sábado, 22 de outubro de 2022

REFLEXÃO PARA O XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 18,9-14:

 


A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum apresenta a continuidade do capítulo dezoito do evangelho de Lucas, com um texto muito desconcertante: a parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14). Esta parábola apresenta em sua sentença final, uma provocação absolutamente questionadora que vai além da lógica humana, a qual tem a intenção de conduzir o leitor/ouvinte à uma mudança de mentalidade e no modo se relacionar com Deus – não o deus da religião, mas o Deus e Pai de Jesus – e com as pessoas. Nesse sentido, a pergunta inquietante para uns, desconcertante para outros se expressaria assim: “Seria possível continuar ou viver uma situação considerada pecaminosa pela religião ou pela moral, e ser igualmente amado por Deus?  É o caso do publicano que veremos nesta parábola, que o Senhor conta aos seus no caminho para Jerusalém. Caminho de formação dos discípulos no projeto do Reino.

A fim de compreender esta mudança radical na relação com Deus, Jesus narra a parábola do fariseu e do publicano, destinando-a àqueles que pensam ser perfeitos diante de Deus, graças aos seus esforços, ou, na linguagem do evangelista, “aqueles que confiavam na própria justiça” (v.9). A parábola começa assim: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos” (v.10). As personagens já são apresentadas. Um fariseu e um publicano. Duas pessoas com condutas opostas.

O fariseu era o observador zeloso da Lei, conhecendo-a nas suas minucias e em suas virgulas. Cumpria rigorosamente as 613 prescrições da lei de Moisés. Pessoas leigas e piedosas, profissionais do sagrado. Mais religiosas que os chefes da religião. Assim, considerava-se justo diante de Deus, e, com isso, separavam-se do povo. O publicano era um judeu que trabalhava para o Império, cobrando impostos de sua própria gente. Eram considerados como traidores do povo e, nesse sentido, piores pessoas e pecadores públicos, e transgressores dos mandamentos de Deus. Para estes, não haveria nenhuma esperança de salvação. Nesta personagem, Jesus apresenta uma pessoa, de cuja a situação não pode sair!

Jesus mostra a atitude e o conteúdo da oração do fariseu rezado: “O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo” (v. 11). Interessante, o fariseu rezava em pé (para ser visto) e em seu íntimo. A tradução grega é melhor, pois mostra com realismo o modo com que ele rezava, “voltado para si mesmo”. O fariseu se coloca diante do Senhor, mas permanece voltado para si, ainda que as palavras que saíssem de sua boca fossem direcionadas à Deus; um monólogo de sua própria santidade: fala para si mesmo e sobre si mesmo.

O fariseu, por sua vida separada, fazia da sua santidade a medida para julgar os outros: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda” (v.12).  Jesus denuncia a incoerência do fariseu, que através da sua mania de ostentar a sua justiça diante dos homens, na realidade serve somente para mascarar a profunda e real injustiça que existe diante de Deus. Ele, no templo, ao exaltar e glorificar a sua dignidade e santidade, ao incensar suas práticas, não faz outra coisa senão usurpar o lugar de Deus. É o pecado da idolatria, que na tradição religiosa de Israel, é o próprio pecado do adultério, porque o fariseu dava a si mesmo a glória que era devida a Deus: acredita que está cultuando a Deus, mas, na verdade, se coloca, idolatricamente, em Seu lugar. Tal é a convicção equivocada dele, que a sua atitude de lançar uma olhar de desprezo ao publicano lhe denuncia a insensatez e o desprezo: “não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos”.

A concepção equivocada do fariseu em relação à Deus é ainda mais acentuada na parábola, quando elenca as suas atitudes: “Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda” (v.12). São elas centradas nas práticas da piedade judaica. Entretanto, nenhuma delas voltadas às relações com o próximo. Todas voltadas para o cumprimento do dever religioso em relação à Deus, mas totalmente desinteressadas do bem ao próximo. Por exemplo, ele elenca a prática do jejum. Na tradição de Israel, a prática era prescrita uma única vez ao ano, no chamado Yon Kippur (dia da expiação/perdão). Mas, a prática religiosa acrescentou mais quatro, aludindo ás quatro grandes catástrofes nacionais do povo. Mas, os fariseus, para destacarem-se dos demais, jejuavam às quintas e às segundas-feiras, porque a quinta-feira era o dia em que Moisés, conforme a tradição, havia subido ao Sinai, e a segunda-feira, o dia em que ele havia descido da montanha. Este jejum bi-semanal era o distintivo dos fariseus. Paga o dizimo de tudo o que possuía, e não somente sobre o que era exigido pela Lei, isso porque queria estar seguro de não transgredir nenhuma norma ou prescrição. Assim, fazia muito mais do que era estabelecido. Apresentava a lista de seus pretensos méritos diante de Deus.

Agora, é importante lançar o olhar para o publicano. Ele vai ao templo com a intenção de rezar, mas não arrisca em fazê-lo. Jesus mostra muito bem a discrepância existente entra as duas personagens. O cobrador de impostos está à distância, “O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu” (v.13). Ele tem consciência de sua indignidade; sabe que não pode entrar numa casa comum de um judeu piedoso, quiçá no templo de Deus, e tornar impuro todos os que se aproximavam.

A forma e o conteúdo da oração do publicano é, por demais, reveladora, conforme narra Jesus: “batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” (v.13). Jesus apresenta duas personagens num contraste abissal entre si, mas com atitudes iguais em relação à Deus: o fechamento. O fariseu, enquanto ídolo e deus de si mesmo, se fecha ao Senhor, que pede amor e não sacrifício; o publicano, que convive cotidianamente com o engano e com o roubo. Mas somente este é consciente de sua impureza, de sua indignidade. Mais curioso ainda, ele não promete a Deus mudar de vida porque não lhe é possível. Mas roga a Deus para mostrar lhe, mesmo em sua impureza pecadora, a Sua misericórdia: “Senhor, veja a vida desgraçada que levo. não posso fazer outra coisa, não posso voltar atrás. Não obstante a isso, mostrai-me vossa misericórdia”.

A parábola, como dissemos no início, termina de uma forma inexplicável, com uma sentença desconcertante de Jesus, que faz refletir: “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (v.14). O publicano retorna para a sua casa justificado, ou seja, em paz com Deus. Mas isso é inquietante: o que esse fariseu fez de errado? Por outro lado, o que fez o publicano ser justificado? O primeiro cumpria e realizava tudo o que ordenava a Lei, e muito mais. O segundo, não faz o propósito de mudar de vida, mas é destinatário da misericórdia de Deus.  O erro do fariseu foi o fato de ter se exaltado a si mesmo, isto é, tomou o lugar de Deus. Fez se Deus de si através da mercadoria de troca que seus méritos representavam. 

A parábola de Jesus pretende mostrar como é a lógica do Reino de Deus: nesta nova realidade que Ele propõe, o Reino, não se torna grande e amado por de Deus quem se apoia em seus próprios méritos, mas é amado por Deus devido às suas necessidades. Méritos, nem todos o tem, nem todos podem apresentar. Agora, necessidades, todos possuem. Então, a moral deste trecho precioso é esta: Deus ama, sem impor a mudança de vida; a comunhão com Deus não depende da conduta religiosa e dos méritos do homem, mas no acolhimento do amor Daquele que, como Lucas disse, é bondoso também com os ingratos e maus.

Quem somos, diante deste espelho do texto? O fariseu, mais religioso que os líderes (mais cristãos que o próprio Cristo; mais católicos que o papa; mais padres que os próprios padres)? Ou o publicano, consciente de ser indigno diante de Deus, ciente de não poder ter ou apresentar algum mérito? Como está nossa oração, dado que ela é o modo de se estabelecer uma relação com Deus: é uma relação que se baseia no mérito, enquanto “moeda de troca”; uma oração voltada a si? Ou uma relação que sabe ser grata e gratuita, e, portanto, livre diante de Deus, o qual nos ama livre e gratuitamente, sem esperar de nós os méritos?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 15 de outubro de 2022

REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 18,1-8:


O evangelho proposto para a meditação do vigésimo nono domingo do tempo comum, é retirado do capítulo dezoito da catequese de Lucas. Ao mesmo tempo que se inicia um novo capítulo, Jesus e Lucas encerram a seção acerca dos ensinamentos sobre o tema da fé dos discípulos, iniciado no capítulo anterior – Lc 17,1-10 – com o pedido dos discípulos para que Jesus lhes aumentasse a fé, seguido do relato da purificação dos dez leprosos, dentre os quais, um samaritano, que consegue honrar Jesus com sua fé (Lc 17,11-19). Por isso, o texto de hoje conclui este ensinamento acerca de como deve ser a fé dos discípulos: perseverante e orante.

A fé, nos mostrou o capítulo dezessete, é a capacidade de relação com Deus. É e sempre será a resposta que o homem e a mulher, o discípulo e a discípula de Jesus de todos os tempos e lugares oferece a Deus-Pai, diante de seu amor, sua misericórdia e seu perdão. Ela habilita o discípulo a se relacionar com Deus segundo a forma e a condição de Filho. Se o discípulo assimilar esta realidade relacional com Deus desta maneira, ele poderá ser reconhecido como discípulo verdadeiro do Reino. Mas esta relação-resposta deve ser sempre conservada a partir da perseverança e da constância, mesmo diante dos desafios e das dificuldades, inclusive no seguimento a Jesus. É o que o discípulo-leitor do evangelho deve procurar absorver do texto deste domingo, Lc 18,1-8, a parábola do Juiz iníquo e da viúva, os quais, de antemão já se adverte para a compreensão do texto, são personagens simbólicas – evidentemente, por se tratar de um gênero de parábola – a serem compreendidas e aplicadas à dois grupos.

Para compreender o texto de hoje é necessário compreender o contexto da comunidade de Lucas (e de todas as comunidades no Século I). Cresce e acirra-se a perseguição contra o movimento de Jesus por parte do Império, pelo imperador Domicianos, e da parte do judaísmo da época. A violência, o insulto, a rejeição, a exclusão e marginalização dos cristãos dos dois lados da sociedade estava gerando o desânimo nos primeiros cristãos e até desistências. Sob este clima é que Lucas tece o relato parabólico que inicia o capítulo dezoito, recuperando o ensinamento de Jesus. Digno de nota é que este episódio é exclusivo do evangelista, que soube redigir bem o texto, apropriando-se do ensino de Jesus e das personagens, articulando-as a fim de transmitir uma mensagem de ânimo, de encorajamento e de esperança para suas comunidades, a fim de fortalecer a sua Fé, mesmo em tempos de crise.

O texto começa apresentando a intenção do próprio Jesus, a qual revela-se a síntese e a finalidade do ensinamento que vem a seguir: “Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir...” (v.1). Na verdade, o Senhor já trabalhou o tema da oração com seus discípulos no capítulo 12 da catequese lucana. Por isso, este não pode ser considerado o tema central deste capítulo, embora apareça novamente. E, para que recordemos sempre: a repetição dos temas é um artifício do evangelista para mostrar as dificuldades que os discípulos-leitores estão apresentando na assimilação daquele tema. No entanto, se faz importante recorrer ao contexto da comunidade uma vez mais, ou seja, os anos 80. A comunidade de Lucas era composta, na sua maioria, por estrangeiros e pagão, os quais não tinham a prática e o costume da oração. Por serem de origem grega, a maioria estava habituada ao costume religioso grego dos sacrifícios apresentados nos templos, aos ritos, e não tinham práticas de oração pessoal.

A parábola é contada por Jesus. Nela, são apresentadas duas personagens absolutamente opostas. Um juiz e uma viúva. O mestre apresenta com muita precisão as características da personagem do magistrado: “um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum” (v.2). É um homem arrogante, autossuficiente, prepotente. Não temer a Deus significa que ele não o reverenciava. O temor bíblico não é sinônimo para o medo. Muito pelo contrário. É a atitude de reverência e de reconhecimento da dependência em relação ao divino. Este homem, mediante suas características, revela-se descomprometido com Deus e com outro (“não respeitava homem algum”).

A segunda personagem, que Lucas apresenta como contraste a ao juiz é a viúva. É importante relembrar que a viúva, dentro da tradição religiosa do povo de Israel, devia ser protegida pelo próprio povo. Mas isso não era feito. Quando a mulher ficava viúva, sem herdeiros, e, não tendo ninguém que a amparasse, todos os seus bens e propriedades podiam ser dados ao templo, aos sacerdotes. Com isso, corria o risco de ficar na miséria, na mendicância, vivendo na marginalização. Muito provavelmente, esta viúva da parábola ao apresentar-se com insistência diante daquele juiz, deveria estar com problemas desta natureza. A sua característica é a insistência; a perseverança. Mesmo sabendo que o juiz poderia ser injusto com ela. Via de regra, no AT, as figuras dos magistrados das cidades eram sempre denunciadas pelos profetas por deixarem se corromper por seus próprios privilégios e vantagens, desfavorecendo os pobres que iam a eles pedindo justiça.

Não é o que acontece. O juiz se incomoda com a insistência da viúva. Ele expressa bem sua intenção: “Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum. Mas esta viúva já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me!” (v.4-5). A tradução está equivocada: o juiz não teme a agressão. Primeiro, porque Jesus jamais incentivaria essa atitude, tampouco os evangelistas inspirariam este comportamento para suas comunidades, que já sofriam por demais com a violência. A tradução literal é esta: “Vou fazer-lhe justiça, para que ela não me coloque os olhos negros”. Trata-se de uma figura de linguagem que pretende aludir para o medo de ter sua reputação manchada. Ora, é claro que o juiz injusto não estava pensado no bem daquela viúva ao lhe exercer justiça, mas na sua própria imagem, em sua reputação. Ele pensa em si mesmo, tão somente. Em seu próprio bem-estar e na sua conduta ilibada. Não pensa na justiça que pode fazer, porque sua preocupação não é o outro. Evidentemente, não é intenção do evangelista, tampouco de Jesus se deter sobre uma história. A intenção é uma catequese que visa chamar a atenção para as personagens simbólicas. Por isso, quem simbolizam estas personagens?

O juiz injusto é símbolo para a mentalidade e atitude do Império Romano, imbuídos de seus esquemas e sistemas de domínio, opressão, coação, injustiça, violência e morte. A viúva insistente se torna símbolo para a comunidade cristã, ameaçada nesta história. Mas ela se torna exemplar e modelo para os discípulos por sua perseverança na fé, mesmo em tempos difíceis; mesmo onde a crise e a dificuldade tomam conta e parecem reinar. É o exemplo da fé insistente e perseverante que a viúva tem que o discípulo precisa assimilar para o seu viver, e para ser reconhecido como verdadeiro discípulo do Reino. É, então, esta personagem que deve servir de modelo para a comunidade ou para o discípulo que balança na fé.

Jesus, conclui a parábola chamando a atenção dos discípulos para a conduta injusta deste juiz, para oferecer a eles a certeza de que ainda que aquele magistrado agisse assim, Deus agia diferente. Diferente do juiz injusto, Deus age com justiça, amor e misericórdia para salvar os seus. O Pai não é como este juiz, que se posiciona ao lado de suas próprias convicções e bem-estar, agindo por seus próprios interesses. Pelo contrário, através desta viúva, Jesus quer mostrar e ensinar que Deu-Pai toma um lado na história; se posiciona: sem sombra de dúvidas, o lado dos despossuídos, marginalizados e excluídos, ao lado das minorias. Jesus assegura ação e intervenção de Deus na história, de modo a animar e confortar os discípulos a fim de que recuperem e assumam de vez a esperança: “ânimo, Deus vai intervir porque a última palavra sempre é a Dele nesta história, mas precisamos cooperar com ele, fazendo nossa parte, sendo firmes, insistentes e perseverantes na relação com Ele”.

Jesus coloca uma pergunta: “Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (v.9). Assim, encerra-se a seção que tratou acerca do tema da fé do discípulo. Diante do fato de Jesus assegurar constante ação de Deus em favor de todos os seus eleitos (o seu povo), Ele coloca a pergunta de modo a provocar os discípulos: diante da fidelidade de Deus, o homem permanecerá fiel à sua relação-em resposta à Deus? Será perseverante? Este será o desafio a ser vivido por aquele que deseja, de fato, seguir o projeto de Deus, tornar-se discípulo de Jesus.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 8 de outubro de 2022

REFLEXÃO PARA XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 17,11-19:

 


O texto proposto para a liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo ordinário, continua a leitura e meditação do capítulo dezessete do evangelho de Lucas. Imediatamente a continuidade da narrativa do domingo anterior, cujo tema era a fé, resposta da parte dos discípulos, que os insere na condição de filhos, ou de servos. Agora, para ilustrar a dificuldade do discípulo que não consegue assimilar a Boa Notícia de Jesus, Lucas, dos vv.11-19, apresenta a figura simbólica de dez leprosos que são purificados.

Jesus, desde Lc 9,51 está em viagem, juntamente com seus discípulos, para Jerusalém. É um caminho/viagem que demonstra um deslocamento mais interior do que exterior para o discípulo porque trata-se de um itinerário de formação/catequese para que ele possa assimilar o projeto de Deus e o evangelho trazido e anunciado por Jesus. Nestes dez capítulos (9,51 – 19), Lucas concentra o ensinamento principal de Jesus que visa formar as pessoas no processo do discipulado, no seguimento. Todavia, se pode notar que os discípulos oferecem suas incompatibilidades, suas dificuldades e crises em face do programa de vida propostos por Jesus. É o que o evangelho de hoje, através desta narrativa quer apresentar para o leitor-discípulo de todos os tempos através do tema da lepra. Tendo contextualizado o texto, é possível adentrar no horizonte da narrativa que é permeada de simbolismos e chaves de leituras que permitem uma leitura e compreensão dinâmicas ao texto.

“Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galileia. Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro” (v.11-12). Lucas elabora bem o caminho da viagem, por isso não se trata de uma informação histórica, a nível de crônica, mas um dado teológico, pois Jesus está caminhando desde o capítulo nove e já passara pela região da Samaria, localizada bem ao centro do país de Israel, com a região da Galileia mais acima do mapa. Deve chamar a atenção o povoado e não a viagem.

Sempre que no evangelho de Lucas aparece o termo povoado, ele traz consigo uma concepção muito negativa. O povoado é o lugar do tradicionalismo, da mentalidade atrofiada e equivocada, representa a resistência e a dureza do coração de quem não quer mudar (“aqui as coisas sempre foram assim”). Este termo sempre terá essa compreensão, por isso ele será uma chave de leitura a ajudar na compreensão do texto. Curioso é notar a incompatibilidade dos fatos: deste povoado (lugar da resistência, da mentalidade equivocada, atrofiada, do apego ao tradicionalismo), saem dez leprosos; vem ao encontro de Jesus que está do lado de fora, meio que se aproximando da entrada. Algo impossível de acontecer! Os leprosos não podiam sequer se aproximar de uma cidade ou povoado, devendo ficar de fora, morando em bosques ou grutas isoladas, uma vez que a lepra (e aqui se encaixam todas as doenças dermatológicas daquele período que careciam de cuidados médicos, dadas as dificuldades da época) era contagiosa e poderia atingir um povoado inteiro devido às condições sanitárias precárias daquele tempo. Um leproso era, portanto, alguém que vivia marginalizado socialmente. Trazia amarrada ao seu pescoço ou nas mãos um sininho, que avisava a chegada ou aproximação destas pessoas. A humilhação era ainda maior devido ao fato de que deveriam sempre gritar “impuro!”, a fim de afastar as pessoas.

Não era só do ponto de vista social que os leprosos eram marginalizados, mas também, e principalmente, do ponto de vista da religião. E este é o mais grave. A enfermidade era, de acordo com a mentalidade religiosa do tempo de Jesus, consequência do pecado. A lepra era a pior, pois devido ao aspecto ferido e horrendo em que a pele da pessoa ficava, era considerada como um morta-viva; alguém que, literalmente, vivia na morte. Alguns rabinos e livros religiosos daquela época do judaísmo diziam que a lepra era a mais terrível das enfermidades, e por isso, castigo, pois ela revelava, a partir da exterioridade machucada, ferida e, em certos casos, apodrecida o que haveria de podre, feio e horrível no interior da pessoa. O aspecto externo revelava o que internamente não estava bem naquela pessoa.

O evangelista diz que estes dez leprosos saiam da cidade, e foram ao encontro de Jesus, parando a distância. Diante do que foi dito, fica mais do que claro que estes leprosos são personagens simbólicas, uma vez que não podiam entrar ou estar no convívio de um povoado. Quem são, portanto, esses leprosos? Eles simbolizam a todos os discípulos de Jesus, que estão fazendo frente ao seu projeto, que apresentam dificuldades de assimilação à sua mensagem, que não querem deixar os esquemas do povoado. Ora, eles saem de dentro do povoado, lugar da mentalidade equivocada, do tradicionalismo cego, da resistência, isto é, de tudo aquilo que pode impedir a pessoa de viver o projeto de Deus. São em número de dez. Um número inteiro, que na tradição bíblica simboliza totalidade. São, de fato, todos os discípulos que apresentam dificuldades diante de Jesus, e que não querem mudar a mentalidade. Estão cobertos (simbolicamente) de uma lepra.

Prova de que se tratam de personagens simbólicas que se aplicam aos discípulos, que a própria forma com que se dirigem à Jesus já os entrega: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!” (v.13). A tradução liturgia se equivoca com os termos. Ela traz o termo mestre, aplicado à Jesus, quando no texto grego a palavra é outra, e, por isso, manteremos o texto grego, mais original. O termo que aparece na versão grega aplicado à Jesus é “epistáta” (gr. ἐπιστάτα), literalmente, “chefe”. Somente aquele que não conseguiu ainda assimilar por onde passa o caminho de Jesus, sua vida doada, seu amor e sua misericórdia, em doação e serviço, se equivoca e, com razão, só consegue concebe-lo como chefe. Os discípulos ainda não conseguem compreender a Jesus como servo e doador de amor e de vida, e, ainda presos ao tradicionalismo proveniente do povoado que pensa e concebe o messias de Israel como dominador e chefe, se equivocam na compreensão acerca da identidade de Jesus.

Jesus não realiza um gesto sequer. Apenas dá uma ordem: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes. Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados” (v.14) Jesus lhes ordena ir aos sacerdotes, porque somente eles, após um exame acurado do corpo da pessoa, poderiam atestar a cura da enfermidade, e firmavam um atestado de pureza. A cura de um leproso era algo considerado como intervenção de Deus. Mas é interessante que Jesus não faz nada, a não ser dizer para se afastarem do povoado. A medida em que se afastam do povoado, se cura, pois vão deixando para trás a lepra da mentalidade equivocada, da resistência, do tradicionalismo que atrofia e não gera vida, e, que portanto, pode matar; a compreensão errada acerca de Deus e de Jesus; tudo o que pode ser obstáculo para uma vivência e experiência livre de relação com Deus, seu amor e sua misericórdia.

Durante o percurso, somente um se deu conta que já estava purificado, e, portanto, livre daquilo que lhe impedia de seguir a Jesus enquanto discípulo. Era um samaritano. Isso é importante. Samaritanos e judeus não se relacionavam por motivos históricos e religiosos. A Samaria foi vista com preconceito após 722 a.C, devido a miscigenação ali existente, e, com isso, o judaísmo ali praticado sempre foi visto como falso pelos judeus piedosos do sul, Judá, cuja capital era Jerusalém. É uma fina ironia de Lucas mostrar que um samaritano se percebeu purificado e voltou glorificando a Deus, o que só seria aceitável se a atitude fosse de um judeu piedoso.

Por isso o fato narrado não é uma crônica do acontecido, mas uma mensagem simbólica; uma experiência de fé que se pretende relatar, a fim de que o leitor/discípulo faça seu exame e discernimento sobre sua conduta enquanto tal. O samaritano torna-se, pois, um exemplo a ser assimilado pelo leitor/ouvinte do tempo da comunidade de Lucas, e de todos os tempos e lugares. Ele, na narrativa, é o único que conseguiu se distanciar daquilo que o impedia, daquilo que era sua lepra, isto é, a dificuldade de aceitação ao projeto de Deus e de Jesus, representado pela enfermidade e pela figura simbólica do povoado.

O gesto de poder de Jesus vai se dando no caminho contrário ao povoado. Ou seja, a purificação se realiza no processo do distanciamento daquilo que pode ser sinal de enfermidade e obstaculizar a relação entre ele, Jesus, o Pai e o Reino: a hipocrisia religiosa travestida de zelosa piedade,  que pode gerar afastamento, segregação e exclusão; o tradicionalismo vazio, a resistência efetiva, as convicções equivocadas, as mentalidades atrofiadas e distorcidas acerca de Jesus e de Deus. É esta a purificação que a Palavra e vida de Jesus realizam e operam no discípulo, se este se permite ressignificar a vida. O samaritano alguém teoricamente de fora, que pode ensinar e reorientar a vida e a conduta dos discípulos acerca do modo de se relacionar com Deus e com Jesus. Ao colocar esta personagem, o evangelista também trabalha com um tema que lhe é muito caro, a salvação universal: ninguém pode permanecer de fora do projeto de amor, misericórdia e vida que Deus oferece através de Jesus. O samaritano se torna símbolo também para todos. Pois todos são associados a este projeto de Deus, a esta Boa Notícia de salvação.

Ao tomar distância do lugar que gerava a enfermidade, o samaritano pôde glorificar à Deus, isto é, restabelecer sua relação com o divino, e pode reconhecer a Sua presença em Jesus, o que se vê através da atitude da prostração diante do mestre. E recuperar a sua relação com Deus, lembrando que a fé, que salva o samaritano leproso é a capacidade da relação com Deus restabelecida: a fé é a relação-em-resposta que o homem e a mulher podem estabelecer com Deus. É o que o dialogo final entre Jesus e o ex-leproso quer ensinar (v.19). Fé/relação que sempre tem a potência de nos habilita para a condição de filhos.

Estejamos atentos para tudo aquilo que pode se tornar lepra em nossa vida de fé. E, principalmente, com os lugares que podem contribuir para que elas apareçam e tomem-nos a vida e a liberdade; a condição de filhos de Deus e de irmãos.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


REFLEXÃO PARA O XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 17,5-10

 

A boa leitura do texto bíblico sempre levará em conta a absorção do seu contexto amplo, isto é, o lugar onde a narrativa se encontra. Isso serve para iluminar a sua leitura, quando o texto parece trazer temáticas diversas. Como parece ser o caso do evangelho deste vigésimo sétimo domingo do tempo comum, retirado do capítulo dezessete do Evangelho segundo Lucas. O texto proposto para a liturgia deste domingo encontra-se em Lc 17,5-10. Todavia, é preciso retomar a leitura dos cinco versículos anteriores.

 

Nos v.v1-2, o evangelista começa o capítulo falando da eventualidade e inevitabilidade  dos escândalos no meio da comunidade. Mas escândalos aqui são todas as situações que impedem que o discípulo, que está iniciando na fé, cresça e progrida na vivência desta mesma fé, que é relação com Jesus e com o Pai. O evangelista usa o termo σκάνδαλον (gr. schândalon), que alude à impedimento, ou literalmente, obstáculo. Na comunidade dos discípulos não deve haver espaço para obstáculos que se interponham ao processo pessoal do individuo de se tornar discípulo do Reino e reconhecer-se filho de Deus. Jesus dirá que aquele que produz o escândalo, o obstáculo, que enfiasse uma pedra de moinho no pescoço e fosse atirado ao mar.

 

A pedra de moinho pesava mil e quinhentos quilos. O mar é símbolo, nas Escrituras, de tudo o que é contrário ao projeto de vida sonhado por Deus. “Ser lançado ao mar”, na verdade, é forma simbólica de se denunciar que a pessoa causadora do obstáculo e impedimento está na contramão do querer de Deus. Entendamos que o fato de Jesus dar essa ordem não significa que ele esteja fazendo apologia à exclusão. É preciso recordar que o mar é, também, o primeiro ambiente missionário de Jesus e dos primeiros discípulos. Ele convida Simão à vocação de pescar homens dos mares do mundo, fazendo-os começar a dinâmica do discipulado. Nesse sentido, “lançar ao mar” significa proporcionar à pessoa a tomada de consciência de que ela precisa recomeçar a caminhada. É, portanto, uma orientação e inciativa pedagógica que Jesus oferece à comunidade para que a pessoa recupere a sua condição de discípulo, e, mais ainda, reconheça-se filho de Deus.

 

Jesus toca no tema do perdão, nos vv.3-4, ensinado que o perdão deve ser constante e o distintivo da comunidade dos discípulos. A ordem de perdoar sete vezes não está ligada à quantidade, mas à qualidade. Sete na teologia bíblica indica plenitude/perfeição. O discípulo e a comunidade distinguem-se pelo perdão. Esta é a condição para ser reconhecido enquanto filho de Deus. Estes versículos, então, preparam o texto de hoje. Feitas estas considerações e contextualização inicial, agora podemos mergulhar na compreensão da narrativa de hoje e extrair dela o ensinamento que Jesus quer transmitir aos discípulos e à nós.

 

No v.5, após os ensinamentos anteriores de Jesus acerca do escândalo e da qualidade do perdão pedem algo: “aumenta a nossa fé”. Algo estranho. Pois a fé não é algo que Deus dá. Ela é uma resposta/atitude que parte do ser humano, e não de Deus. A fé não é algo que precisa ser aumentado, acrescentado, mas uma relação a ser vivida e trabalhada pelo ser humano. Por isso Jesus responde no v.6: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: Arranca-te daqui e planta-te no mar, e ela vos obedeceria”. A amoreira/sicômoro eram arvores que possuíam raízes tão profundas, que se tornavam difíceis de serem extraídas. O que o mestre pretende dizer? Que não importa a quantidade da fé, mas a qualidade dela. Ele a compara a um grão de mostarda, tão pequena semente. Jesus pretende ensinar seus discípulos que não importa uma fé gigante em termos de quantidade, mas da fé enquanto disponibilidade de relação. Se esta disponibilidade relacional, esta resposta existir da parte do homem e da mulher, eles podem se relacionar com Deus na condição de filhos.

 

Neste sentido, a fé, relação entre o homem e Deus, é o que habilita o ser humano para o horizonte da relação com Deus, a partir da condição de filho. E é interessante notar que a comparação da qual Jesus se serve, o grão de mostarda, que é aquela pequena semente, mostra para os discípulos que esta fé não uma fé ideal (grande, qualitativa, ou, mesmo perfeita), mas a fé real, perpassada pelos desafios, pelos obstáculos e dificuldades da vida. A fala de Jesus é uma denúncia: os discípulos não possuem a fé; não estão respondendo ao dom do amor de Deus; não estão se relacionando com Ele na forma e no modo de filhos, que abraçam ao amor e a misericórdia e frutificam este amor e esta misericórdia na relação com os outros.

 

Jesus propõe, pois, uma alternativa, através da parábola do patrão e do servo. Se os discípulos não acolhem a Sua oferta de se tornarem filhos à semelhança da vida e do amor do Pai, podem assumir a condição de servos. É o que as parábolas do servo e do patrão querem acenar (v.v. 7-10).

 

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 24 de setembro de 2022

REFLEXÃO PARA O XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 16,19-31

 


O evangelho deste domingo segue na continuidade da narrativa anterior, a parábola do administrador desonesto (Lc 16,1-13). Ao final, Jesus censura a postura dos fariseus (v.14), os quais zombavam de Seu ensinamento acerca da impossibilidade de servir à Deus e ao dinheiro, pois eram “amigos do dinheiro”. O texto proposto para a meditação já parte do v.19, mas ainda dirigido aos fariseus, com a parábola do rico e do pobre Lázaro.

Versículos antes, Jesus declarou a impossibilidade de um rico entrar no Reino, sendo mais fácil e possível um camelo passar pelo buraco da agulha (v.15). Afirmação que deve ser mantida na sua originalidade, isto é, a de provocar o ouvinte-leitor. No Reino de Deus, segundo perspectiva de Lucas, há lugar para todos, inclusive para os “senhores”, mas não para os ricos. Qual a diferença? O rico é aquele que tem e detém para si. O senhor é aquele que dá e partilha com os outros. No evangelho lucano, os ricos são considerados doentes terminais de egoísmo para os quais não existiria, então, esperança.

Nesse sentido, Jesus conta a parábola de um homem rico, esbanjador, que não repartia, e de um pobre, que se sentava à porta dele e esperava as suas benesses. “Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias” (v.19). Note-se como o evangelista consegue, ao recuperar o ensinamento de Jesus, captar bem as dinâmicas psicológicas do rico. Ele exterioriza aquilo que lhe falta internamente através das roupas finas. Revela, ainda, a partir do detalhe dos banquetes dados cotidianamente, a fome, que nada mais seria do que a ausência de algo que pudesse preenche-lo. Ou seja, este rico é um homem completamente vazio e raso, superficial e pobre; que através das extravagancias revela aquilo que mais lhe falta. É pobre interiormente e necessita mostrar sua riqueza através da exterioridade. Necessita mostrar que tem algo. Não é por menos que Jesus direciona a parábola, em primeiro lugar, para os fariseus.

Quem muito precisa mostrar, aparentar, ostentar e fazer é porque muito lhe falta. Ou pode faltar tudo. Este dinamismo nada mais é do que uma forma/atitude compensadora para aquilo que lhe falta. Acabando por anestesiar-se nas compensações; passa a perder o senso da realidade a sua volta. Não consegue enxergar as reais necessidades das pessoas que estão ao seu lado. Miram e projetam-se a si mesmos.

A outra personagem, que, pela primeira vez no ensinamento em parábolas de Jesus recebe nome, é o pobre Lázaro (hbr. “Deus ajuda”). Muita atenção na forma em que ele é descrito por Jesus: “Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas” (v.20-21). Lázaro é pobre, está coberto de feridas, e vive das migalhas – das eventuais sobras – que caiam da mesa do rico. Esta personagem é descrita como sendo um pecador, conforme mentalidade da época. A pobreza e enfermidade (estar coberto de feridas) eram tidas como consequências do pecado cometido. Chama mais ainda a atenção, o fato dos cães que se aproximavam e lambiam suas feridas. Numa primeira análise, é possível pensar que a saliva dos cães servisse de curativo para as feridas do pobre Lázaro. Mas é verdade que também os cachorros eram tidos como animais impuros. Jesus carrega a mão ao descrever a condição deste pobre: impuro por sua pobreza e enfermidade, a ponto de atrair para si mais impurezas, simbolizadas pelas figuras dos cães. Talvez o exagero narrativo seja mais próprio do evangelista que gosta do recurso da hipérbole.

A intenção da parábola é mostrar que ambos vivem em mundos diferentes e separados. Todavia, o destino existencial dos dois foi o mesmo: morreram. Jesus tem uma perspicácia tremenda que o evangelista consegue captar e trabalhar ao seu modo, pois no v.22 se encontra a informação: “Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado”. Lázaro morre e vai para junto de Abraão; do rico, só se diz que foi enterrado. Recorde-se que Jesus destina a parábola aos fariseus, e, por isso, ele tem a necessidade de falar-lhes servindo-se do contexto deles. Havia um livro apócrifo chamado Livro de Enoc, o qual era lido pelos fariseus do tempo de Jesus. Nele continham descrições (frutos da imaginação do autor, obviamente) acerca do chamado “seio de Abraão”, localizado nos subterrâneos da terra. Os que estivessem mais acima, seriam os privilegiados, e os que se encontrassem nas profundezas dessa mansão, os mais desgraçados.

Jesus, ainda se servindo das categorias teológicas dos fariseus estabelece bem as diferenças: Lázaro, que antes era um amaldiçoado, impuro, metáfora para o pecador, encontra-se, agora, na luz, junto do patriarca Abraão; torna-se, portanto, um bendito. O rico, bem de vida, abençoado com a riqueza, passa, então, para o tormento, a ausência da paz. Mas é importante compreender que ele não se condenou por sua postura extravagante, mas pelo fato de não ter levado em consideração o pobre que se sentava em sua porta todo o dia. Foi a indiferença diante da situação de Lázaro que acentuou ainda mais a distancia abissal entre eles. Eram próximos fisicamente, mas viviam em mundos distantes. Um grande abismo já existia entre eles.

“Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. Então gritou: 'Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas” (vv.23-24). Por fim, agora, na hora do aperto, o rico se dá conta da existência de Lázaro. Mas Jesus mostra que o comportamento e a atitude da personagem não mudaram. Ela pensa em seus próprios interesses; nutre a mentalidade de que todos lhe devem obrigações, que tudo deve ser para si, em primeiro lugar e acima de tudo. E, pior ainda, como se não bastasse, concebe relações de domínio e submissão: “manda (ordena) que Lázaro molhe o dedo com água, e venha me refrescar!” Agora que se recordou de Lázaro, o quer somente para sanar as suas necessidades. Não suplica, pretende; não pede, manda. Aquele comportamento típico dos ricos.

“Mas Abraão respondeu: Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E, além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós” (vv.25-26). Jesus fixa-se no diálogo entre Abraão e o rico. O patriarca denuncia então a atitude que levou o rico até aquele lugar: não dividiu seus bens; não partilhou; ignorou o pobre. E também o fato de que viviam em mundos distantes e que essa distância só era ainda mais acentuada em virtude do seu comportamento, é isso que Abraão quer dizer com a expressão “há um grande abismo entre nós”. Com isso, Jesus pretende dizer também para os fariseus que todo e qualquer tipo de divisão e de abismo que se cria e se alimenta no aqui e no agora, se prolonga depois. É um alerta para eles.

Mais uma vez, o rico, enfermo do egoísmo, pensa em si e no seu clã, e não nos outros, é o que emerge através desta sua fala na parábola: “Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento” (vv. 27-28). Não pensa nos outros; olha para os seus, apenas. Não se abre a possibilidade de que o convite a uma mudança de vida e mentalidade pudesse ser interessante a todos. Está fixado em seus cinco irmãos; em sua família. Quer somente para si e para os seus. Isso basta. A resposta de Abraão na parábola é taxativa: “Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!” (v.29). Moisés e os profetas sempre se posicionaram ao lado dos pobres. O primeiro, deixou muito claro que no meio do povo não deveria existir necessitados. Deus ordenara ao povo não reproduzir os mesmos sistemas de morte e desigualdade vividos na escravidão do Egito. Os profetas, em seus ministérios, sempre direcionavam suas pregações e denúncias contra os interesses egóicos dos ricos, que se apropriavam inclusive dos bens da gente simples, e chamavam a atenção do povo para o acolhimento aos pobres. A expressão “Moisés e os profetas” simbolizam aqui toda a Sagrada Escritura. Ela deve ser escutada!

O rico da parábola protesta uma vez mais, dizendo que se um morto voltar e advertir seus irmãos, talvez possam se converter e não passar pelo mesmo tormento. E eis a sentença final de Jesus dirigida aos fariseus: “Mas Abraão lhe disse: Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos” (v.31). Jesus denuncia a atitude deles: eles não escutam a Moisés e os profetas. Tampouco crerão na ressurreição dos mortos. Mas como compreender esse dito? Enquanto não forem capazes de dividir e partilhar o pão com os famintos não conseguirão crer no Cristo ressuscitado, que no evangelho de Lucas se faz reconhecível no partir do Pão com os discípulos de Emaús (Lc 24). Somente quem é generoso em vida poderá fazer a experiência do Senhor Ressuscitado em sua existência.

  

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.  


sábado, 10 de setembro de 2022

REFLEXÃO PARA O XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 15,1-32:


 A liturgia deste domingo apresenta-nos o coração do evangelho segundo Lucas, o capítulo quinze, o qual contém as parábolas da misericórdia. Dos versículos 1-10, o evangelista recolhe duas parábolas que ilustram o agir misericordioso do Deus que Jesus chama de Pai: a ovelha e a moeda perdida. Ambas dão ênfase à alegria de divina pelo encontro tanto da ovelha como da moeda que estavam perdidas, metáforas para as pessoas que se afastaram em face ao pecado. Diante delas, Deus age com misericórdia. A parábola que coroa esta seção é a do Pai misericordioso, de 12-32 (comumente conhecida como a do “filho pródigo”). Este conjunto de ensinamentos de Jesus é original de Lucas, e ele o conservou da chamada fonte dos ditos (Fonte Q). O autor do evangelho, recolhendo o ensinamento de Jesus, põe ênfase no agir do pai nas três parábolas. E a temática da perda, reencontro e da festa aparece nas três.

O capítulo quinze situa-se no contexto da viagem de subida de Jesus para Jerusalém. Ele possui uma finalidade, que é a de ensinar o discípulo acerca da misericórdia de Deus. Neste sentido, o leitor-discípulo, através deste capítulo deverá aprender como agir na realidade, na história e nas relações humanas: assimilar o agir de Deus que é misericordioso. 

O evangelho segundo Lucas é conhecido como o evangelho da misericórdia. Para ele, Jesus é a expressão da misericórdia de Deus. Todavia, uma  misericórdia difícil de ser assimilada pelos que agiam pelo legalismo, individualismo e autoritarismo: os chefes do povo. Eles demonstram resistências diante de Jesus. Por isso, as parábolas são dirigidas, em primeiro lugar, a eles, visando provoca-los, chamar-lhes a atenção e propor lhes uma mudança de mentalidade. Mas torna-se tarefa difícil mudar a mentalidade de quem se encontra arraigado nas estruturas de domínio, de poder e de morte.

O evangelista nos dá uma informação inicial: “Os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar” (v.1). Por publicanos entenda-se os cobradores de impostos, os quais eram judeus que trabalhavam para o Império na coletoria dos impostos de sua própria gente. Eram considerados pecadores e traidores públicos; inimigos do povo. E, também os pecadores. As pessoas que se encontravam afastadas do amor e do projeto de Deus. Ambos representam a humanidade sofredora, marcada pelo pecado. Ora, eles escutam a voz de Jesus e este se lhes faz próximo. Com isso, Lucas trabalha com o tema da salvação universal. Estes, se põe a escuta-Lo sem resistências ou melindres. Se encontram livres para abraçar o projeto de Deus.

No v.2, Lucas nos mostra os antagonistas. Os chefes religiosos do povo, com atitudes e mentalidades diametralmente opostas às dos publicanos e pecadores: “Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. 'Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. A atitude dos mestres da Lei e dos fariseus, os teólogos do tempo de Jesus, é, ao mesmo tempo o fator chave que faz com que se dê o ensinamento em parábolas acerca da misericórdia, a qual se revelará como antidoto para o comportamento e pensamento dos chefes. É interessante que eles nem mencionam o nome de Jesus; tratam-no como “este homem”, como que desdenhando e recusando dele. Mais ainda, criticam a atitude de tomar refeição com este grupo de pessoas. E é muito significativo que Jesus aceite fazer refeições com eles, pois a refeição no ambiente e para a sociedade do tempo Jesus, bem como ao interno da tradição religiosa judaica, se tornava o momento privilegiado para se fazer experiência com a vida de alguém; para se estabelecer relações interpessoais; para se firmar um propósito de comunhão.

Jesus, ao fazer refeição com os excluídos quer estabelecer com estes uma relação e comunicar-lhes a misericórdia e o amor do Pai. Isso desestabiliza os que detém o poder religioso. Por isso, o Senhor se torna passível de críticas e de descrédito.

Prosseguindo na leitura do texto, Jesus começa a ensinar em parábolas. As duas primeiras têm a função didática de preparar a terceira, mas nem por isso são privadas de valor. Na primeira (vv. 3-7), da “ovelha perdida e reencontrada”, o mestre inicia: “Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la? Quando a encontra, coloca-a nos ombros com alegria, e, chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos, e diz: Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida! Eu vos digo: Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”. Elementos muito tradicionais e comuns à tradição cultural do povo de Jesus emergem na primeira parábola, o pastor, a ovelha e o rebanho. Uma constatação importante: a ovelha é chamada de perdida, diferentemente da extraviada do evangelho de Mateus (Mt 18). Há diferenças. A ovelha perdida simboliza a pessoa que livremente toma outro caminho e se afasta do projeto de Deus. A extraviada é aquela pessoa sai do caminho por interferência ou influencia de terceiros. Isso posto, chama a atenção, agora, a atitude do pastor: o cuidado para com a ovelha perdida. Ele deixa as noventa e nove no deserto (v. 4) para ir atrás dela, correndo inclusive o risco de colocar aquelas que ficaram no deserto em perigo; isso não significa que o pastor as amasse menos; quer dizer que o amor comporta riscos. E, para Deus, simbolizado pela imagem do pastor, as pessoas não são números, mas cada um é importante. Não se pode pensar na quantidade. Quem ama intensamente arrisca-se, como o pastor arriscou perder as noventa e nove para recuperar aquela que se perdeu. Sua atitude é ainda mais paradigmática, pois ele a carrega nos ombros, numa demonstração extraordinária e de amor e cuidado. Esta é a primeira ilustração do agir de Deus através de Jesus.

Na segunda parábola (vv. 8-10), da “moeda perdida e achada”: “E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e a procura cuidadosamente, até encontrá-la? Quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, e diz: 'Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!' Por isso, eu vos digo, haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte". Deus é apresentado a partir da figura de uma mulher. Talvez, Lucas queira enfatizar ainda mais o protagonismo feminino ao interno de sua comunidade, e, nesse sentido, emitir uma advertência para as comunidades cristãs em todos os tempos. A parábola descreve uma mulher ativa que preside, inclusive, a economia da casa. 

A mulher serve de imagem para Deus e a casa serve de símbolo para a realidade do Reino. Através da atitude da mulher, Jesus e Lucas desejam mostrar que neste Reino (casa) não se permite que ninguém esteja perdido (a moeda). Deus e Jesus não querem ninguém fora desta grande casa que é o Reino. Uma nota ainda importante, é que o cuidado da mulher na segunda parábola prepara a temática da terceira, através da atitude do pai.

Dos vv.12-20 Ele descreve a atitude do filho mais jovem, que pede a parte da herança de seu pai, vai embora de casa, gasta tudo, fica na miséria, busca emprego para poder se sustentar, e, depois de cair na mais profunda impureza (tratar de porcos e se tentar se alimentar da mesma comida deles, fato impensável para um judeu, uma vez que o porco é considerado um animal impuro; e Jesus carrega nesta ilustração justamente para mostrar a que nível tinha chegado a situação de indigência e abandono daquele jovem), acaba percebendo que na casa de seu pai as coisas vão bem, inclusive para os empregados. Após um frio cálculo decide-se voltar para casa, submetendo-se à sorte e ao destino de ser tratado como um empregado qualquer: “Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados” (v.19). O pensamento do jovem por muito foi visto na exegese antiga e na intepretação anterior como arrependimento e conversão. O que não é verdade. Tais atitudes não são encontradas na intenção do filho. Ele se revela matemático demais na maquinação de seu  retorno, visando não o amor de seu Pai, mas a recuperação da sua zona de conforto, mesmo sendo a de um empregado. “Trata-me como a um de seus serventes”; ele ensaia tudo direitinho. E se põe a caminho.

Jesus, ao narrar o retorno do jovem, promove a reviravolta da parábola, a qual produz o efeito desejado, o de chamar a atenção dos ouvintes para a atitude do pai. Antes, porém, se deve fazer uma consideração. Amparado pela Lei, conforme Dt 21,18-21, o pai poderia entregar este jovem ao tribunal da cidade para ser sentenciado à pena de morte. Sintamos, na literalidade, o peso deste texto legislativo: “Se alguém tiver um filho rebelde, contumaz e indócil, que não aprende a obedecer ao pai e à mãe e não dá ouvidos aos bons conselhos, mesmo quando o corrigem e disciplinam, o pai e a mãe o conduzirão até aos anciãos e líderes de sua comunidade, à porta da cidade, e denunciarão às autoridades da cidade: ‘Este nosso filho é por demais teimoso e rebelde; não nos obedece, é devasso e vive embriagado!’ Então, diante desse depoimento, todos os homens da cidade o apedrejarão até a morte. Assim, portanto, eliminarás o mal do meio do teu povo; todo o Israel ficará sabendo o que ocorreu e ficará temeroso!” (Dt 21,18-21). Ora, o jovem da parábola, além de ser tipificado pela Lei como rebelde, também recebe a fama de assassino. Ao pedir a herança ao pai, no começo da parábola, o filho está, de verdade, matando-o; desejando a morte do pai. Rompendo com toda a possibilidade de relação. Mesmo que estivesse prevista na lei a divisão dos bens ainda em vida; mas tal não era preterido, para não ferir nem desonrar o pai. Porém, o filho mais novo, nesta parábola recebe do pai a parte maior, equivalente à do irmão mais velho. O pai abre mão de toda possibilidade de vida e de sua existência para seu filho. Diante desse cenário, teria o pai todo o direito de entregar o filho ao tribunal. É esta a atitude tomada por ele?

Deixemos Jesus responder: “Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos” (v.20). O evangelista utiliza o verbo splangkhnizomai (gr. σπλαγχνίζομαι), que se traduz por misericórdia. É o coração e as entranhas remexidas diante da condição humilhada e marginalizada em que o outro se encontra. As vísceras condoídas do pai, que o fazem mover-se na direção do filho em caminho, quebra inclusive o raciocínio matemático e esquematizado de ser tratado como empregado. O pai não dá lado para isso. E age, uma vez mais de forma diametralmente oposta ao estabelecido na lei. Dos v.v. 22-24, Jesus narra as atitudes restituidoras de vida que o pai toma. Faz festa, manda matar um novilho cevado, dá roupa, anel e sandálias: devolve-lhe a dignidade e a vida de filho (“Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (v.24)). O filho mais novo é imagem para todos os que vivem afastados do projeto amoroso de Deus.

Mas a família está incompleta. Outro irmão precisa ser recuperado. É o mais velho. Sim, ele é imagem para aqueles que pensam estar vivendo o projeto de Deus, e, na verdade, não estão. Claramente, os fariseus e mestres da lei são chamados a se identificar nas atitudes do filho mais velho que, em última análise, recusa conviver com o irmão que errou, “Mas ele ficou com raiva e não queria entrar” (v.28a).

“O pai, saindo, insistia com ele” (v.28b). O pai sai do ambiente da festa para também ir ao encontro do filho. Ou seja, o pai, movido pela mesma compaixão vai recuperar este filho. Ele quer e deseja refazer e ressignificar o horizonte das relações esfaceladas e quebradas. Deseja que os filhos vivam novamente como irmãos, e se reconheçam como filhos do mesmo pai. Todavia, o filho mais velho resiste: “Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado” (v.29). Reina a mentalidade do mérito. Mas para o pai, não é o mérito do dever cumprido que pauta a sua atitude diante dos filhos: é o amor e a misericórdia com ambos. A misericórdia, o perdão e o amor que se obtém do pai não é em virtude do que se fez nem do que se fará. Mas são eles dons gratuitos e imerecidos da parte deste pai, que é, em última análise, metáfora para o próprio Deus e Pai de Jesus.

Jesus, na parábola, não informa se o filho mais velho aceitou o convite do pai, ao final da parábola. Logo, não temos conhecimento desse fato. Mas o que Ele faz questão de enfatizar é a imagem do pai devolvedor e doador de vida e dignidade à seus filhos, fazendo o pai repetir o que disse aos empregados: “porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado” (v.32). Deixando assim, para cada ouvinte, tomar sua conclusão e sua decisão. 

Nestas parábolas, a alternância entre homem e mulher, enquanto personagens principais acena para a igualdade existente entre homem e mulher; como imagem e semelhança do criador, são as melhores imagens para representar um Deus que é pai e mãe, como o que Jesus revela. Mais ainda, o amor e a misericórdia do Deus de Jesus é universal (parábola da ovelha e da moeda perdidas) e incondicional (parábola do pai misericordioso). Por isso, Lc 15,1-32 é um verdadeiro manual catequético de Jesus para quem deseja ser discípulo do Reino e caminhar com Ele pelo itinerário da misericórdia. Nesse sentido, 1) Nossas comunidades tem sido espaço de misericórdia? 2) Nossas atitudes, enquanto discípulos-missionários e ouvintes da Palavra, refletem o interesse, o amor, a disponibilidade e o cuidado do Pai e de Jesus para com os que estão fora? 3) Ou nossas atitudes refletem nossos próprios interesses e mentalidades, como as dos fariseus e mestres da lei no tempo de Jesus?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 3 de setembro de 2022

REFLEXÃO PARA O XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 14,25-33:


 

O evangelho deste vigésimo terceiro domingo do tempo comum, continua a leitura do capítulo quatorze da catequese segundo Lucas. O texto proposto para a meditação da Igreja é Lc 14,25-33. Numa contextualização imediata, situa-se após o banquete dado pelo chefe dos fariseus à Jesus. O mestre, novamente, retoma o caminho para Jerusalém, e isso fica evidente através da informação que o evangelista oferece utilizando o verbo “acompanhar”, que se encontra referido às multidões em relação à Jesus. O caminho que Ele trilha com seus discípulos, já bem se sabe, não é tanto geográfico; é, antes, um itinerário físico-espiritual, e, portanto, teológico e de fé. Visa a formação correta do discípulo do Reino. Neste bloco da grande viagem de subida de Jesus para Jerusalém (Lc 9,51 – 19), o evangelista concentra todo o ensinamento principal do Senhor destinado ao discípulo que com Ele caminha, para que aprenda a ser e viver diante do projeto de Deus que se realiza em Jesus. Mas esse caminho representa também duas realidades importantes.

A primeira, é a existência de um contraste que se estabelece entre a casa e o caminho e a sinagoga do século I, que Lucas introjeta para o tempo narrado dos anos 30. Jesus e os discípulos, vez ou outra param, fazem experiência da casa, refazem-se, mas continuam a caminhada. Não é mais a sinagoga, ambiente de estudo da Palavra e do ensino dela o lugar para se fazer a experiência com Deus, mas na casa e no caminho. A segunda realidade é a de considerar o caminho como parte integrante e fundamental da comunidade dos discípulos de Jesus dos anos oitenta do século I, bem como das gerações seguintes. Indica seu estado permanente de saída, de missão, conforme a descrição que o livro dos Atos dos Apóstolos oferece. Ilustra, pois, a realidade em que vive e deve viver a comunidade, isto é, a Igreja de todos os tempos e lugares. Por isso a insistência do evangelista de mostrar Jesus juntamente com os seus em caminho. 

O texto de hoje, Lc 14,25-33, trata-se de uma advertência que Jesus faz aos que o acompanham no caminho acerca das exigências do discipulado. A narrativa se estrutura da seguinte forma: uma constatação (v.25), seguida de duas exigências importantes sobre o discipulado (v.26-27), e duas parábolas (v.28-31) que preparam a terceira, ultima e importante exigência de Jesus para seus discípulos. Quem não as levar à sério, “não pode ser meu discípulo”, dirá Jesus por três vezes. Com essas contextualizações podemos mergulhar na leitura e meditação da narrativa evangélica.

O versículo 25, que serve de introdução para a narrativa nos informa que Jesus e os discípulos já estão em movimento; já estão em caminho acompanhados de uma multidão. Muito importante esta nota que o evangelista oferece. Estejamos atentos, “grandes multidões acompanhavam Jesus (v.25a)”. Interessante notar que o autor utiliza um verbo diferente, “acompanhar” (gr. συμπορεύομαι/symporeuomai), e não o verbo “seguir” sempre empregado aos discípulos, o qual mostra a atitude do seguimento, do discipulado. A intenção do catequista é a seguinte, mostrar para sua comunidade que há uma diferença muito grande entre os que simplesmente acompanham a Jesus, daqueles que realmente O seguem. Ao mesmo tempo, é uma chamada de atenção para os fieis-discípulos das comunidades para não caírem no mesmo comodismo e descompromisso daqueles que somente acompanham a Jesus. Muito provavelmente a comunidade de Lucas esteja passando por esse processo de comodismo ou de esfriamento da fé e da adesão ao Reino e à vida de Jesus, e abandonando o caminho.

A multidão que procura Jesus é um grupo muito diversificado. Ao seu interno apresentam-se pessoas que vão se comprometendo com sua palavra, ensinamento, modo de viver e com sua pessoa, e que conseguem dar o passo na direção do discipulado, mas há aquelas pessoas que o procuram somente para satisfazer as próprias conveniências, procurando milagres; sentindo-se seduzidas pelo bem-estar que sua pessoa pode oferecer; outras, e perigosas tanto quanto as demais, se achegam a Jesus devido a imagem equivocada de messias possuem, a do messias nacionalista, guerreiro, opressor, violento. Estes simplesmente acompanham a Jesus, não o seguem. Não comprometem a vida com Ele. Por isso, Jesus, consciente deste perigo que ronda a multidão e também os discípulos estabelece três condições essenciais para segui-lo, sendo que a terceira vem após duas parábolas que servem de apoio para as três exigências.

“Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo (v.26)”. A primeira exigência é a mais radical que Jesus expõe. Mas que tem que ser bem entendida, sem rigorismos e sem amenidades. É importante compreender o seguinte, a família, na sociedade do tempo de Jesus representa um núcleo de pertencimento, segurança social e posição. Romper com esse circulo significa correr o risco de perder a identidade e os privilégios. Jesus coloca essa condição ao que deseja segui-lo. Romper com a família representava um grande desafio e consistia num processo doloroso. Para se ter noção do quão exigente é esta exigência, é importante tomar o texto original que traz literalmente o verbo “odiar (gr. μισέω/missêo)” ao invés de “desapegar”. Mas o dito de Jesus deve ser bem entendido para não gerar equívocos.

O verbo “odiar” para a cultura do povo de Jesus não tem o mesmo sentido para a nossa. Entenda-se “odiar” como “amar menos (com menor intensidade)”. O Senhor não está dizendo ou incitando as pessoas ao ódio, da forma como pensamos ou concebemos este sentimento. Ele está pondo a seguinte exigência para ser Seu discípulo: o Reinado Deus e Seu projeto devem ser prioridades para aquele que desejar segui-lo. Significa recolocar e reordenar as relações (pais, irmãos, esposos, esposas, filhos, e a sua própria vida) em vista do Reino e do discipulado. Da mesma forma que Jesus não quer que as relações se esfacelem ou sejam vividas com hipocrisia.

Não adianta fazer a opção pelo Reino e pelo projeto de Jesus e, dentro da própria casa ou das próprias relações, viver incoerências. Não viver e exercitar a compreensão, a empatia, a igualdade das dignidades. Não acolhendo quem necessita, inferiorizando e oprimindo os outros; vivendo desarmonia. O horizonte familiar e a própria pessoa devem ser colocados em relação ao projeto de Deus e não ocupar Lhe o lugar. Essa é a primeira exigência para poder ser discípulo. De modo que esta relação com Jesus e o Reino possa moldar e transformar a relação com os outros, com os de casa, com os que estão à sua volta. Caso contrário, a pessoa será mero acompanhante de Jesus.

A segunda exigência que Jesus estabelece é a seguinte: “Quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (v. 27). A cruz no contexto da sociedade e do tempo de Jesus representa medo, tortura, vergonha e exclusão social e religiosa. Era a máxima condenação que o Império Romano impunha aos adversário e inimigos políticos, que representavam perigo social para Roma. Neste contexto da narrativa ela não pode ser entendida como sinônimo de sofrimento, apenas. Ela deve ser tomada em seu sentido real, ou seja, a eventualidade e a realidade da perda (entrega) da própria vida em vista da fidelidade ao Reino, ao Pai e a Jesus. Só pode ser Seu discípulo quem entende que a vida também pode ser perdida por causa do horizonte e da fidelidade ao projeto de Jesus. A capacidade de dar e de gastar a vida, é o que significa tomar a cruz e seguir a Jesus, em todo o seu realismo e consequência.

A terceira exigência, “renunciar a tudo o que tem”, toca na capacidade e na maturidade exigidas do discípulo na relação que possui com os seus bens. Mais uma vez Jesus toca no tema do desapego como condição de liberdade para que a pessoa possa ser autêntico servidor do Reino e seu discípulo. Agora, ele é chamado a colocar o que possui em relação às necessidades dos outros. Amar menos o que se tem para coloca-los a serviço dos que não possuem.

As duas parábolas que se encontram no meio do texto, nos vv.28-32, são tomadas de ambientes distintos, mas possuem a mesma intenção e finalidade. A primeira, a do construtor que deseja começar a construir deve saber se terá o suficiente para concluir a obra. Caso contrário será alvo da chacota alheia. A segunda, serve-se do exemplo de um rei que está preste a sair em batalha, com seu reduzido exército em face a outro que apresenta um exército mais numeroso, e que deve discernir bem sua estratégia. Ambas as parábolas tocam no tema do discernimento diante de uma tomada de decisão e de suas consequências. Elas servem para iluminar o discípulo no discernimento, na tomada de decisão e leva-lo a pensar nas consequências de sua decisão/adesão ao discipulado. Jesus não quer que o discípulo seja inconstante. Para se tornar seguidor é necessário que a pessoa pese, discirna e tome consciência da escolha que está fazendo. O discípulo, portanto, não pode ser inconsequente. Assim como o construtor e o rei têm que ser conscientes das decisões e consequências que podem ter, tanto mais aquele que se dispõe a assumir o discipulado ao Reino e a Jesus. Este é o sentido das duas parábolas que reforçam as exigências que o Senhor faz para quem quiser segui-lo.

No horizonte da comunidade, o evangelista e serve destas parábolas para fixar o ensinamento de Jesus aos seus discípulos-leitores e integrantes da comunidade, de modo a evitar qualquer pensamento equivocado sobre o discipulado, suas exigências e acerca da pessoa de Jesus. O fiel-discípulo não pode conceber um seguimento/discipulado de acordo com suas conveniências, mas conforme a radicalidade da vida do mestre, e não se afaste do ideal de vida de Jesus mesmo diante das dificuldades, das exigências e das crises suscitadas pelo próprio evangelho. A comunidade, se ela quiser ser fiel ao projeto de Jesus, deve procurar viver estas exigências que Ele mesmo viveu por primeiro: tudo reordenar, recolocar e ressignificar no horizonte do projeto de Deus; ser consciente de que tomar a cruz é configurar sua vida ao mistério da entrega e da doação até as últimas consequências; e viver, por isso, uma vida em liberdade e gratuidade diante do que se possui.

Quem somos neste “espelho” do texto: 1) acompanhantes ou seguidores de Jesus? 2) Temos colocado o projeto de Jesus e do Reino em primeiro lugar ou temos amado mais nossos próprios projetos e convicções? 3) Temos discernido sobre a nossa condição e vocação de discípulos e discípulas?

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.