve levar o discípulo a refletir sobre suas atitudes. Não se mata com violência física, apenas. Mata-se, e, portanto, tira-se a possibilidade de vida e a dignidade do outro com as palavras que ferem e que tem poder de gerar a diminuição, exclusão, marginalização. Desconsideração, marginalização e exclusão são mecanismos de morte!

Para Jesus, matar as relações com outro seria o mesmo que matar a relação com Deus. Assim como para os profetas, que já chamavam a atenção do povo de Israel para o perigo de uma vida de fé (a relação de Aliança com Deus), descomprometida da vida real, social e das relações com o outro, o Senhor também alerta os discípulos de todos os tempos e lugares para o perigo de uma vida de aparências com Deus, através de uma religiosidade descompromissada com o amor, a fraternidade, a misericórdia e o serviço para com o outro.

Não há, para ele, relação com Deus, que não passe pelas relações humanas e fraternas. Por isso, qualquer juramento feito à Deus fica comprometido. É para este perigo que o mestre quer advertir, de modo que seus discípulos não vivam de aparências e da incoerência entre a fé, a vida e as relações interpessoais.

O entendimento e a nova interpretação que o Mestre tem acerca do preceito “não matar” lança luzes para as outras quatro prescrições também interpretadas por Ele. Dos versículos 27-32, ele faz uma nova interpretação acerca dos mandamentos de não cometer adultério e de não se divorciar, os quais também tocam as relações humanas. Estas atitudes eram frequentemente condenadas pelos profetas, pois atentar contra o matrimônio era atentar contra a Aliança com Deus, da qual esta realidade relacional era metáfora. O casamento era símbolo da Aliança e sinal da Realidade do Reino de Deus. Romper ou atentar contra ela representava o risco da quebra da relação com o próprio Deus, mas não só: a quebra da relação com outro.

No caso do divórcio e do adultério, desintegrava-se a relação de alteridade, o amor de um para com o outro, e, pior, promovia a marginalização da parte mais frágil, a mulher – conforme a mentalidade machista, patriarcal, mercantil e utilitarista do homem da época. Colocava-se numa dinâmica de diminuição, marginalização, hostilização quem se devia proteger e considerar. Estas atitudes, na compreensão de Jesus, correspondem também ao delito de matar.

Jesus não está preocupado unicamente com o sentido de uma lei ou interpretação humana que os religiosos de seu tempo faziam com muita habilidade, inclusive para legitimar o modo de vida deles, mas com a vida da pessoa humana colocada em situações de vulnerabilidade como era o caso da mulher, que, naquele contexto seria a parte mais lesada tanto no adultério como no divórcio. Uma vez que o homem conseguiria muito bem se safar de todas as situações. Nada diferente de hoje. Porém, para o Cristo, o ser humano está acima, sim, de qualquer lei, principalmente os frágeis e indefesos.

O que Jesus quer dizer com “uniões irregulares”? Há uma dificuldade de se traduzir e, portanto, compreender hoje o que o termo grego “pornéias” (gr. πορνείας). Os destinatários imediatos do texto, isto é, a comunidade para a qual Mateus escreve sabiam o seu significado. Os leitores-ouvintes de hoje, não. Por isso, é plausível traduzir uniões irregulares por uniões ilegítimas. Uniões ilegítimas são aquelas que não devem nem deveriam ter existido jamais. Que ao invés de gerar vida e amor para o casal e para cada um, na verdade se tornam lugares de impossibilidade de vida e, portanto, morte. Na perspectiva de Jesus, tais uniões não podem ser a meta da vida a dois para o discípulo do Reino, pois podem representar o risco da perda de sua humanidade e da dignidade de Filho (a) de Deus.  Quais seriam elas? Interesses (ele (a) pode me proporcionar vantagens, bem-estar, conforto, ascensão e prestigio social), mesmo sabendo que a pessoa não possui um mínimo de equilíbrio emocional, psíquico; por aparência (principalmente para salvaguardar a imagem de uma das partes diante das exigências dos padrões atuais), mesmo sabendo que a pessoa é violenta, possessiva, abusiva, falha de caráter; por carências e necessidades afetivas, as quais apontam para possíveis inseguranças, medo de rejeição, de desamparo. Isso para ambos os lados.

De 33-37, Jesus abole a permissão de se fazer juramentos. Os chamados “juramentos ao Senhor”, contidos em Dt 23,22-24 e Nm 30,3.33. Por que? Precisamente devido ao fato de que a palavra do discípulo do Reino deve ser autêntica, e, por isso, digna de crédito, podendo dispensar qualquer reforço para que sua eficácia fosse garantida. Basta a sua palavra e verdade de si, porque aderiu ao projeto do Pai e de Jesus. Seu Sim é sim, e seu Não é não, ou seja, coerência em relação à proposta do Reino, sintetizada pelas Bem-aventuranças.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


Excurso:

 

Ninguém nasceu para ser infeliz, principalmente numa relação a dois, ainda mais se ela foi elevada à dignidade de matrimônio/sacramento. Todavia diante dos fatos que se avolumam em nosso contexto social no tocante à violência doméstica, se faz necessário também, à luz deste texto evangélico, uma reflexão. Estamos no quadragésimo quinto dia do ano de 2026, e, desde o seu início chovem notícias dessa natureza. Diante das infelicidades vividas numa relação, qual a orientação da Igreja? Acima de tudo acolhimento, empatia e compreensão.

Ninguém adultera sozinho, nem por esporte ou hoby. A não ser que que uma das partes apresente um desequilíbrio psicológico. Ninguém se divorcia por diversão, salvo por imaturidade e irresponsabilidade afetiva. E não se trata justificar uma atitude ou outra; antes, se faz necessário compreender as histórias pessoais de ambas as partes.

A propósito, Jesus era muito consciente da realidade que o rodeava e das hipocrisias religiosas de seu tempo. Ele sabia que o homem com suas atitudes machistas e descompensadas também favorecia o adultério da mulher. Falta de amor, falta de companheirismo, falta de cumplicidade, de afeto, falta de compreensão para com o tempo e necessidades básicas da esposa, tratamentos indevidos e vexatórios, expondo as feridas do relacionamento ou limites pessoais, humilhações, e, por fim, a violência que elas sofriam. Por exemplo, fazendo uma relação com o texto de Jo 8, na narrativa da mulher adúltera, Sua atitude diante daquela situação foi a de não julgar, muito menos condenar: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais.”  E, a bem da verdade, com esse dito, sequer ordena que ela volte para antiga relação, a qual Ele sabia que não era mais espaço de vida para ela. “Vai e não peques mais” é um incentivo para que a personagem se reconstrua e possa viver uma nova vida.

Ninguém se divorcia somente por diversão. Também aqui se faz mais do que necessário compreender a história antes de julgar. Existem feridas no âmbito da vida a dois que já nasceram inclusive antes de se contrair Matrimônio, que precisam ser levadas em consideração, porque não foram dadas as devidas atenções no início, e, que, agora, influenciam na manutenção na ruptura do vínculo. Ou que vão nascendo no curso da relação. Por isso, se existem problemas, procure-se ajuda. Um acompanhamento terapêutico. Todavia, se a infelicidade existe e persiste, e dela decorrem desamor, desrespeito, e todo e qualquer tipo de violência, a Igreja orienta e ensina que: “A separação dos esposos, permanecendo o vínculo matrimonial, pode ser legítima em certos casos previstos pelo direito canônico. Se o divórcio civil for a única maneira possível de garantir certos direitos legítimos, tais como o cuidado dos filhos ou a defesa do património, pode ser tolerado sem constituir falta moral” (cf. C.Ecc.Cath, n.2383). Recorrendo ao Código de Direito Canônico, pode-se encontrar no cân.1153 o seguinte: “Se um dos cônjuges é causa de grave perigo para a alma ou para o corpo do outro cônjuge ou dos filhos ou, de outra forma, torna muito difícil a convivência, está oferecendo ao outro causa legítima de separação (cf. C.I.C, cân.1153)”.

Uma orientação absolutamente cristã, porque advém do Evangelho: quem passa por esta situação reconcilie-se e refaça o vínculo, cada um procurando os auxílios necessários, isto é, terapia e aconselhamento. Porém, se a vida se torna difícil e insustentável, a tal ponto de que a vida e a dignidade de ambos se encontrem ameaçadas procurem outro caminho. Não se obriguem, tampouco se torturem. Não se violentem.

Termino com uma máxima da Teologia Moral pré-Vaticano II: “ninguém está obrigado ao impossível.” Entendamos um pouco mais e melhor do Evangelho do Senhor, que gera e orienta a Sã doutrina da Igreja.

A quem passa ou passou por isso, e, graças a Deus, não teve um desfecho nefasto (ainda), procure ajuda enquanto é tempo.

A quem não passa, Graças a Deus: mas menos julgamentos e mais compreensão. Menos hipocrisia e mais empatia.

Não transformemos a vida alheia num tribunal popular.

Absolutamente nada justifica um homicídio. Principalmente para se culpar alguém. Isto está muito longe de ser considerado algo tão sagrado como o AMOR. 

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,13-16:

 


O evangelho proposto para a liturgia dominical segue na continuidade das bem-aventuranças, que são o início do Sermão da montanha, o discurso inaugural de Jesus no evangelho segundo Mateus (Mt 5 – 7). Os quatro versículos são poucos, mas muito densos e carregados de significado para os discípulos de todos os tempos e lugares.

Ao concluir as bem-aventuranças, Jesus apresenta aos seus ouvintes, a multidão e os discípulos, que subiram ao monte com Ele as exortações a seguir. Pode-se afirmar, que o texto evangélico deste domingo pretende ilustrar o meio através do qual o discípulo do Reino pode e deve viver as bem-aventuranças, e, portanto, ser discípulo do Senhor. Portanto, a cena evangélica de hoje aponta para a dimensão ética da vivência de Seu ensinamento e do projeto do Reino.

Jesus se dirige aos seus discípulos, usando imagens que são vitais, sobretudo porque são necessárias e insubstituíveis. O texto diz: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (v.13). Estas palavras, evidentemente, Jesus as dirige para seus discípulos, mas não se pode esquecer que ele também está falando para as multidões. Portanto, estas palavras possuem um alcance universal. Ora, trata-se de um projeto de vida aberto a todos; todos são convidados a viver as bem-aventuranças, como se refletiu no trecho meditado anteriormente (Mt 5,1-12).

O Sal era utilizado na antiguidade e no tempo de Jesus para dar sabor, conserva o alimento e para purificação. Adicionado ao alimento, ele o nutre de sabor. O Senhor usa este tempero para fixar na mente e no coração do discípulo o convite proposto pelas bem-aventuranças: o chamado a ser feliz a partir do projeto do Reino. Como o sal que conserva, o discípulo deve conservar o projeto de Deus em sua vida e na do próximo.

Ao mesmo tempo, Jesus, se servindo deste elemento, propõe um modo de ser para o discípulo: a discrição e a capacidade de servir. A discrição: como o sal, que está misturado no alimento, assim deve ser o discípulo, ou seja, ele deve estar misturado na realidade, na história, colaborando para com o nutrimento das pessoas. Ninguém consegue ver o sal quando já está mesclado ao alimento, mas se consegue sentir seu paladar. Assim também deve ser a atitude do discípulo: como o sal, “perder-se” no alimento, ao mesmo tempo que gera a nutrição no irmão. Uma forma muito simples e pedagógica de ensinar não se deve ser e estar em evidência, tampouco chamar para si a referência na missão, mas, a exemplo deste tempero que não se vê, mas se sente, apontar a direção, indicar o projeto do Reino, sem chamar a atenção. Sem barulhos. Mas com sabor, isto é, com aquela propriedade geradora e alimentadora de vida: as bem-aventuranças.

Jesus diz que o discípulo é “Sal da terra”. Interessante este acréscimo, o qual serve para reafirmar que a utilidade deste condimento não está exclusivamente destinada a uma tarefa, mas possui uma finalidade muito ampla: a terra como toda a realidade criada; em todas as circunstâncias. “Sal da terra” acena para o fato de que, independentemente da situação, ambiente ou circunstância que o discípulo se encontre deve manter verdadeiramente viva a Boa Notícia do Senhor, seja em sua vida ou na vida do outro, sem jamais deixa-la faltar.

Com razão Jesus adverte: “Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (v.13). Como entender este dito? Com o auxílio do texto grego do evangelista. O original traz outro termo par a palavra “insosso”, moraíno/μωραίνω. Aparecerá, novamente, no capítulo sétimo, quando Jesus falará do homem insensato que construiu sua casa sobre a areia. Moraíno (gr. μωραίνω) indica a perda da razão de sentido. Jesus está advertindo o discípulo, que, enquanto sal, pode correr o risco e a tentação de tornar-se insosso, ou seja, perder sua razão de sentido. Seria uma forma de Jesus dizer, “torna-se sem razão de sentido quem deixou de conservar a Boa Nova em sua vida, quem perdeu ou deixou perder o sabor do Evangelho”. Qual seu destino? Segundo o Senhor, ser jogado fora e pisoteado pelos homens. Entenda-se: este dito não expressa qualquer tipo de condenação, seja da parte de Deus, ou de Jesus àquele que perdeu o sentido evangélico da vida, mas tão somente uma constatação de uma consequência que o mestre faz. O sal era imagem da sabedoria; o sábio, portanto, deve ser semelhante ao sal; já o sal sem sabor era símbolo da pessoa que se tornara estulta e ignorante.

Jesus utiliza outra imagem para indicar a missão do discípulo: “Vós sois a luz do mundo” (v.14). Para um judeu piedoso, tal afirmação deste rabino que ensina gente simples seria inconcebível. Por que? A luz, conforme a tradição bíblica e religiosa do povo de Israel era uma imagem simbólica aplicada à cidade santa, Jerusalém, ao Templo e à Torá, enquanto Palavra de Deus. Mateus discorda e opera uma nova aplicação ao recordar o ensinamento de Jesus. Para eles, não são mais estas realidades que iluminam o mundo, mas os discípulos de Jesus, iluminado por seu ensinamento que tem estatuto de Palavra de Deus pode, portanto, ser luz no mundo e para o mundo. Iluminar a realidade e a história a partir de Jesus.

O v.16 encerra o texto litúrgico mostrando como que o discípulo ilumina a realidade e a história através das boas obras que realiza: “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus". As obras das quais fala Jesus são os frutos na vida do discípulo, iluminada pelo projeto do Reino, as bem-aventuranças. Através dela transparece e brilha a ação mesma de Deus. Neste sentido é que as pessoas poderão glorificar ao Pai que está no céu: porque Ele torna-se presente e visível através da ação e da palavra de Jesus e de seus discípulos que iluminam a história, a realidade, as situações, as circunstâncias e a vida das pessoas. Todavia, o ensinamento enfoca as obras de Deus, e não a luz própria do discípulo. Este apenas deixa que a luz e as ações de Deus perpassem a sua vida.

Que o evangelho de Jesus possa sempre mais fazer com cada discípulo acolha a vocação de ser sal e luz. Conservar-se a si mesmo no projeto e na realidade da Boa Notícia do Reino e, assim, conservar o irmão neste modo de ser e de existir proposto por Jesus. Que cada discípulo possa favorecer o nutrimento de cada pessoa através do sabor do Evangelho (do Cristo). Que a exemplo do Senhor, cada um possa ser foco de luz a iluminar caminhos, realidades, histórias através das boas obras, as quais revelam Deus-conosco.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio. 

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu.


sábado, 31 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,1-12:

 


A eucaristia dominical deste quarto domingo do tempo comum, propõe o início da da meditação do Sermão da Montanha, sessão literária que compreende Mt 5 – 7. Na catequese mateana este bloco apresenta o discurso inaugural de Jesus. Este primeiro ensinamento recuperado e transmitido pelo evangelista é de fundamental importância para a comunidade dos primeiros discípulos que está nascendo e para as próximas gerações de discípulos. Conforme os métodos e a pedagogia, próprias do autor, a saber, a recuperação das personagens históricas e da tradição religiosa de Israel, dos eventos e acontecimentos da história do povo, com maestria ele faz convergir todos estes elementos para sua personagem principal, Jesus. Através dele procura fazer uma releitura (reinterpretação) da Palavra de Deus, (a Torá).

Uma constatação a nível de contexto amplo do texto. O capítulo cinco inicia-se depois de haver retornado do deserto, após o batismo de João, e ter iniciado sua missão naquela Galileia das nações. Ali, chamou e reuniu um pequeno grupo de discípulos para segui-los, para, depois fazer deles pescadores de homens. Ocorre, em seguida, a transição de cenário. Não estão mais nas margens. Jesus e seus discípulos, seguidos de uma multidão (Mt 4,25), chegam a uma montanha no território da Galileia.

O evangelista, em seu propósito catequético e literário, identifica a Jesus como o novo Moisés, que dá, agora, um sentido novo, pleno e definitivo à Lei. Este sermão da montanha se abre com as chamadas bem-aventuranças. Elas são mais extensas em Mateus que em Lucas (cf. Lc 6), e fazem parte do gênero literário de profecia e de congratulações ou felicitações, podendo ser de estilo sapiencial ou escatológico.

Em Mateus, elas são no total de oito sentenças que, ao todo, são compostas de setenta e duas palavras. Todos estes elementos simbólicos carregam de força e de sentido o texto. O número oito é utilizado para fazer a memória da ressurreição, pois o primeiro dia da semana acaba sendo o oitavo. É o dia da nova criação estabelecida em Jesus, o Ressuscitado. É uma maneira que o evangelista tem para dizer à sua comunidade que o ensinamento contido nestas oito sentenças está repleto de plenitude de vida. A vida do ressuscitado se faz ver na comunidade quando esta se propões a viver as bem-aventuranças. O número setenta acena para a temática da universalidade da salvação. Esta proposta de vida, pautada pelas bem-aventuranças é aberta a todos. Cada pessoa pode dela participar e viver.

“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los (v.1-2)”. Dois pormenores merecem a atenção do discípulo-leitor nestes dois versículos introdutórios: a personagem da “multidão” e a montanha (lugar teológico).

Do começo ao fim de seu evangelho, Mateus retrata a existência de três grupos “programáticos”, por assim dizer. A multidão, os discípulos e os apóstolos. A multidão. Esta, ao interno do evangelho de Mateus, será sempre o grupo que apenas ouve falar de Jesus, se encanta com suas palavras e com seus ensinamentos, mas não dá o passo decisivo e qualitativo para o discipulado, ou seja, não compromete a vida com o ensinamento e a Sua vida. Os discípulos, pelo contrário, são aqueles que aderiram ao ensinamento de Jesus, saíram da multidão e deram o passo do discipulado, permanecendo com Ele, para, mais tarde, tornarem-se apóstolos, missionários do Reino. Mas esta condição de apóstolo/missionário não exclui a de discípulo. Tampouco o eventual retorno ao grupo da multidão. E isso acontecerá não como castigo, mas como medida educativa a fim de que a pessoa possa sempre refazer o caminho. Para Jesus e Mateus, nada está garantido. Por isso, deve cuidar para sempre estar ao redor das palavras e da vida do Mestre. Assimilar o sentido delas, bem como de sua vida.

A montanha. Ela remete o leitor-discípulo do primeiro evangelho a outra montanha importante na história do Povo: o Sinai. Ali, YHWH ofertou a Lei, o decálogo, à Moisés. Mateus quer ensinar para os fieis-discípulos de sua comunidade que o que Jesus é o novo Moisés. Ao sentar-se, assume a função privilegiada do mestre a ensinar. Portanto, o que virá a seguir é um ensinamento novo, que conduz a Lei à sua superação. A autoridade de intérprete das escrituras está no colo e na boca de Jesus. Ele é o plenipotenciário autorizado para transmitir e ensinar a Palavra de Deus.

Jesus começa o ensinamento, dizendo: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus (v.3)”. A tradução mais acertada desta primeira bem-aventurança, conforme nos mostra o texto grego, seria: “Bem-aventurados os pobres com o / no espírito...” Junção da preposição em + o, que resultaria na expressão “pobres no espírito”: aqueles que estão no Espírito de Deus; ou “pobres com espírito (de Deus)”. Esta categoria pode admitir duas interpretações: 1) São todos que, mesmo na condição da marginalização, estão em comunhão com o Espírito de Deus, ou seja, que vivem segundo o Espírito de Deus. Imersos no dinamismo de vida que pertence ao próprio Deus. 2) “pobres pelo/a partir do espírito”, e aqui Jesus não estaria se referindo ao Espirito de Deus, mas ao ser humano mesmo que, a partir de sua própria condição escolhe voluntariamente entrar e assumir esta lógica de vida, nesta condição de pobreza. Mas não para se fazer mais um entre os que já existem, e, sim, ajudar a eliminar todas as causas de pobreza, marginalização, exclusão.

 Mas, por que são declarados felizes por Jesus? Em virtude da atitude de se apresentarem diante de Deus com as mãos vazias, porque souberam abdicar da autossuficiência e do orgulho. Em outras palavras, são chamados felizes em razão de sua coragem e coerência com o querer de Deus, a cooperar com a construção do Reinado de Deus no já, no aqui e no agora; e, por isso, entrarão definitivamente, no mundo dos ressuscitados para a vida.

No v.4, Jesus declara serem bem-aventurados, os aflitos (os que choram, em Lc 6). Mateus mudou a versão de Lucas embasando-se na profecia de Is 61, onde se lê que “O Senhor me enviou para consolar os aflitos”. Os aflitos são aqueles sofrem os golpes de uma realidade que ainda está sob influência das forças contrárias ao Reino, o Mal. Vítimas da violência e da injustiça, que não tem a quem recorrer, mas que tem a Deus para consolá-las. Quando os valores do Reino não permeiam as relações interpessoais e o tecido social, as pessoas são cruelmente violentadas. O senhor declara que Deus mesmo será o consolador, sofrendo com elas (Is 40,1; 61,2). A consolação prometida é a salvação final e definitiva.

Na mesma lógica, Jesus diz a bem-aventurança dos mansos (v.4). Os mansos, pela força de Deus, recusam-se a ser violentos e, desta forma, quebram a maldita espiral da violência. Portanto, serão herdeiros da terra que, com seu gesto de resistência não violenta, ajudaram a construir (SI 37[36]). Com certeza esta bem-aventurança foi criada por Mateus, inspirando-se no Sl 37. Diante dos outros, o manso apresenta-se desarmado, sem defesas nem esquemas ou autoproteção, colocando-se na dinâmica da não-violência. Um modelo perfeito desta bem-aventurança é o próprio Jesus (Mt 11,29, “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”).

A bem-aventurança relacionada aos famintos e sedentos de justiça pode ser compreendida de duas maneiras: 1) Os famintos e sedentos da justiça não têm quem os defenda para fazer valer seus direitos. Na Lei mosaica, todos e, especialmente, os mais fracos e desprotegidos deveriam ter um protetor (go’el). No projeto de Jesus, o Pai será o go’el dos discípulos do Reino. Esta bem-aventurança é difícil de traduzir do original grego, que, literalmente poderia vir traduzida assim “Felizes os famintos e sedentos da justiça”. O artigo “a” faria referência à Justiça do Reino (cf. Mt 5,20). E, sendo assim, esta bem aventurança abre-se para uma segunda interpretação: 2) os bem-aventurados por terem fome e sede da Justiça do Reino são saciados quando colaboram para que esta Justiça (que é o agir e a vontade de Deus acontecendo na história) se cumpra, ou seja, se propõem a fazer aquilo que o pai quer.

No v.7, Jesus declara: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Um tema muito querido por Mateus. A misericórdia na bíblia não se trata de um sentimento, mas de uma atitude operativa em favor do outro. É uma atitude relacionada à vida concreta. Na mentalidade do evangelista, o Pai, no último juízo, se mostrará misericordioso com aqueles que viveram a experiência do amor e da misericórdia em relação ao próximo. Quem tem o coração e a vida cheios da misericórdia puderam assimilar o modo de ser de Deus, cuja bondade é eterna (SI 136 [135]). Assim, viverá da misericórdia do Pai.

A bem-aventurança relacionada à pureza de coração deve ser entendida corretamente. São aqueles que são puros desde o íntimo do ser, para além das aparências. Não são pessoas de fachada. Sem falsidades. São transparentes, e essa condição os coloca lado-a-lado com Deus.

Os “fazedores de paz (gr. εἰρηνοποιός / eirehnopoiós)” empregam toda sua vida para construir o Shalom (paz) neste mundo, propiciando um nível de vida humano e justo onde todos desfrutem do bem-estar e da prosperidade. Serão chamados filhos de Deus por construírem o mundo desejado por Deus. São aqueles que colaboram para o diálogo, a concórdia, a reconciliação entre as pessoas, costurando novamente os fios corroídos das relações humanas e selando os laços da fraternidade. Jesus diz que, no último dia, estes serão reconhecidos solenemente por Deus como autênticos filhos seus.

