sábado, 31 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,1-12:

 


A eucaristia dominical deste quarto domingo do tempo comum, propõe o início da da meditação do Sermão da Montanha, sessão literária que compreende Mt 5 – 7. Na catequese mateana este bloco apresenta o discurso inaugural de Jesus. Este primeiro ensinamento recuperado e transmitido pelo evangelista é de fundamental importância para a comunidade dos primeiros discípulos que está nascendo e para as próximas gerações de discípulos. Conforme os métodos e a pedagogia, próprias do autor, a saber, a recuperação das personagens históricas e da tradição religiosa de Israel, dos eventos e acontecimentos da história do povo, com maestria ele faz convergir todos estes elementos para sua personagem principal, Jesus. Através dele procura fazer uma releitura (reinterpretação) da Palavra de Deus, (a Torá).

Uma constatação a nível de contexto amplo do texto. O capítulo cinco inicia-se depois de haver retornado do deserto, após o batismo de João, e ter iniciado sua missão naquela Galileia das nações. Ali, chamou e reuniu um pequeno grupo de discípulos para segui-los, para, depois fazer deles pescadores de homens. Ocorre, em seguida, a transição de cenário. Não estão mais nas margens. Jesus e seus discípulos, seguidos de uma multidão (Mt 4,25), chegam a uma montanha no território da Galileia.

O evangelista, em seu propósito catequético e literário, identifica a Jesus como o novo Moisés, que dá, agora, um sentido novo, pleno e definitivo à Lei. Este sermão da montanha se abre com as chamadas bem-aventuranças. Elas são mais extensas em Mateus que em Lucas (cf. Lc 6), e fazem parte do gênero literário de profecia e de congratulações ou felicitações, podendo ser de estilo sapiencial ou escatológico.

Em Mateus, elas são no total de oito sentenças que, ao todo, são compostas de setenta e duas palavras. Todos estes elementos simbólicos carregam de força e de sentido o texto. O número oito é utilizado para fazer a memória da ressurreição, pois o primeiro dia da semana acaba sendo o oitavo. É o dia da nova criação estabelecida em Jesus, o Ressuscitado. É uma maneira que o evangelista tem para dizer à sua comunidade que o ensinamento contido nestas oito sentenças está repleto de plenitude de vida. A vida do ressuscitado se faz ver na comunidade quando esta se propões a viver as bem-aventuranças. O número setenta acena para a temática da universalidade da salvação. Esta proposta de vida, pautada pelas bem-aventuranças é aberta a todos. Cada pessoa pode dela participar e viver.

“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los (v.1-2)”. Dois pormenores merecem a atenção do discípulo-leitor nestes dois versículos introdutórios: a personagem da “multidão” e a montanha (lugar teológico).

Do começo ao fim de seu evangelho, Mateus retrata a existência de três grupos “programáticos”, por assim dizer. A multidão, os discípulos e os apóstolos. A multidão. Esta, ao interno do evangelho de Mateus, será sempre o grupo que apenas ouve falar de Jesus, se encanta com suas palavras e com seus ensinamentos, mas não dá o passo decisivo e qualitativo para o discipulado, ou seja, não compromete a vida com o ensinamento e a Sua vida. Os discípulos, pelo contrário, são aqueles que aderiram ao ensinamento de Jesus, saíram da multidão e deram o passo do discipulado, permanecendo com Ele, para, mais tarde, tornarem-se apóstolos, missionários do Reino. Mas esta condição de apóstolo/missionário não exclui a de discípulo. Tampouco o eventual retorno ao grupo da multidão. E isso acontecerá não como castigo, mas como medida educativa a fim de que a pessoa possa sempre refazer o caminho. Para Jesus e Mateus, nada está garantido. Por isso, deve cuidar para sempre estar ao redor das palavras e da vida do Mestre. Assimilar o sentido delas, bem como de sua vida.

A montanha. Ela remete o leitor-discípulo do primeiro evangelho a outra montanha importante na história do Povo: o Sinai. Ali, YHWH ofertou a Lei, o decálogo, à Moisés. Mateus quer ensinar para os fieis-discípulos de sua comunidade que o que Jesus é o novo Moisés. Ao sentar-se, assume a função privilegiada do mestre a ensinar. Portanto, o que virá a seguir é um ensinamento novo, que conduz a Lei à sua superação. A autoridade de intérprete das escrituras está no colo e na boca de Jesus. Ele é o plenipotenciário autorizado para transmitir e ensinar a Palavra de Deus.

Jesus começa o ensinamento, dizendo: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus (v.3)”. A tradução mais acertada desta primeira bem-aventurança, conforme nos mostra o texto grego, seria: “Bem-aventurados os pobres com o / no espírito...” Junção da preposição em + o, que resultaria na expressão “pobres no espírito”: aqueles que estão no Espírito de Deus; ou “pobres com espírito (de Deus)”. Esta categoria pode admitir duas interpretações: 1) São todos que, mesmo na condição da marginalização, estão em comunhão com o Espírito de Deus, ou seja, que vivem segundo o Espírito de Deus. Imersos no dinamismo de vida que pertence ao próprio Deus. 2) “pobres pelo/a partir do espírito”, e aqui Jesus não estaria se referindo ao Espirito de Deus, mas ao ser humano mesmo que, a partir de sua própria condição escolhe voluntariamente entrar e assumir esta lógica de vida, nesta condição de pobreza. Mas não para se fazer mais um entre os que já existem, e, sim, ajudar a eliminar todas as causas de pobreza, marginalização, exclusão.

 Mas, por que são declarados felizes por Jesus? Em virtude da atitude de se apresentarem diante de Deus com as mãos vazias, porque souberam abdicar da autossuficiência e do orgulho. Em outras palavras, são chamados felizes em razão de sua coragem e coerência com o querer de Deus, a cooperar com a construção do Reinado de Deus no já, no aqui e no agora; e, por isso, entrarão definitivamente, no mundo dos ressuscitados para a vida.

No v.4, Jesus declara serem bem-aventurados, os aflitos (os que choram, em Lc 6). Mateus mudou a versão de Lucas embasando-se na profecia de Is 61, onde se lê que “O Senhor me enviou para consolar os aflitos”. Os aflitos são aqueles sofrem os golpes de uma realidade que ainda está sob influência das forças contrárias ao Reino, o Mal. Vítimas da violência e da injustiça, que não tem a quem recorrer, mas que tem a Deus para consolá-las. Quando os valores do Reino não permeiam as relações interpessoais e o tecido social, as pessoas são cruelmente violentadas. O senhor declara que Deus mesmo será o consolador, sofrendo com elas (Is 40,1; 61,2). A consolação prometida é a salvação final e definitiva.

Na mesma lógica, Jesus diz a bem-aventurança dos mansos (v.4). Os mansos, pela força de Deus, recusam-se a ser violentos e, desta forma, quebram a maldita espiral da violência. Portanto, serão herdeiros da terra que, com seu gesto de resistência não violenta, ajudaram a construir (SI 37[36]). Com certeza esta bem-aventurança foi criada por Mateus, inspirando-se no Sl 37. Diante dos outros, o manso apresenta-se desarmado, sem defesas nem esquemas ou autoproteção, colocando-se na dinâmica da não-violência. Um modelo perfeito desta bem-aventurança é o próprio Jesus (Mt 11,29, “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”).

A bem-aventurança relacionada aos famintos e sedentos de justiça pode ser compreendida de duas maneiras: 1) Os famintos e sedentos da justiça não têm quem os defenda para fazer valer seus direitos. Na Lei mosaica, todos e, especialmente, os mais fracos e desprotegidos deveriam ter um protetor (go’el). No projeto de Jesus, o Pai será o go’el dos discípulos do Reino. Esta bem-aventurança é difícil de traduzir do original grego, que, literalmente poderia vir traduzida assim “Felizes os famintos e sedentos da justiça”. O artigo “a” faria referência à Justiça do Reino (cf. Mt 5,20). E, sendo assim, esta bem aventurança abre-se para uma segunda interpretação: 2) os bem-aventurados por terem fome e sede da Justiça do Reino são saciados quando colaboram para que esta Justiça (que é o agir e a vontade de Deus acontecendo na história) se cumpra, ou seja, se propõem a fazer aquilo que o pai quer.

No v.7, Jesus declara: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Um tema muito querido por Mateus. A misericórdia na bíblia não se trata de um sentimento, mas de uma atitude operativa em favor do outro. É uma atitude relacionada à vida concreta. Na mentalidade do evangelista, o Pai, no último juízo, se mostrará misericordioso com aqueles que viveram a experiência do amor e da misericórdia em relação ao próximo. Quem tem o coração e a vida cheios da misericórdia puderam assimilar o modo de ser de Deus, cuja bondade é eterna (SI 136 [135]). Assim, viverá da misericórdia do Pai.

A bem-aventurança relacionada à pureza de coração deve ser entendida corretamente. São aqueles que são puros desde o íntimo do ser, para além das aparências. Não são pessoas de fachada. Sem falsidades. São transparentes, e essa condição os coloca lado-a-lado com Deus.

Os “fazedores de paz (gr. εἰρηνοποιός / eirehnopoiós)” empregam toda sua vida para construir o Shalom (paz) neste mundo, propiciando um nível de vida humano e justo onde todos desfrutem do bem-estar e da prosperidade. Serão chamados filhos de Deus por construírem o mundo desejado por Deus. São aqueles que colaboram para o diálogo, a concórdia, a reconciliação entre as pessoas, costurando novamente os fios corroídos das relações humanas e selando os laços da fraternidade. Jesus diz que, no último dia, estes serão reconhecidos solenemente por Deus como autênticos filhos seus.

Nos vv.10-12, Jesus diz diretamente aos discípulos (bem-aventurados vós...) que estes são felizes por serem perseguidos por causa da Justiça, recebendo injurias, sendo alvos de mentiras por causa dele. Os discípulos deverão se alegrar e exultar, porque a recompensa nos céus será grande. Quem assume viver a dinâmica do Reino, abraçando a causa de Jesus (o cuidado com os pobres e enfermos; acolhendo os marginalizados, excluídos; procurando e colocando-se ao lado dos pecadores, dos injustiçados, das minorias; libertando as consciências das pessoas oprimidas e chamando à conversão a todos), atrai sobre si insultos, perseguições, mentiras e maledicências. Todavia, os perseguidos por causa da justiça (o querer/vontade de Deus), não devem temer, tampouco recuar, pois já possuem a recompensa mais valiosa: o Reino dos Céus. Essas situações difíceis são para eles motivos de alegria e de exultação, contrariando as expectativas do mundo que os quer tristes, resignados e derrotados.

O Sermão da Montanha, para o leitor-ouvinte do evangelho de Mateus funciona como um caminho programático que deve tocar bem fundo na ética do discípulo do Reino; o modo de ser e agir, propostos aos que são chamados ao discipulado/seguimento ao Deus do Reino, a partir de Jesus, que, por primeiro, na concretude existencial de sua vida, se empenha por vive-las.  No discurso inaugural, bem como em toda a sua vida, Ele não prega um moralismo desencarnado da história humana. Suas palavras apontam, antes, para um ideal, um projeto de vida, que tem o Pai como fundamento e modelo, e que toca a concretude da existência. As bem-aventuranças compreendem, nesse sentido, a síntese do programa de vida de Jesus e dos discípulos e discípulas de todos os tempos e lugares.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 24 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 4,12-23:

 


O evangelho proposto para o terceiro domingo do tempo comum é retirado do quarto capítulo do evangelho de Mateus, o qual apresenta o início da missão de Jesus ao retornar da experiência do deserto, após a prisão do Batista: “Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia” (v.12).

O capítulo quarto apresenta uma dinâmica narrativa interessante. Narra as tentações de Jesus no deserto após a sua investidura pelo Espírito no Jordão, no Batismo, e, em seguida o início da missão messiânica. Mateus deseja ensinar para sua comunidade e para os leitores das gerações futuras que a forma de Jesus ser messias será perpassada pela constante tentação (as quais meditaremos no tempo quaresmal), e que a sua missão começará pelas margens da vida, simbolizadas pelas margens do mar/lago da Galileia: uma ação salvadora do Deus-Conosco (Emanuel) que deseja ir buscar a todos, começando pelos lugares inóspitos e indesejáveis (Galileia). Foi precisamente para isso que ele foi ungido como Messias.

Duas contextualizações importantes que precisam ser feitas: a missão de Jesus inicia-se após o evento da prisão de João Batista. Por que? O profeta do Jordão, por conta de sua fidelidade à missão de preparar a chegada do Reino e, devido à sua popularidade foi posto na prisão por Herodes. O autor do evangelho quer antecipar para os membros de sua comunidade, de modo narrativo, o que acontecerá com Jesus. Por conta da fidelidade ao Pai, à missão e ao anúncio do Reino, terá ele o mesmo destino do profeta batizador. Assim como João Batista preparou o caminho para a vinda de Jesus, o Messias, ele também abrirá a estrada para a paixão e a morte, a partir de sua prisão e morte.

A segunda informação importante diz respeito à localização geográfica que Mateus oferece (comum aos outros dois evangelhos sinóticos, Mc e Lc): a Galileia, na cidade de Cafarnaum, território de Zabulon e Neftali, duas tribos do reino de Israel do norte, que já eram extintas. Quase não se ouviam falar delas. Nazaré sequer constava no mapa daquela época. A mentalidade do judeu piedoso, que residia no Sul (Judá – Jerusalém) acerca das pessoas que viviam no Norte era desdém, desprezo, de rechaço, porque aquela região não conservava mais um judaísmo e uma população puros devido à invasão assíria em 722 a.C, que povoou a Samaria com outros povos. O que causou uma miscigenação naquela região. A pureza da raça não existia mais, e um judaísmo hibrido surgia ali. Assim, aquela terra foi sempre malvista pelos terrivelmente religiosos. Jesus começa lá a sua missão; num lugar em que, um líder que se prezasse, jamais pensaria em estar.

Por que o evangelista utiliza a citação de Is 8,23: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz” (v.15-16). “Galileia dos pagãos”, diz a tradução correta. Se o leitor permanecer somente no enunciado, não será capaz de assimilar a profundidade da mensagem que o texto traz. O termo “pagãos” deve ser traduzido por “nações” (gr. ἔθνος/etnos). Mateus fala de uma Galileia das nações porque, conforme sua intenção teológica, a Boa Notícia que Jesus vem proclamar é destinada à todas as pessoas, de todos os lugares, sem distinção. O desígnio divino de salvação é destinado a todos!

No v.17, Mateus recupera o conteúdo da missão de Jesus: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. Na língua grega existem duas formas para o verbo converter: a primeira, relacionada a ação de retorno para Deus, da parte do homem. Esta forma adquire um sentido e significado mais religioso. Porém, a segunda forma, mais utilizada pelo evangelista, se refere à atitude da mudança da mentalidade (gr. μετανοέω/metanoêo).

