sábado, 18 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,24-43:

 


A liturgia do décimo sexto domingo do tempo comum dá continuidade à meditação do Discurso em Parábolas de Jesus, contido em Mt 13 a partir do v.24, que já nos insere no horizonte do texto. A partir deste versículo, Mateus recorda três novas parábolas: o joio e o trigo, a semente de mostarda e o fermento (24-33).

“O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora” (vv. 24-25). O joio (gr, ζιζάνια– zizânia), era uma planta muito parecida com o trigo. Mas o que a diferenciava? Os efeitos nocivos que possui, pois os grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumia. Fora semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), a noite, símbolo das trevas e da ausência de Deus na tradição bíblica.

A parábola apresenta o Reino numa realidade de tensão e hostilidade: a semente boa e a semente nociva; o mal e o bem; o amor e o ódio; a vida e a morte. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam-se como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. O Mestre deseja ensinar o contrário: quem adere ao Seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o mal, sem compactuar com ele. Nesse sentido, a tentação a ser vencida pelo discípulo do reino, que ouve e se põe à discernir (“Quem tem ouvidos, ouça”) é a do puritanismo (querer ser uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas), e vem expressa através da preocupação dos funcionários do dono da plantação, “Queres que vamos arrancar o joio?” (v. 28b). Eles simbolizam aquelas pessoas muito religiosas de todos os tempos. Dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje. São as pessoas intolerantes que, por causa de um zelo fundamentalista e doentio alimentam e disseminam ódio e violência.

A estes, o patrão responde: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita” (vv. 29-30a). Ou seja, o discípulo e a discípula do reino não podem apresentar-se como juiz de ninguém. Julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos.

A segunda parábola é a da semente de mostarda. “O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (v.31-32).  Esta parábola é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Diante da estrutura imperial e da grande organização da sinagoga, o projeto do Reino anunciado pelo Senhor era praticamente invisível, ou, conforme a mentalidade equivocada dos discípulos, ineficaz. Por isso, eles, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. É necessário que a comunidade aceite a condição de pequenez em que se encontra e a reconheça como necessidade para compreender a dinâmica do Reino, o qual não pode impor-se por sinais de grandeza. Pelo contrário, precisa ser cultivado, e colocar-se no mundo a partir da dinâmica do serviço, agindo como abrigo e promovendo acolhimento para os mais necessitados, “Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”.

A terceira parábola é a do fermento. “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). Trata-se de uma das parábolas mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento; e com a atividade de uma mulher.

Na tradição judaica, antes da celebração da festa da Páscoa, solene memória da libertação, a família, uma semana antes, realizava uma faxina minuciosa da casa, no intuito de se eliminar todos os alimentos levedados, bem como o próprio fermento (hbr. Chemetz/fermento velho), para se comer pão sem fermento (ázimo) e celebrar a vitória contra Faraó e a libertação da casa da escravidão. Ora, para a cultura e tradição da época a mulher não tinha voz e nem espaço. Pouco teriam a contribuir com um projeto de sociedade, principalmente como o do Reino dos céus e, no entanto, Jesus se serve delas.

A tentação que Ele quer fazer a comunidade vencer, na verdade, são duas:o desânimo e a impaciência, por não ver os resultados nem os efeitos gerados pela pregação e pela forma da vida cristã. Com uma parábola como essa, o Senhor quis injetar ânimo e perseverança neles e, ao mesmo tempo, desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores.

O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade, sua ação deve ser sempre como a do fermento, que atua escondido. Mas que só se vê e se sabe de sua presença devido ao crescimento da massa. Assim, só é possível ver a ação deste Reino (a massa que cresce) quando se constatam os sinais de sua presença: vida plena, fraternidade, igualdade, justiça, amor e misericórdia emanadas através da existência dos discípulos-missionários.

Dos vv.36-43, o Mestre explica aos discípulos – portanto, um ensinamento reservado – apenas a parábola do Joio. Ele a explica detalhadamente com uma alegoria, ou seja, destrinchando aos discípulos alguns elementos da parábola que ainda não haviam ficado claros. Cada elemento da ilustração é identificado com precisão. O semeador do trigo é o Filho do Homem, ou seja, Jesus. O campo é a humanidade, o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. A cizânia-jôio são os “filhos do maligno”. O termo “filhos” pode ser entendido como simpatizantes de uma causa. O semeador da semente má é o diabo, divisor e opositor do Reino. A colheita simboliza o fim do mundo. Mas última palavra em relação à qualidade das sementes será, única e tão somente, o mesmo Filho do Homem, que realiza a colheita em nome de Deus. Ele será o encarregado de constatar a qualidade do fruto. Somente ele terá a ultima palavra ao realizar o julgamento.

Quem pensa a si como boa semente precisa sempre estar consciente para não deixar crescer em sua vida o Joio. Se faz necessário estar em constante vigilância, pois poderá acontecer de se tornar semente ruim mesmo antes da colheita. E, para aqueles que vivem como cizânia sempre será tempo de conversão, até que chegue o tempo da colheita. Nada está definido na aventura da existência humana, pois a qualidade do fruto será atestada somente pelo Pai do Céu.

Mesmo incompatíveis com a Boa Nova do Reino, as três tendências a serem combatidas ao interno da comunidade, o puritanismo (farisaísmo), a grandeza (poder), o desânimo (impaciência) marcam a sua história, desde as suas origens com os Doze até os dias atuais. Por isso, motivados pelo texto, qual um espelho para (e da) nossa vida, cabe-nos questionar: a que grupo pertencemos? Que semente temos sido (trigo, joio ou mostarda)? A quais tentações temos cedido?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco da paróquia santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 11 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,1-9:

 


A liturgia deste décimo quinto domingo do tempo comum propõe para a meditação o capítulo treze do Evangelho segundo Mateus, o qual apresenta uma nova catequese importante do segundo evangelho a ser trabalhada também nos próximos domingos: o discurso em parábolas.

As parábolas eram utilizadas na antiguidade bíblica, bem como no tempo de Jesus. Pertencem ao gênero literário sapiencial denominado mashal. O narrador ou os rabinos se serviam dos acontecimentos e das coisas simples da realidade e do cotidiano para transmitirem o seu ensinamento acerca da interpretação da Lei. Elas possuem três funções características para atingir seu fim pedagógico: 1) chamar a atenção dos ouvintes a partir do exagero dos elementos simples; 2) provocar os mesmos ouvintes; 3) gerar uma mudança de comportamento na audiência, no público alvo – nos leitores. Jesus igualmente se serviu deste gênero para ensinar os discípulos e as multidões.

Qual o conteúdo central do ensinamento de Jesus? O Reino de Deus. Mateus reúne, pois, no capítulo treze, o ensinamento do Mestre acerca do Reinado dos Céus, maneira que o evangelista se refere a esta realidade, dado que sua comunidade é composta de judeus-cristãos, e, por reverência ao nome de Deus, não o menciona.

A vida de Jesus se pauta a partir de dois absolutos, a saber: a relação com o Deus de Israel que ele chama de Pai, e o anúncio do Reino. O Reino ou Reinado – como a exegese atual prefere assim nomear – é a ação soberana de Deus na História humana através de Cristo. Por isso, o Reino é uma pessoa, como já dizia Orígenes, nos primórdios da tradição eclesial. A adesão a pessoa de Jesus de Nazaré, confessado como Senhor e Cristo gera um novo modo de viver para o discípulo, na história humana; gerando e propondo um modo de ser e de viver, uma ética.

As parábolas de Jesus sobre o Reinado dos Céus, são, na verdade, modos diferentes de se mostrar – misteriosamente – a atuação de Deus na história. Mateus as reúne em número de sete precisamente para ensinar que este ensinamento é carregado de plenitude, uma vez que o número sete indica perfeição. Elas também cumprem um papel pedagógico importante em relação à vida do discípulo e da comunidade: São chaves para interpretar a ação de Jesus e o destino do Reino quando sua morte já está decretada (Mt 12,14), e os discípulos (daquele tempo e das gerações futuras) correm o risco de cultivar ideias equivocadas a respeito do Mestre.

Ao revelar os “mistérios do Reino”, isto é, como Deus age na história, Jesus quer alertar os discípulos. Por isso, as parábolas são decifradas e interpretadas somente para eles, em particular. As multidões, que ainda não aderiram ao Senhor o veem com suspeita. Por isso, são inaptas para compreendê-las; daí, que as parábolas permaneçam enigmáticas para elas.

A primeira parábola a ser meditada é a da semeadura. Dos vv.1-3, Mateus situa-nos na cena. Jesus está nas margens do mar da Galileia. Ali uma multidão se reúne para ouvi-lo. Toma a iniciativa de subir numa embarcação e começa a ensinar. O evangelista não quer que o Mestre seja comparado aos rabinos de seu tempo, que ensinavam em pequenos grupinhos e de modo privado. Sua preocupação centra-se, antes, no desafio de ser discípulo em contextos adversos. Por isso, o ensino se dá fora da casa (segurança), sobre uma barca (símbolo da Igreja), nas margens do mar (lugar das forças contrárias ao querer de Deus, onde o discípulo é chamado, junto de Jesus, a realizar a vida e a missão). Com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, o Senhor convida a Igreja de todos os tempos a ser uma Igreja em saída. A comunidade cristã não pode fechar-se em si, nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens.

De 4-9, Jesus começa a ensinar, servindo-se da imagem do semeador, que sai para semear. A semente que carrega consigo vai, ao longo do caminho caindo. Cai em terreno pedregoso, em meio a espinhos, em solo arenoso e, por fim, em terra boa e fértil. O elemento-surpresa da parábola que deve chamar a atenção do ouvinte e, posteriormente, do leitor discípulo do evangelho, que é, por si só paradoxal é o próprio semeador. O ouvinte ou leitor poderá se questionar: “mas que tipo de semeador é esse, que não percebe que as sementes vão caindo pelo caminho? Que desatento! Ou não sabe trabalhar!”. Esta provocação, como dissemos no início, é intencional. Ela serve para despertar o discípulo e manter a atenção na lição.

As realidades em que a semente cai ou é lançada merecem atenção. Estrada, areia, espinhos e o terreno bom são realidades ou situações que podem se fazer presentes na vida da pessoa e do discípulo, que podem favorecer ou não a acolhida para com a mensagem. Não se tratam de quatro tipos de pessoas. Tampouco são quatro tipos de corações ou de mentalidades.

A estrada pode simbolizar as situações de imediatismos. A Semente é lançada, e se esperam resultados rápidos. E como não há tempo para germinar e, portanto, acolhimento, ela fica exposta e os pássaros a comem, ou seja, algo a retira da vida da pessoa.

A areia, acena para aquilo que é frágil e superficial. A Semente do Reino que nela cai não encontra profundidade, brota logo, e, por não possuir raízes, que dependem de profundidade e nutrição, morre. Ela pode nascer, pode produzir fruto, mas será momentâneo, frágil demais – assim como a areia, leve e sem consistência.

Os espinhos, terceira situação ou contexto em que a semente é lançada ou pode cair, simbolizam tudo aquilo que possa sufocar e, portanto, impedir o desenvolvimento e a germinação da semente. Aquilo que pode ser obstáculo e impedimento na pessoa para que o Reino e o Evangelho encontre lugar e aconteça na vida dela.  

A terra boa na qual a semente cai é aquela situação ou contexto de acolhimento da palavra e anúncio do Reino. Nela acontece a germinação e o desenvolvimento da semente; ali ela produz.  Cem, sessenta e trinta por cento dizem respeito à capacidade de cada um acolher a mensagem do Reino e fazê-la frutificar em boas obras. Essa imagem exagerada dos frutos é importante: o máximo que se esperava de uma espiga de trigo eram trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. Os frutos que se esperam deste solo bom são o amor, o perdão, a reconciliação, a fraternidade, a justiça, desejados por Jesus, os quais são símbolos de plenitude de vida. Contudo, só quem tem discernimento é capaz de compreender o significado da parábola (Mt 11,15; 13,43). E, com muita reflexão, poderá captar a mensagem de esperança e encorajamento desse ensinamento do Senhor.

O texto propõe quatro eixos interpretativos, a saber, o cristológico (revela algo de Jesus), o teológico (acerca da ação de Deus), o eclesiológico (que toca a vida da comunidade) e, por fim, o escatológico (enquanto meta, finalidade, “para qual fim a parábola leva”).  

O semeador, numa leitura cristológica é o próprio Jesus. Na perspectiva teológica, a semente lançada é o próprio Reinado de Deus na história. No âmbito eclesiológico a missão do semeador é a missão mesma da comunidade. A missão do Semeador, e, consequentemente, dos discípulos, consiste apenas no lançar a semente. Ainda nesta perspectiva, a parábola serve de advertência contra as tentações do sucesso e do eficientíssimo, em decorrência disso, na pastoral do milagre e do sucesso. “Tudo aquilo que se faz deve ser bom!” Mas Jesus quer ensinar que o mistério do Reino vai acontecendo, sim, porém por força própria, mesmo em meio a muitas perdas. A força do crescimento desta semente depende de Deus. Por isso, o investimento deve ser total, principalmente nas pequenas coisas; naquilo que não se vê; que pode não chamar a atenção por não ser extraordinário ou diferenciado. Quando se começa a perceber muito sucesso, é porque a mentalidade do Anti-Reino entrou em suas estruturas

A dimensão escatológica se mostra na qualidade dos frutos. Somente no final da missão é que se verá, de fato, se aquele solo em que caiu a semente favoreceu a sua produção. Os que se acham os tais, poderão se reconhecer também como solos inférteis. Os que achavam que nada produziram poderão se descobrir como terra boa, que cooperaram para que a semente produzisse frutos em abundância.

Ao discípulo e à comunidade cabem somente a semeadura a exemplo do Semeador. Mesmo não vendo os frutos. Por isso, não deverá ter a pretensão do sucesso garantido. Não deverá julgar a sua identidade mediante a isso. Mas poderá medir sua autenticidade diante das muitas perdas. Percebamos que o próprio Jesus foi quem muito semeou, e, ao final de sua vida, não “colheu” nada aos olhos dos esquemas mundanos. Não poderá trazer para si a responsabilidade de determinar se alguém produziu ou não, se foi terra boa ou não. Esta tarefa pertence somente ao Senhor. Ele dará a ultima palavra no tempo da colheita.

Que a Igreja seja estimulada sair constantemente de si mesma para lançar a semente do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias. O importante é ter coragem de assumir as margens sem medo. É necessário, inclusive, ter a coragem de fracassar.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 4 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 11,25-30:


 

O décimo quarto domingo do tempo comum apresenta o capítulo onze do Evangelho segundo Mateus para a nossa meditação. Sempre se faz importante contextualizar o texto, a fim de se compreender a mensagem de Jesus transmitida pelo catequista bíblico à sua comunidade e para as gerações seguintes dos discípulos e das discípulas do Reino.

No capítulo décimo, Jesus transmitiu o ensinamento acerca da missão – o discurso missionário. Porém, o envio missionário não aconteceu imediatamente ao ensino. Mas é postergado para o final do Evangelho. Uma atitude pedagógica do Mestre, pois o discípulo só poderá ser enviado em missão depois de ter aprendido e vivenciado todo o sentido da vida do Senhor. Deverá passar por todos os dinamismos que o próprio Cristo passou, inclusive pelo mistério de Sua paixão, morte e ressureição. Do contrário, não transmitirá (pregará, anunciará, ensinará) com exatidão o sentido da vida de Jesus.

A catequese de Mateus, como se sabe, é composta de cinco ensinamentos principais de Jesus, os quais chamamos de discursos. Neles, o evangelista apresenta o Senhor ensinando como verdadeiro Mestre. Imediatamente após encerrar a sessão do ensinamento, o autor insere um bloco narrativo onde mostra-o realizando aquilo que falou. É o caso do texto de hoje.

Jesus, no texto de hoje, se encontra diante de um momento de intensa hostilidade por parte dos fariseus e dos escribas que rechaçam o seu ensinamento e sua forma de vida. Reprovam a pregação de um Deus que é cheio de amor e misericórdia, que perdoa e oferece sempre a plenitude de Sua vida. O que é profundamente contrária à ideia e experiência [equivocada] de Deus que os chefes do povo transmitiam em seus ensinamentos.

A crise é ainda maior para Jesus, quando ele se dá conta de que a multidão que o seguia até então o abandonava. Por que? As pessoas procuravam-no somente por aquilo que Ele poderia realizar; não estavam interessadas na profundidade de suas palavras, de seu ensinamento, de seu modo de ser. Acompanhava o seu ensinamento o convite à conversão, isto é, a mudança da mentalidade, da forma de pensar, da maneira de se relacionar com Deus e com o próximo. E isso, elas não estavam abertas a assimilar. Ora, Jesus ensinava a doar, a oferecer-se; elas, ao contrário, só desejavam receber sem se comprometer. Percebendo, então, que Ele não satisfazia mais as suas necessidades e as conveniências, se decidem por abandoná-lo. Isso configura, em seu ministério, uma crise. Uma desolação. O senso da frustração – e até mesmo do fracasso (no evangelho de Marcos, chamamos este momento da vida de Jesus de “a crise da Galileia”).

Os capítulos 11 – 12 apresentam, nesse sentido, as várias reações diante do ensino e da ação de Jesus, transformado em objeto de controvérsia por parte dos adversários, escribas e fariseus, e dos incapazes de compreender sua pregação. A partir de então, o evangelho apresentará uma contínua rejeição à Sua pessoa. E, mais, seus inimigos tomam a decisão de matá-lo (Mt 12,14). Em contraste a estes grupos rivais e a multidão descontente encontra-se o grupo dos pequeninos. Com essa deixa, se pode entrar no horizonte do texto litúrgico proposto para a meditação.

Ao mesmo tempo que Jesus encontra-se consciente da crise que enfrenta, a partir da sabedoria religiosa de seu povo (presentes inclusive nos Salmos de súplica e agradecimento) elabora um antídoto muito eficaz: a capacidade de agradecer e bendizer ao Pai pelos feitos, pelas realizações e maravilhas que realizou e sempre realiza na história, tanto de seu povo, quanto na vida concreta de cada pessoa. Ele ensina a dar o passo na superação da crise, da desolação, da frustração, através da atitude de bendizer e agradecer a Deus por tudo aquilo que Ele realizou em sua vida. Somente aquele que tem a disponibilidade e a coragem de olhar para a própria vida e reconhecer nela a ação soberana do Senhor – seja com Sua presença ou com alguma intervenção libertadora e geradora de vida – consegue dar o passo na superação da crise ou dos momentos de desolação. É olhar para a vida e reconhecer nela o quanto o Pai, em Jesus, foram e continuam sendo presentes.

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (v.25). O evangelista constata um louvor em forma de bênção elevado por Jesus ao Pai, Senhor do céu e da terra (isto é, senhor de tudo). Mas o louvor tem um motivo: foi do agrado de Deus revelar os mistérios do Reino aos pequeninos. Ou seja, a forma da missão e da vida do Senhor revelam uma nova e plena forma de se relacionar com o Pai e com Ele; revelam o Seu amor sempre fiel, que acolhe, que nutre, que salva e gera vida. E isso correspondeu a iniciativa do próprio Deus, em Jesus. Ou seja, é da vontade (do agrado) do Pai a ação do Cristo. O modo de agir de Deus vai na contramão do pensamento, dos esquemas e da lógica humana. Pelo contexto dos capítulos anteriores fica evidente que “os sábios e entendidos” são os chefes religiosos de Israel. Eles, em seu conhecimento religioso se fecharam à ação de Deus através de Jesus. Se tornaram refratários e resistentes, a ponto de endurecerem o coração. Mas se estes se fecham e a multidão o abandona, existem, em contra partida, aqueles que acolhem a sua Palavra: os pequeninos.

Quem são os pequeninos? Antes de tudo, há que se ter presente o seguinte, que um mesmo vocábulo grego, dependendo do contexto em que é usado, assume conotações diferentes, dando origem a traduções diferentes. Isso acontece com a palavra “pequenino”. Ao interno de seu evangelho, Mateus se serve de dois termos para falar deste grupo: mikrós e nepios.

Nepios ou Nepioi (gr. νήπιος), utilizado no texto de hoje, significa criança, menor de idade. É símbolo daquele que se deixa instruir. Aquele que não se julga proprietário, dono, detentor da verdade, e que está sempre aberto à novidade do Reino ensinada pelo Senhor. Eles possuem a precedência na revelação do projeto de Deus em Jesus.  

No v.27, Jesus declara: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. O Pai, Senhor de tudo, coloca tudo nas mãos de Jesus, o Filho. E este, por sua vez, tem a autoridade de colocar tudo a respeito de Deus nas mãos de quem ele quiser. Dito de outra maneira, o conhecimento e nova forma de relação com Deus passa por Jesus. Rejeitá-Lo e fechar-se para sua pregação significa, em última análise, rejeitar Deus e fechar o coração para Sua palavra.

No v.28, Jesus reorienta a vida e a direção dos pequeninos e dos discípulos através de um convite ressignificador: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Este versículo foi sempre mal compreendido, dando margem para compreensões moralistas e escrupulosas ao texto. O fardo a que se refere Jesus não são os pecados, frutos das atitudes humanas; tampouco são as aflições ou os sofrimentos que decorrem da liberdade do ser humano. Fardo se refere à Lei mosaica, com suas 613 prescrições, as quais são derivações forçadas das interpretações que os escribas e fariseus faziam sobre os mandamentos da Torá. Estas seiscentas e treze normas oprimiam as pessoas, dada sua complexidade (Mt 23.4), e não geravam mais vida, senão somente o nutrimento de sistemas e mecanismos injustos, promotores de alienação e de morte para o povo simples. 

Jesus, Sabedoria encarnada na história (Pr 8), em contrapartida, propõe um julgo, diferente do fardo/peso. Fazendo-se discípulo dele, aprendendo com ele, manso e humilde de coração, que não busca dominar, é possível encontrar descanso, pois seu jugo não machuca ninguém e seu peso é leve. Ele exige dos discípulos somente o essencial, a justiça do Reino (Mt 7,33), a qual é, quantitativamente mais simples, mas qualitativamente muito mais exigente que a justiça dos escribas e fariseus (Mt 5,20). Jesus propõe reorientar a vida do discípulo a partir das exigências do coração, do amor e da misericórdia, que promovem a Justiça do Reino. Nesse sentido, o Evangelho do Reino não é peso ou fardo. Ele gera vida e promove libertação.

O texto evangélico de hoje nos questiona: quem somos? Encontramo-nos inseridos entre os pequeninos – abertos, disponíveis e livres para acolher o projeto de Jesus –, ou entre os sábios e entendidos, ciosos e fechados sobre si mesmo e sobre o que sabem – impermeáveis e resistentes ao projeto do Reino anunciado por Jesus? Tenho assumido o jugo suave de Jesus, que é Graça, liberdade, vida e gratuidade, ou vivido sob o peso de uma religiosidade exterior, aparente, exigente, opressora e teatral? Nossas comunidades, são comunidades dos pequeninos ou dos sábios formatados?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP