sexta-feira, 2 de abril de 2021

REFLEXÃO PARA A SEXTA-FEIRA SANTA DA PAIXÃO DO SENHOR - Jo 18,1 - 19,42:

 


A narrativa da paixão no evangelho joanino é diferente das contidas nos sinótcos (Mc, Mt e Lc). João segue um fio narrativo de Mc (o primeiro evangelho escrito), porém distancia-se e muito na forma de narrar e de apresentar a personagem principal da “opera”, por assim dizer. Trata-se de um relato que vai a fundo ao apresentar e revelar a Glória de Deus que se revela em Jesus. O evangelista não economiza ao mostrar a realeza de Jesus. Pode-se dizer com toda a segurança que, ao interno da narrativa da paixão em João, e somente nesta seção narrativa, Jesus é soberano; é rei.

Devido ao fato da extensão do relato joanino da paixão, opto por apresentar esta reflexão a partir das personagens: quem são, o que fazem e quais finalidades possuem ao interno do relato, a fim de transmitir a mensagem salvífica que o texto contém e que o autor quer entregar para a sua comunidade e para as gerações futuras dos discípulos. Contudo, é importante situar o texto ao interno do contexto litúrgico, isto é, na sequência do texto da quinta-feira santa da ceia do Senhor. Ora, somente o discípulo que segue Jesus até à “bacia, o Jarro e à mesa”, poderá tomar parte da hora da glorificação.

Chegou a Hora de Jesus. Durante toda a primeira parte do evangelho joanino – o livro dos sinais – os gestos simbólicos operados por ele possuem a finalidade de revelá-lo como o plenipotenciário enviado do Pai, como também aprontar o discípulo para a Hora da Glória (seu enaltecimento/elevação). Um esclarecimento importante: a Glória da qual fala o evangelista João não pode ser entendida como um brilho ou algo resplandecente. No vocabulário do evangelista, que é todo proveniente da tradição bíblica do Antigo Testamento, a palavra “glória” (hbr. Kabod) é traduzida por “presença”. Logo, ao se falar da “Glória de Deus” (Ez 10; Ez 43,1-27), está se referindo à presença (ao peso) de Deus. A glória, portanto, da qual o Jesus joanino fala é a realidade da presença de Deus mesmo no dom da Sua vida, existência e obra. Quando se revela a Glória de Jesus? Na Hora da Cruz. Ela revela a que a vida de Jesus é o [novo] lugar/santuário da presença de Deus na história. Agora podemos tomar o texto a partir das personagens.

No Jardim (Jesus e Judas) – Jo 18,1-12:

O evangelista chama a atenção do discípulo-leitor para Jesus. Na teologia do Quarto Evangelho, João o apresenta sempre consciente e onisciente. Na ceia (13,4), o havia relatado ciente de que havia chegado a sua Hora, e de que tudo o Pai havia posto em suas mãos.  Não seria diferente na narrativa da paixão. Ele não é vitimizado pela situação. Não permite que ninguém, exceto o Pai, tenha a Sua vida nas mãos. É um homem senhor-de-si.  Por isso, não é surpreendido por Judas e pelas pessoas que vieram prendê-lo. Note-se que Ele mesmo vai ao encontro do traidor (Jo 18, 4). Típica ironia joanina, o evangelista nos conta que Judas vem equipado com lanternas e tochas, que são iluminações artificiais. Recordemos que na ceia Judas já havia feito sua opção pelas trevas à luz que veio no mundo (3, 19). Ao sair do convívio com Jesus na ceia já era noite fechada (13, 30). O evangelista quer mostrar que este discípulo fez a opção contrária à luz; cindiu com ela. E agora, ele é quem precisa de luz artificial. Esta personagem contrasta com Jesus na medida em decide-se por agir contra o projeto e o querer de Deus que se realiza através do Filho. Judas é o modelo que o verdadeiro discípulo deve rejeitar, ou se distanciar na medida em que vai relacionando-se com Jesus.

Anás, Pedro e o discípulo amado - Jo 18,13-27:

O evangelista apresenta três personagens. Anás, sogro de Caifás, o sumo sacerdote em exercício. O segundo personagem é Pedro. Notemos um contraste operado pelo evangelista entre Pedro e Jesus: enquanto este está demonstrando sua inocência naquele interrogatório viciado, seu mais conhecido seguidor está mostrando fraqueza. Pedro, durante a narrativa da ceia se mostra todo resistente. Esta personagem serve ao discípulo que lê o Evangelho de João como símbolo daquele que precisa assimilar verdadeiramente o sentido da vida de Jesus, para poder fazer a sua opção pró-Jesus. Emerge uma outra personagem, presumivelmente “o discípulo que Jesus amava”. Não há fundamento em identificá-lo com João, o autor do Quarto Evangelho (o que seria demasiado simplista). Mas, fato é, ele está à frente de Pedro e contrasta com ele. Ele é sempre mais rápido ao ver, ao compreender e em acreditar, precisamente porque fez a experiência com o amor de Jesus, que é uma marca da verdadeira condição de discípulo

Jesus diante de Pilatos – Jo 18, 28-42:

O evangelista apresenta uma personagem confusa. Um camaleão. Um amedrontado Pilatos. Soma-se a isso a alternância dos cenários externos e internos. Nesse vai-e-vem, Pilatos vai mudando e assimilando as imagens de seus ambientes. Ao interno do palácio ocorre a alternância entre luz (externo) e trevas (interno). Na maneira como João dispõe a narrativa, o inquérito acontece ao interno do palácio, para revelar esta oposição típica de seu evangelho: luz / trevas. A intenção (ainda que através de sua ironia) é revelar Jesus, mesmo solitário e recluso no palácio, como Luz diante de Pilatos, envolvido em dúvidas e trevas.

O diálogo entre eles revela muito, de acordo com o evangelista. Na intenção dele está para começar o processo de Jesus contra o Mundo, representado pelo Império. João disse no prólogo do evangelho que “O mundo não o conheceu (Jesus), e os seus não O acolheram”. Jesus está diante do procurador romano, que o interroga com base naquilo que ouviu. “Tu és o rei dos judeus?” A resposta de Jesus soa desafiadora: “Estas dizendo isso por ti mesmo, ou outros te disseram isso de mim?” Jesus não responde nem que sim, nem que não. Ele deixa que o próprio Pilatos tome sua decisão e tire suas conclusões. Ao insistir na culpabilidade de Jesus, emerge, pois, uma declaração muito importante acerca de Jesus, de sua vida e obra. Ele responde: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. O que o Jesus joanino quer dizer com essa reposta?

Se faz necessário tomar o texto dos originais, em grego, para captar o sentido da resposta de Jesus, que se expressa assim: “o meu reino não vem deste mundo ( gr. Ἡ βασιλεία ἡ ἐμὴ οὐκ ἔστιν ἐκ τοῦ κόσμου τούτου / ek tou kosmou tuotou)”. A realeza de Jesus não provém das realidades mundanas, das estruturas de poder, domínio, opressão. Vem do alto. Jesus declara, pois, que sua realeza depende e está estritamente relacionada à Deus. A autoridade que ele exerce, só a faz porque é da vontade do Pai. As palavras “meu reino não é daqui (= deste mundo)”, portanto, não dão margem para sugerir uma fuga do mundo, da realidade, da história humana, nem justificam qualquer tipo de alienação. Pelo contrário, convocam o cristão a uma lucidez superior. Aderir ao reino de Jesus é aderir à verdade daquele que, em tudo o que faz, é palavra de Deus e que liberta de toda escravidão, e que restaura o mundo, enquanto realidade criada por Deus.

Mas neste diálogo emerge mais uma novidade muito profunda e marcante. Pensemos. Pela lógica do inquérito, Pilatos faz as vezes do juiz que interroga, questiona e apura os fatos para dar cabo de uma sentença. Entretanto, a partir das respostas eloquentes que Jesus dá aponta para uma revelação importante: o juiz não é Pilatos. No inquérito, quem assume a figura do juiz é Jesus, deixando para Pilatos o papel de investigado. Mais uma vez, a finalidade é mostrar Jesus superior a realidade e a trama que o circundam, porque só quem autoridade sobre sua vida é o Pai. E mesmo assim, é através de sua liberdade enquanto homem que Jesus vive sua fidelidade ao projeto de vida plena, em amor até o fim, ao Deus que chama de Abá-Pai. Porque este Abá não exige do seu Filho qualquer sacrifício de sangue, ou mesmo uma morte expiatória.

A morte (19,28-37):

Após um caminho longo, Jesus chega ao lugar da crucifixão. Depois de tomar o vinho azedo, Jesus exclama: “Tudo está consumado” (mesma expressão do v. 28), inclina a cabeça e “entrega o espírito”. Nestes versículos 28-30 ocorre duas vezes o verbo teléo, “consumar/levar ao fim” (vv. 28 e 30). O dito “Tudo está consumado” acena para a realidade de que toda a vida de Jesus, através de suas obras e Palavra, refletem a vontade de Deus. Significa, ainda, que a vida e obra de Jesus atingem a Plenitude. Mas também revela a superação dos sistemas antigos dos sacrifícios levítico-cultuais.

João faz coincidir a morte de Jesus no calvário com o exato momento em que se imolavam os cordeiros no templo, por ocasião da festa da pascoa. Jesus supera, com o dom de sua vida em amor, os antigos sacrifícios e se torna, pois, o único mediador entre a humanidade e Deus. Não são mais a observância da Lei, nem das prescrições cultuais os meios necessários para se ter acesso a Deus, mas a humanidade, a vida e a obra de Jesus. Esta vida, Ele a entrega nas mãos do Pai.

O “entregar o espírito” (a existência) acena para aquela onisciência e senhorio de Jesus, de que se falou a pouco. O verbo grego paradidomai (entregar/doar) percorre toda a narrativa da paixão, mas aqui ele revela e, ao mesmo tempo, afirma o domínio de Jesus diante da situação: quem entrega sua vida é ele mesmo, sabendo que tem o poder de retomá-la novamente. Ele livremente a doa, para que o Pai reconheça esta mesma vida como salvífica e redentora, dizendo a última palavra sobre a vida deste seu Filho.

A morte de Jesus, de maneira tão crua, só pode ser entendida à luz de sua vida vivida, através de seu ministério. Ela é a consequência e o resultado da vida, das opções, decisões, vividas à luz do amor fiel ao Pai e aos irmãos, mesmo em face às hostilidades dos chefes do povo. Isso não é fazer uma leitura política da vida de Jesus. Sua vida era conflituosa pelas questões que provocava e pelos interesses que abalava. Isto vê-se no seu modo de viver, na sua práxis escandalosa, não facilmente aceita, principalmente no tocante a Sua opção pelos últimos. Nesse sentido, pregação de Jesus foi uma inversão de valores. Rompeu com os esquemas estabelecidos. Assim, a condenação de Jesus é uma rejeição a sua pessoa e a tudo o que Ele faz durante sua vida.

O relato de hoje nos deixa diante de duas perguntas: 1) Com quais personagens me identifico? 2) Como tenho vivido minha existência cristã e meu discipulado?

A chave e o modo para viver o discipulado é a forma da Paixão. Não existe discipulado que não seja perpassado pela Cruz. Mas Ela não será a última palavra.

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco da paróquia São Judas Tadeu (Avaré-SP) / Arquidiocese de Botucatu - SP

quinta-feira, 1 de abril de 2021

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA - MISSA DA CEIA DO SENHOR: Jo 13,1-15

 


A Quinta-feira Santa nos faz cruzar o limiar (das celebrações) do Mistério Pascal de Cristo. Gosto de pensar naquela pergunta que o filho mais novo faz à seu pai, ao iniciar a ceia pascal judaica: “Por que esta noite é diferente das outras noites?” E o pai, com toda a delicadeza de uma pedagogia tanto ritual como existencial se coloca a narrar a libertação do povo de Israel, operada por Deus. O chefe da família responde à criança: “Porque nesta noite fomos arrancados da casa da escravidão no Egito, e agora somos livres”. Esta noite começa a ser para nós, povo da Nova Aliança, uma noite diferente, que culminará na grande e solene noite da Vigília Pascal. Nesta noite recebemos a oportunidade de termos nossos pés lavados a fim de podermos tomar parte / comungar do mesmo gesto de Jesus.  

Nesta noite santa, somos convidados a meditar nos gestos de Jesus na ceia com os seus, o que ele realizará na oferta da própria vida na Cruz. A última ceia carrega consigo, portanto, profecia e testemunho. Profecia, porque ela se torna um gesto simbólico da entrega de Jesus mediante o gesto de lavar os pés dos seus; e testemunho, porque convida, interpela e questiona a conduta e a atitude do discípulo de todos os tempos, provocando-o a “seguir o exemplo” do mestre e Senhor, num fazer memória de Seu gesto, que institui o sacramento do amor serviçal (Ministério Ordenado), e do sacramento de seu Mistério Pascal, presente entre nós (Eucaristia). O “fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24), alcança sua plenitude histórico-salvífica quando estreitamente vinculado ao “dei-vos o exemplo para que façais como eu fiz” (Jo 13,15). Isto posto, podemos meditar o texto desta noite santa retirado do Quarto Evangelho, Jo 13,1-15. 

O leitor-discípulo é convidado, agora, neste capítulo 13, a tomar parte do Ensinamento Final de Jesus; chamado a entrar na dinâmica da sua Glória. Estes últimos ensinamentos constituem o Testamento de Jesus (Jo 13 – 17). O testamento refere-se a algo muito precioso que é deixado ou dado para quem se ama. O que Jesus deixará para seus amigos constitui o coração de todo o seu ensinamento, concomitante à revelação que realiza acerca da Glória de Deus, através de sua Hora: o seu enaltecimento na Cruz (Jo 18 – 19).

O autor do Quarto Evangelho situa a narrativa no tempo: “Era antes da festa da pascoa” (v.1). Diferentemente da tradição sinótica (Mc, Mt e Lc), o evangelista situa a ceia de Jesus na véspera da solenidade pascal. Então, a ceia pascal seria celebrada no dia seguinte (coincidentemente no Sábado, aquele ano). Mais importante aqui é captar a intenção do catequista, a de situar a morte de Jesus no dia da solenidade pascal, no exato momento em que era imolado o cordeiro no templo. Por que?

O evangelista não pretende negar o contexto pascal no qual Jesus ceou com seus discípulos, mas pretende diferenciar: a páscoa celebrada por Jesus já não é mais a mesma do templo. A sua não exige ofertas e sacrifícios, não é instrumento de exploração como se praticava no templo. Celebrando antes, Jesus substitui e supera. Na Páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros, enquanto que na de Jesus com sua comunidade, se celebra o triunfo da vida na forma do serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor; nessa, não há morte, há doação de vida por amor. Com essa introdução, o evangelista alerta para uma novidade: Jesus inaugura uma páscoa subversiva; é essa que a comunidade cristã deve celebrar.

O v.1 inicia a sessão com uma solenidade ímpar. Anuncia a chegada da hora que vinha sendo preparada desde os primeiros sinais realizados por Jesus, e, que, agora, começa a ser levada a termo. É a hora de Jesus glorificar ao Pai, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. Esta forma solene com a qual João inicia o versículo primeiro, aponta para a finalidade da missão de Jesus: manifestar o amor do Pai até o fim para os seus, que estavam no mundo. A expressão “Amou-os até o fim” pretende indicar a plenitude e a intensidade do gesto de Jesus.

O amor começa a ser levado à sua plenitude ao interno de um jantar (no original grego, o autor não usa artigo definido, mas o indefinido). É importante compreender o simbolismo das refeições para os povos do oriente, em especial para os semitas. A refeição era o momento privilegiado para se partilhar a vida entre os comensais. Uma pessoa ao ser convidado para uma refeição deveria encarar tal convite como uma honra, porque era o sinal de que anfitrião nutria muita estima pelos seus convidados e, fundamentalmente, tinha a intenção de torná-los participantes de sua vida e de sua alegria.

O evangelista coloca o seu leitor diante de duas personagens, as quais servirão de espelhos para a comunidade. Ele focaliza internamente a personagem Judas Iscariotes, primeiramente, ao informar que “o Diabo” o havia seduzido (lit: “tinha posto no coração de Judas... que entregasse Jesus”). João, ao focalizar a consciência diabólica (cindida / dividida) de Judas realiza um contraste com a consciência livre e orientada para o projeto de Deus que Jesus possui: a de que o Pai, “tudo” (semitismo para Todos) havia colocado nas mãos de Jesus (lit. “o Pai colocou Tudo e Todos nas mãos do Filho”), e de que a partir daquele momento começava seu retorno para Deus, afim de prestar contas de sua missão, enquanto Seu enviado. O Jesus de João não é uma vítima das circunstâncias. Ele não se deixa pegar desprevenido. É um homem inteiramente livre. É o que o autor quer mostrar com essa soberania de Jesus. Esta característica será ainda mais visível na cena do Horto. Jesus vai livremente ao encontro daqueles que procurarão matá-lo. É na fidelidade ao projeto de seu pai, que Ele leva a vida até as últimas consequências.

Com tal consciência, Jesus levanta-se da mesa. Depõe seu manto. Um gesto simbólico: ao depor o manto está, na verdade, despojando-se da imagem de mestre. Cinge-se com uma toalha à cintura. Em seguida derrama água na bacia e começa a lavar os pés dos discípulos. Trata-se de um gesto profético. Ele era realizado sempre antes que os convivas se colocassem à mesa; deveriam se purificar (ficar limpos) devido as estradas poeirentas daquele tempo. Esta purificação, geralmente, era feita por um escravo; quando não, pelos filhos ou pela esposa, e, numa demonstração de profunda estima, pelo próprio anfitrião. Todavia, continuava sendo um gesto de muita humilhação. Certos rabinos até orientavam escravos judeus a não realizarem este gesto para com seus patrões.

Tirar o manto em público significa renunciar ao próprio prestígio e à dignidade pessoal. Amarrar um avental na cintura (cingir-se) acena para a atitude do serviço, na forma e na condição de um escravo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz voluntariamente. Ele quer ensinar que o destino de sua comunidade e de seus discípulos é o serviço! Esta é a sua real e mais essencial identidade. Estes símbolos servem para explicar o gesto de Jesus: uma transfiguração às avessas! Jesus depõe a sua imagem de Senhor, e assume a forma de servo (Fl 2,7). Ele não veste os paramentos sagrados dos sumos sacerdotes, mas os do serviço; não as alfaias da casta sacerdotal, mas o avental dos servos.

Agora, desloquemos o olhar para outro personagem que o evangelista faz aparecer na narrativa: Pedro. Consciente da conotação humilhante daquele gesto, ele protesta: “Senhor, tu me lavas os pés?”. Para o discípulo pescador de Betsáida e para os demais, tal gesto é incompreensível. E, de fato, o é para aqueles que ainda não conheceram em profundidade o mistério do Filho de Deus. Por isso, Jesus afirma, que, por hora, eles não sabem o significado daquele gesto (isto só acontecerá à luz do enaltecimento na cruz e mediante o dom do Espírito de Jesus Ressuscitado).

Para aqueles que pensam em termos de hierarquia, o mundo vira de pernas para o ar quando o superior se torna inferior! “Tu não me lavarás os pés, nunca!”, declara o discípulo. Mas Jesus retruca, dizendo “que não terá parte com ele, caso não deixe lavar os pés”. O que Pedro não quer aceitar e, demora a assimilar, é que a originalidade do gesto de Jesus reside na inversão de que o mestre se faça servo; que o senhor se torne escravo. Em termos joaninos, “não ter parte” com Jesus significa não ter a sua vida; não participar da vida eterna. Ter parte com Jesus, significaria, por outro lado, ter em si a vida de Jesus, e torná-la existencialmente vivida de novo, através da vida do discípulo e da comunidade. Não é possível comungar da vida do Filho, sem aceitar sua lógica do serviço radical. Se Pedro (e qualquer outro discípulo) não aceitar o gesto de Jesus, não participará do efeito da obra messiânica de Jesus

A profundidade do gesto de Jesus reside no fato de que este é um gesto simbólico-profético da entrega / doação da própria vida. O gesto de lavar os pés é um símbolo para o que ele realizará mais adiante: sua vida consumada na cruz.

O Jesus joanino, depois da incompreensão demonstrada por Pedro, volta à mesa, retoma sua condição de mestre e explica-lhes, então, o gesto. Ora, os discípulos reconhecem-no como Mestre e Senhor. Mas se Ele, enquanto mestre e Senhor lhes lava os pés, eles devem fazer a mesma coisa: lavar os pés uns dos outros, tornando-se escravos uns dos outros pelo amor fraterno. Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das pessoas livres. Sentar-se à mesa e servir eram papéis incompatíveis: quem servia não tinha direito de sentar-se, e quem sentava não se humilhava servindo. Dito de outro modo, não há como sentar-se à mesa (tomar parte da ceia do Senhor, comungando de sua vida, corpo e sangue) sem que se tenha lavado os pés dos irmãos; comungado do gesto de Jesus de lavar os pés das pessoas. Não há Eucaristia sem lava-pés!

O texto suscita algumas perguntas para nós mediante este Sagrado Tríduo: 1) Com qual das personagens me identifico: Judas, que não mais se identifica com Senhor, a ponto de tornar-se adversário do projeto de Jesus e de seu Pai, ou com Pedro, que reluta ainda em assimilar a forma servidora de Jesus? 2) Tenho me deixado lavar os pés por Jesus (e com isso aceitado o Seu Dom-Salvação), para poder lavar os pés dos irmãos (através do serviço do amor/doação fraterno)? 3) Tenho crescido na consciência de que ao comungar da Vida do Senhor (através de seu Corpo e Sangue), devo igualmente comungar (assimilar e realizar) no lava-pés do Senhor? Não há Eucaristia sem lava-pés!

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco da paróquia São Judas Tadeu  / Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 20 de março de 2021

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA QUARESMA - Jo 12,20-33:


 

A liturgia deste quinto domingo do tempo quaresmal apresenta a leitura e a meditação do capítulo 12 do Quarto Evangelho. O leitor-discípulo, se chegou até aqui, está em vias de transição para a segunda parte do evangelho, o assim chamado Livro da Glória. O livro dos sinais, onde se situa o texto de hoje encerrou a apresentação dos sinais de Jesus com a vivificação de Lázaro (Jo 11). O texto que se segue apresenta o discurso sobre a dinamicidade do grão de trigo que, ao cair na terra, deve “morrer”, a fim de frutificar.

A perícope de Jo 12,20-33 encontra-se imediatamente após a entrada de Jesus em Jerusalém (Jo 12,12-19). Dentre a multidão que já aguardava a sua vinda para a festa estavam alguns gregos. Mas para entender a entrada destas personagens na narrativa, se faz necessário retomar os versículos anteriores, que concluem a cena da entrada na cidade santa. Os fariseus, que assistiam a recepção calorosa a Jesus comentam entre si, no v.19, “Estais vendo que nada conseguis? O mundo se foi atrás dele”. No vocabulário do Evangelho segundo João, o termo “mundo” refere-se à realidade, a história, que pode assumir uma atitude contrária ao projeto de Deus. Em outras palavras, uma realidade que se encontra em oposição à Deus e, que, ao interno da narrativa vai sendo chamada a fazer uma opção em favor de Jesus. O mundo que vai atrás de Jesus é simbolizado pelos gregos que buscam vê-lo. Todavia, pode ainda indicar, no horizonte da comunidade joanina, a sua composição, pois o tema dos estrangeiros da diáspora já tinha sido frisado em 7,35; 10,16 e 11,51-52. Foi entre estes que cresceu a comunidade de João.

O v.21 informa que aqueles gregos se aproximaram de Filipe, e disseram que queriam ver Jesus. Ele conversa com André e os levam até o mestre. Então, o v.23 traz uma declaração solene de Jesus: “Chegou a Hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado”. Os gregos, ao ouvirem isso pensam que chegaram na hora certa: o Filho do Homem vai aparecer na terra com a glória que recebe de Deus (cf. Jo 1,51). Com um solene “Amém, amém (Em verdade...)”, que tem a função de introduzir um ensinamento importante de Jesus para seus discípulos (geralmente uma revelação), Ele lhes diz outra coisa. Ele usa da dinamicidade do grão de trigo, que cai na terra e deve passar pela “metamorfose” (a transfiguração) de um estado para outro, isto é, “morrer” enquanto semente para frutificar (viver). O grão de trigo serve de metáfora ou símbolo para que Jesus possa atingir seus interlocutores. Banho de água fria? Vão para ver o Filho do Homem poderoso e acabam escutando uma metáfora-ensinamento sobre vida e morte!

Todavia, o autor do evangelho pretende chamar a atenção de sua comunidade para a realidade de que a manifestação da Glória do Filho do Homem (tão esperada e preparada pelo catequista bíblico) não será um espetáculo triunfalista, mas um mistério de morte e vida, perpassado pela plenitude da vida de Deus que despontará em Jesus. Ora, Jesus quer dizer que, do dom de sua própria vida neste mundo brotará o fruto que Deus espera, o fruto do amor fraterno (cf. 15,8), que refaz todo o horizonte da história, da vida e das relações.

No v.25, Jesus continua seu discurso, afirmado que “Quem ama sua vida (lit. alma) perde-a, e quem odeia sua vida neste mundo guarda-a para a vida eterna”. O texto original o termo alma (gr. psyche), e o termo odiar. Eles devem ser bem compreendidos. Na linguagem do Quarto Evangelho, “alma” significa vida física, biológica, psicológica e material. E o verbo odiar, na verdade, é o contrário de preferir, no vocabulário semítico. Este versículo deve ser entendido assim: quem se apega à sua vida perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida [da era] eterna. Ninguém deve odiar sua vida, que é dom de Deus, mas preferir em sua vida, a Vida que Deus doa (em Jesus). Quando o discípulo de Jesus acolhe em sua vida a Vida que Deus comunica, então essa vida do discípulo dá um salto qualitativo, que é a vida do “eon (era)” eterno.

Como, então, preferir a vida (da era) eterna? O Jesus joanino responde esta pergunta, modificando um tema presente nos evangelhos sinóticos, o seguimento. Se em Mt e Mc o tema do seguimento ao Filho do Homem se dá através do seguimento a Jesus, que não veio para ser servido, mas para servir, no Quarto Evangelho o autor opera uma mudança significativa: o seguimento é serviço à Jesus. O Seguimento transforma-se em diaconia. 

No entanto, quando Jesus fala de serviço a ele, não está se referindo ao serviço a um individuo privado, mas à sua Comunidade, porque o Jesus joanino não se separa de sua comunidade. Então, o serviço a Jesus consiste no serviço à comunidade que ele reuniu. Quem for fiel à diaconia de Jesus na sua comunidade se encontrará aí, onde Ele está.

Jesus declara sentir-se angustiado. João não tem medo de mostrá-lo em sua humanidade. Mas, como é próprio do autor, faz questão de mostra-lo como senhor da situação. Ninguém o tira de sua paz e de sua autonomia. O que ele faz, é por si mesmo que o faz. O Jesus joanino não é uma vítima das circunstâncias. Isso virá a tona com toda a sua força na narrativa da paixão e morte. Por isso, o evangelista recorda-se do dito de Jesus: “Mas foi precisamente para esta hora que eu vim” (v.27).

Clama, pois, ao Deus que chama de Pai: “Pai, glorifica o teu nome!” Em outras palavras, “mostra a tua glória”. Ouve-se uma voz. O próprio Pai entra em cena e diz, que glorificou seu nome, e o fará novamente. Para João, Deus glorificou seu nome em todo desenrolar da história da salvação e, sobretudo, nas obras que Jesus realizou. E o fará novamente. Quando?

O final do texto de hoje revela esse momento. A melhor explicação para essa glorificação é o v.33: “Quando eu for elevado (enaltecido) da terra, atrairei todos a mim”. O Enaltecimento de que o Jesus joanino fala é, na verdade, a maneira pela qual morrerá: a Cruz. Ali, na crucificação, ou melhor, no Crucificado, o Pai revelará todo o seu poder; a sua Glória. Ela não é algo que vem depois da cruz; ela está na cruz como revelação do amor de Deus em seu Filho, revelação de seu Ser que é Amor. Amor que vai até às últimas consequências.

O Texto é um espelho para a vida! No começo desta narrativa, gregos que peregrinavam em Jerusalém por ocasião da festa da Pascoa quiseram ver Jesus, movidos pelos sinais que ele realizava, e principalmente devido ao (último?) sinal realizado por ele, a vivificação de seu amigo Lázaro. No entanto, acabaram vendo (fazendo experiência) e ouvindo outra coisa, um discurso acerca da Hora do enaltecimento de Jesus. Esperavam um mega show ou uma demonstração fabulosa de (super)poder, mas se depararam com a “in-pontência” do enaltecimento ignominioso e fracassado da cruz. Acabam vendo um Jesus que lhes mostra o Serviço (diaconia) a Ele, e, por conseguinte, à sua comunidade, ao invés do poder, do domínio e da submissão.

É importante que nos questionemos: 1) Que Jesus eu procuro (e quero) ver (fazer experiência)? O Jesus do espetáculo, da “emoção”, da prosperidade, do “passe de mágicas”? Este não é o Jesus do Evangelho! Contudo, se mesmo assim se insistir procurar estas facetas de um Jesus “popstar” ou da “moda”, ele poderá muito facilmente ser encontrado nos púlpitos e nos altares convertidos em palcos ou picadeiros. 2) A realidade de um Jesus servo e suspenso numa cruz é uma imagem fácil de ser assimilada, ou O preferimos todo resplandecente e triunfante? 3) Que imagem de Jesus nossas comunidades tem oferecido ao que pedem para vê-lo?

O tempo quaresmal é marcado fortemente pela temática da conversão. Mas, além de uma conversão – mudança de mentalidade – para Deus e Jesus, se faz necessário e urgente a conversão da imagem que se fez ou se experimentou de Deus em Jesus. Assimilar o mistério de Sua vida que passa pela dinamicidade de um grão de trigo que cai na terra e morre para frutificar. 

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família / Arquidiocese de Botucatu-SP

sexta-feira, 12 de março de 2021

IV DOMINGO DA QUARESMA - Jo 3,14-21:


O quarto domingo do tempo quaresmal continua a leitura do evangelho joanino. O texto litúrgico proposto para a meditação eclesial é retirado de Jo 3,14-21. Para compreendê-lo, se faz necessário contextualizá-lo no horizonte da narrativa. O capítulo terceiro situa-se imediatamente após o primeiro sinal realizado por Jesus, em Caná, e depois das palavras ditas contra o templo. Ambos revelam e atestam Jesus como a novidade de Deus na história. Neste capítulo terceiro, Jesus entabula um diálogo com um certo Nicodemos, mestre em Israel, chefe dos fariseus e versado nas Escrituras. Muitos elementos apresentados pelo evangelista estão carregados de simbologia e tem a intenção de conduzir o leitor-discípulo para esta novidade presente em Jesus.

Nicodemos vai encontrar-se com Jesus a noite. A cronologia apresentada pelo evangelista é importante. A noite, para o Quarto Evangelho, é o período cronológico que simboliza as trevas. Trevas e Luz desempenha um papel importante ao interno de toda a narrativa. Para João, a Luz é trazida por Jesus, o qual ilumina – insere no âmbito e na realidade de Deus – a pessoa que se decide por Seu projeto de vida; que adere a Ele. Todavia, era no período noturno que os rabinos tinham o costume de rezar, estudar, ler e meditar a Palavra de Deus – a Torá. Era uma hora propícia em que podiam interiorizar a mensagem divina contida na Palavra. Por exemplo, nos Salmos, encontramos constantemente o salmista que reza, se levanta pela noite para meditar a Palavra. Também Jesus é apresentado, constantemente nos evangelhos, durante a noite, em oração ao Pai. 

Para o homem e a mulher, a noite é, também, o ambiente em que emergem as interrogações e as inquietações mais profundas da existência. Todos aqueles questionamentos que, durante o dia, foram sufocados pelas preocupações cotidianas. Nesse sentido, a noite pode ter sua conotação negativa de uma realidade que precisa ser iluminada (liberada das trevas; de tudo o que é oposição à Deus), mas é, também, uma ocasião propícia para se fazer a experiência com Deus e sua Palavra. Estas duas compreensões não podem ser perdidas do horizonte da leitura e da meditação do texto.

Ora, Nicodemos era um rabino, pertencia ao grupo dos fariseus, um rigoroso observante da Lei, um chefe dos judeus e um mestre em Israel. Ele sentiu-se provocado pelo gesto de Jesus no templo, e o interpretara corretamente: foi um gesto profético. Por isso, quis entender melhor qual a mensagem contida naquela atitude. Não seria certo imaginar que todos os fariseus tenham sentido raiva diante do ocorrido no templo. Entre eles existiam os que viviam uma religiosidade sincera e, que, diante do gesto desconcertante de Jesus no Templo se puseram pensativos. Nicodemos é uma destas pessoas que se deixaram interrogar pelo acontecido. Por isso, ele é o símbolo do discípulo que está começando seu processo de adesão e seguimento à Jesus, e que precisa ser, por isso, iluminado. Ele é, pois, símbolo daquilo que é velho e que necessita ser superado, elevado a um novo sentido, ou mesmo abolido.

Agora é possível situar o diálogo entre Jesus e Nicodemos, o qual está mais para uma homilia (quer seja de Jesus mesmo ou de João). No v.14, Jesus retoma um texto de Nm 21,8, a narrativa da serpente de bronze confeccionada e elevada sobre uma haste (ou estandarte), que curava o povo das investidas das serpentes, durante a caminhada no deserto. “Assim como Moises elevara uma serpente de bronze para salvar o povo, é necessário que o Filho do homem seja elevado”. Palavras muito enigmáticas, que poderiam, inclusive, fazer com que Nicodemos deixasse a conversa. O Filho do Homem é uma figura simbólica presente na literatura sapiencial e apocalíptica. É aquele – que sendo uma figura humana – se põe a realizar o querer de Deus na história (Dn 7).

João coloca na boca de Jesus um verbo muito importante: “levantar”. Mais precisamente, “enaltecido” (gr. ὑψωθῆναι / ypsothínai). O Quarto Evangelho prepara o seu leitor-discípulo para este momento da vida e obra de Jesus, que é o acontecimento da “sua hora”. Esta, trata-se da revelação da glória – da presença -  de Deus em Jesus. Através de seu enaltecimento, Ele revela a presença do Pai, e, este, por sua vez, revela-se todo no Filho. Para João, esta elevação se dá na hora da Cruz.

Esse Filho do Homem é Jesus Crucificado. Sua Cruz é seu enaltecimento. Ora, as coisas do alto das quais Ele fala, referem-se ao seu próprio enaltecimento, que mostra o agir e o revelar-se de Deus. A serpente de bronze levantada prefigura, nesse sentido, o enaltecimento (a elevação) de Jesus, na Cruz. No texto de Nm 21,8, aqueles que olhavam para a serpente, ficavam curados. Na intenção do evangelista, os que dirigem o olhar com fé para Jesus enaltecido na cruz, possuem a vida eterna. 

Olhar (ver), no sentido bíblico significa a capacidade de se estabelecer uma experiência relacional com Deus. Este “ver” indica a atitude da adesão, da decisão, da opção que o fiel-leitor e discípulo faz em relação à Jesus. Adentra numa qualidade de vida, que é a vida do âmbito de Deus. Uma vida que não perece mesmo diante da realidade da morte. O termo (e a realidade) "vida", ao interno do evangelho joanino, substitui o termo Reino de Deus.

Os vv.16-21 comentam os vv. 14-15, porém com uma novidade. João substitui o termo “Filho do Homem” por Filho Unigênito (traduzido mais familiarmente por único (hbr. yahid), “o imensamente querido”). O catequista pretende mostrar a profundidade do mistério que está sendo evocado. Deus amou tanto a humanidade, que deu seu Filho unigênito (o seu imensamente querido), para salvá-la. Uma constatação importante: o verbo usado não é “entregou”, mas “doou” (gr. ἔδωκεν, δίδωμι / edoken, didomein). Deus não enviou Jesus especificamente para sofrer e morrer; não o entregou para que pagasse até a última gota de sangue os pecados da história. Deus não é um sanguinário que quer ser pago com sangue. Ou seja, a salvação que o Filho dado pelo Pai garante à humanidade é a possibilidade – em efeito – de se tomar parte da vida mesma de Deus, trazida e apresentada na novidade que é Jesus de Nazaré.

Deus doa o Seu Filho para que a humanidade, assimilando o sentido e a plenitude de Sua vida (missão e obra), seja recolocada no Seu horizonte divino. A vida do Filho é, nesse sentido, exemplaridade e modelo para o discípulo, através da qual poderá tomar parte da vida divina, dom gratuito de Deus.

O v.18 aprofunda o sentido do verbo “julgar/condenar” (v.17). Aquele que aceita esse Dom, que na fé adere a Jesus, não é condenado por Ele. Mas quem não crê, já condenou a si mesmo. Isso não depende da vontade de Jesus, mas é a consequência da opção do discípulo. Mas João não está falando de pessoas que nunca ouviram falar do Cristo (quer seja naquela época ou hoje). Se dirige àqueles que já conhecem a mensagem cristã. O versículo dezoito tem a finalidade de induzir o leitor-ouvinte a uma pergunta: “vocês comprometem as suas vidas a este Jesus que vocês conheceram como Dom e como amor de Deus?” É a estes que é dirigido o julgamento e a autocondenação.

Diante do espelho do texto, emergem algumas perguntas. 1) Com quais personagens nos identificamos: com Nicodemos, que ainda não fez sua opção/decisão por Jesus, ou por aqueles que aderiram ao Dom de Deus, em Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo? 2) Temos acolhido, de fato, a Jesus de Nazaré como Dom por excelência de Deus em nossas vidas? 3) Em nosso discipulado-seguimento a Jesus, em quais horas de nossas vidas nos dirigimos à Jesus para ter com ele, durante a noite (na treva da escuridão, da indecisão, do descompromisso, do medo, da rejeição ao seu projeto) ou na hora da Luz (da decisão, da verdade, da fidelidade e do Amor a ele ao irmão)? 4) É tempo de conversão (mudança de mentalidade). Por isso, pelo que tenho me decido: a novidade do Dom de Deus em Jesus, ou os velhos e superáveis sistemas? 

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família / Arquidiocese de Botucatu – SP. 



 

sábado, 6 de março de 2021

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DA QUARESMA - Jo 2,13-25:

 


O Quarto Evangelho é constituído por duas partes: o Livro dos Sinais, que compreendem os capítulos 1,28 – 12,51, através dos quais o catequista João trata de animar a vida da sua comunidade renovando-a na adesão à Jesus, e, ao mesmo tempo ensinando aos que estão dando os passos na fé acerca da identidade de seu Senhor. Os sinais possuem a função catequética de apontar para uma realidade totalmente superior. Eles atuam como símbolos, ou seja, através de seu dinamismo simbólico unem duas realidades. Eles não têm fundamento em si, mas direcionam o olhar tanto dos discípulos quanto dos iniciados para quem Jesus é, a fim de optarem pelo sentido de sua vida. Dos sinais, eles são chamados a dar o passo para a contemplação da “hora” de Jesus (preparada ao longo do Livro dos Sinais), a fim de fazerem a experiência com a sua Glória. Por isso, a segunda parte da catequese joanina é delimitada como Livro da Glória.

A perícope litúrgica deste III Domingo da Quaresma apresenta o texto de Jo 2,13-25, que trata de apresentar a Jesus como a novidade de Deus agindo na história, através da superação das instituições do judaísmo antigo. O autor, através deste capítulo segundo da catequese joanina, pretende ensinar e transmitir aos seus que a novidade de Deus reside em Jesus.

O contexto imediato da narrativa é aquele após as núpcias de Caná, onde Jesus havia revelado o vinho novo; o vinho das núpcias messiânicas de Deus e da humanidade. Em seguida, Ele sobe à Jerusalém. A cena que João descreve caberia melhor ao final do escrito (cf. Mc 11). Mas para a finalidade de sua catequese, ele o desloca para o início de seu evangelho. Contemplemos a cena.

“No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados” (v.13). Jesus vai ao Templo por ocasião da primeira páscoa de seu povo narrada pelo Quarto Evangelho, e lá se depara com uma desigualdade. Vê bois, ovelhas e pombas. Animais para o sacrifício. Ora, os bois e as ovelhas eram destinados a gente rica; as pombas, eram matéria de sacrifício para os pobres. Depara-se com uma religiosidade promotora, naquele contexto, de desigualdade e segregação. Vê também os cambistas, para a troca de moedas. 

Ao interno do templo de Jerusalém só se podia usar o dinheiro antigo, do tempo pré-exílico, por não possuir nenhuma imagem (efigie) gravada nele, porque a Lei proibia quaisquer imagens que pudessem ser associadas à Deus, ou mesmo que apresentassem divindades pagãs, contrárias a fé judaica. Por isso, o dinheiro romano era trocado dentro templo. Ora, ofertar uma moeda na qual se vinha cunhada a expressão “Divus Caesar” sob a figura do imperador não ficava nada bem. Aquela situação provocava uma animosidade nos Judeus do interior, contra o regime do templo. Talvez aquilo que Jesus fará se encontre dentro da perspectiva desta animosidade contra o templo. 

João narra este episódio com um certo colorido. “Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas” (v.15). Neste versículo, o autor aponta um pormenor especial: o chicote de corda e os animais expulsos. Esta característica não se encontra nos evangelhos sinóticos. Muito provavelmente, o evangelista conhecia o relatos de Marcos.

Uma constatação importante: nos evangelhos sinóticos (Mc, Mt e Lc) a ira de Jesus se desencadeia contra o comercio e não contra os animais dos sacrifícios. E aí está a diferença característica de João, em relação aos Sinóticos: o detalhe da expulsão dos animais para sacrifício. Ora, ele usa o chicote porque tem que expulsar os animais. A intenção do evangelista é outra: ele acrescenta este detalhe da expulsão dos animais a véspera da primeira pascoa para, na verdade, mostrar que os sacrifícios do templo ficam impossibilitados, abolidos e superados. Por que?

O evangelista João, em sua proposta catequética, trabalha com o esquema da superação/abolição de todo o sistema levítico cultual do judaísmo dos anos 30 d.C (mas também, numa fusão de horizontes com tempo da comunidade, nos anos 90). Muito importante: João, o evangelista, trata da religiosidade (práticas, preceitos, sistemas), não a religião, que fique bem claro isso. Na perspectiva do Quarto Evangelho, Jesus supera e aboli a lei de Moisés e as práticas de culto. Estas, conforme a narrativa anterior das núpcias de Caná, são caducas e já não servem mais para comunicar ao homem a vida de Deus e a possibilidade de se fazer uma experiência com Ele. Agora, segundo João, é a vida, a obra e Palavra de Jesus que revelam a novidade (escatológica) da presença (Glória) de Deus em meio a história e realidade.

O acontecido no templo poderá combinar com aquilo que ele dirá para a samaritana a beira do poço (Jo 4), que nem em Garizim, tampouco em Jerusalém, se adorará o Pai, mas na novidade escatológica que que se apresenta em Jesus de Nazaré. Conforme o Sl 49 (50), Deus está farto dos sacrifícios de bois e ovelhas, ou mesmo em Os 6,6, “Hesed (misericórdia) quero, não sacrifício”. Mas quando se trata dos vendedores de pombas, os que vendiam para o povo simples e pobre, Jesus diz com mansidão no v.16, “Tirai isto daqui, não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (cf, Zc e Ml).

Ora, Jesus não veio para reformar; não veio para purificar. Mas veio para eliminar as situações injustas e os sistemas de morte, os quais não revelavam mais a presença e amor de Deus. Na perspectiva de João, Jesus propõe um novo modo de relacionar-se com Deus. Na nova relação que Ele inaugura com o Pai, não há mais necessidade deste sistema religioso. O Cristo mostra um Deus completamente diferente: um Deus que não pede, mas doa; um Pai que não suga ou absorve a força de vida de seus filhos, mas que comunica a eles o Seu dinamismo vital. O catequista quer ensinar, portanto, que esta é a novidade comunicada por Jesus. O Deus que ele chama de Pai não está distante, nos céus, muito menos preso ao interno do Templo, mas presente em Sua pessoa, existência, vida e obra. O novo templo de Deus é Jesus. Mais ainda, se o novo Templo de Deus é a vida de seu Filho encarnado na história, a humanidade toda, através de sua carne, se torna o a morada de Deus. Todavia, isto é uma afronta aos líderes religiosos, ao mesmo tempo que um perigo para os que detém o poder religioso e social. Eles não querem sair perdendo. Com isso, não se pretende abolir e eliminar a dimensão da vivência comunitária da Fé, mas o leitor-discípulo que toma contato com o texto de João deve sempre crescer na consciência diante das coisas, situações e sistemas contrários ao projeto de Deus, que podem ser sempre reproduzidos ao interno da comunidade cristã, podendo gerar o distanciamento e a desconfiguração dela do projeto de Jesus. Descer o chicote naquilo que pode representar obstáculo ao interno da vida do discípulo e da comunidade. E não a eliminação da comunidade e de sua vida e expressão da Fé.

No v.18, os judeus entram em cena: “Que sinal nos mostras para agir assim?” Evidentemente, a palavra Sinal, alude a um sinal de autoridade, como Moisés (sinais no Egito) e os profetas. Os sinais eram as credenciais. A credencial de Jesus é bem dura. "Destruí, este Templo, e em três dias o levantarei” (v.19). Interessante, Jesus não mostra aquilo que já fez, mas aponta para aquilo que vai fazer. Outra nota importante, o Jesus joanino não diz que destruirá todo o templo (com a esplanada e adjacências), mas, literalmente, “este santuário” (gr. ναός / naós). O santuário possuía duas câmaras: o santo e o Santo dos Santos. Voltemos ao dito de Jesus, precisamente ao verbo “erguer”, e não “construir”. O verbo “erguer” (gr. ἐγείρω / egheíro) aplica-se ao Seu corpo humano.  A expressão “eu o reerguerei em três dias” significaria a ressurreição de Jesus no terceiro dia.

“Os judeus disseram: Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?” As autoridades judaicas pensaram que ele se referiria à construção de pedra, ornada por Herodes, o Grande, uma vez que já não se tratava mais do templo de Salomão, mas o de Zorobabel, concluído pelo tetrarca. O Evangelista gosta de mostrar a dificuldade das lideranças do povo em entender o que Jesus fala. Para eles, a dificuldade é sinal de rejeição e oposição. Tanto os adversários quanto os seguidores de Jesus ainda permanecem na superfície do dito e das palavras e pensam em termos meramente materiais. Para os discípulos e para os que estão iniciando os passos na fé, a dificuldade se deve ao fato de que eles ainda estão no começo e tem um processo todo pela frente. Por isso, enquanto narrador, João acrescenta por conta própria que Jesus falava do Santuário de seu corpo (v.21).

O v.22 é importante para o desfecho deste episódio: “Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele”. Um bom judeu acredita piamente na Escritura e procura nela tudo aquilo que é valioso para crer. João coloca, aqui, em pé de igualdade, as Escrituras judaicas e as palavras de Jesus porque o seu discípulo não apenas acredita nas escrituras de Israel, mas em Suas palavras, como chave de interpretação para elas. A Palavra e a vida vivida de Jesus fazem descobrir o sentido profundo das Escrituras de Israel. A compreensão das escrituras é, assim, pós-pascal, mediante a luz do evento de sua Ressurreição e da força do Espírito. Antes que Jesus tenha realizado sua obra não se pode compreender as escrituras antigas. Somente depois de sua obra, com o auxílio de Seu Espírito, que faz a memória para a comunidade. A ressurreição ilumina todo o sentido da vida de Jesus, e o Espírito do Ressuscitado é quem fará a memória de Sua vida para os seus seguidores, para o leitor-discípulos. Faz sentido, então, no relato joanino, que este episódio se encontre no início da atividade de Jesus, porque ele fornece a chave de compreensão para aquilo que acontecerá. 

O Quarto Evangelho é o evangelho ruminado. Deve ser meditado e relido pela comunidade dos Leitores. O Discípulo-leitor, diante da novidade escatológica apresentada por Jesus, deverá decidir-se: optar pelo sistema levítico-cultual Judaico ou aderir à Jesus e à novidade messiânica-escatológica Nele presentes.

Mas o texto deve despertar algumas provocações. Jesus em sua ação pretende revelar a novidade de Deus agindo através Dele: como acolhemos esta novidade? Através de Seu gesto, Jesus pretende levar à superação/eliminação de todas as situações e sistemas que impendem uma genuína relação de vida e amor entre Deus e o homem: o que precisa ser superado/eliminado na vida do discípulo, que ainda impedem-no aderir plenamente ao projeto de vida de Jesus? Como se encontram as nossas comunidades? Se Jesus aparecesse hoje, às portas de nossas comunidades – católicas ou reformadas – ditas cristãs, como Ele se comportaria diante delas, com o chicote e a ira da indignação por haverem subvertido Seu projeto de vida e de amor, ou as tomaria pela mão e as tornaria sempre mais sua cooperadora na missão? O que necessitaria ser eliminado/superado em nossas comunidades, que não permitem ainda a Vida que o projeto de Deus traz através de Jesus, e não correspondem a Ele?

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA QUARESMA - Mc 9,2-10 (Ano B):


O evangelista Marcos, na narrativa da tentação de Jesus no deserto (Mc 1,12-15), não teve a intenção de apresentar um momento estanque na vida do Cristo, mas dizer para a sua comunidade e seus leitores, que toda a existência de Jesus foi perpassada pela tentação, no deserto. No percurso da catequese evangélica, o autor mostrará quem se identificará com esse papel, Satanás (opositor). Após Jesus anunciar pela primeira vez a sua ida à Jerusalém, não para conquistar o poder, mas para ser morto pelas estruturas de poder, eis que emerge uma reação violenta de um dos seus, Simão Pedro (sobrenome negativo, que alude à sua dureza de coração; um cabeça dura), o qual pretende corrigir a Jesus (cf. Mc 8,28). Por sua vez, o Cristo se volta para o discípulo e o chama de Satanás, obstáculo, pedra de tropeço para o prosseguimento de Sua missão. Pedro não é descartado, mas convidado a se colocar novamente na condição de seguidor, recebendo de Jesus o convite de vir, imediatamente, atrás Dele. Aqui, se identifica, portanto, quem poderá ser o tentador e adversário de Jesus, que poderá sempre se interpor entre o projeto do Pai e a missão do anúncio do Reino. Após o confronto com os discípulos sobre o modo através do qual Jesus deverá viver seu messianismo, e dificuldade patente deles aceitarem que o Messias possa morrer, Ele lhes mostrará qual será a condição do homem que passa pela morte. É o texto que este segundo domingo da quaresma propõe para meditação. O episódio conhecido como a “transfiguração” de Jesus, em Mc 9,2-10.
   

“Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles” (v.2). Marcos inicia a cena com um indicativo temporal (omitido pelo texto litúrgico): “seis dias depois”. Com essa determinação temporal, o evangelista pretende aludir ao sexto dia da criação, no qual Deus criou o homem. Ora, parece que o autor enseje revelar para sua comunidade qual seria o homem criado segundo o querer divino: o homem que não sucumbirá com a morte, mas que através dela iniciará uma nova existência.

O evangelista insiste no caráter privado do ensinamento, destinado somente aos três discípulos. Eles não seriam mais privilegiados que os outros que não subiram ao monte. Ao contrário, seriam, na verdade, os mais necessitados de uma profunda correção da parte de Jesus e de uma verdadeira conversão. A cada um deles, por exemplo, Jesus adiciona um sobrenome: a Simão, o complementa com Pedro – cabeça e coração endurecidos, a ponto de obstaculizar o projeto de Deus em Jesus; a Tiago e João, apelida-os de Boanerghes, no aramaico (lit. “filhos do trovão), identificando neles a personalidade e o temperamento explosivo. Estes dois tratarão, depois, de dividir até mesmo o grupo dos Doze com as perguntas sobre a importância de cada um e suas pretensões pessoais.

O evangelista dá a localização da cena. Não por interesse geográfico, mas por necessidade teológica. Talvez Marcos pense no monte Hermon (ao norte de Cesareia de Filipe), mas isso é irrelevante. Na Bíblia a montanha é o lugar da manifestação de Deus e de sua vontade; o lugar do encontro com ele: Abraão no monte Moriá (Gn 22), Moisés no monte Sinai ou Horeb (Ex 19; Dt 5,10-12), Elias no Carmelo (1Rs 18,20-40) e no Horeb (1Rs 19), o Templo no monte Sião. É, portanto, o lugar da condição divina.

Ali, Jesus foi transfigurado diante deles. A palavra grega para esta ação é metemorphote (gr. μετεμορφώθη). Ele trata de revelar aos discípulos a sua condição glorificada. É um modo de Jesus ensinar os três, e, por sua vez, Marcos transmitir um ensinamento para a sua comunidade: Jesus está indicando a condição do homem que passou pela morte. Esta, não destrói a condição humana, mas a torna permeada da potência da vida divina. Por isso, o evangelista ilustra o fato servindo-se das vestes. Elas ficaram tão brancas e brilhantes, que ninguém conseguiria alvejar.

As vestes embranquecidas de tão brilhantes, são, na literatura apocalíptica da Bíblia, os símbolos da intervenção de Deus na história (Dn 2,34.45; Lc 24,44). Marcos se serve destes elementos do Antigo Testamento (luminosidade, nuvem e vestes brancas) para ensinar que a cena da transfiguração apresenta Jesus na condição do ressuscitado (Mc 16,12), e, portanto, divina: as vestes brancas e resplandecentes são um sinal do mundo divino, um sinal de alegria e vitória. Um sinal de vida indestrutível. A informação que o evangelista oferece de que nenhuma lavadeira sobre a terra seria capaz de deixar as vestes daquele modo, serve como admoestação para o fato de que esta condição transfigurada não é fruto de um esforço humano que o projete para esta condição, mas é a força divina que realiza isso, e que é comunicada ao homem.

No v.4, Marcos narra que, ao lado de Jesus aparecem Moisés e Elias a conversar com Ele. Os dois personagens do Antigo Testamento aludem à Lei (Moisés) e à Profecia (Elias). Mas Marcos os coloca em diálogo com Jesus, ficando os discípulos de fora. É interessante como o autor constrói a cena: ambas personagens importantes do AT aparecem, uma de cada lado de Jesus, ficando Ele ao centro da cena. Ou seja, numa visão panorâmica, que é a que os discípulos têm, Moisés viria primeiro, em segundo Jesus, e, por fim, Elias. Isso é muito importante, pois, na tradição oriental, aquele que vem em segundo lugar, e, ocupa, nesse sentido o centro, é aquele que merecerá todo o destaque e importância. O autor tem a intenção de mostrar para a sua comunidade que Moisés (Lei e líderança) e Elias (toda a profecia) convergem para Jesus. Ou seja, que Ele cumpre todas as expectativas suscitadas pelas Escrituras (na Lei e nos profetas). Mas, tem, ainda, a finalidade de mostrar que Ele é o enviado definitivo e esperado para os últimos tempos.

Mas os discípulos não entendem, e, equivocam-se na leitura e interpretação da cena. Pedro, como porta-voz deles toma a palavra, e propõe levantar ali três tendas. Aqui reside a tentação sofrida pelo discípulo, o qual oferece resistência diante do projeto de Deus a ser realizado por Jesus. A dificuldade em aceitar o caminho proposto pelo Cristo. Simão-Pedro, em sua fala, subverte a ordem da cena, ao pretender armar as tendas: menciona Jesus, em seguida Moisés, colocando-o no centro (lugar de importância), e Elias. Ele e os outros dois discípulos preferem o caminho de Moisés, que é o da Lei e da liderança através do poder e da dominação, ao mesmo tempo que aderem ao caminho encolerizado da personalidade de Elias. Recusam, assim, a Jesus como o enviado de Deus, bem como o seu projeto e caminho. Não é por menos que Marcos coloque na boca de Pedro o mesmo título com o qual Judas, o traidor, se dirigirá a Jesus, “Rabi”. Simão, uma vez mais, está exercendo o papel de tentador e adversário de Jesus.

Querem um Messias que siga as tendências das expectativas e das lideranças antigas; um guerreiro, nacionalista, davidita (pronto para restaurar a antiga dinastia de Davi); alguém que venha com feitos extraordinários, com poder, inclusive para dominar e submeter. Por isso, a indicação de Marcos acerca das tendas, pois elas aludem à festa das cabanas, que relembra a saída do povo da escravidão egípcia e a sua permanência no deserto sob a guia de Moisés, habitando em cabanas improvisadas. Com o tempo, esta festa foi ganhando os coloridos da expectativa messiânica segundo as mesmas características de Moisés. Este é o imaginário que permeia a cabeça de Pedro, e que embasa as suas convicções e a de seus companheiros. Eles ainda não conseguem se transfigurar. E, aqui, para eles, a transfiguração seria a mudança da mentalidade. A conversão; a adesão a pessoa de Jesus e ao seu modo de viver, agir e pensar.

Então, de uma nuvem que descia sobre eles e os encobria, se escuta uma voz (v.7): “Este é o meu Filho amado”. A mesma voz que havia rasgado o céu na narrativa do Batismo. O amado significa “o herdeiro”, aquele que carrega a plenitude da identidade do seu pai. “Nele está a minha totalidade”. A transfiguração, como foi dito acima, acena para uma resposta acerca do mistério da vida de Jesus, e acerca de sua identidade. Só que esta identidade não aparece desde fora, mas a partir de dentro do próprio Cristo. O Pai mostra para os discípulos (e para nós) a verdadeira identidade do Filho, a partir de sua interioridade, ou seja, a verdadeira essência e natureza de Jesus, e, consequentemente, sua missão.

Aqui emerge a mensagem central desta narrativa acerca de Jesus. O seu caminho de vide e fidelidade ao projeto do Pai, ainda que marcado pela morte não é um resignar-se submisso à uma fatalidade histórica; não é fracasso de um projeto, mas revelação plena de sua verdadeira identidade. Ele aparecerá como Filho fiel, que está num relacionamento único com Deus. Contudo, esta revelação acerca de Jesus encaminha o discípulo para a transfiguração (conversão) pessoal. Mas como se dá a transfiguração do discípulo de Jesus?

Através da ordem que o Pai dá: “escutai-O!”. O imperativo “escutai-o”, significa acolher a Palavra de Jesus e seu caminho de Cruz, através do discipulado e do seguimento. Somente mediante a escuta desta palavra (da vida, pessoa e ensino de Jesus) e do seguimento, o discípulo vai sendo transfigurado. Não é a Moisés ou a Elias que o discípulo deverá dar ouvidos, mas a Jesus. Pois os ensinamentos de ambas as personagens foram sendo filtradas e reiterpretadas pela vida e pelo ensinamento de Jesus. Por isso, a intervenção da voz divina encontra-se no imperativo: “Escutai-O”. Terminada a fala divina, os discípulos veem somente a Jesus. Desaparecem as seguranças deles representadas pelas duas personagens da tradição. Agora eles só têm diante deles a Jesus, a quem referenciar a vida.

Na medida em que vão descobrindo a novidade e identidade de Jesus, vão, então, reconhecendo-se desde dentro, e poderão dizer-se, com sinceridade que tipo de discípulos de Jesus são, e se realmente encontram-se no caminho (também perpassado pela cruz), em vista de uma vida ressuscitada.

Jesus, ao final da narrativa dá uma ordem. Os discípulos não devem contar a ninguém a experiência vivida ali, até que o Filho do homem tenha ressuscitado dos mortos. Somente a luz da ressurreição é que pode iluminar a consciência dos discípulos e fazê-los entender quem é Jesus. O autor, ao apresentar a Jesus como Filho de Deus, propõe a imagem do Filho do Homem, que deve descer do monte. O lugar definitivo de Deus não é alta montanha, mas sim onde se encontra a humanidade. É importante descer da montanha com Ele e assumir a mesma fidelidade ao projeto do Pai, ainda que este seja perpassado pelo risco de morrer como e com Ele. A ordem dada por Jesus pode ser compreendida da seguinte maneira: “não digam ou espalhem nada que seja contrário ou que possa distorcer o sentido da vida que escolhi viver; não digam nada que induzam as pessoas a caírem numa ilusória realidade de fé”. Somente após a sua ressurreição dentre os mortos é que se poderá falar Dele como Filho de Deus. Por isso, a transfiguração se torna uma antecipação do que acontecerá a Jesus, e do que a sua inteira vida (paixão, morte e ressurreição) significará para os discípulos, a ponto de não caírem na ilusão de um seguimento desfigurado da verdadeira vida assumida pelo Cristo.

A transfiguração plena do discípulo é um processo que vai sendo vivido a cada momento em que ele se dispõe a escutar (e seguir) o Filho amado, nosso irmão. A Sua vida foi uma intensa e fiel escuta da Palavra de seu Pai. Só mediante esta escuta Jesus pode ser transfigurado pelo Pai. Porque decidiu-se firmemente a vive-la. A transfiguração de Jesus é um convite ao discípulo para que este também vá alcançando sua constante transfiguração; sua conversão; aquela mudança de caminho, sim. Mas, principal e essencialmente, a mudança do coração e da mentalidade; a mudança daquelas concepções e seguranças antigas, para a nova mentalidade que o Evangelho da vida de Jesus propõe: uma vida transfigurada.

O horizonte da narrativa deve fundir-se com o da comunidade, a fim de se atualizar sempre o texto bíblico. O evangelista destina à sua catequese para a sua comunidade, a fim de alerta-la para o fato de que esta tentação avança, com o tempo, ao interno da comunidade cristã. A comunidade de Marcos, inserida na realidade dos anos 65-70, em Roma, sofre com a perseguição do Império. Pedro, no texto bíblico, verbaliza a intenção de permanecer naquela situação porque apresenta traços do medo. Ela sente, como Pedro e os dois irmãos a mesma tentação: ficar acomodados na “visão beatífica”, por assim dizer. Para os cristãos de Marcos, armar as tendas e fixar-se no lugar, poderia significar a alienação da vida mediante uma fé descomprometida com a realidade; a mentalidade de reduzir a fé e a vida cristã a uma contemplação mística do encontro com Cristo. Contudo, o texto não para na comunidade de Marcos, mas chega até as futuras gerações de discípulos. Por isso, o alerta acerca destas tentações destina-se aos discípulos e às comunidades de todos os tempos e lugares.

Como nos encontramos, em transfiguração ou em desfiguração? O que em nós precisa ser transfigurado? Temos exercitado a escuta da Palavra de Deus, por meio de Jesus? Temos tomado consciência de que “escutar” o Filho é o caminho que alimenta e transfigura o nosso seguimento e discipulado? De quais tentações as nossas comunidades devem ser transfiguradas (comodismo, fixismos, tradicionalismos, descompromisso, alienação, uma fé (mistificante e mificante) desencarnada da realidade)? A vida transfigurada só pode ser vivida quando assumido o caminho da escuta (conhecimento), do discipulado e do seguimento a Jesus. Só assim poderá o discípulo responder sobre as verdades acerca de si. Só assim poderá deixar-se transfigurar.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família / Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

REFLEXÃO PARA O I DOMINGO DA QUARESMA (Ano B) - Mc 1,12-15:


 

“O Espírito levou Jesus para o deserto” (v.12). Assim começamos o itinerário quaresmal com o primeiro domingo da quaresma, onde meditaremos em nossa liturgia estes versículos introdutórios do primeiro capítulo do Evangelho de Marcos, em 1,12-15. O mesmo Espírito já tinha investido Jesus para a missão, conforme vemos na cena narrada anteriormente, às margens do Jordão. Infelizmente a tradução litúrgica omite o conectivo adverbial que liga o texto do batismo com a narrativa que se segue.

O Espírito é aquele dinamismo de vida e de amor existente entre o Pai e o Filho. E a resposta de Jesus ao amor e a vida do Pai é uma entrega de amor em favor da humanidade inteira, isto é, inserindo-a no horizonte de amor e de vida que ambos comungam entre si. O que o Espírito faz em relação à Jesus? Marcos indica com um verbo muito forte que Ele, literalmente, “impulsionou (empurrou - jogou) Jesus para o deserto”. O verbo utilizado pelo evangelista é ekballo (gr. ἐκβάλλω). O Espírito O insere no mesmo caminho que marcou a vida de seu povo e dos profetas. O deserto, na tradição bíblica, recorda a saída dos hebreus do Egito rumo à terra prometida. Um caminho de libertação.

Ora, o catequista quer ensinar para a sua comunidade que Jesus inicia um caminho de libertação, sendo este, fruto do Espírito. Uma vez que, para Marcos, Jesus é o novo Josué que, às margens do Jordão, último limite para que o povo atravessasse e conquistasse a terra prometida, inicia um novo êxodo para uma nova terra de liberdade. Liberdade (libertação) e Espírito encontram-se unidos na prática de Jesus. A práxis de Jesus, pelo Espírito, gera vida e libertação.  

Marcos informa que “E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e ali foi tentado por Satanás” (v.13). Na teologia bíblica, o número quarenta é simbólico. O evangelista não pretende fazer uma cronologia da vida de Jesus. Por isso, o número não significa um período exato (estanque) na vida do Cristo, nem a quantidade, mas indica a totalidade de sua vida. A simbologia que envolve este número significa, para a cultura da época, o tempo de uma geração inteira. O autor quer chamar a atenção para o fato de que Jesus não ficou somente quarenta dias no deserto e depois saiu, mas que sua vida inteira foi vivida dessa maneira.

O evangelista informa que, ali, no deserto, Jesus foi tentado por Satanás. Marcos é o evangelho mais antigo, e é curioso que ele não apresente as tentações, tampouco o número delas. Ele não jejua e não reza. O verbo “tentar” (gr. πειράζω / peiráso), é importante. Qual seria a tentação sofrida por Jesus? As tentações percorrerão a totalidade de sua vida, culminando no último momento de sua existência, quando os chefes do povo o colocarão à prova, provocando-o a manifestar seu poder em meio ao sofrimento, descendo da cruz.

A tentação, portanto, consistirá na compreensão e no modo através do qual Jesus se revelará como Filho de Deus; defrontar-se e confrontar-se com esse questionamento: em que consiste ser Filho de Deus. Será através do caminho do poder, do prestígio, ou da fama? Na perspectiva de Marcos, não. Será através da passagem pelo deserto, que Jesus começará a compreender o caminho de seu messianismo. Lá, como aconteceu a todos os filhos de Israel. Jesus é tentado a partir do modo, através do qual viverá o seu messianismo. Por isso, o leitor deverá ter em mente o texto de Dt 8, onde YHWH declara que fez seu povo caminhar no deserto para saber se ele seria capaz de obedecer à sua Palavra e ser considerado seus filhos.

Quem é este Satanás? É uma figura literária. Satanás não se trata de uma entidade, mas de uma função/atitude. É a ação de se colocar e agir contrário; realizar oposição ao projeto de Deus. Dando um salto na narrativa do evangelho marcano, essa função será identificada em Simão Pedro, quando este se colocar contrário ao projeto de Jesus de subir para Jerusalém realizar até o fim a sua missão, sendo morto pelas autoridades de seu povo. Na concepção de Pedro e dos demais, o Messias não poderia ser um derrotado, mas vir com força, poder e violência para aniquilar os dominadores romanos. A Pedro, Jesus dirá, “vinde após mim, Satanás. Porque não pensas as coisas de Deus, mas dos homens” (Mc 8). Simão é chamado de opositor de Deus porque pretende impedir a Jesus de ser morto pelo poder vigente, ao invés de tomar o poder.

Quem personifica esta figura literária de Satanás que põe Jesus à prova? São os fariseus, gente sabida e entendida da Palavra de Deus, que pouco viviam-na. E, o que é pior, a descaracterizavam, anulando-a com seus preceitos humanos. Aquele que eram tidos como os mais próximos de Deus, dirá o evangelista, foram os que agiram diabolicamente (gerando divisão), tentando a Jesus. Qual a ação tentadora dos líderes do povo, em relação a Jesus? Lembremos que Marcos aplica o verbo “tentar” sempre aos fariseus. Estes realizam a divisão entre Deus e o homem, através daquelas leis e prescrições impossíveis de serem observadas e cumpridas pelo povo simples; causam a divisão entre o homem e a mulher, uma vez que ela era colocada numa posição de inferioridade ao interno da sociedade do tempo de Jesus; geram a divisão entre os homens, rotulando-os em “puros” e “impuros”. Exatamente o contrário da ação de Jesus. Assim, Satanás é, nos evangelhos, imagem do poder. 

Enquanto Deus é imagem do amor generoso que se coloca à serviço das pessoas, a fim de levá-las para junto de si, Satanás é o símbolo do poder que domina as pessoas a fim de distanciá-las de Deus.

Deus e Jesus não dividem a humanidade. Ao contrário, aproximam os homens entre si, e aproximam a humanidade para si. Deus e Jesus não dividem o homem e a mulher, mas colocam-nos em paridade nas relações, tornando-os um só corpo. Deus e Jesus não causam divisão entre as pessoas, rotulando-as em puras e impuras, mas todos são os destinatários do amor comiserado de Deus. Assim, a primeira indicação dada pelo evangelista através do uso do verbo “tentar”, aplicado aos fariseus é a seguinte: atenção, estas pessoas tão pias e tão devotas, servidoras e detentoras da moral e dos bons costumes, tornam-se, na verdade, instrumentos de Satanás.

“Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (v.13b). O evangelista usa o artigo definido, “os” animais selvagens. E o faz para lembrar aos seus leitores que estas personagens são já conhecidas. Elas aparecem no livro de literatura apocalíptica atribuído a Daniel. Simbolizam os impérios, os poderes dominantes da época. 

O que o evangelista quer ensinar para seus leitores? Que toda a vida de Jesus foi vivenciada pelo deserto; que durante toda a sua existência ele foi colocado à prova pelos líderes do povo e, que, por fim, durante todo o seu ministério, a sua vida foi colocada sob o perigo de uma morte iminente. Tanto é verdade que o evangelista insere a informação da prisão de João, o Batista (cf. v.14). Ambos empenharam a vida pelo anúncio do Reino, até que o precursor é preso. Jesus, com seu anúncio do Reino, chama a todos para conversão. Mas aqueles que detém o poder não aceitam mudar de vida. 

O v. 13 informa, por fim, que os anjos o serviam. Até o momento, foram apresentados ao leitor a figura de Satanás, dos animais selvagens, ambos símbolos para os poderes contrários a Jesus e ao projeto de Deus. Agora, o autor apresenta a figura dos anjos. Quem são eles, na intenção do catequista Marcos? São símbolos para aqueles que acolheram o anúncio da Boa Notícia de Jesus, e colocaram sua vida na dinâmica do amor generoso e livre, através do serviço. O verbo utilizado pelo evangelista é diakoneo, a capacidade de servir, livre e amorosamente. O primeiro “anjo” que aparecerá na narrativa será uma mulher, a sogra de Simão, que depois de ter sido libertada da morte representada pela enfermidade, se coloca a servir a Jesus.

“Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (v.14-15). O marco temporal para Jesus retornar do deserto para a Galileia é a prisão de João. Ele retorna para anunciar a Boa Notícia do Reino. Ele não fala de si, mas referencia o Reino. A Boa Notícia de Deus, é a de que o tempo da espera acabou e se tornou pleno. 

Para Marcos não se espera mais que um messias caia do céu, ou que as práticas do jejum, da oração ou da esmola pudessem acelerar a vinda do Reinado de Deus, e que ele escutará a súplica da humanidade só porque ela cumpriu essas obras. Não. Não há mais o que esperar. O Reinado de Deus chegou, foi isso o que disse Jesus.

O Reino chegou. Ainda que a humanidade esteja em meio ao deserto; chegou naquela Galileia das nações; na Galileia da humanidade; do discípulo. O Reino de Deus chegou na nossa vida; em nosso deserto. Ali, o Espírito impulsiona o discípulo  para enfrentar as forças de morte, de opressão, de oposição, de resistência, isto é, as tentações de Satanás. O convite de Jesus à conversão é um chamado à mudança de mentalidade (gr. μετανοέω/metanoéo), para ir muito além das velhas maneiras de pensar, de agir. O convite à conversão é acompanhado da proposta do crer. Crer que o Reino chegou, não pelos méritos ou boa conduta do ser humano, porque se converteu; mas porque Deus assim o quis. Por isso, se faz necessário encontra-lo, aderir a ele.

Aplicado à comunidade de Marcos, a destinatária de seus escritos, ela é chamada a viver conforme a mesma vida de Jesus. Não se pode esquecer que ela está marcada pela perseguição dos anos 65-70, em Roma. Este é o deserto em que ela se encontra. A tentação é, pois, aquela de mudar de caminho, de buscar evitar a perseguição, de ser conivente e viver em boas relações com o Império que a persegue; a tentação de reduzir o Evangelho a uma doutrina, a preceitos, ou a moralismos. Então, para ela e para a geração futura dos discípulos, dentre os quais nos encontramos, Marcos trata de recordar o que aconteceu com o Batista (grande profeta) e com Jesus (o Filho de Deus): a perseguição torna-se a lógica de quem se colocou a serviço do Reino de Deus.  

O texto deste primeiro domingo do tempo quaresmal instiga-nos algumas provocações. Temos a coragem de deixarmo-nos impulsionar pelo Espírito para o Deserto, com Jesus? Que tipo de tentações podemos encontrar ainda latentes em nós, que nos impedem de responder ao projeto de vida plena inaugurada pelo Reino? Quem somos nesse deserto, tentados (com Jesus) ou tentadores (como o Opositor, Satanás)?

Iniciamos um tempo de graça, de reconciliação e conversão com a quaresma. Somos convidados a iniciá-la  – com Jesus – a partir da realidade do deserto, impulsionados pelo dinamismo de vida de Deus que é seu Espírito, a fim de que através Dele, anunciemos com Jesus, a chegada do Reino. Começamos no deserto, mas não permaneceremos nele. Há um caminho de vida e de liberdade a ser percorrido, ainda que perpassado do início ao fim, pelo ermo.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família / Arquidiocese de Botucatu.