sábado, 18 de julho de 2020

HOMILIA PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 13,24-43:




A liturgia do décimo sexto domingo do tempo comum dá continuidade à meditação do Discurso em Parábolas de Jesus, contido em Mt 13. Neste capítulo encontramos sete ilustrações usadas por Jesus para anunciar os mistérios do Reino – como o Reinado de Deus vai se desenvolvendo na história. As parábolas fazem parte do gênero sapiencial, os meshalim, formas simples de ensinar o povo, servindo-se das situações cotidianas e da realidade. Jesus, como um bom sábio israelita, incorpora esta pedagogia para ensinar, visando chamar a atenção dos seus, provoca-los e gerar naqueles que o escutam uma mudança de mentalidade e de vida.

A liturgia continua a leitura do capítulo treze do evangelho mateano, a partir do v.24, que já nos insere no horizonte do texto. O ensino de Jesus ainda é dado às multidões. De seu interno, aquele que adere palavra de Jesus sairá o discípulo. A partir deste versículo, Mateus recorda três novas parábolas de Jesus: o joio e o trigo, a semente de mostarda e o fermento na massa (24-33). De 34-35, o evangelista interrompe o discurso de Jesus, e serve-se de uma citação do Antigo testamento, precisamente dos Salmos, a fim de justificar aos seus discípulos-leitores e ouvintes de seu evangelho, a motivação para falar em parábolas.

Jesus fala às multidões de modo a ser entendido. Por isso, prefere falar por meio de parábolas. As parábolas são uma maneira simples de se dirigir ao povo, por terem como ponto de referência elementos da vida quotidiana. A ilustração do conteúdo de suas palavras com comparações permite a Jesus ser compreendido pelos ouvintes. Um texto do Antigo Testamento ilustra esse expediente do Mestre. Trata-se do Salmo 78[77],2: “Abrirei minha boca para falar em parábolas. Proclamarei as coisas que estão ocultas desde a criação do mundo”. O salmista, de maneira parabólica, revela os desígnios secretos de Deus na história de Israel. Algo semelhante faz Jesus quando fala do Reino dos Céus. E a maneira sapiencial de ensinar que o Jesus de Mateus recupera (cf. VITÓRIO, 2017, p.91).

Dos vv.36-43, Jesus explica aos discípulos – portanto, um ensinamento reservado – apenas a parábola do Joio. As parábolas são contadas para todos, multidão e discípulos. Entretanto, só este grupo recebe explicação, pois deverão transmiti-las ao saírem em missão (Mt 13,52). É importante lembrar que as parábolas têm sua aplicação comunitária. Elas são contadas por Jesus e recordadas pelo evangelista a fim de coibir e sanar as tentações surgidas ao interno da comunidade cristã, incompatíveis com a mensagem de Jesus.

“O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (v.31-32).  A parábola da semente de mostarda, é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Diante da estrutura imperial e da grande organização da sinagoga, o projeto de Jesus era praticamente invisível. Os discípulos, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. É necessário que a comunidade dos discípulos aceite a condição de pequenez em que se encontra e reconheça essa pequenez como necessidade para compreender a dinâmica do Reino. O qual não pode impor-se por sinais de grandeza nem de espetáculo. O importante é que ele seja cultivado, mesmo como uma semente pequena, e colocar-se no mundo para servir, como acontece com a mostarda. A única preocupação dos que lutam pelo Reino deve ser se estão sendo abrigo e serviço para os mais necessitados. E a tentação que Jesus visa coibir no seio da comunidade dos discípulos, e que Mateus que eliminar de sua comunidade é que o projeto do Reino ceda ao projeto de grandeza (sede de poder e sobreposição sobre os demais grupos) (CORNÉLIO, F, Homilia Dominical, in.porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

“O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). A parábola do fermento Essa é uma das parábolas mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento, e com a atividade de uma mulher. Ora, para a cultura e tradição da época, a mulher pouca teria a contribuir com um projeto de sociedade como era o Reino dos céus e, no entanto, Jesus apresenta o seu agir como imagem da construção do seu Reino. A tentação que o Jesus de Mateus quer fazer a comunidade vencer é a do desânimo (vontade de desistir por não ver resultados nem efeitos gerados pela pregação e a forma de vida cristã). E era exatamente a paciência que estava acabando nos discípulos e levando-os ao desânimo. Como não viam efeito algum na pregação deles e de Jesus, pois o mundo continuava do mesmo jeito, estavam propensos a desistir, à medida em que aumentavam as exigências de coragem e disposição. Com uma parábola como essa, Jesus quis injetar ânimo e perseverança neles e, ao mesmo tempo, desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores. O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade.

Agora, chama-nos a atenção, a primeira parábola contada por Jesus logo no início, a qual ocupa grande parte do texto evangélico de hoje, por trazer uma alegorização ao final do relato: a parábola do Joio e do trigo. “O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora” (vv. 24-25). O joio (gr, ζιζάνια– zizânia), era uma planta muito parecida com o trigo, cujos grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumir. Fora semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), a noite, símbolo das trevas e da ausência de Deus na tradição bíblica.

A parábola apresenta o Reino numa realidade de tensão e hostilidade: a semente boa e a semente nociva; o mal e o bem; o amor e o ódio; a vida e a morte. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam o Reino como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. Jesus mostra o contrário: quem adere ao seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o diferente e até mesmo com o mal, sem compactuar com ele, obviamente. Nesse sentido, a tentação a ser vencida pelo discípulo do reino, que ouve e se põe à discernir (“Quem tem ouvidos, ouça”) é a do puritanismo (querer ser uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas), e vem expressa através da preocupação dos funcionários do dono da plantação, “Queres que vamos arrancar o joio?” (v. 28b). Eles simbolizam aquelas pessoas muito religiosas de todos os tempos; dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje, e de outras religiões também. São as pessoas intolerantes que, por causa de um falso zelo, alimentam disseminam ódio e violência.

A estes, o patrão responde: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita” (vv. 29-30a). Ou seja, o discípulo e a discípula do reino não podem apresentar-se como juiz de ninguém. Julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos. O Reino dos céus proposto por Jesus não é uma sociedade de pessoas perfeitas, alheia à história e às contradições da existência, não é uma comunidade de puros. O Reino só pode ser construído no meio do conflito. Por isso, exige capacidade de diálogo, respeito às diferenças e paciência (CORNÉLIO, F, Homilia Dominical, in.porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

Dos vv.37-39, Jesus destrincha aos discípulos alguns elementos da parábola, os quais ainda não haviam ficado claros; é que chamamos de alegorização. Cada elemento da história é identificado com precisão. O semeador do trigo é o Filho do Homem, ou seja, Jesus. O campo é a humanidade, o mundo. Os filhos do Reino são a boa semente. “Filhos”, aqui, tem o sentido de seguidores, militantes de uma causa. A cizânia-jôio são os “filhos do maligno”. O semeador da semente má é o diabo, o divisor e opositor do Reino. A colheita simboliza o fim do mundo. Mas última palavra em relação à qualidade das sementes será, única e tão somente, de Deus.
  
Mesmo incompatíveis com a Boa Nova do Reino, as três tendências a serem combatidas ao interno da comunidade têm marcado a sua história, desde as suas origens com os Doze, até os dias atuais. Por isso, motivados pelo texto, qual um espelho para (e da) nossa vida, cabe-nos questionar: a que grupo pertencemos? Que semente temos sido (trigo, joio ou mostarda)? Quais posturas temos adotado? A quais tentações temos cedido? Nossas comunidades podem ser reconhecidas como sementes de mostarda, acolhendo a todos sob seus ramos?

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 11 de julho de 2020

HOMILIA PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,1-9 (texto breve):



A liturgia deste décimo quinto domingo do tempo comum, propõe para a nossa meditação o capítulo treze do Evangelho segundo Mateus, o terceiro discurso de Jesus: discurso em parábolas. As parábolas pertencem ao gênero literário sapiencial, denominado mashal. Os rabinos se serviam dos acontecimentos, dos contextos e das coisas simples para transmitirem o seu ensinamento acerca da Lei, usando, portanto, tal gênero literário. Jesus, igualmente se serve deste gênero que abarca a cotidianidade da vida e das circunstâncias para ensinar os discípulos e as multidões.

As parábolas possuem três funções características para atingir seu fim pedagógico: 1) assumir elementos simples da vida cotidiana e da realidade para chamar a atenção dos ouvintes; 2) provocar os mesmos ouvintes, para, 3) gerar uma mudança de comportamento na audiência, no público alvo – nos leitores.

Mateus reúne em sua catequese o ensinamento de Jesus sobre o segundo absoluto de sua vida e missão: o Reinado de Deus, que na catequese mateana, seu autor prefere a terminologia “dos Céus”, porque não quer ferir os costumes e a tradição religiosa de seus ouvintes-discípulos e leitores judeus-cristãos que, por reverência, não mencionam o nome de Deus. Dissemos que a vida de Jesus se pauta a partir de dois absolutos, a saber: a relação com o Deus que ele chama de Pai, e o anúncio do Reino. Este, torna-se o conteúdo de sua missão. O Reino ou Reinado – como a exegese atual prefere assim nomear – é a atuação de Deus na História humana através de Jesus de Nazaré. Por isso, o Reino é uma pessoa, como já dizia Orígenes, nos primórdios da tradição eclesial. A adesão a pessoa de Jesus de Nazaré, confessado como Senhor e Cristo, promove um novo viver na história do discípulo e na história humana, gerando e propondo um modo de ser e de viver, uma ética. O Reinado de Deus é uma pessoa, Jesus; e a ética – modo de ser e de existir – decorrente da opção fundante e pessoal da pessoa – o estilo, o jeito e a proposta de Jesus sendo encarnada na realidade humana.

As parábolas de Jesus sobre o Reinado de Deus, são, na verdade, modos diferentes de se mostrar – misteriosamente – a atuação de Deus na história. Mateus reúne neste capítulo sete parábolas destinadas a ilustrar o modo como o Reino atua na história. São chaves para interpretar a ação de Jesus e o destino do Reino, quando sua morte já está decretada (Mt 12,14) e os discípulos correm o risco de cultivar ideias equivocadas a respeito do Mestre. Ao revelar os “mistérios do Reino”, isto é, como Deus age na história, Jesus quer alertar os discípulos. Por isso, as parábolas são decifradas para eles, em particular. As multidões, que ainda não aderiram a Jesus ou o veem com suspeita, são inaptas para compreendê-las; daí as parábolas permanecerem enigmáticas para elas. A primeira parábola a ser meditada é a da semeadura. Fazemos a opção pelo texto breve (durante a semana postarei um comentário sobre o texto integral).

Dos  vv.1-3, Mateus situa-nos na cena. Jesus está nas margens do mar da Galileia. Ali uma multidão se reúne para ouvi-lo. Toma a iniciativa de subir numa embarcação e começa a ensinar. Mateus não quer que Jesus seja comparado aos rabinos de seu tempo, que ensinavam em pequenos grupinhos e de modo privado. Para Ele, está fora de cogitação discorrer sobre como interpretar a Lei de Moisés, nos moldes dos rabinos. Sua preocupação centra-se, antes, no desafio de ser discípulo em contextos adversos.

Logo, o deslocamento de Jesus da casa para às margens do mar significa que, mesmo em um contexto de hostilidades à pregação do anúncio do Reino, a comunidade cristã não pode fechar-se em si nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens. Com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, Jesus convida a Igreja de todos os tempos a ser uma Igreja em saída (CORNELIO, F, Homilia dominical, in.porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

De 4-9, Jesus começa a expor a dinâmica do acontecimento do Reinado de Deus servindo-se da imagem do semeador, que sai para semear. A semente que carrega consigo vai, ao longo do caminho caindo. Cai em terreno pedregoso, em meio a espinhos, em solo arenoso e, por fim, em terra boa e fértil.

O elemento-surpresa da parábola que deve chamar a atenção do ouvinte e, posteriormente, do leitor discípulo do evangelho, que é, por si só paradoxal é o próprio semeador. O ouvinte ou leitor poderá se questionar: “mas que tipo de semeador desatento é esse, que não percebe que as sementes vão caindo pelo caminho?”. Esta provocação, como dissemos no início, é intencional. Ela serve para despertar o discípulo.

O semeador, numa leitura cristológica é o próprio Jesus. A semente, numa perspectiva teológica, é o próprio Reinado de Deus na história. A missão do semeador, numa perspectiva eclesiológica e, portanto, comunitária, é a missão mesma da comunidade. Nesse sentido, a missão dela será a mesma do semeador, o Senhor, que inaugura a atuação salvífica de Deus na história e na realidade humana. O sentido desta parábola, portanto, é o de ilustrar o acontecimento/evento do Reinado de Deus em meio as muitas realidades, sejam elas positivas ou negativas. É uma maneira bem simples de Jesus dizer aos seus que o mistério do Reino acontece, é eficaz, real e atuante na realidade e na história humana em meio a muitas perdas, simbolizadas pelos tipos de terrenos perpassados pelo semeador.

Jesus explicará, em seguida, particularmente aos discípulos, a peculiaridade de cada terreno atingido pela semente. Todavia, a semente caída em terra boa simboliza quem acolhe a palavra e anúncio do Reino e se deixa transformar por eles, produzindo os frutos do amor, do perdão e da reconciliação, desejados por Jesus. Cem, sessenta e trinta por cento dizem respeito à capacidade de cada um acolher a mensagem do Reino e fazê-la frutificar em boas obras. Essa imagem exagerada dos frutos é importante: o máximo que se esperava de uma espiga de trigo eram trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. O que parecia ser muito (trinta frutos) passa a ser mínimo diante da beleza que é a vida de quem se deixou conduzir pelos frutos do Reino. A colheita surpreendente (cem frutos por semente) só é possível para quem confia na Palavra e se abre completamente aos valores do Reino. O que parecia muito, fora da mentalidade nova proposta por Jesus, é o mínimo na dinâmica do Reino. Todavia, só quem tem discernimento é capaz de compreender o significado da parábola (Mt 11,15; 13,43). E, com muita reflexão, poderá captar a mensagem de esperança e encorajamento desse ensinamento de Jesus.

Por três óticas pode-se tirar a lição do Evangelho deste domingo: a comunitária, cristológica e escatológica. Na perspectiva comunitária, alerta vai na seguinte direção: o discípulo é tentado ao eficientismo. “Tudo que se faz deve ser bom!” Mas Jesus quer ensinar que o mistério do Reino vai acontecendo, sim, porém por força própria, mesmo em meio a muitas perdas. Contudo, o investimento deve ser total, ainda que seja nas pequenas coisas. A força do crescimento desta semente depende de Deus. Ao semeador cabe somente a semeadura. Por isso, nem mesmo a colheita dependerá dele, mas, escatologicamente, a Deus. A missão do Semeador, e, consequentemente, dos discípulos, consiste apenas no lançar a semente. Vale também repensar a pastoralidade da Igreja, que, muitas vezes cai na tentação do eficientismo, e, em decorrência disso, na pastoral do milagre e do sucesso. Eclesiológicamente, a comunidade dos discípulos (a Igreja) não deve ter a pretensão do sucesso garantido. Não deverá julgar a sua identidade mediante a isso. Mas poderá medir sua autenticidade diante das muitas perdas. Quando se começa a perceber muito sucesso, é porque a mentalidade do Anti-Reino entrou em suas estruturas.

Percebamos que, mesmo em termos cristológicos, o próprio Jesus foi quem muito semeou; no final de sua vida, não colheu nada. Para onde foram seus discípulos? Ora, o que vale para o mestre, vale igualmente para o discípulo!

A dimensão escatológica se mostra na qualidade dos frutos. Somente no final da missão é que se verá, de fato, que tipo de semente se produziu. Os que se acham os tais, poderão se reconhecer também como sementes que não produziram ou solos inférteis. Os que achavam que nada produziram poderão ser as sementes autênticas, que deram frutos em abundância.

Estrada, pedra, espinhos e terra boa é metáfora para o coração de cada um. Que a Igreja seja estimulada sair constantemente de si mesma para lançar as sementes do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias. O importante é ter coragem de assumir as margens sem medo. É necessário, inclusive, ter a coragem de fracassar.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 4 de julho de 2020

HOMILIA PARA O XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 11,25-30:



O décimo quarto domingo do tempo comum apresenta o capítulo onze do Evangelho segundo Mateus, para a nossa reflexão. Sempre se faz importante contextualizar o texto, a fim de se compreender a mensagem de Jesus, transmitida pelo catequista bíblico Mateus para sua comunidade e para as gerações seguintes dos seguidores e das seguidoras de Jesus.

No capítulo décimo, Jesus inaugurou e transmitiu o ensinamento acerca de sua missão (e, consequentemente, a do discípulo) – o discurso missionário. Todavia, o envio missionário não acontece imediatamente ao ensinamento. Ele será postergado e só acontecerá no final do Evangelho, quando o discípulo estará pronto para se tornar missionário-apóstolo do Reino, porque compreendeu o sentido da vida de Jesus.

Os capítulos 11 – 12 apresentam as várias reações diante do ensino e da ação de Jesus, transformado em objeto de controvérsia por parte dos adversários, escribas e fariseus, e dos incapazes de compreender sua pregação. A partir de então, o evangelho apresentará a contínua rejeição de Jesus. E, mais, seus inimigos tomam a decisão de matá-lo (Mt 12,14). Em contraste a estes grupos rivais, encontra-se o grupo dos pequeninos. Com essa deixa, se pode entrar no horizonte do texto litúrgico proposto para a nossa meditação.

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos
e as revelaste aos pequeninos” (v.25). O evangelista constata um louvor em forma de bênção, elevado por Jesus ao Pai, Senhor do céu e da terra (isto é, senhor de tudo). Mas o louvor de Jesus tem um motivo: foi do agrado de Deus revelar os mistérios do Reino aos pequeninos. Ou seja, correspondeu a iniciativa do próprio Deus, em Jesus, agir desse modo. O modo de agir de Deus vai na contramão do pensamento, dos esquemas e da lógica humana.

Quem são os pequeninos? Um mesmo vocábulo grego, dependendo do contexto em que é usado, assume conotações diferentes, dando origem a traduções diferentes. Isso acontece com a palavra pequenino. Ao interno do evangelho mateano, o autor se serve de dois termos gregos para falar deste grupo: mikrós e népios. O primeiro é utilizado ainda no capítulo décimo e está referido ao grupo dos discípulos. A mesma palavra ocorre novamente em 11,11 (“o menor no Reino dos Céus”); 13,32 (“a menor de todas as sementes”); 18,6.10.14 (“escandalizar a um destes pequeninos ... não desprezar a um destes pequeninos ... não se perca nem um só destes pequeninos”). Mikrós (pequeno) é antônimo de me meno mégas (grande). No caso dos discípulos, ser pequeno é contrapor-se à ambição do poder e do domínio dentro da comunidade, coisa dos grandes, no sentido mundano. Trata-se de quem não pretende assumir a postura de Mestre e compreende seu ministério como serviço. Népios, utilizado no texto de hoje, tem o significado de criança, menino, menor, menor de idade. É o símbolo daquele que se deixa instruir. Este terá precedência na revelação porque, não se julgando proprietário, dono, detentor da verdade, está aberto à novidade do Reino ensinada por Jesus. Qualquer pessoa que assuma tal atitude pode ser chamada de népios. Em português, pode-se chamá-los de simples (cf. VITÓRIO, 2017, p.79).

No v.27, Jesus declara: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai,
e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. O Pai, Senhor do céu e da terra, ou seja, de tudo, decidiu colocar tudo nas mãos de Jesus, e ele pode revelar os mistérios de Deus a quem ele quiser. O Pai, Senhor de tudo, coloca tudo nas mãos de Jesus, o Filho. E este, por sua vez, tem a autoridade de colocar tudo a respeito de Deus a quem ele quiser. Isso soa, aos ouvidos dos opositores de Jesus, incompreensível, dado a dureza de seus corações na firme opção em rejeitar a Jesus, e porque eram os detentores do poder religioso da época.

Dito de outra maneira, o conhecimento do Pai passa por Jesus! Por conseguinte, rejeitar Jesus e fechar-se para sua pregação significa, em última análise, rejeitar Deus e fechar o coração para Sua palavra.

No v.28, Jesus reorienta a vida e a direção dos pequeninos e dos discípulos através de um convite ressignificador: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Este dito de Jesus foi sempre mal compreendido, dando margem para compreensões moralistas e escrupulosas ao texto. O fardo a que se refere Jesus não são os pecados, frutos das atitudes humanas permeadas pela liberdade. Fardo, na intenção de Jesus e de Mateus, se refere à Lei mosaica, com suas 613 prescrições, as quais são derivações forçadas das interpretações que os escribas e fariseus faziam sobre os mandamentos da Torá. Estas seiscentas e treze leis oprimiam as pessoas, dada sua complexidade (Mt 23.4), e não geravam mais vida, senão somente o nutrimento de sistemas e mecanismos injustos, promotores de alienação e de morte para o povo simples. Portanto, não se trata do jugo do pecado, mas, sim, o da Lei transformada em peso para as pessoas (cf. Sr 6,22-32; 51,26-27).

Jesus, Sabedoria encarnada na história (Pr 8), em contrapartida, propõe um julgo, diferente do fardo/peso. Fazendo-se discípulo dele, aprendendo com ele, manso e humilde de coração, que não busca dominar, é possível encontrar descanso, pois seu jugo não machuca ninguém e seu peso é leve. Ele exige dos discípulos somente o essencial, a justiça do Reino (Mt 7,33). O essencial proclamado por Jesus é quantitativamente mais simples, mas qualitativamente muito mais exigente que a justiça dos escribas e fariseus (Mt 5,20), apegados à letra e às prescrições que legitimavam seus estilos de vida. Jesus reordena a vida do discípulo às exigências do coração, do amor e da misericórdia, que promovem a Justiça do Reino. E não para uma lei que já não gera vida, senão oprime e acabrunha.

O texto evangélico de hoje nos questiona: quem somos e onde estamos? Encontramo-nos inseridos entre os pequeninos – abertos, disponíveis e livres para acolher o projeto de Jesus –, ou entre os sábios e entendidos, ciosos e fechados sobre si mesmo e sobre o que sabem – impermeáveis e resistentes ao projeto do Reino anunciado por Jesus? Nossas comunidades, são comunidades dos pequeninos ou dos sábios?

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 27 de junho de 2020

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO - Mt 16,13-19:



A cada ciclo litúrgico que a Igreja vive, somos convidados a fazer a memória de Pedro e de Paulo. Para isto, a liturgia nos propõe a perícope pertencente ao capítulo dezesseis do Evangelho segundo São Mateus (Mt 16,13-19).

É oportuno situar o texto ao interno do contexto para retirarmos a mensagem essencial do Evangelho. O texto que hoje temos começa no v.13. Mas ele iniciara com duas situações que servem de estopim para a narrativa que se segue. O primeiro acontecimento foi uma controvérsia entre Jesus e os fariseus, os quais pediram a ele um sinal de que seria realmente o messias (Mt 16,1-4). Ora, Jesus, a esta altura do evangelho, já havia realizado muitos sinais e realizado muitos ensinamentos. A segunda situação foi motivada pela advertência que feita aos discípulos para que estes tomassem cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus (Mt 16,5-12). O fermento dos fariseus a que Jesus se refere consiste numa ideia errada que nutriam em relação a Deus e ao messias, bem como a própria maneira hipócrita de viver. Agora pode-se entrar no horizonte do texto de hoje.

Mateus indica geograficamente a seus leitores-discípulos onde o fato se dá. “Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe” (v.13a). Cidade situada ao norte de Israel; dedicada à Cesar, imperador romano. Sede do poder romano na província da Palestina e, portanto, lugar de culto ao imperador e de cultivo da ideologia imperial. Um território pagão. Por outro lado, Cesaréia fica distante de Jerusalém, sede do poder religioso. Jesus e seus discípulos encontram-se longe das influências do poder religioso. Ali poderiam fazer uma experiência nova e pura com Deus em Jesus.

“ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (v. 13b). Filho do Homem é aquela personagem bíblica de que nos fala a literatura apocalíptica de Dn 7. É o encarregado por Deus de executar o Seu Senhorio e vontade na história. É o plenipotenciário enviado em nome de Deus. Jesus se identifica e reconhece-se a partir desta personagem. Mas a personagem alude também a sua condição humana.

É verdade que não há concordância entre os biblistas a respeito da intencionalidade de Jesus na pergunta. Uns alegam que ele estaria preocupado com sua auto imagem. Outros, que ele não estaria preocupado com sua imagem, mas com a correta compreensão de sua pessoa e missão. Mais do que preocupado com a imagem que a multidão fazia dele, estava preocupado com a ideia que faziam de sua missão.

Segundo os discípulos, a opinião pública dizia: “alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (v. 14). A atuação de Jesus tinha dado margem para variadas interpretações, e as figuras do passado serviam aos espectadores de Jesus fazerem alguma imagem Dele. Acontece que Jesus não foi um reformador como Elias (e Eliseu, no Antigo Testamento), muito menos como João Batista, na transição do Antigo para o Novo. Ele inaugura uma novidade em relação ao modo com de se relacionar e experimentar o Deus de Israel, e uma novidade quanto ao modo de se relacionar com o próximo. É bem verdade que o modo através do qual Jesus decide-se por viver sua missão se inseriu na tradição profética.

Mas Jesus é muito mais. Embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. A comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado. Isso impede a comunidade de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história (CORNÉLIO, F, Homilia Domincal, in, porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Após a resposta dos discípulos, Jesus retorna a pergunta, agora, para ele: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v.15). Trata-se de uma pergunta importante, porque ela revela como os discípulos, o círculo mais próximo e pessoal de Jesus, o concebia. Mais ainda, a reposta revelaria ainda as expectativas que traziam consigo, e qual mentalidade nutriam acerca dele.

“Tu és o Cristo, 0 Filho do Deus vivo” (v.16), responde acertadamente Simão, em nome dos doze. É uma reposta que ele dá em nome do grupo, e, portanto, eclesial. Uma profissão de fé comunitária. Os demais discípulos componentes do grupo dos doze também responderam com Pedro.

“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17). Jesus admira-se com a resposta tão acertada. E reconhece ser Pedro um bem-aventurado, ao compreender uma verdade muito profunda. Entretanto, seu entendimento não provém do esforço humano; só pode ser revelação do Pai dos céus. Esta bem-aventurança não provém do mérito do discípulo, mas unicamente da iniciativa de Deus (VITÓRIO, 2017, p.105).

O que Jesus faz é uma constatação: as coisas começam a funcionar na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (cf. 10,21), e Pedro está falando a partir do que o Pai lhe sugere, ele está demonstrando adesão plena ao projeto do Reino, inserindo-se no mundo dos pequeninos! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição pertencer ao mundo dos pequeninos. A bem-aventurança de Pedro consiste em abrir-se à vontade do Pai e deixar-se conduzir por essa (CORNÉLIO, F, Homilia Domincal, in, porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

“Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18a). Jesus declara Simão-Pedro como rocha firme devido à Fé que professara. O acento aqui não recai sobre o discípulo Pedro, mas sobre a Fé que ele, conjuntamente com a comunidade dos discípulos, a Igreja, professa. A pedra firme por sobre o qual se edifica a comunidade dos crentes em Cristo é o conteúdo e núcleo da Fé professada pelo discípulo. Pedro, na verdade, é o garantidor da unidade em torno desta Fé. Esta não se baseia num conjunto de ideias ou de proclamações dogmáticas, mas se embasa numa pessoa: o Messias e Filho do Deus vivo, Jesus de Nazaré.

É importante esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: Πέτρος– Petros e πέτρα - petra. Embora muito próximas, é possível distingui-las: “Petros”, que foi transformada no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível, uma pedra de construção; “petra”, por sua vez, designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Portanto, Jesus diz que Pedro (petros) é uma pedra-tijolo da construção, e a pedra-rocha (petra) é a fé que ele professou, a superfície rochosa sobre a qual a Igreja é edificada (CORNÉLIO, F, Homilia Domincal, in, porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Só aqui e em Mt 18,17, o evangelista chama de “Igreja” a comunidade dos discípulos do Reino, evocando o antigo povo de Deus (hbr. qahal). A missão da igreja consiste em ser, na história humana, um sinal da presença do Reino, vivendo os seus valores e o seu projeto.

A chave simboliza a autoridade conferida a Pedro, da qual a comunidade também participa. Mais que delegando poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer já aqui na terra. A comunidade recebe “as chaves do Reino dos céus” porque é nela que se faz a experiência da fé e da comunhão profunda com Deus, através da prática das bem-aventuranças (cf. 5,1-12), e é isso que torna alguém apto para entrar nos céus. Qualquer um que professa convictamente a fé em Jesus e vive seu programa de vida expresso nas bem-aventuranças tem a chave de acesso ao Reino. “Ligar e desligar” são, acima de tudo, responsabilidades, e não um poder.

O texto litúrgico de hoje termina, mas, ao mesmo tempo encaminha para conclusão do capítulo dezesseis, o qual apresenta o primeiro anúncio da paixão, que visa abrir a compreensão dos discípulos para que comecem a compreender o verdadeiro modo pelo qual Jesus decide-se encaminhar a sua vida e missão, vaticinando a eventualidade de sua paixão e morte, coroadas pelo evento redentor e salvífico da ressurreição. O modo pelo qual Jesus exercerá plenamente seu messianismo é o modo da cruz. O caminho da cruz que foi assimilado, com não pouca dificuldade, pelo discípulo Simão-Pedro, através de sua vida gasta pelo Evangelho da libertação e da Graça.

A pergunta que Jesus faz aos discípulos se direciona também à nós. 1) Quem é Jesus de Nazaré para mim? 2) Qual a ideia de messias e Filho de Deus possuo e fiz experiência? O triunfalista, opressor, belicoso, poderoso? Ou o messias e Filho de Deus que realiza sua missão através da obediência ao Pai e ao projeto do Reino, vivendo uma existência em amor, compaixão, misericórdia e serviço aos irmãos?

Que Pedro e Paulo nos ajudem através da Fé que viveram e professaram, através da entrega de suas próprias vidas.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 20 de junho de 2020

HOMILIA PARA O XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 10,26-33:



A liturgia deste décimo segundo domingo do tempo comum, propõe a continuidade da leitura do discurso missionário de Jesus, situado no capítulo décimo do Evangelho segundo Mateus. O discurso consiste numa série de ensinamentos de Jesus, destinados aos discípulos, a respeito da missão. O que o mestre realizará, valerá, igualmente para o discípulo. O texto lido hoje – Mt 10,26-33 – já coloca o discurso próximo de seu final. O discurso missionário foi motivado pelo inconformismo de Jesus em face da situação das multidões, cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, ou seja, abandonadas e exploradas pelos chefes dos poderes político, econômico e religioso da época. Nesse sentido, a missão consiste no anúncio do Reino, como conteúdo fundamental. E este anúncio se visibiliza através da tarefa de restituir vida, dignidade e esperança, denunciando tudo o que impedia o ser humano de viver com dignidade.

Quem luta por isso, inevitavelmente, será vítima de perseguições hostilidades, como previu o próprio Jesus (Mt 10,16-25). Após alertar os discípulos sobre a quase certeza da perseguição, Jesus os encoraja para não desanimarem. E é isso o que compreende o texto lido hoje: o convite à coragem e à confiança no Pai e no próprio Jesus (CORNÉLIO, F, Homilia dominical. in. Porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

Após situar o contexto imediato ao texto de hoje, podemos entrar no horizonte da cena bíblica. Dos versículos 26-27, Jesus exorta aos discípulos, “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”.  O medo, ao interno da tradição bíblica, e na vida espiritual, constitui o contrário da Fé. Ele acomoda e paralisa a pessoa, impedindo-a de assumir e tomar as rédeas da vida e da história, ao interno do horizonte de Deus. Aquele que é chamado para a missão deve saber das consequências inerentes à ela, e não poderá sucumbir ao medo. 

O que havia de encoberto até então, e que não poderia mais permanecer oculto, era o que Jesus já tinha ensinado somente aos discípulos. Eles deverão ser os porta-vozes do mestre. Tinha chegado o momento de tornar público, fazer espalhar o que os discípulos tinham aprendido do mestre, especialmente o seu jeito de viver. O imperativo “proclamai-o sobre os telhados” é um convite ao esforço e à criatividade no anúncio.

No v.28, Jesus é mais enfático ainda. Os discípulos missionários não deverão se intimidar diante dos que colocarem obstáculos para seu trabalho missionário. Antes, só temerão aquele que, além de tirar a vida física, pode privar as pessoas da vida eterna, ou seja, Deus. Só a ele se deve temer. A perda total da vida não é um castigo, mas consequência das próprias escolhas. (cf. VITÓRIO, J. 2017, p.72).

Para desfazer este mal-entendido acerca da perseguição que os discípulos sofrerão (e ainda sofrem), Jesus toca no tema da providência divina. Ele se serve de duas parábolas nos vv. 29-30, as quais ajudam os discípulos a tomar consciência da proteção que gozam da parte de Deus. Se o Pai do Céu está atento a um passarinho, o animal de valor mais baixo no mercado, não permitindo que morra, sem sua expressa vontade, quanto mais um discípulo de Jesus! Se nem um cabelo cai de nossa cabeça sem o expresso consentimento do Pai, tanto mais um discípulo. O cabelo era considerado o menor e mais inútil elemento do corpo humano e, mesmo assim, contado pelo Pai. A confiança na providência de Deus é o que encoraja o discípulo no decorrer da missão.

“Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus” (v. 32-33). Para viver a missão é preciso ter a coragem e a coerência de viver. O testemunho corajoso do discípulo diante dos homens terá como contrapartida o testemunho de Jesus, a seu favor, diante do Pai. Pelo contrário, quem se deixa levar pelo medo e renega o Senhor será renegado por Jesus, diante do Pai, por ocasião do juízo.

Declarar-se a favor de Jesus significa ser no mundo sinal da sua própria presença; indignando-se ao contemplar pessoas abandonadas e sofridas, e buscar soluções transformadoras; é agir com misericórdia diante do sofrimento das pessoas, denunciando as injustiças e todos os impedimentos ao florescer do Reino dos Céus. Negá-lo não é deixar de proclamar uma fórmula de fé, mas deixar de viver seu programa de vida expresso nas bem-aventuranças (CORNÉLIO, F, Homilia dominical. in. Porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu - SP

sábado, 13 de junho de 2020

HOMILIA PARA O XI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 9,36 – 10,8:



A Liturgia do décimo primeiro domingo do tempo comum, nos reinsere na leitura do Evangelho segundo Mateus, a partir do final do capítulo nono, o qual serve de dobradiça para o capítulo décimo, no qual o evangelista concentra todo o assim chamado “Discurso Missionário”.

O Evangelho segundo Mateus é composto de cinco discursos, os quais são as catequeses do evangelista para a sua comunidade, que se encontra em crise de fé e de identidade. Através destes ensinamentos recuperados pelo catequista bíblico diretamente da pregação de Jesus, a comunidade vai discernindo sua experiência com o Ressuscitado, e dando o passo no discipulado. O Discurso Missionário (Mt 10 – 11,1), compõe, juntamente com o Discurso Inaugural (Mt 5 – 7), o Discurso em Parábolas (Mt 13), o Discurso comunitário (Mt 18) e o Discurso escatológico (Mt 24 -25), o ensinamento essencial de Jesus para o discípulo do Reino. Ora, a intenção do evangelho de Mateus é o de fazer discípulos de Jesus entre todas as nações.

Desde o Discurso inaugural de Jesus, o sermão da Montanha (Mt 5 – 7), Mateus tratou de apresentar a Jesus como novo Moisés, intérprete da Palavra de Deus ao novo povo de Israel, e, assim, o Messias por Palavras. Agora, no capítulo dez em diante, Jesus será confirmado como Messias, não só por palavras, mas por obras.

Faz parte da pedagogia teológica de Mateus, as seguintes categorias: multidão, discípulo, apóstolo (missionário). A multidão é aquela grande massa que vai até Jesus por conta daquilo que ele realiza; se seduz somente por aquilo que Ele faz. Todavia, não se compromete com seu estilo de vida e com seu ensinamento. O grupo dos discípulos é formado por aqueles que ouviram as Palavras e aderiram ao modo de vida do Senhor, e, por isso, saíram do meio da multidão; romperam com ela, para fazerem uma experiência existencial e profunda com Jesus. O discípulo, após ter feito experiência com Jesus, e ter visto, sentido, comprovado por onde passou a vida do Mestre, pode, então, tornar-se apóstolo, enviado, missionário do Reino. No entanto, este esquema não é definitivo, uma vez que o discípulo ou apóstolo sempre corre o risco de retornar para a multidão, quando não vive fielmente segundo a vida de Jesus. Por isso, o discípulo deve carregar consigo sempre a disponibilidade de ser um missionário, e não deve esquecer-se jamais de sua condição de discípulo. A dinâmica existente neste discurso missionário, que começamos a ler neste XI Domingo do tempo ordinário, apresenta-nos este esquema ao longo de sua leitura.

Considerações feitas, podemos mergulhar no horizonte do texto. A conclusão do nono capítulo nos informa a respeito de um sentimento de Jesus diante da multidão, que parecia ovelha sem pastor, cansada e abatida (v.36). Ele sentiu compaixão dela. A compaixão / misericórdia na bíblia, já refletimos, não é um sentimento apiedado ou adocicado, mas uma atitude operativa em favor de quem sofre. É a capacidade de colocar-se no lugar do outro, porque o sofrimento daquele faz remexer as vísceras. Compaixão é traduzido do hebraico Rahamim (lit. visceras), cuja raiz provém de Hesed (amor/misericórdia). Jesus extravasa este amor entranhado de Deus pela humanidade sofredora através de sua práxis existencial e salvífica.

Jesus vê o povo deixado à própria sorte e sente compaixão, ao constatar que está cansado e prostrado como um rebanho sem pastor (Ez 34; Jr 23,1-4; SI 23[22]). Os mestres da Lei não se interessavam pela multidão de gente simples da Galileia, considerada, com desprezo, povo da terra. E então, faz uma constatação e uma recomendação em forma de parábola: “A colheita é imensa, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da plantação que envie mais trabalhadores para a colheita”. Com isso, fica preparado o ambiente para o discurso missionário, que vem a seguir (cf. VITORIO, 2017, p.67).

Assim, o “discurso missionário” provém da compaixão de Jesus ao ver a gente simples semelhantes a “ovelhas sem pastor”. Os discípulos são constituídos apóstolos com a mesma missão de proclamar o evangelho do Reino e curar os enfermos, como acontece com Jesus. O ideal do discípulo é ser como o Mestre.

Por isso, chama para mais perto de si, doze homens. E os constitui como enviados (apóstolos) Seu. Os discípulos são constituídos na condição de apóstolos. É a primeira vez que o evangelista usa o termo Apóstolo em seu Evangelho. Ele ocorrerá novamente quando do envio definitivo em Mt 28,16, por parte de Jesus. Em relação ao número doze, ele evoca a totalidade de Israel, simbolizado pelas doze tribos. Mas Jesus extrapola esta mentalidade, e vê naqueles homens a semente do novo e verdadeiro Israel, mas que deve expandir-se a todas as nações.

Jesus lhes dá autoridade. Esta é a melhor tradução para este dito do evangelista “Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade”. Mateus toca no tema da autoridade de Jesus (gr. Exousia). Esta não significa a faculdade de mandar e desmandar. A autoridade / exousia de Jesus consiste na missão que lhe foi confiada pelo Pai. Ela encontra-se na coerência entre seu agir e falar. Jesus vive o que anuncia e anuncia vivendo. Esta autoridade, que outra coisa não é que viver conforme a vida, Palavra e obra do mestre, Ele a comunica aos discípulos. Assim, transfere para eles o poder recebido do Pai. Eles deverão continuar a missão de Jesus.

O grupo é encabeçado por Pedro, e segue-se a lista dos outros onze (v.2-4). Este discípulo virá sempre como um porta-voz e representante do grupo. Nas narrativas seguintes ele sempre aparecerá como primeiro. A leitura do conjunto destas cenas permite reconstruir sua caminhada discipular, feita de altos e baixos, como acontece com os discípulos e as discípulas de todos os tempos. Pedro serve de modelo para o discípulo de todos os tempos (cf. VITORIO, 2017, p.69).

Jesus lhes dá uma recomendação, que a olhos superficiais parece contraditória a toda sua mensagem. Esta orientação de não ir aos samaritanos, nem onde moram os pagãos, precisa ser bem compreendida. Não se trata da exclusão deles. E a orientação seguinte, no v.6, explicita esta constatação: “Ide, antes (lit. primeiramente) às ovelhas perdidas da casa de Israel”. O adverbio “antes / primeiro” (gr. Μαλλον) indica precedência e não exclusividade ou exclusão.

Jesus privilegia o povo judeu, mas não lhe dá exclusividade. Os pagãos, também, têm o direito de ser convidados para participar do Reino. A missão junto a Israel (particularidade) serve de trampolim para a missão junto aos pagãos (universalidade). A Ressurreição de Jesus marca a abertura da Igreja para a universalidade da missão (Mt 28,19). A ação dos discípulos consistirá em proclamar que o Reino dos Céus se aproxima (Mt 4,17), bem como curar os enfermos, ressuscitar os mortos, limpar os leprosos, expulsar os demônios. Portanto, têm como tarefa refazer o caminho de Jesus, Messias, por palavras e por obras. Um traço característico da ação do discípulo enviado é a gratuidade. Já que receberam tudo de graça, também de graça devem dar. (cf. VITORIO, 2017, p.70).

O discurso missionário é endereçado a todos nós, os discípulos e discípulas (missionários) de todos os tempos e lugares. Por isso, diante do texto que funciona como um espelho para a nossa vida, podemos nos perguntar: 1) diante da proposta de Jesus, em que categoria me encontro: ainda em meio à multidão (mais um no meio dela); ou no grupo dos discípulos, que escutam e aderem à Palavra de Deus em Jesus, e, portanto, vão se configurando ao discipulado-missionário? 2) Como temos vivido nosso discipulado-missionário: com aquele senso de privilégio e exclusivismo, concebendo-nos como os tais e já salvos; ou temos exercido a missão na disponibilidade e no serviço a todos, indistintamente? 3) Somos comunidade em saída e servidora ou apenas um grupo exclusivos de amigos, ou, pior ainda, um gueto bem fechado e excludente?

O Evangelho de Cristo é a nossa medida. Ele será a última palavra em relação a cada um de nós e nos fará discernir se ainda estamos na multidão ou no discipulado-missionário. Mas é bem verdade que ele sempre nos dará a oportunidade de refazermos o trajeto, sempre mais avante.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP

sábado, 6 de junho de 2020

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Jo 3,16-18:



Celebra-se em toda a Igreja a solenidade da Santíssima Trindade, ao interno do tempo comum, já retomado após Pentecostes. No entanto, a liturgia ainda propõe a leitura do Quarto Evangelho. A perícope oferecida é a que se encontra no capítulo três do Evangelho segundo João. O presente texto, Jo 3,16-18, nos faz mergulhar na solenidade de hoje.

O evangelista João situa o capítulo 3 de sua obra, imediatamente às palavras (episódio) contra o templo (Jo 2,13-25), ou seja, durante os dias da pascoa dos judeus. Naquele episódio, Jesus apontava para a novidade escatológica que ele mesmo trazia, em nome de Deus, a partir de si mesmo: seu corpo (templo) lugar da manifestação da glória de Deus, simbolizado pela purificação-superação do templo, feita por ele. A novidade da presença de Deus em seu Cristo, Jesus de Nazaré, e não mais no sistema levítico-cultual da tradição judaica. É neste capítulo que, pela primeira e única vez, aparece a temática acerca do Reino de Deus, que depois é substituído pelo conceito Vida ou Vida Eterna.

João traz, nesta narrativa, uma nova situação: um diálogo com um judeu importante, de nome Nicodemos. A temática apresentada neste diálogo é muito rica: desde o entusiasmo de Nicodemos pelos sinais realizados por Jesus, passando pela novidade das coisas do alto (novo nascimento, 3,1-15), culminando numa homilia, por parte do evangelista (que esquece um pouco seu papel de narrador), acerca do dom da salvação (3,16-21). Nossa reflexão, aborda esta parte do diálogo com o fariseu Nicodemos.

Importante para nós é uma nota do evangelista: o diálogo entre Jesus e o líder judeu se dá na noite. João faz questão de informar esta particularidade por dois motivos concernentes ao seu público. 1º) É da pedagogia do Quarto Evangelho apresentar, em tons simbólicos (e mistagógicos, como que uma catequese pós-batismal para os já iniciados na fé) o contraste entre Luz e Treva. Nesta hora (de treva) do mundo e da história, Jesus é apresentado para a comunidade cristã e para o mundo como a Luz. 2º) mostrar Nicodemos como uma pessoa que está em vias de tomar uma decisão pró-Jesus, mas que ainda não tomou, e por isso vai “de noite”, para não se comprometer com Jesus diante de seus colegas judeus.

Ora, o evangelho joanino é conhecido como o evangelho da decisão: o evangelho (que serve para o discernimento) para aqueles e aquelas que estão no processo da tomada de decisão pró ou contra Jesus, principalmente dentro do contexto daqueles anos 90, em que o autor concebe sua obra. Um momento de crise de fé das comunidades cristãs. Diante da crise se opta pela fidelidade (adesão) à Jesus de Nazaré (como revelador pleno da Glória de Deus e Vida do mundo) ou abandona-se a fé? Acolhe-se o Dom de Deus em Jesus, Luz do mundo, ou recusa-lo? Eis o sentido da segunda intenção do evangelista ao situar a conversa “pela noite”. Nesse sentido, pode-se identificar a Nicodemos como um símbolo do candidato / iniciado na fé cristã.

Mais uma consideração acerca da natureza do Quarto Evangelho se faz necessária. O Evangelho de João, quando fora escrito trazia como uma de suas temáticas a superação das instituições do Antigo Testamento, principalmente de todo o sistema levítico-cultual de Israel (Templo, sacrifícios ou holocaustos, sacerdócio judaico). Este chefe dos judeus está inserido neste contexto das tradições e sistema religioso. Ele é, pois, a metáfora do velho que precisa ser superado; elevado a um novo sentido ou mesmo abolido.

Nicodemos é um fariseu, e, enquanto tal, faz parte dos que pensam e concebem ideologicamente a manifestação do Messias e de Deus como sendo ocasião do juízo e da condenação para os pecadores. Mas Jesus lhes revela uma face diferente do Deus de Israel, a quem chama de Pai. Trata-se, portanto, de uma novidade: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (v.16). Jesus se declara como a expressão do amor de Deus pela humanidade. Deus expressa seu amor dando seu Filho. Crer, na bíblia, não significa dar adesão à uma doutrina, mas a uma pessoa. É uma experiência existencial com uma pessoa e não com uma ideia. Note-se que, pela segunda vez neste capítulo aparece o tema da vida eterna, muito caro ao evangelista. Os fariseus pensavam-na como um prêmio a receber no futuro, a partir dos méritos e do cumprimento das prescrições levíticas e rituais, observando estritamente a lei mosaica. Para Jesus, ao contrário, é uma condição na vida presente. O termo “vida eterna” não pode ser compreendido a partir da duração indefinida da vida. Mas pela qualidade de uma vida que se torna indestrutível.

Os vv.16-18 apresentam, ainda, a novidade escatológica inaugurada através de Jesus. João substitui o termo “Filho do Homem” por Filho Unigênito (traduzido mais familiarmente por único (yahid), “o imensamente querido”, como foi Isaac para Abraão). O autor do Quarto Evangelho pretende mostrar a profundidade do mistério que está sendo evocado. Deus nos amou tanto, que nos deu seu filho unigênito (o seu imensamente querido), para nos salvar, e não para condenar. Uma constatação importante: “Deus deu seu Filho...”: o verbo usado não é “entregou”, mas “doou”! Deus não enviou Jesus especificamente para sofrer, não o entregou para que pagasse com seu sangue os nossos pecados. Deus não é um sanguinário que quer ser pago com sangue, nem com sofrimentos ou mortificações.

A verdade é que Jesus é o “dom” de Deus para manifestar seu amor e sua graça. Essa vida, pautada pela ótica e dinâmica do Amor e da Fidelidade é o que o fará ser fiel a Deus e ao Reino, até as últimas consequências. Deus, em Jesus, só nos quis mostrar em quê consiste o Amor e a Fidelidade.

O v.18 aprofunda o sentido do verbo “julgar/condenar” (v.17). Aquele que aceita esse Dom, quem na fé adere a Jesus, não é condenado por Ele. Mas quem não crê, já condenou a si mesmo. Isso, se realmente conhece a Jesus. João não está falando de pessoas que nunca ouviram falar de Jesus (quer seja naquela época ou hoje). Mas se dirige àqueles que já conhecem a mensagem cristã. É como que se lançasse a pergunta “vocês comprometem as suas vidas a este Jesus que vocês conheceram como Dom de Amor de Deus?” O Quarto Evangelista dirige esta pergunta àqueles que perceberam o valor vital de Jesus e nem mesmo assim o querem aceitar. É a estes que é dirigido o julgamento e autocondenação.

Para quem despreza esse dom, a vinda de Jesus ao mundo como luz significa julgamento (cf. 9,41). Fogem da Luz, preferindo ficar nas trevas, e por isso não aguentam a Luz. Quem “pratica a verdade” e age com lealdade em relação a Deus e aos irmãos, esse aproxima-se da luz que é Jesus. Suas obras são “feitas em Deus”, sua prática é solidária com a obra de Deus. “Praticar a verdade” significa agir segundo a verdade, o reto proceder que Deus, de diversas maneiras, nos dá a conhecer, especialmente na própria prática de Jesus (KONINGS, 2005, p.117-118).

Deus Uno e trino se dá a conhecer através de Jesus de Nazaré. E é sob o mistério do amor-doação, comunhão e unidade que O Deus uno e trino pauta o seu viver desde o interno de sua vida divina. Esta vida, num mesmo mistério de amor é doada pela Trindade Santa, e quem a revela é Jesus, no Espírito.

Da vida da Trindade somos todos chamados a participar através do Batismo recebido, o qual nos dá o Dom do Espírito, que habilita a chamar Deus de Pai e Jesus de Senhor. Assim, o Espírito nos garante acesso a vida de Jesus e do Pai, porque nos leva para dentro de sua relação de comunhão e amor, para vivermos segundo a vida do mesmo Filho, inscrita em nós pelo Espírito. Ou seja, para vivermos uma vida segundo o modelo da Trindade, em amor, comunhão, doação e unidade.

Diante do espelho do texto, emergem algumas perguntas. 1) Com quais personagens nos identificamos: com Nicodemos, que ainda não fez sua opção/decisão por Jesus, ou por aqueles que aderiram ao Dom de Deus, em Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo? 2) Temos acolhido, de fato, a Jesus de Nazaré como Dom por excelência de Deus em nossas vidas? 3) Em nosso discipulado-seguimento a Jesus, em quais horas de nossas vidas nos dirigimos à Jesus para ter com ele, durante a noite (na treva da escuridão, da indecisão, do descompromisso, do medo, da rejeição ao seu projeto) ou na hora da Luz (da decisão, da verdade, da fidelidade e do Amor a ele ao irmão)?

Habitados que fomos pela Trindade, somos chamados a irradiar, como discípulos-missionários, e, enquanto comunidade, a vida e ação do Deus Uno e Trino.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.