A
liturgia deste quinto domingo da Quaresma, apresenta-nos o capítulo onze do
Evangelho segundo João, o qual relata a reanimação de Lázaro. Esta narrativa
carrega consigo o último sinal realizado por Jesus ao interno da catequese
joanina. O fiel leitor ainda se situa no livro dos sinais (Jo 1,18 – 12,51), os
quais preparam para a Hora da Glória (Jo 13 – 20), e tratam, através de seu
sentido simbólico, de apontar e revelar a identidade do Senhor.
O relato da reanimação de Lázaro foi inserido entre as ameaças de morte a Jesus por parte dos fariseus (que o evangelista chama de “os judeus”), após o episódio de Betesda (Jo 5), da multiplicação dos pães (Jo 6, o discurso do pão da vida), e, posterior ao sinal da cura do cego de nascença, em Jo 9, que resulta na alegoria do pastor ideal, em Jo 10,38. Todo este panorama narrativo está eivado de crises, mal-entendidos, polêmicas e muita ira por parte das autoridades judaicas em relação ao Senhor. Por isso, imediatamente a realização do sinal (Jo 11,46-54), as autoridades se põem a tramar descaradamente a morte do mestre. Uma fina ironia emerge deste complô: na iminência da sua morte, Jesus responderá com o dom da vida. É a mensagem que o relato pretende transmitir.
Convém recordar que, o sinal narrado não trata propriamente de uma ressurreição, mas de uma “reanimação”. A ressurreição é a passagem da morte para uma vida definitiva e plena, graças à obra do Cristo. A narrativa joanina relata a reanimação de um corpo, já em estado de decomposição (a nota cronológica “quatro dias após a morte”, indica também esta realidade biológica). Todavia, continuava corruptível. O que Jesus faz não é apenas prolongar os dias de Lázaro, mas, através deste sinal extraordinário, revelar que a vida plena se encontra definitivamente Nele. Por isso, o discípulo-leitor não pode ficar preso na superfície do gesto profético e simbólico que o sinal representa. Deve ir além. Mirar a ressurreição do Senhor. Acolher o dom supremo da vida de Deus doada através do Senhor, para ser libertado das amarras que por ventura mantém o ser humano atado. Agora se pode mergulhar no horizonte da narrativa. Dada a extensão do relato, se fará necessário, mais uma vez, pinçar alguns versículos que funcionarão como chave de leitura para a interpretação do texto.
O autor situa a cena: “Havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Maria e de sua irmã Marta” (v. 1). O evangelista apresenta Betânia (hbr. “casa da aflição”), como o espaço de uma comunidade, onde a fraternidade, de fato, reinava. As personagens são apresentadas como irmãos. Não há maior e menor entre eles; não há hierarquia entre aqueles que a compõem. Uma comunidade ideal. Todavia, ainda presa à mentalidade equivocada, resistente e tradicionalista. Recorde-se, que todas as vezes em que o termo povoado é citado nos textos bíblicos está sempre carregado deste aspecto negativo: rigorismo, mentalidade fechada e ultrapassada; resistência e oposição. O adjetivo “amado” faz alusão ao discípulo amado, o qual não é um personagem identificável. Ele é símbolo para aquele que assumiu o propósito, a vida, a missão e a obra realizada por Jesus como programa para sua vida.
No v.4, Jesus, informado sobre a enfermidade de Lázaro, responde que essa enfermidade é ocasião para a Glória de Deus. Este versículo faz memória do que fora dito em Jo 9,3 quando se referia, do mesmo modo, ao cego de nascença e sua enfermidade. O que o evangelista quer ensinar para sua comunidade é o seguinte: em Jesus de Nazaré, Deus está presente. Sua vida, missão e obra, através dos sinais que opera revelam a presença do Pai agindo nele. O que o Senhor realizará, para o bem dos discípulos (ocasião favorável), será um sinal que revela o divino nele. Ali, onde a vida parece ter acabado, sempre há espaço para a presença de Deus.
Se faz necessário dar um salto narrativo e tomar o v.17: “Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias”. Esta informação é importante, porque revela a ideia da impossibilidade de vida. Na Palestina, os rituais funerários aconteciam no mesmo dia da morte, devido às condições climáticas. Pensava-se, na cultura da sociedade de Jesus, que após este dia, o espírito deixava definitivamente o corpo e descia para o lugar chamado Sheol, a mansão dos mortos (a qual era, conforme a mentalidade, uma caverna subterrânea). Interessante é que o sinal se realiza neste quarto dia. Se Jesus tivesse atendido o chamado, vindo antes do terceiro dia, operado o sinal, a “glória de Deus não seria manifestada” aos olhos daquela gente.
No v.19, o evangelista informa que muitos judeus (devido à proximidade de Jerusalém) tinham vindo para Betânia consolar Marta e Maria. A primeira é mais agitada que a outra. E é ela quem toma a atitude e vai encontrar a Jesus nas portas da cidade. A morte gerava desespero e medo. Curioso, o evangelista informa que o Senhor não entra no povoado, tampouco na casa da família de Betânia. Deseja ensinar que Ele não era conivente com a mentalidade de um culto a um deus que ressuscita mortos. Este é o verdadeiro motivo da ida dos judeus até Bethania: cultuar a morte. Jesus, pelo contrário, revelará um Deus doador de vida aos que estão vivos. Somente rompendo com antigas estruturas e mentalidades de morte e obscurantismo se torna possível vivenciar o triunfo da vida: de fora do povoado, Jesus chama as irmãs a saírem.
“Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele to concederá” (v.21). Haviam avisado a Jesus de que seu amigo, Lázaro, estava doente. Jesus, por sua vez, nem se moveu. Então a personagem Marta expressa toda a sua reprovação. Ora, pensemos: na expectativa dela estava a possibilidade de que o Senhor realizasse um gesto poderoso em relação ao irmão defunto. Como que Ele, que havia curado o filho do funcionário de Herodes, um estranho, reabilitado a vida de um enfermo na fonte de Betesda, também estranho e anônimo, feito lama (recriou) os olhos de um cego nascença desconhecido, poderia tratar dessa forma um amigo?
Aqui, se faz necessário adentrar um pouco na fineza da redação de João, que é um verdadeiro teólogo e mestre da fé para sua comunidade. Ele usa dois verbos diferentes para expressar a mesma coisa. O verbo “pedir”, aplicado à Marta expressa a exigência de um inferior ao seu superior. Enquanto que, para expressar uma necessidade entre iguais, se utiliza o verbo “perguntar”. Os dois revelam que ela possui uma compreensão errada acerca de Jesus: uma pessoa intermediária que pode realizar aquilo que se lhe ordena. Ela não entendeu que Jesus e o Pai são um, ou que as obras do Filho são as obras de Deus. Deseja tão somente uma intervenção que prolongue a vida do irmão.
Jesus muda o sentido da morte e da vida: Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará (v.23)”. Ele não responde à Marta como se desse a entender “eu ressuscitarei teu irmão”, mas, “Teu irmão ressuscitará”. A ressurreição do irmão dela não é uma intervenção miraculosa, mas o efeito da vida definitiva que é comunicada Senhor ao discípulo que aderiu à Sua pessoa.
Marta não gosta da resposta de Jesus, e retruca expressando a mentalidade da época (v.24): “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. Lembra o Livro de Daniel, o qual menciona, pela primeira vez, a ressurreição nos últimos tempos. Pensamento este, presente na cabeça dos fariseus. Ela nada mais faz que reproduzir esta concepção.
Então, no v.25, Jesus, solenemente declara: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”. João recorda as palavras do Senhor, utilizando uma fórmula de revelação, que alude ao nome divino “Eu Sou (YHWH)”. Emerge também aqui o tema da Escatologia presente, muito cara aos seus escritos e à sua teologia. Ele pretende afirmar para a sua comunidade que a ressurreição esperada para o fim dos tempos chegou! Está presente em Jesus. Ele é a novidade da vida do âmbito de Deus!
Jesus continua no v.26, “E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” Aqueles, que durante a vida e a existência acreditaram, isto é, aderiram a Jesus, tomaram a iniciativa de abraçar a Sua vida, o Seu modo de ser, tem a oportunidade de experimentar desta mesma existência e vida qualitativamente distinta no aqui e no agora. Fazem a experiência de viverem já, no agora, uma vida sob cores e tons de eternidade; dão um salto qualitativo para a vida divina. Esta qualidade de vida se faz presente através do dom que Deus oferece em Jesus. Marta faz, então, a sua profissão de fé, “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo"( v.27). A personagem dá o passo da fé. Faz uma profissão de Fé, reconhecendo que Ele pode administrar aquilo que Deus dá.
Os vv.33-36 desenvolvem-se ao redor das sensações vivenciada pelo Senhor. O Jesus da cristologia dos evangelhos e, principalmente, do Quarto Evangelho é um homem autêntico. É a única vez que se menciona dessa maneira que Ele chora. Ele chora (gr. δακρύω/κλαίω). Não motivado pela frustração ou pelos limites inerentes à morte. Deixa-se tocar pelo sofrimento e condição de desumanização que o ser humano se encontra. E isso lhe causa indignação (gr. ἐμβριμάομαι). Esta comoção do Senhor é, na verdade, uma indignação profética, frente à rejeição ao projeto de Deus e à dúvida em relação ao Seu agir manifestadas pelos Judeus e pelos discípulos É a indignação daquele que sente e vê que as estruturas podem desumanizar uma vida. E, por isso, se coloca em ação. E, daqui, se pode muito bem saltar para o v.43.
A narrativa é bem construída. Jesus faz uma prece ao Pai, a qual é a expressão da comunicação e comunhão íntima e profunda entre Eles. Então ordena, exclamando com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” (v.43). Lazaro (hbr. Eleazar, Deus Ajuda) é chamado novamente à vida, mas ainda caminha amarrado. Por isso, o Senhor ordena que o desamarrem e o deixem ir. Esta ordem, de fato, significa o convite final que Jesus faz para a liberdade. É necessário “desatar” (v. 44) o ser humano de tudo o que o impede de caminhar livremente em busca da vida plena e da dignidade.
O sinal aponta para uma realidade última, como se sabe. E o discípulo não pode parar na simples materialidade dele, que no caso é a reanimação de um cadáver, ainda atado e com dificuldades (sua existência ainda é caduca). Este gesto profético de Jesus alude para uma verdade muito profunda: a Sua ressurreição.
Qual o nível da nossa relação com o Cristo, é semelhante a mentalidade das duas irmãs que concebem a Jesus somente como um meio para obter algo? Temos escutado a voz do Senhor que nos chama pelo nome a sair do túmulo? Quais são as amarras que nos impedem de caminhar e abraçar a vida que Ele tem para dar?
Pe.
João Paulo Sillio.
Pároco
do Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP.