Nos vv.10-12, Jesus diz diretamente aos discípulos (bem-aventurados vós...) que estes são felizes por serem perseguidos por causa da Justiça, recebendo injurias, sendo alvos de mentiras por causa dele. Os discípulos deverão se alegrar e exultar, porque a recompensa nos céus será grande. Quem assume viver a dinâmica do Reino, abraçando a causa de Jesus (o cuidado com os pobres e enfermos; acolhendo os marginalizados, excluídos; procurando e colocando-se ao lado dos pecadores, dos injustiçados, das minorias; libertando as consciências das pessoas oprimidas e chamando à conversão a todos), atrai sobre si insultos, perseguições, mentiras e maledicências. Todavia, os perseguidos por causa da justiça (o querer/vontade de Deus), não devem temer, tampouco recuar, pois já possuem a recompensa mais valiosa: o Reino dos Céus. Essas situações difíceis são para eles motivos de alegria e de exultação, contrariando as expectativas do mundo que os quer tristes, resignados e derrotados.

O Sermão da Montanha, para o leitor-ouvinte do evangelho de Mateus funciona como um caminho programático que deve tocar bem fundo na ética do discípulo do Reino; o modo de ser e agir, propostos aos que são chamados ao discipulado/seguimento ao Deus do Reino, a partir de Jesus, que, por primeiro, na concretude existencial de sua vida, se empenha por vive-las.  No discurso inaugural, bem como em toda a sua vida, Ele não prega um moralismo desencarnado da história humana. Suas palavras apontam, antes, para um ideal, um projeto de vida, que tem o Pai como fundamento e modelo, e que toca a concretude da existência. As bem-aventuranças compreendem, nesse sentido, a síntese do programa de vida de Jesus e dos discípulos e discípulas de todos os tempos e lugares.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 24 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 4,12-23:

 


O evangelho proposto para o terceiro domingo do tempo comum é retirado do quarto capítulo do evangelho de Mateus, o qual apresenta o início da missão de Jesus ao retornar da experiência do deserto, após a prisão do Batista: “Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia” (v.12).

O capítulo quarto apresenta uma dinâmica narrativa interessante. Narra as tentações de Jesus no deserto após a sua investidura pelo Espírito no Jordão, no Batismo, e, em seguida o início da missão messiânica. Mateus deseja ensinar para sua comunidade e para os leitores das gerações futuras que a forma de Jesus ser messias será perpassada pela constante tentação (as quais meditaremos no tempo quaresmal), e que a sua missão começará pelas margens da vida, simbolizadas pelas margens do mar/lago da Galileia: uma ação salvadora do Deus-Conosco (Emanuel) que deseja ir buscar a todos, começando pelos lugares inóspitos e indesejáveis (Galileia). Foi precisamente para isso que ele foi ungido como Messias.

Duas contextualizações importantes que precisam ser feitas: a missão de Jesus inicia-se após o evento da prisão de João Batista. Por que? O profeta do Jordão, por conta de sua fidelidade à missão de preparar a chegada do Reino e, devido à sua popularidade foi posto na prisão por Herodes. O autor do evangelho quer antecipar para os membros de sua comunidade, de modo narrativo, o que acontecerá com Jesus. Por conta da fidelidade ao Pai, à missão e ao anúncio do Reino, terá ele o mesmo destino do profeta batizador. Assim como João Batista preparou o caminho para a vinda de Jesus, o Messias, ele também abrirá a estrada para a paixão e a morte, a partir de sua prisão e morte.

A segunda informação importante diz respeito à localização geográfica que Mateus oferece (comum aos outros dois evangelhos sinóticos, Mc e Lc): a Galileia, na cidade de Cafarnaum, território de Zabulon e Neftali, duas tribos do reino de Israel do norte, que já eram extintas. Quase não se ouviam falar delas. Nazaré sequer constava no mapa daquela época. A mentalidade do judeu piedoso, que residia no Sul (Judá – Jerusalém) acerca das pessoas que viviam no Norte era desdém, desprezo, de rechaço, porque aquela região não conservava mais um judaísmo e uma população puros devido à invasão assíria em 722 a.C, que povoou a Samaria com outros povos. O que causou uma miscigenação naquela região. A pureza da raça não existia mais, e um judaísmo hibrido surgia ali. Assim, aquela terra foi sempre malvista pelos terrivelmente religiosos. Jesus começa lá a sua missão; num lugar em que, um líder que se prezasse, jamais pensaria em estar.

Por que o evangelista utiliza a citação de Is 8,23: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz” (v.15-16). “Galileia dos pagãos”, diz a tradução correta. Se o leitor permanecer somente no enunciado, não será capaz de assimilar a profundidade da mensagem que o texto traz. O termo “pagãos” deve ser traduzido por “nações” (gr. ἔθνος/etnos). Mateus fala de uma Galileia das nações porque, conforme sua intenção teológica, a Boa Notícia que Jesus vem proclamar é destinada à todas as pessoas, de todos os lugares, sem distinção. O desígnio divino de salvação é destinado a todos!

No v.17, Mateus recupera o conteúdo da missão de Jesus: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. Na língua grega existem duas formas para o verbo converter: a primeira, relacionada a ação de retorno para Deus, da parte do homem. Esta forma adquire um sentido e significado mais religioso. Porém, a segunda forma, mais utilizada pelo evangelista, se refere à atitude da mudança da mentalidade (gr. μετανοέω/metanoêo).

Por que o autor prefere a segunda forma do verbo converter, ligado à mudança da mentalidade, e não a primeira relacionada à atitude da reorientação à Deus? Para ele não há necessidade que o discípulo realize a reorientação da vida o divino porque em Jesus, Deus se faz conosco. É o Emanuel. É ele que se dirige a cada pessoa humana. Esta é a grande revelação que o evangelista transmite: Jesus é o Deus-Conosco. Ora, se ele é Deus-Conosco, não há mais porque busca-lo. Antes, acolhê-lo. Não é mais necessário que o homem viva para Deus, mas em Deus e, a partir Dele e com Ele dirigir-se aos outros. A cena a seguir ilustra esta realidade.

“Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores” (v.18). Jesus, ao iniciar seu ministério na Galileia toma a atitude de constituir um pequeno grupo. Trata-se de um gesto institucional que marca o começo da missão. Ele chama dois pescadores, Simão e André, irmãos; e outros dois irmãos, Tiago e João, consertadores de redes. Evidentemente, os quatro exerciam a atividade da pesca. Estavam envolvidos neste contexto. A ação é ritmada pelo verbo “ver”, que é o mesmo verbo utilizado pelo autor do livro do Gênesis, que, ao narrar a criação, diz que “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Igualmente, Jesus vê naqueles quatro homens a característica principal e indispensável para a sua comunidade: a capacidade para a fraternidade, isto é, serem irmãos.

A pesca também era um trabalho que marginalizava as pessoas, e isso, devido a duas razões: ela acontecia no lago ou no mar, e estes ambientes eram considerados impuros, porque simbolizavam tudo aquilo que era oposição ao projeto de Deus. Por consequência produzia peixes bons e ruins; estes eram considerados impuros. O pescador acabava se contaminando com a impureza destes peixes, no processo da separação deles. Por isso, pagavam o preço da impureza ritual, sendo descriminados, conforme a mentalidade religiosa equivocada. Assim, ao chamar os quatro pescadores, Jesus os retira daquela situação de impureza, mas também pretende ensinar que aquela mentalidade era equivocada.

A missão messiânica de Jesus começa nas margens de um lago/mar, entre os que se encontravam nas margens da vida e da história, no intuito de mostrar que desta Boa Notícia de Salvação ninguém fica de fora; e que procura, chama e acolhe, com seus limites e suas imperfeições, para fazê-los participar de sua vida e missão. Isso precisa ser impactante para os leitores do evangelho de todos os tempos e lugares, porque ele poderia muito bem ter começado sua missão numa sinagoga, numa escola rabínicas da época, ou até mesmo no Templo de Jerusalém; e poderia ter reunido ao seu redor os mais exemplares religiosos da época. Ele escolheu quatro tipos de pessoas que nada tinham para lhe dar, e não os terrivelmente religiosos. Porque ele sabe que estas pessoas são totalmente refratárias ao convite à conversão, ao novo e à mudança da atitude; pensam-se superiores aos demais devido ao estilo de vida que levam. Creem-se já salvos e justificados.

“Jesus disse a eles: Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. A diferença do costume judaico, em que o discípulo escolhia o mestre, o Jesus de Mateus quebra esse costume, escolhe e chama para segui-lo. Ele não convida a estudar a Lei/Torah, mas à uma ação prática que estava perfeitamente dentro do ambiente vital deles. Eram pescadores. Sabiam o que significava pescar o peixe: tirar este animal do seu habitat natural e traze-lo para terra, onde se encontrariam com a morte. Ora, os peixes não vivem fora da água. Mas os seres humanos não sobrevivem na água, pelo contrário, correm risco de vida.

Por isso, Jesus os chama para fazer o contrário: pescar gente. Ele está transmitindo aos discípulos a missão de salvar as pessoas que se encontram nas situações de morte (simbolizadas pela água, o mar), e transporta-las para a vida. A missão de trazer para a vida todos os que se encontram submersos nas situações de morte. Os quatro primeiros seguem-no. Deixam suas seguranças (as barcas, as redes e o conforto da casa, simbolizado pela figura do pai, no caso dos irmãos Zebedeu); o evangelista não narra uma só palavra deles a Jesus, não colocam suas condições, não pedem nada.

Um detalhe que merece a atenção são as redes para a pesca que eles utilizavam. O texto parece dar a entender que eles as abandonaram na praia após o chamado do Senhor. Não é o sentido correto. O evangelista deseja ensinar que, após a experiência com Jesus, os discípulos abandonaram o sentido equivocado do uso das redes. As redes simbolizam a vida. Os primeiros discípulos, ao fazerem a sua experiência pessoal com Jesus são chamados a converterem o sentido do uso de suas redes, ou seja, lança-las em prol do Reino. As redes (vida), que antes eram para seu próprio sustento, que davam-lhes a segurança, que motivavam a ganância, o lucro, os apegos aos projetos pessoais, a mentalidade equivocada do ter e do ser  deverão ser utilizadas agora à serviço do Reino e do Pai. Usar a rede da vida para cooperar com a missão de Jesus.

O texto se conclui com um breve sumário da atividade do Senhor: “Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo” (v.23). Trata-se de uma ação libertadora de Jesus. Pela primeira vez o evangelista utiliza o termo evangelho, isto é, Boa Notícia. Ela é anunciada numa sinagoga, lugar do estudo e da proclamação da Palavra. É uma forma muito sutil de Mateus ensinar que aquele lugar já não correspondia ao projeto de Deus. Ali, Jesus ensina e prega, e nunca será visto rezando ou estudando a Palavra. Mas lá, ao proclamar e ensinar a Boa Notícia, realiza, através de seu ensinamento a libertação das pessoas do peso da lei, e da imagem equivocada de Deus que as lideranças e a instituição religiosa transmitiam.

Permitamos que o Senhor passe pelas nossas margens, ressignifique sempre e constantemente nossas vidas, a fim de que possamos recuperar e ressignificar a vida dos que se encontram nas situações contrárias de vida, à margem da história e da realidade.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 17 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Jo 1,29-34:

 



O segundo domingo do tempo comum apresenta para a leitura e meditação eclesial o primeiro capítulo do evangelho segundo João. Há poucos dias, a Igreja celebrava o Batismo do Senhor, e as personagens do Batista e de Jesus retornam, mas sob a perspectiva do Quarto Evangelho.

A narrativa de Jo 1,29-34, encontra-se no Livro dos Sinais – a primeira sessão do Quarto Evangelho – e corresponde à semana inaugural do ministério de Jesus. O autor se põe a narrar os acontecimentos do segundo dia da missão do Senhor. O catequista introduz as personagens: “João viu Jesus aproximar-se dele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (v.29). Uma declaração muito forte e plena de significado, e que merece ser compreendida a partir de cada palavra. Em primeiro lugar, a quem o Batista dirige estas palavras, haja visto que ele se encontra sozinho após o encontro com os sacerdotes e levitas vindos de Jerusalém para interroga-lo acerca de sua identidade e autoridade? Esta afirmação colocada na boca do profeta do Jordão, na verdade se trata de um recurso literário do autor. Ele utiliza o verbo eidon (gr. εἶδον) no imperativo, ἴδε (Íde), o que geraria a seguinte tradução, “Olhai/vede” no sentido de prestar atenção. O evangelista quer ensinar quem é que deve atrair o olhar do discípulo. Isto é, para quem se deve agora olhar e ter como referência para a vida. Este homem para o qual João aponta é declarado como cordeiro de Deus. Esta primeira declaração acerca da identidade de Jesus precisa ser bem compreendida.

