sábado, 23 de maio de 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE PENTECOSTES – Lc 2,1-11:


 

A Igreja celebra a conclusão do tempo pascal, o grande dia solene que o Senhor fez para o gênero humano e para toda a criação mediante a Páscoa de seu Cristo. O Pentecoste marca a plenitude do mistério pascal de Jesus, sua paixão, morte, ressurreição (ascensão). A nova criação (ou recriação) operada pelo Pai na páscoa do Filho atinge seu ápice com a manifestação e doação do Espírito à toda a criação e a cada pessoa. Nesta ocasião optamos por meditar At 2,1-11, o pentecostes lucano, com suas particularidades e simbolismos.

     O texto começa situando o leitor/ouvinte do texto: “Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” (v.1). Este primeiro versículo pode ser traduzido também da seguinte maneira: “Quando se completou o dia de Pentecostes”. O evangelista utiliza o verbo symplerousthai (gr. συμπληροῦσθαι) que comunica a ideia de plenitude/conclusão. Deriva do verbo “pleroô” (gr. πληρόω), que é comumente utilizado por ele para dizer que um tempo ou ciclo chegou ao fim e o início de um novo. Lucas deseja assinalar que o pentecostes da antiga lei chegou ao fim, e o Pentecoste do novo povo de Deus tem agora o seu lugar.

     O que era o pentecostes do Antigo Testamento? Era uma festa agrícola, dedicada à colheita e oferecimento dos primeiros dons da terra e dos animais à YHWH. Após a libertação de Israel da escravidão no Egito ela adquiriu características pascais. Exatamente cinquenta dias após a páscoa, o povo que caminhava no deserto chega ao Sinai e recebe de Deus, por intermédio de Moisés, as Palavras da Aliança, o decálogo. Portanto, o pentecostes judaico estava relacionado ao dom da Lei de Deus ao povo, através das tábuas de pedra.

         Lucas, ao narrar o dom do Espírito feito pelo Senhor, o faz coincidir com os cinquenta dias após a páscoa dos judeus justamente para afirmar a superação e a novidade que acontece através deste evento. Trata-se de um novo, definitivo e pleno Pentecostes: o Espírito do Pai e de Jesus, o Espírito Santo, derramado nos corações humanos e em toda a criação. Ou seja, o dom de Pentecostes não é mais uma lei gravada em pedras. Mas, a partir do dom da vida do Filho, Deus escreve (inscreve) dentro do discípulo o Seu Espírito. O seu dinamismo vital. Seu projeto de amor e de vida, a fim de que possam viver desta novidade de vida num tempo que é e precisa ser novo.

     Sinais de um tempo novo são os que Lucas descreve nos próximos versículos. Ele continua a narrativa servindo-se dos símbolos do patrimônio das escrituras de Israel ao narrar as manifestações divinas (teofanias). “De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles” (v.3-4). O vento (a tempestade) e o fogo são elementos puramente simbólicos que já apareceram no primeiro Pentecostes, em Ex 19,26 (// Dt 4,36). O fogo não se relaciona com a destruição. Antes, com a purificação. Como uma restauração. Ou seja, o fogo que simboliza a Força divina que vêm do Espirito de Deus é sinal da nova criação inaugurada em Cristo e reconfigurada a partir Dele.

         As línguas “como que de” fogo se repartem sobre os discípulos. Imagem bela e interessante. Ou seja, o Espírito não é um dom exclusivo para poucos, mas é doado a todos os que abraçam o projeto de Jesus. Aqui se evidencia um pouco mais do mistério da vida do Senhor a ser continuada pela comunidade dos discípulos: assim como sua vida e existência foi uma intensa e contínua doação e partilha de si, seu Espírito também, para continuar esta forma de vida e missão nos discípulos e na comunidade é doado e partilhado a todos. O Espírito não se divide para gerar divisão, mas para gerar amor, unidade, comunhão e vida. A ninguém é dado posse do Espírito, mas a graça de ser possuído, inhabitado, por Ele.

         Lucas mostra o efeito desta experiência com o Espírito: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (v.4). A língua de que fala o evangelista é muito conhecida pelo discípulo: a própria vida do Senhor. Muito se tentou explicar este versículo de At 2,1-11, tendendo muitas vezes à hipóteses forçadas. Uns apelavam para o fenômeno da glossolalia, muito comum nas comunidades entusiásticas do tempo de Paulo, e com as quais o Apóstolo das nações se confrontou, determinado que só se utilizasse este “dom carismático” se, e somente se, na comunidade houvesse algum interprete. Não é o caso. Também houve a tendência de interpretar este versículo a partira da tese da xenoglossia, a capacidade de falar línguas estrangeiras.

 A língua que os discípulos falavam a partir da experiência com o Espírito Santo consistia num idioma fundamental: a práxis do amor oblativo e incondicional do Senhor, da fraternidade, do serviço mutuo e solidário, da unidade, da comunhão e da paz. As pessoas que tomavam contato com Evangelho pregado pela comunidade dos discípulos viam e presenciavam este estilo de vida presente na existência dos discípulos e da Igreja nascente.

         O v.11 conclui a narrativa com esta constatação: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!”. Lucas não economiza ao recorrer ao patrimônio das escrituras para falar do alcance deste novo tempo inaugurado por Jesus através da comunicação de Seu Espírito. Este é um tempo e uma vida destinados para todos, após fazer o elenco das nações existentes naqueles idos dos anos 80 d.C, até mencionar Roma, a última fronteira que o Evangelho de Cristo deveria chegar e cruzar.

 O evangelista, para trazer uma vez mais um tema muito querido por ele, a universalidade da Salvação inaugurada e proposta por Jesus, menciona, nesse sentido, as nações além Palestina. Este é o tempo novo que a comunidade dos discípulos deve anunciar e viver diante de todos; é a forma da vida de Filho que cada pessoa, marcada com o selo do Espírito, e por Ele inundado deve testemunhar. Quando isso acontece, todos podem escutar a Boa Nova de Deus que é a realização de Suas maravilhas, seu amor fiel e sua vida, em suas próprias línguas.

         O dom do Espírito, neste novo Pentecostes, realiza o oposto de Babel em Gn 11,1-9. Lá, a humanidade foi dispersada e dividida depois da tentativa de construir um imperialismo religioso-político (a torre para se chegar até Deus), construindo um projeto contrário ao desejo de Deus. Agora, ela é reunida pela força do Espírito que unifica os diferentes grupos humanos ou qualquer diferença, respeitando e promovendo as características culturais, das quais a língua é expressão. Nem a força ou a repressão, nem a planificação econômica ou política podem assegurar a unidade dos povos ou dos grupos humanos, mas sim o poder do Espírito de Jesus Ressuscitado, que promove com a liberdade e o amor novas relações e cria espaços alternativos de comunicação.

         Temos vivido uma existência segundo o Espírito de Jesus? Quais novas línguas o Espírito nos inspira a falar hoje? A vida e obra do Senhor tem sido o nosso idioma? Nossas comunidades tem falado a linguagem do Espírito de Cristo, amor, fraternidade, serviço, unidade, comunhão e vida para todos?


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 16 de maio de 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – Mt 28, 16-20:

 


A liturgia da Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor. Qual o significado desta solenidade para este grande e único domingo que é o tempo da páscoa? Confessar e professar que o Senhor ressuscitado, ao retornar para o âmbito (esfera e mundo) de Deus leva consigo a natureza humana. Jesus não volta sozinho para o Pai, mas leva a nossa humanidade com Ele e a reorienta para seu fim último e definitivo: a vida divina.

