sábado, 12 de fevereiro de 2022

REFLEXÃO PARA O VI DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 6,17.20-26

 



A narrativa deste sexto domingo do tempo comum apresenta o sermão da planície em Lucas, que é introduzido pelas Bem-aventuranças, seguidas dos “ais”, as invectivas ou lamentações (advertências). As bem-aventuranças encontram suas raízes na literatura sapiencial, onde predomina o elogio à pessoa justa, a qual segue retamente os caminhos do Senhor. Elas são reconhecidas como a síntese do programa de vida de Jesus, como também seu verdadeiro autorretrato. Já as lamentações são inspiradas na literatura profética. É uma forma de denúncia e reprovação do comportamento de quem cometia injustiças e praticava um culto superficial.

Os Evangelhos apresentam duas versões das Bem-aventuranças, uma contida em Mateus, com um total de oito, e esta forma lucana mais breve, porém com o acréscimo de quatro maldições, que visam denunciar a incoerência daqueles que se dizem discípulos do Reino e de Jesus. Na versão mateana, elas abrem o assim chamado “Discurso Inaugural”, que e se estende até o capítulo sétimo. Ali, este discurso recebe o nome de Sermão da Montanha. Os dois evangelistas utilizaram uma mesma fonte literária, mas os evangelistas as adaptaram conforme suas intenções teológicas e às necessidades de suas respectivas comunidades.

No entanto, diferentemente de Mateus, Lucas prefere Sermão (ou discurso) da Planície. Como dissemos acima, o evangelista dispôs as sentenças de Jesus de acordo com as necessidades de sua comunidade. O que está por detrás deste nome? Justamente uma das finalidades ou temáticas que o terceiro evangelho aborda e explicita: a temática da misericórdia e a da universalidade da salvação. O Evangelho de Lucas é conhecido pelo tema da misericórdia e da abertura da salvação a todos, sem distinção.

Ora, o sermão (ou discurso) se dá na planície, justamente para que o ensino e a pessoa de Jesus pudessem ser acessíveis a todos! Paralíticos, coxos, cegos, e enfermos de toda a sorte não poderiam, segundo a perspectiva lucana, aproximar-se de um lugar elevado. Por isso, o evangelista informa que depois de orar, Jesus desceu da montanha para um lugar plano, e começou a ensinar. A atitude de descer da montanha mostra precisamente a condescendência, o amor e a misericórdia de Deus em Jesus para com a humanidade sofredora, os pobres, enfermos, excluídos; com a gente simples que havia ficado de fora da vivência da fé, por parte das lideranças religiosas daquele tempo inclusive. O Jesus de Lucas é um homem orante. Do começo ao fim de seu evangelho tratará de mostrá-lo em sintonia com o Deus que chama de Pai. Isso significa que o conteúdo do ensinamento de Jesus, bem como sua atitude de descer da montanha e ir ao encontro das pessoas, colocando-se em meio a elas corresponde ao querer do Pai, discernido por Jesus na oração.

O texto de Lc 6,17.20-26 deve ser lido ainda em retrospectiva ao episódio programático da sinagoga de Nazaré (4,16), uma vez que nesta planície, o anúncio da Boa Nova aos pobres também está sendo realizado por Jesus. Literariamente, o texto se desdobra em termos que estão no mesmo campo temático: de pobres, passa para famintos, desdobrando-se para aflitos, até chegar em perseguidos. Estes termos pertencem ao campo semântico dos pobres. 

Se faz necessário compreender esta categoria ao interno do Evangelho de Lucas. São categorias e situações concretas: famintos, aflitos, perseguidos. Isto é, as pessoas que estão embaixo, que dependem dos outros, segundo o sentido originário do termo bíblico anawim, os pobres da terra (pobres de YHWH); os quais são privados de segurança material e social. Já os profetas tinham anunciado a eles a intervenção eficaz de Deus (cf. Is 49,9.13). Os salmistas tinham dado uma voz à massa anônima de oprimidos, aos pobres da terra, pisoteados pelos poderosos (cf. SI 113,7-8; 107,41; 72,2-4.12-14). Agora, como no discurso programático da sinagoga de Nazaré, Jesus diz que chegou o tempo esperado pelos pobres. A esperança e a expectativa deles não foi iludida; Deus está aqui, e agora ele intervém em seu favor. Por isso, eles são “bem-aventur
ados”, felizes.

Não devido à sua condição social precária, mas porque Deus toma a defesa dos pobres, faz justiça a quem está privado dela, oferece uma esperança e um futuro a quem se acha sem futuro e sem esperança a partir da atuação de Jesus. E isto, não porque são melhores que os ricos, mas porque Deus é justo e fiel e, por isso, imerge nas situações da história humana, para fazer saírem delas.

Ora, as bem-aventuranças são a proclamação da subversão dos valores e das situações históricas, iniciadas pela ação salvífica de Deus agora em Jesus. Com efeito são, também, um convite urgente dirigido à comunidade dos discípulos para que se confronte com a alternativa proposta por Jesus: ou com os “pobres” para o reino de Deus, ou com os ricos na ilusão que leva à falência e à projetos, sistemas e situações de morte, contrárias ao projeto de Deus. Depois das bem-aventuranças, não há mais lugar para uma neutralidade ou uma falsa consciência cristã, em face dos ricos e dos pobres.

Nesse sentido, as lamentações introduzidas no texto pelos “ais”, que pertencem ao gênero literário muito presente no AT, na pregação dos profetas, as invectivas. Os “ais” dirigidos aos ricos não são um augúrio abstrato de ruína, nem um juízo para os ricos, mas uma declaração que ao mesmo tempo tem os tons de lamentação e de convite à conversão ou mudança radical. Mas, na intenção de Jesus, são sobretudo uma admoestação para a comunidade cristã a não cair na ilusão e tentação do sucesso fácil e do prestígio (6,26).

Na redação de Lc, os destinatários das bem-aventuranças são os discípulos. Eles partilham a condição dos pobres, porque se expuseram à insegurança e à marginalização social, por serem fiéis ao Filho do Homem, o profeta perseguido como todos os que o precederam (cf. 11,47-51; 13,33-34). Na quarta bem-aventurança (6,22-23), ouve-se o eco das palavras de Jesus sobre a sorte do discípulo que participa do destino do Filho do Homem, representante de todos os perseguidos da história (cf. 9,23-26). Mas a palavra de Jesus se torna atual na vida concreta da comunidade cristã, que experimenta a perseguição e a enfrenta com a audácia e a esperança que brotam da morte e ressurreição de Jesus (cf. At 5,41)

Portanto, nas bem-aventuranças Jesus não abençoa nem consagra a situação dos pobres, dos famintos ou dos aflitos como condição ideal para acolher o reino de Deus, porque seria o mesmo que consagrar a injustiça e a prepotência humana, Não: os pobres são “felizes” porque o reino de Deus pertence a eles, porque enfim a condição de dependência, que os torna famintos e aflitos acabará. Jesus não promete aos pobres torná-los ricos; isso criaria outras multidões de pobres, trocando simplesmente os protagonistas da injustiça e da opressão. Ele promete o “Reino de Deus”, que é a subversão radical da situação presente, geradora de pobreza, dependência e dor.

O evangelho deste domingo funciona como uma advertência e convite para a comunidade e para os discípulos de todos os tempos a não se permitirem estar na contramão do projeto de Deus que se revela em Jesus; para que ela não reproduza os mesmos sistemas de morte que geram ainda mais submissão, dependência e opressão; não caia na indiferença típica dos detentores do poder; ou do sucesso fácil e do prestígio. O discípulo e a comunidade devem ser aqueles que optam fundamentalmente por Cristo e preferencialmente pelos pobres, e colocar-se ao lado deles e retirá-los da condição da pobreza e da marginalização.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 5,1-11:


 

A liturgia de hoje nos insere no capítulo quinto do Evangelho de Lucas. Para compreendê-lo devemos lançar um olhar retrospectivo para o capítulo anterior, precisamente para a cena narrada em Lc 4,16-21, o chamado discurso inaugural de Jesus, na sinagoga de Nazaré. Este discurso é um ensino acerca de sua identidade, e, ao mesmo tempo, um programa de vida assumido por Ele, na obediência ao Pai. É ele o ungido pelo Espírito do Pai para pregar a boa nova aos pobres, proclamar liberdade aos presos e recuperação da visão aos cegos, libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça (ou favorável) do Senhor (Lc 4,18). Jesus assume este programa isaiano como sendo seu. Mas o que Ele assume vale, também, para os discípulos. O que faz e vive o mestre, deverá fazer e viver, igualmente, o discípulo do Reino. Se na experiencia de Nazaré encontra-se o fracasso de Jesus, no texto de hoje nos deparamos com o fracasso e a frustração do discípulo antes mesmo do início da missão. Tanto para Jesus como para o discípulo a Palavra de Deus deve ser seu horizonte.

Agora podemos mirar o horizonte do texto. Os primeiros onze versículos do capítulo quinto do evangelho lucano nos narra a vocação dos primeiros discípulos. O evangelista pode ter reunido e harmonizado outros episódios semelhantes para elaborar esta narrativa, de acordo com os estudiosos do texto. Após a primeira cena, segue o relato da pesca milagrosa, que prepara o momento culminante de toda a narração: o chamamento de Pedro para a nova missão no seguimento a Jesus (5,10b). A ligação entre estes três momentos é constituída pela “palavra” de Jesus. No começo, ele anuncia a “palavra de Deus” ao povo que se amontoa à margem; é por causa da palavra do Senhor que Pedro lança as redes para a pesca novamente, e, ainda motivado pela palavra do mestre que ele deixa tudo juntamente com seus companheiros para segui-lo.

Nos v.1-2, o evangelista situa Jesus entre a multidão, às margens do lago de Genesaré. O lago é um lugar teológico, onde Ele desenvolverá sua missão. Está praticamente apertado pela multidão, a qual tem fome e sede da Palavra de Deus. Lucas descreve que na margem encontravam-se algumas barcas vazias, pois seus donos estavam lavando as redes (também vazias). Mais a diante, Simão Pedro dirá que trabalhara a noite inteira sem resultado. Tal era a situação do povo em volta de Jesus: faminto da Palavra de Deus. O povo está precisando de palavras e ações novas, capazes de reverter a situação em que se encontra. Mais ainda: precisa de uma Palavra que provoque a novidade portadora de vida para todos.

Jesus toma uma decisão, informa-nos o texto. Sobe na embarcação de Simão Pedro e pede-lhe para que se afastem um pouco da margem (v.3). Na verdade, Jesus, ao subir na barca assume a vida e as dificuldades daqueles pescadores que nada pescaram na noite anterior. Assume-lhes o lugar e o fracasso. Todavia, sobe na barca para poder olhar aquela multidão. Olha-la de frente, nos olhos e sentir suas angústias, para comunicar uma Palavra que tem o poder de trazê-la novamente a vida. Sentado, posição do mestre autorizado e verdadeiro, se põe a ensinar. A dar-lhes o pão da Palavra que lhes comunica vida e liberta o povo de suas opressões. O conteúdo deste ensino fica, aqui, oculto. Mas é fato que Jesus ensina a partir da situação em que vive o povo. Por isso, tem a coragem de olhá-lo de frente!

Nos v.4-7, tem-se a narrativa de uma “pesca milagrosa”, iniciada por uma ordem de Jesus a Simão Pedro: “Avancem paras as águas mais profundas e lançai as vossas redes para a pesca”. Pedro objeta, primeiramente, mas, em seguida, acata: “em atenção à sua palavra, vou lançar as redes”. Ele adere à Palavra daquele de Jesus (v. 4). O que teria transformado Simão, especialista em pescaria, fazendo com que voltasse a pescar sob as ordens de quem nunca se deu a essa tarefa? O que orienta a vida de Pedro, a partir daquele momento, é a atenção à Palavra do Mestre, a qual é capaz de mudar radicalmente as situações sofridas em que se encontra o povo. Qual o resultado da confiança na Palavra do Mestre? Precisamente, a mudança ou reversão da situação: as redes se rasgam; superam as expectativas a ponto de uma barca não ser suficiente. A Palavra do mestre  quando levada à sério gera abundância para todos.

Os estudiosos classificam este texto dentro do gênero literário de revelação, que quer transmitir uma mensagem importante. Ora, uma pesca abundante, em pleno dia é contra os costumes normais em que aquela atividade era realizada. Por isso, o relato indica que o texto tem mais uma lição para dar, do que uma história a contar. Seu objetivo, portanto, não é o de ser uma crônica literal dos fatos. Na verdade, esta cena, ilustrada pelas redes que estão a ponto de se romper, e as barcas a ponto de afundar, preparam o encontro decisivo entre Jesus e pescador de Betsaida. Simão reconhece-se, através do espanto, pecador. Este reconhecimento é mais um sinal que indica que o texto pertence ao gênero de revelação. É a atitude das personagens diante da manifestação de Deus. Simão reconhece no mestre que deu a ordem de lançar as redes, o Senhor. Importa salientar que, neste momento, Simão Pedro chama Jesus com o título cristológico atribuído à sua condição de ressuscitado, Kyrios (gr. κύριος), Senhor.  Nesse sentido, a pesca se torna um sinal precursor da vitória de Cristo sobre a morte. É dela que surge a abundância de vida para todos.

Jesus, com uma nova palavra supera o distanciamento e o espanto de Pedro. Ele não se aparta das pessoas, mesmo quando elas se tornam conscientes de suas limitações e “indignidade”, pelo contrário. A partir do momento em que a pessoa acolhe Sua Palavra libertadora, Ele a associa ao Seu ministério, vida e missão: “De agora em diante serás pescador de homens” (v.10). 

Compreenda-se o seguinte: a rigor, a pesca lesa somente ao peixe. Porque a água é o seu ambiente vital. Fora dela, o peixe asfixia-se e morre. Para o homem, a água é fonte de vida, mas também é lugar de morte. Ao contrário do peixe, o homem não pode viver na água. Ao incumbir Simão Pedro e os demais da tarefa de serem “Pescadores de Homens”, Jesus ordena-lhes retirar os homens de todas as situações de morte que possam existir, e fazer crescer neles a vida. Porque o mar (ou o oceano) é símbolo para todas as forças contrárias ao projeto de Deus; metáfora para as forças de morte e de opressão, no mundo bíblico. Lucas modificou a expressão de Mc 1,17b, “pescadores de homens”, substituindo-a por um vocábulo grego que ele retomou da tradução grega do AT, que significa “pegar vivos” ou “pegar para a vida”. Quer dar a entender que Pedro e os demais terão a tarefa de “pescar” as pessoas para a vida. Ressignificando-as para o projeto de Vida plena, através da Palavra que pode assumir a figura da rede lançada na pesca. Com efeito, será a Palavra de Jesus a garantia da eficácia da missão.

Preso a esta palavra que a vida de Simão Pedro e dos demais discípulos se torna outra coisa. E para nós, não é diferente: é quando nos amarramos com confiança à Palavra do Senhor que a vida se transforma. É quando confiamos no risco de sua Palavra, quando depois de termos limpado nossas redes o Senhor nos manda lançá-las uma vez mais; quando depois das noites das nossas humanas pescas fracassadas Ele nos manda arriscar; quando não vemos “como” e o Senhor nos diz uma palavra na direção oposta à que não imaginávamos ou não queríamos, e, mesmo assim, avançamos e acreditamos é ali que a nossa vida se transforma.

Através da narrativa de hoje o evangelista pretende ensinar as condições do discipulado: dar atenção às palavras do Mestre e deixar tudo, para poder lançar as redes em águas profundas. Mas, como sempre, o texto evangélico nos questiona, 1) quais seriam as águas profundas para as quais o Senhor, hoje, nos envia? 2) Tenho sido atento à Palavra do Senhor, ou prefiro meus próprios esquemas e mecanismos?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP


sábado, 29 de janeiro de 2022

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 4, 21-30


O Evangelho deste domingo é a continuação do texto meditado no domingo passado. É a conclusão do episódio programático de Jesus em Nazaré. Ali, decide-se voluntária e livremente a assumir o projeto contido no livro do Profeta Isaias (61,1ss), de proclamar a boa-nova libertadora e o ano favorável da intervenção de Deus na história em favor dos pobres, cativos, oprimidos.

O texto que temos hoje em mãos para meditar começa justamente de onde parou: Jesus anunciava à sua gente que aquela escritura se cumpria diante deles. Ou seja, Ele se incumbia de leva-la à superação. E, para o horizonte da comunidade, Lucas deseja, com estas palavras de Jesus, reorientar lhes a vida: o referencial de vida dela é a vida de Jesus e seu Evangelho.

Mas os ouvintes de Jesus, os de sua “casa”, tiveram muitas dificuldades de compreender sua mensagem e proposta. O evangelista nos informa que os que O ouviam ficavam admirados e questionavam sua origem: “Não é este o filho de José?” (cf. v.22). Como filho de um carpinteiro, Jesus não receberia muito crédito entre sua gente. Os que executavam trabalhos manuais, como os artesãos não eram pessoas consideráveis naquela época. Outro fator que favoreceu o espanto e a recusa, por parte de seus conterrâneos, foi a compreensão de messias que pairava no imaginário coletivo da época: o ungido de Deus para inaugurar a era escatológica do Seu Reinado na história deveria encarnar em si as qualidades de um guerreiro, promotor da luta armada para expulsar os romanos e restaurar o reino davídico. Para os que acreditavam nesta ideologia nacionalista, Jesus não se encaixava nos moldes e nas expectativas do povo. Ele era apenas um carpinteiro, continuador da profissão de seu pai. Ele não poderia, aos olhos deles, ensinar-lhes absolutamente nada. Não para aquela pequena e conservadora Nazaré.

Jesus, percebendo a admiração e a desconfiança, se antecipa e revela a reprovação deles: “Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo” (v.23). Depois, declara, “que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” (v.24). Este dito acerca do profeta rejeitado na própria terra serve para indicar o modo de vida pelo qual Jesus decide-se levar a cabo sua missão: Jesus pauta sua vida e sua missão a partir do carisma profético. Já o provérbio “médico, cura-te a ti mesmo”, é colocado na boca de Jesus por Lucas para antecipar as ironias que sofrerá na cruz: “salva-te a ti mesmo e a nós” (Lc 23,37). Para enfatizar que, realmente, ele trilha o caminho do messias-profeta, o Jesus de Lucas toma para si dois exemplos: Elias e Eliseu. O primeiro, o modelo de todo o movimento profético do Antigo Testamento, e o segundo foi discípulo e continuador da missão de Elias. Jesus recupera para seus ouvintes as atitudes daquelas duas personagens. Elias, enviada a uma viúva em Sarepta (Sidônia, território da Fenícia, e, por isso, pagão e estrangeira). Eliseu, atende o general Naamã, sírio, infectado pela lepra, pagão e estrangeiro. Os dois profetas que mais pregaram o monoteísmo javista (a fé em Javé e a fidelidade à Aliança) atuaram até mesmo fora de seu país, pregando a fé em Javé e a fidelidade ao projeto da Aliança também aos estrangeiros. Ambos não ficaram reféns, tampouco aprisionaram a Deus e a Aliança, enredando-os nos esquemas da religião.

O projeto de amor e de misericórdia de Deus, o qual se torna Evangelho (Boa Notícia) e a Salvação não conhecem limites, não são propriedades de nenhuma pessoa, de nenhum um grupo, de nenhuma instituição. São, antes, graça e dom para quem quiser fazer experiência com ele. Nesse sentido, emerge para o leitor-discípulo do terceiro evangelho um tema muito precioso para o evangelista e catequista Lucas: a universalidade da Salvação.

“Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício” (v. 28-29). Bastou essa declaração de Jesus, para que os tradicionalistas nazarenos irrompessem furiosos. Lucas quer informar que a rejeição a Jesus e a sua mensagem foi total e completa, expulsando-o da sinagoga e da cidade. Um detalhe curioso: há uma certa incoerência geográfica nesta descrição do evangelista. Nazaré é construída sobre uma planície. Não há monte algum ali. A intenção do autor acerca deste dado é teológica. Ele quer estabelecer para sua comunidade e para seus discípulos uma comparação entre Nazaré e Jerusalém. Esta é construída sobre uma montanha. O catequista deseja prefigurar os acontecimentos da paixão de Jesus, que acontecerão na cidade santa. Nesse sentido, Nazaré miniaturiza Jerusalém, e o conflito com os seus conterrâneos trata-se de uma síntese em forma de prolepse (antecipação temática ao interno da narrativa) de todos os conflitos que terá durante seu ministério.

Jesus, em Nazaré, sofreu na pele a rejeição à sua Palavra, seu modo de vida e sua missão. Mas a rejeição não foi a última palavra em sua missão. O fracasso (na própria terra) não o determinou; tampouco frustrou a Jesus. Lucas nos narra que “Jesus, porém, passando no meio deles, continuou o seu caminho” (v. 30).  Porque sua vida está orientada ao Pai e ao projeto do Reino; e não aos interesses escusos ou mesmo à vaidade de “agradar a todos”. Sua atitude deixa muito claro que não são as forças conservadoras e opressoras (representadas pelos Seus conterrâneos) que tem a última palavra. Elas não conseguem deter a força da Palavra e do Espírito do Senhor que movia Jesus.

O evangelho deste domingo tem a finalidade de ensinar-nos que, 1) aquele que se dispôs a assumir a perspectiva da missão de Jesus (proclamar a Boa-Nova da salvação e libertação aos pobres, oprimidos e marginalizados, e, hoje, a todos, sem distinção) deve ter a consciência de que passará pelo mesmo caminho da rejeição que o mestre passou e viveu na pele; 2) O texto de hoje serve, também, como um antidoto para que a comunidade cristã não caia (ou evite cair) na tentação de pensar que a salvação e o projeto amoroso e misericordioso de Deus, que consiste no Reino de Deus, seja somente para si, e assim reproduza o mesmo fechamento e mentalidade exclusivista que os conterrâneos de Jesus nutriam. A salvação-comunhão com Deus é uma proposta destinada a todos, sem distinção. 3) O texto funciona como um espelho. Diante dele somos convidados a olharmos e nos identificarmos com aqueles que escutavam a Jesus. Imaginando que ali estivéssemos, quem seriamos? Aqueles que, escutando a Palavra de Jesus decidiram-se por viver a mesma vida e o mesmo projeto que ele assumiu e viveu, ou seriamos os que fizeram oposição à sua Palavra, a ponto de o tirarmos de nosso caminho e lançá-lo “precipício a baixo”, recusando seu projeto e optando pelos nossos?

Que o evangelho de hoje nos ajude a tomarmos o mesmo caminho de Jesus.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 22 de janeiro de 2022

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 1,1-4;4,14-21

 


A liturgia dominical apresenta para este terceiro domingo do tempo comum um texto complexo em sua estrutura, uma junção de dois capítulos do Evangelho segundo Lucas, Lc 1,1-4;4,14-21. A primeira parte compreende o capítulo primeiro, o qual apresenta o prólogo da primeira parte da obra do autor (Evangelho e Atos dos Apóstolos), 1,1-4, e a segunda parte, o capítulo quarto, que apresenta o discurso inaugural de Jesus na catequese lucana (4,14-21), situado na sinagoga de Nazaré. De qualquer maneira, o texto – mesmo estando assim composto – nos apresenta uma profunda e valiosa lição.

Em Lc 1,1-4, temos elementos importantes que se conectam com a segunda parte, e que precisam ser colocadas em relevo. Por se tratar de um prólogo, uma introdução, o autor nestes quatro versículos expõe sua forma de escrever e a finalidade de seu relato, e isso é muito importante. Em primeiro lugar (para não estender em demasia), esta inteligente introdução que o evangelista elabora evidencia muito de seu estilo e forma. Lucas assimila o estilo de escrita e narrativa já presentes nas grandes obras da antiguidade clássica, as quais apresentavam seus heróis como personagens principais, inseridas na história e na realidade cronológica. Mas é importante lembrar: os evangelhos não cumprem a finalidade de ser uma cronologia ou biografia de Jesus. O autor do terceiro evangelho e de Atos sabe muito bem disso e, para além de uma história quimicamente comprovada (como se espera de uma historiografia moderna, com dados confirmados com exatidão pela arqueologia e pela pesquisa histórica e crítica das fontes), ele elabora uma Teologia da história e na história. Ele tem a função de transmitir uma experiencia de fé pessoal e comunitária, “Muitas pessoas já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra” (v.1-2). Nosso catequista pertence à terceira geração dos seguidores de Jesus. Escreve sua obra entre 80 – 85 d.C, seguindo o fio condutor narrativo comum aos sinóticos, o evangelho de Marcos, mas acrescentando muito de seu material próprio, provindos da experiência e da necessidade de sua comunidade, e da sua experiência com o Apóstolo Paulo. 

Sua intenção é clara já nas linhas introdutórias, no v.3: “Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti, excelentíssimo Teófilo”. Escrever de modo ordenado, depois de um cuidadoso estudo, tudo o que aconteceu desde o princípio. Ou seja, Lucas, para além do que muito se pensou acerca de sua profissão de médico (conforme tradição), mostra-se um estudioso e um exímio escritor. Por mais que seja um judeu de diáspora (que vive fora da província da palestina) e escreva para uma comunidade grega (na Grécia meridional, uma tradição antiga aponta para Corinto), é um conhecedor das escrituras hebraicas (pode ser um cristão convertido do paganismo o mesmo um judeu-grego convertido à fé cristã). E, aparentemente, apresenta-nos um destinatário. Um certo Teófilo (lit. Amigo de Deus), que pode ser uma pessoa concreta (filho do sumo sacerdote Anás, muito conhecido entre os anos de 30 – 60 d.C, conforme sugerem estudos sérios acerca desta personagem), como uma personagem corporativa, isto é, símbolo para todos aqueles que desejam se tornar amigos de Deus, a partir da escuta da Palavra (já que não podem ser testemunhas oculares, porque estas foram tão somente a primeira geração dos discípulos-apóstolos do Senhor). Logo, chegamos a sua finalidade: “verificar a solidez dos ensinamentos que recebestes”. A comunidade já fora evangelizada, e necessita ser confirmada nesta Boa Notícia.

Somos convidados, agora, a meditar a segunda parte do evangelho, Lc 4,14-21. Neste capítulo, o evangelista apresenta-nos o discurso inaugural de Jesus proferido na sinagoga de Nazaré, sua cidade natal. É um discurso ao mesmo tempo que é um conteúdo programático, o qual apresenta para os discípulos-leitores do terceiro evangelho o itinerário pelo qual Jesus decidiu pautar sua vida e sua missão.

O evangelista nos insere na narrativa informando que Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou para a Galileia. A expressão “cheio do Espírito” indica que toda a ação de Jesus, e para onde quer que ele vá, são motivadas pelo Espírito Santo, o Dinamismo vital de Deus que insere todo o ser humano no Seu horizonte. O autor situa-nos na narrativa dizendo que Jesus, em dia de sábado, como de costume, foi à sinagoga de sua cidade natal, Nazaré. Cidadezinha que sequer constava nos mapas, tal o seu desprezo por parte dos judeus piedosos da época, dado ser um lugar mal visto devido a miscigenação ali presente e o sincretismo religioso que em nada agradava a gente piedosa do sul (Jerusalém).

O sábado era o dia por excelência de sua fé. Neste dia o judeu piedoso vai à sinagoga para escutar a Palavra de Deus e recitar a Oração das Dezoito Bênçãos. Contudo, será ali que Jesus causará as polêmicas – conflitos – acerca do sábado e sobre a sinagoga. Com efeito, será na própria sinagoga que sua pessoa e Palavra serão rejeitadas.

Lucas informa aos leitores que Jesus é convidado para tomar parte da liturgia da palavra. Ela começava com a oração do Shemá (a profissão de fé do povo), seguida da leitura da Lei, dos profetas e, em seguida, fazia a explicação daqueles textos. Tinha-se o costume de oferecer a leitura dos textos dos livros proféticos e a prática da homilia aos filhos da terra que moravam longe, por ocasião da visita a terra natal.

Jesus recebe, pois, o livro do profeta Isaias. Precisamente Is 61, onde o profeta proclama um anúncio de salvação e libertação para o povo exilado na Babilônia. Com algumas modificações, a mensagem central retida pelo evangelista Lucas e colocada nos lábios de Jesus é esta: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (vv.18-19). Jesus, fechando o livro, o entrega ao ajudante e senta-se, ocupando a posição privilegiada do mestre que ensina. Lucas informa aos leitores que todos tinham os olhos fixos em Jesus. Ele, então, declara aos presentes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Este dito de Jesus expressa muita coisa.

O evangelista pretende mostrar Jesus como o intérprete e realizador das Escrituras de Israel. À luz destas mesmas Escrituras, ele se decide por viver sua missão e confirma a sua vocação messiânica – o Ungido – para libertar definitivamente o povo. Mas que povo é este? Ou melhor quem são os destinatários desta libertação? Os pobres, os cativos (oprimidos), os cegos. O anúncio da Boa-Nova a estas pessoas, que no tempo de Jesus simbolizavam os excluídos e marginalizados, era o sinal de que o tempo messiânico – tempo da salvação e dia favorável da intervenção e YHWH – havia irrompido definitivamente. Tal será o programa de vida assumido por Jesus.

Mas o discurso inaugural ou programático de jesus deverá ser o programa de vida da comunidade dos discípulos. Pois o que o mestre realiza valerá também para o discípulo. Nisto compreendemos que a missão de Jesus se dilata para os discípulos daquele tempo e de hoje, pois o verbo “enviar”, utilizado por Lucas sugere uma ação contínua (lit. “envia-me para evangelizar.”, gr. ἀπέσταλκέν/Apêstalkên, do verbo ἀποστέλλω/apostello). Ou seja, o Pai continuamente envia o Espírito do Seu Filho sobre a comunidade, para que ela possa assumir a mesma missão de seu Cristo.

A declaração que Jesus dá aos ouvintes é muito profunda. O verbo cumprir (gr. πληρόω/Plerôo; πεπλήρωται/ peplerotai) é significativo e deve ser bem compreendido. O cumprimento das escrituras de que Jesus fala não pode ser pensado na lógica do “estava escrito e Jesus cumpriu”, pois se assim for reproduziremos heresias antigas e já mitigadas, como por exemplo, o docetismo que em linhas gerais apregoava que a vida humana de Jesus foi um “faz de conta”, que ele nada teria sofrido, que sua morte teria sido uma mera aparência, assim como a sua humanidade, permanecendo plenamente divino. Tal erro foi combatido nos primeiros séculos do cristianismo através das profissões de Fé na união das duas naturezas e na consubstancialidade com Pai e conosco. Plenamente humano; plenamente divino.

Quando os evangelhos nos apresentam as formulas de cumprimento (“para se cumprir as escrituras; cumpriu-se o que foi dito pelos profetas; cumpria-se a escritura que dizia..”) como no caso do texto que meditamos, elas devem ser entendidas na seguinte perspectiva: Jesus decidiu-se por assumir, livremente, a Palavra de Seu Pai e vive-la em sua vida. Retomando Is 61, é como que se Jesus dissesse “Eu desejo viver a minha vida, minha relação com o Deus a quem chamo de Pai, na escuta de sua palavra (Torá) e na relação com as pessoas desta maneira, motivado (e investido) pelo Espírito (o dinamismo do Amor e a potência de amar), indo na direção dos pobres, excluídos, marginalizados, para anunciar que o tempo da Salvação se faz presente. É assim que quero viver”. Transpondo isto para o horizonte da comunidade pode-se compreender o cumprimento das escrituras como o cumprimento do tempo do Antigo Testamento. E, que de agora em diante, a comunidade dos discípulos tem um novo horizonte: Jesus de Nazaré e seu Evangelho. Isso fica enfatizado pelo adverbio de tempo que é muito caro ao evangelista, aparecendo outras ocasiões novamente, o “hoje” (gr. σήμερον/Sêmeron). Recorde-se a Boa Notícia dada pelo anjo aos pastores em Lc 2,14, “Hoje nasceu para vós o Salvador”; aparecendo novamente neste episódio da sinagoga (Lc 4,21). Retornando no belíssimo episódio de Zaqueu (“Hoje a salvação entrou nesta casa”, Lc 19,1-10) e, finalizando em Lc 23,43, na cena do perdão ao malfeitor arrependido. O tempo pleno de Deus inaugurado pela ação de Jesus é um constante e definitivo Hoje savífico. Na intenção de Lucas, sempre que o discípulo decide-se por Jesus está acontecendo esse Hoje salvífico em sua vida. Não se vive mais de um passado saudosista ou esquizofrênico, tampouco de um futurismo, porque no horizonte de Deus será sempre um hoje ressignificador para a história humana e de cada um.

Assim, o Evangelho que meditamos nesta liturgia ilumina-nos na compreensão de que o que Jesus realiza e ensina vale para o discípulo e a comunidade; os destinatários da mensagem de Jesus devem ser os mesmos da comunidade, os marginalizados de hoje. É para essas pessoas que se deverá olhar em primeiro lugar. Isto se tornará critério de verificação da fé e da coerência da vida da comunidade, ou seja, se ela é fiel ao projeto de Jesus e sermos reconhecidos como os Teófilos (amigos de Deus), anunciadores e ministros da Boa Nova que é a vida do Senhor acontecendo em meio a nós e através de nós.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 15 de janeiro de 2022

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DO TEMPO COMUM - Jo 2,1-11:

 


O segundo domingo do tempo comum apresenta o evangelho das Bodas de Caná, Jo 2,1-11. Episódio este contido na catequese do evangelho joanino. O Quarto Evangelho é constituído de duas partes. A primeira, o Livro dos Sinais, que inicia em Jo,1,18 e conclui-se em 12,51, e do livro da Glória, Jo 13 – 20.  Cumpre função catequética este primeiro bloco chamado de livro dos Sinais. Uma nota importante: no Quarto Evangelho jamais aparece o termo milagre. Jesus não é mostrado realizando nenhum gesto de poder (Dynameis). O autor prefere o termo Sinal (ou sinais, no plural / gr. tá semeia) para indicar as ações de Jesus.

Os Sinais, na perspectiva de João, são gestos simbólicos de Jesus que apontam para a realidade profunda e essencial de sua identidade. Que Nele existe e desponta a novidade (escatológica, da ultimidade, da plenitude) de Deus agindo na história. Mas estes sinais não devem ser vistos e meditados em si mesmos, e sim orientados para a Hora da Glória de Jesus. A Hora da Glória é o momento do enaltecimento de Jesus; sua revelação como Filho de Deus e Messias: a Cruz. Por isso, só pode avançar para a contemplação da hora da Glória de Jesus o discípulo que percorreu o itinerário descrito nesta primeira parte do evangelho. 

O capítulo 2 do Evangelho segundo João apresenta o primeiro sinal realizado por Jesus. Ele o realiza em Caná, na Galileia, no terceiro dia de sua semana inaugural. Não é atoa que esse dado aparece. O episódio 2,1-11 parece dar seqüência ao contexto de 1,19-51. Se “no terceiro dia” (2,1) faz soma com os quatro dias de 1,19-51, o episódio de Jo 2,1-11 completa uma “semana inaugural”. Portanto, o sétimo dia. Devemos recordar que o Quarto Evangelho é escrito para pessoas que já foram evangelizadas numa primeira vez, por isso a expressão “terceiro dia” alude ao dia da ressurreição. No horizonte da narrativa, no sétimo dia da semana inaugural de Jesus acontece um casamento em Caná. Todavia é preferível para esse episódio o termo “bodas”.

As bodas fazem parte do imaginário do povo de Israel. A imagem do casamento serve de metáfora/símbolo para a Aliança (relação) com Deus. Mais ainda, nas expectativas do povo, as bodas seriam o momento da inauguração da era messiânica. Ela representa, nesse sentido, a alegria e a expectativa das núpcias messiânica, que, a partir da mentalidade dos discípulos de Jesus Ressuscitado, se dará através das núpcias do Cordeiro. Assim, a narrativa contida neste episódio de Caná, adquire o caráter de núpcia escatológica, que Deus realizará com a humanidade através de Jesus.

Adentrando no horizonte do texto, a personagem que encabeça a narrativa é a mãe de Jesus, primeiramente. No Quarto Evangelho ela nunca é chamada pelo nome. A mãe de Jesus está aí, e ele fora convidado. Ora, a organização das festas geralmente ficava sob o cuidado das mulheres, as mães de família. Os homens ficavam ali como figuras decorativas. Mas o evangelista elenca também a presença dos discípulos que acompanham a Jesus.

A figura da mãe de Jesus deve ser compreendida, de modo a reorientar o olhar para Ele e sua atuação. O texto não tem a mais remota intenção de colocar ênfase na mãe de Jesus. Um detalhe importante, ela não é mencionada pelo seu nome (é óbvio que o evangelista saiba, mas isso não ocupa lugar para a finalidade da narrativa). Sabe-se, que quando uma personagem aparece de forma anônima, na verdade, o autor está fazendo um convite para que os leitores/ouvintes se identifiquem com esta. Portanto, o texto das Bodas de Caná não pode ser interpretado com ênfase na intercessão de Maria em relação à Jesus. A “mãe” é símbolo do Israel fiel à Aliança e, também, submetido à Lei. Ou seja, esta personagem ainda está presa ao regime da lei mosaica e ao sistema religioso-cultual da época. O evangelista João propõe para seus leitores/ouvintes, fieis de sua comunidade, a superação e a substituição de todo o sistema religioso e cultual judaico a partir da pessoa de Jesus. Dito de outra maneira, Jesus é a superação e substituição de todo o sistema antigo que se tornou incapaz de conduzir o ser humano, a pessoa, ao horizonte de Deus.  

O vinho vem a faltar. A mãe de Jesus nota o fato. Uma festa de núpcias sem vinho! O vinho simboliza a alegria e o amor. Mas para a tradição de Israel, o vinho alude/aponta para a inauguração da era messiânica. A mãe se dirige à Jesus, conta-lhe o que está acontecendo e ele responde algo que dá a entender que isso não é assunto dele (lit: “O que há para mim e para ti?”, uma forma de dizer que isso não lhes diz respeito, cf. v.2). Soaria como um “Não é problema nosso”. Com efeito, em seguida, acrescenta Jesus algo que soa igualmente intrigante: “Minha hora ainda não chegou”. De que hora Jesus está falando? De qualquer maneira, ainda não é sua hora, mas o que acontecerá imediatamente será um sinal que encaminhará para a sua hora.

A mãe diz aos que estavam servindo (lit. diáconos), “fazei o que Ele vos disser”. Aqui tem-se a transformação da personagem da mãe. Recordemos que ela foi estabelecida como símbolo para o Israel fiel. Ao dizer aos servos para colocarem toda a atenção sobre o agir e a palavra de Jesus, ela reconhece Nele a novidade da presença de Deus. O Israel fiel (todos aqueles e aquelas) à Deus e Sua Aliança saberão reconhecer agora Deus mesmo agindo através de Jesus e de sua vida. Agora sim, esta mulher começa a fazer parte da Novidade escatológica apresentada por Jesus, e passa, então, a símbolo para a Comunidade dos fieis. O autor do Quarto Evangelho se serve de todo o patrimônio das Escrituras Sagradas de Israel e faz aqui uma releitura/reinterpretação da cena de Gn 41,55, onde o Faraó, após instalar José como Primeiro Ministro do Egíto, ordena que todos se dirijam a seu administrador e façam o que ele ordenar.

O evangelista nos informa que ali estavam seis talhas de pedras, de mais ou menos cem litros, utilizadas para a purificação/ablução higiênica e ritual que os judeus costumavam fazer. Elas estavam vazias. Mas após a ordem de Jesus para enche-las, a atitude dos servos é de completa-las até a borda (lit. até o alto). Estão ali inutilizadas; já não servem mais, a não ser para o que serviam antes. O evangelista trabalha com o esquema da superação do sistema antigo, como dissemos acima. As seis talhas eram feitas de pedra. Foi sobre duas tábuas de pedra que, no Sinai, Moisés recebeu a Lei. No simbolismo judaico, a água é associada à Torá. Essa não falta, vinho sim — falta a alegria messiânica. Por isso, o número seis aparece. Na teologia bíblica, seis indica imperfeição, incompletude (contrário do número sete, que simboliza a perfeição). O narrador denuncia a inutilidade das práticas religiosas judaicas que, diante da novidade de Jesus, encontram-se superadas.

Jesus ordena que aquelas tinas d´água sejam enchidas “de novo”. O adverbio utilizado por Jesus, recordado pelo evangelista, “de novo”, retoma o tema da novidade: do antigo não se diz mais; acontece agora uma coisa nova. Devem ser enchidas até a borda. Emerge aqui a ideia da abundância. Assim foi feito. Trazem as talhas à Jesus que pede para que os servidores as levem até o mestre-sala. O qual prova (v.9).

O mestre de cerimônias chama o noivo, que até agora tinha ficado incógnito. Outro fato curioso é que este não tem nome. Aparece para receber do mestre-sala uma observação crítica ou irônica: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!” (v.10). Esta última parte do versículo adquire um peso devido ao adverbio de tempo “agora”. Ele expressa a realidade de que o “agora” está ai. Este “agora” é a novidade, que é marcada pela abundância do vinho bom, como recorda o profeta Amós no capítulo nono de seu livro, ao dizer que das colinas destilaram vinho em abundância. João recorda também a profecia de Isaias, que profetiza e celebra a abundância vivenciada no tempo messiânico (Is 61; 63; 66).

Se o mestre-sala faz observações acerca da qualidade do vinho, onde ele reconhece a superioridade deste, então qual é o verdadeiro noivo para o qual deveria ter sido dito isto? Jesus, que não deixa faltar o vinho novo e bom. Porque, ao mesmo tempo, o noivo e o vinho melhor são Ele mesmo. Assim, há um “noivo escondido” na história, que vem realizar as núpcias de Deus com a humanidade nesta história. Com efeito, o autor revela a indiferença do mestre de cerimônias através do próprio comentário acerca da qualidade do vinho. Ele não faz questão de saber de onde vem o vinho melhor, por estar comprometido com o sistema da Lei. Diferentemente da “mãe” de Jesus, símbolo do Israel e da comunidade fiel a Deus, que sabe reconhecê-lo através da atuação de Jesus, aquela personagem ainda se encontra-se submetido à Lei, ao antigo.

A mensagem final, no v.11 é sumamente importante: “Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galiléia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele” (v.11). Notemos que o Quarto Evangelista sublinha que este foi o princípio dos sinais (gr. ἀρχὴν τῶν σημείων/arché tón semeíon), realizados por Jesus. Arché (gr. ἀρχὴν / princípio , origem) faz um arco narrativo com o prólogo do Evangelho, quando o catequista bíblico inicia a obra com um solene “No princípio”, que remete ao primeiro dia da criação em Gn 1,1, com a conclusão provisória desta semana inaugural, que remete à nova criação. Nesta semana, Jesus começa a manifestação da Glória de Deus, mas ainda não plenamente. Os sinais servem para preparar este momento.

Permitamos que o Senhor possa ser sempre e constantemente o vinho melhor para a nossa vida. Que possamos, assim como sua mãe, ouvir, acolher e fazer tudo o que Ele disser, e, ao mesmo tempo, apontá-lo a todos como a novidade última de Deus em meio a nós. Que seu vinho possa encher a ânfora de nossas vidas.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP. 


sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE SANTA MÃE DE DEUS - Lc 2,16-21:

 


Durante oito dias, desde a noite santa da solene vigília de natal, a Igreja permaneceu ao redor do menino e de seus pais no estábulo de Belém. Hoje, a liturgia celebra a Solenidade de Maria Mãe de Deus, uma proclamação da fé da Igreja acima de tudo cristológica – relacionada à Fé em Jesus de Nazaré. Tudo o que se pode dizer acerca de Maria, Mãe de Jesus, só é possível em virtude do que é e do que sempre foi dito acerca de seu filho.

Na solenidade do santo Natal, a Igreja faz a memória do mistério da Encarnação, ou seja, Deus que se fez carne, armando sua tenda entre nós (Jo 1,14). Com a solenidade de Maria, mãe de Deus, pretende-se visibilizar ainda mais a realidade deste mistério, colocando acento, agora, na humanidade do Filho.

A proclamação de Fé eclesial sobre a maternidade de Maria, que já era celebrada pela tradição orante da Igreja, possui seu contexto histórico. O bispo de Antioquia, Nestório (sec. III d.C) e seus companheiros acreditavam (de modo equivocado) que a humanidade e divindade de Jesus eram distintas e separadas. O que, desde as primeiras profissões da fé Cristológica, a começar por Niceia (325 d.C) e culminando em Calcedônia (451 d.C), professaram o contrário. A Igreja professava já a unidade das naturezas na pessoa de Cristo. Mas somente em 431, o Concílio de Éfeso, através de Cirilo de Alexandria, reafirmou esta fé cristológica: em Jesus existe uma comunicação (de idiomas) tão grande entre humanidade e divindade. Assim, Maria é mãe de Jesus Cristo, e não só de sua humanidade. Dizer que Maria é mãe de Deus, significa confessar que o Logos-Palavra de Deus assumiu concretamente a natureza humana: Jesus é verdadeiro e plenamente Deus; verdadeiro e plenamente homem. Como dizia o grande Ambrósio, bispo de Milão, Maria foi primeiro mãe de Jesus no coração, para ir se tornando mãe de Deus na Carne. E isso, só foi possível mediante sua condição exemplar de discípula. É a segunda lição que o evangelho desta solenidade quer nos transmitir. Por isso, somos convidados a adentrar no seu horizonte.

A liturgia traz para a nossa meditação, a continuidade do texto do Evangelho segundo Lucas (Lc 2,16-21). Sabemos, que neste evangelho, Maria ocupa o modelo do discípulo do Reino. As características fundamentais residem na escuta, no acolhimento, e no cumprimento da Palavra de Deus na vida, e através dela, na história humana. A Mãe de Jesus apresenta estas características neste mini-evangelho da infância. 

Lucas, após o parto, descreve os acontecimentos seguintes com uma aureola em torno deles, ao mesmo tempo despojado e misterioso. Temos as narrativas dos pastores, os quais passam a fazer parte da temática da exclusão. Os pastores eram os mais humildes e desprezados porque conviviam com os animais, por isso não eram habilitados para o cumprimento das prescrições legais e rituais do culto judaico. No v.16, eles vão se certificar do evangelho que lhes fora dito pelo mensageiro celestial. O terceiro evangelho é caracterizado pelo tema da pobreza. A primeira palavra que sai da boca de Jesus, na Sinagoga de Nazaré, é que seu projeto de vida contempla o anúncio aos pobres, e que o Espírito do Senhor estaria sobre ele, e o ungira para esta missão (Lc 4,18). Ora, entre as muitas faces do terceiro evangelho, está o aspecto da salvação para os pobres, os últimos, a inversão escatológica, onde os primeiros se tornam últimos, e os últimos se tornam os primeiros. Ora, o Evangelho de Lucas é o mais social dos escritos do NT. Lucas é plenamente o evangelista dos pobres; aqueles aos quais os anjos anunciam um evangelho de Alegria, se tornam anunciadores desta Boa Noticia.

O Evangelista nos informa a postura da mãe do Menino. Ela guardava e meditava no seu coração todas aquelas coisas. Temos aqui o sentido rico e autêntico do verbo guardar (hbr. shemá), que é como no nosso português popular, o verbo curtir: Maria ficou curtindo todas essas coisas no coração. Por mais que a imagem da ruminação seja aplicada ao evangelho de João, podemos entender essa atitude de Maria de “guardar no coração”, como sendo uma ruminação, ou mesmo um confronto consigo mesma. É a postura do discípulo do Reino.

No esquema da obra lucana, o discípulo de Jesus é aquele que escuta a palavra de Deus, a acolhe em seu íntimo, ruminando-a, para, enfim, colocá-la em prática, frutificando a Palavra de Deus através da vida e do serviço aos irmãos. Com a informação que Lucas nos dá sobre a mãe do menino, o leitor do evangelho é convidado e enxergar nela o modelo, a exemplaridade do discípulo de Jesus.

O v.21 encerra para nós a narrativa de hoje: “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido”. O evangelista revela aos leitores-ouvintes de seu evangelho qual será a vocação do menino. Jesus é a tradução do hebraico Y’eshua, que significa “Deus salva”. Nesse sentido, a salvação não vem do imperador de Roma, que recebia o título de salvador (gr. Sôter), mas do menino envolto em faixas, na manjedoura. Deste menino, do qual Maria, da condição de mãe, é chamada a assumir a condição de discípula.

Quando proclamamos “Maria, mãe de Deus”, estamos dizendo, conforme o dogma, que ela é a mãe do Filho de Deus encarnado. Maria não se tornou uma deusa, nem entrou na Trindade. Por isso, devemos vê-la em relação às pessoas deste Deus Uno e Trino. Eis o terceiro ensinamento para solenidade de hoje.

Em relação ao Pai, Maria é uma filha predileta. Ela foi agraciada com ternura pelo Criador, que a moldou com especial carinho. Ao mesmo tempo, Maria concretiza, de forma humana, a eterna geração que o Pai realiza com o Filho, no seio da Trindade. Como toda mãe ou pai, ela é figura do amor criador de Deus-Pai. Em relação ao Filho, Maria é mãe, educadora e discípula. O seu relacionamento com Jesus supera os laços de família. Maria é mãe, mas sua missão vai mais além. Esteve junto de Jesus durante sua vida terrena e, agora, glorificada, continua junto do Filho ressuscitado, na comunhão dos Santos. No tocante ao Espírito Santo, Maria é uma pessoa plena Dele. Como perfeita discípula de Jesus, acolheu o Espírito e fez-se transparente a ele. Tornou-se um templo vivo de Deus e se transformou, por Graça, na mãe do Messias.

O dogma da maternidade de Maria é, igualmente, um convite para homens e mulheres recuperarem sua dimensão materna. A declaração de fé toca a vocação de cada discípulo e discípula do Reino, pertencente à comunidade eclesial, por serem, através do Batismo, Igreja. Maria é imagem da Igreja em sua dimensão glorificada. Por isso, a Igreja é mãe. E à luz da maternidade de Maria, ela gera, alimenta, dá vida e cuida dos filhos de Deus nascidos no Batismo, através da Fé que transmite, da Palavra de Deus e dos Sacramentos de Seu Filho Jesus. A Maternidade de Maria ajuda-nos a abrir-nos para o projeto de Deus: escutar (ouvir), acolher e realizar a Palavra de Deus em nossa vida e através dela. Este é o melhor bom propósito para este novo tempo da Graça – Kairós – de Deus, que se inicia.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

REFLEXÃO PARA A NOITE SANTA DO NATAL - Lc 2,1-15:

 


A noite santa na qual a Igreja faz a memória atualizadora da completude do mistério da Encarnação, da primeira vinda do Senhor, é iluminada por esse riquíssimo texto evangélico de Lucas, Lc 2,1-15. O catequista, mais do que transmitir uma crônica de um acontecimento real, ele faz uma interpretação do acontecido à luz da fé Cristã – uma teologia da história.  

O evangelista nos informa a respeito de um recenseamento de todo o mundo habitado (gr. Oikumênen) ordenado por Cesar Otaviano Augusto. Um levantamento do povo, por volta do ano 5 a.C, quando Quirino era governador da Síria, que incluía a Palestina (v.2). O evangelista possui uma visão ecumênica, ou melhor, inclusiva (universal, se preferir) na transmissão de seu relato. Otaviano foi o primeiro imperador que outorgou a si o título de “Augustus”, isto é, “aquele que é digno de veneração; o poderoso; o divino”. O censo ordenado pelo imperador tinha, na verdade, a seguinte intenção: saber se a população havia aumentado para arrecadar mais impostos. Uma nota importante: sempre que os reis de Israel tomavam essa iniciativa, Deus os censurava através dos profetas, porque Ele era o único senhor do povo, e não o rei. Nesse sentido, o rei acabava usurpando o lugar de Deus na vida do povo. Do mesmo modo, a atitude do imperador anotada por Lucas indica a sua pretensão de ser senhor de tudo e estar acima de tudo. Esta visão o autor quer logo corrigir: se Cesar Otaviano “Augusto” quer elevar-se, Deus em seu mistério de amor subverte esta logica e se põe no mesmo nível da humanidade. Ele faz o movimento inverso, descendo até a humanidade marcada pela injustiça, pela dominação, pela morte. Diferentemente do imperador, que toma a vida e é sinal das estruturas de morte, Deus comunica um Evangelho de vida. É o que o evangelista tratará de transmitir no decorrer da narrativa.

Lucas nos informa os versículos seguinte (v.4-6) alguns dados importantes: José, de Nazaré foi à Belém (v.4), sua cidade, juntamente com Maria, desposada com ele. Talvez essa palavra “desposada” já não cabe mais, pois no primeiro capitulo, Maria estava prometida em casamento a José, então casada com ele. Muito se conjectura sobre essa situação do casal, pois o casamento hebraico se dava em duas etapas: o desposamento, e a noite de núpcias. Nesse sentido, se o casal ainda estivesse na condição de desposados, então, não seriam um casal em situação regular diante da Lei de Israel. Outra contextualização importante, para não cairmos em narrativas ou interpretações romantizadas acerca do fato: José e Maria já se encontravam na cidade de Davi, ao contrário do que muito se pensa, que ao chegar em Belém, a mãe teria dado à luz. Isso é impossível pois uma viagem de Nazaré à Belém era feita a pé, algo impensável para uma mulher no último mês de gestação. Na cidade de Belém ela dá à luz ao filho primogênito. Interessante, segundo a tradição Judaica, a cidade de Davi era Jerusalém, pois foi ali que ele, enquanto rei fixou sua residência. Lucas não concorda. Ele estabelece Belém como a cidade de Davi, porque ela remete ao seu passado de simples pastor. Uma vez mais o catequista pretende transmitir uma mensagem, que é a de mostrar para seus leitores e para a geração seguinte, “o que virá a ser o menino que nasce em Belém”, isto é, qual o sentido que sua vida e missão tomarão, quais serão os destinatários de sua ação salvadora. O v. 6 nos informa que Maria dá à luz ao seu primogênito (hbr. Ya’hid/meu único), o filho por excelência, ao qual são reservados todos os direitos jurídicos, e aquele que, na tradição religiosa judaica, deveria ser consagrado ao Senhor.

No v.7, o relato diz que o recém-nascido foi envolvido em faixas e posto numa manjedoura. Aqui temos um detalhe interessante: Lucas recorre ao Livro da Sabedoria: “Envolto em faixas fui criado no meio de assíduos cuidados; "porque nenhum rei teve outro início na existência; "para todos a entrada na vida é a mesma e a partida semelhante” (Sb 7,4-6). O evangelista pretende assinalar a humanidade de Jesus, uma vez que foi um homem no sentido pleno de sua liberdade.

O menino encontra-se na manjedoura porque não havia lugar para eles na sala da hospedaria. Imaginemos o contexto social da época. As hospedarias eram espécies de grutas escavadas nas rochas. Dentro delas havia galerias onde era possível arrumar um cantinho para ficar, enquanto que os animais ficavam próximos às manjedouras (nos cochos), na estrebaria. Mas nem um lugar nessas galerias havia para a família de Nazaré. Então, muito provavelmente, tenham ficado numa estrebaria, ou numa gruta destinada aos pastores da região, como o resto da narrativa sugere. Lucas que mostrar que Jesus está entre os excluídos. O autor resgata, para isso, a profecia de Isaias: “O boi reconhece o seu dono; o burro o estabulo (cocho) do seu dono. Mas Israel não reconhece; meu povo não compreende” (cf. Is 1,3). Jesus está entre os não acolhidos da história. Um tema que aparecerá, novamente no Prólogo do Quarto Evangelho: “Ele veio para os seus, mas os seus não o acolheram” (Jo 1,11). Ora, se faz necessário recordar que quando a mulher paria, segundo a Lei de Israel, ela ficava impura (por conta do contato com o sangue que saia dela) e, por isso, deveria ser afastada do convívio social até o momento de sua purificação no templo, quarenta dias depois. Nesse sentido, se pode entender o motivo do casal não encontrar lugar na hospedaria e serem realocados para o lugar dos animais, e, portanto, da impureza. No recém-nascido de Belém, Deus faz seu repouso entre os impuros. E será para estes que dirigirá sua mensagem de Salvação.

Lucas, após o parto, descreve os acontecimentos seguintes com uma aureola em torno deles, ao mesmo tempo despojado e misterioso. Temos as narrativas dos pastores, os quais passam a fazer parte da temática da exclusão. Segundo o Talmud, nenhuma condição social poderia ser mais desprezada que a dessas pessoas. Os pastores eram os mais humildes e desprezados porque conviviam com os animais, viviam muitas vezes de pequenos furtos para sobreviverem, pagãos e, por isso, não estavam habilitados para o cumprimento das prescrições legais e rituais do culto judaico, bem como observar as prescrições da pureza farisaica; para os fariseus e judeus de bem, os pastores não eram gente! Eles tornam-se símbolos para todos aqueles que se encontram na exclusão.

Os pastores recebem então uma manifestação divina. São envolvidos por uma luz, e isso lembra, logicamente, outras manifestações de Deus ao longo do AT. O “anjo do Senhor” aparece pela terceira vez neste bloco literário do evangelho da infância de Jesus: a primeira, no templo, comunicando a vida João à Zacarias; depois, o mesmo mensageiro, comunica a vida de Jesus à Maria. Agora, o anjo do Senhor (que, de acordo com a tradição judaica vem sempre com a espada nas mãos para exercer a justiça e castigar os pecadores e maus) aparece aos pastores – símbolos dos pecadores. Não para julgar e castigar, mas para comunicar um evangelho de vida. Lucas quer ensinar para sua comunidade que o projeto de Deus que se inaugura em Jesus envolve a todos; não exclui a ninguém; não condena os pecadores, mas os abraça. Os envolve. Por isso, o evangelista declara que a Glória (hbr. Kabod) do Senhor os envolveu. A Glória não é o brilho, o esplendor. Mas a presença real de Deus. A Presença (A Glória) de Deus (o Senhor) abraçou (envolveu) a todos, sem distinção. 

Isso é muito interessante: o anjo lhes exorta, primeiramente, a não ter medo, porque o temor para com Deus não deve ser uma barreira. Em segundo lugar, lhes dá um motivo: um evangelho de alegria para todo o povo: nasceu para vós o Salvador, Cristo, o Senhor! A palavra Salvador (gr. Sôter) é, primeiramente a tradução do hebraico Yeshua – Jesus. Mas, ao mesmo tempo, era o título empregado ao imperador romano. Lucas quer assinalar que não é este o salvador. A salvação repousa no menino de Belém. Cristo é tradução grega do hebraico messias, que significa o “ungido”: é o delegado, o enviado, o portador e executor do senhorio e da vontade de Deus. Tudo isso acontece na Cidade de Davi.

O mensageiro celestial (Deus mesmo) lhes dá um sinal para encontrar o menino: deitado numa manjedoura, envolto em faixas! É encontrar, portanto, a criança colocada no lugar da exclusão! O sinal que anjo dá aos pastores no campo não é um sinal grandioso. Não poderá ser encontrado na opulência do palácio de Herodes ou de Otaviano. Nem no esplendor do templo de Jerusalém. Tampouco entre os poderosos. Mas colocado em meio a paus trançados – a manjedoura. Porque não havia lugar para eles (Lc 2,7). Na estrabaria encontra-se a Glória e a misericórdia de Deus feitas Carne. Deus fez-se encontrar entre os pequenos e excluídos optando e empoderando-os.

Na manjedoura de paus trançados, prefigura-se o mistério da Cruz. Porque ela torna-se, na verdade, o questionamento decisivo que o Deus de Jesus faz a cada pessoa, de todos os tempos e lugares: se desejais ver e buscar um Deus forte, potente, esplendoroso, glorioso, deveis procurar outro; este “não sou eu”. Na cidade de Belém já se vislumbra o que virá ser esse menino. Belém (do hebr. Beth-lehem) significa Casa do Pão. O menino será Pão para humanidade. Servirá de sustento, e será doador de Vida. Pão repartido, moído, despedaçado na Cruz. O sinal do menino envolto em faixas é sinal da inversão escatológica: Deus que inverte a lógica dos poderosos em favor dos pequenos.

Na narrativa, imediatamente após o sinal dado pelo Herói de Deus (Gabriel – Gebehr), aparece uma multidão da corte celeste para proclamar que a Glória (presença) de Deus, desde o mais alto dos Céus, agora se faz presente na terra, na história humana para inaugurar o Shalom, a paz. Lucas faz memória também do Sl 84. A realização plena (plenitude) – Shalom da vida e do querer de Deus, comunicada e destinada a todos! Não somente aos de boa-vontade (tradução equivocada do texto, que dá a entender que só pode ser salvo quem tem a boa-vontade de fazer a vontade de Deus). Mas uma salvação que atinge e abraça a todos.

Que a festa do Natal do Senhor possa abrir as portas de nossos corações para a hospitalidade para com o irmão e a irmã que não encontram lugar em nosso meio.  Se quisermos ver o menino, deveremos lançar o olhar para a estrebaria e para a manjedoura. Ele está ali, com os últimos e excluídos.

Possamos nós estarmos entre os pastores que recebem este evangelho: Deus põe seu Agrado em nós, através de Jesus, seu Filho. Possamos estar onde o menino está; no lugar da opção feita por Deus. Eis o Mistério desta noite Santa.

Bom Natal!

 Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.