Por que o autor prefere a segunda forma do verbo converter, ligado à mudança da mentalidade, e não a primeira relacionada à atitude da reorientação à Deus? Para ele não há necessidade que o discípulo realize a reorientação da vida o divino porque em Jesus, Deus se faz conosco. É o Emanuel. É ele que se dirige a cada pessoa humana. Esta é a grande revelação que o evangelista transmite: Jesus é o Deus-Conosco. Ora, se ele é Deus-Conosco, não há mais porque busca-lo. Antes, acolhê-lo. Não é mais necessário que o homem viva para Deus, mas em Deus e, a partir Dele e com Ele dirigir-se aos outros. A cena a seguir ilustra esta realidade.

“Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores” (v.18). Jesus, ao iniciar seu ministério na Galileia toma a atitude de constituir um pequeno grupo. Trata-se de um gesto institucional que marca o começo da missão. Ele chama dois pescadores, Simão e André, irmãos; e outros dois irmãos, Tiago e João, consertadores de redes. Evidentemente, os quatro exerciam a atividade da pesca. Estavam envolvidos neste contexto. A ação é ritmada pelo verbo “ver”, que é o mesmo verbo utilizado pelo autor do livro do Gênesis, que, ao narrar a criação, diz que “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Igualmente, Jesus vê naqueles quatro homens a característica principal e indispensável para a sua comunidade: a capacidade para a fraternidade, isto é, serem irmãos.

A pesca também era um trabalho que marginalizava as pessoas, e isso, devido a duas razões: ela acontecia no lago ou no mar, e estes ambientes eram considerados impuros, porque simbolizavam tudo aquilo que era oposição ao projeto de Deus. Por consequência produzia peixes bons e ruins; estes eram considerados impuros. O pescador acabava se contaminando com a impureza destes peixes, no processo da separação deles. Por isso, pagavam o preço da impureza ritual, sendo descriminados, conforme a mentalidade religiosa equivocada. Assim, ao chamar os quatro pescadores, Jesus os retira daquela situação de impureza, mas também pretende ensinar que aquela mentalidade era equivocada.

A missão messiânica de Jesus começa nas margens de um lago/mar, entre os que se encontravam nas margens da vida e da história, no intuito de mostrar que desta Boa Notícia de Salvação ninguém fica de fora; e que procura, chama e acolhe, com seus limites e suas imperfeições, para fazê-los participar de sua vida e missão. Isso precisa ser impactante para os leitores do evangelho de todos os tempos e lugares, porque ele poderia muito bem ter começado sua missão numa sinagoga, numa escola rabínicas da época, ou até mesmo no Templo de Jerusalém; e poderia ter reunido ao seu redor os mais exemplares religiosos da época. Ele escolheu quatro tipos de pessoas que nada tinham para lhe dar, e não os terrivelmente religiosos. Porque ele sabe que estas pessoas são totalmente refratárias ao convite à conversão, ao novo e à mudança da atitude; pensam-se superiores aos demais devido ao estilo de vida que levam. Creem-se já salvos e justificados.

“Jesus disse a eles: Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. A diferença do costume judaico, em que o discípulo escolhia o mestre, o Jesus de Mateus quebra esse costume, escolhe e chama para segui-lo. Ele não convida a estudar a Lei/Torah, mas à uma ação prática que estava perfeitamente dentro do ambiente vital deles. Eram pescadores. Sabiam o que significava pescar o peixe: tirar este animal do seu habitat natural e traze-lo para terra, onde se encontrariam com a morte. Ora, os peixes não vivem fora da água. Mas os seres humanos não sobrevivem na água, pelo contrário, correm risco de vida.

Por isso, Jesus os chama para fazer o contrário: pescar gente. Ele está transmitindo aos discípulos a missão de salvar as pessoas que se encontram nas situações de morte (simbolizadas pela água, o mar), e transporta-las para a vida. A missão de trazer para a vida todos os que se encontram submersos nas situações de morte. Os quatro primeiros seguem-no. Deixam suas seguranças (as barcas, as redes e o conforto da casa, simbolizado pela figura do pai, no caso dos irmãos Zebedeu); o evangelista não narra uma só palavra deles a Jesus, não colocam suas condições, não pedem nada.

Um detalhe que merece a atenção são as redes para a pesca que eles utilizavam. O texto parece dar a entender que eles as abandonaram na praia após o chamado do Senhor. Não é o sentido correto. O evangelista deseja ensinar que, após a experiência com Jesus, os discípulos abandonaram o sentido equivocado do uso das redes. As redes simbolizam a vida. Os primeiros discípulos, ao fazerem a sua experiência pessoal com Jesus são chamados a converterem o sentido do uso de suas redes, ou seja, lança-las em prol do Reino. As redes (vida), que antes eram para seu próprio sustento, que davam-lhes a segurança, que motivavam a ganância, o lucro, os apegos aos projetos pessoais, a mentalidade equivocada do ter e do ser  deverão ser utilizadas agora à serviço do Reino e do Pai. Usar a rede da vida para cooperar com a missão de Jesus.

O texto se conclui com um breve sumário da atividade do Senhor: “Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo” (v.23). Trata-se de uma ação libertadora de Jesus. Pela primeira vez o evangelista utiliza o termo evangelho, isto é, Boa Notícia. Ela é anunciada numa sinagoga, lugar do estudo e da proclamação da Palavra. É uma forma muito sutil de Mateus ensinar que aquele lugar já não correspondia ao projeto de Deus. Ali, Jesus ensina e prega, e nunca será visto rezando ou estudando a Palavra. Mas lá, ao proclamar e ensinar a Boa Notícia, realiza, através de seu ensinamento a libertação das pessoas do peso da lei, e da imagem equivocada de Deus que as lideranças e a instituição religiosa transmitiam.

Permitamos que o Senhor passe pelas nossas margens, ressignifique sempre e constantemente nossas vidas, a fim de que possamos recuperar e ressignificar a vida dos que se encontram nas situações contrárias de vida, à margem da história e da realidade.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 17 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Jo 1,29-34:

 



O segundo domingo do tempo comum apresenta para a leitura e meditação eclesial o primeiro capítulo do evangelho segundo João. Há poucos dias, a Igreja celebrava o Batismo do Senhor, e as personagens do Batista e de Jesus retornam, mas sob a perspectiva do Quarto Evangelho.

A narrativa de Jo 1,29-34, encontra-se no Livro dos Sinais – a primeira sessão do Quarto Evangelho – e corresponde à semana inaugural do ministério de Jesus. O autor se põe a narrar os acontecimentos do segundo dia da missão do Senhor. O catequista introduz as personagens: “João viu Jesus aproximar-se dele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (v.29). Uma declaração muito forte e plena de significado, e que merece ser compreendida a partir de cada palavra. Em primeiro lugar, a quem o Batista dirige estas palavras, haja visto que ele se encontra sozinho após o encontro com os sacerdotes e levitas vindos de Jerusalém para interroga-lo acerca de sua identidade e autoridade? Esta afirmação colocada na boca do profeta do Jordão, na verdade se trata de um recurso literário do autor. Ele utiliza o verbo eidon (gr. εἶδον) no imperativo, ἴδε (Íde), o que geraria a seguinte tradução, “Olhai/vede” no sentido de prestar atenção. O evangelista quer ensinar quem é que deve atrair o olhar do discípulo. Isto é, para quem se deve agora olhar e ter como referência para a vida. Este homem para o qual João aponta é declarado como cordeiro de Deus. Esta primeira declaração acerca da identidade de Jesus precisa ser bem compreendida.

O evangelista se apropria do ambiente levítico-cultual dos sacrifícios de expiação dos pecados, realizados no templo de Jerusalém. Os judeus costumavam oferecer, diariamente, no Templo, bois, cordeiros, touros para expiar os pecados. As vítimas oferecidas em sacrifícios tinham função expiatória e finalidade reconciliadora. Esta era a mentalidade religiosa do judaísmo vivido por Jesus. O autor do Quarto Evangelho, ao transmitir sua catequese para sua comunidade, se serve do texto de Is 53,4-12, no qual o profeta fala da ação do Servo Sofredor de YHWH, que carrega sobre si os pecados do povo. Ou seja, uma pessoa que fosse capaz de reconciliar as pessoas com Deus poderia ser comparada ao cordeiro do sacrifício. Mas a imagem do cordeiro pode lembrar também o cordeiro pascal para as comunidades cristãs nascentes. Não se pode perder os dois horizontes de leitura e de interpretação do texto: o tempo narrado e o tempo da comunidade.

João Batista declara que Jesus, na condição de cordeiro elimina o pecado do mundo. Muito importante esta afirmação. João utiliza o verbo aîro (gr. αἴρω) que significa precisamente eliminar. A intepretação equivocada deste versículo pode levar a entender que a vida e a obra do Cristo consistiriam apenas em expiar os pecados com sua própria vida, como se o Pai o enviasse somente para morrer. Se deseja ensinar que a existência e o dom da vida de Jesus eliminam o pecado. A forma da Sua vida, isto é, como ele agirá, o que realizará, o que ensinará terá a força de eliminar toda e qualquer realidade contrária ao projeto de Deus no mundo e na humanidade. Isso, claro, se o homem fizer a sua opção fundamental por Ele.

 Mais ainda, para o evangelista João, Jesus é o Salvador não somente por tirar o pecado da realidade do mundo, mas por torna-se solidário com aqueles sobre os quais pesa o pecado. Ele mesmo sofre debaixo desse peso, não como culpado, pecador ou castigado em lugar da humanidade, mas como pessoa que, por sua fidelidade ao Pai, ainda que passando pela morte, abre um novo modo de existir.

O pecado para o evangelista é a atitude de rejeição a Jesus a ao projeto de Deus. Desse “pecado fundamental” é que nascem os demais pecados, que são frutos da rejeição de Jesus e sua prática libertadora enquanto cordeiro e servo. Quem não o reconhece está no pecado e nas trevas (cf. 1,10). Por isso, o “pecado” que o Cordeiro-Jesus retira não deve ser entendido no sentido individualista e moralista (os pecados da listinha). É o pecado “do mundo”. Mundo entendido, aqui, enquanto realidade contrária ao querer de Deus; tudo aquilo que possa indicar um projeto oposto ao Seu amor, que gera sempre uma ruptura que parece dominar a convivência humana e a relação com Deus; um projeto destrutivo, que desde a origem da humanidade é obra do “príncipe deste mundo”. A vitória do Senhor se prolonga na sua comunidade a partir da Páscoa, quando é dado o Espírito para tirar o pecado do mundo (20,19-23). Portanto, tirar o pecado do mundo seria o mesmo que doar e infundir o Espírito de Deus novamente no mundo. Por isso o Batista diz que este Cordeiro de Deus é aquele que batiza com o Espírito Santo, isto é, a plenitude da vida divina. É acerca deste Jesus que João dá testemunho.

O tema do testemunho é muito importante nos escritos joaninos. No Quarto Evangelho, o Batista não tratado como o batizador, como a voz no deserto conforme apresentado pelos evangelhos sinóticos. Aqui, ele é identificado como Testemunha. O verbo testemunhar (gr. μαρτυρέω/Martirêo) significa atestar, dar fé sobre algo ou alguém. Todavia, só pode dar testemunho, e ser considerada uma testemunha qualificada, aquele que fez uma experiência de vida com Jesus, de acordo com o evangelista. Qual o conteúdo do testemunho de João, o Batista? O v.29 responde: Jesus como o Cordeiro que tira o pecado do mundo e doador da vida de Deus.

O evangelista e o Batista querem ensinar, com isso, que, Jesus é o substituto e a superação de todo um sistema religioso-ritual do judaísmo antigo. Será Ele, através do dom de sua vida e obra, o encarregado de levar para fora do mundo, isto é, a realidade criada e a existência humana (o sonho original que Deus tem para seus filhos), toda a logica da ruptura, da descomunhão; aquilo que pode separar a pessoa humana de uma autêntica e profunda relação com Deus. Jesus, na perspectiva do autor do evangelho e do profeta João, será definitivamente aquele que retirará da história tudo aquilo que pode separar o ser humano e Deus, em suas relações. Mas isso só pode acontecer porque este Jesus age através do Espirito de Deus, e é seu portador.

Que Jesus temos testemunhado? Corresponde, Ele, com o mesmo testemunho de João? Ou temos testemunhado um Jesus dissonante do Evangelho e da fé das primeiras comunidades? Minha vida tem sido o lugar por sobre o qual o Espírito de Deus e de Jesus paira e permanece, assim como aconteceu com o Senhor? Tenho permitido com que ele carregue para fora de mim tudo aquilo que pode ser obstáculo para que o amor e o querer de Deus em mim tenha espaço? Tenho cooperado com Ele na missão de retirar o pecado  da realidade e da história humana, das relações?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré /Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 10 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA A FESTA DO BATISMO DO SENHOR – Mt 3,13-17:

 


O tempo do Natal se encerra com a festa do batismo do Senhor. Nesta festa, celebrada no domingo depois da Epifania, a liturgia recorda o batismo de Jesus por João Batista nas águas do rio Jordão. E mais uma “epifania”: Jesus é manifestado como Filho de Deus e seu servo fiel. Para isso, o texto bíblico é retirado do evangelho segundo Mateus, o qual narra a cena em questão (Mt 3,13-17).

Os capítulos 3 e 4 de Mateus são a parte narrativa da primeira das cinco catequeses/livros que compõem o evangelho (caps.3-7). A narrativa do Batismo de Jesus pode ser dividida em três cenas: v. 13; vv.14-15 e vv. 16-17. O núcleo está nas palavras de Jesus a João Batista: “Devemos cumprir toda a justiça” (v. 15). As primeiras palavras do Senhor registradas no Evangelho de Mateus.

A narrativa tem, em primeiro lugar, uma função já nos primeiros versículos, a de eliminar uma polêmica emergente nas primeiras comunidades cristãs. Nos primeiros anos um conflito surgia entre os discípulos de João Batista e os discípulos de Jesus. O primeiro grupo defendia a superioridade do profeta do Jordão por ter batizado o Mestre. Por isso, o evangelista Mateus, nestes versículos trata de colocar o Batista em seu devido Lugar com a frase do v.14: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. Estabelecendo, pois, a superioridade de Jesus e de seu batismo em relação à João. O Messias de Nazaré é o enviado de Deus para realizar o seu projeto; ele deve ser o centro da comunidade dos discípulos do Reino. Sua missão, vida e obra superam a obra de João. Sua morte e Ressurreição são o novo batismo, o qual consigna o Espírito de Deus. Feita esta devida consideração, pode-se mergulhar no horizonte do texto.

A narrativa segue a localização geográfica comum a Marcos, nas margens do rio Jordão. Após a chegada de Jesus e o diálogo iniciado por João, este obtém uma resposta um pouco dura, mas repleta de densidade teológica: “Por enquanto deixa como está́, porque nós devemos cumprir toda a justiça!" (v.15) A Justiça da qual se refere Jesus não é um código de leis, mas a vontade de Deus. Isto significa dizer que o que João faz, batizar a Jesus, corresponde ao querer do Pai. Como esta sendo realizada a justiça, entendida como a vontade de Deus? Que vontade é esta? A salvação e a redenção de toda a criação e gênero humano. Isso causa estranheza ao Batista, porque sua imagem de Deus e de Messias correspondia a de um juiz escatológico implacável, que destruiria e eliminaria da história tudo e todos que fossem contrários ao querer de Deus. Pelo contrário, Jesus, com sua missão revelará um caminho novo de salvação e libertação a todos, indistintamente. Comunicará vida ao invés de destruição e morte.

