sábado, 26 de julho de 2025

REFLEXÃO PARA O XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 11,1-13:

 


A liturgia deste domingo propõe a leitura do capítulo onze do evangelho segundo Lucas. Jesus e seus discípulos dão continuidade a viagem de subida para a cidade santa. Nesta seção, o evangelista apresenta a temática da oração. Nesta caminhada com o Senhor rumo à Jerusalém, para ser verdadeiramente formado por ele no discipulado, se faz necessário aprender a rezar como vive o Mestre. A oração do Cristo, de seu discípulo e da comunidade do Reino é, antes de tudo, uma forma de vida, uma ética existencialmente vivida, para poder ser uma oração comunitariamente rezada. Ao final, o catequista recorda uma pequena parábola, seguida por algumas exortações, para recomendar a atitude fundamental do discípulo que reza: a confiança.

Algumas contextualizações. A fórmula da Oração do Senhor apresentada pelo terceiro evangelista é considerada pelos biblistas como sendo a mais curta, e, por isso, a mais antiga. Outra versão se encontra no evangelho de Mateus, bem mais elaborada, segundo as necessidades daquela comunidade e de seu autor. Uma terceira forma contida na Didaqué (catequese dos primeiros séculos da vida da Igreja). Os primeiros cristãos rezavam três vezes ao dia a oração do Senhor. Esta oração é uma síntese de toda a lógica de vida de Jesus, e de toda a história da Salvação, e do projeto amoroso de Deus.

Por fim, a oração apresentada por Jesus aos discípulos no evangelho segundo Lucas consta de cinco petições: duas voltadas ao Pai (santificação de Seu nome e a vinda do Reino), e três voltadas para as necessidades fundamentais dos discípulos: pão, perdão e libertação do mal e da tentação.

O evangelista situa-nos no horizonte do texto. Jesus encontra-se em oração (v.1). Por sete vezes, durante seu ministério público, o evangelista O mostra em oração, do batismo à paixão, o que corresponde exatamente à totalidade do seu ministério (cf. 3,21; 5,16; 6,12; 9,18; 9,28-29; 11,1; 22,41). Tudo o que Ele deve realizar deve ser, primeiro, discernido segundo a vontade de Deus. Por isso, a oração para o Senhor constitui o momento através do qual pode entrar em comunhão com Deus.

“Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos” (v. 1b). Era comum, nos círculos rabínicos, os mestres ensinarem aos seus discípulos uma oração, a qual caracterizava a espiritualidade daquele grupo e do mestre, bem como os distinguiam dos demais. Naturalmente, por terem primeiro sido discípulos do Batista, conservavam na memória o modo de rezarem, segundo João. Jesus dá-lhes uma nova forma de se relacionar com Deus. Ela subverte a lógica e os esquemas através do qual o judeu piedoso se relacionava com YHWH. Jesus O chama de Pai. Nunca ninguém jamais havia tido essa ousadia.

A nível de conhecimento, o judeu sempre se dirigia a Deus como Santíssimo, Altíssimo, Senhor-Adonai (YHWH), o Bendito, o Eterno. Somente Jesus se dirige à Deus como Pai. É uma forma de relação superior ao modo como se relacionava Abraão, o amigo de Deus. Os discípulos não são chamados a serem somente amigos de Deus, mas seus filhos. Disso, existe uma implicação: ao chamarem Deus de Pai, os discípulos são impelidos a descobrirem-se filhos em relação a ele, e, com os outros reconhecerem-se irmãos.

A oração continua agora pedindo com confiança a revelação do plano de Deus: santificado seja o teu nome, venha o teu reino. Ele se revela “santo”, segundo a terminologia bíblica, enquanto intervém eficazmente na história para salvar; ou seja, sua santidade é manifestada pelo amor. Jesus ensina o discípulo a pedir pela vinda do Reino.

O Reino vem quando se cria entre os homens um espaço de liberdade e de amor. Ou seja, o Reino é o querer e a vontade de Deus sendo realizados na história através de seu Cristo, e, a partir de cada discípulo que opta por viver segundo a vida e o amor do Filho. Ao pedir pela vinda do Reino, o discípulo está se comprometendo, assim como o Senhor, a ser sinal desta Sua ação soberana nesta realidade.

A segunda série de pedidos se abre com a petição de pão. Jesus ensina a comunidade dos discípulos a reconhecer no Pai aquele que dá a subsistência aos oprimidos e aos pobres (cf. SI 146,7). Por isso, se pede o pão dos pobres, aquele que é dado dia após dia, através do trabalho e da solidariedade (cf. Pr 30,7-9), e não a acumulação dos pães, que é símbolo do acúmulo dos bens, fruto e sinal do abuso de poder e da violência.

O segundo pedido está relacionado com outra necessidade do homem: o perdão dos pecados. Este é invocado a Deus, o único que pode quebrar o círculo do pecado que gera pecado, solidão e morte. Contudo, Jesus ensina que se trata de um perdão mediado pelo perdão fraterno entre os homens. A abertura total ao dom de Deus e a seu perdão se traduz numa relação nova com o irmão.

A última petição que o Jesus ensina está relacionada a Tentação de abandonar a Deus, e fazer oposição ao seu projeto. A palavra peirasmós (tentação), quando aplicada aos discípulos revela o perigo da desistência e do abandono à Deus. Não são tentações de ordem carnais ou moralistas. Mas optar pelo caminho contrário ao de Deus.

Jesus, por sua vez, nos ensina a pedirmos ao Pai que não nos deixe cair nas tentações que pervertem o projeto de uma sociedade fraterna e igualitária. Às tentações do poder, do ter e do prestígio os cristãos respondem com as virtudes da partilha, do serviço, da igualdade, da solidariedade e da disponibilidade, como meios para construir uma nova realidade e história.

Dos versículos 5-11, Lucas mostra duas parábolas de Jesus que ilustram a atitude dos discípulos na oração. Elas funcionam como um comentário ao pai-nosso, visando ensinar que Deus é muito mais disponível do que um amigo, e é muito melhor do que um pai terrestre. Os três insistentes convites servem para chamar a atenção do discípulo para a firme confiança que deve animar a sua oração. Não importa aquilo que se deve pedir, o que conta é a certeza do acolhimento da oração. Com isso, a oração prepara a pessoa para o verdadeiro dom a ser pedido: o Espírito Santo. Pois será sempre Ele a realizar no discípulo a vida do Senhor. Só assim a oração não é uma fórmula mágica, nem uma retórica ou oratória vazia para dobrar Deus aos desejos humanos; não é a anestesia ou suplemento cômodo diante das frustrações e fracassos da existência. A oração é a plena abertura ao amor fiel de Deus, à liberdade criadora que encontra no dom do Espírito Santo a sua fonte e estímulo permanente.

 

Diante do texto emergem perguntas: 1) Como temos rezado? 2) A que Deus temos rezado? 3) A oração do Senhor tem sido a minha forma de vida?


sábado, 19 de julho de 2025

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 10,38-42:

 


A Igreja continua a leitura do capítulo décimo do Evangelho de Lucas. A moldura da narrativa é a mesma: a subida de Jesus para Jerusalém, meta final de sua viagem. Nos evangelhos narrados dos domingos anteriores se meditou o envio dos setenta e dois com as recomendações para a missão, anunciando, primeiramente a face de Jesus (Lc 10,1-12.17-20); a missão deve ser vivida aproximando-se de todos, a exemplo do Samaritano (Lc 10,25-37). O Mestre deseja ensinar aos discípulos – e Lucas recolhe muito bem esta intenção e a transmite para a comunidade – que a experiência do discipulado e da missão, simbolizada pela viagem de subida para Jerusalém, exige da pessoa estar aos pés do Senhor para escutá-lo. E esta condição não é um privilégio de poucos, mas um chamado a todos.

“Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa” (v. 38). O texto bíblico não tem a intenção de contar uma notícia ou crônica de jornal. Antes, transmitir uma mensagem de salvação, uma catequese. Por isso, certas situações narradas fogem do normal. O evangelista apresenta uma família nada tradicional. Ao que parece, ele deve conhece-los do evangelho de João, e, assim, manteve a tradição da família de Bethânia também em seu evangelho. Nesse sentido, não era necessário apresenta-la com tanta precisão. Importante lembrar que, na sociedade do tempo de Jesus, as famílias eram sempre apresentadas e presididas pelos homens. Neste caso, porém, o autor a apresenta primeiramente, as mulheres, Marta e Maria, sem nada dizer acerca de Lázaro, outro irmão. Destaque-se, ainda, que se trata de uma família de irmãos. Qual a importância desta informação? Nestes dois evangelhos, esta família simboliza a comunidade cristã, a Igreja. Ou seja, a comunidade é um lugar de irmãos. Ninguém é maior ou menor; mais importantes ou menos. Por fim, o versículo termina dizendo que elas acolheram Jesus em casa. Ele é que lhes vai ao encontro! Um tema muito belo da catequese lucana: através do Filho, Deus se aproxima. Ele deseja ser acolhido e abraçado pelo ser humano.

A acolhida/hospitalidade era, desde o AT, uma forma de se fazer experiência com Deus (Gn 18,1-10). Todavia, no tempo da sociedade palestinense dos anos trinta, somente o homem poderia receber um convidado em sua casa. A mulher não tinha esta autonomia. Ao acolher Jesus, Marta rompeu barreiras culturais e religiosas bem delimitadas. Ele, de sua parte, também inova porque, de acordo com as tradições de seu tempo, não parecia bem a um homem aceitar a acolhida de mulheres. O evangelista visa ensinar que, ao interno da comunidade e da vida do Reino, homem e mulher são iguais em dignidade.

Marta vai aos afazeres domésticos, conforme os costumes da época. Na verdade, ela faz aquilo que era próprio da mulher dentro de seu contexto social: ser a dona de casa (a doméstica). Sua atitude já era de ser esperada naquela situação social: exclusão dos meios masculinos e a submissão. Em contraste a ela, vemos a sua irmã, Maria. Ela senta-se aos pés de Jesus. “Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra” (v. 39). Ora, a mulher não podia ser admitida nos círculos de ensino da Lei, nas escolas rabínicas. Objetivamente, ela não poderia estar ali. Circulava o seguinte ditado: “é melhor queimar a Torá do que colocá-la nas mãos de uma mulher”.  

Na Catequese de Lucas, Maria inaugura um novo papel para as mulheres: o da discípula. O gesto de sentar aos pés não acena, em hipótese alguma, para as atitudes de adoração ou devoção, como muitas interpretações afirmavam. Muito comum no ambiente rabínico e sinanogal, o “sentar aos pés” indica a postura ideal para a escuta. O Jesus de Lucas abre espaço para o protagonismo das mulheres, restaurando a dignidade delas, dando-lhes o mesmo espaço e papel pertencente aos homens (por ex. Lc 7,11-17.36-50; 8,1-3).

“Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar! O Senhor, porém, lhe respondeu: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas” (v. 40-41). Marta não assumiu ainda o papel de discípula, e, não se dando conta de que aquele lugar também era para ela, se coloca sobre a sua irmã, em tom de repreensão. O diálogo, e fundamentalmente, a resposta de Jesus sobre a atitude de Maria serve para colocar em destaque a condição para se tornar autêntico discípulo-missionário: a escuta da Palavra do mestre. Não se trata de uma reprimenda ou censura. Só pode ser autêntico discípulo dele, a partir da experiência de sentar-se aos pés do Mestre! A Escuta da personagem não é um ouvir ocioso ou descomprometido, só para fugir do serviço doméstico; não se trata de passatempo; tampouco é uma obrigação. Mas é uma escuta que a coloca na dinâmica do “pôr em prática” aquela Palavra.

Jesus vê que a agitação e o ativismo de Marta a impede de fazer experiência da Palavra e com sua pessoa. Lucas expressa esta agitação através do verbo merimnao (gr. μεριμνάω), literalmente, divisão. Ou seja, mostra o estado de divisão em que a personagem se encontra quando é atraída por dois objetivos, entre escolhas opostas. Também o verbo torubazo (gr. θορυβάζω), é importante, pois mostra a confusão em que a personagem se encontra. Faz-se necessária a escuta da palavra do Mestre para que o serviço realizado pelo discípulo não se torne agitação vazia e estéril. De nada adianta o muito fazer, se antes não existir um encontro fundamental e experiencial com o Senhor e com Sua Palavra. Por isso, Ele dá uma oportunidade nova ao chamá-la duas vezes pelo nome. Na teologia bíblica, quando Deus chama uma personagem pelo nome duas vezes (Marta, Marta; Samuel, Samuel (1Sm 3,10); Moisés, Moisés (Ex 3,4); Saulo, Saulo (At 9,4)), é porque Ele está fazendo um chamado vocacional. Ele está chamando Marta a mesma condição de sua irmã: à vocação ao discipulado.

O final do diálogo é muito belo: “Só uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (v. 42). Embora a tradução litúrgica use a expressão “a melhor parte”, o correto é “a boa parte” (em grego: τήν άγαθήν μερίδα), pois é a única que realmente importa, e é incomparável. Essa “boa parte” é equivalente à herança que se recebe. A a parte boa que o discípulo é chamado a receber é a condição de discípulo; estar na escuta do Senhor, sentar-se aos Seus pés; ouvir e abraçar o Evangelho e a Sua vida. É escolhendo a “boa parte” que o ser humano encontra vida em plenitude. 

O texto termina sem dizer se Marta deixou o vazio e a agitação. É uma técnica do evangelista deixar o final em aberto. Trata-se de um convite para que o leitor/ouvinte do evangelho tome o lugar das personagens e se questione acerca de sua conduta, assimile o exemplo positivo e se policie quanto ao negativo.

O leitor-ouvinte do evangelho segundo Lucas encontra em Marta e Maria a experiência da escuta atenta (da Palavra de Deus), que as torna discípulas e que ordena e harmoniza o Serviço aos irmãos. Só pode servir quem faz antes a experiência da escuta da Palavra Deus. Da escuta, se move à Práxis, que é critério de verificação para a Palavra. Do contrário, fica-se imerso na agitação, no muito fazer e desconectados da escuta da Palavra de Jesus.

Ao redor de Jesus todos, indistintamente, são chamados a encontrar seus lugares. Só poderemos subir à Jerusalém com Jesus, se estivermos dispostos a fazer a experiência da hospitalidade de sua Palavra, acolhendo e servindo os irmãos. Só poderemos ser autênticos discípulos, se nos dispusermos a ficar aos pés de Jesus juntamente com eles.

Temos nos colocado aos pés de Jesus para acolher e escutar sua Palavra, e, consequentemente, tornarmos discípulos dele? Quais agitações e vazios tem me roubado da Palavra e de Jesus? Temos cooperado na promoção dos irmãos e das irmãs, de modo que eles também se tornem discípulos? Que possamos escolher a boa parte!


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 12 de julho de 2025

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 10,27-35:

 


A liturgia deste XV domingo do tempo comum nos presenteia com a narrativa de Lc 10,27-35. É importante contextualizar o ensinamento de Jesus ao interno da obra lucana. Ele os discípulos encontram-se a caminho de Jerusalém. Após falar sobre a missão e sua dinâmica aos setenta e dois enviados, muito provavelmente este ensinamento pode ter gerado dúvidas: a quem ir? Somente aos de Israel? Quem é destinatário desta missão? De quem se deve aproximar no percurso? O mestre não começa um ensinamento sem motivo. Lucas insere um relato dividido em duas partes: o diálogo do Jesus com o doutor da lei (“especialista” em Deus e suas leis / mandamentos), e o relato parabólico do “samaritano" ou "o samaritano exemplar".

O diálogo inicia-se com uma pergunta do especialista na lei: “Mestre, o que devo fazer para ter a vida eterna? (v.25). A intenção é revelada pelo evangelista: interroga a Jesus para pô-lo à prova. O termo grego ἐκπειράζων (ekpeirásôn), comprova esta intenção. Trata-se de uma armadilha! Ainda que se transpareçam as “segundas intenções” do doutor da lei, a pergunta em si mesma era muito comum nos ambientes sinagogais. O discípulo interpelava o mestre (rabino) da seguinte maneira: “mestre, ensina-nos os caminhos da vida para que possamos merecer a vida futura”. O acento da pergunta está no “fazer” – na práxis – , o que é muito autêntico e original na cultura bíblica.

Jesus responde à pergunta do doutor com uma interrogação: “O que está escrito na Lei? Como lês? (v.26). Com isso, o mestre de Nazaré reorienta o doutor da lei à própria Lei, fazendo-o comprometer-se com aquilo que ensina aos outros, de modo a se enxergar no próprio texto, e no ensinamento nele contido, para confrontar-se em sua prática. Importante: o Senhor aponta para a Lei (Torá = Instrução), porque nela está contida toda a revelação da vontade do Deus de Israel, ou seja, é uma maneira de se dizer que não há necessidade nem espaço para novas formulações.

O Doutor lhe responde com a formula da profissão de Fé do povo de Israel – o Shemá (Escuta, ó Israel) – expressada em Dt 6,5: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua inteligência”. E acrescenta Lv.19,18: “E o teu próximo como a ti mesmo”. A junção das duas normativas acena para a implicação do modo coerente e exato de se ler e viver as escrituras, de modo a entrar no caminho para a vida, ou seja, através da relação vital e existencial com Deus verificada na relação com o próximo. Jesus aprova a resposta do doutor da Lei e não lhe acrescenta nenhum outro ensinamento, dizendo apenas “Faze isto e viverás”.

O amor ao próximo estava na pauta da pregação dos profetas, no Antigo Testamento, e por isso, previsto na Torá, na Palavra de Deus. Eles, em suas pregações e denúncias contra o povo infiel, condenavam as práticas religiosas (orações, cultos, sacrifícios, liturgias) desvinculadas da relação com o próximo. Após o retorno do exílio na Babilônia, o povo começou a dar mais ênfase as suas relações com YHWH pelas vias das práticas religiosas da oração, do culto e da liturgia. Eles pensavam que as liturgias, os incensos e os sacrifícios podiam aplacar a ira de Deus e compra-lo; que podiam tê-Lo nas palmas das mãos. Os profetas condenarão essa ideia e prática. Deus não se deixa comprar, nem se agrada com essa mentalidade; não se deixa levar por nada de aparente ou externo. Com Deus não há barganha. É o que Jesus revelará através de sua missão e o que o evangelista trata de transmitir à sua comunidade.

Agora entramos no segundo momento da narrativa: a parábola do Bom Samaritano. Jesus a conta em virtude da pergunta sem-jeito do doutor da Lei: “Quem é meu próximo?”. Pistas importantes para se compreender o ensinamento evangélico a partir daqui: 1) A parábola é aquele gênero literário sapiencial que se serve da realidade cotidiana simples para se transmitir um ensinamento. Ela chama a atenção do leitor-ouvinte, provoca-o, e o instiga a tomar uma atitude nova (diferente). 2) O termo “próximo” utilizado na pergunta do doutor da lei precisa ser compreendido: no judaísmo do tempo de Jesus os judeus só consideravam pessoas próximas a seus compatriotas. Quem não pertencesse ao povo não era considerado “próximo”. 3) a melhor forma de se entendera pergunta da personagem pode ser esta: “de quem devo me aproximar?”

Jesus começa a narrar que um homem (e pelo contexto judaico se pode intuir que seja um israelita) descia de Jerusalém para Jericó (v.30-36). No caminho caiu nas mãos de assaltantes violentos. Estes o deixam quase morto pelo caminho. Sobem pelo caminho um sacerdote e um levita (ambos especialistas da liturgia levítico-cultual) e passam pelo caído-ferido sem nem ao menos tocá-lo, para que não ficassem impuros para culto e para as orações, conforme previa a Lei mosaica. Mas um terceiro personagem aparece no relato. Um samaritano. Uma figura controversa.

Os Judeus não se davam com os samaritanos. A Samaria, bem como o norte de Israel, a Galileia das nações, eram tidos como pagãos e, portanto, impuros, desde a dominação do império assírio em 722 a.C, quando do primeiro exílio promovido por esse império. A política de dominação deles era muita perversa. Ao deportar e dispersar a população local para as diferentes regiões de seu império, os assírios colocavam no lugar destes povos locais outros povos, misturando-os consigo mesmos. Nesse sentido, o norte de Israel sofreu influência religiosa de outros povos, que se mesclavam com a fé judaica. Devido a essa miscigenação, os Judeus do sul (de Jerusalém) consideravam os samaritanos como impuros e hereges.

A esta altura, a parábola explicita seu elemento paradoxal, que visa chamar e prender a atenção do leitor: é um samaritano, que na parábola, cumpre perfeitamente a Lei de todos os israelitas; aquele que era considerado “herege”, pagão e estrangeiro cumpre com perfeição a Lei do Amor a Deus. Imagine com realismo a cena: um judeu, jamais tocaria numa pessoa ferida, devido a proibição de ter contato com o sangue alheio. Caso o fizesse, ficaria impuro, necessitando dos rituais de purificação realizados posteriormente, mesmo sendo um seu compatriota. O samaritano rompe com esta prescrição da lei de Moisés. Por isso, a sua atitude chama a atenção do leitor-ouvinte da parábola. E precisa incomodar.

O texto é bem claro, o samaritano, aproxima-se movido por compaixão e socorre o homem caído e ferido. O termo compaixão é traduzido por Misericórdia (σπλαγχνίζομαι/Splangnisomai). Ele traduz o termo hebraico Hesed (amor), que significa um amor visceral, entranhado. Por isso, compaixão/misericórdia não consiste em sentimento. É uma atitude: a capacidade de agir em favor do outro que sofre. Deus, diante do sofrimento dos pequenos e pobres, dos marginalizados e oprimidos, remexe-se no seu íntimo e intervém em favor deles; tem “dor de barriga” pelo sofrimento do outro e só assim é capaz de agir com misericórdia, com seu amor visceral. Lucas em sua catequese evangélica identifica a misericórdia de Deus em Jesus. Ele é o rosto e a personificação da Misericórdia de Deus. Jesus é a Misericórdia que se fez carne.

“Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” (v.36). Entramos na pragmática do Texto, sua intencionalidade e finalidade para a comunidade cristã daquela primeira hora, e para nós, a geração posterior. Jesus, ao perguntar ao doutor a opinião dele faz com que se posicione e reconheça-se também neste relato.

Para Jesus, não se deve questionar quem é ou quem pode ser objeto do amor misericordioso, mas como alguém pode tornar-se próximo do outro. O próximo é, então, todo aquele que se aproxima do outro com um amor operativo, e não com teorias. É aquele que transcende os limites socioculturais; que ultrapassa todo o senso de diferença (e socorre a diversidade). E aqui é que se distingue quem é autêntico discípulo-apóstolo de Jesus.

As comunidades cristãs, e de modo particular, a de Lucas compreenderam Jesus como o bom samaritano. Jericó pode simbolizar tudo aquilo que desumaniza o ser humano a ponto de fazê-lo perder sua dignidade de filho de Deus. O Senhor desce à Jericó da marginalização, da exclusão, da perda de sentido da vida. Ele é o estrangeiro galileu que realiza as tradições religiosas de seu povo até as últimas consequências. Aquele que se moveu no íntimo de suas entranhas devido aos sofrimentos dos outros, e por isso moveu-se exteriormente em atitudes humanizadoras. É precisamente assim que o discípulo do Reino deve se comportar.  

Uma bela interpretação alegórica proposta por Orígenes de Alexandria, escritor eclesiástico da virada do século I para o II, pode ajudar. Ele dirá que o caído da parábola simboliza o velho Adão, que desceu do paraíso (Jerusalém) para o mundo (Jericó), e o Samaritano é símbolo do Cristo. A hospedaria é símbolo da Igreja, comunidade do Ressuscitado, que tem por dever cuidar dos caídos pelo caminho. Ser verdadeiro hospital de campanha no meio do mundo, como disse o saudoso Papa Francisco. Deve ser ela casa da misericórdia, e cuidar para que todos tenham sua dignidade restituída.

O texto suscita perguntas: como temos lido a Palavra de Deus: com seu verdadeiro espírito e sentido, ou a partir de nossos próprios interesses e convicções? Sabemos, hoje, como discípulos e comunidade reconhecer os caídos e feridos deste mundo? Sabemos acolhê-los, com suas feridas e cuidá-los? Temos coragem de tocar-lhes as feridas, e nelas nos sujarmos, ou preferimos uma espiritualidade estéril, desvinculada das relações humanizadoras, desencarnadas da prática do amor-misericórdia?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 5 de julho de 2025

REFLEXÃO PARA O XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 10,1-12.17-20:

 


O texto proposto para a liturgia do décimo quarto domingo do tempo comum é extraído do capítulo décimo do Evangelho segundo Lucas. Vale lembrar que já se iniciou em 9,51 a viagem de subida de Jesus para Jerusalém. Até o capítulo 19, o evangelista relata a peregrinação do mestre com seus discípulos para a cidade santa. Não se trata de uma viagem turística, como já se afirmou em outras ocasiões, mas de um itinerário formativo-catequético para aquele e aquela que deseja iniciar o seguimento ao Senhor.

Agora se pode adentrar no horizonte do texto e saboreá-lo. O v.1 introduz a narrativa informando o leitor que Jesus reuniu e escolheu para junto de si outros 72 (dependendo do manuscrito do evangelho segundo Lucas o número é 70), e os envia, dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares que Ele deveria percorrer, paralelamente à missão do grupo dos Doze.

O número 70 (72) é importante, e, na verdade, revela a intencionalidade do próprio Lucas. Ele recupera para a sua comunidade a narrativa de Gn 10, onde se encontra o elenco das nações. Faz lembrar, também, da narrativa contida em Nm 11,16, onde Deus infunde em setenta homens prudentes, o mesmo Espírito dado a Moisés e Aarão. Assim, o número setenta indica a universalidade. O tema da universalidade da salvação é muito querido por Lucas. A salvação é um convite que Deus faz à todos, e por isso ninguém deve ficar de fora. Tanto da salvação, como da missão. O Reino de Deus é a origem da missão cristã: todos são convocados a tomar parte na tarefa de anunciar a presença de Jesus, aquele que traz para dentro da história humana o projeto de Deus. O costume de se enviar em dupla se deve ao fato de que um testemunho ou anuncio só pode ser corroborado por mais de uma pessoa.

O original grego ajuda a captar com profundidade a orientação para que o discípulo vá a frente de Jesus. “E enviou-os, dois a dois, na sua frente”, pode ser melhor traduzido por “Enviou-os, dois a dois a partir de sua face” (πρὸ προσώπου αὐτοῦ/pró prosópou autoû). O discípulo é enviado para levar e anunciar a face de Jesus. Ou seja, a verdadeira imagem do Senhor. Através da missão do enviado fazer resplandecer a imagem daquele o enviou.

Jesus lhes ordena que rezem. Esta é, portanto, a primeira característica do discípulo do Reino. A oração, no evangelho de Lucas é sempre o indicativo de que tudo aquilo que o Senhor está para fazer corresponde com o querer do Pai, e fora discernido na oração. O que o Mestre faz vale, evidentemente, para seus discípulos, ou seja, deverão se colocar em relação à Deus através da oração. Ela se revela um pedido: que o Dono da messe (da colheita) envie mais operários. Esta oração, portanto, ressalta que a Missão é Graça de Deus. É um projeto Dele.

Outra característica do discípulo-missionário de Jesus é a revelada por ele no v.3. Os discípulos são pessoas que anunciam o Reino de Deus numa realidade conflituosa e que vive na contramão do projeto de Deus. “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos”. A ovelha, na teologia do Novo Testamento, sempre é aplicada ao discípulo como sendo um símbolo para este. Ele deve ser como a ovelha, ou seja, sempre pertencente ao rebanho, na íntima relação com o seu pastor; deve ser sempre dócil, solícita e atenta ao que ele pedir; é, ainda, imagem da simplicidade e da paz. Devem sempre ter presente que possuem um pastor que as defende. Nesse sentido, os anunciadores do Reino não devem empregar os métodos violentos da sociedade que vai matar Jesus e perseguir seus discípulos. Assim, anuncia o Reino quem se despoja do poder. Mesmo sendo enviadas em meio aos lobos, que simbolizam todos aqueles que se servem do poder, da violência, da opressão e da maldade.

“Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho!” (v.4). Uma terceira característica do discípulo do Reino é a sua entrega confiante à providência de Deus, caracterizada pela orientação de nada levar pelo caminho. O pobre bíblico não é somente aquele que nada tem, no sentido econômico apenas, mas também é aquele que não se fecha sobre o que possui. Nesse sentido, não tendo nada ou possuindo ainda pouco, o pobre é aquele que não se fecha nem naquele pouco, e, abrindo mão do que tem, entrega-se confiante nas mãos de Deus. Só pode ser discípulo e anunciador do reino quem se despoja do ter. A mensagem possui também um caráter urgente. É o que Jesus quer dizer no v. 4: “não cumprimenteis ninguém pelo caminho!”. Não é um incentivo a falta de educação ou a insensibilidade, mas um apelo para que não se perca tempo com conversas ou coisas fúteis no decorrer da missão. A tarefa é anunciar o Reino, e não falar ou dizer coisas sem sentido. O discípulo não poder perder tempo ou gastar energia em conversas ou em situações que não edificam.

Os discípulos-missionário do reino possuem mais uma característica importante: são pessoas que se preocupam por restaurar a dignidade perdida do outro: “Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: 'O Reino de Deus está próximo de vós.'” (v.8-9). Comer do que for servido significa a capacidade de se criar laços relacionais, uma vez que as relações cresciam e se fortaleciam no sentar-se à mesa para partilhar uma refeição. No caso dos enfermos, eles eram considerados pecadores por conta da doença que possuíam, segundo a mentalidade religiosa da época, que a considerava como castigo e fruto do pecado. Por isso, eram afastados do convívio social e religioso. Nos evangelhos sinóticos (Mc, Mt e Lc) as curas que Jesus realiza revelam-no como enviado de Deus para anunciar o Reino. O Reinado de Deus é Ele mesmo agindo na história através de Jesus. Para que o anúncio seja pleno deve-se recuperar a dignidade dos que se encontram marginalizados e excluídos.

O anúncio nem sempre é acolhido. Sofre resistências. No v.11, Jesus profere uma sentença que merece ser bem compreendida. “Mas, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: Até a poeira de vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós”. O gesto de sacudir a poeira não significa maldição da parte de Deus. Ele se torna um símbolo profético da recusa dos destinatários, e da ruptura, por parte dos discípulos, com a conduta daqueles que fizeram ouvidos de mercador ao anúncio do Reino. Todavia, alerta Jesus, “sabei que o Reino de Deus está próximo!” (v.11). 

Na sequência, a liturgia insere os vv.17-20. “Os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: 'Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome” (v.17). Jesus declara a eles que, de fato, “viu Satanás cair do céu como um relâmpago” (v.18). O que significa este dito? Ele se serve de um versículo que se encontra em Is 14, “Como caíste do céu, Lúcifer, filho da aurora...” (Is 14,12). Para exprimir a vitória dos discípulos, o Senhor recorre à imagem com a qual o profeta descreve a queda da Babilônia e de seu rei. Nesse sentido, a expulsão de demônios por parte dos discípulos demonstra que eles têm a mesma missão de Jesus.

Com o anúncio do Reino, o poder de Satanás, que é um poder de dominação e de morte, termina. Satanás é símbolo para tudo aquilo que é antagônico ao projeto de Jesus e do Pai. Quando a comunidade age segundo o modelo da vida do Senhor, ela se coloca na contramão do anti-reino e declara a falência dele e de todas as forças, sistemas de morte e de alienação que atingem o ser humano e que o impedem de viver a liberdade do Reino.

“Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu” (v.20). Jesus alerta para a tentação da comunidade de se embriagar pelo poder e pelo sucesso. O poder de vencer o mal lhes é dado pelo Senhor (“Eu dei a vocês o poder...”). Por isso, os discípulos precisam entender que o poder que o Mestre lhes delega como instrumento é para libertar as pessoas dos poderes que oprimem. Nesse sentido, a alegria dos discípulos é saber que são protagonistas da graça e da gratuidade do Deus que caminha no meio da história: “Fiquem alegres porque os nomes de vocês estão escritos no céu”.

O texto nos propõe perguntas: 1) no caminho (da vida e do discipulado) com Jesus, que ruma para Jerusalém, quais características do discipulado ainda precisam ser assimiladas por mim? 2) nossas comunidades têm assumido o projeto da missão de Jesus, sendo, de fato, uma comunidade discípula-missionária?

 

Que sigamos os passos do Senhor.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 7 de junho de 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE PENTECOSTES – At 2,1-11:

 


A Igreja celebra a conclusão do tempo pascal, o grande dia solene que o Senhor fez para o gênero humano e para toda a criação mediante a Páscoa de seu Cristo. O Pentecoste marca a plenitude do mistério pascal de Jesus, sua paixão, morte, ressurreição (ascensão). A nova criação (ou recriação) operada pelo Pai na páscoa do Filho atinge sua plenitude com a manifestação e doação do Espírito à toda a criação e a cada pessoa de modo que possam viver da mesma vida e dinamismo de amor de Deus.

A liturgia ilumina este dia solene com a riqueza e profundidade da Palavra de Deus. Como já estamos habituados com a leitura do evangelho de João (20,19-23), o qual, a seu modo, narra com sobriedade e imediatez a doação do Espírito pelo Ressuscitado à sua comunidade, nesta ocasião fazemos a opção de meditar At 2,1-11, o pentecostes lucano, com suas particularidades e simbolismos. Por isso, se faz necessário esclarecer uma notável diferença entre os dois relatos: a distância cronológica do evento.

O Quarto Evangelista, a partir de seu esquema teológico e catequético da superação das instituições do sistema levítico-cultual do judaísmo da época deseja ensinar à sua comunidade que todas as expectativas ou sistemas antigos foram superados pela obra de Jesus. Por isso, o dom do Espírito acontece no mesmo dia pascal. O Evangelista Lucas, por sua vez, motivado por uma teologia da história, que visa coincidir os eventos da história da salvação com a história humana, e seguindo, a seu modo, um estilo de narrar próprios aos autores antigos, prefere uma certa linearidade dos fatos no intuito de também gerar, através do fato narrado, uma superação. O terceiro evangelista faz coincidir o Pentecoste de Jesus – o Dom do Espírito – com o pentecoste judaico para transmitir uma mensagem profunda que veremos a seguir.

O texto começa situando o leitor/ouvinte do texto: “Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” (v.1). Este primeiro versículo pode ser traduzido também da seguinte maneira: “Quando se completou o dia de Pentecostes”. O evangelista utiliza o verbo symplerousthai (gr. συμπληροῦσθαι) que comunica a ideia de plenitude/conclusão/completude. Deriva do verbo “pleroô” (gr. πληρόω), que é comumente utilizado por ele para dizer que um tempo ou ciclo chegou ao fim e o início de um novo. Lucas deseja assinalar que o pentecostes da antiga lei chegou ao fim, e o Pentecoste do novo povo de Deus tem agora o seu lugar.

O que era o pentecostes do Antigo Testamento? Era uma festa agrícola, dedicada à colheita e oferecimento destes primeiros dons da terra e dos animais à YHWH. Após a libertação de povo de Deus do Egito, ela adquiriu tons pascais. Exatamente cinquenta dias após a páscoa, o povo que caminhava no deserto chega ao Sinai e recebe de Deus, por intermédio de Moisés, as Palavras da Aliança, o decálogo. Portanto, o pentecostes judaico estava relacionado ao dom da Lei de Deus ao povo, através das tábuas de pedra.

Lucas, ao narrar o dom do Espírito feito pelo Senhor, o faz coincidir com os cinquenta dias após a páscoa dos judeus justamente para afirmar a superação e a novidade que acontece através deste evento. Trata-se de um novo, definitivo e pleno Pentecostes: o Espírito do Pai e de Jesus, o Espírito Santo, derramado nos corações humanos e em toda a criação. Ou seja, o dom de Pentecostes não é mais uma lei gravada em pedras. Mas, a partir do dom da vida do Filho, Deus escreve (inscreve) dentro do discípulo o Seu Espírito. O seu dinamismo vital. Seu projeto de amor e de vida. No dom da vida e da existência de Jesus, o Pai inscreve esta mesma vida plena na vida de seus filhos e filhas, seus discípulos e discípulas a fim de que possam viver desta novidade de vida num tempo que é e precisa ser novo.

Sinais deste tempo novo são os que Lucas descreve nos próximos versículos. Ele continua a narrativa servindo-se dos símbolos do patrimônio das escrituras de Israel ao narrar as manifestações divinas (teofanias). “De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles” (v.3-4). O vento (a tempestade) e o fogo são elementos puramente simbólicos que já apareceram no primeiro Pentecostes, em Ex 19,26 e em Dt 4,36. O fogo não se relaciona com a destruição. Antes, com a purificação. Com um refazimento ou restauração. Ou seja, o fogo que simboliza a Força divina que vêm do Espirito de Deus é sinal da nova criação inaugurada em Cristo.

As línguas de fogo se repartem sobre os discípulos. Imagem bela e interessante. Ou seja, o Espírito não é um dom exclusivo para poucos, mas é doado a todos os que abraçam o projeto de Jesus. Aqui se evidencia um pouco mais do mistério da vida do Senhor a ser continuada pela comunidade dos discípulos: assim como sua vida e existência foi uma intensa e contínua doação e partilha de si, seu Espírito também, para continuar esta forma de vida e missão nos discípulos e na comunidade doa-se e é partilhado a todos. O Espírito não se divide para gerar divisão, mas para gerar amor, unidade, comunhão e vida. A ninguém é dado posse do Espírito, mas a graça de ser possuído, inhabitado, por Ele, a fim de se viver a mesma vida do Filho.

Lucas mostra o efeito desta experiência com o Espírito: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (v.4). A língua de que fala o evangelista é muito conhecida pelo discípulo de Jesus: a própria vida do Senhor. Muito se tentou explicar este versículo de At 2,1-11pendendo para hipóteses um pouco forçadas. Uns apelavam para o fenômeno da glossolalia, muito comum nas comunidades entusiásticas do tempo de Paulo, e com as quais o Apóstolo das nações se confrontou, determinado que só se utilizasse este “dom carismático” se, e somente se, na comunidade houvesse algum interprete. Não é o caso. Também houve a tendência de interpretar este versículo a partira da tese da xenoglossia, a capacidade de falar línguas estrangeiras. A língua que os discípulos falavam a partir da experiência com o Espírito Santo consistia num idioma fundamental: a práxis do amor oblativo e incondicional do Senhor, da fraternidade, do serviço mutuo e solidário, da unidade, da comunhão e da paz. As pessoas que tomavam contato com Evangelho pregado pela comunidade dos discípulos viam e presenciavam este estilo de vida.

O v.11 conclui a narrativa com esta constatação: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!”. Lucas não economiza ao recorrer ao patrimônio das escrituras para falar do alcance deste novo tempo inaugurado por Jesus através da comunicação de Seu Espírito. Este, é um tempo e uma vida destinados para todos, após fazer o elenco das nações existentes naqueles idos dos anos 80 d.C, até mencionar Roma, a última fronteira que o Evangelho de Cristo deveria chegar e cruzar. O evangelista o faz para trazer uma vez mais um tema muito querido por ele, a universalidade da Salvação inaugurada e proposta por Jesus, o qual foi trabalhando ao longo de sua primeira obra, o evangelho. Este é o tempo novo que a comunidade dos discípulos deve anunciar e viver diante de todos; é a forma da vida de Filho que cada pessoa, marcada com o selo do Espírito, e por Ele inundado, precisa testemunhar. Quando isso acontece, todos e toda a criação podem escutar a Boa Nova de Deus que é a realização de Suas maravilhas, seu amor fiel e sua vida, na língua de cada um.

O dom do Espírito, neste novo Pentecostes, realiza o oposto de Babel em Gn 11,1-9. Lá, a humanidade foi dispersada e dividida depois da tentativa de construir um imperialismo religioso-político (a torre para se chegar até Deus); agora, é reunida pela força do Espírito que unifica os diferentes grupos humanos ou qualquer diferença, respeitando e promovendo as características culturais, das quais a língua é expressão. Nem a força ou a repressão, nem a planificação econômica ou política podem assegurar a unidade dos povos ou dos grupos humanos, mas sim o poder interior do Espírito de Jesus Ressuscitado, que promove com a liberdade e o amor novas relações e cria espaços alternativos de comunicação.

Temos vivido uma existência segundo o Espírito de Jesus? Quais novas línguas o Espírito nos inspira a falar hoje? A vida e obra do Senhor tem sido o nosso idioma? Nossas comunidades tem falado a linguagem do Espírito de Cristo, amor, fraternidade, serviço, unidade, comunhão e vida para todos?

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 31 de maio de 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – Lc 24,46-53:

 


O tempo pascal encaminha-se para sua conclusão. A liturgia da Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, na qual a comunidade professa a plenitude da ressurreição do Senhor. Jesus Ressuscitado, ao retornar para o âmbito de Deus leva consigo a natureza humana. Ele não volta sozinho para o Pai, mas leva a nossa humanidade e a (re)orienta para o seu fim último e definitivo: a vida de Deus.

A liturgia nos propõe o texto de Lc 24,46-53. Estamos no último capítulo do evangelho segundo Lucas, que iniciou com o relato do anúncio da ressurreição às mulheres, seguido da manifestação do Senhor ressuscitado aos discípulos na estrada de Emaús (Lc 24,12); continuando, depois, a manifestação à Simão e à toda a comunidade (Lc 24,34ss), até chegar à conclusão narrativa que temos diante de nossos olhos para a meditação.

No v.46, o evangelista nos informa que Jesus explicou o sentido das escrituras aos discípulos, após comer com eles, recordando que o Messias/Cristo deveria sofrer e ressuscitar ao terceiro dia. Esta recordação/memória que o Ressuscitado realiza junto com os seus corrobora a fala do mensageiro celestial às mulheres logo na introdução do capítulo. Elas deveriam, juntamente com o grupo dos discípulos, recordar o que o Mestre havia dito acerca da plenitude de sua missão. Para se fazer a experiência com o vivente, a comunidade deve fazer a memória atualizadora de Sua vida e missão, atualizando Sua presença, assimilando na vida cotidiana a exemplaridade da vida Dele. Ainda que elas passem pela morte. O discípulo não pode ter medo de se deparar com esse fato. É necessário e, igualmente importante, que eles acolham o evento pascal – sua paixão e morte – como a realização e cumprimento das escrituras, para que possam proclama-lo como Messias.

Nos vv. 47-48, o Jesus de Lucas toca no tema da missão. A missão da comunidade consiste em oferecer e testemunhar a reconciliação realizada por Jesus a todos os povos. O evangelista trabalha aqui com um tema que lhe é muito caro, a universalidade da salvação: é um dom para todos, indistintamente. Ninguém pode ficar excluído dela. A missão consiste em testemunhar a misericórdia de Deus através do dom da vida de Jesus.

O v.47 apresenta uma sentença que precisa ser compreendida. O texto litúrgico diz que no nome do Messias seriam anunciados a conversão e o perdão dos pecados. Mas o original grego apresenta outra forma: “em seu nome será anunciado a conversão para o perdão dos pecados”. Para se receber o perdão dos pecados se faz necessário viver a experiência e o dinamismo da conversão, que a mudança da direção errada, do caminho contrário ao querer de Deus, mudança em relação às escolhas equivocadas, mudando a mentalidade. Ora, a vida e o evangelho de Jesus anunciados, quando acolhidos na vida e no coração têm o poder de transformar a pessoa, promovendo a conversão, a qual gerará o perdão dos pecados. O pecado não é uma sujeira ou uma mancha a ser limpa ou apagada, mas uma conduta de vida distante do projeto de Deus e de Jesus, é o afastamento e a ruptura da relação com o Pai. Esta é, portanto, a missão que o discípulo deverá viver e testemunhar: anunciar com a vida e com as palavras o evangelho de Jesus que gera conversão para que cada pessoa possa fazer experiência de vida plena com Deus, de modo a eliminar o pecado de sua vida.

Para que os discípulos e a comunidade vivam profundamente a existência de Jesus, devem ser revestidos da “força do Alto”: o Espírito Santo. O evangelista usa do termo grego dynamis / δύναμις. A força do Alto é o dinamismo de vida do próprio Deus e de Jesus que anima e move a vida dos discípulos e da comunidade para viver a vida e a missão de Cristo.

A vida de Jesus foi toda pautada e conduzida pelo Espírito de Deus. No Evangelho de Lucas, tudo o que Ele realiza e vive, o faz segundo o Espírito. No relato do Batismo, é o Espírito que o investe para missão. No deserto, é o Ele quem o conduz. Na Sinagoga de Nazaré, declara-se ungido pelo Espírito. É por este momento que os discípulos deverão esperar, pela vinda desta força do Alto.

A seguir, o evangelista descreve a cena da ascensão. Jesus conduz os discípulos para outro lugar, “levou-os para fora” da cidade, próximo à Betânia. Dois detalhes devem chamar nossa atenção. Lucas emprega um termo exsâgo (ἐξάγω) que alude ao tema do Êxodo. No relato da transfiguração (Lc 9), as duas personagens Moisés e Elias conversam com o Senhor acerca do êxodo que ele realizaria mediante o dom de Sua vida, de sua Páscoa. Agora, o evangelista mostra para a sua comunidade a realização deste caminho.

Outro detalhe é a localização, o Senhor os leva para perto de Betânia. Seguir na direção deste povoado significa tomar o caminho contrário à Jerusalém: o caminho da entrada triunfante de Jesus na cidade santa, na ocasião da Páscoa. Se, de Betânia Jesus marcha para sua paixão e morte de cruz, seu êxodo de morte e vida, agora, na direção contrária de Jerusalém ele marcha definitivamente para junto do Pai. Ao mesmo tempo, o evangelista pretende denunciar a resistência de Jerusalém, enquanto sede do sistema religioso da época, em relação à missão do Senhor. A cidade santa não corresponde mais ao projeto de Deus. Os discípulos precisam sair dela para serem formados e fortalecidos pelo sentido da vida de Jesus para retornarem a fim de evangeliza-la e renovar lhes as estruturas.

Em Betânia Jesus sempre foi muito bem acolhido pela família dos amigos Lázaro, Maria e Marta. Sempre desfrutou ali da hospitalidade, da amizade, da fraternidade. A casa desta família de Betânia é o símbolo da Comunidade Cristã que deve ser espaço de fraternidade e de vida. Será a partir do âmbito da vida comunitária que os discípulos serão chamados a reconstruir também as realidades que os rodeiam. A partir da fraternidade, do amor mutuo, da misericórdia e da compaixão, do serviço ao próximo.

Lucas, pele primeira vez mostra Jesus abençoando os seus. As mãos, na antropologia bíblica estão sempre relacionadas às ações (ao agir). O Senhor ao abençoar os discípulos está comunicando a eles toda a plenitude de seu agir. Como Ele agiu, gerando vida, revelando a face amorosa e misericordiosa de Deus, também eles e a Igreja deverão fazer o mesmo. A benção bíblica é, primeiramente, o ato de bendizer à Deus recordando seus feitos, aquilo que realizou em favor dos seus, para tornarem-se lugar da Sua presença. Ela assume uma dinâmica performativa, ou seja, realiza aquilo que diz, transmitindo uma força eficaz e irrevogável. Ela comunica a essência daquele que abençoa àqueles que são abençoados. Assim, os discípulos, que são abençoados, difundirão a plenitude da vida do Senhor Ressuscitado e do Pai e, através dela, farão novos discípulos.

Depois de abençoar os discípulos, Jesus foi elevado aos Céus. É necessário compreender a cosmologia da época, isto é, a concepção de universo, espaço e tempo do povo da bíblia. O céu é o lugar da habitação de Deus. É âmbito divino e expressa a condição divina. Aplicando essa imagem a Jesus, o evangelista pretende ensinar que Ele cumpriu plenamente a missão de revelar a face misericordiosa do Pai. Por ter sido fiel a ela, isso foi levado em conta por Deus, que o enalteceu ao entronizá-lo a sua direita. Ação de elevar o Filho é realizada pelo Pai (“foi levado para os céus” encontra-se na voz passiva, que indica que a ação em relação ao Filho foi realizada por Deus-Pai), assim como a ressurreição.

A elevação/ascensão de Jesus não é outra coisa que o retorno ao âmbito do divino. Aquele homem que havia sido condenado como blasfemo e morto pelas lideranças religiosas e políticas, agora está à Direita de Deus. Porque Ele mesmo assim o quis. É uma maneira que o evangelista encontra para dizer que o Crucificado pertence a esfera da divindade.

“Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (vv.52-53). Adorar é a atitude típica do reconhecimento da soberania de Jesus. Os Seus discípulos sabem que Ele é realmente o salvador, e, por isso, da mesma forma que no início do Evangelho lucano os pastores se alegraram com o anúncio do nascimento do Messias (cf. Lc 2,10), os discípulos expressam uma “grande alegria”. A alegria é uma característica essencial do discipulado, na perspectiva de Lucas. Ela já foi antecipada no início da catequese também por Maria (cf. 1,47) e pelos anjos (cf. 2,8-20). E agora toca aos discípulos comunica-la ao mundo.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP


sábado, 24 de maio de 2025

REFLEXÃO PARA O VI DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Jo 14,23-29:

 


Adentramos no sexto domingo do tempo pascal, seguindo com a leitura do testamento de Jesus no Quarto Evangelho, o qual constitui o Seu grande ensinamento sobre o mandamento (dinamismo) do amor, e sobre a entrega da própria vida através do gesto do Lava-pés. A liturgia propõe para a nossa meditação o texto de Jo 14,23-29. 

Antes de tomarmos o texto de hoje, se faz necessário recordar que nos versículos anteriores, Jesus prometeu o Espírito Santo aos discípulos. É o dinamismo de vida do Pai e do Filho, que, doado por ambos comunica vida, filiação e amor. É aquele que garante a continuidade da vida e da presença do Cristo para a comunidade, através da vivência do mandamento do Amor. Isso posto, podemos entrar no horizonte do texto.

Jesus continua seu discurso, dizendo: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou”(vv.23-24). Jesus afirma a importância do amor e de guardá-lo como mandamento/Palavra. O amor é a plena adesão e identificação a Ele. Durante toda a sua vida pública, ministério e Obra, Ele tratou de revelar com gestos, atitudes e palavras a forma deste Amor: é uma conduta de vida, um estilo! É a capacidade de colocar a vida em relação ao outro na dinâmica do oferecimento de si, portanto, um Amor oblativo, que se doa sem esperar nada em troca. É um Amor gerador de vida.

Amar a Jesus é colocar a própria vida em sintonia com a Sua vida. E o critério para saber se o discípulo O ama é o fato de saber se a Sua Palavra é, de fato, guardada, ou seja, vivida. O verbo guardar (hbr. Shama) não significa reter para si, mas observar, no sentido de cumprir/viver. Só o amor pode motivar a adesão à Palavra/mandamento de Jesus. Só o amor tem a capacidade de tornar o discípulo em morada de Jesus e do Pai. Na medida em que este revive e reproduz em sua vida o mesmo sentido de vida do Senhor e guarda a Sua Palavra, se torna lugar através do qual Deus pode habitar e agir.

Jesus, até o momento, já havia entregado boa parte de seu testamento: o gesto profético do Lava-pés, que ilustra a forma radical de seu amor, e o mandamento novo do amor. Agora, para confirmar os discípulos nesta forma de vida, fala uma vez mais daquele que guardará a comunidade e os discípulos nesta missão: “o defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (v.25). Na teologia do Quarto Evangelho, o Espírito é o defensor; tem a função de ensinar e recordar. O termo que João emprega é παράκλητος/paraklétos (gr. Pará = junto de, ao lado de / kalein (kaleo) =  chamar), que significa “estar junto de”, ou “ser chamado para ficar ao lado”. Ao lado do discípulo e da comunidade, enquanto presença ativa e viva do próprio Senhor.

Outras duas funções são apresentadas por Jesus: ensinar e recordar. Ambas as funções querem dizer a mesma coisa: atualizar. Ora, o verbo “recordar”, na fé e tradição do Antigo Testamento remente à atitude da memória bíblica, isto é, tornar presente no hoje o ensinamento, a missão e a vida mesma de Jesus. O ensinar/recordar são duas atitudes imprescindíveis para a vida da comunidade. São as atitudes daqueles e daquelas que vivem a novidade do convite à vida ressuscitada de Jesus, e dela dão testemunho. O Espírito Santo é aquele que inscreve (escreve a partir de dentro) a vida mesma de Jesus em nós. Ele é a letra de Cristo que escreve no livro da vida humana a vida de Jesus.

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe o vosso coração” (v. 27). Jesus fala da paz, outro dom em promessa que anuncia em seu testamento. É preciso entender que paz é esta. É aquela que, no Antigo Testamento está associada à posse da terra prometida. Mas ela é dom e garantia do tempo do Messias. Significa que a espera acabou e que a promessa foi cumprida.

Todavia, no Novo Testamento, a paz não se dá em virtude da conquista de um lugar geográfico, como a posse da terra da promessa, no AT. Ela se dá através da relação com Jesus. Nesse sentido, Ele é a promessa cumprida. Assim, para os discípulos, a Paz é um modo de ser e de existir. É ela qualidade de vida. Por isso, a paz que Jesus dá é Ele mesmo.

Qual a finalidade de Jo 14, 23-29 para a comunidade dos discípulos, para a geração posterior e para nós, hoje? Fundindo os horizontes da comunidade dos discípulos (tempo narrado, os anos trinta) e o da comunidade joanina (a geração posterior dos fieis, na qual inclui-se todo o fiel-discípulo e leitor do Evangelho, pelos idos dos anos noventa), a intenção do texto atinge seu ápice quando a comunidade cristã lê, assimila e adere ao testamento/ensinamento de Jesus como sendo seu modo de vida, pautando o seu agir e sua identidade no modo de vida Dele. Assim, o discurso de despedida que o Senhor deixa aos seus serve para que eles, e a geração seguinte, possam balizar seu ser, viver e agir na Sua ausência. Nesta perspectiva, a comunidade teria as ferramentas (os meios) para viver constantemente o convite e a realidade de uma vida ressuscitada garantida pelo dom do amor do Senhor e por seu Espírito, isto é, viver segundo o Filho de Deus, gerando Paz e vida.


Pe. Joao Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.