quinta-feira, 20 de junho de 2019

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DO CORPO E DO SANGUE DO SENHOR (Corpus Christi – ano C) – Lc 9,11b-17:




A Liturgia de hoje retoma a leitura do Evangelho segundo Lucas e, apropria-se, para esta Solenidade do Corpo e do Sangue do Senhor, do capítulo nono do terceiro evangelho, a partir do v.11b, onde se narra o episódio do que ficou conhecido como multiplicação dos pães.

Para compreender esta perícope de Lc 9,11b-17, é preciso situar o capítulo desde o começo. Os vv.1-6 abrem o capítulo narrando o envio do grupo dos Doze para a missão, por parte de Jesus. Os versículos seguintes (v.7-9) reinsere a figura de Herodes, que reconhece ter matado o Batista, e dando a sua impressão sobre a pessoa de Jesus. Lucas volta, novamente, o foco da narrativa para os discípulos no v.10, ao narrar o retorno dos Doze da missão. Do v.11 em diante, tem-se, pois a narrativa bíblica desta solenidade.

Outro elemento que deve chamar a nossa atenção é a localização geográfica na qual se narra toda a ação de Jesus até o presente momento. Ele está percorrendo a Galileia: terra de gente simples, empobrecida pelo poder vigente e pela cultura social e religiosa da época; lugar de pessoas pagãs, segundo o raciocínio do povo do sul; recôndito da marginalização e da exclusão. A narrativa que temos diante de nós apresenta, pois, o ponto alto da missão de Jesus na Galileia, a ser demonstrado pelo gesto que ele realizará a seguir. Com este episódio, Lucas recupera o dito de Jesus na Sinagoga de Nazaré, que contém o seu discurso inaugural e programático: “ungiu-me para anunciar a Boa Nova aos pobres, aos cegos a recuperação da vista, a libertação aos cativos e aos oprimidos, e anunciar o ano favorável de YHWH” (Lc 4,16).

Agora pode-se adentrar no horizonte do texto. O v.11 inicia, dizendo que Jesus levou os doze para um lugar próximo de Betsaida, deserto e afastado. Talvez para que pudessem restabelecer as energias depois de uma jornada intensa de trabalho e missão. Mas a multidão não alivia, e vai ao encontro de Jesus, que estava cuidando deles. Jesus as acolhe e começa a ensinar e curar os que necessitavam.

Até aquele momento, os discípulos tiveram contato com a vida de Jesus para poderem, futuramente, assumir a missão confiada. Ora, estamos no capítulo nono, o qual inicia a viagem de subida para Jerusalém (que é uma catequese que visa preparar bem o discípulo do reino). Mas eles demonstram não terem compreendido ainda a dinâmica da vida e da existência de Jesus. Prova disso é o fato de se aproximarem dele para pedir que despedisse a multidão, dado o lugar deserto e a hora avançada.

Lucas põe o acento na informação de ser ali um lugar deserto. Ele é mencionado, aqui, para relembrar a experiência do Êxodo dos hebreus. Da mesma forma que YHWH interveio para libertar seu povo da opressão do Egito, e atraiu-os ao deserto para alimentá-lo, o Pai atrai para Jesus o povo faminto e oprimido para alimentá-los com sua Palavra (ensinamento) e com sua ternura e cuidado (as curas). O evangelista quer ensinar para sua comunidade que, a partir de Jesus, começa um novo e definitivo Êxodo.

No v.13, Jesus ordena: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como inaugurador de um novo êxodo, Ele quer ensinar e orientar seus discípulos a saírem de si e romperem com a logica do pensar em si mesmo somente, para abri-los em relação aos outros; a quebrar com o esquema do cada um por si, muito propagado através da ideologia do império romano e pela religiosidade individualista e intimista do judaísmo da época. Através desta ordem, Jesus ensina aos seus a se preocuparem e solidarizarem-se com os outros.

Jesus vence a tentação dos apóstolos - que espelha a prática de Herodes e dos poderosos - e os desafia a buscar uma alternativa. Eles continuam agarrados ao “cada um por si...”; Jesus ordena preocupar-se pelos outros, ou seja, solidarizar-se: “Vocês é que têm de lhes dar de comer”.

Ainda no v.13, os discípulos respondem que só possuem cinco pães e dois peixes. Mas, para Jesus, isto é o suficiente. O resultado de 5 + 2 é 7, número que na teologia bíblica significa plenitude. O Jesus de Lucas quer ensinar para os seus (e para nós, hoje) que Deus dispõe tudo (da sua plenitude) para todos. Em seguida, no v.14, Jesus orienta aos discípulos que façam sentar a multidão em grupos de 50 pessoas, perfazendo um total de 100 grupos. Cinquenta e cem são números perfeitos (completos), que também acenam para a completude.

Jesus dá, então, o exemplo. “Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão” (v.16). Elevar os olhos para céu (âmbito da morada de Deus), significa orientar toda a sua ação para Deus; abençoa aqueles dons, parte e reparte-os entre os discípulos, para que fizessem o mesmo com a multidão. É Jesus quem inicia o gesto de condividir os alimentos e colocar em comum o que se tem, e este ecoa entre a multidão, que vendo o exemplo, faz o mesmo.  Por isso, esta perícope merece ser chamada de Condivisão dos pães. Pois o gesto de Jesus não é um ato mágico, senão, um apelo ao projeto de comunhão, solidariedade e partilha, que fazem parte do projeto criador e salvador de Deus.

Onde está, então, o “milagre” da multiplicação? Ele está no fato de Jesus qualificar aquele gesto de condividir (por em comum / partilhar) como sendo da vontade de Deus, através da bênção que profere sobre os alimentos. Dito de outro modo, a Bênção que Jesus profere indica que a partilha e a condivisão representam a vontade e o querer de Deus, desde a criação.

“Todos comeram e ficaram satisfeitos. E ainda foram recolhidos doze cestos dos pedaços que sobraram” (v.17). Quando a comunidade partilha e coloca em comum o que tem, realiza, então a vontade de Deus; atualiza e assume a mesma vida, existência e missão de Jesus em seu meio; alimenta (cuida e acolhe) os irmãos (a todos, e, em especial, os pobres, excluídos e marginalizados), ninguém passa necessidade e ainda superabunda. Nesse sentido, a comunidade assume uma vida eucarística no modo de Jesus.

Seria uma incoerência de nossa parte, partirmos o pão-corpo sacramental do Senhor em nossas Eucaristias, quando não partilhamos o pão cotidiano com o irmão. O que celebramos – enquanto um “nós eclesial” – em nossa liturgia deve ecoar na vida concreta. Ao nos alimentarmos do corpo e do Sangue do Senhor, somos eucaristizados em seu Corpo real e, portanto, eclesial, para sermos no mundo e na história suas mãos realizadoras da partilha, seus pés que vão ao encontro do irmão e seu coração, colocando-nos à serviço dos irmãos. Nisto consiste fazer comunhão (relação existencial, vital e sacramental) com o Corpo e com o Sangue do Senhor.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 15 de junho de 2019

Homilia para a Solenidade da Santíssima Trindade – Jo 16,12-15:




Celebra-se em toda a Igreja a solenidade da Santíssima Trindade, ao interno do tempo comum, já retomado após Pentecostes. No entanto, a liturgia ainda propõe a leitura do Quarto Evangelho. A perícope oferecida é a que se encontra no capítulo dezesseis do Evangelho segundo João. O presente texto, Jo 16,12-15, nos mergulhar na solenidade de hoje.

O capítulo dezesseis encontra-se, como já estamos familiarizados, na segunda parte do evangelho joanino. Precisamente no chamado testamento de Jesus, a grande catequese-ensino do Senhor que acontece ao redor da mesa, naquela ceia de despedida às vésperas da páscoa judaica. Ao redor da mesa, Jesus revela o conteúdo do seu testamento, ou seja, o dom da sua vida (simbolizado pelo gesto do Lava-pés, em Jo 13) e o mandamento novo do amor, através do qual a comunidade dos discípulos se pautará em viver, animada pelo Dom do Espírito. Continuando e atualizando a vida e a missão de Jesus. E, para que a comunidade tenha a força para viver conforme Seu modelo de vida promete, então, o Dom do Espírito.

O texto proposto pela liturgia é retomado a partir do v.12. Jesus firma aos discípulos sentados ao seu redor, na ceia: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora”. O Espírito será o intérprete da vida de Jesus para a comunidade. Mas isso só será possível mediante o evento de Sua morte-ressurreição. Pois será somente a partir da ressurreição que a comunidade poderá reler a vida, missão, obra e ensinamento de Jesus, com auxílio do Espírito. A ressurreição de Jesus e o Dom de Seu Espírito permitirão à comunidade atualizar a vida e a presença do Senhor no meio deles. De fato, seria impossível compreender as coisas antes que elas aconteçam.

Por cinco vezes, durante o discurso, Jesus promete enviar o Espírito Santo quando retornar para o mundo do Pai (cf. 14,16-17.26; 15,26; 16,7-8.13), de modo que os discípulos não permanecerão sozinhos, pois através do Espírito, a presença de Jesus se eternizará no meio deles. O Evangelho de hoje contém a quinta e última promessa (CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

O Jesus joanino adjetiva o Seu Espírito como “Espírito da verdade”. Verdade no evangelho joanino significa “amor/fidelidade”. Não se trata de uma verdade abstrata, filosófica ou racional. A fidelidade/amor é o modo através do qual Jesus decide-se por viver em relação ao Pai que é amor fiel, e em relação às pessoas. Por isso, não se trata de uma verdade estática, mas dinâmica.

As “coisas futuras” que serão anunciadas não são novas revelações ou visões; significa a capacidade de ler os eventos futuros à luz da mensagem de Jesus. A comunidade cristã – Igreja – sempre encontrará situações novas e surpreendentes ao longo da história. Independente da época, deverá interpretar tais circunstâncias à luz de tudo o que Jesus ensinou. Só é possível fazer isso deixando-se conduzir pelo Espírito da Verdade (CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Evidentemente, não se trata da solenidade de Pentecoste, mas Jesus esclarece o que faz o Espírito: “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará” (v. 14). O Espírito faz a comunidade compreender que Jesus é vencedor. É o Espírito que agirá na ressurreição de Jesus, tornando sua existência e vida em existência e vida salvíficas. Ele atualiza na vida da comunidade a própria vida de Jesus.

O eco trinitário que emerge do texto de hoje encontra-se no v.15: “Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”. Vê-se aqui o tema do amor (comunhão) e da unidade existentes entre Jesus e o Pai. É sob o mistério da comunhão, amor e unidade que o Deus uno e trino pauta o seu viver desde o interno de sua vida intra-divina. Esta vida, num mesmo mistério de amor extrapola para fora da Trindade Santa e quem a revela é Jesus no Espírito.

Da vida da Trindade somos todos chamados a participar através do Batismo recebido, o qual nos dá o Dom do Espírito, que habilita a chamar Deus de Pai e Jesus de Senhor. Assim, o Espírito nos garante acesso a vida de Jesus e do Pai, porque nos leva para dentro de sua relação de comunhão e amor, para vivermos segundo a vida do mesmo Filho, inscrita em nós pelo Espírito. Ou seja, para vivermos uma vida segundo o modelo da Trindade, em amor, comunhão e unidade.

Que a vida da Santíssima Trindade, que já nos inhabita desde o Batismo, possa ser vivida através de nossa existência e mediante o testemunho de fé da comunidade cristã, a qual é espelho da comunidade perfeita formada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 8 de junho de 2019

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DE PENTECOSTES - Jo 20,19-23:




O tempo pascal chega a sua plenitude com o a solenidade de Pentecostes. O Mistério Pascal do Senhor, que compreendem os eventos de sua paixão, morte e ressurreição, engloba a ascensão e o Pentecostes. Cumprindo sua promessa, o Senhor não nos deixa sozinhos. Envia seu Espírito para performar a vida dos discípulos e discípulas de todos os tempos e lugares, inscrevendo (escrevendo a partir de dentro) neles a Sua vida.

O Pentecostes era uma das três maiores festas do calendário litúrgico judaico, juntamente com as festas da páscoa e das tendas. Era celebrada cinquenta dias após a páscoa. Na Bíblia hebraica é chamada de “festa das semanas”, pois contavam-se sete semanas após a páscoa, mais um dia, o que totalizava cinquenta dias. Por isso, ganhou o nome de “pentecostes” (em grego: πεντηκοστή – pentecoste) a partir da dominação grega, cujo significado é simplesmente quinquagésimo dia (cf. Tb 2,1; 2Mc 12,32). Como todas as festas judaicas, também pentecostes tem suas origens ligadas à vida agrícola do povo; era a festa da colheita. Os peregrinos iam a Jerusalém agradecer pela colheita, levando os melhores grãos e frutos da terra como oferta, em gratidão a Deus. Com o passar do tempo, essa festa foi perdendo sua relação com a agricultura, e foi ganhando um novo significado, com uma conotação mais religiosa. O motivo da celebração passou, então, a ser o agradecimento a Deus pelo dom da Lei ao seu povo. Na época de Jesus e dos apóstolos, esse novo sentido já estava consolidado: os judeus de todas as partes do mundo, conforme as condições, iam a Jerusalém, para agradecer a Deus pelo dom da Lei dada através de Moisés. Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos, se serve desse contexto e faz coincidir o envio do Espírito Santo com a festa judaica de pentecostes, como artifício literário e teológico, para ensinar às suas comunidades que a nova lei é o Espírito Santo. Para permanecer fiel a Jesus e ao seu Evangelho, a comunidade cristã já não necessita das prescrições da Lei de Moisés, deve apenas estar sensível e aberta aos dons do Espírito Santo (CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in. Porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

O evangelho que a liturgia de hoje nos convida a meditar encontra-se no capítulo 20 do Evangelho segundo João. Em duas ocasiões João fala do dom do Espírito neste bloco literário do Livro da Glória. A primeira ocasião é na narrativa da paixão, quando Jesus, do alto da cruz entrega – doa – seu Espírito, e nesta pequena perícope que agora visualizamos, Jo 20,19-23.

Enquanto os hebreus celebravam o dom da Lei, a comunidade cristã celebra o dom do Espírito. Com Jesus não existe mais uma lei externa ao homem a ser observada, mas uma força e dinâmica interna a acolher que irradia um dinamismo de vida e de amor. Este é o dom do Espirito.

O evangelista situa o leitor-discípulo no tempo e no espaço da narrativa, divergindo completamente da cronologia de Lucas (At 2,1-11), narrando no mesmo dia da ressurreição do Senhor o dom de Seu Espírito, porque para o autor e sua comunidade, o sistema levítico-cultual e a lei judaica, bem como toda sua tradição religiosa e liturgia foram superados por Jesus através da práxis de sua vida – há exegetas que preferem o termo substituição à superação. O autor do Quarto Evangelho não quer que a sua comunidade se paute, novamente, pelos esquemas do judaísmo. Por isso, o dom do Espírito, da parte de Jesus, acontece naquele primeiro dia da semana, o domingo pascal da ressurreição do Senhor.  O catequista bíblico rememora o fato de que os discípulos encontravam-se fechados por medo dos judeus (quando se fala de judeus no evangelho joanino, o autor se refere às autoridade do povo judeu, e não ao povo). Não era somente Jesus o procurado e tido como perigoso, mas a sua doutrina e o seu grupo também o eram.

As portas fechadas e o medo indicam a situação da comunidade: amedrontada e paralisada. O medo é o contrário da Fé, na teologia bíblica. Apesar do medo, o fato de estarem reunidos já acena para um sinal de esperança. João, por gostar sempre da técnica do contraste (luz / trevas; noite (escuridão) / madrugada (alvorecer)), realça como podemos ver, uma vez mais, a oposição e mudança entre o medo que os discípulos sentiam para a alegria que nasce a partir da manifestação de Jesus, que se coloca no meio deles (v.19a). Quando o ressuscitado se manifesta a sua comunidade, ele se coloca no meio deles. O evangelista João quer ensinar que, ao interno da comunidade todos devem referenciar a sua vida a Jesus, que é o centro e fundamento dela. Se Jesus está no meio (ao centro), então não existe maior nem menor, não existe o mais importante ou menos importante; todos são iguais.

Para que os dons do Ressuscitado sejam realmente acolhidos, é necessário que a sua centralidade na comunidade seja respeitada; isso vale para todos os tempos e lugares. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que no centro do seu existir esteja o Ressuscitado e somente Ele, pois é Ele o único ponto de referência e fator de unidade (CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in. porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

Jesus comunica o primeiro dom: “Paz a vós” (v.19b). O texto grego não permite ver este dito de Jesus apenas como uma saudação, “a paz esteja convosco”. É, antes, e acima de tudo, um dom que se comunica. A paz que Jesus comunica é aquele shalom, que corresponde a tudo aquilo que concorre para a felicidade do homem. A Paz, no ambiente bíblico, alude à plenitude da Benção (ou garantia) dos bens no tempo do Messias. O Shalom (Paz) bíblico remete ao ambiente dos sacrifícios cultuais (Shelamim), cujo pagamento (o Shalom) que o povo recebe em virtude daquele sacrifício é a Paz.  Aqui, parece implicar também a realização das promessas anunciadas por Jesus na hora da despedida: os seus haviam de revê-lo (14,19; 16,16s) com alegria (16,21s.24; cf. 15,11), e ele lhes daria a sua paz (14,27). O Jesus joanino, ao desejar a Paz (Shalom) pretende ensinar que através do Dom de sua vida vivida, em amor até o fim, tudo encontra-se “pago”, “quitado”. As promessas feitas encontram-se cumpridas, ninguém deve mais nada! Tudo encontra-se plenificado ou superado (cf. KONINGS, 2005, p. 355).

Em seguida, mostra-lhes as mãos e o lado, os sinais de sua paixão morte. O crucificado é o ressuscitado. Ele carrega consigo os sinais de sua paixão e morte, reafirmando aos discípulos que há uma continuidade de identidade. Não se trata de outro Jesus, mas o mesmo Jesus de Nazaré, crucificado, e agora, ressuscitado. O crucificado é o glorificado, e mais uma vez João opera seu contraste. Vendo isto, os discípulos ficaram alegres, por verem o Senhor. Os discípulos passam do medo à alegria ao verem os sinais da vida de Jesus, as mãos e o lado.

É importante recordar: Nas mãos e no lado de Jesus está a sua identidade de quem viveu para servir e amar. As mãos são símbolo e recordação do serviço e de todo o bem que Jesus fez: são as mãos que tocaram em leprosos, mesmo sendo proibido (cf. Mc 1,40), mãos que acariciaram crianças, gerando revolta nos discípulos (cf. Lc 18,15-16; Mt 19,13-15), mãos que abriram olhos de cegos (cf. Jo 9,6), mãos que curaram enfermos e expulsaram demônios (cf. Lc 4,40; 13,13), mãos que lavaram os pés dos discípulos (cf. Jo 13,1-12); enfim, são mãos que promoveram a vida e combateram o mal. Também o lado, ou seja, o peito aberto, tem o mesmo significado de continuidade: é o mesmo coração com o qual Ele amou-os infinitamente (cf. Jo 13,1), e continua amando da mesma forma. As mãos e o lado de Jesus são a síntese da sua vida, da sua mensagem e da sua práxis (CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in. porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

Novamente Jesus comunica a Paz. Mas desta vez, o dom da paz que Ele comunica é para que os discípulos a comuniquem aos outros. Em seguida, acrescenta: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (v.21b). O Pai enviou a Jesus para manifestar visivelmente sua Glória. Ou seja, sua presença através da vida vivida em amor até o fim. O Pai enviou o Filho para manifestar seu Amor. E este amor foi manifestado através de uma vida que se coloca a serviço em amor gênero pelos outros. O que Jesus manifestou e visibilizou no episódio do lava-pés. “Eu também vos envio”: a comunidade toma parte da missão da vida e missão de Jesus. Mas o dever da comunidade não é o de ir a anunciar, propor ou impor uma lei ou doutrina, e sim comunicar o amor. Como o Pai enviou o Filho para manifestar o seu amor, a comunidade, deve ser a testemunha visível do amor generoso e doador de vida do Pai e do Filho, que se torna serviço aos irmãos.

Em seguida, Jesus sopra sobre os discípulos: “E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (v. 22). Gesto que o evangelista toma e assimila do Livro do Gênesis, quando da narrativa da criação (Gn 1,1 – 2,25), o Senhor sopra nas narinas do homem formado do barro, um sopro de vida, que o faz um ser vivente. O gesto de Jesus, narrado por João, trata-se uma recriação. A ressurreição e o Dom do Espírito são os sinais efetivos da nova criação realizada em Cristo Jesus. E, diz: “recebei o Espírito Santo”. No texto grego, não aparece o artigo definido masculino “o Espírito”, mas “Recebei Espírito Santo”. Jesus havia dito anteriormente que daria o Espírito sem medida.  O dom do Espírito é total. Ele é o Dom em plenitude. É Santo não pela sua qualidade divina somente, mas por aquilo que realiza: santifica. Santo, na teologia bíblica, significa separado. Mas separado para que e de quem? Santo é tudo aquilo ou todos aqueles que são separados do maligno. O Espírito é Santo porque separa da esfera do mal a pessoa que O acolhe, para fazer vive-la no projeto de Deus, que é dinamismo de amor e vida plena.

“A quem perdoardes os pecados, estes lhes serão perdoados. A quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (v.23). Como entender estas palavras de Jesus? Comecemos pelo termo Pecado. Pecado na bíblia não significa propriamente uma atitude moral, ou mesmo a culpabilidade moral da pessoa. Mas, primeiramente a atitude de não-escuta da Palavra de Deus, que leva à situação de injustiça. Ou seja, pecado refere-se a situação de passado injusto (de não-vontade de Deus) do individuo. Nesse sentido, Jesus não está dando um poder a alguns, mas uma responsabilidade a toda a comunidade cristã.

A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o Ressuscitado com a sua paz, suas mãos e seu coração; e é o Espírito Santo quem a habilita a fazer isso (CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in. porcausadeumcertoreino.blogspot.br).

A comunidade cristã deve ser luz e irradiar esta luz de vida e amor para a humanidade, de acordo com a vida e o amor de Jesus. Todos aqueles que veem, recebem e assimilam a vida, o amor e o testemunho da comunidade e são atraídos por este amor e vida de Jesus, aderindo a ele, tem o seu passado injusto cancelado. Aqueles que renegam este modo de vida e amor de Jesus irradiados pela comunidade permanecem nas traves e sobre o domínio do pecado. Mas os pecados ficarão retidos também quando houver omissão da comunidade da vida e do testemunho da comunidade cristã.

Nesse sentido, o envio e o mandato que Jesus confere à comunidade não são para julgar ou condenar, mas oferecer a todas as pessoas uma proposta de plenitude de vida. Desta vida no Espírito de Jesus somos tornados participantes pelo batismo-crisma: fomos investidos pelo Espírito, que inscreve a letra de Cristo na página de nossa vida, para vivermos a própria vida do Senhor. O Espírito Santo inscreve (escreve a partir de dentro) Cristo em nós. A este Dom que o Senhor nos dá, chamamos Graça. A Graça é Cristo em nós através de seu Espírito, que nos faz filhos no Filho, a fim de vivermos como este mesmo Filho de Deus.

O texto nos questiona: 1) Estamos celebrando o Pentecostes. Já faz cinquenta dias que estamos envolvidos pela ressurreição do Senhor. Por isso, qual a nossa condição e predisposição interior: amedrontados e fechados (paralisados na vida da fé e na missão), ou alegres e reedificados na Fé, pela virtude do Ressuscitado, que é seu Espírito em nós? 2) Nossas comunidades encontram-se ressuscitadas e animadas conforme o Espírito, ou seja, conseguem testemunhar Cristo Ressuscitado para o mundo, e, com isso, viver a missão confiada?

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 1 de junho de 2019

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Lc 24,46-53 (ano C)




O tempo pascal encaminha-se para sua conclusão. A liturgia da Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor. A comunidade eclesial professa a plenitude da ressurreição do Senhor. O Senhor ressuscitado, ao retornar para o âmbito (esfera e mundo) de Deus leva consigo a natureza humana. Ele não volta sozinho para o Pai, mas leva a nossa humanidade com Ele e a orienta para seu fim último e definitivo: a vida de Deus.

A liturgia nos propõe o texto de Lc 24,46-53. Estamos no último capítulo do evangelho segundo Lucas, que iniciou com o relato do anúncio da ressurreição às mulheres, seguido da manifestação do Senhor ressuscitado aos discípulos na estrada de Emaús (Lc 24,12); narrando-se depois a manifestação à Simão e à toda a comunidade (Lc 24,34ss), até chegar à conclusão narrativa que temos diante dos olhos.

No v.46, o evangelista nos informa que Jesus explicou o sentido das escrituras aos discípulos, após comer com eles, recordando que o Cristo deveria sofrer, mas ressuscitar ao terceiro dia. Esta recordação de Jesus corrobora a fala do mensageiro celestial às mulheres logo na introdução do capítulo. Elas deveriam, juntamente com o grupo dos discípulos, recordar o que Jesus havia dito sobre o seu destino. Para se fazer a experiência com o ressuscitado, a comunidade deve fazer a memória atualizadora da vida e da missão de Jesus. Fazer memória significa atualizar sua presença assimilando na vida cotidiana a exemplaridade da vida de Jesus.

Mas Lucas toca no tema do cumprimento das escrituras. É importante que os discípulos, que ainda estavam apreensivos e decepcionados com os últimos acontecimentos, acolham o desfecho final da vida de Jesus como cumprimento das Escrituras. Só assim, poderiam aceitá-lo como o Cristo e proclamá-lo, como fizeram depois (cf. CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Nos vv. 47-48, o Jesus de Lucas toca no tema da missão. A missão da comunidade consiste em oferecer e testemunhar a reconciliação realizada por Jesus à todos os povos. O evangelista trabalha aqui com um tema que lhe é muito caro, a universalidade da salvação: a salvação é para todos, indistintamente. Ninguém fica excluído dela. A missão é testemunhar a misericórdia de Deus através do dom da vida de Jesus. Assim, a comunidade assimila, vive e testemunha a missão de Jesus quando ela mesma assume a exemplaridade da vida dele.

O que Jesus fez deverão fazer seus discípulos. Para que os discípulos e a comunidade vivam profundamente a vida e missão de Jesus, devem ser revestidos da “força do Alto”: o Espírito Santo. Ora, a vida de Jesus foi toda pautada e conduzida pelo Espírito de Deus. No Evangelho de Lucas, tudo o que Ele realiza e vive, o faz segundo o Espírito. No relato do Batismo, é o Espírito que o investe para missão. No deserto, é o Espírito que o conduz. Na Sinagoga de Nazaré, declara-se ungido pelo Espírito. É por este momento que os discípulos deverão esperar, pela vinda da força do Alto. O evangelista usa do termo grego dynamis. A força (dynamis) do Alto é o dinamismo de vida que anima e move a vida dos discípulos e da comunidade para viver a missão, vivendo a vida mesma de Cristo.

O evangelista descreve a cena seguinte (a ascensão, propriamente dita), narrando a atitude de Jesus de “levar para fora” da cidade os discípulos, próximo à Betânia. Dois detalhes devem chamar nossa atenção. Lucas emprega um termo que alude ao tema do Êxodo. No relato da transfiguração (Lc 9), as duas personagens Moisés e Elias conversam com Jesus sobre o êxodo que ele realizaria através do dom de Sua vida, de sua Páscoa. Agora, o evangelista mostra para a sua comunidade a realização deste Êxodo. Outro detalhe é a localização, perto de Betânia. Seguir na direção de Betânia significa tomar o caminho contrário à Jerusalém; aquele caminho da entrada triunfante de Jesus na cidade santa, na ocasião da Páscoa. Se, de Betânia Jesus marcha para sua paixão e morte de cruz, seu êxodo de morte e vida, agora, na direção contrária de Jerusalém ele marcha definitivamente para junto do Pai.

Lucas narra um gesto de Jesus enquanto é levado para o alto. É a primeira vez que o evangelista narra Jesus abençoando e este gesto coincide com sua exaltação à direita de Deus, sua ascensão. A benção bíblica não é um ato mágico, uma vez que a fé de Israel não admitia nenhum aspecto de “mágico”.  A Benção é, primeiramente, uma “bendizência”, ou seja, o ato de bendizer à Deus recordando seus feitos, aquilo que realizou em favor dos seus, para tornarem-se lugar da presença de Deus. Ela assume uma dinâmica performativa, ou seja, realiza aquilo que diz, transmitindo uma força eficaz e irrevogável. A benção bíblica (que a Liturgia eclesial assumiu em seu dinamismo celebrativo-litúrgico) comunica a essência daquele que abençoa nos que são abençoados. Assim, os discípulos, que são abençoados, difundirão a bênção e, através dela, farão novos discípulos.

Depois de abençoar os discípulos, Jesus foi elevado aos Céus. É necessário compreender a cosmologia da época, isto é, a concepção de universo, espaço e tempo do povo da bíblia. O céu é o lugar da habitação de Deus. É âmbito divino e expressa a condição divina. Aplicando essa imagem a Jesus, o evangelista pretende afirmar que Jesus cumpriu plenamente a missão de revelar a face misericordiosa do Pai. Por ter sido fiel a essa missão, isso foi levado em conta pelo Pai, que o enalteceu e o justificou, ao entronizá-lo a sua direita. Ação de elevar o Filho é realizada pelo Pai (“foi levado para os céus” encontra-se na voz passiva, que indica que a ação em relação ao Filho foi realizada por Deus-Pai), assim como a ressurreição.

A sua elevação não é outra coisa que retornar ao âmbito do divino. Aquele homem que havia sido condenado como blasfemo, e morto pelas lideranças religiosas e políticas, agora está à Direita de Deus. Porque Ele mesmo assim o quis. É uma maneira que o evangelista encontra para dizer que o Crucificado pertence a esfera da divindade.

Mas esta elevação-ascensão de Jesus não é uma separação ou um distanciamento do homem. O mistério deste acontecimento pretende mostrar que Ele leva com sigo a nossa humanidade, porque a fez sua, elevando e glorificando a Carne e a Natureza humana. E mais ainda, desde a plenitude de sua divindade colabora com a atividade dos seus.

“Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (vv.52-53). Adorar é o gesto característico do reconhecimento do senhorio de Jesus. Sabem que Jesus é realmente o salvador, por isso expressam uma “grande alegria”, sentimento semelhante ao dos pastores com o anúncio do nascimento (cf. Lc 2,10). Essa “grande alegria” é uma característica essencial do discipulado, na perspectiva de Lucas; fora antecipada no início do livro por Maria (cf. 1,47), pelos pastores e pelos anjos (cf. 2,8-20), e agora toma conta dos discípulos e, através deles, se estenderá por todo o mundo (cf. CORNELIO, F, Homilia dominical, in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

O Evangelho de Lucas começa e termina no Templo de Jerusalém. De fato, após o prólogo, encontramos Zacarias oficiando no Templo (Lc l,5ss): é o tempo de Israel que, aos poucos, dá lugar ao tempo do Espírito que anima a comunidade cristã, a fim de que ela saiba atuar na mesma perspectiva libertadora de Jesus, segundo o Seu Espírito que inscreve no homem a vida do Senhor.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 25 de maio de 2019

HOMILIA PARA O VI DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 14,23-29:


Adentramos no sexto domingo do tempo pascal, seguindo com a leitura do testamento de Jesus no Evangelho segundo João, o qual constitui o seu grande ensinamento sobre o mandamento (dinamismo) do amor, e sobre a entrega da própria vida.

A liturgia propõe para a nossa meditação o texto de Jo 14,23-29. Sabe-se que esta pericope insere-se no livro da glória, a segunda parte do Quarto Evangelho, onde Jesus revela aos discípulos que chegou a hora da glorificação do Filho do Homem. Esta hora decisiva revela-se na Cruz. Ali, Jesus leva a termo a sua Obra, a obra que recebeu do Pai, que através do gesto livre da doação da vida do Filho revela, pois, todo o seu Poder, seu ser e seu agir.

Qual a finalidade de Jo 14, 23-29 para a comunidade dos discípulos, para a geração posterior e para nós, hoje? Fundindo os dos horizontes, o da comunidade dos discípulos e o da comunidade de joanina (a geração posterior dos fieis, na qual inclui-se todo o fiel-discípulo e leitor do Evangelho), a pragmática do texto atinge seu ápice quando a comunidade cristã lê (assimila e adere) o testamento/ensinamento de Jesus como sendo seu plano e projeto de vida, pautando o seu agir e sua identidade no modo de vida de Jesus, em seu ensino e em sua missão. Nesta perspectiva, a comunidade tem as ferramentas (os meios) para viver constantemente o convite e a realidade de uma vida ressuscitada garantida pelo dom do amor do Senhor e por seu Espírito.

Antes de tomarmos o texto de hoje, se faz necessário que nos versículos anteriores, Jesus prometeu o Espírito Santo aos discípulos. O Espírito Santo é o espírito de Jesus (Espírito do Ressuscitado) e do Pai. É o dinamismo de vida do Pai e do Filho, que doado por ambos dá vida, filiação e amor. É aquele que garante a continuidade da vida e a presença de Jesus para a comunidade. Mas esta presença se dá em virtude da vivência do mandamento do Amor. Jesus prometeu manifestar-se à quem ama como (e porque) ele ama. Assim, poderemos entrar no horizonte do texto.

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou” (vv.23-24). Jesus afirma a importância do amor e de guardá-lo como mandamento/Palavra. O Pai e Jesus se manifestam na vida daqueles que amam do mesmo modo de Jesus. Todavia, Ele, a esta altura do testamento estabelece uma condição para receber e participar do amor: amar a Jesus para receber o amor do Pai.

Mas amar a Jesus (viver a mesma vida que a dele) também o critério para saber se a sua Palavra é, de fato, guardada, ou seja, vivida. O verbo bíblico guardar (hbr. Shama) não significa reter para si, mas observar, no sentido de cumprir/viver o mandamento ou a Palavra de Deus. Só o amor pode motivar a adesão à Palavra/mandamento do amor de Jesus. Só aquele que decide-se por amar é que escuta e vive do amor.

Jesus assegura novamente: “o defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (v.25). Na teologia do Quarto Evangelho, o Espírito é defensor; tem a função de ensinar e recordar. O Espírito Santo é aquele que inscreve (escreve a partir, e, desde dentro de nós) a vida mesma de Jesus em nossa vida. O Espírito é a letra de Cristo que escreve no livro da vida humana a vida de Jesus. Ele tem a função de ser o defensor. O termo que João emprega é paraklétos (gr. Pará = junto de, ao lado de / kalein (kaleo) =  chamar), que significa “estar junto de”. Assim, o Espírito de Jesus está ao lado do fiel para que ele possa assumir o modo de vida de Cristo. Outras duas funções apresentadas, a de ensinar e renovar. Há que se ter presente que ambas as funções querem dizer a mesma coisa: atualizar. Ora, o verbo “recordar” na fé e tradição do Antigo Testamento é a memória bíblica. Fazer memória significa atualizar: tornar presente no hoje o ensinamento, a missão e a vida mesma de Jesus. O ensinar/recordar são duas atitudes imprescindíveis para a vida da comunidade, que necessitam da disciplina e da fidelidade dela. São as atitudes daqueles e daquelas que vivem a novidade do convite à vida ressuscitada e dela dar testemunho.

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe o vosso coração” (v. 27). Jesus fala da paz. É preciso entender de quê paz ele fala. É daquela que, no Antigo Testamento está associada à posse da terra prometida. Como consequência da posse da terra da promessa, o povo conquista a paz. Mas ela é dom e garantia do tempo do Messias. Significa que a espera acabou e que a promessa foi cumprida. Mas no Novo Testamento, a posse da terra da promessa começa se dá num modo de relacionar-se com Jesus. Nesse sentido, Jesus é a terra prometida. O Novo Testamento apresenta Jesus como a terra segura para o discípulo. Cristo é a terra da promessa cumprida. Então, para os discípulos de Jesus, a Paz é um modo de ser e de existir. É o modo de estar/ser em Cristo.

A paz que Jesus dá e comunica é Ele mesmo. Um modo de ser e de existir que é superior à “pax romana” (se queres paz prepara-te para a guerra), é aquela que visa oprimir, dominar, subjugar para manter a ordem, principalmente contra as minorias. A paz judaica é aquele típico bem estar.  A Paz que Jesus dá supera estes pensamentos romanos e judaicos.

Na certeza de que Jesus e o Pai fazem morada em quem vive o mandamento do amor, e ainda confere o Espírito Santo para ficar junto, ensinar e recordar tudo o que Ele mesmo ensinou, cabe aos discípulos e discípulas de todos os tempos, o esforço para que tudo isso seja manifestado também ao mundo. A condição para que isso aconteça é a vivência do mandamento do amor (CORNELO, F, Homilia dominical, in, porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Pe. Joao Paulo Sillio.

Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 18 de maio de 2019

HOMILIA PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 13,31-35:




O evangelho deste Quinto Domingo do tempo pascal retoma a narrativa da ceia de despedida de Jesus, no Quarto Evangelho (Jo 13,1-38). Estamos ao interno do chamado Livro da Glória. O texto de Jo 13,31-35 situa-se após o gesto profético do lava-pés, o gesto simbólico da vida de Jesus levada até as últimas consequências; do anúncio da traição de Judas e do prenúncio da negação de Pedro.

Mas, no horizonte da catequese joanina, o texto de hoje encontra-se no bloco denominado testamento de Jesus (Jo 13 – 17), sendo quatro capítulos narrados ao redor da ceia, evento que não pode ser visto como ocasião para consumo de alimentos, muito menos resume-se na vivência de um rito, tampouco uma mera confraternização. A ceia é o lugar da partilha e da comunhão de vida entre o anfitrião e os hospedes. Por isso, o testamento que Jesus deixa aos seus se dá ao interno da ceia.

 O testamento de Jesus é o ensino fundamental destinado ao discípulo que se decidiu pelo mestre. O conteúdo do seu testamento é o da revelação de Deus através da sua vida, mediante a sua doação e do mandamento do Amor. É sobre este conteúdo que a comunidade de João e as gerações futuras deverão se debruçar. Por isso, a nível de catequese litúrgica, a liturgia da Igreja oferece este texto para a meditação a fim de que as comunidades de todos os tempos, tendo feita a experiência com Jesus ressuscitado, possam pautar a sua vida ressuscitada nos seus ensinamentos.

Somente vivendo a partir do modo de vida de Jesus a comunidade continuará a experiência da ressurreição. Por isso, a liturgia nos convida a assumir este modo de vida através da meditação/contemplação desta narrativa. Vamos ao texto.

No v.31 temos uma delimitação importante: a saída de Judas. Ele se decidiu por romper com o grupo, com Jesus e com seu projeto. Ele optou por não aceitar a dinâmica do lavar os pés. Escolheu as trevas (por isso João situa estes acontecimentos no período noturno). Somente depois da saída de Judas Iscariotes é que Jesus deixa o seu testamento para os seus. Só pode assumir e receber – tomar parte – do testamento de Jesus aquele que comunga do seu modo de vida. Ao mesmo tempo, no horizonte do evangelho segundo João, a saída de Judas do grupo é o que desencadeia o ensinamento de Jesus sobre a Hora da Glória.

O v.32 toca precisamente no tema da Glória (da glorificação) de Jesus, a qual é o lugar tenente da Glória de Deus. O tema da Glória no Quarto Evangelho é importante e perpassa a obra joanina do começo ao fim. Glória, aqui, não significa brilho/esplendor. O evangelista serve-se do pano de fundo do Antigo Testamento, trabalhando com o termo hebraico Kabod, o qual se traduz por Glória, mas no sentido de “presença”. Assim, a Glória de Deus outra coisa não é que a sua presença substanciosa na história. Na teologia do evangelho de João, a vida de Jesus torna-se o lugar da presença de Deus. Com efeito, a Glorificação do Filho do Homem, da qual fala Jesus é o ato de manifestar a presença de Deus através do dom da sua própria vida na Cruz. Por isso, é na Cruz que Deus revela todo o seu poder, sua presença e seu Ser no Crucificado.

Jesus assume para si a missão e identidade da personagem apocalíptica do Livro de Daniel (Dn 7,10), que na época de Jesus evocava um ser glorioso e potente. Geralmente, Jesus relaciona essa imagem ao seu sofrimento, tanto aqui em João quanto nos sinóticos (cf. Mt 17,22; 20,18; Mc 9,12.31; 10,33; Lc 9,22.44), contradizendo o uso recorrente no seu tempo. Em João, especialmente, glorificação e sofrimento são termos que se completam reciprocamente, quer dizer, glória e paixão estão intrinsecamente relacionadas (cf. CORNELIO, F, Homilia dominical, in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

O evangelista, no texto grego serve-se da voz passiva, a qual indica Deus como o agente  realizador da ação (“passivo teológico ou divino”). O termo “glorificar” pode ser entendido, ainda, no sentido de “manifestação da glória”, revelação da presença divina: “Foi glorificado o filho do Homem, e Deus foi glorificado nele”. Ora, a glória de Jesus, enquanto Filho consiste em realizar os propósitos do Pai. A glória do Pai, por sua vez, é ver o Filho sendo-lhe fiel mediante o amor até o fim (cf. KONINGS, 2005, p. 269).

Mas só poderá tomar parte da glorificação de Deus em Jesus os que são tidos como “filhinhos”, ou seja, aqueles que aderiram e aderem ao projeto e à vida de Jesus: os iniciados na Fé. É a linguagem do Mestre para com os discípulos. Mas “filhinhos” é também o termo que 1Jo 2,1.12.28 etc. usa para se dirigir aos fiéis. Jesus fala agora aos fiéis como se já constituíssem uma comunidade eclesial (cf. KONINGS, 2005, p. 270).

Os filhinhos recebem, pois uma novidade de vida: um Novo mandamento. “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (v.34). Existem dois adjetivos que correspondem a “novo”: o primeiro deles, “néos” (gr. νέος) significa algo novo que se soma ao que já existe; o segundo kainós (gr. καινός) significa algo novo que substitui o velho, superando-o e fazendo-o desaparecer. É esse segundo termo que João usa aqui. Portanto, o mandamento novo dado por Jesus não vem a ser um acréscimo à antiga Lei, mas a sua completa superação. Quer dizer que, vivendo esse mandamento, a comunidade não necessita de nenhum outro. É esse o modelo de amor que a comunidade cristã deve assimilar e reproduzir.

O interessante é que Jesus não dá como testamento para sua comunidade um conjunto de normas ou ritos somente. Sim, é verdade que no "tomar e comer, e no tomar e beber", Ele nos dá a ordem de iteração "fazei isto em memória de mim", para que celebre-se sempre a sua vida através dos dons sacramentais. Mas a liturgia e o rito só adquirem a real eficácia quando verificados através do modo de vida de Jesus. E, ao mesmo tempo, os sacramentos atingem sua finalidade a partir do momento que inscrevem a vida de Cristo em nós. Por isso, seu testamento não é só delimitado pelo rito ou pelo preceito. Ele nos deixou um Mandamento novo, um modo de ser, agir e existir. Somente em João o mandamento do amor é dado com essa radicalidade e com este exemplo, ou seja, o amor de Jesus. Diante disso, a novidade apresentada pelo evangelista se torna ainda mais evidente, pois Jesus não reivindica nada para si e nem para Deus, o Pai; pede apenas amor recíproco entre os membros da comunidade: “amai-vos uns aos outros”; nesse amor recíproco entre os discípulos, obviamente, estará o amor a Deus, pois é Ele a fonte do amor e, consequentemente,  Jesus, o revelador do amor do Pai. O critério do amor que deve ser vivenciado na comunidade é o seu: “como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. O qual não é um amor qualquer, mas é aquele amor capaz de dar a vida pelo próximo, cuja expressão visível é o serviço (cf. Jo 13,15).

A vivência deste Amor de Jesus torna-se o critério para reconhecer as comunidades e os discípulos de Jesus, “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Assim, se faz necessário questionar-nos um pouco: 1) Será que poderemos nos reconhecer entre os filhinho, aos quais se dirige Jesus, ou estamos ainda na dinâmica existencial de Judas, que rompeu com a comunhão e com projeto de vida e amor de Jesus? 2) Poderemos ser distinguidos e identificados através do Amor existencial de Jesus que deve permear e performar a nossa vida? 3) Nossas comunidades alimentam-se e balizam-se pelo mesmo amor de Jesus, sendo sinais e testemunhas deste Amor?

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 11 de maio de 2019

HOMILIA PARA O IV DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 10,27-30.




O texto que a liturgia deste quarto domingo da páscoa nos propõe encontra-se em Jo 10,27-30. O capítulo décimo do evangelho de João apresenta a temática do Pastoreio (com destaque para a alegoria do Pastor Exemplar, ou “Belo Pastor”, dos vv.11-18). Este tema era muito presente na vida de Israel. A imagem do pastor/pastoreio e do rebanho nutria a fé do povo de Deus. É importante, primeiramente, saber que o rebanho/ovelha é um símbolo aplicado ao povo. Já a imagem do pastor era atribuída ao próprio Deus. Mas, no decorrer da história foi sendo atribuída às lideranças do povo, os reis e sacerdotes, a alcunha de pastores (guias). Mas, a história mostrou que esta função não foi desempenhada “segundo o coração de Deus (cf. Ez 34)” pelas mesmas lideranças.

Tendo compreendido um pouco do contexto do pastoreio/pastor, rebanho/ovelhas se faz necessário adentrar no contexto próximo (lugar literário onde o texto está situado) para entender o discurso de Jesus. Por isso, devemos voltar o olhar para o capítulo nono, o sinal realizado por Jesus na cura do cego de nascença.  O Sinal em Jo 9 consiste na revelação de Jesus como sendo o enviado (hbr. siloé) para trazer a Luz para o mundo. O cego de nascença é, ao mesmo tempo, instrumento através do qual Jesus revela a Glória de Deus, e metáfora para as lideranças do povo, as quais estavam cegas, optando conscientemente em não querer ver a Luz de Deus que se manifestava em Jesus de Nazaré, e cegadas, igualmente pelo poder, pelos privilégios e pela mentalidade mundana. Tal é corroborado pela postura destas lideranças judaicas. As lideranças do povo, que deveriam cuidar, acolher, promover-lhes a vida e a dignidade, acabavam expulsando do meio deles a gente simples do povo, aqueles que representavam-lhes alguma ameaça, ou, porque, simplesmente viviam fora de seus padrões. Sabendo disso, Jesus vai ao encontro do ex-cego (Jo 9,35-37).

Nesta alegoria do Bom Pastor, o evangelista opera um contraste entre as lideranças do povo, que agiam na contramão do projeto de Deus, e Jesus, que age segundo o coração (de pastor) de Deus, mostrando-se um pastor exemplar, que realiza aquilo que as lideranças do povo deveriam fazer, e não faziam.

O contexto imediato do texto – onde a cena encontra-se situada – é o da festa da Dedicação. É verdade que há uma mudança de cenário e de festa religiosa. O evangelista situa Jesus nos arredores do templo, num clima de inverno, por ocasião da festa da dedicação do templo. Embora não fosse tão frequentada como as três maiores festas judaicas (páscoa, pentecostes e tendas), a festa da dedicação também atraía um número considerável de peregrinos a Jerusalém. Essa festa foi estabelecida por Judas Macabeu no ano 165 a.C., para celebrar a vitória dos macabeus sobre a dominação grega e a nova dedicação do templo e do altar, já que esse tinha sido profanado pelos gregos (cf. 1 Mc 4,36-59); desde então, essa festa entrou no calendário judaico. Acontecia em Jerusalém e durava uma semana; o texto profético utilizado na liturgia dessa festa era o capítulo 34 de Ezequiel, texto em que o profeta faz uma enfática denúncia aos maus pastores de Israel. Esses apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2). Por isso, de acordo com o profeta, Deus tomou a iniciativa de destituir os maus pastores e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11) (cf. CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Antes de tomarmos os versículos em questão é importante recapitular, pelo menos, três ditos de Jesus. O primeiro é o contido no v.7: “Amém, amém, eu vos digo: eu sou a porta das ovelhas”. Jesus, após contar a parábola do redil das ovelhas, declara ser ele mesmo a porta pela qual devem passar as ovelhas. Jesus quer dizer que para pertencer ao rebanho (ser discípulo) e possuir a vida eterna, isto é, do dom de Deus oferecido em Jesus é necessário primeiro passar (aderir) por Jesus. Outro dito encontra-se no v.11, onde Jesus declara, “Eu sou o Bom (gr. Kalós / Belo ou ideal) pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”. Ora, só quem passa pela porta que é Jesus pode ser do seu rebanho e viver do dom da vida que Ele dá. E poderá assimilar também o ser pastor com-Jesus. Mas só se, primeiro, passou por Jesus. Por fim, o terceiro dito é o que nos inserirá no horizonte do texto: “Vós, porém, não me acreditais, porque não sois das minhas ovelhas” (Jo 10, 26). Jesus diz estas palavras aos lideres do judaísmo (fariseus e sacerdotes) dada a recusa de aceitar a novidade escatológica da presença de Deus em Jesus, e ser Ele o enviado de Deus. Contextualizado o texto de hoje, então podemos toma-lo em sua inteireza.

No v. 27, Jesus declara: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. Ele indica aqui a condição para ser “ovelha” (discípulo) de Jesus: ouvi-lo e segui-lo. Ao dizer as condições necessárias para ser discípulo e, portanto, participar do redil, Jesus denuncia que os lideres do povo não fazem parte de seu rebanho, porque não aceitam nem querem escutá-lo, tampouco segui-lo. Escutar e seguir são dois verbos-chaves para a compreensão da mensagem de Jesus. O verbo “escutar”, no ambiente bíblico, não significa simplesmente a capacidade ou faculdade biológico-física da percepção de um som ou ruído, mas é acima de tudo dar adesão completa àquele que fala, é deixar-se transformar e, consequentemente, conduzir-se pelas suas palavras.

Acontece que a atitude da escuta orienta para outra ação fundamental do discípulo, o seguimento. O seguimento proposto por Jesus, como consequência da escuta, significa seguir as mesmos caminhos dele, com liberdade e disposição. Os interlocutores de Jesus não viviam a dinâmica do “escutar-seguir”; apegados aos ritos e preceitos, tinham sido instruídos a obedecer e cumprir normas, apenas. Ao invés de cumpridores de ordens, fazer parte das ovelhas de Jesus é ser descobridores de estradas, buscadores de novos horizontes. O Deus pregado no templo era um soberano que, através de seus representantes ditos pastores, a casta sacerdotal, ditava normas do alto; apresentando-se como pastor, Jesus revela que Deus age de maneira completamente diferente: caminha a frente, não dá ordens, apenas aponta a direção; quem escuta a sua voz e o segue, torna-se íntimo dele (cf. CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

No v.28, Jesus garante que as suas ovelhas recebem o supremo dom que Ele pode doar, a “vida eterna”, a garantia de que elas jamais se perderão ninguém poderá tirá-las de suas mãos. O que seria esta vida eterna da qual fala Jesus? A vida da era eterna é a vida que pertence ao âmbito de Deus. Não é continuação desta mesma vida. Mas um dom superior em qualidade e em dinamicidade que está em Deus mesmo. Todavia, ela não é um prêmio dado àquelas pessoas boas no futuro.

A opção por Jesus e ao seu Evangelho simbolizada pela escuta da sua voz e o seu seguimento, eterniza a vida. Não é uma vida para o pós-morte, mas é uma vida tão plena, tão cheia de sentido e autêntica, a ponto de nem a morte poder destrui-la. É a vida presente que se torna eterna à medida em que a pessoa se deixa conduzir pela voz de Jesus. Ora, o próprio Jesus, mais adiante, afirmará que a vida eterna consiste no conhecimento dele e do Pai (cf. Jo 17,2-3). Portanto, quem ouve a sua voz lhe conhece e, por sua vez, conhece também o Pai, já que Ele e o Pai são um (v. 30). Logo, vida eterna é a vida de todo homem e toda mulher que escuta a voz de Jesus e abraça o seu seguimento. Tem-se, em Jesus, e, a partir dele, a oportunidade de se viver uma vida em tons de eternidade, e, portanto, ressuscitada, desde já!

“Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” (29-30). Nestes dois versículos Jesus declara que o que vale em relação ao Pai vale também em relação a Jesus: os dois constituem uma realidade só (o evangelista usa o termo no gênero neutro). Esta frase exprime solidariedade radical, mas não significa nem identidade de pessoa nem igualdade de ordem entre Jesus e o Pai (cf. 14,28) (cf. KONINGS, 2005, p. 212).

Por isso, Ninguém consegue arrancar as ovelhas da mão de Jesus (cf. v 28b) porque tudo o que está em sua mão está também na mão do Pai. A mão, na linguagem bíblica, é uma metáfora do poder protetor de Deus, da sua força e dos seus cuidados paternais e maternos (cf. Os 11,3; Dt 33,3; Is 43,13; 49,2; Sl 31,6; 95,4; Sb 3,1; Dn 5,23) (cf. CORNÉLIO, F, Homilia dominical, in porcausadeumcertoreino.blogspot.com).

Ora, o Belo Pastor do Quarto Evangelho não carrega ninguém ao colo. Pelo contrário, ele sai ao encontro das ovelhas, convive com elas, existindo um conhecimento mútuo entre eles; conduz e aponta caminhos! Da outra parte, os que aderem a Jesus, assumindo a condição de ovelhas devem apresentar a característica da escuta e manifesta-la através do seguimento a Jesus.

Por isso, o evangelho de hoje nos questiona: 1) Somos verdadeiras ovelhas de Jesus? 2) Temos ouvido (aderido) à voz (evangelho e vida) de Jesus e, portanto, seguido a exemplaridade da vida do Pastor Ideal?

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu-SP