sábado, 20 de agosto de 2022

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE MARIA - Lc 1,39-56:

 


A Igreja celebra a Solenidade da Assunção de Maria, Mãe do Senhor, aos céus. Um dogma de fé relacionado, numa primeira análise à pessoa de Maria. Todavia, ao lançarmos um olhar para o fundamento do dogma – da verdade de fé proclamada e celebrada, acima de tudo – os dogmas marianos estão radicalmente ligados e fundamentados na fé cristológica. Dito de outra maneira, só se pode dizer alguma coisa a respeito de Maria, porque, antes, e, primeiramente, foi dito sobre a pessoa de Jesus. Aqui urge corrigir a expressão cunhada pela mariologia antiga, “Sobre Maria nunca se poderá falar suficientemente (De Maria Nunquam Satis)”. Diz-se o suficiente a respeito dela e, tão somente o necessário, porque foi afirmado primeira e suficientemente acerca de Jesus.

O dogma mariano da assunção reafirma a índole escatológica da Igreja peregrina, da qual Maria é imagem – ícone. Ou seja, ao declarar e professar que Maria foi acolhida na Glória de Deus, a Igreja confessa sua fé na ressurreição. Ele reafirma e reflete o futuro e fim escatológico que está reservado para todo o crente: a vida definitiva e plena em Deus. Dizer que Maria foi assunta aos céus significa dizer que sua vida e história foram assumidas por Deus, em seu projeto salvador e redentor, em virtude do fato de que ela assumiu para si o projeto de Deus, vivendo como verdadeira discípula do Reino.

No Evangelho de Lucas, ela é o exemplo que deve ser assumido por todos aqueles que querem ser discípulos de Jesus e viver segundo a ética do Reino. O catequista bíblico faz questão de tipificar em Maria as atitudes fundamentais que a pessoa deve possuir para se tornar discípulo e discípula do Reino: ouvir a Palavra de Deus, acolhê-la (confronta-la) e frutifica-la através da vida concreta, em amor e serviço aos outros. Estas características estão bem ilustradas na cena da Anunciação do nascimento do Salvador versículos antes. Na cena anterior (Lc 1,25-38), Maria, ao encarnar em si a Palavra geradora de vida, se assume serva desta mesma Palavra e parte apressadamente para a região montanhosa da Judéia, a fim de assistir a sua parenta, a antes estéril Isabel, de idade avançada, e, agora, grávida. A esterilidade era uma vergonha naquele tempo. Maria decide-se por viver a Palavra de Deus colocando-se ao lado dos envergonhados e humilhados. Assume, portanto, a Palavra libertadora e geradora de vida sendo instrumento de libertação. Isso posto, podemos adentrar no horizonte do texto de hoje. Maria, ao assumir viver pela Palavra, se torna Sua servidora, e é capaz de assumir os irmãos.

Na casa de Zacarias, ocorre o encontro entre as duas mulheres. Elas ocupam o lugar central da narrativa. Maria, por primeiro saúda Isabel provavelmente com o significativo  Shalom. No entanto, prevalece para o narrador e leitor o interesse neste primeiro encontro: as duas mulheres que trazem consigo as duas crianças. É o encontro entre o Fruto do Espírito, Jesus, com o sinal profético do Espírito, João.

Então, Isabel profere uma benção (hbr. Berakah) à Maria. Precisamos compreender que a benção bíblica é sempre, e, em primeiro lugar, uma “bendizência (louvor)” a Deus por aquilo que ele fez. Não se trata de um ato mágico. A fé judaico-cristã não admite qualquer compreensão ou concepção mágica nas mediações religiosas.

Isabel bendiz a Deus pelo acontecido em Maria e com ela mesma. A mãe de João reconhece, pelo Espírito, Aquele que está presente no seio de Maria. O estremecimento de João desde o seio de Isabel, indica que desde o ventre materno ele já profetiza a vinda do Senhor, já O sente, e manifesta Sua presença (v.42).

O evangelista faz aqui um midrash – uma interpretação – do texto de 1Cr 15,28 e 2Cr 5,13, onde o povo aclama a presença de Deus na Arca da Aliança. Também Davi, quando da visita da Arca em sua casa, exclama: “como poderá vir a mim a Arca do Senhor? (cf 2Sm 6,9)”, acolhendo-a, depois, com jubilo e danças. Estes textos servem de pano de fundo para esta narrativa da visita a Isabel para indicar o seguinte: Maria é, agora, a nova Arca que traz a presença salvífica do Senhor, em meio ao povo. Isabel profere, então, uma bem-aventurança à Maria: “bem-aventurada aquela que acreditou”. O acento, aqui, recai sobre o verbo “Acreditar (gr. πιστεύω/pisteûo)”. É mulher feliz (bem-aventurada) porque acreditou na Palavra que Deus lhe dirigiu. 

Então Maria responde à Isabel com um canto de ação de Graças e louvor, composto por muitos versículos dos salmos, e de outros textos do AT. Lembra o cântico de Ana, mãe de Samuel, que também não podia ter filhos. Ela assume em si todos os filhos frutos da promessa da graça de Deus (1Sm 2). Deus levanta os humilhados, porque Maria é uma humilhada, no sentido de que ela é uma menina ainda; não tinha, até aquele momento, um lugar na sociedade. Lembremos que era ela apenas desposada. Se alguém ficasse sabendo de que ela estava grávida, ainda prometida em casamento, isso seria uma grande humilhação e vergonha.

A melhor tradução para esse versículo seria: “Porque olhou para a humilhação (gr. ταπείνωσις / tapeînosis) de sua escrava”. Maria não é humilde naquele sentido de uma virtude piegas e pedante (que no fundo esconde bem os verdadeiros interesses), ou aquele “coitadismo”, mas a humilhada, uma a’nih, ao lado dos a’nawim, os pobres, humilhados e oprimidos, que recorrem a Deus por socorro. Portanto, o Deus de Israel é aquele que levanta da humilhação os humilhados.

O v.50 mostra o tema da misericórdia, o qual é muito precioso para Lucas. Ele se faz presente em todo o contexto do evangelho. No seu cântico, Maria se apropria de toda a história de Israel (v.51), no intuito de mostrar a atuação do Todo-poderoso – El Shaday – que fez grandes coisas: colocar seu coração ao lado dos desfavorecidos da história. Todas estas tradições histórico-salvíficas ressoam no Magnificat de Maria. Com seu hino profético, ela proclama a opção que Deus faz; o lado que o Todo-poderoso assume: o dos pobres. Mas não é só se colocar ao lado dos pobres! Os versículos seguintes colocam em evidência a ação do Deus ao qual Maria serve.

Os v.52-53 são muito importantes pois acenam para a chamada inversão escatológica, a mudança, a reviravolta que Deus opera na história; a subversão dos valores e das categorias conforme a lógica do Reino. “Deus derruba dos tronos os poderosos e eleva os humilhados, enchendo de bens os famintos e despedindo de mãos vazias os ricos”; ou seja, os valores dos poderosos não valem mais no tempo do Espírito. Eles perdem seu poder e os humilhados são exaltados, ou seja, colocados em seu lugar. Maria termina cantando a realização das promessas ao servo Israel (Jacó e todo povo). A serva Maria identifica-se com o servo Israel, ou seja, o povo que está à disposição de Deus. 

Na arca da nova aliança não há tábuas da Lei, não há normas nem preceitos. Existe apenas Jesus, expressão máxima do amor e da misericórdia de Deus para com toda a humanidade. Assumir o projeto amoroso de Deus que é gerar vida, acolhimento, amor, solidariedade e serviço resulta ser por Deus em Jesus assumido para a vida eterna, que já começa a ser vivida nesta história.

 

Pe. João Paulo Sillio.

 

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI – Lc 9,11-17:



A Liturgia de hoje retoma a leitura do Evangelho segundo Lucas e, apropria-se, para esta Solenidade do Corpo e do Sangue do Senhor, do seu capítulo nono, a partir do v.11b, onde se narra o episódio do que ficou conhecido como multiplicação dos pães.

Para compreender esta perícope de Lc 9,11b-17, é preciso situar o capítulo desde o começo. Os vv.1-6 abrem o capítulo, narrando o envio do grupo dos Doze para a missão, por parte de Jesus. Os versículos seguintes (v.7-9) reinsere a figura de Herodes, que reconhece ter matado o Batista, e dando a sua impressão sobre a pessoa de Jesus. Lucas volta, novamente, o foco da narrativa para os discípulos no v.10, ao narrar o retorno dos Doze da missão. Do v.11 em diante, tem-se, pois a narrativa bíblica desta solenidade. 

Outro elemento que deve chamar a nossa atenção é a localização geográfica na qual se narra toda a ação de Jesus até o presente momento. Ele está percorrendo a Galileia: terra de gente simples, empobrecida pelo poder vigente e pela cultura social e religiosa da época; lugar de pessoas pagãs, segundo o raciocínio do povo do sul; recôndito da marginalização e da exclusão. A narrativa que temos diante de nós apresenta, pois, o ponto alto da missão de Jesus na Galileia, a ser demonstrado pelo gesto que ele realizará a seguir. Com este episódio, Lucas recupera o dito de Jesus na Sinagoga de Nazaré, que contém o seu discurso inaugural e programático: “ungiu-me para anunciar a Boa Nova aos pobres, aos cegos a recuperação da vista, a libertação aos cativos e aos oprimidos, e anunciar o ano favorável de YHWH” (Lc 4,16). Agora pode-se adentrar no horizonte do texto.

O v.11 inicia, informando que Jesus levou os Doze para um lugar próximo de Betsaida, deserto e afastado. Talvez para que pudessem restabelecer as energias depois de uma jornada intensa de trabalho e missão. Mas a multidão não alivia, e vai ao encontro de Jesus, que estava cuidando dos seus. Todavia, ele as acolhe e começa a ensinar e curar os que necessitavam.

Até aquele momento, os discípulos tiveram contato com a vida de Jesus para poderem, futuramente, assumir a missão confiada. Mas eles demonstram não terem compreendido ainda a dinâmica da vida e da existência do Mestre. Prova disso é o fato de se aproximarem e pedir que despedisse a multidão, dado o lugar deserto e a hora avançada. Lucas põe o acento na informação de ser ali um lugar deserto. Ele é mencionado, aqui, para relembrar a experiência do Êxodo dos hebreus.

Da mesma forma que YHWH interveio para libertar seu povo da opressão do Egito, e atraiu-os ao deserto para alimentá-lo, o Pai atrai para Jesus o povo faminto e oprimido para alimentá-los com sua Palavra (ensinamento) e com sua ternura e cuidado (as curas). O evangelista quer ensinar para sua comunidade que, a partir de Jesus, começa um novo e definitivo Êxodo.

No v.13, Jesus ordena: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como inaugurador de um novo êxodo, Ele quer ensinar e orientar seus discípulos a saírem de si e romperem com a lógica do pensar em si mesmo somente, para abri-los em relação aos outros; a quebrar com o esquema do cada um por si, muito propagado através da ideologia do império romano e pela religiosidade individualista e intimista do judaísmo da época. Através desta ordem, Jesus ensina aos seus a se preocuparem e solidarizarem-se com os outros. Ele vence a tentação dos discípulos e os desafia a buscar uma alternativa.

Ainda no v.13, os discípulos respondem que só possuem cinco pães e dois peixes. Mas, para Jesus, isto é o suficiente. O resultado de 5 + 2 é 7, número que na teologia bíblica significa plenitude. O Jesus de Lucas quer ensinar para os seus (e para nós, hoje) que Deus dispõe tudo (da sua plenitude) para todos. Em seguida, no v.14, Jesus orienta os discípulos que façam sentar a multidão em grupos de 50 pessoas, perfazendo um total de 100 grupos. Cinquenta e cem são números perfeitos (completos), que também acenam para a completude.

Jesus dá o exemplo. “Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão” (v.16). Elevar os olhos para céu (âmbito da morada de Deus), significa orientar toda a sua ação para Deus; abençoa aqueles dons, parte e reparte-os entre os discípulos, para que fizessem o mesmo com a multidão. É Jesus quem inicia o gesto de condividir os alimentos e colocar em comum o que se tem, e este ecoa entre a multidão, que vendo o exemplo, faz o mesmo.  Por isso, esta perícope merece ser chamada de Condivisão dos pães. Pois o gesto de Jesus não é um ato mágico, senão, um forte e real chamado ao projeto de comunhão, solidariedade e partilha, que fazem parte do projeto criador e salvador de Deus. Ele está reorientando os seus discípulos para o projeto original de Deus, na criação.

Onde está, então, o “milagre” da multiplicação? Ele está no fato de Jesus qualificar aquele gesto de condividir (por em comum / partilhar) como sendo vontade de Deus, através da bênção que profere sobre os alimentos. Dito de outro modo, a Bênção que Jesus profere indica que a partilha e a condivisão representam a vontade e o querer de Deus, desde a criação.

“Todos comeram e ficaram satisfeitos. E ainda foram recolhidos doze cestos dos pedaços que sobraram” (v.17). Quando a comunidade partilha e coloca em comum o que tem, realiza, então a vontade de Deus; atualiza e assume a mesma vida, existência e missão de Jesus em seu meio; alimenta (cuida e acolhe) os irmãos (a todos, e, em especial, os pobres, excluídos e marginalizados), ninguém passa necessidade e ainda sobra. Nesse sentido, a comunidade assume uma vida eucarística no modo de Jesus.

Seria uma incoerência de nossa parte, partirmos o pão-corpo sacramental do Senhor em nossas Eucaristias, quando não partilhamos o pão cotidiano com o irmão. O que celebramos – enquanto um “nós eclesial” – em nossa liturgia deve ecoar na vida concreta. Ao nos alimentarmos do corpo e do Sangue do Senhor, somos eucaristizados em seu Corpo real e, portanto, eclesial, para sermos no mundo e na história suas mãos realizadoras de partilha, seus pés que vão ao encontro do irmão e seu coração, colocando-nos à serviço dos irmãos. Nisto consiste comungar: estabelecer comunhão (relação existencial, vital e sacramental) com o Corpo e com o Sangue do Senhor.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 11 de junho de 2022

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA Ssma. TRINDADE - Jo 16,12-15:

 


Celebra-se em toda a Igreja a solenidade da Santíssima Trindade, ao interno do tempo comum, já retomado após Pentecostes. Todavia, para este ciclo litúrgico, a liturgia ainda propõe a leitura do Quarto Evangelho para ajudar na meditação desta solenidade. Tendo se cumprido com a solenidade do pentecostes as celebrações máximas do Mistério Pascal do Senhor (paixão, morte, ressurreição-ascensão e pentecostes), a Liturgia católica achou por bem inserir a Solenidade da Santíssima Trindade para explicitar aos fiéis qual o destino, enquanto meta e finalidade, de todo o discípulo e discípula do Reino que decidiu-se por viver a vida de Jesus de Nazaré: ser habitação de Deus Uno e Trino. Ser morada da Trindade. O texto evangélico utilizado para nossa meditação se encontra no capítulo dezesseis do Evangelho segundo João.

O capítulo dezesseis encontra-se, como já estamos familiarizados, na segunda parte do evangelho joanino, no livro da Glória, precisamente no chamado testamento de Jesus; a grande catequese-ensino do Senhor que acontece ao redor da mesa naquela ceia de despedida às vésperas da páscoa judaica. Ali, Jesus revela o conteúdo do seu testamento: o dom da sua vida (simbolizado no gesto do Lava-pés, em Jo 13) e o mandamento novo do amor, através do qual a comunidade dos discípulos pautará o seu viver e agir animada pelo Dom do Espírito.

O texto proposto inicia-se a partir do v.12. Jesus afirma aos discípulos sentados ao seu redor, na ceia: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora”. O Espírito será o intérprete da vida de Jesus para a comunidade. Mas isso só será possível mediante o evento de Sua morte-ressurreição, porque será somente a partir do dom do Espírito, que a comunidade poderá compreender e interpretar o sentido da vida do Mestre, bem como de sua morte e ressurreição. A ressurreição de Jesus e o Dom de Seu Espírito permitirão à comunidade atualizar a vida e a presença do Senhor no meio deles. De fato, seria impossível compreender as coisas antes que elas aconteçam.

Mas, a incapacidade dos discípulos em compreender o que Jesus diz naquele exato momento se deve ao fato de que só pode compreender o que Ele diz quem já alcançou a capacidade de fazer o que ele faz, isto é, doar a própria vida. O discípulo só poderá entender as palavras e o sentido da vida do Senhor quando assimilar e realizar a mesma existência de Jesus. Enquanto isso ainda não é assimilado pelo discípulo, ele não compreenderá as Palavras do mestre. Ainda os discípulos não estão prontos, porque não passaram pela experiencia de Jesus.

Por cinco vezes, durante o discurso, Jesus promete enviar o Espírito Santo quando retornar para o mundo do Pai (cf. 14,16-17.26; 15,26; 16,7-8.13). Através do Espírito, a presença de Jesus se eternizará no meio deles. O Jesus joanino adjetiva o Seu Espírito como “Espírito da verdade”. Verdade no evangelho joanino significa “amor/fidelidade”. Não se trata de uma verdade abstrata, filosófica ou racional. A fidelidade/amor é o modo através do qual Jesus decide-se por viver em relação ao Pai que é amor fiel, e em relação às pessoas.

As “coisas futuras” significam a capacidade de ler os eventos futuros à luz da mensagem de Jesus. Não não novas revelações ou visões, tampouco uma nova relação com Deus mediante o Espírito. Mas a atualização da única e mesma mensagem de Jesus a toda a comunidade. A comunidade muda, cresce; surgem novas necessidades e problemas, e a relação com o Espírito, fará compreender, graças à mensagem de Jesus como ir ao encontro destes problemas e destas necessidades.

A comunidade cristã sempre encontrará situações novas e surpreendentes ao longo da história. Deverá ela sempre interpretá-las à luz da vida de Jesus. E quem garantirá a continuidade desta vida do Senhor na vida e na história do discípulo e da comunidade será o Espírito da Verdade, ou seja, do amor/fidelidade do Pai que conduziu a vida de Jesus.

A referência trinitária para o texto de hoje encontra-se no v.15: “Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”. Emerge, aqui, o tema do amor (comunhão) e da unidade existentes entre Jesus e o Pai. É sob o mistério da comunhão, amor e unidade que o Deus uno e trino pauta o seu viver desde o interno de sua vida intra-divina. Esta vida, num mesmo mistério de amor, extrapola para fora de si mesma, e quem a revela é Jesus no Espírito.

Da vida da Trindade somos todos chamados a participar através do Batismo recebido, o qual nos dá o Dom do Espírito, que habilita a chamar Deus de Pai e Jesus de Senhor. Assim, o Espírito nos garante acesso a vida de Jesus e do Pai, porque nos leva para dentro de sua relação de comunhão e amor, para vivermos segundo a vida do mesmo Filho, inscrita em nós pelo Espírito. Ou seja, para vivermos uma vida segundo o modelo da Trindade, em amor, comunhão e unidade.

Que a vida da Santíssima Trindade, que já nos (in)habita desde o Batismo, possa ser vivida através de nossa existência e mediante o testemunho de fé da comunidade cristã, a qual é espelho da comunidade perfeita formada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.


sábado, 28 de maio de 2022

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – Lc 24,46-53:


O tempo pascal encaminha-se para sua conclusão. A liturgia da Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, na qual a comunidade professa a plenitude da ressurreição do Senhor. Jesus Ressuscitado, ao retornar para o âmbito de Deus leva consigo a natureza humana. Ele não volta sozinho para o Pai, mas leva a nossa humanidade e a (re)orienta para o seu fim último e definitivo: a vida de Deus.

A liturgia nos propõe o texto de Lc 24,46-53. Estamos no último capítulo do evangelho segundo Lucas, que iniciou com o relato do anúncio da ressurreição às mulheres, seguido da manifestação do Senhor ressuscitado aos discípulos na estrada de Emaús (Lc 24,12); continuando, depois, a manifestação à Simão e à toda a comunidade (Lc 24,34ss), até chegar à conclusão narrativa que temos diante de nossos olhos para a meditação.

No v.46, o evangelista nos informa que Jesus explicou o sentido das escrituras aos discípulos, após comer com eles, recordando que o Messias/Cristo deveria sofrer e ressuscitar ao terceiro dia. Esta recordação/memória que o Ressuscitado realiza junto com os seus corrobora a fala do mensageiro celestial às mulheres logo na introdução do capítulo. Elas deveriam, juntamente com o grupo dos discípulos, recordar o que Jesus havia dito sobre o seu destino. Para se fazer a experiência com o ressuscitado, a comunidade deve fazer a memória atualizadora da vida e da missão de Jesus. Atualizar sua presença, assimilando na vida cotidiana a exemplaridade da vida de Jesus. Ainda que a existência e vida histórica do mestre e Senhor passe pela morte. O discípulo não pode ter medo de se deparar com esse fato. É necessário e, igualmente importante, que eles acolham o acontecido com Jesus – sua paixão e morte – como a realização e cumprimento das escrituras, para que possam proclama-lo como Messias.

Nos vv. 47-48, o Jesus de Lucas toca no tema da missão. A missão da comunidade consiste em oferecer e testemunhar a reconciliação realizada por Jesus a todos os povos. O evangelista trabalha aqui com um tema que lhe é muito caro, a universalidade da salvação: a salvação é para todos, indistintamente. Ninguém fica excluído dela. A missão consiste em testemunhar a misericórdia de Deus através do dom da vida de Jesus. Assim, a comunidade assimila, vive e testemunha a missão de Jesus quando ela mesma assume a exemplaridade da vida dele. O que Jesus fez deverão fazer seus discípulos.

Para que os discípulos e a comunidade vivam profundamente a existência de Jesus, devem ser revestidos da “força do Alto”: o Espírito Santo. O evangelista usa do termo grego dynamis / δύναμις. A força do Alto é o dinamismo de vida do próprio Deus e de Jesus que anima e move a vida dos discípulos e da comunidade para viver a missão, vivendo a vida mesma de Cristo. Ora, a vida de Jesus foi toda pautada e conduzida pelo Espírito de Deus. No Evangelho de Lucas, tudo o que Ele realiza e vive, o faz segundo o Espírito. No relato do Batismo, é o Espírito que o investe para missão. No deserto, é o Ele quem o conduz. Na Sinagoga de Nazaré, declara-se ungido pelo Espírito. É por este momento que os discípulos deverão esperar, pela vinda da força do Alto.

O evangelista descreve a cena da ascensão, narrando a atitude de Jesus de “levar para fora” da cidade os discípulos, próximo à Betânia. Dois detalhes devem chamar nossa atenção. Lucas emprega um termo que alude ao tema do Êxodo. No relato da transfiguração (Lc 9), as duas personagens Moisés e Elias conversam com Jesus sobre o êxodo que ele realizaria através do dom de Sua vida, de sua Páscoa. Agora, o evangelista mostra para a sua comunidade a realização deste Êxodo. Outro detalhe é a localização, perto de Betânia. Seguir na direção de Betânia significa tomar o caminho contrário à Jerusalém: o caminho da entrada triunfante de Jesus na cidade santa, na ocasião da Páscoa. Se, de Betânia Jesus marcha para sua paixão e morte de cruz, seu êxodo de morte e vida, agora, na direção contrária de Jerusalém ele marcha definitivamente para junto do Pai.

Lucas, pele primeira vez mostra abençoando os seus, enquanto sobe para junto do Pai, e este gesto coincide com sua exaltação à direita de Deus, sua ascensão. A benção bíblica é, primeiramente, uma “bendizência”, ou seja, o ato de bendizer à Deus recordando seus feitos, aquilo que realizou em favor dos seus, para tornarem-se lugar da presença de Deus. Ela assume uma dinâmica performativa, ou seja, realiza aquilo que diz, transmitindo uma força eficaz e irrevogável. A benção bíblica (que a Liturgia eclesial assumiu em seu dinamismo celebrativo-litúrgico) comunica a essência daquele que abençoa nos que são abençoados. Assim, os discípulos, que são abençoados, difundirão a bênção e, através dela, farão novos discípulos.

Depois de abençoar os discípulos, Jesus foi elevado aos Céus. É necessário compreender a cosmologia da época, isto é, a concepção de universo, espaço e tempo do povo da bíblia. O céu é o lugar da habitação de Deus. É âmbito divino e expressa a condição divina. Aplicando essa imagem a Jesus, o evangelista pretende ensinar que Jesus cumpriu plenamente a missão de revelar a face misericordiosa do Pai. Por ter sido fiel a essa missão, isso foi levado em conta pelo Pai, que o enalteceu e o justificou, ao entronizá-lo a sua direita. Ação de elevar o Filho é realizada pelo Pai (“foi levado para os céus” encontra-se na voz passiva, que indica que a ação em relação ao Filho foi realizada por Deus-Pai), assim como a ressurreição. A sua elevação não é outra coisa que o retorno ao âmbito do divino. Aquele homem que havia sido condenado como blasfemo, e morto pelas lideranças religiosas e políticas, agora está à Direita de Deus. Porque Ele mesmo assim o quis. É uma maneira que o evangelista encontra para dizer que o Crucificado pertence a esfera da divindade.

“Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (vv.52-53). Adorar é a atitude típica do reconhecimento da soberania de Jesus. Os Seus discípulos sabem que Ele é realmente o salvador, e, por isso, da mesma forma que no início do Evangelho lucano os pastores se alegraram com o anúncio do nascimento do Messias (cf. Lc 2,10), os discípulos expressam uma “grande alegria”. A alegria é uma característica essencial do discipulado, na perspectiva de Lucas. Ela já foi antecipada no início da catequese também por Maria (cf. 1,47) e pelos anjos (cf. 2,8-20). E agora toca aos discípulos comunica-la ao mundo.

O Evangelho de Lucas começa e termina no Templo de Jerusalém. De fato, após o prólogo, encontramos Zacarias oficiando no Templo (Lc l,5ss): é o tempo de Israel que, aos poucos, dá lugar ao tempo do Espírito que anima a comunidade cristã, a fim de que ela saiba atuar na mesma perspectiva libertadora de Jesus, segundo o Seu Espírito que inscreve no homem a vida do Senhor.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

 

sábado, 21 de maio de 2022

REFLEXÃO PARA O VI DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 14,23-29:


Adentramos no sexto domingo do tempo pascal, seguindo com a leitura do testamento de Jesus no Quarto Evangelho, o qual constitui o Seu grande ensinamento sobre o mandamento (dinamismo) do amor, e sobre a entrega da própria vida. A liturgia propõe para a nossa meditação o texto de Jo 14,23-29. O texto situa-se no livro da glória, a segunda parte do Quarto Evangelho, onde Jesus revela aos discípulos que chegou a hora da glorificação do Filho do Homem. Esta hora decisiva revela-se na Cruz. Ali, Jesus leva a termo a sua Obra, a obra que recebeu do Pai, que através do gesto livre da doação da vida do Filho revela, pois, todo o seu Poder, seu ser e seu agir. Há que se recordar também que este “testamento” é transmitido pelo Senhor ao redor da mesa, o lugar da comunhão da vida e da relação mais profunda com o mestre.

Qual a finalidade de Jo 14, 23-29 para a comunidade dos discípulos, para a geração posterior e para nós, hoje? Fundindo os horizontes da comunidade dos discípulos (tempo narrado, os anos trinta) e o da comunidade de joanina (a geração posterior dos fieis, na qual inclui-se todo o fiel-discípulo e leitor do Evangelho, pelos idos dos anos noventa), a intenção do texto atinge seu ápice quando a comunidade cristã lê, assimila e adere ao testamento/ensinamento de Jesus como sendo seu modo de vida, pautando o seu agir e sua identidade no modo de vida de Jesus, em seu ensino e em sua missão. Assim, o discurso de despedida que Jesus deixa aos seus serve para que eles e a geração seguinte possa balizar seu ser, viver e agir quando da ausência do mestre. Nesta perspectiva, a comunidade teria as ferramentas (os meios) para viver constantemente o convite e a realidade de uma vida ressuscitada garantida pelo dom do amor do Senhor e por seu Espírito, isto é, viver segundo o Filho de Deus.

Antes de tomarmos o texto de hoje, se faz necessário que nos versículos anteriores, Jesus prometeu o Espírito Santo aos discípulos. O Espírito Santo é o espírito de Jesus (Espírito do Ressuscitado) e do Pai. É o dinamismo de vida do Pai e do Filho, que, doado por ambos comunica vida, filiação e amor. É aquele que garante a continuidade da vida e a presença de Jesus para a comunidade, através da vivência do mandamento do Amor. Jesus prometeu manifestar-se à quem ama como ele ama. Isso posto, podemos entrar no horizonte do texto.

Jesus continua seu discurso, dizendo: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou”(vv.23-24). Jesus afirma a importância do amor e de guardá-lo como mandamento/Palavra. O Pai e Jesus se manifestam na vida daqueles que amam do mesmo modo de Jesus. Todavia, é necessária uma condição para receber e participar deste amor, de acordo com o evangelista João: amar a Jesus para receber o amor do Pai. O amor é a plena adesão e identificação a Jesus.

Mas amar a Jesus e, por conseguinte, viver a mesma vida dele, é também o critério para saber se a Sua Palavra é, de fato, guardada, ou seja, vivida. O verbo guardar (hbr. Shama) não significa reter para si, mas observar, no sentido de cumprir/viver o mandamento e a Palavra de Deus. Só o amor pode motivar a adesão à Palavra/mandamento de Jesus.

Jesus assegura uma segunda vez: “o defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (v.25). Na teologia do Quarto Evangelho, o Espírito é o defensor; tem a função de ensinar e recordar. O termo que João emprega é παράκλητος/paraklétos (gr. Pará = junto de, ao lado de / kalein (kaleo) =  chamar), que significa “estar junto de”, ou “ser chamado para ficar ao lado de”. Ao lado, enquanto presença ativa e viva do próprio Senhor junto do discípulo. Nesse sentido, o Espírito de Jesus está ao lado do fiel para que ele possa assumir o modo de vida de Cristo.

Outras duas funções são apresentadas pelo Jesus joanino, a de ensinar e renovar. Ambas as funções querem dizer a mesma coisa: atualizar. Ora, o verbo “recordar”, na fé e tradição do Antigo Testamento remente à atitude da memória bíblica significa tornar presente no hoje o ensinamento, a missão e a vida mesma de Jesus. O ensinar/recordar são duas atitudes imprescindíveis para a vida da comunidade. São as atitudes daqueles e daquelas que vivem a novidade do convite à vida ressuscitada de Jesus, e dela dão testemunho. O Espírito Santo é aquele que inscreve (escreve a partir de dentro) a vida mesma de Jesus em nós. Ele é a letra de Cristo que escreve no livro da vida humana a vida de Jesus. 

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe o vosso coração” (v. 27). Jesus fala da paz. É preciso entender de quê paz ele fala. É daquela que, no Antigo Testamento está associada à posse da terra prometida. Como consequência da posse da terra da promessa, o povo conquista a paz. Mas ela é dom e garantia do tempo do Messias. Significa que a espera acabou e que a promessa foi cumprida. Todavia, no Novo Testamento, a paz não se dá em virtude da conquista de um lugar geográfico como a posse da terra da promessa, no AT. A Paz se dá através da relação com Jesus. Nesse sentido, Jesus é a terra prometida. Ele é a promessa cumprida. Então, para os discípulos de Jesus, a Paz é um modo de ser e de existir. É ela uma qualidade de vida. Por isso, a paz que Jesus dá é Ele mesmo. Um modo de ser e de existir que é superior à “pax romana” (se queres paz, prepara-te para a guerra), aquela que visa oprimir, dominar, subjugar para manter a ordem, principalmente contra as minorias. A paz judaica é aquele típico bem-estar. E a Paz que Jesus dá, supera estas ideologias.

Na certeza de que Jesus e o Pai fazem morada em quem vive o mandamento do amor, cabe aos discípulos e discípulas de todos os tempos o esforço para que tudo isso seja manifestado também ao mundo.

 

Pe. Joao Paulo Sillio.

 

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 14 de maio de 2022

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 13,31-35:


 

O evangelho deste Quinto Domingo do tempo pascal retoma a narrativa da ceia de despedida de Jesus, no Quarto Evangelho (Jo 13,1-38). Estamos ao interno do chamado Livro da Glória. O texto de Jo 13,31-35 situa-se após o gesto profético do lava-pés, o gesto simbólico da vida de Jesus levada até as últimas consequências; do anúncio da traição de Judas e do prenúncio da negação de Pedro.

Mas, no contexto da catequese joanina, o texto de hoje encontra-se no bloco denominado testamento de Jesus (Jo 13 – 17), sendo quatro capítulos narrados ao redor da ceia, evento que não pode ser visto como ocasião para consumo de alimentos, muito menos resume-se na vivência de um rito, tampouco uma mera confraternização. A ceia é o lugar da partilha e da comunhão de vida entre o anfitrião e os hospedes. Por isso, o testamento que Jesus deixa aos seus se dá ao interno desta ceia.

O que seria este testamento que Jesus entrega aos seus? O testamento é o ensinamento e a exemplaridade da vida do mestre destinado ao discípulo que se decidiu por ele. O seu conteúdo é a revelação de Deus através da Sua vida, mediante a sua entrega, e o mandamento do Amor. É sobre este conteúdo que a comunidade de João e as gerações futuras deverão se debruçar. Por isso, a nível de catequese litúrgica, a Igreja oferece este texto para a meditação, a fim de que as comunidades de todos os tempos, tendo feita a experiência com Jesus ressuscitado, possam pautar a vida ressuscitada nos seus ensinamentos e no Seu modo de vida. Somente vivendo a partir do modo de vida de Jesus a comunidade continuará a experiência da ressurreição e prolongará sempre na história a vida do Senhor. Vamos ao texto.

No v.31 temos uma delimitação importante: a saída de Judas. Ele se decidiu por romper com Jesus, com seu projeto e com o grupo dos Doze. Optou em não aceitar a dinâmica do lavar os pés. Escolheu as trevas (por isso João situa estes acontecimentos finais da vida de Jesus no período noturno). Somente após a saída deste discípulo é que o mestre entrega o seu testamento aos demais. Só pode tomar parte, receber e assumir o testamento de Jesus aquele que estabelece uma comunhão com o Seu modo de vida. Ao mesmo tempo, no horizonte do evangelho segundo João, a saída de Judas do grupo é o que desencadeia o ensinamento de Jesus sobre a Hora da Glória.

O v.32 toca precisamente no tema da Glória (da glorificação) de Jesus, a qual é o lugar tenente da Glória de Deus. O tema da Glória no Quarto Evangelho é importante e perpassa a obra joanina do começo ao fim. Glória, aqui, não significa brilho/esplendor. O evangelista serve-se do pano de fundo do Antigo Testamento, trabalhando com o termo hebraico Kabod, o qual se traduz por Glória, mas no sentido de “presença”. Assim, a Glória de Deus outra coisa não é que a sua presença na história. Na teologia do evangelho de João, a vida de Jesus torna-se o lugar no qual se dá a presença de Deus. Com efeito, a Glorificação do Filho do Homem, da qual fala Jesus é o ato de manifestar a presença de Deus através do dom da sua própria vida na Cruz. Por isso, é na Cruz que Deus revela todo o seu poder, sua presença e seu Ser no Crucificado.

Jesus assume para si a missão e identidade da personagem apocalíptica do Livro de Daniel (Dn 7,10), que na época de Jesus evocava um ser glorioso e potente. Geralmente, Jesus relaciona essa imagem ao seu sofrimento, tanto no Quarto Evangelho, quanto nos evangelhos sinóticos (cf. Mt 17,22; 20,18; Mc 9,12.31; 10,33; Lc 9,22.44), contradizendo o uso recorrente no seu tempo. Em João, glória e paixão estão intrinsecamente relacionadas.

O evangelista, no texto grego serve-se da voz passiva, a qual indica Deus como o agente  realizador da ação (“passivo teológico ou divino”). O termo “glorificar” pode ser entendido, ainda, no sentido de “manifestação da glória”, revelação da presença divina: “Foi glorificado o filho do Homem, e Deus foi glorificado nele”. Ora, a glória de Jesus, enquanto Filho consiste em realizar o querer e a obra do Pai. A glória do Pai, por sua vez, é ver o Filho amando até o fim, isto é, plenamente. E sendo-lhe fiel. Mas só poderá tomar parte da glorificação de Deus em Jesus os que são tidos como “filhinhos”, ou seja, aqueles que aderiram e aderem ao projeto e à vida de Jesus: os iniciados na Fé. É a linguagem do Mestre para com os discípulos. Mas “filhinhos” é também o termo que 1Jo 2,1.12.28 usa para se dirigir aos fiéis. Jesus fala agora aos fiéis como se já constituíssem uma comunidade eclesial, por que o Jesus joanino é o Jesus da comunidade, o Jesus eclesial.

Os filhinhos recebem, pois, uma novidade de vida: um Novo mandamento. “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (v.34). Existem dois adjetivos que correspondem a “novo”: o primeiro deles, “néos” (gr. νέος) significa algo novo que se soma ou acresce-se ao que já existe, no sentido da quantidade; o segundo, kainós (gr. καινός) significa algo que substitui o que é velho, superando-o e fazendo-o desaparecer. É esse segundo termo que João se serve aqui. Portanto, o mandamento novo dado por Jesus não vem a ser um acréscimo à antiga Lei, mas a sua completa superação, no sentido de leva-la à plenitude. Uma vez que o termo Lei (gr. nômos) não é uma tradução boa para o termo Torá. Esta poderia muito bem conservar o sentido original da tradução que ela recebe do original hebraico, como “instrução/caminho”.

Jesus ao comunicar um “mandamento novo”, está a dizer para seus discípulos (e à nós) que sua vida e o modo do Seu amor superam (plenificam, conferem plenitude e cumprimento/realização) a Instrução/caminho, a Torá de Deus. O amor tem a capacidade de superar uma Lei; de aperfeiçoar um “caminho” (Torá/instrução). Quer dizer que, vivendo esse mandamento, a comunidade não necessita de nenhum outro. É esse o modelo de amor que ela deve assimilar e reproduzir. O interessante é que Jesus não dá como testamento para sua comunidade um conjunto de normas ou ritos somente. Sim, é verdade que no "tomar e comer, e no tomar e beber", Ele nos dá a ordem de iteração "fazei isto em memória de mim", para que celebre-se sempre a sua vida através dos dons sacramentais. Mas a liturgia e o rito só adquirem a real eficácia quando verificados através do modo de vida de Jesus. E, ao mesmo tempo, os sacramentos atingem sua finalidade a partir do momento que inscrevem a vida de Cristo em nós. Por isso, seu testamento não é só delimitado pelo rito ou pelo preceito. Ele nos deixou um Mandamento novo, um modo de ser, agir e existir. 

Somente em João o mandamento do amor é dado com essa radicalidade e com este exemplo, ou seja, o amor de Jesus. Diante disso, a novidade apresentada pelo evangelista se torna ainda mais evidente, pois Jesus não reivindica nada para si e nem para Deus, o Pai; pede apenas amor recíproco entre os membros da comunidade: “amai-vos uns aos outros”; nesse amor recíproco entre os discípulos, obviamente, estará o amor a Deus, pois é Ele a fonte do amor e, consequentemente,  Jesus, o revelador do amor do Pai. O critério do amor que deve ser vivenciado na comunidade é o seu: “como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. Que não é um amor qualquer, mas é aquele capaz de dar a vida pelo próximo, cuja expressão visível é o serviço (cf. Jo 13,15).

A vivência deste Amor de Jesus torna-se o critério para reconhecer as comunidades e os discípulos de Jesus, “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Assim, se faz necessário questionar-nos um pouco: 1) Será que poderemos nos reconhecer entre os filhinhos ou estamos ainda na dinâmica existencial de Judas, que rompeu com a comunhão e com projeto de vida e amor de Jesus? 2) Poderemos ser distinguidos e identificados através do Amor de Jesus que deve permear e performar a nossa vida? 3) Nossas comunidades se alimentam e se balizam pelo mesmo amor de Jesus, sendo sinais e testemunhas deste Amor?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


domingo, 8 de maio de 2022

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10,27-30:


O texto que a liturgia do quarto domingo da páscoa nos propõe encontra-se em Jo 10,27-30. O capítulo décimo do Quarto Evangelho apresenta a temática do Pastoreio, com destaque para a alegoria do Pastor Exemplar, ou “Belo Pastor”, dos vv.11-18. Este tema era muito presente na vida de Israel. A imagem do pastor/pastoreio e do rebanho nutria a fé e o imaginário religioso do povo de Deus, bem como alimentava as expectativas acerca da manifestação do Messias. Primeiramente, o rebanho/ovelha é um símbolo aplicado ao povo. Já a imagem do pastor era atribuída ao próprio Deus. Mas, no decorrer da história foi sendo atribuída às lideranças, os reis e sacerdotes, a alcunha de pastores (guias). Mas, a história mostrou que esta função não foi desempenhada “segundo o coração de Deus (cf. Ez 34)” pelas mesmas lideranças. No nível do contexto próximo (lugar literário onde o texto se encontra situado) é que também se deve lançar o olhar, a fim de compreender o discurso de Jesus. Por isso, devemos voltar para o capítulo nono, o sinal realizado por Jesus na cura do cego de nascença. 

O Sinal em Jo 9 consiste na revelação de Jesus como o enviado (hbr. siloé) para trazer a Luz para o mundo. O cego de nascença é, ao mesmo tempo, instrumento através do qual Jesus revela a Glória de Deus, e metáfora para as lideranças do povo, as quais estavam cegas, optando conscientemente em não querer ver a Luz de Deus que se manifestava em Jesus de Nazaré. Isso é atestado pela mesma postura destas lideranças judaicas. Elas, que deveriam cuidar, acolher, promover-lhes a vida e a dignidade, acabavam expulsando do meio deles a gente simples do povo, aqueles que representavam-lhes alguma ameaça, ou, porque, simplesmente viviam fora de seus padrões. Sabendo disso, Jesus vai ao encontro do ex-cego (Jo 9,35-37).

O contexto imediato do texto é o da festa da Dedicação. Ocorre uma mudança de cenário e de festa religiosa. Isso é importante para a compreensão do capítulo de forma global. O evangelista situa Jesus nos arredores do templo, num clima de inverno, por ocasião da festa da dedicação do templo. Ela foi estabelecida por Judas Macabeu no ano 165 a.C., para celebrar a vitória dos macabeus sobre a dominação grega e a nova dedicação do templo e do altar, já que todo o templo havia sido profanado pelos gregos (cf. 1 Mc 4,36-59). A festa acontecia em Jerusalém e durava uma semana. Ela encontra seu substrato bíblico no texto profético de Ezequiel, no qual o profeta faz uma enfática denúncia aos maus pastores de Israel, que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2). Por isso, de acordo com o profeta, Deus toma a iniciativa de destituir os maus pastores e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11).

Neste sentido, na alegoria do Bom Pastor, o evangelista opera um contraste entre as lideranças do povo, que agiam na contramão do projeto de Deus, e Jesus, que age segundo o coração (de pastor) de Deus, mostrando-se um pastor exemplar, que realiza aquilo que as lideranças do povo deveriam fazer, e não faziam.

Antes de tomarmos os versículos em questão é importante recapitular, pelo menos, três ditos de Jesus. O primeiro é o contido no v.7: “Amém, amém, eu vos digo: eu sou a porta das ovelhas”. Jesus, após contar a parábola do redil das ovelhas, declara ser ele mesmo a porta pela qual devem passar as ovelhas. Ele quer dizer que para pertencer ao rebanho (ser discípulo) e possuir a vida eterna, isto é, do dom de Deus oferecido por meio Dele é necessário, primeiro, passar (aderir) à sua pessoa.

Outro dito encontra-se no v.11, onde Jesus declara, “Eu sou o Bom (gr. Kalós / Belo ou ideal) pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”. Ora, só quem passa pela porta que é Jesus pode ser do seu rebanho e viver do dom da vida que Ele dá. O terceiro dito é o que nos coloca no horizonte do texto: “Vós, porém, não me acreditais, porque não sois das minhas ovelhas” (Jo 10, 26). Jesus diz estas palavras aos líderes do judaísmo (fariseus e sacerdotes), dada a recusa de aceitar a novidade escatológica da presença de Deus Nele. Contextualizado o texto de hoje, então podemos meditá-lo.

No v. 27, Jesus declara: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. Ele indica aqui a condição para ser “ovelha” (discípulo) de Jesus: ouvir e segui-lo. Ao dizer as condições necessárias para ser discípulo e, portanto, participar do redil, Jesus denuncia que os líderes do povo não fazem parte de seu rebanho, porque não aceitam nem querem escutar, tampouco segui-lo.

Escutar e seguir são dois verbos importantes para a compreensão da mensagem de Jesus. O verbo “escutar”, no ambiente bíblico, não significa simplesmente a capacidade ou faculdade biológico-física da percepção de um som ou ruído, mas é acima de tudo dar adesão completa àquele que fala, deixar-se transformar e, consequentemente, conduzir-se pelas suas palavras. A atitude da escuta orienta para outra ação do discípulo, o seguimento. O seguimento a Jesus, como consequência da escuta, significa seguir os mesmos caminhos dele, com liberdade e disposição.

No v.28, Jesus garante que as suas ovelhas recebem o supremo dom que Ele pode doar, a “vida eterna”, a garantia de que elas jamais se perderão e que ninguém poderá tirá-las de suas mãos. O que seria esta vida eterna da qual fala Jesus? A vida que pertence ao âmbito de Deus. Não é a continuação desta mesma vida, mas um dom superior em qualidade e em dinamicidade que está em Deus mesmo. Todavia, ela não é um prêmio dado àquelas pessoas boas no futuro. A opção por Jesus e ao seu Evangelho simbolizada pela escuta da sua voz e o seguimento à sua pessoa, eterniza a vida. Não é uma vida pós-morte, mas é uma vida tão plena, tão cheia de sentido e autêntica, que se torna indestrutível. Logo, vida eterna é a vida de todo homem e toda mulher que escuta a voz de Jesus e abraça o seu seguimento, a sua vida, o seu projeto. Tem-se, em Jesus, e, a partir dele, a oportunidade de se viver uma vida em tons de eternidade, e, portanto, ressuscitada, desde já!

“Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” (29-30). Nestes dois versículos Jesus declara que o que vale em relação ao Pai vale também em relação a si, ou seja, os dois constituem uma única realidade. Por isso, ninguém consegue arrancar as ovelhas da mão de Jesus (cf. v 28b) pois tudo o que está em suas mãos, está, igualmente, nas mãos do Pai. A mão, conforme a antropologia bíblica, é metáfora do poder e do agir protetor de Deus, de Sua força e dos Seus cuidados enquanto pai e mãe.

Ora, o Pastor exemplar (melhor tradução para o termo kalós / καλός, Belo) do Quarto Evangelho não carrega ninguém ao colo. Pelo contrário, ele sai ao encontro das ovelhas, convive com elas, existindo um conhecimento mútuo entre eles; por isso, as conduz e aponta caminhos! Da outra parte, os que aderem a Jesus, assumindo a condição de ovelhas devem apresentar a característica da escuta e manifesta-la através do seguimento a Jesus. 

Por isso, o evangelho de hoje nos questiona: 1) Somos verdadeiras ovelhas de Jesus? 2) Temos ouvido (aderido) à voz (evangelho e vida) de Jesus e, portanto, seguido a exemplaridade da vida do Pastor Ideal?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré /Arquidiocese de Botucatu-SP.