A perícope que solenidade da Ascensão nos apresenta é a conclusão do Evangelho segundo Mateus. O contexto amplo é o da experiência da comunidade dos discípulos com o Senhor Ressuscitado. O contexto imediato é o do discurso de comissionamento/envio, ou seja, realizar o que ele já havia feito (Mt 10, discurso missionário). Não se trata de um discurso de despedida, porque Ele não se vai, mas permanece com os seus. Apenas uma advertência acerca deste texto. Para compreendê-lo, se faz necessário lançar um olhar para toda a catequese mateana. O Primeiro Evangelho tem por finalidade “fazer discípulos-missionários todos os povos”. Mas para que o discípulo possa vivenciar a missão, ao final do Evangelho, deverá percorrer o caminho trilhado pelo Mestre. E não poderá furtar-se ao fato de que este é perpassado pela dinâmica da Cruz. O discípulo só poderá assumir a missão depois de percorrer a vida de Jesus e tê-la como seu modelo.

“Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v.16). Uma constatação importante: doze representava o novo Israel reunido através do chamado feito aos discípulos. Na simbologia do AT, o número aludia ao Povo de Israel. Nesta narrativa, o evangelista informa que são somente onze, significa que o antigo Israel não foi reconstituído ainda e, portanto, a mensagem de Jesus se torna universal. Destina-se para toda a humanidade. A comunidade está incompleta. Ao mostrar a comunidade neste estado, o evangelista não se envergonha revela-la fragmentada, imperfeita. É com essa comunidade imperfeita e incompleta que o Ressuscitado deseja contar. São estes homens e mulheres imperfeitos que Ele espera.

O indicativo da Galileia, mencionada por três vezes somente neste relato pascal, representa a ruptura com Jerusalém. Jesus não se manifesta ressuscitado na cidade santa, mas lá no lugar onde tudo começou. Uma oportunidade de releitura, ressignificação da vida e da história, e de retorno à experiência fontal com Deus através da vida do Filho muito amado.

Na Galileia o Senhor começou seu ministério. Boa parte de Sua vida se deu ao redor daquele lago. Ali, os discípulos fizeram a primeira experiência com Ele. Na cena do anúncio da Ressurreição às mulheres, o mensageiro celestial, no começo do capítulo dissera que o Ressuscitado esperava por eles lá. É uma forma que o evangelista tem para dizer à sua comunidade que, para se fazer a experiência com o Vivente, se fará necessário sempre revisitar, fazer memória, atualizar aquele primeiro encontro com o amor do Senhor.

Mateus informa que o lugar onde os discípulos se encontram com Jesus é “o monte”, na região da Galileia (v.16). Interessante, ele usa o artigo definido “o” para indicar que não é qualquer um. Contudo, Jesus não havia indicado nenhum monte. Por que Mateus faz isto? Em primeiro lugar, a informação não tem significado geográfico, mas teológico. É importante recordar que, na teologia bíblica, a montanha/o monte é um lugar para se fazer experiência com Deus. Local da manifestação (teofania) de YHWH. Por exemplo, a Lei foi dada a Moisés na montanha do Sinai.

“O monte”, neste evangelho, deve recordar aos discípulos o lugar das bem-aventuranças, onde Jesus inaugurou sua mensagem de salvação. Recorde-se que a versão mateana das bem-aventuranças compreende oito ditos de Jesus. O número oito é o número da ressurreição do Senhor. O evangelista pretende ensinar que só será possível experimentar a Jesus Ressuscitado e o dinamismo de Sua vida plena se o discípulo, novamente, situar-se sobre o monte das bem-aventuranças, e assumir em suas vidas o ensinamento nelas contido.

O autor informa que, ao verem o Senhor, os discípulos se prostraram. Aqui, o verbo ver não indica uma capacidade física e biológica que o termo grego Blepo (gr. Βλέπω) alude, mas “ver” como sendo uma experiência que se dá desde a profundidade do coração do homem. É a atitude do “ver” relacionado à Fé, por isso o emprego do verbo Orao (gr. ὁράω). Por isso, Mateus informa o gesto da prostração (gr. προσκυνέω/proskinêo). Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus.

O v.17 informa que alguns duvidavam. Não de que Jesus tenha ressuscitado, pois o veem. Nem que Ele esteja na condição divina, uma vez que se prostram. Compreendamos: o evangelista usou o verbo “duvidar” (gr. διστάζω) somente uma vez, na narrativa da caminhada sobre as águas, na qual Pedro pede-Lhe para ir ao encontro, isto é, obter a condição divina. Naquela ocasião Jesus consente, mas no decorrer do caminho, o discípulo sucumbe e começa a afundar ao se dar conta das dificuldades. Pensava ele que a condição divina seria um dom concedido por Deus, ignorando as dificuldades que passaria.  Jesus o reprovou, chamando a Pedro de homem de pouca fé. E o questionava: “Por que duvidastes?”.

A dúvida que o evangelista menciona toca a consciência dos discípulos, porque agora eles sabem por quais dificuldades passou Jesus (a morte infame como desprezado e amaldiçoado, suspenso na cruz) e, por isso, duvidam se serão capazes de viver e levar a missão até o fim. Eis, porque duvidam.

A dúvida não faz mal à comunidade. Podemos dizer que o Jesus mateano apresenta uma característica necessária para a sua comunidade: para a solidez da fé, a dúvida se faz necessária, pois o seu antídoto não é a certeza, mas a procura, a busca por uma vida carregada de sentido. Portanto, quanto mais se duvida, mais necessidade se tem de buscar o sentido para a vida. Podemos dizer que a dúvida e a fé são companheiras inseparáveis na vida da comunidade, porque impulsionam para a capacidade de amar.

Jesus, então, diz-lhes: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”. Aqui, o evangelista faz eco a Daniel, que retrata a personagem “Filho do Homem”, o qual recebeu de Deus todo o poder no céu e na terra. Mas o poder/autoridade que Jesus recebe não é para servir-se a si mesmo, mas para colocar-se à serviço de todos. E ao interior da comunidade de Mateus, a autoridade é a de Jesus, e não mais a lei de Moisés.

Jesus continua: “ide e fazei discípulos meus todos os povos”. O evangelista utiliza o verbo "ir" no imperativo: “Ide”. É um verbo de movimento. Ou seja, coloca o discípulo e a comunidade em movimento. Será a partir deste dinamismo que se poderá fazer a experiência da Ressurreição de Jesus na vida, e transmiti-la às pessoas. Não se faz experiência de vida quem fica parado. Pelo contrário, só saboreará a morte.

“Fazer discípulos”, significa transmitir a todos (sem excessão) o novo modo de viver e de relacionar-se com Deus, através do modo de vida de Jesus. O discípulo não aprende somente teorias de seu mestre. Mas o sentido e a forma da vida que ele vive. Por isso, fazer discípulos é muito mais do que ensinar doutrina; antes, testemunhar, existencialmente, o sentido da vida do Senhor. Ensinar os outros a viver a vida de Jesus!

Batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito”. O evangelista se serve do verbo Baptizo (gr. βαπτίζω) que significa essencialmente submergir, mergulhar. Ou seja, o discípulo-missionário é enviado para mergulhar as pessoas na vida mesma de Deus, em seu mistério de amor trinitário. O termo “Nome” indica a realidade e a identidade do ser. Com o sentido de Sua vida, Jesus quer inserir e envolver o seu discípulo no mistério de amor e de vida de Deus, a fim de que eles realizem o mesmo na vida das pessoas.

“ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v.20). O que Jesus havia ordenado aos discípulos? A forma nova de se viver a relação com o Deus que ele chamou de Pai: as bem-aventuranças, que se tornaram a plenitude de sentido com a qual o o ser humano experimentará a Palavra de Deus e se relacionará com ela. Através desta nova rede de pesca [As bem-aventuranças], cooperar com a missão de “pescar homens”. Ou seja, tirá-los da morte (simbolizada pela água), das situações nocivas, para colocá-los na vida, mergulhando-os em Deus mesmo e na plenitude de Seu amor.

“Estarei convosco todos os dias até que o tempo esteja pleno”(v.20). O evangelista pretende, com as últimas palavras de Jesus, indicar uma qualidade da presença do Senhor, e não indicar um período cronológico ou determinado da presença. Na perspectiva de Mateus, o Cristo assegura à sua comunidade que, na medida que ela viver as bem-aventuranças, fazendo experiência de Deus como fonte de vida e de Amor, a Sua presença será garantida. O autor bíblico conclui sua catequese assumindo, novamente, o tema do Emanuel abraçado por Jesus, que, através do dom de Sua existência e missão, revela Deus presente à humanidade, caminhando com ela.

Em Jesus, o Vivente, e agora entronizado junto do Pai, Deus está conosco, e nós, em Deus.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 2 de maio de 2026

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 14,1-12:

 


O quinto domingo da páscoa nos insere no horizonte do capítulo catorze do Evangelho segundo João. Os primeiros doze versículos são lidos neste tempo pascal a partir, agora, da experiência da ressurreição de Jesus, embora esteja o texto inserido na segunda parte do Quarto Evangelho, o livro da glória. Nesta seção literária, de Jo 13-17, se encontra o testamento do Senhor.

Um testamento é a plenitude de todos os bens que uma pessoa deixa para aqueles a quem muito se ama. Qual o conteúdo deste, que Jesus entrega aos seus discípulos? O mandamento do amor, ilustrado através do gesto de lavar os pés dos discípulos, e a sua própria vida. Mas qual o sentido da leitura desta seção do Quarto Evangelho? No âmbito da vida das primeiras comunidades, responder a demanda existencial dos discípulos, preocupados em como viver a missão e a vida sem a presença física do Senhor. Transcendendo o tempo das primeiras testemunhas oculares, a liturgia, como pedagoga, deseja mostrar e ensinar ao discípulo de todos os tempos e lugares o modo através do qual se poderá fazer a experiência com Jesus, o vivente, e, assim, continuar sua existência, vida e missão em meio a esta realidade. Como o discípulo deverá viver, agora, sem a presença física de Jesus, o dom de Sua vida ressuscitada na própria existência, dotando-a de força de sentido e de plenitude. Com esta contextualização já se pode mergulhar no mar do texto.

O capítulo catorze inicia-se com Jesus encorajando os seus discípulos: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (v.1). É importante recordar que a cena se desenvolve no contexto da última ceia. Jesus já lavou os pés deles. Um gesto desconcertante para o grupo. Talvez haja desconforto. E, ao final do capítulo, acrescentou a informação de que seria entregue nas mãos dos chefes religiosos do povo por alguém do grupo, fazendo o coração de Jesus se perturbar igualmente. Estes motivos fazem perturbar os corações dos Doze. O evangelista aplica o verbo tarasso (gr. ταράσσω). É um verbo utilizado para descrever o mar quando está agitado, revolto. Deseja, portanto, ilustrar o estado de ânimo de Jesus e dos discípulos. E aqui, uma beleza narrativa e existencial emerge: o Cristo não tem medo de mostrar-se em sua fragilidade humana. Ele sente com os discípulos as mesmas angústias. Todavia, a atitude de Jesus é oposta às dos discípulos. Ele, mesmo diante da “agitação/perturbação”, como que um mar revolto, não deixa de se ancorar confiante no Pai. Já os discípulos, diante do balanço que sentem em suas vidas pela ausência iminente do Mestre, manifestam incompreensão e resistência diante das atitudes e das palavras Dele. Por isso, os convida novamente a uma atitude: refazer a opção por Deus (“tendes fé em Deus”) e por Ele (“tende fé em mim também”), pois a fé é, e sempre será uma relação em resposta a ser vivida com Deus e Jesus.

Jesus continua: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (v.2-3). João conseguiu captar bem os ditos do Senhor, e agora os transmite para a sua comunidade. O evangelista trabalha com o tema da “morada/habitação” em seu evangelho. É um tema que já apareceu no prólogo, em 1,14 (“o verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”). O termo casa (gr. οἰκίᾳ/oikia) é muito significativo, pois ele alude à plenitude de vida que se encontra ao interno de um lar. Por isso “casa” não está aludindo a uma edificação de alvenaria, mas à realidade de vida plena e de amor representada pela imagem do lar que o Pai é. O termo “casa” varia para “morada”, no mesmo versículo, que, agora sim, assume sentido da habitação. Não é por acaso. Na perspectiva do evangelista, Deus constrói sua morada, sua habitação, em Jesus. Ele é e será o novo e definitivo Lugar de Deus. Através Dele, o Pai agirá e falará. Com isso, todos os sistemas e projetos antigos, a lei de Moisés, as práticas exteriores rituais encontram-se superadas e substituídas em Jesus, sobretudo o Templo de Jerusalém, considerado pelo judeu piedoso a morada de YHWH.

O lugar que o Senhor prepara é a vida divina, que se despontará no mistério da Sua entrega na cruz. Isso é que o discípulo precisará se esforçar para compreender. A vida de Jesus apresenta e oferece a vida mesma de Deus e, aquele que a acolhe torna-se morada de Jesus. “Está” em Jesus e no Pai.

“E para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (v.4). Evidentemente, esse dito só pode ser compreendido à luz do capítulo anterior. O caminho que Jesus deu a conhecer foi o do lavar os pés. O discípulo que reconhece este caminho que Mestre aponta, como seu próprio, transforma sua existência em habitação/morada do Pai e Dele, e, portanto, de seu amor.

O discípulo que sente dificuldades em acolher o sentido da vida e missão de Jesus apresenta ainda resistência. São simbolizados por Tomé e por Filipe. O primeiro manifesta sua dificuldade de compreensão: "Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" (v.5) Com uma fina ironia, João mostra para seu fiel-leitor que os discípulos sabem, sim, qual é o caminho do Senhor. O problema é que eles não querem aceita-lo como modo de se viver a vida. Este é o equívoco e a resistência que o discípulo não pode ter.

Jesus faz, então, uma declaração em forma de revelação: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v.6). Através do nome divino “Eu sou”, habitualmente utilizado por ele para revelar que Deus se faz presente em sua existência, ele se declara “o Caminho”. Na tradição religiosa de Israel, a Lei/Torá era considerada “o Caminho” através do qual o povo seria conduzido ao amor-fiel (verdade) de Deus, fonte e plenitude da vida divina. Mas, durante a sua história, o povo de Israel foi atrofiando esta mentalidade, a ponto de transformá-la em lei de Moisés, com suas 613 prescrições e proibições, tirando dela o Espírito e a Vida, restando apenas a letra. Esta, só poderá gerar morte e uma experiência equivocada com Deus.

Na intenção de João, Jesus, ao se proclamar “o Caminho”, está se revelando aos discípulos de todos os tempos e lugares como a superação do caminho antigo. O Senhor é o Caminho, porque toda a sua existência e obra revelam o novo caminho. Assim, o discípulo que assume a vida do Mestre para si, pauta a vida e as ações a partir Dele. O  Jesus joanino revela-se também como a verdade, e, conforme dito anteriormente, esta palavra deve ser entendida a partir de seu original hebraico, Hesed/emet: amor fiel ou amor e fidelidade.

Aquele que adere à existência e à obra de Jesus como “o Caminho” definitivo e pleno através do qual Deus se revela, e faz dele o seu sentido de caminhar, consegue reconhecer o Senhor como a expressão do amor-fiel (verdade) do Pai e se encaminha para o encontro com uma plenitude de sentido, a vida. E não é qualquer vida, mas a vida do âmbito de Deus, por isso o evangelista emprega o termo ζωή/Dzoé, uma vida abundante, carregada de força de sentido, e, por isso, indestrutível, ainda que passe pela morte.

Jesus, no v.12 faz uma nova afirmação: “Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai”. Com uma declaração solene (“amém, amém”) o Senhor transmite, então, o sentido de uma vida que se tornou morada do Pai e Dele: realizar suas mesmas obras. Ser, portanto, sinal da presença do Senhor nesta realidade, vivendo Sua missão.

Que o Senhor nos ajude a transformar a vida em Sua permanente morada, expressão de amor e de vida do Pai e Dele, e a realizar a Sua Obra: manifestar o Seu amor-fiel e Sua vida.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.