Qual o sentido do Batismo de Jesus? Solidariedade. A função do Batismo do Senhor consiste em colocá-lo na fileira de todos pecadores desejosos de purificação. Corresponde à vocação anunciada pelo anjo de “salvar seu povo de seus pecados (Jesus)” (Mt 1,21). A presença do Senhor no meio deles tem caráter salvífico, enquanto sal e luz do mundo. A convivência com a multidão dos pecadores nas margens do Jordão, antecipa toda a Sua missão que será um constante resgate destes.

Mateus descreve rapidamente a cena do batismo. E descreve a teofania trinitária fora das águas do Jordão, justamente para assinalar que o batismo de João é inferior e está superado pela ação, vida e obra de Jesus. O verdadeiro Batismo de Jesus é quando o Espírito desce sobre ele e permanece. E na entrega do mesmo Espirito na cruz e no Pentecostes.

A manifestação divina do Pai e do Espírito recordam Gn 1,2, onde este pairava sobre as águas na narrativa da criação. Mateus, ao narrar esta manifestação do Espírito sobre Jesus deseja, primeiramente, ensinar que o Pai, em seu Cristo, está começando uma nova criação, a ser plenificada na obra da Ressurreição. Jesus é, portanto, a imagem e a realização do homem novo, da humanidade nova, recriada e reorientada para Deus. Em segundo lugar, afirmar que Jesus, em sua humanidade, é a morada definitiva do Espírito de Deus, e, com isso, toda a humanidade se abre a esta realidade. A simbologia da pomba é especial. Ela é a única ave que mostra sempre fidelidade ao seu ninho. Jamais abandona sua morada.

A vinda do Espírito, somado à voz de Deus apontam para o terceiro significado do batismo de Jesus, ou seja, a sua investidura messiânica. O Senhor é ungido pelo Pai para realizar a missão de anunciar e inaugurar o Reino dos Céus, através de sua vida e de seus ensinamentos. Jesus é reconhecido como filho querido do Pai: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (v.17). O filho amado é aquele que reproduz, imitando em tudo, o agir de seu pai na sociedade do tempo de Jesus. Não corresponde somente a condição biológica e sanguínea. Mas ao agir. Ou seja, as atitudes e ações de do Senhor serão sempre desejadas pelo Pai. Corresponderão ao desígnio salvador de Deus. Esta será sua identidade determinante como realizador e fiel obediente a Deus: filho.

A expressão “no qual pus meu agrado” é como que o eco de Is 42,1, que fala do servo de Javé: “Olhem o meu servo, a quem apoio, o meu escolhido, a quem eu quero bem!”. Com isso fica claro o que Mateus quer afirmar com essa citação. Para ele, Jesus é o servo de Javé. A narrativa se conclui, mas é necessário tirar as consequências dela para a nossa vida de fé.

Jesus não se comporta como um privilegiado. Se queremos salvar alguém, tirar alguém do poço, devemos descer até onde ele está. Por isso Jesus se deixa batizar no meio dos pecadores, cumprindo assim ajustiça, o plano do Pai. É o despojamento de sua grandeza divina e, ao mesmo tempo, manifestação do Espírito. Isso contém um significado para nosso próprio batismo. Para comunicar o Espírito no qual fomos batizados devemos mergulhar no mundo em que vivem os nossos irmãos e irmãs, mundo marcado pela presença do pecado. Jesus participou do batismo do perdão dos pecados porque participava da comunidade humana curvada sob o pecado.

O batismo cristão não significa meramente o perdão dos pecados, como o de João (muito menos mera bênção de saúde ou coisa semelhante). É participação no batismo de Cristo e na sua missão como Servo de Deus, no Espírito. Nosso batismo deve levar-nos ao serviço de nossos irmãos. Ser batizado é tomar-se Servo do Senhor com Cristo, o Servo por excelência

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP


sábado, 27 de dezembro de 2025

REFLEXÃO PARA A FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – Mt 2, 13-15.19-23:

 


Celebramos dentro deste tempo do natal, a festa da Sagrada família de Nazaré. Na dinâmica litúrgico-celebrativa, ela visa, em primeiro lugar, confessar uma verdade importantíssima dentro do mistério que vivenciamos na oitava de natal: a realidade da Encarnação do Filho de Deus. O Verbo, ao assumir a história humana, assume-a em seu realismo e em suas dinamicidades e estruturas, aceitando ser família, de modo a revelar à humanidade que também Ele, com o Pai e o Espírito formam uma família.

Mas qual a finalidade desta “assunção” da realidade familiar humana por parte de Deus? É a de propor à humanidade um convite: torna-la participante da família divina. Poderíamos parafrasear o v.14 do prólogo do Evangelho segundo João: “O verbo se fez carne e revelou sua Família entre nós”. Contudo, existe um critério, ou, se preferir, um caminho para se tornar integrante dela. É o que o texto evangélico proposto para esta solenidade nos convida a assimilar.

Antes de tudo, se faz necessário desconstruir aquelas idealizações concernentes à Sagrada Família. A família de Nazaré, José, Maria e Jesus não pode ser tida, a rigor, como modelo de perfeição ou daquela famosa imagem de “família tradicional”. Ela já começou fora dos paradigmas “humanos”, “culturais”, “religiosos”, “tradicionais” daquela época. Uma mulher que engravida, para todos os efeitos, fora das estruturas humanas e religiosas, fadada à mendicância, prostituição, e, em último caso, pena de morte. O esposo, que procura não assumir a sua prometida, e devolvê-la em segredo à família; o que revela, numa primeira leitura, um parceiro descompromissado e amedrontado. Uma situação destinada ao fracasso desde o começo. Aparentemente!

Agora, podemos entrar na narrativa do evangelho de hoje. O evangelista Mateus, se serve de um episódio já conhecido de seu povo e de sua comunidade, a matança dos meninos hebreus pelo Faraó, em Ex 1,22. O evangelista se serve da técnica de interpretação dos textos narrativos, utilizados pelos rabinos de seu tempo, o midrash. Ele se apropria desta técnica narrativa de interpretação para transmitir sua catequese sobre Jesus de Nazaré para a sua comunidade. Ele se serve de todo o patrimônio escriturístico, histórico e religioso de Israel para fazer conhecer a identidade de Jesus: para a comunidade de Mateus, Jesus é o novo Moisés, que assume toda a história e tradição de seu povo, para promover a nova libertação, o novo êxodo, e inaugurar o novo povo de Deus, através do qual Deus poderá exercer sua ação na história humana, ou seja, seu Reinado.

Uma trama diabólica existe por parte de Herodes. O mensageiro celestial informa a José que o tetrarca pretende atentar contra a vida do menino. “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo” (v. 13b). A expressão “Anjo do Senhor” é uma forma suavizada para falar de Deus mesmo. Como a mentalidade hebraica concebia-O como alguém muito distante, e por reverência ao nome divino usava-se a imagem de um ser intermediário, como um anjo. Já o sonho, na mentalidade bíblica, e sobretudo em Mateus, significa a disposição interior para compreender a vontade de Deus e colocá-la em prática. A primeira informação evidenciada aqui é a proteção constante de Deus na vida de Jesus, sendo também uma antecipação do seu ministério como oposição ao poder estabelecido. Mas Jesus será sempre guardado pelo Pai do Céu.

“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito” (v. 14). Existe uma estrutura neste versículo: José – o menino – a mãe. Notemos que Jesus está ocupando o centro da frase. O evangelista Mateus quer ensinar para a sua comunidade qual deve ser o seu referencial: o Senhor. Ele deve ocupar sempre o centro de sua vida. José e Maria são, aqui, símbolos do antigo Israel que vai se abrindo à novidade da vida e da missão de seu Messias, tornando-se assim um novo povo.

O texto continua, informando a morte de Herodes e uma nova aparição do Anjo do Senhor a José (v. 19), com uma nova ordem: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos” (v. 20). Mateus quer identificar Jesus como o novo Moisés, que do Egito inaugura um novo êxodo. A partir de onde? Dos marginalizados e excluídos. A ida para Nazaré, na Galileia dos pagãos mostra esta nova aventura sendo gestada. Ali, naquele lugar desprezado pelos judeus piedosos de Jerusalém, Deus dará início ao seu projeto de salvação e de vida, através do anúncio do Evangelho do Reino proclamado por Jesus. A narrativa se conclui, e somos convidados a tirar as consequências das lições apresentadas pelas personagens deste texto.

Os textos bíblicos destes convida a contemplar como as personagens Maria e José buscam responder ao projeto de Deus. Na perspectiva do Evangelho de Lucas, Maria é tida como o modelo do discípulo do Reino, pois ela se abre e se dedica à escuta, acolhida (discernimento) e cumprimento da Palavra de Deus ( Lc 1,38ss; 2,1-15). José, no evangelho de Mateus assume a figura do discípulo exemplar, ele é justo, porque permite que a vontade de Deus se cumpra em sua vida e através dela, escutando, assim a Palavra de Deus e colocando-a em prática (Mt 1,16ss; 2,13-19, texto de hoje). Quanto a Jesus, sempre o veremos como fiel ouvinte da Palavra do Deus que ele chama de Pai, do começo ao fim de sua vida e ministério.

Existe, portanto, uma característica comum entre as três personagens que compõem esta família de Nazaré, tão histórica e concreta: ouvir e discernir a Palavra de Deus. Isso, para escapar das possíveis quedas retóricas e devocionais relacionadas à idealização da família e da “sagrada” família. Especialmente, é oportuno recordar que, na economia cristã e de acordo com as próprias palavras de Jesus, a realidade decisiva é a nova família de Jesus: aquela dos seus discípulos e discípulas, reunida ao seu redor pelo anúncio da Palavra de Deus e que não se baseia mais em laços de sangue, mas no “fazer a vontade de Deus” (cf. Mt 12,46-50).

Importante notar uma última característica desta família: ela se deixa iluminar pela Palavra de Deus. Ora, Deus protege, mas o ser humano participa da contínua libertação. Em momento algum o evangelista diz que Deus os transportou de um lugar para outro. Apenas os iluminou com a Sua Palavra. A iniciativa de partir de um lugar para outro foi sempre de José, ou seja, do agente humano. É assim também que deve fazer a comunidade cristã: à luz da Palavra, tomar iniciativas de libertação; não repetindo as práticas do opressor, mas criando e propondo alternativas de vida.

O texto de hoje nos provoca: 1) Que imagem de família (ou modelo) trago comigo, ela é conforme os moldes e padrões desta mentalidade, perfeitinha, “exemplo de moral e bons constumes”? 2) O exemplo de José pode ser assimilado por nós e nossas comunidades? 3) Nossas famílias, com todo o realismo e imperfeição que elas possam ter, são espaços de escuta, acolhida, discernimento e realização da Palavra de Deus? 4) Podemos ser contados entre os membros da Família de Deus, assim como a humana e histórica família de Nazaré, que se colocou na disponibilidade da escuta e do cumprimento da Palavra de Deus?

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO – MISSA DA NOITE DE NATAL (Lc 2,1-14)

 


A noite santa na qual a Igreja faz a memória da plenitude do mistério da Encarnação, a primeira vinda do Senhor, é iluminada por este riquíssimo texto de Lucas, Lc 2,1-15. A narrativa, mais do que transmitir uma crônica dos fatos deseja comunicar uma mensagem de salvação. A intenção do autor é teológica, ou, se se preferir, uma teologia da história.

O evangelista nos informa a respeito de um recenseamento de todo o mundo habitado (gr. Oikumênen) ordenado por Cesar Otaviano Augusto. Um levantamento do povo, por volta do ano 5 a.C, quando Quirino era governador da Síria, que incluía a Palestina (v.2). Otaviano foi o primeiro imperador que outorgou a si o título de “Augustus”, isto é, “aquele que é digno de veneração; o poderoso; o divino”. O censo tinha, na verdade, a seguinte intenção: saber se a população havia aumentado para arrecadar mais impostos e aumentar o contingente militar para as guerras.

Uma nota importante: sempre que os reis de Israel ordenavam, da própria cabeça, os recenseamentos do povo, Deus os censurava através dos profetas, porque Ele era o único Senhor do povo, e não o rei. Ao fazerem isso, os reis se colocavam no lugar de Deus na vida do povo. Nesse sentido, a atitude do imperador anotada por Lucas indica a pretensão dele de ser senhor de tudo e estar acima de tudo. Esta ideia, o autor quer logo corrigir: se Cesar Otaviano “Augusto” quer elevar-se, Deus em seu mistério de amor subverte a lógica e se põe no mesmo nível da humanidade.

Na plenitude dos tempos, Deus faz o movimento inverso, descendo até a humanidade marcada pela injustiça, pela dominação, pela morte. Diferentemente do imperador, que toma a vida e é sinal das estruturas de morte, o Pai comunica a Sua vida através do Filho. O catequista deseja mostrar precisamente isso: o contraste entre aquele que pretende ser divino, um salvador, e aquele que realmente o é. Por isso, nas primeiras linhas da narrativa de hoje apresenta duas personagens pertencentes a este mundo de poder: Otaviano e Quirino.

O evangelista Lucas, servindo da arte da contraposição (contraste), apresenta, as três personagens que farão oposição às estruturas de poder vigentes: José, Maria e o menino Jesus. Nos versículos seguintes (v.4-6) alguns dados importantes são postos em relevo: José, de Nazaré foi à Belém (v.4), sua cidade, juntamente com Maria, desposada com ele. Uma contextualização importante, para não cairmos em narrativas ou interpretações romantizadas acerca do fato: José e Maria já se encontravam na cidade de Davi, ao contrário do que muito se pensa, que ao chegar em Belém, a mãe teria dado à luz. Isso é impossível pois uma viagem de Nazaré à Belém era feita a pé, algo impensável para uma mulher no último mês de gestação.

O v.6 é carregado de densidade. Completaram-se os dias. Uma afirmação importante, pois ao utilizar o verbo completar, o evangelista deseja ensinar que o tempo tornou-se pleno. O texto original utiliza o verbo plerôo, que, traduzido da sentido de plenitude. Lucas informa que Maria dá à luz ao seu primogênito (hbr. Ya’hid/meu único), o filho por excelência, aquele que, na tradição religiosa judaica deveria ser consagrado ao Senhor. A quem são reservados todos os direitos jurídicos. A mensagem teológica e, portanto, de salvação é esta: este menino que nasceu terá toda a sua existência e vida consagrada ao Senhor.

No v.7, o relato diz que o recém-nascido foi envolvido em faixas e posto numa manjedoura. Aqui temos um detalhe interessante: Lucas recorre ao Livro da Sabedoria: “Envolto em faixas fui criado no meio de assíduos cuidados; "porque nenhum rei teve outro início na existência; "para todos a entrada na vida é a mesma e a partida semelhante” (Sb 7,4-6). Um discurso de Salomão, explicando seu nascimento, comparando-o ao nascimento de todos os seres humanos. O evangelista pretende assinalar a humanidade de Jesus, uma vez que foi um homem no sentido pleno de sua liberdade. As faixas simbolizam a condição frágil da humanidade.

O menino é deitado na manjedoura porque não havia lugar para eles na sala da hospedaria. Imaginemos o contexto social da época. As hospedarias eram espécies de grutas escavadas nas rochas. Dentro delas existiam galerias onde era possível arrumar um cantinho para ficar, enquanto que os animais ficavam próximos às manjedouras (nos cochos), na estrebaria. Mas nem um lugar nessas galerias havia para a família de Nazaré, conforme o relato lucano. Então, muito provavelmente, tenham ficado numa estrebaria, ou numa gruta destinada aos pastores da região. O evangelista deseja mostrar que Jesus está entre os excluídos.

O autor resgata, para isso, a profecia de Isaias: “O boi reconhece o seu dono; o burro o estabulo (cocho) do seu dono. Mas Israel não reconhece; meu povo não compreende” (cf. Is 1,3). Jesus está entre os não acolhidos da história. Há uma mensagem teológica, ao mesmo tempo que polêmica: desde a infância, Jesus sofrerá a rejeição e a exclusão. De modo mais sutil, o evangelista João, no prólogo de seu evangelho declarará: “Ele veio para os seus. Mas eles não O acolheram” (Jo 1,11).

Lucas, após o parto, descreve os acontecimentos seguintes com uma aureola em torno deles, ao mesmo tempo despojado e misterioso. Temos as narrativas dos pastores, os quais passam a fazer parte da temática da exclusão. Segundo o Talmud, nenhuma condição social poderia ser mais desprezada que a dessas pessoas. Os pastores eram os mais humildes e desprezados porque conviviam com os animais, viviam muitas vezes de pequenos furtos para sobreviverem, pagãos. Para os fariseus e judeus piedosos, aquele grupo não eram gente! Eles tornam-se símbolos de todos os que se encontram na exclusão.

Os pastores recebem então uma manifestação divina (v.9). São envolvidos por uma luz, e isso lembra, logicamente, outras manifestações de Deus ao longo do AT. Agora, o anjo do Senhor que, de acordo com a tradição judaica vem sempre com a espada nas mãos para exercer a justiça e castigar os pecadores e maus aparece aos pastores – símbolos dos pecadores. Não para julgar e castigar, mas para comunicar um evangelho de vida. Lucas quer ensinar para sua comunidade que o projeto de Deus, que se inaugura em Jesus envolve a todos; não exclui a ninguém; não condena os pecadores, mas os abraça. Os envolve. Por isso, o evangelista declara que a Glória (hbr. Kabod) do Senhor os envolveu. A Glória não é o brilho, o esplendor. Mas a presença real de Deus.

A Presença (A Glória) de Deus (o Senhor) abraçou (envolveu) a todos, sem distinção. Isso é muito interessante: o anjo lhes exorta, primeiramente, a não ter medo, porque o temor para com Deus não deve ser uma barreira.

Em segundo lugar, lhes dá um motivo: “nasceu para vós o Salvador, Cristo, o Senhor!” A palavra Salvador (gr. σωτήρ/Sôter) é, primeiramente a tradução do hebraico Yeshua – Jesus. Mas, ao mesmo tempo, era o título empregado ao imperador romano. Lucas quer assinalar que não é este o salvador. A salvação repousa no menino de Belém. Cristo é tradução grega do hebraico messias, que significa o “ungido”: é o delegado, o enviado, o portador e executor do senhorio e da vontade de Deus. Tudo isso acontece na Cidade de Davi.

O mensageiro celestial lhes dá um sinal para encontrar o menino: deitado numa manjedoura, envolto em faixas. Ou seja, um sinal nada grandioso! Não se encontra na opulência do palácio de Herodes ou de Otaviano. Tampouco no esplendor do templo de Jerusalém. Muito menos entre os poderosos. Mas colocado em meio a paus trançados – um cocho.

No recém-nascido, envolto em faixas encontra-se a Glória e a misericórdia de Deus feitas Carne. Na manjedoura de paus trançados, prefigura-se o mistério da Cruz. Porque ela torna-se, na verdade, o questionamento decisivo que o Deus de Jesus faz a cada pessoa, de todos os tempos e lugares: se desejais ver e buscar um Deus forte, potente, esplendoroso, glorioso, deveis procurar outro; este “não sou eu”. Na cidade de Belém já se vislumbra o que virá ser esse menino. Belém (do hebr. Beth-lehem) significa Casa do Pão. O menino será Pão para humanidade. Servirá de sustento, e será doador de Vida. Pão repartido, moído, despedaçado na Cruz para dar vida ao mundo.

Na narrativa, imediatamente após o sinal dado pelo Valente  de Deus (Gabriel – Gebehr), aparece uma multidão da corte celeste para proclamar que, a Glória (presença) de Deus, desde o mais alto dos Céus, agora se faz presente na terra, na história humana para inaugurar o Shalom, a paz destinada a todos. Porque todos são amados por Deus. Se quisermos ver o menino, deveremos lançar o olhar para a estrebaria e para a manjedoura. Ele está ali, com os últimos e excluídos. Está nas faixas da humanidade assumida, não nos panos luxuosos; encontra-se na casa do pão, porque é alimento de vida e salvação para todos. Estejamos entre os pastores que recebem este evangelho: Deus põe seu Agrado em nós, através de Jesus, seu Filho. Possamos estar onde o menino está; no lugar da opção feita por Deus. Eis o Mistério desta noite Santa.


Bom Natal!

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 20 de dezembro de 2025

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DO ADVENTO - Mt 11,2-11:

 


O terceiro domingo do advento introduz a liturgia da Igreja na temática do primeiro advento, ou seja, a celebração memorial da primeira vinda do Senhor em seu santo Natal. Para isso, a espera, a vigilância e a conversão oferecem lugar ao tema da crise a partir da figura de João Batista. Recorde-se que na semana passada, o profeta batizador do Jordão apresentava uma imagem radical de Deus, ao chamar o povo à mudança de mentalidade, e, com isso, se afirmava que ele também seria um dos que mais necessitavam desta transformação. Hoje, através do texto de Mt 11,2-11, esta realidade emergirá.

 

A crise de João é a de todos aqueles e aquelas que se deparam com uma maneira nova de Deus agir; que chama também à mudança de perspectiva, mentalidade e de atitude. O texto mateano do capítulo onze situa-se após o discurso missionário, Mt 10, o qual recupera o ensinamento de Jesus acerca da missão destinado aos discípulos. Após concluir a catequese, é o mesmo Senhor que sai em missão. Todavia, no caminho anterior a este discurso missionário, Ele realizou dez gestos de poder, que teriam a finalidade de revela-lo como messias poderoso através das obras (Mt 7,1 – 9), até chegarmos à narrativa de hoje. É a respeito destes dez gestos de poder que o evangelista se refere no v.2 do capítulo onze.

 

“João estava na prisão. Quando ouviu falar das obras de Cristo enviou-lhe alguns discípulos, para lhe perguntarem: És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (v.2-3). O evangelista faz uma interrupção da narrativa após a conclusão do “discurso missionário” e insere, novamente, a personagem de João Batista. Ele está preso na fortaleza de Maqueronte, a mando de Herodes, que ficara incomodado pela denúncia que fizera: ter tomado a esposa de seu irmão Filipe, Horodiades, e a ter levado mais sua filha, para a morar na corte. O Batista denunciava a atitude do governante porque lhe colocava numa condição de impureza por se tratar do relacionamento com a mulher de seu irmão, conforme Lv 20. Isso incomoda a mulher e o monarca, o que o leva a encarcerar a João. Flávio Josefo diz que o motivo era puramente político, devido a influencia que o profeta exercia sobre o povo.

 

Muitos estudiosos do evangelho de Mateus definem este trecho de Mt 11,2-12 e Mt 14 (a paixão e morte de João) como sendo o momento da “crise do Batista”. No cárcere, João ouve falar das obras de Jesus. E a crise emerge na personagem, precisamente por aquilo que ouve falar acerca daquele galileu, que um dia fizera parte de seu grupo.

 

A crise se instaura em João devido a incompatibilidade de sua mensagem frente ao agir de Jesus. Dito de outra maneira, a ação e missão de Jesus fogem da regra e das expectativas de João, as quais ele anunciara em sua pregação. O Batista havia declarado que o Messias viria já com a foice nas mãos; que o machado já estava na raiz; que o batismo do “mais forte” seria com o Espírito, para inserir os fieis na vida de Deus e no tempo do messias; mas com o fogo destruidor, para aqueles que tivessem sido infiéis ao querer de Deus. João envia, então seus discípulos a Jesus para perguntar-lhe se era mesmo o messias esperado ou deveriam esperar outro (cf. v.3).

 

Jesus responde aos discípulos de João: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (v.4-5). No agir e no ensinamento de Jesus não há uma palavra de condenação; de recusa ou de violência. Ao contrário, gestos, atitudes e palavras de acolhimento, amor e perdão aos que não mereciam: cegos, paralíticos, leprosos, surdos, os pobres e os que se encontravam envolvidos em sistemas e estruturas de morte. Pessoas estas, que, conforme a pregação de João e crença religiosa da época, não mereciam a salvação por serem pecadores e enfermos. Às pessoas excluídas e marginalizadas como estas eram lhes reservadas o fogo exterminador, o machado já posto na raiz. Em Jesus, não se encontram tais atitudes, mas somente uma proposta de plenitude de vida e um amor oferecido incondicionalmente pelos inimigos. Por isso, este não poderia ser o Messias, segundo o pensamento de João, o qual deveria vir com o poder, com autoridade, força e realizar o juízo de Deus, inclusive para o Batista que se encontrava encarcerado naquelas condições injustas. Se Jesus fosse o Messias, deveria agir em favor do próprio João, inclusive.

 

O que desconcerta João e o coloca na condição da crise é o fato de que Jesus anuncia e vive um amor do Deus de Israel, a quem chama de Pai, que se estende e se oferece a todos, injustos e incompreendidos. Diante disso, Batista entra no processo pessoal da revisão da vida, porque toda a sua pregação caiu por terra. Jesus respondeu aos discípulos de João com fatos e não com teorias. A práxis de Jesus, ou seja, seu agir, recupera, inclusive, a pregação dos profetas que anunciaram o tempo messiânico a partir do surgimento de um tempo novo onde cegos, surdos, paralíticos, leprosos, todo tipo de gente ruim, seriam acolhidos e reconciliados com Deus. Mateus mostra de forma muito clara o agir salvador e reconciliador de Deus através de Jesus, por meio dos dez gestos de poder que o Senhor realiza nos capítulos anteriores (Mt 8 – 9). São dez porque remetem às dez pragas que feriram o Faraó e os egípcios, em Ex 7 – 12. Elas tinham a função de mostrar o poder de YHWH e o chamado à conversão ao Faraó. São dez oportunidades para que o líder egípcio cai na conta da soberania de Deus, e mudar o coração, a ponto de deixar o povo hebreu escravizado partir.

 

O evangelista reinterpreta a passagem de Ex 7 – 12, e ao invés de mostrar o poder e a autoridade de Deus em Jesus exterminando e destruindo, mostrará o agir de Jesus ao purificar leprosos, curar surdos, fazer falar os mudos, perdoar pecado, o anúncio da Boa Nova do Reino aos pobres. Jesus responde aos discípulos de João com fatos. Com ações positivas que tem a função de realizar a recuperação da vida a todos aqueles e aquelas que se encontram destituídos, excluídos e marginalizados, que eram descritos simbolicamente assim.

 

Jesus profere uma bem-aventurança ao final desta resposta aos discípulos de João: "Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” (v.6). Ela é, ao mesmo tempo, um convite de conversão para o próprio João. Interessante notar que a imagem de um Deus que pune, condena, destrói, queima, não causa terror nas pessoas do tempo de Jesus e João (inclusive neste). Mas a imagem de um Deus que age salvando através do amor, do acolhimento, da restituição da vida e da história é a que mais gera escândalo. A palavra escândalo deve ser entendida aqui como barreira, obstáculo, impedimento, ou, literalmente, pedra de tropeço. “Bem-aventurados são aqueles que não encontram em mim qualquer impedimento para que Deus possa agir através destas minhas atitudes”, ou seja, não encontrar nas ações de Jesus qualquer impedimento para reconhecer Deus agindo. Ou seja, felizes serão todos aqueles que não encontrarem qualquer obstáculo no agir de Jesus, a fim de reconhecer Nele Deus agindo. Mas, os discípulos de João se retiram. Mostram que não estão de acordo com o ouviram. São pessoas ainda necessitadas de uma mudança de mentalidade.

 

Jesus, diante da dúvida posta por João e seus discípulos no tocante ao Seu agir, faz o contrário, elogia a missão e a vida do Batista: “Jesus começou a falar às multidões, sobre João: O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. Então, o que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. É dele que está escrito: Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti” (v.7-11). O Batista é um profeta, assegura Jesus! Ele não é uma cana agitada pelo vento, ou seja, frágil, facilmente de ser dobrado, alguém inconstante, conveniente, pende para onde o poder está, mas sim um homem coerente; não é um homem de palácio, ao contrário dos profetas da corte do rei que adulavam o chefe do povo, ao contrário, possuía um modo de vida austero e simples, e na contramão das expectativas do rei. João, declara Jesus, é o mensageiro enviado (gr. ἄγγελος/anjo) para preparar o caminho. Mas apenas para isso. João apresentou dificuldades para assimilar o caminho de Jesus. Por isso, deve também ele converter aquela imagem divina que tinha em seu íntimo e pregava.

 

O v.11 conclui esta passagem da catequese mateana com um dito de Jesus que é por demais revelador e, ao mesmo tempo, funciona como mais uma característica a ser vivenciada por aqueles e aquelas que querem ser discípulos do reino dos céus, e acolher o Senhor do Reino que está para chegar. “Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (v.11). Jesus declara a grandeza de João. Mas exige tanto do batista, quanto de seus discípulos a coragem de se tornar “menor”. O que Jesus quer dizer com isto? Para se tornar participante deste Reino que vem se faz necessário passar pelo nascimento segundo o Espírito, Aquele que é doado, segundo pregação de João Batista, pelo “mais forte”, o Messias-Jesus. Esta vida segundo o Espírito de Jesus, é a mesma vida Dele, que se fez menor entre as minorias marginalizadas de seu tempo. Assim, o discípulo precisa aprender a se fazer pequeno como o mestre.

 

Dito de uma forma mais simples: quem quiser fazer parte deste Reino e acolher sua chegada deve assimilar a vida de Jesus, suas atitudes, suas escolhas, ensinamentos e opções, porque ele sendo grande se tornou o menor entre todos, colocando-se ao lado das minorias de seu tempo. Esta é a vida de Jesus sendo conduzida pelo Espírito. Desta vida, carregada da plenitude de vida do Espírito de Jesus é que o discípulo é chamado a assimilar e participar. Eis a terceira atitude que o fiel-discípulo é chamado a assimilar neste tempo do advento, fazer-se menor entre todos e colocar-se entre os menores desta história e realidade, convertendo aquela imagem de um Deus castigador, destruídos, carrasco, para imagem que Jesus transmite com sua vida e missão, o amor, a misericórdia e a salvação.

 

 

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

 

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.