O
capítulo 22 do evangelho de Mateus insere-se no bloco narrativo que compreende
os capítulos 20 – 22. A seção se abre com a entrada de Jesus em Jerusalém
(21,1-11). As lideranças – sumo sacerdotes, fariseus (escribas) e anciãos do
povo – permanecem indiferentes à sua pessoa e à mensagem que traz consigo,
tornando-se, até mesmo, hostis e refratários. Este capítulo se insere num conjunto
de cinco controvérsias entre o Senhor e as autoridades da cidade santa, tanto
em âmbito político como religioso: a discussão acerca de Sua autoridade diante
da expulsão dos vendedores no Templo (21,23-27); a legalidade do imposto ao
imperador romano (22,15-22); a ressurreição dos mortos (22,23-33); o mandamento
importante (22,34-40), e finalmente, a problemática acerca da descendência davídica
(22,41-46) do Messias. O mestre, no entanto, sai vitorioso de todas estas
situações. Agora, vamos ao texto!
Jesus dirige uma vez mais aos líderes do povo (sacerdotes e anciãos) uma parábola. Ele começa comparando o Reino dos Céus a um rei que prepara um banquete de festa para o casamento de seu filho (v.1-3). Elementos importantes que precisam ser absorvidos do ensinamento em parábolas que estão presentes na tradição da fé de Israel: 1) Na Sagrada Escritura, o banquete – e principalmente o banquete nupcial – era símbolo da iminente vinda do Messias. Tal concepção teve sua origem no pós-exílio. 2) O rei/pai prepara o banquete, o que é algo incomum, uma vez que esta tarefa ficava sob a responsabilidade dos empregados e de todos os que eram convidados a participar. Ora, no tempo e na realidade de Jesus, onde os recursos para subsistência eram escassos, e constantemente o povo passava muita necessidade, as festas de casamento tornavam-se oportunidade para o povo se alimentar melhor, e renovar as esperanças futuras. Portanto, 3) o banquete de casamento era sinal de alegria em vista da plenitude de vida que seria inaugurada por Deus através de seu Messias.
O rei da parábola é Deus mesmo. O banquete de casamento é imagem para o Reino dos Céus, que começa a ser vivido no aqui e no agora. Por isso, se faz necessário compreender bem a lógica deste “banquete/Reino”. Trata-se do projeto de Deus. Note-se: o banquete é preparado pelo rei/pai, ou seja, a iniciativa de acolher, preparar e convidar é Dele. Não deseja ou concebe que alguém fique de fora. O fato de ser ele mesmo a preparar a festa indica que ao interno desta realidade todos são iguais, não há um organizador mais importante em relação a um empregado; todos são convidados e, portanto, são importantes. Não há superiores, nem inferiores. Há espaço e lugar para todos. Todos são comensais.
Posto que a imagem do banquete/festa simboliza o Reino e o projeto de Deus, Jesus, desde o começo de sua missão e vida mostra claramente a sua lógica: o amor fiel de Deus destinado a todos; acolhida aos excluídos e marginalizados, aos enfermos e pecadores; libertação das consciências; uma vida baseada no amor mutuo, na fraternidade, que se manifesta na capacidade da entrega de si em serviço aos irmãos; o convite à conversão, enquanto mudança de mentalidade na relação com Deus e com os outris, saindo de uma religiosidade de aparência e desconectada do contato com os sofredores. E, também, no tocante à relação com as coisas, com as posses, alertando para o perigo do acúmulo, da riqueza, do egoísmo, do fechamento, tendo como antídoto a estas práticas a lógica da partilha. Esta é a lógica do banquete de casamento proposta pelo rei/pai. Tal é a lógica do Reino. O convite, portanto, está feito.
Os primeiros convidados, evidentemente, são o povo de Israel e seus líderes. O gênero das parábolas chama a atenção do leitor justamente por suas particularidades, que numa primeira leitura podem parecer incomuns: diante de um convite importante (a festa de casamento de um príncipe), os convidados não dão a mínima. A atitude deles serve de imagem para a recusa do povo de Deus dos líderes diante da proposta dos profetas, os primeiros empregados enviados para fazer o convite, no Antigo Testamento; e, a recusa consciente a Jesus e sua obra. Estes primeiros já possuem seu “banquete”; nele ninguém imperfeito pode tomar parte; é lugar de exclusão e não de acolhimento. É lugar de uns poucos privilegiados. Na festa deles não há lugar para uma relação livre e gratuita com o Deus e Pai de Jesus, mas uma forma de relação condicionada pelo mérito e pela barganha. Estes, ao ouvirem o convite, já sabem muito bem porque recusar: não querem fazer parte da lógica de vida proposta pelo banquete do Pai e de Jesus.
O rei insistiu (v.4-7). Essa insistência do monarca revela, na verdade, a do próprio Deus, que acena para a necessidade de se decidir pelo Reino dos Céus com urgência. Não é possível adiar a decisão de acolher os apelos de Deus. Tudo em vão: uma parte dos convidados foi para os campos; outra foi cuidar de seus negócios; e outra, mais hostil, responde com violência frente aos funcionários do rei. A parábola apresenta um segundo tipo de convidados: aqueles que fazem a opção pela lógica e pelo sistema desta realidade; os que colocaram a sua vida sobre os bens, o acúmulo, o dinheiro, o trabalho, o conforto, isto é, a segurança da posse e do ter. São aqueles que não conseguem assimilar e viver a lógica do desapego, da partilha e do serviço fraterno; que fizeram da ganancia e da prosperidade o seu “deus”.
No v.7, o rei irrompe, então, em fúria, e envia seu exército para dar fim aos convidados negligentes. Imagem que precisa ser bem compreendida. Aqui tem-se a inserção de um versículo que não faz parte dos ditos de Jesus, mas corresponde uma elaboração e redação de Mateus. É a tentativa de explicar – ainda que interrompendo a narrativa da parábola – o destino da cidade santa, destruída em 70. Tal fato seria interpretado como consequência da recusa ao projeto de Deus. Não se trata, neste ponto, de um castigo divino. Antes, uma consequência das escolhas e atitudes. O castigo nunca vem da parte de Deus. Ele é consequência das ações humanas. Na ordem da narrativa, este versículo, se fosse omitido não traria problema para a compreensão da parábola.
O rei ordenou, então, aos seus funcionários, que fossem pelos caminhos e pelas encruzilhadas, e que chamassem aqueles que encontrassem: bons e maus (v.8-10). A festa não deixou de acontecer em face a recusa dos primeiros convidados. Os que não esperavam, tiveram a honra de tomar parte de um banquete de alto nível. Chamo a atenção, aqui, para um termo que foi mal traduzido. “Encruzilhada” enfraquece o termo “Diéxodos (Diexódous; gr. διεξόδους)”, que seria melhor traduzido por “saída”, “fronteira” e “periferia”. “Ide, pelas saídas (fronteiras – periferias) dos caminhos” traduz melhor a intenção de Jesus e do evangelista Mateus em dar enfoque, a partir da rejeição e auto exclusão de Israel do convite recebido, à universalidade da salvação.
O ensino subjacente destes versículos reside, de acordo com a lógica da parábola, na mudança de atitude de Deus, ao redirecionar o convite a todos, e não exclusivamente aos judeus. O anúncio do Reino não é mais exclusivo à Israel, mas inclusivo, agora, aos que não fazem parte do povo. Isso é o que significa convidar Bons e Maus. A categoria dos maus simbolizava aqueles que não pertenciam a Israel. Não se trata aqui de uma conotação moral, necessariamente.
Mas não basta ser convidado para festa. É necessário mostrar-se predisposto e com atitudes de justiça. Todavia, houve quem ousou participar da festa sem o traje festivo. O rei notou, e, imediatamente mandou expulsar o penetra (v.11-14). O traje, em toda a Sagrada Escritura (e principalmente no Apocalipse), é símbolo para as boas ações, as obras de Justiça, Amor e Misericórdia. Simboliza a fé traduzida e encarnada em obras de misericórdia e justiça aos irmãos, principalmente aos que estão nas margens, nas fronteiras e periferias.
A comunidade de Éfeso, recordando os ensinamentos de Paulo e a pregação do Evangelho, foi a que melhor percebeu que a veste do cristão são a caridade e a Justiça, que brotam da vivência da Palavra de Deus, encarnada na vida do fiel discípulo de Jesus, em Ef 6,10-17 (famoso texto da "armadura ou veste do cristão", que infelizmente foi tão deturpado em sua interpretação). Jesus não está falando de uma veste física, de grife (até mesmo das “grifes religiosas”), tampouco estaria ele imbuído de moralismos acerca de como se vestir. O texto não permite tal abordagem.
Nem todos os que são chamados são escolhidos. O chamado de Jesus vai, então, noutra direção. O fato de se pertencer à comunidade do Reino, não significa ter assimilado o modo de ser peculiar ao Reino. Ora, o chamado inicial se distingue na perseverança final e consequente salvação. Infelizmente, existirão aqueles que não experimentarão a alegria final do Reino, pela incapacidade de perseverar, até o fim, no caminho iniciado (Mt 24,13), pela indiferença ao convite ao modo de ser e de existir exigidos por Jesus, ou por não estarem vestidos com o traje das obras de justiça. Se faz necessário revestir-se das vestes de Cristo Jesus, isto é, do sentido existencial de sua vida. Esta é a veste da festa!
Quem somos diante do texto de Mt 22,1-14: os primeiros, os segundos ou os últimos convidados? Qual a nossa atitude diante do convite para a festa do Reino? Estamos nas periferias (às saídas ou nas fronteiras e limites humanos, sociais, religiosas), ou indo até elas? Temos vestido a veste das obras? Que possamos ver nossa vida no espelho deste texto bíblico. O convite está feito. Participemos. Vistamo-nos de Cristo!
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Santuário
São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.



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