sábado, 26 de novembro de 2022

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO - Mt 24,37-44

 


A Igreja inicia um tempo litúrgico e com ele um ciclo de leituras bíblicas evangélicas retiradas do evangelho segundo Mateus aos domingos. Este tempo chamado de advento é marcado pelas dinâmicas da espera, da vigilância e também pelo constante apelo à conversão. Ele se divide em dois ciclos: os dois primeiros domingos, e, consequentemente as duas primeiras semanas são marcadas pela temática da segunda vinda do Senhor. Por isso, as celebrações semanais e dominicais serão iluminadas por textos bíblicos de caráter escatológicos, isto é, que tratam de temas relacionados ao fim, às renovações históricas e cósmicas, e, por isso, revestidos de uma linguagem pura e essencialmente simbólica. O tempo do advento tem a intenção pedagógica de ensinar a partir dos dois primeiros domingos, que tratam da segunda vinda de Cristo, precisamente que é para esta segunda vinda que devemos esperar e nos empenhar. Uma vez que a primeira vinda do Senhor, no Santo Natal, nós já o celebramos constantemente na liturgia. Os dois últimos finais de semanas, que já estarão praticamente no segundo ciclo do advento, de 17 a 24 de dezembro, já tocarão na temática da primeira vinda de Jesus celebrada litúrgico-sacramentalmente através das solenidades do Santo Natal.

O texto que temos para a nossa meditação é um pouco difícil. Não por sua interpretação, mas devido ao fato de que ele está fora de seu contexto próximo. Sempre se correrá o risco de interpretar equivocadamente o texto, quando retirado do seu contexto, traindo, inclusive, as intenções do próprio evangelista. Por isso, se faz necessário contextualizá-lo. A liturgia propõe para a abertura do tempo do advento – e, do novo ciclo litúrgico – um trecho do capítulo vinte e quatro do evangelho de Mateus. Neste capítulo, o autor do evangelho apresenta o último discurso de Jesus, o “discurso final” (ou, discurso escatológico), através do qual, tratará de recuperar o ensinamento do Cristo para seus discípulos acerca eventos relacionados ao fim. Por isso, discurso final.

O tema do fim do mundo, da história e da realidade devem ser sempre refletidos e entendidos não como fim catastrófico ou trágico, mas como um convite a uma nova história. O fim na bíblia nunca é fim de um mundo, mas fim de uma época/era a fim de que outra, totalmente nova, possa surgir. Para falar do surgimento desta nova era (no sentido mais positivo do termo), os autores sagrados se servem sempre de uma linguagem com um vocabulário carregado de elementos e termos simbólicos. Principalmente quando os destinatários da mensagem estão em risco, em crise e em dificuldades, ou mesmo a fé encontra-se fria e desalentada. Esta linguagem, além de simbólica, é cifrada e codificada através de elementos já presentes na tradição religiosa da comunidade: são textos do Antigo Testamento, revestidos do gênero literário apocalíptico, que todos já conheceram uma primeira vez, e, que, portanto, não parecerá complicado para eles entender a mensagem. Os autores do Novo Testamento, cada um a seu modo, se serviram deste recurso para transmitir suas catequeses a respeito do ensinamento de Jesus sobre as coisas tocantes ao momento do fim. Assim deve ser compreendida esta parte do chamado discurso final do Senhor ao interno do evangelho mateano.

Por último, o tema do fim deve ser entendido também como “a meta”, “a orientação”, “a plenitude”. A novidade apresentada pelo Novo Testamento é justamente esta: a partir de Jesus, e, através dele, Deus inaugura o tempo pleno de seu agir. Jesus é a novidade, a ultimidade, a meta e a orientação da vida de todo o ser humano, ao mesmo tempo em que Ele apresenta a meta definitiva e plena para a qual toda a criação e o gênero humano tendem: a vida em Deus, que chamamos salvação. Nesta perspectiva é que se deve orientar a interpretação destes discursos finais de Jesus nos evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc). Eles tem a intenção de preparar, animar e chamar à reflexão os discípulos de todos os tempos e lugares para que saibam discernir e acolher os sinais dos tempos que são plenos, a fim de sempre acolher em suas vidas a novidade do Deus-conosco, presente em Jesus de Nazaré.

A fim de se compreender melhor o texto evangélico deste primeiro domingo do advento, se faz necessário lançar um olhar retrospectivo para os versículos anteriores, através dos quais Jesus dirige palavras duras contra o templo, contra a cidade santa (cf. 24,1-25), e causa desconforto nos discípulos com as mesmas palavras simbólicas referentes aos sinais cósmicos e terrestres (26-34), que geram e alimentam a expectativa deles acerca do momento em que tudo isso se realizará. Diante disso, em Mt 24,35, Jesus adverte a seus discípulos que aquela geração não passará sem que tudo isso aconteça, mesmo tendo passado o céu e a terra. E, tranquilizando a inquietação dos discípulos, declara no v.36 que, sobre aquele dia, somente o Pai tem conhecimento de quando será. É, precisamente, sobre este tema que Jesus quer trabalhar com seus discípulos, isto é, o modo (o “como”) através do qual o discípulo, se ele desejar ser, de fato, discípulo do Reino e de Jesus, deverá balizar e pautar a sua vida, e não sobre o “quando”, ou seja, sobre dia e a hora exatas em que Deus plenificará definitivamente esta história, o mundo e a vida de seus filhos e filhas; este dia Ele somente é quem sabe, portanto, isto não poderá ser o centro da ocupação e da preocupação do discípulo e da discípula. Antes, deverá preocupar o discípulo o modo e a forma como ele acolhe e vive o tempo novo e definitivo que é inaugurado em Jesus, o Cristo. Acerca deste modo, ou seja, deste comportamento, desta forma de ser e de agir, que Jesus quer ensinar os seus discípulos de ontem e de hoje através deste trecho contido em Mt 24,37-44.

“A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé” (v. 37). Jesus recuperar para seus ouvintes a realidade vivida nos tempos de Noé. O que representa este elemento simbólico do dia de Noé? O dia de Noé faz referência ao dilúvio. Este, não pode ser interpretado como o fim do mundo, mas o surgimento de uma nova humanidade, em Gn 6 – 7. A vinda do filho do homem acontece, justamente, para propor uma nova forma de vida, uma humanidade renovada. Já se sabe que esta personagem “filho do homem” pertence ao capítulo sétimo do Livro de Daniel, e se trata de um ser (humano) que realiza o querer divino na história com sua própria vida; é aquele que executa o projeto de Deus; que leva a termo o senhorio e o juízo divinos. Filho do Homem não significa a natureza humana apenas, mas a humanidade marcada pela condição divina. Com esta personagem também, é que Jesus se assemelhará, além da daquelas do servo e justo sofredor de Deus. Agora, este não é um privilégio somente de Jesus, mas uma forma de vida oferecida a todo aquele que se coloca no caminho e no seguimento a Ele ao Reino. Filhos e filhas de Deus, porque decidiram-se a viver segundo a vida do Filho, que se fez homem.

Mas, para que o dom de Deus, o tempo de uma nova vida e da renovação constantes trazidas por Jesus, não passe despercebido ao homem a mulher, a cada pessoa, estes não podem ser indiferentes ao acontecimento da vinda e da vida do Filho do Homem, como foi aquela geração do tempo de Noé, diante do apelo de Deus. Como eles viviam? Jesus mesmo recorda que, “nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (v.38). Jesus fala das atitudes de comer, beber e casar-se. E esse dito precisa ser bem entendido, de modo a evitar interpretações moralizantes e desconectadas da vida. O casamento e as refeições eram, no tempo da sociedade de Jesus acontecimentos comuns e normais. Jesus está evocando a normalidade, a cotidianidade, o comum enquanto lugar do acontecimento do extraordinário do agir de Deus, e não no extraordinário, no tremendo, no fascínio, no chamativo e gritante. No entanto, é no “aí e no agora” que Deus acontece. Sabiamente dizia Santa Teresa de Jesus (Ávila, Espanha – Séc. XVI): “Deus está entre as panelas também”.

Jesus se serve da realidade cotidiana, rotineira e comum mais uma vez para expressar a novidade do agir de Deus acontecendo na história. Ilustra a sua catequese, agora, com a imagem do trabalho, onde dois homens e duas mulheres estarão realizando seus afazeres, dentre os quais um será “levado” enquanto que o outro será deixado; e uma, das duas mulheres que trabalham na moenda será “levada” e a outra, não. Deve se ter presente que a expressão “ser levado(a)” não se refere a algo negativo ou castigo. Ela precisa ser compreendida da seguinte maneira: “ser levado(a)” significa ser “tomado(a)” da parte de Deus. Então, as duas personagens são “levadas” ou tomadas pelo próprio Deus. Significa que elas estão sendo acolhidas pelo próprio Deus porque souberam acolher Deus em meio à vida. Ora, o Reino de Deus é um convite para todos, mas pouco são os que aderem, uma vez que o ato de ser tomado/levado ou deixado da parte de Deus acontece diante da adesão e aceitação da conversão, da mudança da mentalidade e da vida.

Todavia, para que esta novidade de Deus agindo em meio a essa história e diante desta novidade de ser tomado da parte de Deus possam ser percebidas é necessária a vigilância, a qual é e sempre será uma das virtudes do discípulo que o ajudarão em seu modo de viver a vida e o seguimento à Jesus: “Portanto, ficai atentos! porque não sabeis em que dia virá o Senhor” (v.42). A vigilância bíblica não é uma espera passiva e descomprometida, mas a espera ativa/operante, daquele que sabe esperar cooperando com o projeto de Deus através de suas atitudes. É a espera comprometida com o agir; a capacidade de leitura da realidade unida à ação transformadora de Deus através de seus filhos e filhas. A vigilância cristã revela-se aquela grande virtude do discípulo de ver, discernir, e cooperar com agir de Deus que renova a história. Significa romper com a tentação dos braços cruzados, do sentar e esperar cair dos céus, ou do “tudo está garantido”. Ela confirma ainda mais esta lição de Jesus, de que o Reino é para todos, mas nem todos o abraçam. Porque, efetivamente, o deixam passar. Não se colocam atentos e esperançosos para acolher o Senhor que sempre vem. Nesse sentido, ela se torna o grande antidoto para indiferença daquela geração de Noé, criticada por Jesus, que não soube olhar e discernir nos acontecimentos da vida cotidiana e simples, rotineira e comum, os sinais dos tempos que Deus oferecia. E serve de lente histórica para ajudar a pessoa a perceber a vinda deste Deus que vem para tomar-nos para si.

Por isso Mateus encerra esta seção com um segundo apelo à vigilância, da parte de Jesus, ilustrado pela imagem metafórica do dono casa sempre atento, alerta e vigilante diante da possível vinda de um ladrão roubar/tomar lhe a casa. A espera da vinda de Deus deve ser tida como semelhante a espera do dono casa em relação ao ladrão. Certa, porém, é a vinda de Deus, não importando quando, na medida em que certa deverá ser a atitude daquele que espera, a vigilância, o modo e forma da vida do discípulo e da discípula do Reino. É com esta motivação que a liturgia nos convida a iniciar o tempo do advento, ou seja, da espera daquele que já veio uma vez e que virá uma segunda vez. 

Diante desta vinda do Senhor (sacramentalmente celebrada e vivida através da Palavra e da liturgia) estejamos vigilantes, e não indiferentes como os do tempo de Noé.

 

 

Pe. João Paulo Goes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

sábado, 19 de novembro de 2022

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – Lc 23,35-43:

 



A Igreja celebra a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Com esta celebração, encerra-se o ciclo litúrgico C, dedicado à leitura e meditação da catequese evangélica de Lucas. Por isso, nos é apresentada para a meditação eclesial o texto do “proprium” lucano das narrativas acerca da Paixão e Morte de Jesus segundo Lucas. Nesta solenidade, a sabedoria eclesial selecionou textos extraídos das narrativas da Paixão do Senhor, os quais revelam a realeza de Jesus às avessas. 

A pergunta que possivelmente poderia pairar seria, “como é possível um celebrar a realeza de uma pessoa a partir do fracasso?”, ou “Por que não mostrar a realeza de Jesus com outros textos que falam do seu retorno glorioso, ao invés destes textos que o mostram crucificado?” É bem verdade que a leitura do ciclo litúrgico A, apresenta para esta solenidade o discurso escatológico de Mt 25, através do qual o evangelista pretende mostrar como será o reinado definitivo de Deus. Os outros dois anos litúrgicos poderiam se servir de textos menos trágicos, mas optam por apresentar as narrativas concernentes à morte de Jesus na cruz, isto é, correspondem às horas finais de sua vida. Há um motivo, evidentemente.

A intenção de Lucas é a de mostrar que tipo de reinado Deus exerce em seu Cristo, e, consequentemente que rei seria Ele. Em sua narrativa da paixão-morte de Jesus, o evangelista recupera os temas que foram percorrendo e costurando sua catequese evangélica desde o início: a salvação universal, que abraça a todos, indistintamente, a qual é proclamada, a começar por Jerusalém, chegando aos confins da terra; a inclusão dos pobres e pecadores, excluídos e marginalizados; os temas da misericórdia e da graça de Deus, dos quais Jesus se torna rosto e voz da parte do Pai. Assim como as narrativas da infância anteciparam os temas da misericórdia,  da salvação universal, da inclusão dos pobres no projeto do Reino de Deus, as narrativas da paixão/morte ao apresentarem novamente estas temáticas no decurso deste bloco literário, as encerram, levando-as à plenitude, formando como que uma grande moldura que sustenta a pintura em tela do quadro do evangelho de Lucas. Isso posto, podemos meditar o texto de Lc 23,35-43.

O texto litúrgico começa a partir do v.35, situando-nos no contexto imediato, isto é, o calvário e a crucifixão. Os julgamentos diante do sinédrio (processo judaico) e o inquérito diante da autoridade romana, o procurador Pôncio Pilatos, se encarregaram de levar Jesus para ser torturado e sentenciado à pena de morte dos prisioneiros políticos, arruaceiros, subversores e revolucionários; aqueles que pudessem representar algum perigo para o Império, a crucifixão. Aos pés da cruz encontram-se os chefes religioso do povo, os soldados responsáveis pela manutenção da ordem de execução, e outras duas companhias, os malfeitores, crucificados juntos com Jesus. É importante ler os versículos seguintes em unidade.

“os chefes zombavam de Jesus dizendo: A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido! Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo! Acima dele havia um letreiro: Este é o Rei dos Judeus. Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (v.v35-39).

Os insultos que Jesus que recebe na cruz são um eco das tentações sofridas no deserto, no início de seu ministério. Por isso, estes insultos só podem ser entendidos a partir de Lc 4,1-13. As tentações foram seduções oferecidas pelo Diabo, com o propósito de fazer com que Jesus se desviasse do projeto do Pai, lhe fosse infiel, e usasse seu messianismo para benefício próprio; elas tinham a intenção de causar a divisão, a cisão, a ruptura entre Jesus e o Pai. O caminho mais fácil; a lógica do ser e do ter, do domínio, da submissão e do prestígio. Quando o tentador percebe que nada afastará Jesus da fidelidade ao Pai, em 4,13, o autor narra: “Tendo acabado toda a tentação, o diabo o deixou até o tempo oportuno”. 

Lucas coloca o calvário e a cruz como o tempo oportuno para a última tentação de Cristo. Nesse sentido, os chefes religiosos, os soldados e o malfeitor com suas zombarias e troças, personificam a figura do tentador, nos momentos finais da vida de Jesus. Assim, a Sua última tentação se dá no calvário e na cruz. Os insultos, são, na verdade, a tentação para que o Senhor se sirva de um messianismo fácil, sedutor, poderoso, espetacular; diametralmente oposto ao caminho do Messias encarnado por ele enquanto justo (Sl 22; 33; 69) e servo sofredor (Is 49 – 55). Diante da tentação de salva-se a si mesmo, Jesus oferece-se ao Pai, não respondendo através do caminho mais fácil. Torna-se, pois, rei de si mesmo e de suas vontades. De fato, é Jesus os justo fiel e servo sofredor, que escolhe o caminho da doação da própria vida, ainda que lhe venha a custar caro, até o sangue!

No meio daquele vozerio, alguém fala com consciência: um malfeitor, que provavelmente, para estar ali, deveria ter cometido um delito muito sério, que lhe custava também a vida. Ao censurar a fala do outro bandido, reconhece em Jesus o Justo, aquele que realizou durante toda a sua vida a vontade e o querer de Deus; que, ali, naquele injusto sofrimento, padece com confiança total na silenciosa presença de Deus. O Justo, na sagrada escritura é aquela pessoa que cumpre o querer de Deus; que padece sofrimentos por conta de sua fidelidade, e, mesmo assim, ainda permanece fiel à Deus. Assim é reconhecido Jesus pelo malfeitor: “Mas o outro o repreendeu, dizendo: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado” (v.v. 40-42).

Jesus lhe responde com a absoluta certeza de quem confia plenamente no Deus do Reino que ele anunciou durante toda a sua vida: “Jesus lhe respondeu: Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (v.43). Só neste versículo, dois temas se entrelaçam, se correspondem e se tornam plenos: a salvação universal que Deus oferece indistintamente. O reinado de Deus em Jesus é este: o agir amoroso e misericordioso de Deus através de Jesus, sempre inclusivo e acolhedor, humanizador e gerador de novas e plenas possibilidades de vida; e, nunca poderá ser aquele outro da exclusão, da indiferença, da violência, da divisão, da lógica do “salve-se quem puder”, ou do “bandido bom é bandido morto”. Igualmente importante é o tema do Hoje salvífico de Deus: esta salvação, dom e graça, oferecida a todos, sem distinções, acontece sempre no hoje da história pessoal do indivíduo. Por isso, a vida de todo aquele se abre para acolher a vida e a história de Jesus de Nazaré, do Reino anunciado por Ele, transforma-se num encontro salvífico constante com o Deus e Pai de Jesus. 

Assim é o reinado de Deus em Jesus: amor, misericórdia, salvação universal, acolhimento. Assim é Jesus Rei, que, paradoxalmente, não reina de um trono ou de um palácio, envolvido pelas ideologias imperiais e monárquicas; não reina a partir do poder, do prestígio, da fama, da glória e da vaidade; reina desde a cruz, a expressão máxima da doação da própria vida, expressão de que o seu reinado, seu agir em nome do Deus que chama de Pai, foge dos esquemas e da lógica mundana. O discípulo que quiser tomar parte deste reinado deverá estar disposto a assimilar e assumir esta mesma lógica e dinâmica de vida de Jesus.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.  

sábado, 5 de novembro de 2022

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS E SANTAS DE DEUS - Mt 5,1-12:


 

A solenidade de todos os santos nos propõe o capítulo quinto do Evangelho segundo Mateus. Na catequese mateana, este capítulo apresenta discurso inaugural de Jesus, encerrando-se em 7,11. Esta primeira catequese de Jesus é de fundamental importância para a comunidade dos discípulos e para as gerações futuras. Com ele, Jesus faz uma releitura ou uma reinterpretação da Lei de Deus (a Torá), contida no Decálogo. Mateus, em seu propósito catequético e literário, identifica a Jesus como o novo Moisés, que dá, agora, um sentido novo à Lei. Este sermão da montanha se abre com as chamadas bem-aventuranças. Elas são mais extensas em Mateus que em Lucas (cf. Lc 6), e fazem parte do gênero literário de profecia e de congratulações ou felicitações, podendo ser de estilo sapiencial ou escatológico. Este último alude à promessa da intervenção salvadora de Deus na história para libertar e salvar o ser humano e seu povo. É desse estilo que Jesus se serve ao iniciar o seu primeiro discurso.

Após dar início a sua missão, depois de ser batizado por João, o batista, e ter sido tentado no deserto quarenta dias, e retornar para a Galileia e reunir um grupo que se decidira por segui-lo, o evangelista começa o capítulo quinto situando o leitor-discípulo na narrativa, num novo cenário. Jesus, seguido de seus discípulos e de uma multidão que o seguia, conforme somos informados em Mt 4,25, chegou a uma montanha ali no território da Galileia. O autor nos descreve a atitude de Jesus.

“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los (v.1-2)”.  Dois pormenores merecem a atenção do discípulo-leitor nestes dois versículos introdutórios. A personagem da “multidão” e a montanha (lugar teológico). Ela remete o leitor-discípulo do primeiro evangelho a outra montanha importante na história do Povo: o Sinai. Ali, YHWH dera a Lei, o decálogo, à Moisés. Mateus quer ensinar para os fieis discípulos de sua comunidade judeu-cristã, que o que Jesus faz equipara-se e supera o gesto de Moisés, ao transmitir ao povo no deserto a Lei que Deus havia dado. 

Agora, lancemos um olhar para a multidão. Esta, ao interno do evangelho de Mateus, será sempre o grupo que apenas ouve falar de Jesus, se encanta com suas palavras e com seus ensinamentos, mas não dá o passo decisivo e qualitativo para o discipulado, ou seja, não compromete a vida com o ensinamento e a vida do Senhor. Os discípulos, pelo contrário, são aqueles que aderiram ao ensinamento de Jesus, saíram da multidão e deram o passo do discipulado, permanecendo com Ele, para, mais tarde, tornarem-se apóstolos, missionários do Reino. O evangelista afirma que Jesus viu as multidões, mas os que se aproximaram foram os discípulos. Mas é claro que o ensinamento que Jesus dirige também contempla a multidão, visando provoca-la a dar o passo para o discipulado.

Jesus começa o ensinamento, dizendo: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus (v.3)”. Ele declara serem felizes os “pobres em espirito”. É bem verdade que a tradução mais acertada desta primeira bem-aventurança, conforme nos mostra o texto grego, seria: “Bem-aventurados os pobres (com o / no) espírito...” Junção da preposição em + o, que resultaria na expressão “pobres no espírito”, ou seja, aqueles que estão no Espírito de Deus; ou “pobres com espírito de Deus...” São os pobres que, mesmo em sua condição de marginalização estão em comunhão com o Espírito de Deus. Quem são estes? Pode admitir dois sentidos, a pessoa dotada da virtude da humildade, que corresponde à interpretação dos textos de Qumran (hbr. ‘anwê ruah), bem como a pessoa pobre no sentido econômico-político. Mas, por que estes são declarados felizes por Jesus? Quer seja o humilde ou o miserável, este são declarados felizes em virtude da atitude de se apresentarem diante de Deus com as mãos vazias, porque souberam abdicar da autossuficiência e do orgulho. E, mesmo sofrendo a exclusão social, se abrem para Deus e nele põem sua confiança. Aqueles que se recusam a escolher o caminho da idolatria dos bens deste mundo para mudar a situação. Jesus diz ser destes o Reino dos Céus. Em outras palavras, são chamados, em razão de sua coragem e coerência com o querer de Deus, a cooperar com a construção do Reinado de Deus no já, no aqui e no agora; e, por isso, entrarão definitivamente, no mundo dos ressuscitados para a vida.

No v.4, Jesus declara serem bem-aventurados, os aflitos (os que choram, em Lc 6). Mateus mudou a versão de Lucas embasando-se na profecia de Is 61, onde se lê que “O Senhor enviou-me para consolar os aflitos”. Os aflitos são aqueles sofrem os golpes de uma realidade que ainda está sob influência das forças contrárias ao Reino, o Mal. Vítimas da violência e da injustiça, que não tem a quem recorrer, mas que tem a Deus para consolá-las. Quando os valores do Reino não permeiam as relações interpessoais e o tecido social, as pessoas são cruelmente violentadas. São aqueles que se recusam a revidar violência com violência (Mt 5,39; Rm 12,17; 1 Ts 5,15). Jesus declara que Deus mesmo será o consolador, sofrendo com elas (Is 40,1; 61,2). A consolação prometida é a salvação final e definitiva.

Nesta mesma lógica, Jesus diz a bem-aventurança dos mansos (v.4). Os mansos, pela força de Deus, recusam-se a ser violentos e, desta forma, quebram a maldita espiral da violência. Portanto, serão herdeiros da terra que, com seu gesto de resistência não violenta, ajudaram a construir (SI 37[36]). Com certeza esta bem-aventurança foi criada por Mateus, inspirando-se no Sl 37. Diante dos outros, o manso apresenta-se desarmado, sem defesas nem esquemas ou autoproteção, colocando-se na dinâmica da não-violência. Um modelo perfeito desta bem-aventurança é o próprio Jesus (Mt 11,29, “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”.). Somente os não-violentos, aqueles que quebram a cadeia (espiral) da violência podem possuir a terra (que num sentido metafórico alude ao Reino de Deus).

A bem-aventurança relacionada aos famintos e sedentos de justiça pode ser compreendida de duas maneiras: 1) Os famintos e sedentos da justiça não têm quem os defenda, para fazer valer seus direitos. Na Lei mosaica, todos e, especialmente, os mais fracos e desprotegidos deveriam ter um protetor (go’el). No projeto de Jesus, o Pai, em pessoa, será o go’el dos discípulos do Reino. Esta bem-aventurança é difícil de traduzir do original grego, que, literalmente poderia vir traduzida assim “Felizes os famintos e sedentos da justiça”. O artigo “a” faria referência à Justiça do Reino (cf. Mt 5,20). E, sendo assim, esta bem aventurança abre-se para uma segunda interpretação: 2) os bem-aventurados por terem fome e sede da Justiça do Reino são saciados quando colaboram para que esta Justiça (que é o agir e a vontade de Deus acontecendo na história) se cumpra, ou seja, se propõem a fazer aquilo que o pai quer.

No v.7, Jesus declara: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Um tema muito querido por Mateus. A misericórdia na bíblia não se trata de um sentimento, mas de uma atitude operativa em favor do outro. É uma atitude relacionada à vida concreta. Na mentalidade do evangelista, o Pai, no último juízo, se mostrará misericordioso com aqueles que viveram a experiência do amor e da misericórdia em relação ao próximo. Quem tem o coração e a vida cheios da misericórdia puderam assimilar o modo de ser de Deus, cuja bondade é eterna (SI 136 [135]). Assim,  viverá da misericórdia do Pai.

A bem-aventurança relacionada à pureza de coração deve ser entendida corretamente. São aqueles que são puros desde o íntimo do ser, para além das aparências. Não são pessoas de fachada. Sem falsidades. São transparentes, e essa condição os coloca lado-a-lado com Deus.

Os “fazedores de paz (gr. εἰρηνοποιός / eirehnopoiós)” empregam toda sua vida para construir o Shalom (paz) neste mundo, propiciando um nível de vida humano e justo onde todos desfrutem do bem-estar e da prosperidade. Serão chamados filhos de Deus por construírem o mundo desejado por Deus. São aqueles que colaboram para o diálogo, a concórdia, a reconciliação entre as pessoas, costurando novamente os fios corroídos das relações humanas e selando os laços da fraternidade. Jesus diz que, no último dia, estes serão reconhecidos solenemente por Deus como autênticos filhos seus.

Nos vv.10-12, Jesus diz diretamente aos discípulos (bem-aventurados vós...) que estes são felizes por serem perseguidos por causa da Justiça, recebendo injurias, sendo alvos de mentiras por causa dele. Os discípulos deverão se alegrar e exultar, porque a recompensa nos céus será grande. Quem assume viver a dinâmica do Reino, abraçando a causa de Jesus (o cuidado com os pobres e enfermos; acolhendo os marginalizados, excluídos; procurando e colocando-se ao lado dos pecadores, dos injustiçados, das minorias; libertando as consciências das pessoas oprimidas e chamando à conversão a todos), atrai sobre si insultos, perseguições, mentiras e maledicências. Todavia, os perseguidos por causa da justiça (o querer/vontade de Deus), não devem temer, tampouco recuar, pois já possuem a recompensa mais valiosa: o Reino dos Céus. Essas situações difíceis são para eles motivos de alegria e de exultação, contrariando as expectativas do mundo que os quer tristes, resignados e derrotados.

O Sermão da Montanha, para o leitor-ouvinte do evangelho de Mateus funciona como um caminho programático que deve tocar bem fundo na ética do discípulo do Reino; o modo de ser e agir, propostos aos que são chamados ao discipulado/seguimento ao Deus do Reino, a partir de Jesus, que, por primeiro, na concretude existencial de sua vida, se empenha por vive-las.  No discurso inaugural, bem como em toda a sua vida, Ele não prega um moralismo desencarnado da história humana. Suas palavras apontam, antes, para um ideal, um projeto de vida, que tem o Pai como fundamento e modelo, e que toca a concretude da existência.

As bem-aventuranças compreendem, nesse sentido, a síntese do programa de vida de Jesus e dos discípulos e discípulas de todos os tempos e lugares. É um texto belo, mas muito fácil de ser deturpado, se interpretado de modo equivocado, como geralmente tem acontecido. Aplicado à solenidade de todos os santos e santas, tem tudo a ver com o autêntico seguimento de Jesus de Nazaré. Por isso, é importante refletir cada vez mais sobre as palavras de Jesus que o Evangelho apresenta. O ensinamento contido nas Bem-aventuranças não são palavras de consolação, muito menos uma pregação moralista para suportar, tendo em vista uma recompensa celeste. É, antes, um apelo de alegria e exultação, que prepara um anúncio de libertação e intervenção de Deus. Não se trata de oito diferentes tipos de pessoas, e, sim, oito diferentes ilustrações da vida do discípulo centradas no Reino.

O discurso da montanha é um indicador de direção para o discipulado de Jesus e, portanto, para a santidade existencialmente vivida. Devemos, pois, concentrar nossa reflexão na mensagem do evangelho, evitando que esta solenidade se transforme em mero devocionismo ingênuo ou mesmo estéril; que faça pensar ou conceber a santidade, a qual todos são chamados, em virtude do santo Batismo, como sendo algo de outro mundo ou impossível de viver; ou, pior, só possível a alguns “separados ou alienados” da realidade. A santidade vive-se na dinâmica relacional e histórica, ou seja, através das relações fraternas restauradoras da dignidade humana, nesta realidade bem concreta. Por isso, é preciso ter clareza que o programa de vida de Jesus, ilustrado pelas bem aventuranças, não se trata de um discurso alienante ou desvinculado da realidade concreta; tampouco um conjunto de ditos moralizantes, mas, como processo de seguimento e discipulado, enquanto balizas para se viver o projeto do Reino, aberto e proposto a todos os batizados e batizadas. 

No hoje de nossa vida e de nosso discipulado podemos nos considerar bem-aventurados pelo Senhor? Estamos na multidão já conseguimos dar o passo do discipulado, assumindo as Bem-aventuranças como nosso programa de vida? Será que conseguimos reconhecer os bem-aventurados de hoje?

Aprendamos também com eles.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 22 de outubro de 2022

REFLEXÃO PARA O XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 18,9-14:

 


A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum apresenta a continuidade do capítulo dezoito do evangelho de Lucas, com um texto muito desconcertante: a parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14). Esta parábola apresenta em sua sentença final, uma provocação absolutamente questionadora que vai além da lógica humana, a qual tem a intenção de conduzir o leitor/ouvinte à uma mudança de mentalidade e no modo se relacionar com Deus – não o deus da religião, mas o Deus e Pai de Jesus – e com as pessoas. Nesse sentido, a pergunta inquietante para uns, desconcertante para outros se expressaria assim: “Seria possível continuar ou viver uma situação considerada pecaminosa pela religião ou pela moral, e ser igualmente amado por Deus?  É o caso do publicano que veremos nesta parábola, que o Senhor conta aos seus no caminho para Jerusalém. Caminho de formação dos discípulos no projeto do Reino.

A fim de compreender esta mudança radical na relação com Deus, Jesus narra a parábola do fariseu e do publicano, destinando-a àqueles que pensam ser perfeitos diante de Deus, graças aos seus esforços, ou, na linguagem do evangelista, “aqueles que confiavam na própria justiça” (v.9). A parábola começa assim: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos” (v.10). As personagens já são apresentadas. Um fariseu e um publicano. Duas pessoas com condutas opostas.

O fariseu era o observador zeloso da Lei, conhecendo-a nas suas minucias e em suas virgulas. Cumpria rigorosamente as 613 prescrições da lei de Moisés. Pessoas leigas e piedosas, profissionais do sagrado. Mais religiosas que os chefes da religião. Assim, considerava-se justo diante de Deus, e, com isso, separavam-se do povo. O publicano era um judeu que trabalhava para o Império, cobrando impostos de sua própria gente. Eram considerados como traidores do povo e, nesse sentido, piores pessoas e pecadores públicos, e transgressores dos mandamentos de Deus. Para estes, não haveria nenhuma esperança de salvação. Nesta personagem, Jesus apresenta uma pessoa, de cuja a situação não pode sair!

Jesus mostra a atitude e o conteúdo da oração do fariseu rezado: “O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo” (v. 11). Interessante, o fariseu rezava em pé (para ser visto) e em seu íntimo. A tradução grega é melhor, pois mostra com realismo o modo com que ele rezava, “voltado para si mesmo”. O fariseu se coloca diante do Senhor, mas permanece voltado para si, ainda que as palavras que saíssem de sua boca fossem direcionadas à Deus; um monólogo de sua própria santidade: fala para si mesmo e sobre si mesmo.

O fariseu, por sua vida separada, fazia da sua santidade a medida para julgar os outros: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda” (v.12).  Jesus denuncia a incoerência do fariseu, que através da sua mania de ostentar a sua justiça diante dos homens, na realidade serve somente para mascarar a profunda e real injustiça que existe diante de Deus. Ele, no templo, ao exaltar e glorificar a sua dignidade e santidade, ao incensar suas práticas, não faz outra coisa senão usurpar o lugar de Deus. É o pecado da idolatria, que na tradição religiosa de Israel, é o próprio pecado do adultério, porque o fariseu dava a si mesmo a glória que era devida a Deus: acredita que está cultuando a Deus, mas, na verdade, se coloca, idolatricamente, em Seu lugar. Tal é a convicção equivocada dele, que a sua atitude de lançar uma olhar de desprezo ao publicano lhe denuncia a insensatez e o desprezo: “não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos”.

A concepção equivocada do fariseu em relação à Deus é ainda mais acentuada na parábola, quando elenca as suas atitudes: “Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda” (v.12). São elas centradas nas práticas da piedade judaica. Entretanto, nenhuma delas voltadas às relações com o próximo. Todas voltadas para o cumprimento do dever religioso em relação à Deus, mas totalmente desinteressadas do bem ao próximo. Por exemplo, ele elenca a prática do jejum. Na tradição de Israel, a prática era prescrita uma única vez ao ano, no chamado Yon Kippur (dia da expiação/perdão). Mas, a prática religiosa acrescentou mais quatro, aludindo ás quatro grandes catástrofes nacionais do povo. Mas, os fariseus, para destacarem-se dos demais, jejuavam às quintas e às segundas-feiras, porque a quinta-feira era o dia em que Moisés, conforme a tradição, havia subido ao Sinai, e a segunda-feira, o dia em que ele havia descido da montanha. Este jejum bi-semanal era o distintivo dos fariseus. Paga o dizimo de tudo o que possuía, e não somente sobre o que era exigido pela Lei, isso porque queria estar seguro de não transgredir nenhuma norma ou prescrição. Assim, fazia muito mais do que era estabelecido. Apresentava a lista de seus pretensos méritos diante de Deus.

Agora, é importante lançar o olhar para o publicano. Ele vai ao templo com a intenção de rezar, mas não arrisca em fazê-lo. Jesus mostra muito bem a discrepância existente entra as duas personagens. O cobrador de impostos está à distância, “O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu” (v.13). Ele tem consciência de sua indignidade; sabe que não pode entrar numa casa comum de um judeu piedoso, quiçá no templo de Deus, e tornar impuro todos os que se aproximavam.

A forma e o conteúdo da oração do publicano é, por demais, reveladora, conforme narra Jesus: “batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” (v.13). Jesus apresenta duas personagens num contraste abissal entre si, mas com atitudes iguais em relação à Deus: o fechamento. O fariseu, enquanto ídolo e deus de si mesmo, se fecha ao Senhor, que pede amor e não sacrifício; o publicano, que convive cotidianamente com o engano e com o roubo. Mas somente este é consciente de sua impureza, de sua indignidade. Mais curioso ainda, ele não promete a Deus mudar de vida porque não lhe é possível. Mas roga a Deus para mostrar lhe, mesmo em sua impureza pecadora, a Sua misericórdia: “Senhor, veja a vida desgraçada que levo. não posso fazer outra coisa, não posso voltar atrás. Não obstante a isso, mostrai-me vossa misericórdia”.

A parábola, como dissemos no início, termina de uma forma inexplicável, com uma sentença desconcertante de Jesus, que faz refletir: “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (v.14). O publicano retorna para a sua casa justificado, ou seja, em paz com Deus. Mas isso é inquietante: o que esse fariseu fez de errado? Por outro lado, o que fez o publicano ser justificado? O primeiro cumpria e realizava tudo o que ordenava a Lei, e muito mais. O segundo, não faz o propósito de mudar de vida, mas é destinatário da misericórdia de Deus.  O erro do fariseu foi o fato de ter se exaltado a si mesmo, isto é, tomou o lugar de Deus. Fez se Deus de si através da mercadoria de troca que seus méritos representavam. 

A parábola de Jesus pretende mostrar como é a lógica do Reino de Deus: nesta nova realidade que Ele propõe, o Reino, não se torna grande e amado por de Deus quem se apoia em seus próprios méritos, mas é amado por Deus devido às suas necessidades. Méritos, nem todos o tem, nem todos podem apresentar. Agora, necessidades, todos possuem. Então, a moral deste trecho precioso é esta: Deus ama, sem impor a mudança de vida; a comunhão com Deus não depende da conduta religiosa e dos méritos do homem, mas no acolhimento do amor Daquele que, como Lucas disse, é bondoso também com os ingratos e maus.

Quem somos, diante deste espelho do texto? O fariseu, mais religioso que os líderes (mais cristãos que o próprio Cristo; mais católicos que o papa; mais padres que os próprios padres)? Ou o publicano, consciente de ser indigno diante de Deus, ciente de não poder ter ou apresentar algum mérito? Como está nossa oração, dado que ela é o modo de se estabelecer uma relação com Deus: é uma relação que se baseia no mérito, enquanto “moeda de troca”; uma oração voltada a si? Ou uma relação que sabe ser grata e gratuita, e, portanto, livre diante de Deus, o qual nos ama livre e gratuitamente, sem esperar de nós os méritos?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 15 de outubro de 2022

REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 18,1-8:


O evangelho proposto para a meditação do vigésimo nono domingo do tempo comum, é retirado do capítulo dezoito da catequese de Lucas. Ao mesmo tempo que se inicia um novo capítulo, Jesus e Lucas encerram a seção acerca dos ensinamentos sobre o tema da fé dos discípulos, iniciado no capítulo anterior – Lc 17,1-10 – com o pedido dos discípulos para que Jesus lhes aumentasse a fé, seguido do relato da purificação dos dez leprosos, dentre os quais, um samaritano, que consegue honrar Jesus com sua fé (Lc 17,11-19). Por isso, o texto de hoje conclui este ensinamento acerca de como deve ser a fé dos discípulos: perseverante e orante.

A fé, nos mostrou o capítulo dezessete, é a capacidade de relação com Deus. É e sempre será a resposta que o homem e a mulher, o discípulo e a discípula de Jesus de todos os tempos e lugares oferece a Deus-Pai, diante de seu amor, sua misericórdia e seu perdão. Ela habilita o discípulo a se relacionar com Deus segundo a forma e a condição de Filho. Se o discípulo assimilar esta realidade relacional com Deus desta maneira, ele poderá ser reconhecido como discípulo verdadeiro do Reino. Mas esta relação-resposta deve ser sempre conservada a partir da perseverança e da constância, mesmo diante dos desafios e das dificuldades, inclusive no seguimento a Jesus. É o que o discípulo-leitor do evangelho deve procurar absorver do texto deste domingo, Lc 18,1-8, a parábola do Juiz iníquo e da viúva, os quais, de antemão já se adverte para a compreensão do texto, são personagens simbólicas – evidentemente, por se tratar de um gênero de parábola – a serem compreendidas e aplicadas à dois grupos.

Para compreender o texto de hoje é necessário compreender o contexto da comunidade de Lucas (e de todas as comunidades no Século I). Cresce e acirra-se a perseguição contra o movimento de Jesus por parte do Império, pelo imperador Domicianos, e da parte do judaísmo da época. A violência, o insulto, a rejeição, a exclusão e marginalização dos cristãos dos dois lados da sociedade estava gerando o desânimo nos primeiros cristãos e até desistências. Sob este clima é que Lucas tece o relato parabólico que inicia o capítulo dezoito, recuperando o ensinamento de Jesus. Digno de nota é que este episódio é exclusivo do evangelista, que soube redigir bem o texto, apropriando-se do ensino de Jesus e das personagens, articulando-as a fim de transmitir uma mensagem de ânimo, de encorajamento e de esperança para suas comunidades, a fim de fortalecer a sua Fé, mesmo em tempos de crise.

O texto começa apresentando a intenção do próprio Jesus, a qual revela-se a síntese e a finalidade do ensinamento que vem a seguir: “Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir...” (v.1). Na verdade, o Senhor já trabalhou o tema da oração com seus discípulos no capítulo 12 da catequese lucana. Por isso, este não pode ser considerado o tema central deste capítulo, embora apareça novamente. E, para que recordemos sempre: a repetição dos temas é um artifício do evangelista para mostrar as dificuldades que os discípulos-leitores estão apresentando na assimilação daquele tema. No entanto, se faz importante recorrer ao contexto da comunidade uma vez mais, ou seja, os anos 80. A comunidade de Lucas era composta, na sua maioria, por estrangeiros e pagão, os quais não tinham a prática e o costume da oração. Por serem de origem grega, a maioria estava habituada ao costume religioso grego dos sacrifícios apresentados nos templos, aos ritos, e não tinham práticas de oração pessoal.

A parábola é contada por Jesus. Nela, são apresentadas duas personagens absolutamente opostas. Um juiz e uma viúva. O mestre apresenta com muita precisão as características da personagem do magistrado: “um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum” (v.2). É um homem arrogante, autossuficiente, prepotente. Não temer a Deus significa que ele não o reverenciava. O temor bíblico não é sinônimo para o medo. Muito pelo contrário. É a atitude de reverência e de reconhecimento da dependência em relação ao divino. Este homem, mediante suas características, revela-se descomprometido com Deus e com outro (“não respeitava homem algum”).

A segunda personagem, que Lucas apresenta como contraste a ao juiz é a viúva. É importante relembrar que a viúva, dentro da tradição religiosa do povo de Israel, devia ser protegida pelo próprio povo. Mas isso não era feito. Quando a mulher ficava viúva, sem herdeiros, e, não tendo ninguém que a amparasse, todos os seus bens e propriedades podiam ser dados ao templo, aos sacerdotes. Com isso, corria o risco de ficar na miséria, na mendicância, vivendo na marginalização. Muito provavelmente, esta viúva da parábola ao apresentar-se com insistência diante daquele juiz, deveria estar com problemas desta natureza. A sua característica é a insistência; a perseverança. Mesmo sabendo que o juiz poderia ser injusto com ela. Via de regra, no AT, as figuras dos magistrados das cidades eram sempre denunciadas pelos profetas por deixarem se corromper por seus próprios privilégios e vantagens, desfavorecendo os pobres que iam a eles pedindo justiça.

Não é o que acontece. O juiz se incomoda com a insistência da viúva. Ele expressa bem sua intenção: “Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum. Mas esta viúva já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me!” (v.4-5). A tradução está equivocada: o juiz não teme a agressão. Primeiro, porque Jesus jamais incentivaria essa atitude, tampouco os evangelistas inspirariam este comportamento para suas comunidades, que já sofriam por demais com a violência. A tradução literal é esta: “Vou fazer-lhe justiça, para que ela não me coloque os olhos negros”. Trata-se de uma figura de linguagem que pretende aludir para o medo de ter sua reputação manchada. Ora, é claro que o juiz injusto não estava pensado no bem daquela viúva ao lhe exercer justiça, mas na sua própria imagem, em sua reputação. Ele pensa em si mesmo, tão somente. Em seu próprio bem-estar e na sua conduta ilibada. Não pensa na justiça que pode fazer, porque sua preocupação não é o outro. Evidentemente, não é intenção do evangelista, tampouco de Jesus se deter sobre uma história. A intenção é uma catequese que visa chamar a atenção para as personagens simbólicas. Por isso, quem simbolizam estas personagens?

O juiz injusto é símbolo para a mentalidade e atitude do Império Romano, imbuídos de seus esquemas e sistemas de domínio, opressão, coação, injustiça, violência e morte. A viúva insistente se torna símbolo para a comunidade cristã, ameaçada nesta história. Mas ela se torna exemplar e modelo para os discípulos por sua perseverança na fé, mesmo em tempos difíceis; mesmo onde a crise e a dificuldade tomam conta e parecem reinar. É o exemplo da fé insistente e perseverante que a viúva tem que o discípulo precisa assimilar para o seu viver, e para ser reconhecido como verdadeiro discípulo do Reino. É, então, esta personagem que deve servir de modelo para a comunidade ou para o discípulo que balança na fé.

Jesus, conclui a parábola chamando a atenção dos discípulos para a conduta injusta deste juiz, para oferecer a eles a certeza de que ainda que aquele magistrado agisse assim, Deus agia diferente. Diferente do juiz injusto, Deus age com justiça, amor e misericórdia para salvar os seus. O Pai não é como este juiz, que se posiciona ao lado de suas próprias convicções e bem-estar, agindo por seus próprios interesses. Pelo contrário, através desta viúva, Jesus quer mostrar e ensinar que Deu-Pai toma um lado na história; se posiciona: sem sombra de dúvidas, o lado dos despossuídos, marginalizados e excluídos, ao lado das minorias. Jesus assegura ação e intervenção de Deus na história, de modo a animar e confortar os discípulos a fim de que recuperem e assumam de vez a esperança: “ânimo, Deus vai intervir porque a última palavra sempre é a Dele nesta história, mas precisamos cooperar com ele, fazendo nossa parte, sendo firmes, insistentes e perseverantes na relação com Ele”.

Jesus coloca uma pergunta: “Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (v.9). Assim, encerra-se a seção que tratou acerca do tema da fé do discípulo. Diante do fato de Jesus assegurar constante ação de Deus em favor de todos os seus eleitos (o seu povo), Ele coloca a pergunta de modo a provocar os discípulos: diante da fidelidade de Deus, o homem permanecerá fiel à sua relação-em resposta à Deus? Será perseverante? Este será o desafio a ser vivido por aquele que deseja, de fato, seguir o projeto de Deus, tornar-se discípulo de Jesus.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 8 de outubro de 2022

REFLEXÃO PARA XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 17,11-19:

 


O texto proposto para a liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo ordinário, continua a leitura e meditação do capítulo dezessete do evangelho de Lucas. Imediatamente a continuidade da narrativa do domingo anterior, cujo tema era a fé, resposta da parte dos discípulos, que os insere na condição de filhos, ou de servos. Agora, para ilustrar a dificuldade do discípulo que não consegue assimilar a Boa Notícia de Jesus, Lucas, dos vv.11-19, apresenta a figura simbólica de dez leprosos que são purificados.

Jesus, desde Lc 9,51 está em viagem, juntamente com seus discípulos, para Jerusalém. É um caminho/viagem que demonstra um deslocamento mais interior do que exterior para o discípulo porque trata-se de um itinerário de formação/catequese para que ele possa assimilar o projeto de Deus e o evangelho trazido e anunciado por Jesus. Nestes dez capítulos (9,51 – 19), Lucas concentra o ensinamento principal de Jesus que visa formar as pessoas no processo do discipulado, no seguimento. Todavia, se pode notar que os discípulos oferecem suas incompatibilidades, suas dificuldades e crises em face do programa de vida propostos por Jesus. É o que o evangelho de hoje, através desta narrativa quer apresentar para o leitor-discípulo de todos os tempos através do tema da lepra. Tendo contextualizado o texto, é possível adentrar no horizonte da narrativa que é permeada de simbolismos e chaves de leituras que permitem uma leitura e compreensão dinâmicas ao texto.

“Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galileia. Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro” (v.11-12). Lucas elabora bem o caminho da viagem, por isso não se trata de uma informação histórica, a nível de crônica, mas um dado teológico, pois Jesus está caminhando desde o capítulo nove e já passara pela região da Samaria, localizada bem ao centro do país de Israel, com a região da Galileia mais acima do mapa. Deve chamar a atenção o povoado e não a viagem.

Sempre que no evangelho de Lucas aparece o termo povoado, ele traz consigo uma concepção muito negativa. O povoado é o lugar do tradicionalismo, da mentalidade atrofiada e equivocada, representa a resistência e a dureza do coração de quem não quer mudar (“aqui as coisas sempre foram assim”). Este termo sempre terá essa compreensão, por isso ele será uma chave de leitura a ajudar na compreensão do texto. Curioso é notar a incompatibilidade dos fatos: deste povoado (lugar da resistência, da mentalidade equivocada, atrofiada, do apego ao tradicionalismo), saem dez leprosos; vem ao encontro de Jesus que está do lado de fora, meio que se aproximando da entrada. Algo impossível de acontecer! Os leprosos não podiam sequer se aproximar de uma cidade ou povoado, devendo ficar de fora, morando em bosques ou grutas isoladas, uma vez que a lepra (e aqui se encaixam todas as doenças dermatológicas daquele período que careciam de cuidados médicos, dadas as dificuldades da época) era contagiosa e poderia atingir um povoado inteiro devido às condições sanitárias precárias daquele tempo. Um leproso era, portanto, alguém que vivia marginalizado socialmente. Trazia amarrada ao seu pescoço ou nas mãos um sininho, que avisava a chegada ou aproximação destas pessoas. A humilhação era ainda maior devido ao fato de que deveriam sempre gritar “impuro!”, a fim de afastar as pessoas.

Não era só do ponto de vista social que os leprosos eram marginalizados, mas também, e principalmente, do ponto de vista da religião. E este é o mais grave. A enfermidade era, de acordo com a mentalidade religiosa do tempo de Jesus, consequência do pecado. A lepra era a pior, pois devido ao aspecto ferido e horrendo em que a pele da pessoa ficava, era considerada como um morta-viva; alguém que, literalmente, vivia na morte. Alguns rabinos e livros religiosos daquela época do judaísmo diziam que a lepra era a mais terrível das enfermidades, e por isso, castigo, pois ela revelava, a partir da exterioridade machucada, ferida e, em certos casos, apodrecida o que haveria de podre, feio e horrível no interior da pessoa. O aspecto externo revelava o que internamente não estava bem naquela pessoa.

O evangelista diz que estes dez leprosos saiam da cidade, e foram ao encontro de Jesus, parando a distância. Diante do que foi dito, fica mais do que claro que estes leprosos são personagens simbólicas, uma vez que não podiam entrar ou estar no convívio de um povoado. Quem são, portanto, esses leprosos? Eles simbolizam a todos os discípulos de Jesus, que estão fazendo frente ao seu projeto, que apresentam dificuldades de assimilação à sua mensagem, que não querem deixar os esquemas do povoado. Ora, eles saem de dentro do povoado, lugar da mentalidade equivocada, do tradicionalismo cego, da resistência, isto é, de tudo aquilo que pode impedir a pessoa de viver o projeto de Deus. São em número de dez. Um número inteiro, que na tradição bíblica simboliza totalidade. São, de fato, todos os discípulos que apresentam dificuldades diante de Jesus, e que não querem mudar a mentalidade. Estão cobertos (simbolicamente) de uma lepra.

Prova de que se tratam de personagens simbólicas que se aplicam aos discípulos, que a própria forma com que se dirigem à Jesus já os entrega: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!” (v.13). A tradução liturgia se equivoca com os termos. Ela traz o termo mestre, aplicado à Jesus, quando no texto grego a palavra é outra, e, por isso, manteremos o texto grego, mais original. O termo que aparece na versão grega aplicado à Jesus é “epistáta” (gr. ἐπιστάτα), literalmente, “chefe”. Somente aquele que não conseguiu ainda assimilar por onde passa o caminho de Jesus, sua vida doada, seu amor e sua misericórdia, em doação e serviço, se equivoca e, com razão, só consegue concebe-lo como chefe. Os discípulos ainda não conseguem compreender a Jesus como servo e doador de amor e de vida, e, ainda presos ao tradicionalismo proveniente do povoado que pensa e concebe o messias de Israel como dominador e chefe, se equivocam na compreensão acerca da identidade de Jesus.

Jesus não realiza um gesto sequer. Apenas dá uma ordem: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes. Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados” (v.14) Jesus lhes ordena ir aos sacerdotes, porque somente eles, após um exame acurado do corpo da pessoa, poderiam atestar a cura da enfermidade, e firmavam um atestado de pureza. A cura de um leproso era algo considerado como intervenção de Deus. Mas é interessante que Jesus não faz nada, a não ser dizer para se afastarem do povoado. A medida em que se afastam do povoado, se cura, pois vão deixando para trás a lepra da mentalidade equivocada, da resistência, do tradicionalismo que atrofia e não gera vida, e, que portanto, pode matar; a compreensão errada acerca de Deus e de Jesus; tudo o que pode ser obstáculo para uma vivência e experiência livre de relação com Deus, seu amor e sua misericórdia.

Durante o percurso, somente um se deu conta que já estava purificado, e, portanto, livre daquilo que lhe impedia de seguir a Jesus enquanto discípulo. Era um samaritano. Isso é importante. Samaritanos e judeus não se relacionavam por motivos históricos e religiosos. A Samaria foi vista com preconceito após 722 a.C, devido a miscigenação ali existente, e, com isso, o judaísmo ali praticado sempre foi visto como falso pelos judeus piedosos do sul, Judá, cuja capital era Jerusalém. É uma fina ironia de Lucas mostrar que um samaritano se percebeu purificado e voltou glorificando a Deus, o que só seria aceitável se a atitude fosse de um judeu piedoso.

Por isso o fato narrado não é uma crônica do acontecido, mas uma mensagem simbólica; uma experiência de fé que se pretende relatar, a fim de que o leitor/discípulo faça seu exame e discernimento sobre sua conduta enquanto tal. O samaritano torna-se, pois, um exemplo a ser assimilado pelo leitor/ouvinte do tempo da comunidade de Lucas, e de todos os tempos e lugares. Ele, na narrativa, é o único que conseguiu se distanciar daquilo que o impedia, daquilo que era sua lepra, isto é, a dificuldade de aceitação ao projeto de Deus e de Jesus, representado pela enfermidade e pela figura simbólica do povoado.

O gesto de poder de Jesus vai se dando no caminho contrário ao povoado. Ou seja, a purificação se realiza no processo do distanciamento daquilo que pode ser sinal de enfermidade e obstaculizar a relação entre ele, Jesus, o Pai e o Reino: a hipocrisia religiosa travestida de zelosa piedade,  que pode gerar afastamento, segregação e exclusão; o tradicionalismo vazio, a resistência efetiva, as convicções equivocadas, as mentalidades atrofiadas e distorcidas acerca de Jesus e de Deus. É esta a purificação que a Palavra e vida de Jesus realizam e operam no discípulo, se este se permite ressignificar a vida. O samaritano alguém teoricamente de fora, que pode ensinar e reorientar a vida e a conduta dos discípulos acerca do modo de se relacionar com Deus e com Jesus. Ao colocar esta personagem, o evangelista também trabalha com um tema que lhe é muito caro, a salvação universal: ninguém pode permanecer de fora do projeto de amor, misericórdia e vida que Deus oferece através de Jesus. O samaritano se torna símbolo também para todos. Pois todos são associados a este projeto de Deus, a esta Boa Notícia de salvação.

Ao tomar distância do lugar que gerava a enfermidade, o samaritano pôde glorificar à Deus, isto é, restabelecer sua relação com o divino, e pode reconhecer a Sua presença em Jesus, o que se vê através da atitude da prostração diante do mestre. E recuperar a sua relação com Deus, lembrando que a fé, que salva o samaritano leproso é a capacidade da relação com Deus restabelecida: a fé é a relação-em-resposta que o homem e a mulher podem estabelecer com Deus. É o que o dialogo final entre Jesus e o ex-leproso quer ensinar (v.19). Fé/relação que sempre tem a potência de nos habilita para a condição de filhos.

Estejamos atentos para tudo aquilo que pode se tornar lepra em nossa vida de fé. E, principalmente, com os lugares que podem contribuir para que elas apareçam e tomem-nos a vida e a liberdade; a condição de filhos de Deus e de irmãos.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


REFLEXÃO PARA O XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 17,5-10

 

A boa leitura do texto bíblico sempre levará em conta a absorção do seu contexto amplo, isto é, o lugar onde a narrativa se encontra. Isso serve para iluminar a sua leitura, quando o texto parece trazer temáticas diversas. Como parece ser o caso do evangelho deste vigésimo sétimo domingo do tempo comum, retirado do capítulo dezessete do Evangelho segundo Lucas. O texto proposto para a liturgia deste domingo encontra-se em Lc 17,5-10. Todavia, é preciso retomar a leitura dos cinco versículos anteriores.

 

Nos v.v1-2, o evangelista começa o capítulo falando da eventualidade e inevitabilidade  dos escândalos no meio da comunidade. Mas escândalos aqui são todas as situações que impedem que o discípulo, que está iniciando na fé, cresça e progrida na vivência desta mesma fé, que é relação com Jesus e com o Pai. O evangelista usa o termo σκάνδαλον (gr. schândalon), que alude à impedimento, ou literalmente, obstáculo. Na comunidade dos discípulos não deve haver espaço para obstáculos que se interponham ao processo pessoal do individuo de se tornar discípulo do Reino e reconhecer-se filho de Deus. Jesus dirá que aquele que produz o escândalo, o obstáculo, que enfiasse uma pedra de moinho no pescoço e fosse atirado ao mar.

 

A pedra de moinho pesava mil e quinhentos quilos. O mar é símbolo, nas Escrituras, de tudo o que é contrário ao projeto de vida sonhado por Deus. “Ser lançado ao mar”, na verdade, é forma simbólica de se denunciar que a pessoa causadora do obstáculo e impedimento está na contramão do querer de Deus. Entendamos que o fato de Jesus dar essa ordem não significa que ele esteja fazendo apologia à exclusão. É preciso recordar que o mar é, também, o primeiro ambiente missionário de Jesus e dos primeiros discípulos. Ele convida Simão à vocação de pescar homens dos mares do mundo, fazendo-os começar a dinâmica do discipulado. Nesse sentido, “lançar ao mar” significa proporcionar à pessoa a tomada de consciência de que ela precisa recomeçar a caminhada. É, portanto, uma orientação e inciativa pedagógica que Jesus oferece à comunidade para que a pessoa recupere a sua condição de discípulo, e, mais ainda, reconheça-se filho de Deus.

 

Jesus toca no tema do perdão, nos vv.3-4, ensinado que o perdão deve ser constante e o distintivo da comunidade dos discípulos. A ordem de perdoar sete vezes não está ligada à quantidade, mas à qualidade. Sete na teologia bíblica indica plenitude/perfeição. O discípulo e a comunidade distinguem-se pelo perdão. Esta é a condição para ser reconhecido enquanto filho de Deus. Estes versículos, então, preparam o texto de hoje. Feitas estas considerações e contextualização inicial, agora podemos mergulhar na compreensão da narrativa de hoje e extrair dela o ensinamento que Jesus quer transmitir aos discípulos e à nós.

 

No v.5, após os ensinamentos anteriores de Jesus acerca do escândalo e da qualidade do perdão pedem algo: “aumenta a nossa fé”. Algo estranho. Pois a fé não é algo que Deus dá. Ela é uma resposta/atitude que parte do ser humano, e não de Deus. A fé não é algo que precisa ser aumentado, acrescentado, mas uma relação a ser vivida e trabalhada pelo ser humano. Por isso Jesus responde no v.6: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: Arranca-te daqui e planta-te no mar, e ela vos obedeceria”. A amoreira/sicômoro eram arvores que possuíam raízes tão profundas, que se tornavam difíceis de serem extraídas. O que o mestre pretende dizer? Que não importa a quantidade da fé, mas a qualidade dela. Ele a compara a um grão de mostarda, tão pequena semente. Jesus pretende ensinar seus discípulos que não importa uma fé gigante em termos de quantidade, mas da fé enquanto disponibilidade de relação. Se esta disponibilidade relacional, esta resposta existir da parte do homem e da mulher, eles podem se relacionar com Deus na condição de filhos.

 

Neste sentido, a fé, relação entre o homem e Deus, é o que habilita o ser humano para o horizonte da relação com Deus, a partir da condição de filho. E é interessante notar que a comparação da qual Jesus se serve, o grão de mostarda, que é aquela pequena semente, mostra para os discípulos que esta fé não uma fé ideal (grande, qualitativa, ou, mesmo perfeita), mas a fé real, perpassada pelos desafios, pelos obstáculos e dificuldades da vida. A fala de Jesus é uma denúncia: os discípulos não possuem a fé; não estão respondendo ao dom do amor de Deus; não estão se relacionando com Ele na forma e no modo de filhos, que abraçam ao amor e a misericórdia e frutificam este amor e esta misericórdia na relação com os outros.

 

Jesus propõe, pois, uma alternativa, através da parábola do patrão e do servo. Se os discípulos não acolhem a Sua oferta de se tornarem filhos à semelhança da vida e do amor do Pai, podem assumir a condição de servos. É o que as parábolas do servo e do patrão querem acenar (v.v. 7-10).

 

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.