O evangelista se apropria do ambiente levítico-cultual dos sacrifícios de expiação dos pecados, realizados no templo de Jerusalém. Os judeus costumavam oferecer, diariamente, no Templo, bois, cordeiros, touros para expiar os pecados. As vítimas oferecidas em sacrifícios tinham função expiatória e finalidade reconciliadora. Esta era a mentalidade religiosa do judaísmo vivido por Jesus. O autor do Quarto Evangelho, ao transmitir sua catequese para sua comunidade, se serve do texto de Is 53,4-12, no qual o profeta fala da ação do Servo Sofredor de YHWH, que carrega sobre si os pecados do povo. Ou seja, uma pessoa que fosse capaz de reconciliar as pessoas com Deus poderia ser comparada ao cordeiro do sacrifício. Mas a imagem do cordeiro pode lembrar também o cordeiro pascal para as comunidades cristãs nascentes. Não se pode perder os dois horizontes de leitura e de interpretação do texto: o tempo narrado e o tempo da comunidade.

João Batista declara que Jesus, na condição de cordeiro elimina o pecado do mundo. Muito importante esta afirmação. João utiliza o verbo aîro (gr. αἴρω) que significa precisamente eliminar. A intepretação equivocada deste versículo pode levar a entender que a vida e a obra do Cristo consistiriam apenas em expiar os pecados com sua própria vida, como se o Pai o enviasse somente para morrer. Se deseja ensinar que a existência e o dom da vida de Jesus eliminam o pecado. A forma da Sua vida, isto é, como ele agirá, o que realizará, o que ensinará terá a força de eliminar toda e qualquer realidade contrária ao projeto de Deus no mundo e na humanidade. Isso, claro, se o homem fizer a sua opção fundamental por Ele.

 Mais ainda, para o evangelista João, Jesus é o Salvador não somente por tirar o pecado da realidade do mundo, mas por torna-se solidário com aqueles sobre os quais pesa o pecado. Ele mesmo sofre debaixo desse peso, não como culpado, pecador ou castigado em lugar da humanidade, mas como pessoa que, por sua fidelidade ao Pai, ainda que passando pela morte, abre um novo modo de existir.

O pecado para o evangelista é a atitude de rejeição a Jesus a ao projeto de Deus. Desse “pecado fundamental” é que nascem os demais pecados, que são frutos da rejeição de Jesus e sua prática libertadora enquanto cordeiro e servo. Quem não o reconhece está no pecado e nas trevas (cf. 1,10). Por isso, o “pecado” que o Cordeiro-Jesus retira não deve ser entendido no sentido individualista e moralista (os pecados da listinha). É o pecado “do mundo”. Mundo entendido, aqui, enquanto realidade contrária ao querer de Deus; tudo aquilo que possa indicar um projeto oposto ao Seu amor, que gera sempre uma ruptura que parece dominar a convivência humana e a relação com Deus; um projeto destrutivo, que desde a origem da humanidade é obra do “príncipe deste mundo”. A vitória do Senhor se prolonga na sua comunidade a partir da Páscoa, quando é dado o Espírito para tirar o pecado do mundo (20,19-23). Portanto, tirar o pecado do mundo seria o mesmo que doar e infundir o Espírito de Deus novamente no mundo. Por isso o Batista diz que este Cordeiro de Deus é aquele que batiza com o Espírito Santo, isto é, a plenitude da vida divina. É acerca deste Jesus que João dá testemunho.

O tema do testemunho é muito importante nos escritos joaninos. No Quarto Evangelho, o Batista não tratado como o batizador, como a voz no deserto conforme apresentado pelos evangelhos sinóticos. Aqui, ele é identificado como Testemunha. O verbo testemunhar (gr. μαρτυρέω/Martirêo) significa atestar, dar fé sobre algo ou alguém. Todavia, só pode dar testemunho, e ser considerada uma testemunha qualificada, aquele que fez uma experiência de vida com Jesus, de acordo com o evangelista. Qual o conteúdo do testemunho de João, o Batista? O v.29 responde: Jesus como o Cordeiro que tira o pecado do mundo e doador da vida de Deus.

O evangelista e o Batista querem ensinar, com isso, que, Jesus é o substituto e a superação de todo um sistema religioso-ritual do judaísmo antigo. Será Ele, através do dom de sua vida e obra, o encarregado de levar para fora do mundo, isto é, a realidade criada e a existência humana (o sonho original que Deus tem para seus filhos), toda a logica da ruptura, da descomunhão; aquilo que pode separar a pessoa humana de uma autêntica e profunda relação com Deus. Jesus, na perspectiva do autor do evangelho e do profeta João, será definitivamente aquele que retirará da história tudo aquilo que pode separar o ser humano e Deus, em suas relações. Mas isso só pode acontecer porque este Jesus age através do Espirito de Deus, e é seu portador.

Que Jesus temos testemunhado? Corresponde, Ele, com o mesmo testemunho de João? Ou temos testemunhado um Jesus dissonante do Evangelho e da fé das primeiras comunidades? Minha vida tem sido o lugar por sobre o qual o Espírito de Deus e de Jesus paira e permanece, assim como aconteceu com o Senhor? Tenho permitido com que ele carregue para fora de mim tudo aquilo que pode ser obstáculo para que o amor e o querer de Deus em mim tenha espaço? Tenho cooperado com Ele na missão de retirar o pecado  da realidade e da história humana, das relações?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré /Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 10 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA A FESTA DO BATISMO DO SENHOR – Mt 3,13-17:

 


O tempo do Natal se encerra com a festa do batismo do Senhor. Nesta festa, celebrada no domingo depois da Epifania, a liturgia recorda o batismo de Jesus por João Batista nas águas do rio Jordão. E mais uma “epifania”: Jesus é manifestado como Filho de Deus e seu servo fiel. Para isso, o texto bíblico é retirado do evangelho segundo Mateus, o qual narra a cena em questão (Mt 3,13-17).

Os capítulos 3 e 4 de Mateus são a parte narrativa da primeira das cinco catequeses/livros que compõem o evangelho (caps.3-7). A narrativa do Batismo de Jesus pode ser dividida em três cenas: v. 13; vv.14-15 e vv. 16-17. O núcleo está nas palavras de Jesus a João Batista: “Devemos cumprir toda a justiça” (v. 15). As primeiras palavras do Senhor registradas no Evangelho de Mateus.

A narrativa tem, em primeiro lugar, uma função já nos primeiros versículos, a de eliminar uma polêmica emergente nas primeiras comunidades cristãs. Nos primeiros anos um conflito surgia entre os discípulos de João Batista e os discípulos de Jesus. O primeiro grupo defendia a superioridade do profeta do Jordão por ter batizado o Mestre. Por isso, o evangelista Mateus, nestes versículos trata de colocar o Batista em seu devido Lugar com a frase do v.14: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. Estabelecendo, pois, a superioridade de Jesus e de seu batismo em relação à João. O Messias de Nazaré é o enviado de Deus para realizar o seu projeto; ele deve ser o centro da comunidade dos discípulos do Reino. Sua missão, vida e obra superam a obra de João. Sua morte e Ressurreição são o novo batismo, o qual consigna o Espírito de Deus. Feita esta devida consideração, pode-se mergulhar no horizonte do texto.

A narrativa segue a localização geográfica comum a Marcos, nas margens do rio Jordão. Após a chegada de Jesus e o diálogo iniciado por João, este obtém uma resposta um pouco dura, mas repleta de densidade teológica: “Por enquanto deixa como está́, porque nós devemos cumprir toda a justiça!" (v.15) A Justiça da qual se refere Jesus não é um código de leis, mas a vontade de Deus. Isto significa dizer que o que João faz, batizar a Jesus, corresponde ao querer do Pai. Como esta sendo realizada a justiça, entendida como a vontade de Deus? Que vontade é esta? A salvação e a redenção de toda a criação e gênero humano. Isso causa estranheza ao Batista, porque sua imagem de Deus e de Messias correspondia a de um juiz escatológico implacável, que destruiria e eliminaria da história tudo e todos que fossem contrários ao querer de Deus. Pelo contrário, Jesus, com sua missão revelará um caminho novo de salvação e libertação a todos, indistintamente. Comunicará vida ao invés de destruição e morte.

Qual o sentido do Batismo de Jesus? Solidariedade. A função do Batismo do Senhor consiste em colocá-lo na fileira de todos pecadores desejosos de purificação. Corresponde à vocação anunciada pelo anjo de “salvar seu povo de seus pecados (Jesus)” (Mt 1,21). A presença do Senhor no meio deles tem caráter salvífico, enquanto sal e luz do mundo. A convivência com a multidão dos pecadores nas margens do Jordão, antecipa toda a Sua missão que será um constante resgate destes.

Mateus descreve rapidamente a cena do batismo. E descreve a teofania trinitária fora das águas do Jordão, justamente para assinalar que o batismo de João é inferior e está superado pela ação, vida e obra de Jesus. O verdadeiro Batismo de Jesus é quando o Espírito desce sobre ele e permanece. E na entrega do mesmo Espirito na cruz e no Pentecostes.

A manifestação divina do Pai e do Espírito recordam Gn 1,2, onde este pairava sobre as águas na narrativa da criação. Mateus, ao narrar esta manifestação do Espírito sobre Jesus deseja, primeiramente, ensinar que o Pai, em seu Cristo, está começando uma nova criação, a ser plenificada na obra da Ressurreição. Jesus é, portanto, a imagem e a realização do homem novo, da humanidade nova, recriada e reorientada para Deus. Em segundo lugar, afirmar que Jesus, em sua humanidade, é a morada definitiva do Espírito de Deus, e, com isso, toda a humanidade se abre a esta realidade. A simbologia da pomba é especial. Ela é a única ave que mostra sempre fidelidade ao seu ninho. Jamais abandona sua morada.

A vinda do Espírito, somado à voz de Deus apontam para o terceiro significado do batismo de Jesus, ou seja, a sua investidura messiânica. O Senhor é ungido pelo Pai para realizar a missão de anunciar e inaugurar o Reino dos Céus, através de sua vida e de seus ensinamentos. Jesus é reconhecido como filho querido do Pai: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (v.17). O filho amado é aquele que reproduz, imitando em tudo, o agir de seu pai na sociedade do tempo de Jesus. Não corresponde somente a condição biológica e sanguínea. Mas ao agir. Ou seja, as atitudes e ações de do Senhor serão sempre desejadas pelo Pai. Corresponderão ao desígnio salvador de Deus. Esta será sua identidade determinante como realizador e fiel obediente a Deus: filho.

A expressão “no qual pus meu agrado” é como que o eco de Is 42,1, que fala do servo de Javé: “Olhem o meu servo, a quem apoio, o meu escolhido, a quem eu quero bem!”. Com isso fica claro o que Mateus quer afirmar com essa citação. Para ele, Jesus é o servo de Javé. A narrativa se conclui, mas é necessário tirar as consequências dela para a nossa vida de fé.

Jesus não se comporta como um privilegiado. Se queremos salvar alguém, tirar alguém do poço, devemos descer até onde ele está. Por isso Jesus se deixa batizar no meio dos pecadores, cumprindo assim ajustiça, o plano do Pai. É o despojamento de sua grandeza divina e, ao mesmo tempo, manifestação do Espírito. Isso contém um significado para nosso próprio batismo. Para comunicar o Espírito no qual fomos batizados devemos mergulhar no mundo em que vivem os nossos irmãos e irmãs, mundo marcado pela presença do pecado. Jesus participou do batismo do perdão dos pecados porque participava da comunidade humana curvada sob o pecado.

O batismo cristão não significa meramente o perdão dos pecados, como o de João (muito menos mera bênção de saúde ou coisa semelhante). É participação no batismo de Cristo e na sua missão como Servo de Deus, no Espírito. Nosso batismo deve levar-nos ao serviço de nossos irmãos. Ser batizado é tomar-se Servo do Senhor com Cristo, o Servo por excelência

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP