O décimo quarto
domingo do tempo comum apresenta o capítulo onze do Evangelho segundo Mateus
para a nossa meditação. Sempre se faz importante contextualizar o texto, a fim
de se compreender a mensagem de Jesus transmitida pelo catequista bíblico à sua
comunidade e para as gerações seguintes dos discípulos e das discípulas do Reino.
No capítulo décimo, Jesus transmitiu o ensinamento acerca da missão – o discurso missionário. Porém, o envio missionário não aconteceu imediatamente ao ensino. Mas é postergado para o final do Evangelho. Uma atitude pedagógica do Mestre, pois o discípulo só poderá ser enviado em missão depois de ter aprendido e vivenciado todo o sentido da vida do Senhor. Deverá passar por todos os dinamismos que o próprio Cristo passou, inclusive pelo mistério de Sua paixão, morte e ressureição. Do contrário, não transmitirá (pregará, anunciará, ensinará) com exatidão o sentido da vida de Jesus.
A catequese de Mateus, como se sabe, é composta de cinco ensinamentos principais de Jesus, os quais chamamos de discursos. Neles, o evangelista apresenta o Senhor ensinando como verdadeiro Mestre. Imediatamente após encerrar a sessão do ensinamento, o autor insere um bloco narrativo onde mostra-o realizando aquilo que falou. É o caso do texto de hoje.
Jesus, no texto de hoje, se encontra diante de um momento de intensa hostilidade por parte dos fariseus e dos escribas que rechaçam o seu ensinamento e sua forma de vida. Reprovam a pregação de um Deus que é cheio de amor e misericórdia, que perdoa e oferece sempre a plenitude de Sua vida. O que é profundamente contrária à ideia e experiência [equivocada] de Deus que os chefes do povo transmitiam em seus ensinamentos.
A crise é ainda maior para Jesus, quando ele se dá conta de que a multidão que o seguia até então o abandonava. Por que? As pessoas procuravam-no somente por aquilo que Ele poderia realizar; não estavam interessadas na profundidade de suas palavras, de seu ensinamento, de seu modo de ser. Acompanhava o seu ensinamento o convite à conversão, isto é, a mudança da mentalidade, da forma de pensar, da maneira de se relacionar com Deus e com o próximo. E isso, elas não estavam abertas a assimilar. Ora, Jesus ensinava a doar, a oferecer-se; elas, ao contrário, só desejavam receber sem se comprometer. Percebendo, então, que Ele não satisfazia mais as suas necessidades e as conveniências, se decidem por abandoná-lo. Isso configura, em seu ministério, uma crise. Uma desolação. O senso da frustração – e até mesmo do fracasso (no evangelho de Marcos, chamamos este momento da vida de Jesus de “a crise da Galileia”).
Os capítulos 11 – 12 apresentam, nesse sentido, as várias reações diante do ensino e da ação de Jesus, transformado em objeto de controvérsia por parte dos adversários, escribas e fariseus, e dos incapazes de compreender sua pregação. A partir de então, o evangelho apresentará uma contínua rejeição à Sua pessoa. E, mais, seus inimigos tomam a decisão de matá-lo (Mt 12,14). Em contraste a estes grupos rivais e a multidão descontente encontra-se o grupo dos pequeninos. Com essa deixa, se pode entrar no horizonte do texto litúrgico proposto para a meditação.
Ao mesmo tempo
que Jesus encontra-se consciente da crise que enfrenta, a partir da sabedoria religiosa
de seu povo (presentes inclusive nos Salmos de súplica e agradecimento) elabora
um antídoto muito eficaz: a capacidade de agradecer e bendizer ao Pai pelos
feitos, pelas realizações e maravilhas que realizou e sempre realiza na
história, tanto de seu povo, quanto na vida concreta de cada pessoa. Ele ensina
a dar o passo na superação da crise, da desolação, da frustração, através da
atitude de bendizer e agradecer a Deus por tudo aquilo que Ele realizou em sua
vida. Somente aquele que tem a disponibilidade e a coragem de olhar para a própria vida
e reconhecer nela a ação soberana do Senhor – seja com Sua presença ou com
alguma intervenção libertadora e geradora de vida – consegue dar o passo na
superação da crise ou dos momentos de desolação. É olhar para a vida e reconhecer
nela o quanto o Pai, em Jesus, foram e continuam sendo presentes.
“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (v.25). O evangelista constata um louvor em forma de bênção elevado por Jesus ao Pai, Senhor do céu e da terra (isto é, senhor de tudo). Mas o louvor tem um motivo: foi do agrado de Deus revelar os mistérios do Reino aos pequeninos. Ou seja, a forma da missão e da vida do Senhor revelam uma nova e plena forma de se relacionar com o Pai e com Ele; revelam o Seu amor sempre fiel, que acolhe, que nutre, que salva e gera vida. E isso correspondeu a iniciativa do próprio Deus, em Jesus. Ou seja, é da vontade (do agrado) do Pai a ação do Cristo. O modo de agir de Deus vai na contramão do pensamento, dos esquemas e da lógica humana. Pelo contexto dos capítulos anteriores fica evidente que “os sábios e entendidos” são os chefes religiosos de Israel. Eles, em seu conhecimento religioso se fecharam à ação de Deus através de Jesus. Se tornaram refratários e resistentes, a ponto de endurecerem o coração. Mas se estes se fecham e a multidão o abandona, existem, em contra partida, aqueles que acolhem a sua Palavra: os pequeninos.
Quem são os pequeninos? Antes de tudo, há que se ter presente o seguinte, que um mesmo vocábulo grego, dependendo do contexto em que é usado, assume conotações diferentes, dando origem a traduções diferentes. Isso acontece com a palavra “pequenino”. Ao interno de seu evangelho, Mateus se serve de dois termos para falar deste grupo: mikrós e nepios.
Nepios ou Nepioi
(gr. νήπιος), utilizado no texto de hoje, significa criança, menor de idade. É símbolo
daquele que se deixa instruir. Aquele que não se julga proprietário, dono,
detentor da verdade, e que está sempre aberto à novidade do Reino ensinada pelo
Senhor. Eles possuem a precedência na revelação do projeto de Deus em Jesus.
No v.27, Jesus declara: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. O Pai, Senhor de tudo, coloca tudo nas mãos de Jesus, o Filho. E este, por sua vez, tem a autoridade de colocar tudo a respeito de Deus nas mãos de quem ele quiser. Dito de outra maneira, o conhecimento e nova forma de relação com Deus passa por Jesus. Rejeitá-Lo e fechar-se para sua pregação significa, em última análise, rejeitar Deus e fechar o coração para Sua palavra.
No v.28, Jesus reorienta a vida e a direção dos pequeninos e dos discípulos através de um convite ressignificador: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Este versículo foi sempre mal compreendido, dando margem para compreensões moralistas e escrupulosas ao texto. O fardo a que se refere Jesus não são os pecados, frutos das atitudes humanas; tampouco são as aflições ou os sofrimentos que decorrem da liberdade do ser humano. Fardo se refere à Lei mosaica, com suas 613 prescrições, as quais são derivações forçadas das interpretações que os escribas e fariseus faziam sobre os mandamentos da Torá. Estas seiscentas e treze normas oprimiam as pessoas, dada sua complexidade (Mt 23.4), e não geravam mais vida, senão somente o nutrimento de sistemas e mecanismos injustos, promotores de alienação e de morte para o povo simples.
Jesus, Sabedoria encarnada na história (Pr 8), em contrapartida, propõe um julgo, diferente do fardo/peso. Fazendo-se discípulo dele, aprendendo com ele, manso e humilde de coração, que não busca dominar, é possível encontrar descanso, pois seu jugo não machuca ninguém e seu peso é leve. Ele exige dos discípulos somente o essencial, a justiça do Reino (Mt 7,33), a qual é, quantitativamente mais simples, mas qualitativamente muito mais exigente que a justiça dos escribas e fariseus (Mt 5,20). Jesus propõe reorientar a vida do discípulo a partir das exigências do coração, do amor e da misericórdia, que promovem a Justiça do Reino. Nesse sentido, o Evangelho do Reino não é peso ou fardo. Ele gera vida e promove libertação.
O texto evangélico de hoje nos questiona: quem somos? Encontramo-nos inseridos entre os pequeninos – abertos, disponíveis e livres para acolher o projeto de Jesus –, ou entre os sábios e entendidos, ciosos e fechados sobre si mesmo e sobre o que sabem – impermeáveis e resistentes ao projeto do Reino anunciado por Jesus? Tenho assumido o jugo suave de Jesus, que é Graça, liberdade, vida e gratuidade, ou vivido sob o peso de uma religiosidade exterior, aparente, exigente, opressora e teatral? Nossas comunidades, são comunidades dos pequeninos ou dos sábios formatados?
Pe. João Paulo Góes
Sillio.
Pároco e reitor da
Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP
