sábado, 21 de janeiro de 2023

III DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 4,12-23

 


O evangelho proposto para a leitura e meditação neste terceiro domingo do tempo comum é retirado do quarto capítulo do evangelho de Mateus, o qual a partir do v.12 apresenta o início da missão de Jesus após retornar da experiência do deserto, após a prisão do Batista: “Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia” (v.12).

Duas informações importantes que o evangelista oferece para seus leitores e para os discípulos das gerações seguintes: a missão de Jesus inicia-se após o evento da prisão de João Batista. Por que? O profeta João, por conta de sua fidelidade à missão de preparar a chegada do Reino, encontra-se preso. Herodes o colocou na prisão após sentir-se incomodado com a denúncia feita pelo Batista, no tocante à relação impura com a mulher de seu irmão, Filipe. Com essa informação da prisão de João, o autor do evangelho quer antecipar para os membros de sua comunidade o que acontecerá com Jesus. Por conta de sua fidelidade ao Pai, à missão e ao anúncio do Reino, terá ele o mesmo destino do profeta batizador. Assim como João Batista preparou o caminho para a vinda de Jesus, o Messias, ele também abrirá a estrada para a paixão e a morte, a partir de sua prisão e morte.

A segunda informação importante diz respeito à localização geográfica que Mateus oferece (comum aos outros dois evangelhos sinóticos, Mc e Lc): a Galileia, na cidade de Cafarnaum, território de Zabulon e Neftali, duas tribos do reino de Israel do norte, que já eram dadas por extintas. Quase não se ouviam falar delas. Nazaré, então, nem no mapa daquela época constava. A mentalidade do judeu piedoso, que residia no Sul (Judá – Jerusalém) acerca das pessoas que viviam no Norte era desdém, desprezo, de rechaço, porque aquela região não conservava mais um judaísmo e uma população puros, devido à invasão assíria em 722 a.C, que povoou a Samaria com outros povos. O que causou uma miscigenação naquela região. A pureza da raça não existia mais, e um judaísmo hibrido surgia ali. Assim, aquela terra foi sempre malvista pelos terrivelmente religiosos. Jesus começa lá a sua missão; num lugar em que, um líder que se prezasse, jamais pensaria em estar.

A informação geográfica que o autor oferece não tem a intenção apresentar um ponto turístico, mas um lugar teológico. Para compreendermos o sentido teológico desta localidade é preciso entender porque o evangelista se serve do recurso das citações de cumprimento do Antigo Testamento, precisamente Is 8,23: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz” (v.15-16). “Galileia dos pagãos”, diz o texto do profeta, do qual o evangelista se serve. Se o leitor permanecer somente no enunciado, não será capaz de assimilar a profundidade da mensagem que o texto traz. O termo “pagãos” deve ser traduzido por “nações” (gr. ἔθνος/etnos) por pagãos. Mateus fala de uma Galileia das nações porque, conforme sua intenção teológica, a Boa Notícia que Jesus vem proclamar é destinada à todas as pessoas, de todos os lugares, sem distinção. O desígnio divino de salvação é destinado a todos!

No v.17, Mateus recupera o conteúdo da missão de Jesus, precedido pelo convite à conversão: “Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. O convite/chamado à conversão precisa ser compreendido a partir da intenção do evangelista. Na língua grega existem duas formas para o verbo converter: a primeira, relacionada a ação de retorno para Deus, da parte do homem. Esta forma adquire um sentido e significado mais religioso. Porém, a segunda forma, mais utilizada pelo evangelista, se refere à atitude da mudança da mentalidade (gr. μετανοέω/metanoêo). Por que o autor prefere a segunda forma do verbo converter, ligado à mudança da mentalidade, e não a primeira relacionada à atitude da reorientação à Deus? Para Mateus, não há necessidade que o discípulo realize a reorientação da vida à Deus porque em Jesus, Deus se faz conosco. É o Emanuel. Deus que se dirige a cada pessoa humana. Esta é a grande revelação que o evangelista transmite: Jesus é o Deus-Conosco. Ora, se ele é Deus-Conosco, não há mais porque busca-lo. Antes, acolhê-lo. Se Jesus é Deus-Conosco, não necessitará mais com que o homem viva para Deus, mas em Deus e, a partir Dele e com Ele dirigir-se aos outros. É o que ilustra o evangelista com a cena, a seguir.

“Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores” (v.18). Jesus, ao iniciar seu ministério na Galileia toma a atitude de constituir um pequeno grupo. Trata-se de um gesto institucional que marca o começo da missão. Ele chama dois pescadores, Simão e André, irmãos; e outros dois irmãos, Tiago e João, consertadores de redes. Evidentemente, os quatro exerciam a atividade da pesca. Estavam envolvidos neste contexto. A ação de Jesus diante destes quatro é ritmada pelo verbo “ver”, que é o mesmo verbo utilizado pelo autor do livro do Gênesis, que, ao narrar a criação, diz que “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Igualmente, Jesus vê naqueles quatro homens a característica principal e indispensável para a sua comunidade: a capacidade para a fraternidade, isto é, serem irmãos.

A pesca também era um trabalho que marginalizava as pessoas, e isso, devido a duas razões: a pesca acontecia no lago ou no mar, e este ambiente era considerado impuro, porque o mar recolhia a força simbólica de tudo aquilo que era oposição e antagônico ao projeto de Deus. Por consequência produzia peixes bons e ruins; estes eram considerados impuros. O pescador acabava se contaminando com a impureza destes peixes, no processo da separação dos peixes. Os pescadores eram pessoas que via de regra também carregavam e pagavam o preço da impureza ritual, e, por isso, eram descriminados, conforme a mentalidade religiosa equivocada. Assim, ao chamar os quatro pescadores, Jesus os retira daquela situação de impureza, mas também pretende ensinar que aquela mentalidade era equivocada.

A missão messiânica de Jesus começa nas margens de um lago/mar, entre os que se encontravam nas margens da vida e da história, no intuito de mostrar que desta Boa Notícia de Salvação ninguém fica de fora; e que procura, chama e acolhe aqueles que se encontram nas margens da vida, com seus limites e suas imperfeições, para fazê-los participar de sua vida e missão. Isso precisa ser impactante para os leitores do evangelho de todos os tempos e lugares, porque ele poderia muito bem ter começado sua missão numa sinagoga, numa escola rabínicas da época, ou até mesmo no Templo de Jerusalém; e poderia ter reunido ao seu redor os mais exemplares religiosos da época. Ele escolheu quatro tipos de pessoas que nada tinham para lhe dar, e não os terrivelmente religiosos. Porque Jesus sabe que estas pessoas são totalmente refratárias ao convite à conversão, ao novo e à mudança da atitude; pensam-se superiores aos demais devido ao estilo de vida que levam. Creem-se já salvos e justificados. Outorgam para si a condição de senhores e ídolos dos outros.

“Jesus disse a eles: Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. A diferença do costume judaico, em que o discípulo escolhia o mestre, o Jesus de Mateus quebra esse costume, escolhe e chama para segui-lo, a fim de fazê-los pescadores de homens. Ele não convida a estudar a Lei/Torah, mas à uma ação prática que estava perfeitamente dentro do ambiente vital deles. Eram pescadores. Sabiam o que significava pescar o peixe: tirar este animal do seu habitat natural e traze-lo para terra, onde se encontram com a morte. Mas os seres humanos não sobrevivem na água, pelo contrário, correm risco de vida. Por isso, Jesus os chama para fazer o contrário: pescar homens. Ele está transmitindo aos discípulos a missão de salvar as pessoas que se encontram nas situações de morte (simbolizadas pela água, o mar), e transporta-las para a vida. A missão de trazer para a vida os vivos que podem se encontrar submersos nas situações de morte. Os quatro primeiros seguem-no. Deixam suas seguranças (as barcas, as redes e o conforto da casa, simbolizado pela figura do pai, no caso dos irmãos Zebedeu); o evangelista não narra uma só palavra deles a Jesus, não colocam suas condições, não pedem nada. 

O texto se conclui com um breve sumário da atividade do Senhor: “Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo” (v.23). Trata-se de uma ação libertadora de Jesus. Pela primeira vez o evangelista utiliza o termo evangelho, isto é, Boa Notícia. Ela é anunciada numa sinagoga, lugar do estudo e da proclamação da Palavra. É uma forma muito sutil de Mateus ensinar que aquele lugar já não correspondia ao projeto de Deus. Ali, Jesus ensina e prega, e nunca será visto rezando ou estudando a Palavra naquele lugar. Mas lá, ao proclamar e ensinar a Boa Notícia, realiza, através de seu ensinamento a libertação das pessoas do peso da lei, e da imagem equivocada de Deus, que as lideranças e a instituição religiosa transmitiam. É interessante perceber a fineza do evangelista nesta polêmica: ele ensina através desta cena que Jesus está eliminando, com sua missão, a enfermidade da visão e da experiência equivocadas a respeito de Deus.

Permitamos que o Senhor passe pelas nossas margens, ressignifique sempre e constantemente nossas vidas, a fim de que possamos recuperar e ressignificar a vida dos que se encontram nas situações contrárias de vida, à margem da história e da realidade.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 14 de janeiro de 2023

II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Jo 1,29-34:

 


O segundo domingo do tempo comum, apresenta para a leitura e meditação eclesial o primeiro capítulo do evangelho segundo João. Há poucos dias, a Igreja celebrava o Batismo do Senhor, e as personagens do Batista e de Jesus retornam, mas sob a perspectiva do Quarto Evangelho.

A narrativa de Jo 1,29-34, encontra-se no Livro dos Sinais – a primeira sessão do Quarto Evangelho – e corresponde à semana inaugural do ministério de Jesus. O autor se põe a narrar os acontecimentos do segundo dia da missão do Senhor, a partir do testemunho do profeta João Batista. O tema do testemunho é muito importante nos escritos joaninos. Testemunhar (gr. μαρτυρέω/Martirêo) significa atestar, dar fé sobre algo ou alguém. Todavia, só pode dar testemunho, e ser considerada uma testemunha qualificada, aquele que fez uma experiência de vida com Jesus, de acordo com o evangelista. Qual o conteúdo do testemunho de João, o Batista? O v.29 responde: Jesus como o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Esta afirmação revela duas dimensões da identidade de Jesus: cordeiro e Filho de Deus, porque batiza com o Espírito de Deus.

O evangelista se apropria do ambiente levítico-cultual dos sacrifícios de expiação dos pecados, realizados no templo de Jerusalém. Os judeus costumavam oferecer, diariamente, no Templo, bois, cordeiros, touros para expiar os pecados. As vítimas oferecidas em sacrifícios tinham função expiatória e finalidade reconciliadora. Esta era a mentalidade religiosa do judaísmo vivido por Jesus. O autor do Quarto Evangelho, ao transmitir sua catequese para sua comunidade, se serve do texto de Is 53,4-12, no qual o profeta fala da ação do Servo Sofredor de YHWH, que carrega sobre si os pecados do povo. Tentando entrar no horizonte de sentido que o autor deseja transmitir, uma pessoa que fosse capaz de reconciliar as pessoas com Deus poderia ser comparada ao cordeiro do sacrifício. Mas a imagem do cordeiro pode lembrar também o cordeiro pascal (cf. “Cristo, nossa páscoa”, i. é, cordeiro pascal, em 1Cor 5,7; Jo 19,14.33.37), para as comunidades cristãs nascentes. Não se pode perder os dois horizontes de leitura e de interpretação do texto: o tempo narrado e o tempo da comunidade.

As duas imagens – Servo sofredor e cordeiro do sacrifício – serviram de base para que o evangelista, através do testemunho do profeta Batista, dissesse para sua comunidade e para as gerações seguintes algo acerca da identidade do Cristo. Ele eliminou o pecado do mundo. Mais ainda, para o evangelista João, Jesus é o Salvador não somente por tirar o pecado da realidade do mundo, mas por torna-se solidário com aqueles sobre os quais pesa o pecado. Ele mesmo sofre debaixo desse peso, não como culpado, pecador ou castigado em lugar da humanidade, mas como pessoa que, por sua fidelidade ao Pai, ainda que passando pela morte, abre um novo modo de existir.

O pecado para João é a atitude de rejeição a Jesus a ao projeto de Deus, enquanto resposta definitiva ao Seu amor. Desse “pecado fundamental” é que nascem os demais pecados, que são frutos da rejeição de Jesus e sua prática libertadora enquanto cordeiro e servo. Quem não o reconhece está no pecado e nas trevas (cf. 1,10). Por isso, o “pecado” que o Cordeiro-Jesus retira não deve ser entendido no sentido individualista e moralista (os pecados da listinha). É o pecado “do mundo”. Mundo entendido, aqui, enquanto realidade contrária ao querer de Deus; tudo aquilo que possa indicar um projeto oposto ao amor de Deus, que gera sempre uma realidade pecaminosa (ruptura) que parece dominar a convivência humana e a relação com Deus; um projeto destrutivo, que desde a origem da humanidade é obra do “príncipe deste mundo” — o qual, porém, é vencido por Jesus (cf. 14,30; 16,11.33). A vitória do Senhor se prolonga na sua comunidade a partir da Páscoa, quando é dado o Espírito para tirar o pecado do mundo (20,19-23).

O evangelista e o Batista querem ensinar, com isso, que, Jesus é o substituto e a superação de todo um sistema religioso-ritual do judaísmo antigo. Será Ele, através do dom de sua vida e obra, o encarregado de levar para fora do mundo, isto é, a realidade criada e a existência humana (o sonho original que Deus tem para seus filhos), toda a logica da ruptura, da descomunhão; aquilo que pode separar a pessoa humana de uma autêntica e profunda relação com Deus. Jesus, na perspectiva do autor do evangelho e do profeta João, será definitivamente aquele que retirará da história tudo aquilo que pode separar o ser humano e Deus, em suas relações. Mas isso só pode acontecer porque este Jesus age através do Espirito de Deus, e é seu portador.

O Batista declara, testemunhando, “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele” (v.32). A descida do Espírito sobre ele representa sua unção como Messias. O simbolismo da pomba que desce e permanece em Jesus tem este significado: Jesus é a morada do Espírito, seu lugar natural e querido.

O testemunho de João é mais profundo ainda. O Espírito de Deus “permanece” sobre Jesus. Ou seja, não se trata de um dom passageiro. O verbo permanecer (gr. μένω/mêno) é outro termo forte do vocabulário do Quarto Evangelho, porque ele abre espaço para o tema da habitação de Deus em Jesus, e, como consequência, a Sua “in-habitação” – mediante o Espírito – em cada pessoa humana, que se abre ao dom de Deus. Jesus, na condição de cordeiro, carrega o pecado para fora do mundo, para depois  poder levar consigo toda pessoa à condição de filho de Deus.

A intenção do evangelista, ao colocar este testemunho nos lábios de João, o Batista é a de ensinar à sua comunidade às gerações futuras que não são mais os ritos do sistema da antiga lei capazes de levar o homem à uma experiencia autêntica com Deus, mas, agora, a vida de Jesus de Nazaré, que através de sua existência e práxis histórica, libertadora e salvífica religa a humanidade com o projeto de Deus.

Que Jesus temos testemunhado? Corresponde, Ele, com o mesmo testemunho de João? Ou temos testemunhado um Jesus dissonante do Evangelho e da fé das primeiras comunidades? Minha vida tem sido o lugar por sobre o qual o Espírito de Deus e de Jesus paira e permanece, assim como aconteceu com o Senhor? Tenho permitido com que ele carregue para fora de mim tudo aquilo que pode ser obstáculo para que o amor e o querer de Deus em mim tenha espaço? Tenho cooperado com Ele na missão de retirar o pecado  da realidade e da história humana, das relações?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré /Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 7 de janeiro de 2023

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR - Mt 2,1-12:


O evangelho proposto para a solenidade da Epifania do Senhor é retirado da catequese mateana, Mt 2,1-12. O texto bíblico situa-se ao interno das narrativas da infância de Jesus. Os textos referentes à infância de Jesus não possuem a finalidade de ser uma crônica exata dos acontecimentos e dos fatos. Portanto, são teologias (cristologias, soteriologia) acerca de Jesus. Isso posto, torna-se seguro afirmar que a narrativa proposta para a liturgia de hoje é uma teologia narrativa muito bem elaborada por Mateus. O autor, através dos versículos de hoje, pretende responder para a comunidade quem é esse Jesus, a fim de iluminar lhes o sentido da fé e da vida.

Mateus, ao escrever o seu Evangelho, serve-se de todo o patrimônio religioso e histórico do povo de Israel. Adotando as técnicas rabínicas de escrita e de explicação, opera uma releitura das tradições religiosas e históricas do povo. Este método recebe o nome de midrash (a reinterpretação dos textos legislativos e narrativos da Torah). Para o evangelista, Jesus assume e revive, através de sua vida, ensinamento e missão, toda a história e toda a tradição de seu povo. O catequista Mateus faz incidir sobre a sua personagem principal, Jesus, todas as personagens, as tradições e as história de Israel na intenção de fazer crescer em sua comunidade a convicção de Ele é o Messias enviado por Deus.

O texto proposto para hoje enquadra-se naquele estilo dito acima e nas intenções do evangelista. A narrativa apresenta a visita de certos viajantes inusitados, os quais, conforme o pensamento religioso da época, não eram bem vistos: magos. Sábios estrangeiros, provenientes do Oriente pagão.

Mateus, para construir esta narrativa, se serve de um texto do Antigo Testamento, a visita da rainha de Sabá ao sábio rei Salomão, o descendente de Davi, em 1Rs 10 (// 2Cr 9). Ela se dirige à Judá para colocar a prova a sabedoria de Salomão. A sabedoria de Deus, da qual Salomão compartilhava, atraia até mesmo os estrangeiros. Com estes textos do AT, seus autores querem reforçar a ideia de a Sabedoria do Deus de Israel não conhecia limites. Não haveria fronteiras para ela. Mas, em sua narrativa evangélica, o evangelista opera uma superação em relação aos textos de 1Rs 10 e 2Cr 9): na visita dos estrangeiros do Oriente, são eles que se deixam interpelar e se render pela sabedoria de Deus revelada naquele pequeno recém-nascido. Isto posto, podemos contemplar narrativa bíblica.

“Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’” (v. 1-2). Os dois primeiros versículos introduzem a narrativa no tempo e no espaço. Mateus bebe da mesma tradição de Lucas e confirma o nascimento de Jesus, em Belém, no período de Herodes Antípas (rei asmoneu; um usurpador). Mas o que deve chamar a nossa atenção é a chegada de três estrangeiros de profissão duvidosa, o que já surpreenderia os leitores do evangelho, provocando certa inquietação, por ser a comunidade mateana composta de judeus-cristãos. O evangelista usa o termo “mago” (gr. μάγος). Pessoas relacionadas com esse “mundo” e estas “práticas” não eram bem vistos segundo a Lei de Israel. A magia e quem a praticava eram reprovadas ao interno do povo. Deveriam ser banidos da vida social quem a praticasse, de acordo com a prescrição de Lv 19, e no Talmud ainda se lê, “aquele que aprende qualquer coisa relacionado à magia deverá morrer”.

Os primeiros a receberem a boa notícia do nascimento de Jesus Messias são os estrangeiros, pagãos e de profissão duvidosa. Há aqui uma mensagem importante a ser retida do texto. A salvação, que representa todo o projeto de vida e bênçãos que Deus oferece em primeiro lugar ao povo de Israel, não é um privilégio exclusivo a este, mas inclusivo, e destinado a todos, sem distinção.

Ora, Mateus identifica os visitantes como forasteiros, estrangeiros. Estes, no tempo e na sociedade de Jesus, e na qual encontra-se inserida a comunidade de Mateus, não eram bem vistos. Eram pessoas a serem temidas. Todavia, ao interno dos Evangelhos, os estrangeiros não são vistos sob perspectivas negativas, antes, positiva pois são destinatários do projeto salvífico de Deus. Eles não devem ser vistos como aproveitadores e usufruidores, que só retiram e tomam dos outros, como nossa sociedade atual pensa e teme, mas como pessoas que podem oferecer algo. E o que estas três personagens oferecem é o testemunho de uma boa noticia de salvação, que se estende a todos. Esta é a luz salvadora de Deus, que os atrai, ilumina seus caminhos e os envolve. Estão iluminados por esta luz salvadora e dela se fazem testemunhas!

Mas, diante de tal notícia, Herodes, o rei posto, se perturba. “O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda Jerusalém” (v.3) Mateus acrescenta que também Jerusalém compartilha do mesmo estado de ânimo. O tetrarca e a cidade santa são símbolos do poder, da dominação, da tirania. Se perturbam porque sentem-se ameaçados em sua zona de conforto. Pressentiam o surgimento de um novo tempo, que novas formas de relações estavam sendo gestadas, uma sociedade alternativa estava nascendo, enfim, o Reino de Deus estava começando e, portanto, todos os reinos humanos deveriam desaparecer.

Acontece que esta salvação não reside em Jerusalém, centro do poder religioso e político do povo. Consultando as elites religiosas, os peritos nas Escrituras Sagradas, obtém-se a informação sobre o lugar do nascimento do novo rei: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo” (v.6). Mateus se serve da profecia antiga de Miqueias, a qual situa em Belém o acontecimento. Fora de Jerusalém, portanto. Chama-nos a atenção o fato de que o medo e a perturbação foram tantas para Herodes e seus cortesãos, que eles precisam consultar as escrituras, como se nada soubessem a esse respeito. Na verdade, preferem ignorar. Deixam-se envolver pela sombra do poder a qualquer preço e inescrupuloso. Por isso, encontram-se na escuridão. Ali a estrela não brilha; não encontram o novo rei e sua luz. Só encontram a falsidade, a tirania, o poder e as trevas. Interessante. Mateus não informa que a luz que havia guiado os visitantes pagãos continuava brilhando sobre a cidade santa. Ao contrário, somente quando eles se afastam de Jerusalém e da influência de Herodes é que podem novamente contemplar a luz que lhes havia atraído. Seguiram, então, o caminho.

Ao retomarem a viagem, a estrala/luz volta a brilhar e a atraí-los. A alegria os assalta novamente (v.9-10). Somente afastando de toda a estrutura de um poder viciado pela dominação, pelas forças de morte e de trevas, e, colocando-se distantes das realidades que exalam uma experiência equivocada de Deus, perpassada pela escuridão, conseguem, pois, contemplar novamente aquela luz que os atraia e chegam ao lugar indicado. O evangelista descreve a atitude dos visitantes: “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra” (v.11). O autor utiliza o verbo “adorar” (gr. προσκυνέω / proskinêo), aplicado somente para a atitude do homem em relação à Deus. Ele quer ensinar para a sua comunidade que os magos, estudiosos e estrangeiros pagãos reconheceram no menino a presença de Deus. Fizeram, ali, uma nova experiência com o divino. Contemplaram naquela criança uma sabedoria que não se apaga com o tempo. Experimentaram uma nova forma e um novo lugar de relacionamento com o divino: a humanidade. Viram, sentiram e experimentaram algo de totalmente novo naquela cena, que nunca haviam experimentado antes.

Os visitantes apresentam seus dons àquela família: ouro, incenso e mirra. Uma correta interpretação se faz necessária. Muitas vezes se romantizou demais a oferta dos magos, aludindo aos sofrimentos inerentes a vida de Jesus, ou mesmo sua divindade ou realeza. Os presentes não querem aludir ao destino de Jesus. Eles simbolizam a vocação que Israel não consegui responder, de acordo com Mateus. O ouro está ligado à realeza de Deus, e, na tradição de Israel, o povo é vocacionado a se tornar um “povo de reis”. O incenso, é a oferta que os sacerdotes oferecem no templo; as Escrituras afirmam que Israel é convocado por YHWH a ser um “povo sacerdotal”. A mirra é um perfume utilizado nas núpcias do casal; segundo a tradição profética, Israel é a figura da esposa desposada por Deus, o marido. De acordo com o evangelista, este projeto de “povo de reis, sacerdotal, e esponsal”, não pertence mais tão somente à Israel, mas, nos magos que trazem estas ofertas, encontra-se aberto a todas as nações. É uma vocação dirigida a toda a humanidade através da manifestação que Deus realiza em Jesus. É a missão e história que Jesus assumirá através da exemplaridade de sua vida. Ele será o pleno realizador da missão que o Israel antigo não conseguiu cumprir.

“Avisados em sonho para nãos voltarem a Herodes, os magos retornaram para sua terra seguindo outro caminho” (v. 12). Os visitantes são avisados em sonho, um lugar privilegiado para sentir o que Deus quer comunicar, é o âmbito da revelação do querer do projeto de Deus, conforme ensina a tradição bíblica. Seguir outro caminho é a primeira atitude de quem faz um encontro autêntico com Jesus. Desse encontro, surge uma nova maneira de relacionar-se com Deus e com o próximo. Para viver bem a nova relação com Deus é necessário desviar-se das antigas rotas e estruturas. Os viajantes não retornam pelo caminho de Herodes, isto é, não compactuam com sua mentalidade apegada, idolátrica em relação ao poder e as estruturas de dominação e de morte. A luz e a presença da Sabedoria de Deus com que tiveram contato através daquele menino, os fez ver que a sabedoria de Herodes não leva a lugar nenhum. O caminho da sabedoria divina, que é um novo modo de ser, de existir e de se relacionar com Deus e com os irmãos, este sim, leva para um outro caminho, ou seja, para a constante conversão. Este é o “outro caminho” para o qual o evangelista acena através da atitude dos magos, a retomarem a viagem.

O texto se aplica à vida do discípulo e da comunidade. Por isso, ao celebrar a epifania, o mistério de Deus que se revela e a sua salvação, para todos, sem exclusão, devem o discípulo e a comunidade crescerem na consciência de que esta salvação e este amor misericordioso de Deus através de Jesus, deve ser manifestado, agora, através da vida de cada discípulo e de cada comunidade. A vida do discípulo e da Igreja devem ser o espaço da epifania do amor e da misericórdia de Deus para todos. A comunidade não é apenas chamada a ser uma igreja para todos, mas uma Igreja que não exclua ninguém de seu meio. O discípulo não pode se contentar em revelar o amor Deus através de Jesus somente aos seus iguais, ao seu restrito círculo intelectual ou ideológico, ao clubinho. Não pode haver espaço no coração e na mentalidade do discípulo para a mentalidade/caminho de Herodes, que vê o outro como ameaça; que somente seu espaço ou zona de domínio, influência e poder (a qualquer custo) é o que vale e o que garante segurança. O caminho deste é a autossuficiência, a arrogância, a prepotência, a intolerância e, por fim, exclusão, a opressão, a morte (quer seja de um ou de todos). Há que se trilhar outro caminho.

Dentre os ensinamentos que o evangelho da solenidade da Epifania oferece, chamo a atenção para três: 1) A salvação não é um privilégio exclusivo de poucos, mas inclusivo para todos. 2) É possível aprender sobre Deus – realizar uma experiência com Ele – também com os que são de fora; com os que pensam e vivem de modo diverso ao meu, ou que concebo ser “correto”. O outro que pensa e vive diferente não é um inimigo a ser vencido, um oponente a ser derrotado, um adversário ou “herege” a ser combatido. O outro é um irmão. E, comigo, chamado igualmente a participar deste projeto de vida plena revelado integralmente a todos. Indistintamente. E, como irmãos, tomarem sempre um outro e novo caminho. Por fim, 3) sempre há o convite para percorrer a caminhada por outro caminho, o Deus em Jesus, e não o de Herodes.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 31 de dezembro de 2022

SOLENIDADE DE SANTA MÃE DE DEUS – Lc 2,16-21:



Durante oito dias, desde a noite santa da solene vigília de natal, a Igreja permaneceu ao redor do menino de Belém. Hoje, concluindo esta Oitava do Natal, a liturgia celebra a Solenidade de Maria Mãe de Deus, uma proclamação da fé da Igreja acima de tudo cristológica – relacionada à Fé em Jesus de Nazaré. Sempre válido dizer e relembrar que tudo aquilo que se pode dizer acerca de Maria, Mãe de Jesus, só é possível em virtude do que foi dito acerca de seu filho. Só se pode afirmar que ela é mãe de Deus porque seu filho primogênito é Deus – feito homem.

Na solenidade do santo Natal, a Igreja faz a memória do mistério da Encarnação, ou seja, Deus que se fez carne, armando sua tenda entre nós (Jo 1,14). Com a solenidade de Maria, mãe de Deus, pretende-se visibilizar ainda mais a realidade deste mistério, colocando acento, agora, na humanidade do Filho.

A proclamação de Fé eclesial sobre a maternidade divina de Maria, que já era celebrada pela tradição orante da Igreja, possui seu contexto histórico, e é importante recordá-lo. No século III, o bispo de Antioquia, Nestório, juntamente com seus companheiros acreditavam (de modo equivocado, é claro) que a humanidade e divindade de Jesus eram distintas e separadas. Tal afirmação não era correta. Os primeiros concílios do cristianismo, começando por Nicéia (325 d.C) e culminando em Calcedônia (451 d.C), confessavam e professavam a unidade das naturezas (humana e divina) na pessoa Jesus. Em 431, o Concílio de Éfeso, através de Cirilo de Alexandria, reafirmou esta fé cristológica: em Jesus existe uma comunicação (de idiomas) tão grande entre humanidade e divindade. Assim, Maria é mãe de Jesus Cristo em sua totalidade, e não só de sua humanidade. Dizer que Maria é mãe de Deus, significa confessar que o Logos-Palavra de Deus assumiu concretamente a natureza humana: Jesus é verdadeira e plenamente Deus; verdadeira e plenamente homem.

O grande Ambrósio, bispo de Milão, refletia sobre a realidade da maternidade de Maria, afirmando que ela foi primeiro mãe de Jesus no coração, para ir se tornando mãe de Deus na Carne. E isso, só foi possível mediante sua condição exemplar de discípula. É a segunda lição que o evangelho desta solenidade quer nos transmitir. Por isso, somos convidados a adentrar no seu horizonte.

A liturgia traz para a nossa meditação, a continuidade do texto do Evangelho segundo Lucas (Lc 2,16-21). Sabemos, que neste evangelho, Maria ocupa o modelo do discípulo do Reino. As características fundamentais residem na escuta, no acolhimento, e no cumprimento da Palavra de Deus na vida, e através dela, na história humana. A Mãe de Jesus apresenta estas características neste mini-evangelho da infância.

Lucas, após o parto, descreve os acontecimentos seguintes com uma aureola em torno deles, ao mesmo tempo despojado e misterioso. Temos as narrativas dos pastores, os quais passam a fazer parte da temática da exclusão. Os pastores eram os mais humildes e desprezados porque conviviam com os animais, por isso não eram habilitados para o cumprimento das prescrições legais e rituais do culto judaico. No v.16, eles vão se certificar de que aquela Boa Notícia dada pelo mensageiro celestial era realidade.

Ao chegarem encontram tudo conforme lhes fora dito pelo anjo. O recém-nascido envolvido em faixas e posto numa manjedoura. É oportuna esta informação. Lucas quer enfatizar através da imagem do menino enfaixado a realidade da sua humanidade, a fim de que sua comunidade e seus leitores nunca percam de vista a novidade que este acontecimento traz: Deus que se faz homem. O divino que se deixa envolver pelas faixas da humanidade. Aquela criança, cuidada e protegida, através de sua humanidade e fragilidade traz em si o divino.

O Evangelista nos informa a postura da mãe do Menino. Ela guardava e meditava no seu coração todas aquelas coisas (cf. v.19). Temos aqui o sentido rico e autêntico do verbo guardar (hbr. shemá), que é como no nosso português popular, o verbo curtir: Maria ficou curtindo todas essas coisas no coração. “Guardar no coração” pode aludir a atitude da ruminação, ou mesmo um confronto consigo mesma. Maria rumina aquele alimento da Palavra de Deus, bem como aqueles fatos carregados da força daquela mesma Palavra; rumina, como que num gradativo e necessário processo digestivo, que precisa ser feito sempre e constantemente. A postura de Maria nos encoraja a aceitar os processos da vida e da história, de modo a compreender que nada é ou acontece num piscar de olhos, ou como que num passe de mágica.

No esquema da obra lucana, o discípulo de Jesus é aquele que escuta a palavra de Deus, a acolhe em seu íntimo, ruminando-a, para, enfim, colocá-la em prática, frutificando a Palavra de Deus através da vida e do serviço aos irmãos. Com a informação que Lucas nos dá sobre a mãe do menino, o leitor do evangelho é convidado e enxergar nela o modelo, a exemplaridade do discípulo de Jesus.

O v.21 encerra para nós a narrativa de hoje: “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido”. O evangelista revela aos leitores-ouvintes de seu evangelho qual será a vocação do menino. Jesus é a tradução do hebraico Y’eshua, que significa “Deus salva”. Nesse sentido, a salvação não vem do imperador de Roma, que recebia o título de salvador (gr. Sôter), mas do menino envolto em faixas, na manjedoura. Deste menino, do qual Maria, da condição de mãe, é chamada a assumir a condição de discípula. Mas a salvação que este menino/homem trará será uma constante contradição. Será uma salvação que acolhe e reintegra a todos, sem distinções; uma salvação que atingirá a totalidade do ser humano e da história, isto é, que tocará todas as dimensões constitutivas da condição humana, não sendo somente uma salvação do religioso, mas do humano, do social, do ético. Esta vocação salvadora de Jesus emergirá de modo explosivo no capítulo 4 da catequese de Lucas, no episódio de Nazaré. A primeira palavra que sairá da boca de Jesus, na Sinagoga de Nazaré, será a de que seu projeto de vida e sua missão messiânica contemplará o anúncio da Boa Notícia aos pobres, a libertação aos cativos, a recuperação da visão aos cegos, e o ano favorável de YHWH, e, que para esta missão, o Espírito do Senhor estaria sobre ele com a unção (Lc 4,18). Mas esta modalidade de salvação deverá ser acolhida também por sua mãe. Por isso será sempre um exercício constante a atitude de “guardar” no coração e meditar sobre os fatos e acontecimentos que a rodeiam. Por isso, Maria é nossa mãe, modelo e companheira. Ela nos precede no discipulado e na missão.

Quando proclamamos “Maria, mãe de Deus”, estamos dizendo, conforme o dogma, que ela é a mãe do Filho de Deus encarnado. Ela não se tornou uma deusa, nem entrou na Trindade. Por isso, devemos vê-la em relação às pessoas deste Deus Uno e Trino. Eis o terceiro ensinamento para solenidade de hoje.

Em relação ao Pai, Maria é igualmente filha. Ela foi agraciada com ternura pelo Criador, que a moldou com especial carinho. Ao mesmo tempo, Maria concretiza, de forma humana, a eterna geração que o Pai realiza acerca do Filho, no seio da Trindade. Como toda mãe, ela é figura do amor criador de Deus-Pai.

Em relação ao Filho, Maria é mãe, educadora e discípula. O seu relacionamento com Jesus supera os laços de família. Mas sua missão vai mais além. Esteve junto do Filho durante sua vida terrena e, agora, glorificada, continua junto do Ressuscitado, na comunhão dos Santos.

No tocante ao Espírito Santo, Maria é uma pessoa plena Dele. Como perfeita discípula de Jesus, acolheu o Espírito e fez-se transparente a ele. Tornou-se um templo vivo de Deus e se transformou, por Graça, na mãe do Messias.

O dogma da maternidade de Maria é, igualmente, um convite para homens e mulheres recuperarem sua dimensão materna. Ajuda-nos a abrir-nos para o projeto de Deus: escutar (ouvir), acolher e realizar a Palavra de Deus em nossa vida e através dela. Este é o melhor bom propósito para este novo tempo da Graça – Kairós – de Deus, que se inicia.


Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 24 de dezembro de 2022

EVANGELHO DA NOITE DE NATAL - Lc 2,1-14:



 A liturgia desta noite santa também resplandece como um dia. Brilha vez primeira entre as trevas a luz. Uma luz que nos transmite uma boa-notícia a ser recebida e acolhida. O texto evangélico do qual a liturgia se serve para fazer a memória atualizadora da primeira vinda do Senhor é retirado do capítulo segundo da catequese de Lucas, Lc 2,1-14. O texto não pode ser lido e interpretado como uma crônica jornalística dos fatos. O autor quer transmitir uma mensagem de Fé. Uma teologia da história e na história. Vamos ao texto.

O evangelista nos informa a respeito de um recenseamento de todo o mundo habitado ordenado por Cesar Otaviano Augusto. Um levantamento do povo, por volta do ano 5 a.C, quando Quirino era governador da Síria, que incluía a Palestina (v.2). Otaviano foi o primeiro imperador a quem o Senado Romano outorgou o título de “Augustus”, isto é, “aquele que é digno de veneração, o poderoso, o divino”. O censo ordenado por ele tinha, na verdade, a seguinte intenção: saber se a população havia aumentado para arrecadar mais impostos, e, ao mesmo tempo uma autossatisfação megalomaníaca: saber por sobre quantos dominava, imperava ou exercia sua soberania. Sempre que os reis de Israel tomavam essa iniciativa, Deus os censurava através dos profetas, porque Ele era o único senhor do povo, e não o rei. Somente Deus poderia ordenar o recenseamento, como assim o fez por seis ocasiões. Uma tradição rabínica da idade média interpretava esses censos ordenados por Deus da seguinte forma: “Deus ordenou o recenseamento não para saber por sobre quem ele estaria governando, enquanto único rei de seu povo, mas para saber se não estava faltando alguém dentro de seu povo”. Uma interpretação bela, e que difere daquela intenção de Augusto. Deus não deseja saber por sobre quem ou quantos domina, mas se não está faltando alguém; se não há a possibilidade de ter alguém ficado alguém de fora.

O evangelista, com este dado, pretende transmitir para seus leitores-ouvintes esta mensagem: se Cesar Otaviano “Augusto” quer elevar-se, Deus em seu mistério de amor subverte esta lógica e se põe no mesmo nível da humanidade. Ele faz o movimento inverso, descendo até a humanidade marcada pela injustiça, pela dominação, pela morte. Diferentemente do imperador, que toma a vida e é sinal das estruturas de morte, Deus comunica um Evangelho de vida. Colocando-se não do lado dos dominadores, mas dos dominados. É o que se verá a seguir.

Lucas nos informa os versículos seguinte (v.4-6) alguns dados importantes: José, de Nazaré foi à Belém (v.4), sua cidade, juntamente com Maria, sua esposa. Eram já casado, pois estavam na primeira fase do casamento, a promissão. Por isso, a palavra desposada já não sirva mais ou não expresse o verdadeiro significado de que a promissão seja já casamento. Outra contextualização importante, para não cairmos em narrativas ou interpretações romantizadas acerca do fato: José e Maria já se encontravam na cidade de Davi, pois uma viagem de Nazaré à Belém era feita a pé, algo impensável para uma mulher no último mês de gestação, como nos informa o evangelista. Na cidade de Belém ela dá à luz ao filho primogênito. Interessante, segundo a tradição Judaica, a cidade de Davi era Jerusalém, pois foi ali que ele, enquanto rei fixou sua residência. Lucas não concorda. Ele estabelece Belém como a cidade de Davi, porque ela remete ao seu passado de simples pastor. Uma vez mais o catequista pretende transmitir uma mensagem teológica, e, portanto, de fé: o que virá a ser o menino que nasce em Belém, isto é, qual o sentido que sua vida e missão tomarão; quais serão os destinatários de sua ação salvadora.

O v. 6 nos informa que Maria dá à luz ao seu primogênito (hbr. Ya’hid), o filho por excelência, ao qual são reservados todos os direitos jurídicos. Mas, primogênito tem um significado muito profundo para a tradição religiosa de Israel, a qual Lucas capta bem e transmite para seus leitores. O primeiro filho é aquele que, conforme tradição judaica, deve ser consagrado ao Senhor. Ou seja, o catequista deseja antecipar para sua comunidade que a vida deste recém-nascido será toda voltada para Deus.

No v.7, o relato diz que o recém-nascido foi envolvido em faixas e posto numa manjedoura. Aqui temos um detalhe interessante: Lucas recorre ao Livro da Sabedoria: “Envolto em faixas fui criado no meio de assíduos cuidados; "porque nenhum rei teve outro início na existência; "para todos a entrada na vida é a mesma e a partida semelhante” (Sb 7,4-6). O evangelista pretende assinalar a humanidade de Jesus, uma vez que foi um homem no sentido pleno de sua liberdade. Este Deus é também plenamente homem. Encontra-se enredado na humanidade. Verdadeiramente encarnado. É humano em todos os sentidos.

O evangelista informa que o menino encontra-se na manjedoura porque não havia lugar para eles na sala da hospedaria. Isso é importante, e não pode correr o risco de se romantizar a cena. Há que se encará-la em sua realidade, a de que desde seu nascimento, a rejeição e a recusa a sua pessoa serão constantes. Acompanharão sua vida e seu ministério. Para ilustrar esta condição de rejeição, Lucas informa sobre o fato de o menino ser colocado num cocho, pois ele tem em mente a profecia de Isaias: “O boi reconhece o seu dono; o burro o estabulo (cocho) do seu dono. Mas Israel não reconhece; meu povo não compreende” (cf. Is 1,3). Jesus está entre os não acolhidos da história. Um tema que aparecerá, novamente no Prólogo do Quarto Evangelho: “Ele veio para os seus, mas os seus não o acolheram” (Jo 1,11). Ora, se faz necessário recordar também que quando a mulher dava a luz, segundo a Lei de Israel, ela ficava impura (por conta do contato com o sangue que saia dela) e, por isso, deveria ser afastada do convívio social até o momento de sua purificação no templo, quarenta dias depois. Nesse sentido, pode-se entender o motivo de o casal não encontrar lugar na hospedaria e serem realocados para o lugar dos animais, e, portanto, da impureza. No recém-nascido de Belém, Deus faz seu repouso entre os impuros. E será para estes que dirigirá sua mensagem de Salvação. Lucas quer mostrar que Jesus está entre os excluídos.

Após o parto, os acontecimentos são descritos com uma aureola em torno deles, ao mesmo tempo despojado e misterioso. Temos as narrativas dos pastores, os quais passam a fazer parte da temática da exclusão. Segundo o Talmud, nenhuma condição social poderia ser mais desprezada que a dessas pessoas. Os pastores eram os mais humildes e desprezados porque conviviam com os animais, praticavam pequenos roubos para sobreviverem muitas vezes; por não terem vida religiosa eram considerados como pagãos e, por isso, não estavam habilitados para o cumprimento das prescrições legais e rituais do culto judaico, bem como observar as prescrições de purificação; para os fariseus e judeus de bem, os pastores não eram gente! Mas para o projeto literário e para a catequese lucana, eles são transformados em símbolos: servem de metáfora para todos aqueles que se encontram na exclusão, na marginalização, na indigência, entre as minorias. Por isso, se tornam destinatários do projeto salvador de Deus.

Os pastores recebem então uma manifestação divina. São envolvidos por uma luz, e isso lembra, logicamente, outras manifestações de Deus ao longo do AT. O “anjo do Senhor” aparece pela terceira vez neste bloco literário do evangelho da infância de Jesus: a primeira, no templo, comunicando o nascimento de João à Zacarias; depois, a vinda de Jesus à Maria. Agora, o anjo do Senhor aparece aos pastores – símbolos dos pecadores. Não para julgar e castigar (conforme mentalidade religiosa da época), mas para comunicar um evangelho de vida. Lucas quer ensinar para sua comunidade que o projeto de Deus que se inaugura em Jesus envolve a todos; não exclui a ninguém; não condena os pecadores, mas os abraça. Os envolve. Por isso, o evangelista declara que a Glória (hbr. Kabod) do Senhor os envolveu, e lhes exorta, primeiramente, a não ter medo. Em segundo lugar, lhes dá um motivo: uma boa notícia, isto é, um Evangelho de alegria para todo o povo: nasceu para vós o Salvador, Cristo, o Senhor! A palavra Salvador (gr. Sôter) é, primeiramente a tradução do hebraico Yeshua – Jesus. Mas, ao mesmo tempo, era o título empregado ao imperador romano. Lucas quer assinalar que não é este o salvador. A salvação repousa no menino de Belém. Cristo é tradução grega do hebraico messias, que significa o “ungido”: é o delegado, o enviado, o portador e executor do senhorio e da vontade de Deus.

O mensageiro celestial (Deus mesmo) lhes dá um sinal para encontrar o menino: deitado numa manjedoura, envolto em faixas! É encontrar, portanto, a criança colocada no lugar da exclusão! O sinal que anjo dá aos pastores no campo não é um sinal grandioso a ser encontrado na opulência do palácio de Herodes ou de Otaviano. Nem no esplendor do templo de Jerusalém. Tampouco entre os poderosos. Mas colocado em meio a paus trançados – a manjedoura. Na estrabaria encontra-se a Glória e a misericórdia de Deus feitas Carne. Deus fez-se encontrar entre os pequenos e excluídos optando e empoderando-os.

A manjedoura de paus trançados, prefigura-se também o mistério da Cruz, que expressa o significado da vida doada, partida, como um pão despedaçado. Por isso, a tradição subjacente do nascimento de Jesus em Belém, comum a Lucas e a Mateus, cumpre também seu papel. Belém (do hebr. Beth-lehem) significa Casa do Pão. O menino será Pão para humanidade. Servirá de sustento, e será doador de Vida. 

Na narrativa, imediatamente após o sinal dado pelo Herói de Deus (Gabriel – Gebehr), surge uma multidão da corte celeste para proclamar que a Glória (presença) de Deus, desde o mais alto dos Céus, que agora se faz presente na terra, na história humana para inaugurar o Shalom, a paz. Lucas faz memória também do Sl 84. A realização plena (plenitude) – Shalom da vida e do querer de Deus, comunicada e destinada a todos! Não somente aos de boa-vontade (tradução equivocada do texto, que dá a entender que só pode ser salvo quem tem a boa-vontade de fazer a vontade de Deus). Mas uma salvação que atinge e abraça a todos. Por isso a nova tradução corrigiu aquela ideia de Deus revelaria seu querer e seu amor somente aos homens de boa-vontade. Pelo contrário, o Deus e Pai de Jesus, revela através Dele, o seu amor e benevolência aos homens e mulheres que Ele ama. Por isso, a tradução correta deverá ser esta: “Glória à Deus nos mais altos dos céus, e paz na terra aos homens, que Ele ama”.

Possamos nós estarmos entre os pastores que recebem este evangelho: Deus põe seu Agrado em nós, através de Jesus, seu Filho. Possamos estar onde o menino está; no lugar da opção feita por Deus. Eis o Mistério desta noite Santa.

 

Feliz Natal.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 10 de dezembro de 2022

III DOMINGO DO ADVENTO - Mt 11,2-11:


O terceiro domingo do advento é permeada pela temática da alegria. A espera, a vigilância e a conversão oferecem um lugar a alegre esperança da pela vinda do Senhor. Para isso, a liturgia propõe a leitura e meditação do texto de Mt 11,2-11, que mostrará a figura de João – aquele profeta batizador – em crise. A sua crise é a de todos aqueles e aquelas que se deparam com uma maneira nova de Deus agir; é aquela crise que chama também à mudança de perspectiva, mentalidade e de agir. O texto mateano do capítulo onze situa-se após o discurso missionário, Mt 10, o qual recupera o ensinamento de Jesus acerca da missão destinado aos discípulos. Após concluir o discurso-catequese, é o mesmo Senhor que sai em missão. Todavia, no caminho anterior a este discurso missionário, Ele realizou dez gestos de poder, que teriam a finalidade de revela-lo como messias poderoso através das obras (Mt 7,1 – 9), até chegarmos à narrativa de hoje. É a respeito destes dez gestos de poder que o evangelista se refere no v.2 do capítulo onze.

“João estava na prisão. Quando ouviu falar das obras de Cristo enviou-lhe alguns discípulos, para lhe perguntarem: És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (v.2-3). O evangelista faz uma interrupção da narrativa após a conclusão do “discurso missionário” e insere, novamente, a personagem de João Batista. Ele está preso na fortaleza de Maqueronte, a mando de Herodes, que ficara incomodado pela denúncia que fizera João: ter tomado a esposa de seu irmão Filipe, Horodiades, e a ter levado mais sua filha, para a morar na corte. O Batista denunciava a atitude do governante porque lhe colocava numa condição de impureza por se tratar do relacionamento com a mulher de seu irmão, conforme Lv 20. Isso incomoda a mulher e o monarca, o que o leva a encarcerar a João.

Muitos estudiosos do evangelho de Mateus definem este trecho de Mt 11,2-12 e Mt 14 (a paixão e morte de João) como sendo o momento da “crise do Batista”. No cárcere, João ouve falar das obras de Jesus. E a crise emerge na personagem, precisamente por aquilo que ouve falar acerca daquele galileu, que um dia fizera parte de seu grupo.

A crise se instaura em João devido a incompatibilidade de sua mensagem frente ao agir de Jesus. Dito de outra maneira, a ação e missão de Jesus fogem da regra e das expectativas de João, as quais ele anunciara em sua pregação. O Batista havia declarado que o Messias viria já com a foice nas mãos; que o machado já estava na raiz; que o batismo do “mais forte” seria com o Espírito, para inserir os fieis na vida de Deus e no tempo do messias; mas com o fogo destruidor, para aqueles que tivessem sido infiéis ao querer de Deus. João envia, então seus discípulos a Jesus para perguntar-lhe se era mesmo o messias esperado ou deveriam esperar outro (cf. v.3).

Jesus responde aos discípulos de João: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (v.4-5). No agir e no ensinamento de Jesus não há uma palavra de condenação; de recusa ou de violência. Ao contrário, gestos, atitudes e palavras de acolhimento, amor e perdão aos que não mereciam: cegos, paralíticos, leprosos, surdos, os pobres e os que se encontravam envolvidos em sistemas e estruturas de morte. Pessoas estas, que, conforme a pregação de João e crença religiosa da época, não mereciam a salvação por serem pecadores e enfermos. Às pessoas excluídas e marginalizadas como estas eram lhes reservadas o fogo exterminador, o machado já posto na raiz. Em Jesus, não se encontram tais atitudes, mas somente uma proposta de plenitude de vida e um amor oferecido incondicionalmente pelos inimigos. Por isso, este não poderia ser o Messias, segundo o pensamento de João, o qual deveria vir com o poder, com autoridade, força e realizar o juízo de Deus, inclusive para o Batista que se encontrava encarcerado naquelas condições injustas. Se Jesus fosse o Messias, deveria agir em favor do próprio João, inclusive.

O que desconcerta João e o coloca na condição da crise é o fato de que Jesus anuncia e vive um amor do Deus de Israel, a quem chama de Pai, que se estende e se oferece a todos, injustos e incompreendidos. Diante disso, Batista entra no processo pessoal da revisão da vida, porque toda a sua pregação caiu por terra. Jesus respondeu aos discípulos de João com fatos e não com teorias. A práxis de Jesus, ou seja, seu agir, recupera, inclusive, a pregação dos profetas que anunciaram o tempo messiânico a partir do surgimento de um tempo novo onde cegos, surdos, paralíticos, leprosos, todo tipo de gente ruim, seriam acolhidos e reconciliados com Deus. Mateus mostra de forma muito clara o agir salvador e reconciliador de Deus através de Jesus, por meio dos dez gestos de poder que o Senhor realiza nos capítulos anteriores (Mt 8 – 9). São dez porque remetem às dez pragas que feriram o Faraó e os egípcios, em Ex 7 – 12. Elas tinham a função de mostrar o poder de YHWH e o chamado à conversão ao Faraó. São dez oportunidades para que o líder egípcio cai na conta da soberania de Deus, e mudar o coração, a ponto de deixar o povo hebreu escravizado partir.

O evangelista reinterpreta a passagem de Ex 7 – 12, e ao invés de mostrar o poder e a autoridade de Deus em Jesus exterminando e destruindo, mostrará o agir de Jesus ao purificar leprosos, curar surdos, fazer falar os mudos, perdoar pecado, o anúncio da Boa Nova do Reino aos pobres. Jesus responde aos discípulos de João com fatos. Com ações positivas que tem a função de realizar a recuperação da vida a todos aqueles e aquelas que se encontram destituídos, excluídos e marginalizados, que eram descritos simbolicamente assim.

Jesus profere uma bem-aventurança ao final desta resposta aos discípulos de João: "Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” (v.6). Ela é, ao mesmo tempo, um convite de conversão para o próprio João. Interessante notar que a imagem de um Deus que pune, condena, destrói, queima, não causa terror nas pessoas do tempo de Jesus e João (inclusive neste). Mas a imagem de um Deus que age salvando através do amor, do acolhimento, da restituição da vida e da história é a que mais gera escândalo. A palavra escândalo deve ser entendida aqui como barreira, obstáculo, impedimento, ou, literalmente, pedra de tropeço. “Bem-aventurados são aqueles que não encontram em mim qualquer impedimento para que Deus possa agir através destas minhas atitudes”, ou seja, não encontrar nas ações de Jesus qualquer impedimento para reconhecer Deus agindo. Ou seja, felizes serão todos aqueles que não encontrarem qualquer obstáculo no agir de Jesus, a fim de reconhecer Nele Deus agindo. Mas, os discípulos de João se retiram. Mostram que não estão de acordo com o ouviram. São pessoas ainda necessitadas de uma mudança de mentalidade.

Jesus, diante da dúvida posta por João e seus discípulos no tocante ao Seu agir, faz o contrário, elogia a missão e a vida do Batista: “Jesus começou a falar às multidões, sobre João: O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. Então, o que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. É dele que está escrito: Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti” (v.7-11). O Batista é um profeta, assegura Jesus! Ele não é uma cana agitada pelo vento, ou seja, frágil, facilmente de ser dobrado, alguém inconstante, conveniente, pende para onde o poder está, mas sim um homem coerente; não é um homem de palácio, ao contrário dos profetas da corte do rei que adulavam o chefe do povo, ao contrário, possuía um modo de vida austero e simples, e na contramão das expectativas do rei. João, declara Jesus, é o mensageiro enviado (gr. ἄγγελος/anjo) para preparar o caminho. Mas apenas para isso. João apresentou dificuldades para assimilar o caminho de Jesus. Por isso, deve também ele converter aquela imagem divina que tinha em seu íntimo e pregava.

O v.11 conclui esta passagem da catequese mateana com um dito de Jesus que é por demais revelador e, ao mesmo tempo, funciona como mais uma característica a ser vivenciada por aqueles e aquelas que querem ser discípulos do reino dos céus, e acolher o Senhor do Reino que está para chegar. “Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (v.11). Jesus declara a grandeza de João. Mas exige tanto do batista, quanto de seus discípulos a coragem de se tornar “menor”. O que Jesus quer dizer com isto? Para se tornar participante deste Reino que vem se faz necessário passar pelo nascimento segundo o Espírito, Aquele que é doado, segundo pregação de João Batista, pelo “mais forte”, o Messias-Jesus. Esta vida segundo o Espírito de Jesus, é a mesma vida Dele, que se fez menor entre as minorias marginalizadas de seu tempo. 

Dito de uma forma mais simples: quem quiser fazer parte deste Reino e acolher sua chegada deve assimilar a vida de Jesus, suas atitudes, suas escolhas, ensinamentos e opções, porque ele sendo grande se tornou o menor entre todos, colocando-se ao lado das minorias de seu tempo. Esta é a vida de Jesus sendo conduzida pelo Espírito. Desta vida, carregada da plenitude de vida do Espírito de Jesus é que o discípulo é chamado a assimilar e participar. Eis a terceira atitude que o fiel-discípulo é chamado a assimilar neste tempo do advento, fazer-se menor entre todos e colocar-se entre os menores desta história e realidade, convertendo aquela imagem de um Deus castigador, destruídos, carrasco, para imagem que Jesus transmite com sua vida e missão, o amor, a misericórdia e a salvação.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.  


sábado, 3 de dezembro de 2022

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO - Mt 3,1-12:



A liturgia do segundo domingo do advento, continuando a leitura do evangelho mateano apresenta o capítulo terceiro desta catequese evangélica, que proporá para o leitor o tema da conversão. A tônica das duas primeiras semanas do advento é colocada sobre a segunda vinda do Senhor. No evangelho da semana passada (Mt 24,37-44), a pedagogia litúrgica fez a memória da atitude da vigilância requerida ao discípulo do Reino. Por se tratar da temática da espera do retorno do Senhor – a segunda vinda – a liturgia pretende formar a consciência dos  fieis para as atitudes relacionadas à ética que é exigida pelo Reino. Nesse sentido, ela se serviu do texto do discurso escatológico contido na catequese de Mateus, através do qual Jesus exortava os discípulos à manterem a vigilância em face da vinda eminente do Reino, e, para os leitores da geração seguinte (dentre os quais nos encontramos), para o advento da segunda vinda do Senhor.

Não diferente, a temática deste segundo domingo mostra mais uma atitude que se espera daquele que deseja ser discípulo do Reino e de Jesus em face da Sua segunda vinda: a conversão constante que o homem e a mulher de fé deve empreender. Ela é apresentada através da figura do batizador, o profeta João. A seu modo, o evangelista Mateus insere o Batista na narrativa. E é sempre bom ter presente, que o autor do evangelho utiliza as grandes personagens e eventos da tradição histórica e religiosa (teológica) do povo de Israel para transmitir sua mensagem acerca de Jesus de Nazaré, sua personagem principal. Mesmo ela não se fazendo presente na narrativa, como é o caso da perícope que meditaremos. Isto posto, podemos mergulhar no mar do texto.

“Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia” (v.1). Pela primeira e única vez, o evangelista utiliza a expressão “naqueles dias”. Mateus se serve dos eventos da tradição histórica e religiosa de Israel, e seu leitor-discípulo, ao ouvir esta expressão já ativa sua memória para um acontecimento pertencente ao AT, o episódio de Ex 2. Ali, Moisés cai em si e percebe os sofrimentos do povo Israel, rompe com a influencia do Faraó, e inicia seu caminho como grande cooperador de Deus no projeto da libertação de sua gente. Esta expressão remete, então, a um tema do livro do Êxodo. Mateus deseja transmitir e ensinar à sua comunidade que, a partir de agora, Deus começará um novo êxodo na história, com a ajuda de uma personagem: João, cujo nome significa “Deus é misericórdia”, que será levada adiante por Jesus, na continuidade do  evangelho de Mateus.

O Batista atua no deserto da Judeia. Uma localização importante, tanto geográfica como teológica. Uma vez mais, evocando temas da tradição do Êxodo, o deserto é o lugar em que o povo recém-saído do Egito passa um período até conquistar, mais tarde, a terra prometida. Esta localidade é uma constante teológica para os israelitas, e, igualmente para aquele que deseja tomar parte do projeto de Deus, pois o deserto é o lugar privilegiado para se fazer a experiência da Aliança com YHWH, renovando-a e purificando-se. Este deserto da Judeia é composto por um relevo acidentado, com elevações e depressões; com formações rochosas, que termina às margens do Mar Morto. Ele precisa ser rebaixado e aterrado. Preparado e aplainado, a fim de que o Deus de Israel possa passar. Assim sendo, o deserto é mais um lugar para o refazimento da experiência e da relação com Deus.

João Batista apresenta o conteúdo da sua mensagem e pregação: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (v.2). A atitude da conversão. O evangelista apresenta o verbo converter no imperativo. Este verbo significa uma mudança de mentalidade; um refazimento da forma e do modo de pensar. Que depois se verificará na mudança da atitude. Ou seja, uma nova forma de pensar que encontrará seu reflexo numa nova forma de agir. João se concentra sobre aquele anúncio do profeta Isaias, “deixai de fazer mal; fazei o bem(..) ainda que vossos pecados sejam escarlates, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Is 1,16-18). Assim, o Batista convida a uma mudança de mentalidade e de agir, a orientar a vida para bem do outro. O convite à conversão tem uma finalidade: acolher o Reino dos Céus.

Pela primeira vez no evangelho de Mateus aparece o termo Reino dos Céus. É o mesmo e único Reino de Deus, que já apareceu no primitivo evangelho de Marcos. Mas o catequista, respeitando sua comunidade de origem judaica se priva de mencionar o nome de Deus e, utiliza, portanto, Reino dos Céus. Uma questão de respeito e sensibilidade, apenas. Não uma tentativa de delimitar o lugar do Reino. Ele não é um lugar geográfico, mas significa o agir soberano de Deus na história, através de Seu ungido. Por isso é preferível utilizar o termo Reinado de Deus. 

O reinado de Deus é  (e sempre será) o Seu agir na história e pela história, através de Jesus. Então, o Reino ou Reinado de Deus converge para uma pessoa, Jesus. E, evidentemente, as consequências éticas que derivam da adesão que o discípulo faz pelo Cristo ajudam a transformar/converter esta história, a realidade e a vida humana em Reinado de Deus. Não é uma vida ou reino para o além, mas a realidade em que Deus governa e exerce Seu agir, sua soberania e senhorio.

O evangelista, que gosta de utilizar as citações dos profetas da tradição de Israel, e com um enunciado próprio de um narrador, que interrompe a narração com uma informação que ajuda o leitor a entender ainda mais a narrativa, serve-se do profeta Isaias uma vez mais, “João foi anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (v.3). Todavia, Mateus realiza uma modificação no texto de Is 41. Lá, se lê: “Uma voz grita: no deserto, preparai (abri) um caminho para YHWH; na estepe, aplainai uma vereda para nosso Deus.” No tempo deste escrito, atribuído à Isaias, o povo vivia exilado na Babilônia, e este versículo canta e prepara a libertação do exílio, ou seja, o retorno dos israelitas para Jerusalém, na companhia de Deus. Desse modo, fazia sentido que o caminho fosse preparado no deserto. Porém, a forma como o evangelista modifica o texto do profeta evidencia que o novo êxodo tem e começa por um caminho contrário; ou, inicia-se na contramão. A modificação operada pelo autor dá a entender que, a voz grita “no” deserto, ou seja, a partir do deserto, o caminho contrário à terra da promissão, que era símbolo do bem-estar e da benção de Deus para seu povo. Aquela terra e modelo de sociedade, na perspectiva do anúncio do Batista não serve mais ao bem, mas havia se tornad modelo, esquema e estrutura de morte e ruptura com o projeto de Deus.

No v.4, João é caracterizado por Mateus nos moldes dos antigos profetas, por trajar uma vestimenta de pelos da pele de camelo, com um cinturão de couro a cingir os rins. Esta era a maneira de se vestir do maior profeta da tradição de Israel: Elias. Segundo a tradição religiosa e teológica do AT, o retorno do profeta Elias antecederia a vinda do Messias. Para o evangelista, João Batista encarna a predisposição profética de Elias, ou seja, simboliza e marca o retorno do carisma profético do grande profeta da fidelidade ao Senhor. Era austero em seu modo de vida, a ponto do evangelista informar que ele "alimentava-se  de gafanhotos e mel", isto é, daquilo que o deserto lhe oferecia, ou seja, a dieta própria dos beduínos.

“Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia e de todos os lugares em volta do rio Jordão vinham ao encontro de João. Confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão” (v.5-6). João pregava um batismo de conversão, ou seja, de mudança de mentalidade e de vida, e as expectativas de todos os que habitavam aquela região de Jerusalém e do Jordão acorrem a ele. Eles compreenderam que os meios e os instrumentos utilizados pelos chefes religiosos (sacerdotes/saduceus, escribas e fariseus), bem como a instituição sagrada não lhes serviam mais para favorecer lhes o encontro com Deus. Por isso, se dirigiam á João no Jordão e eram batizados. Este era já um rito conhecido pelos judeus: consistia numa imersão na água, que simbolizava a morte para o próprio passado, bem como a purificação e o nascimento para uma vida nova.

João, conforme a tradição dos quatro evangelhos, realiza o batismo nas margens do rio Jordão. Esta localização é, também, importante. Na tradição do Êxodo, o ele representava a última etapa para que o povo, atravessando suas águas, pudesse conquistar a terra prometida sob a liderança de Josué. Mas, agora, este Jordão torna-se a etapa inicial para sair desta terra, que não mais representa sonho, vida e libertação, mas esquemas de domínio, submissão e impossibilidade de relação com Deus, porque estava nas mãos dos sacerdotes, escribas e fariseus e da instituição religiosa. Desta terra, deste esquema e estrutura contrárias ao querer de Deus se deve sair. Assim, João anuncia o novo êxodo que depois será levado à termo por Jesus. Nesse sentido também, o Batista acolhe as lideranças religiosas que se achegavam às margens do Jordão: “Raça de cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Produzi frutos que provem a vossa conversão. Não penseis que basta dizer: “Abraão é nosso pai”, porque eu vos digo: até mesmo destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão” (v.7-9). Com palavras inflamadas ele os acolhe, porque sabe que estes vêm para o cumprimento de mais um rito, apenas. Chama-lhes a atenção para uma mudança de mentalidade e de atitude, que são os frutos que comprovam a conversão. Todavia, estas pessoas, no decorrer do evangelho, não acolherão a palavra de João, tampouco a de Jesus. 

Para concluir o trecho bíblico, que é muito rico, Mateus coloca na boca de João o seguinte: “Eu vos batizo com água para a conversão, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (v.11). Este gesto que João realiza não é o mesmo que um outro, que ele distingue como o “mais forte”, pode realizar. O Batista sabe que não pode dar o Espirito de Deus. O Espirito de Deus, reconhecido como Santo é o dinamismo de vida que pertence à Deus e a seu Cristo. Ele possui a missão e a capacidade de mergulhar (batizar) a pessoa na realidade mesma do Pai e do Filho, isto é, na plenitude da vida divina. O batismo de João, realizado na água, acena para o fato de ser submergido numa realidade externa/exterior ao homem. Mas o batismo no Espírito (vida e amor de Deus), que só o Cristo, o "mais forte", pode realizar, significa ser preenchido e impregnado da mesma vida de Deus. Será isto que permitirá com que a pessoa possa levar adiante a sua vida em conversão.

Que o evangelho deste segundo domingo do advento possa preparar o deserto de nossos corações e nossas vidas, para que Deus passe. Que estejamos sempre dispostos a viver as pequenas conversões de cada dia, mudando a mentalidade e transformando nosso agir. Que nossa vida e história possam ser o deserto a partir do qual Deus possa realizar seu novo e constante êxodo, e como o Batista, preparar a estrada para o Senhor que definitivamente virá, e que constantemente nos visita.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.