O
Tríduo Pascal se abre com a celebração vespertina (ao final da tarde, começo da
noite) da Missa da Ceia do Senhor, e se prolonga até o final da tarde da
Sexta-Feira da Paixão. A Quinta-feira santa, no plano simbólico-sacramental,
isto é, celebrativo, se faz memória e antecipação daquilo que depois será
realizado na cruz: na ceia, Jesus, simbólica e existencialmente, se entrega.
Hoje inicia-se a nossa Páscoa.
O caráter memorial desta noite, que perpassa os outros dois dias do Sagrado Tríduo Pascal reside no fato de se fazer memória, isto é, atualizar o evento fundador da fé cristã: a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Somos convidados, através desta solene e grande celebração a sermos contemporâneos ao acontecido com o Senhor. Ou seja, a partir da dinâmica memorial, com nossos pés teológicos (da fé), a ir para a ceia, para o calvário e para o sepulcro vazio, e, ao mesmo tempo eles virem até cada um de nós. Por isso, esta noite “é diferente das outras noites”.
Esta noite começa a ser para nós, povo da Nova Aliança, uma noite diferente, que culminará na grande e solene “noite mil vezes feliz” da Vigília Pascal. Nesta noite recebemos a oportunidade de termos nossos pés lavados a fim de podermos tomar parte / comungar do mesmo gesto de Jesus.
A Ceia do Senhor carrega consigo profecia e testemunho. Profecia, porque ela se torna antecipação da entrega de Jesus mediante o gesto de lavar os pés dos seus; e testemunho, porque convida, interpela e questiona a conduta e a atitude do discípulo de todos os tempos, provocando-o a “seguir o exemplo” do mestre e Senhor, no fazer memória de Seu gesto, que institui o sacramento do amor servidor (Ministério Ordenado), e do sacramento de seu Mistério Pascal, presente entre nós (Eucaristia). O “fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24), alcança sua plenitude histórico-salvífica quando estreitamente vinculado ao “dei-vos o exemplo para que façais como eu fiz” (Jo 13,15). Isto posto, podemos meditar o texto do Quarto Evangelho, Jo 13,1-15.
O leitor-discípulo é convidado, agora, neste capítulo 13, a tomar parte do Ensinamento Final de Jesus; chamado a entrar na dinâmica da sua Glória, através dos sinais realizados por Ele na primeira parte do evangelho Joanino, os quais preparam para esta Hora, a revelação da Glória de Deus em Jesus. Estes últimos ensinamentos constituem, ao interno do Quarto Evangelho, o bloco literário que contém o chamado Testamento Senhor (Jo 13 – 17). Um testamento é aquilo de muito precioso que é deixado ou dado para quem se ama.
O autor do Quarto Evangelho situa a narrativa no tempo: “Era antes da festa da pascoa” (v.1). Diferentemente da tradição sinótica (Mc, Mt e Lc), o evangelista situa a ceia de Jesus na véspera da solenidade pascal. De modo que a ceia pascal seja celebrada no dia seguinte (coincidentemente no Sábado, aquele ano). Por que? O evangelista não pretende negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com seus discípulos, mas diferenciar para mostrar a superação dela: a páscoa do Senhor já não é mais a mesma do templo. Celebrando antes, Jesus a substitui e a supera. A dele não exige ofertas e sacrifícios, não é instrumento de exploração como se praticava no templo. Naquela, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros. Na do Cristo com sua comunidade se celebra o triunfo da vida na forma do amor, a mais eficaz manifestação visível do serviço; nessa, não há morte, há doação de vida por amor.
O v.1 anuncia a chegada da hora que vinha sendo preparada desde os primeiros sinais realizados por Jesus, e, que, agora, começa a ser levada a termo. É a hora de glorificar ao Pai, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. Esta forma solene com a qual João inicia o versículo primeiro, aponta para a finalidade da missão do Senhor: manifestar o amor do Pai até o fim. A expressão “Amou-os até o fim” pretende indicar plenitude intensidade e realização final.
O evangelista coloca o seu leitor diante de personagens que servirão de espelhos para a comunidade. Primeiro, focaliza-se internamente a personagem de Judas Iscariotes, ao informar que “o Diabo (o divisor; o opositor)” o havia seduzido para que entregasse Jesus (cf. Jo13,2). João, ao focalizar a consciência diabólica (cindida / dividida) de Judas realiza um contraste com a consciência livre e orientada para o projeto de Deus que Jesus possui: a de que o Pai, “tudo” (semitismo para Todos) havia colocado em Suas mãos. O Senhor é apresentado como soberano. Não será uma vítima das circunstâncias. Ninguém o toma de surpresa. Ele é livre em sua vida e obra.
Com tal consciência, Jesus levanta-se da mesa. Depõe seu manto. Um gesto simbólico: ao depor o manto está, na verdade, despojando-se da imagem de mestre e de sua dignidade enquanto pessoa. Estava sentado, ocupando a posição privilegiada de mestre que ensina. Cinge-se com uma toalha à cintura. Cingir os rins significa a atitude de estar de prontidão para o serviço. Em seguida derrama água na bacia e começa a lavar os pés dos discípulos (v.4-5).
Compreenda-se o peso e a dramaticidade do gesto realizado por Jesus. Tal era realizado por um escravo; quando não, pelos filhos ou pela esposa, e, numa demonstração de profunda estima, pelo próprio anfitrião. Mesmo assim, continuava sendo um gesto de muita humilhação. Os rabinos até orientavam escravos judeus a não realizarem este gesto para com seus patrões. Para Jesus, os distintivos de sua comunidade e de seus discípulos são o amor e o serviço! Esta é a sua real e mais essencial identidade. Estes símbolos servem para explicar o gesto de Jesus: uma transfiguração às avessas! Jesus depõe a sua imagem de Senhor, e assume a forma de servo (Fl 2,7). Ele não veste os paramentos sagrados dos sumos sacerdotes, mas os do serviço; não as alfaias da casta sacerdotal, mas o avental dos servos.
Agora, desloquemos o olhar para outro personagem que o evangelista faz aparecer na narrativa: Pedro. Consciente da conotação humilhante daquele gesto, ele protesta: “Senhor, tu me lavas os pés?”(v.6). Para o discípulo pescador de Betsaida e para os demais, tal gesto é incompreensível. E, de fato, o é para aqueles que ainda não conheceram em profundidade o mistério do Filho de Deus. Por isso, Jesus afirma, que, por hora, eles não sabem o significado daquele gesto (isto só acontecerá à luz do enaltecimento na cruz e mediante o dom do Espírito de Jesus Ressuscitado). Para aqueles que pensam em termos de hierarquia, o mundo vira de pernas para o ar quando o superior se torna inferior!
“Tu não me lavarás os pés, nunca!” (v.8), declara o discípulo. O que o discípulo não quer aceitar e, demora a assimilar, é que a originalidade do gesto de Jesus reside na inversão dos valores; de que o mestre se faça servo; que o senhor se torne escravo. Não aceita para não se comprometer. Porque, uma vez que se deixa lavar os pés deverá fazer o mesmo. Mas Jesus retruca, dizendo “que não terá parte com ele, caso não deixe lavar os pés” (v.8b). Em termos joaninos, “não ter parte” com o Senhor significa não participar da plenitude e inteireza de sua vida, que atingirá a qualidade de uma vida eterna. Ter parte com Jesus, significaria, por outro lado, ter em si a vida de Jesus, e torná-la existencialmente vivida de novo, através da vida do discípulo e da comunidade. Não é possível comungar da vida do Filho, sem aceitar sua lógica do serviço radical. A profundidade de seu gesto reside no fato de que ele é símbolo e profecia da entrega / doação da própria vida. O gesto de lavar os pés acena para o que Ele realizará mais adiante: sua vida consumada na cruz.
Se Pedro (e qualquer outro discípulo) não aceitar o gesto de Jesus, não participará do efeito da obra messiânica de Jesus. Por isso, o discípulo deve deixar que a água de Jesus o lave. A água é símbolo para a vida, e a para a existência do Senhor. Ou seja, o fiel precisa ser limpo e purificado pela exemplaridade da vida do Mestre. Ao deixar que a água Dele caia sobre os pés, deve permitir que sua vida seja transformada a partir do sentido da vida do Cristo.
O Jesus joanino, depois da incompreensão demonstrada por Pedro, volta à mesa, retoma sua condição de mestre e explica-lhes, então, o gesto. De fato, os discípulos reconhecem-no como Mestre e Senhor. Mas se Ele, nesta condição lhes lava os pés, devem também eles fazer a mesma coisa: lavar os pés uns dos outros, tornando-se servidores uns dos outros pelo amor fraterno.
A lógica radical desta páscoa do Senhor iniciada nesta Quinta-feira da Ceia e do Lava-pés consiste em aprender a lavar os pés, mesmo quando não há quem lave os seus. Aprender a amar quando não se é amado; quando não há quem te ame. O discípulo que se dispõe a viver esta radicalidade aprende a passar pela logica da Páscoa do Senhor. Por isso, não há como sentar-se à mesa (tomar parte da ceia do Senhor, comungando de sua vida, corpo e sangue) sem que se tenha lavado os pés dos irmãos. Não há Eucaristia sem lava-pés!
O texto suscita algumas perguntas para nós mediante este Sagrado Tríduo: 1) Com qual das personagens me identifico: Judas, que não mais se identifica com Senhor, a ponto de tornar-se adversário do projeto de Jesus e de seu Pai, ou com Pedro, que reluta ainda em assimilar a forma servidora de Jesus? 2) Tenho me deixado lavar os pés por Jesus (e com isso aceitado o Seu Dom-Salvação), para poder lavar os pés dos irmãos (através do serviço do amor/doação fraterno)? 3) Tenho crescido na consciência de que ao comungar da Vida do Senhor (através de seu Corpo e Sangue), devo igualmente comungar (assimilar e realizar) no lava-pés do Senhor? Não há Eucaristia sem lava-pés!
Pe.
João Paulo Sillio.
Santuário São Judas Tadeu / Arquidiocese de Botucatu – SP.




