sábado, 2 de maio de 2026

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 14,1-12:

 


O quinto domingo da páscoa nos insere no horizonte do capítulo catorze do Evangelho segundo João. Os primeiros doze versículos são lidos neste tempo pascal a partir, agora, da experiência da ressurreição de Jesus, embora esteja o texto inserido na segunda parte do Quarto Evangelho, o livro da glória. Nesta seção literária, de Jo 13-17, se encontra o testamento do Senhor.

Um testamento é a plenitude de todos os bens que uma pessoa deixa para aqueles a quem muito se ama. Qual o conteúdo deste, que Jesus entrega aos seus discípulos? O mandamento do amor, ilustrado através do gesto de lavar os pés dos discípulos, e a sua própria vida. Mas qual o sentido da leitura desta seção do Quarto Evangelho? No âmbito da vida das primeiras comunidades, responder a demanda existencial dos discípulos, preocupados em como viver a missão e a vida sem a presença física do Senhor. Transcendendo o tempo das primeiras testemunhas oculares, a liturgia, como pedagoga, deseja mostrar e ensinar ao discípulo de todos os tempos e lugares o modo através do qual se poderá fazer a experiência com Jesus, o vivente, e, assim, continuar sua existência, vida e missão em meio a esta realidade. Como o discípulo deverá viver, agora, sem a presença física de Jesus, o dom de Sua vida ressuscitada na própria existência, dotando-a de força de sentido e de plenitude. Com esta contextualização já se pode mergulhar no mar do texto.

O capítulo catorze inicia-se com Jesus encorajando os seus discípulos: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (v.1). É importante recordar que a cena se desenvolve no contexto da última ceia. Jesus já lavou os pés deles. Um gesto desconcertante para o grupo. Talvez haja desconforto. E, ao final do capítulo, acrescentou a informação de que seria entregue nas mãos dos chefes religiosos do povo por alguém do grupo, fazendo o coração de Jesus se perturbar igualmente. Estes motivos fazem perturbar os corações dos Doze. O evangelista aplica o verbo tarasso (gr. ταράσσω). É um verbo utilizado para descrever o mar quando está agitado, revolto. Deseja, portanto, ilustrar o estado de ânimo de Jesus e dos discípulos. E aqui, uma beleza narrativa e existencial emerge: o Cristo não tem medo de mostrar-se em sua fragilidade humana. Ele sente com os discípulos as mesmas angústias. Todavia, a atitude de Jesus é oposta às dos discípulos. Ele, mesmo diante da “agitação/perturbação”, como que um mar revolto, não deixa de se ancorar confiante no Pai. Já os discípulos, diante do balanço que sentem em suas vidas pela ausência iminente do Mestre, manifestam incompreensão e resistência diante das atitudes e das palavras Dele. Por isso, os convida novamente a uma atitude: refazer a opção por Deus (“tendes fé em Deus”) e por Ele (“tende fé em mim também”), pois a fé é, e sempre será uma relação em resposta a ser vivida com Deus e Jesus.

Jesus continua: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (v.2-3). João conseguiu captar bem os ditos do Senhor, e agora os transmite para a sua comunidade. O evangelista trabalha com o tema da “morada/habitação” em seu evangelho. É um tema que já apareceu no prólogo, em 1,14 (“o verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”). O termo casa (gr. οἰκίᾳ/oikia) é muito significativo, pois ele alude à plenitude de vida que se encontra ao interno de um lar. Por isso “casa” não está aludindo a uma edificação de alvenaria, mas à realidade de vida plena e de amor representada pela imagem do lar que o Pai é. O termo “casa” varia para “morada”, no mesmo versículo, que, agora sim, assume sentido da habitação. Não é por acaso. Na perspectiva do evangelista, Deus constrói sua morada, sua habitação, em Jesus. Ele é e será o novo e definitivo Lugar de Deus. Através Dele, o Pai agirá e falará. Com isso, todos os sistemas e projetos antigos, a lei de Moisés, as práticas exteriores rituais encontram-se superadas e substituídas em Jesus, sobretudo o Templo de Jerusalém, considerado pelo judeu piedoso a morada de YHWH.

O lugar que o Senhor prepara é a vida divina, que se despontará no mistério da Sua entrega na cruz. Isso é que o discípulo precisará se esforçar para compreender. A vida de Jesus apresenta e oferece a vida mesma de Deus e, aquele que a acolhe torna-se morada de Jesus. “Está” em Jesus e no Pai.

“E para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (v.4). Evidentemente, esse dito só pode ser compreendido à luz do capítulo anterior. O caminho que Jesus deu a conhecer foi o do lavar os pés. O discípulo que reconhece este caminho que Mestre aponta, como seu próprio, transforma sua existência em habitação/morada do Pai e Dele, e, portanto, de seu amor.

O discípulo que sente dificuldades em acolher o sentido da vida e missão de Jesus apresenta ainda resistência. São simbolizados por Tomé e por Filipe. O primeiro manifesta sua dificuldade de compreensão: "Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" (v.5) Com uma fina ironia, João mostra para seu fiel-leitor que os discípulos sabem, sim, qual é o caminho do Senhor. O problema é que eles não querem aceita-lo como modo de se viver a vida. Este é o equívoco e a resistência que o discípulo não pode ter.

Jesus faz, então, uma declaração em forma de revelação: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v.6). Através do nome divino “Eu sou”, habitualmente utilizado por ele para revelar que Deus se faz presente em sua existência, ele se declara “o Caminho”. Na tradição religiosa de Israel, a Lei/Torá era considerada “o Caminho” através do qual o povo seria conduzido ao amor-fiel (verdade) de Deus, fonte e plenitude da vida divina. Mas, durante a sua história, o povo de Israel foi atrofiando esta mentalidade, a ponto de transformá-la em lei de Moisés, com suas 613 prescrições e proibições, tirando dela o Espírito e a Vida, restando apenas a letra. Esta, só poderá gerar morte e uma experiência equivocada com Deus.

Na intenção de João, Jesus, ao se proclamar “o Caminho”, está se revelando aos discípulos de todos os tempos e lugares como a superação do caminho antigo. O Senhor é o Caminho, porque toda a sua existência e obra revelam o novo caminho. Assim, o discípulo que assume a vida do Mestre para si, pauta a vida e as ações a partir Dele. O  Jesus joanino revela-se também como a verdade, e, conforme dito anteriormente, esta palavra deve ser entendida a partir de seu original hebraico, Hesed/emet: amor fiel ou amor e fidelidade.

Aquele que adere à existência e à obra de Jesus como “o Caminho” definitivo e pleno através do qual Deus se revela, e faz dele o seu sentido de caminhar, consegue reconhecer o Senhor como a expressão do amor-fiel (verdade) do Pai e se encaminha para o encontro com uma plenitude de sentido, a vida. E não é qualquer vida, mas a vida do âmbito de Deus, por isso o evangelista emprega o termo ζωή/Dzoé, uma vida abundante, carregada de força de sentido, e, por isso, indestrutível, ainda que passe pela morte.

Jesus, no v.12 faz uma nova afirmação: “Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai”. Com uma declaração solene (“amém, amém”) o Senhor transmite, então, o sentido de uma vida que se tornou morada do Pai e Dele: realizar suas mesmas obras. Ser, portanto, sinal da presença do Senhor nesta realidade, vivendo Sua missão.

Que o Senhor nos ajude a transformar a vida em Sua permanente morada, expressão de amor e de vida do Pai e Dele, e a realizar a Sua Obra: manifestar o Seu amor-fiel e Sua vida.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.