sábado, 21 de março de 2020

TÓPICOS DE LITURGIA - Jungmann: Um grande dom de Deus para a Igreja (artigo de 1964 / Traduzido na íntegra).




Um grande dom de Deus para a Igreja.

Joseph Andreas Jungmann SJ 
(novembro de 1889 - janeiro de 1975)

Introdução.

Uma obra grandiosa, que ninguém até poucos anos atrás tinha sonhado, chegou à sua plenitude. Uma primavera, esboçada sobre a terra há mais de meio século e florescida com exuberância em todo os lugares, encontrou o seu coroamento numa rica colheita. Um grande dom de Deus foi colocado em nossas mãos; um dom de Deus, mas, ao mesmo tempo, uma obra de cujo nascimento e formação contribuíram também a mão do homem; uma obra saída das mãos do homem, e, todavia, animada por aquela força vital que Deus doou à sua Igreja.

Na constituição sobre a Sagrada Liturgia (Constitutio de Sacra Liturgia), encontramos somente as linhas mestras sobre as quais se deverão, no futuro, configurar o serviço divino da Igreja: os novos livros litúrgicos e a completa realização virão só mais tarde; mas as decisões mais importantes já foram tomadas. Indicamos brevemente algumas.

 1. A liturgia não é imutável:

Graças à constituição, vem finalmente quebrado aquele encanto que, há 400 anos, encerrava a nossa liturgia numa situação de inalterabilidade e, portanto, de paralisia. Todos nós crescemos persuadidos de que as coisas relacionadas à liturgia não só eram santas e inatacáveis, mas também subtraídas de qualquer mutação, não muito diferentemente das Sagradas Escrituras, da qual o passar dos séculos não pôde mudar uma só sílaba. Tal absoluta inalterabilidade, foi, segundo o Concílio de Trento, algo de necessária e de benéfica. Sob muitos aspectos as formas litúrgicas caíram, no fim do período medieval, numa situação caótica. Os ataques muitas vezes imprudentes dos reformadores, que negavam o sacerdócio ministerial e o caráter sacrifical da Missa, e que haviam canceladas todas as distinções entre altar e povo, tinham criado ulteriores confusões. Foi necessário um esclarecimento inequívoco das prescrições, era necessária uma linha divisória clara entre o altar e o povo e uma rigorosa adesão à língua latina era, pelo menos, recomendável.

A situação, de então, foi substancialmente mudada. Aquilo que no início desta nova época é absolutamente necessário, é, que acima de tudo seja facilitado aos fiéis o acesso às riquezas do mistério de Cristo e que a sua união com o altar venha reforçada.

A Constituição fala ousadamente sobre uma reforma radical (instauratio) da liturgia; uma palavra que, a princípio, alguns Padres do Concílio não leram sem um certo espanto. De fato, essa renovação também inclui toda a orientação da Missa (art.50). Tal propósito mostra com qual decisão o Concílio pretendia adequar-se às necessidades dos tempos e em que medida a Igreja se revela um organismo vivo.

 2. Descentralização.

Um outro traço característico da reforma é constituído do fato de que se renuncia a uma liturgia absolutamente uniforme para todos os países do mundo. Certamente, o direito dos ritos orientais propriamente não foi discutido; mas foi visto em sua persistência ao longo dos séculos, apenas um privilégio ou uma sobrevivência dos costumes antigos a serem preservados com amor. Também na Igreja Latina existem, ainda hoje, algumas variantes do rito romano: o rito ambrosiano, aquele dos dominicanos etc. Mas essas eram apenas exceções destinadas a desaparecer. Para o restante, do Japão à África do Sul, do Alasca ao Ceilão, a única medida legislativa foi a carta do missal. É compreensível que, desde as igrejas jovens e florescentes dos países mais ricos e de civilizações antigas, surgiram rumores de que eles pediram que fosse quebrada tal uniformidade. No congresso litúrgico de Nimeg, realizado em 1959, estas novas vozes fizeram escutar todo o seu peso.

Para a dizer a verdade, o princípio de uma uniformidade absoluta era ainda desconhecido antes do Concílio de Trento. Aqui se ateve à liturgia romana, mas cada província eclesiástica se acreditava no direito de estabelecer a partir de si os particulares. Este princípio volta agora a reviver. Enquanto, até agora, segundo o Cân.1257, o orgão competente para o ordenamento litúrgico era exclusivamente a Santa Sé, agora se reconhece aos bispos um maior espaço de iniciativa e se facultam às conferências episcopais amplíssimos poderes (art. 36-40).

Ligado a tudo isso existe um outro fator: hoje, ao interno da Igreja universal, não só as igrejas locais e particulares, mas também a comunidade dos fiéis reunida hinc et nunc (no aqui e no agora) recebe uma nova avaliação. A Igreja é, essencialmente, a assembleia dos fieis; e o culto da Igreja é, em seu sentido próprio, essencialmente aquele que cria a comunidade dos fieis sob a guia do sacerdote (ou ministro ordenado) chamado do alto e delegado para aquele ofício. A Constitutio de Sacra Liturgia (Constituição sobre a Sagrada Liturgia) preanuncia, em diversos passos, aquilo que na constituição conciliar sobre o esquema De Ecclesia (Sobre a Igreja) foi posto em evidência sobre a natureza da mesma Igreja: isto é, que ela é, em primeiro lugar, chamada a considerar-se como Povo de Deus, cuja hierarquia deve ser servidora.

3. Participação ativa.

Disso derivam importantes consequências, consequências que já são explicitadas. Não se faz justiça ao sentido da ação litúrgica, somente pelo fato de que os fieis estejam presentes, ou só porque eles ouvem a missa "com devoção". Espera-se deles uma "plena et actuosa participatio (plena e ativa participação)" (art.14), uma "actuosa participatio interna et externa (uma interna e externa participação ativa)" (art. 48). No fundo, com isso não se pede nada de novo. Recorra-se ao significado concreto das antigas fórmulas litúrgicas: as orações oficiais do sacerdote vêm ditas no plural, os fiéis são convidados, no Oremos à oração, e se espera deles que expressem com o "amém" a sua confirmação.

Se, agora, por parte dos fiéis, se pretende que participem consciente e inteligentemente na ação litúrgica, deriva como consequência que também o véu da linguagem, cujos textos sagrados estão envolvidos se tornem transparentes. Tal consequência é rapidamente deduzida:  mas ela deve realizar-se em harmonia com a realidade das diferentes situações. Necessitar-se-á, por exemplo, tornar possível esta total transparência na língua materna também para as antigas civilizações, tais como aquelas do antigo oriente, para as quais as bases culturais greco-romanas são tão estranhas quanto são para nós as chinesas. E isso é contemplado no artigo 40. Uma parte dos povos neolatinos não desejam abandonar o latim, transmitido a eles desde séculos, e cuja afeição por esta consta [igualmente] de séculos. A eles precisará deixar a liberdade de preservarem-se na antiga tradição, assim como precisará oferecer às outras populações a possibilidade de uma utilização, ao menos parcial da língua materna. E isso foi remediado a partir do conferimento de maiores poderes às Conferências Episcopais, como se diz nos artigos 36 e 54.

Para a situação na Alemanha, onde muitas dioceses conhecem desde data antiga, o chamado Deutsches Amt ("ofício alemão, que constitui-se um privilegio para o território do antigo Reich, desde o indulto romano de 24 de dezembro de 1943), a Constituição significa, substancialmente, um passo ulterior, uma vez que, além das canções, as leituras da missa agora também podem ser feitas em alemão. Estes deverão, na próxima reforma dos livros litúrgicos, virem abundantemente enriquecidos (art. 50). Se forem feitos um reto uso desta liberdade nos cantos - excelentes experimentos estão já em ato - e, se na Oração dos Fiéis forem valorizada de forma nova também a voz do povo (art. 53), poderemos dizer que as portas do santuário não serão mais fechadas aos fiéis.

O reordenamento de todo o rito da missa, graças ao qual a estrutura dela será  tornada mais visível, e seu significado e a conexão lógica das partes individuais se destacarão com mais evidências (art.15), facilitará ulteriormente a participação interior e exterior dos fieis. A delimitação destas particularidades será a função (ou deverá) de uma comissão especial, e se realizará num futuro próximo. A disposição com a qual o santo Padre, à luz da reforma próxima, colocou em vigor já desde algum tempo, algumas inovações que não precisavam de ulterior trabalho, devemos compreende-las como uma garantia que, de modo particular a celebração eucarística dominical da inteira comunidade reunida, representará um ponto culminante da vida cristã e, contemporaneamente, uma nova fonte de energia (cf. art. 10).

Se pode afirmar que a reforma, de cuja Constituição não oferece mais do que um esboço fundamental, constitui uma verdadeira reforma pastoral e que, no campo do serviço divino, ela corresponde àquela finalidade pastoral que os Papa João XXIII e Paulo VI se propuseram.

4. Caráter pastoral da reforma.

Este caráter pastoral da reforma não é um fruto espontâneo, de fato. A última grande reforma da liturgia, empreendida ha 400 anos, não foi, em primeira instancia, de caráter pastoral. Foi uma reforma orientada apologética e historicamente. Através da eliminação de numerosas excrecências e deformações, ela buscava trazer à liturgia aquela forma que havia possuído desde os primeiros séculos. Ela não pretendia vir ao encontro do povo cristão, mas só preservá-lo dos erros. A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II se religa, também ela, às antigas tradições, antes, ainda mais antigas, àquelas tradições, isto é, cuja liturgia era ainda uma expressão viva de toda a comunidade. A este respeito, ela repete a palavra de ordem com a qual Pio V pôs em vigor o novo Missal: a reforma deve agir segundo a norma dos Padres antigos (art. 50). Mas a sua orientação é, hoje, requintadamente pastoral.

Este retorno ao antigo deve realizar-se na medida em que ele é vantajoso e necessário. A reforma dá um grande passo para vir ao encontro do povo cristão. Se trata de uma reforma pastoral. Se as disposições relacionadas à reforma da Missa tocam a todo o povo Cristão, aquela relacionada ao Divinum Oficium (Ofício Divino) toca, de modo particular, a todo o clero.

O lamento geral sobre este aspecto foi que o Ofício Divino, assim como encontrava-se disposto no breviário, com suas oito horas (canônicas) distribuídas num arco de um dia inteiro, não respondia, de fato, a situação em mudança dos sacerdotes empenhados no cuidados das almas, antes, mais de um sacerdote desejoso de cumprir com o dever do seu breviário, desaprendia o que seria a verdadeira oração. Aqui, também é possível reconhecer nas novas disposições a vontade de advertir para o cuidado das almas. O breviário não deve ser um mero dever do qual pode ser liberado. Ele deve ser uma Oração. Não se pretende mais do sacerdote o cumprimento de um Pensum, destinado uma vez a cumprir a carga diária de um monge. Não será mais necessário inserir uma serie de horas durante a manhã, violando a sua natureza mesma, ou recuperá-las até tarde da noite. Ao contrário, a Constituição revela também o esforço de restituir ao Ofício Divino um pouco daquela originária significação, colocando em evidência as duas principais horas, Laudes e Vésperas, para cuja recitação, na sua forma primitiva, solicitava-se também a participação dos fiéis (art. 100).

No quadro destas ideias, acenamos também para a nova avaliação daquelas funções e devoções que, sob a responsabilidade dos bispos, foram praticadas em algumas dioceses e contidas nos respectivos livros da piedade cristã (art.13, II parágrafo), de modo especial a "Celebração da Palavra de Deus” (art. 35), no qual vem indicados novos caminhos para o renascimento da genuína piedade cristã.

 5. Limites e compromissos.

De tudo o que dissemos, ressaltamos alguns pontos principais, dos quais podemos ver as grandiosas conquistas que a Constituição assegurará para a liturgia da Igreja. Todavia, ninguém melhor do que aqueles que trabalharam para a preparação da reforma sabem que nem todos os desejos puderam ser satisfeitos. Isso não vale só para aquelas propostas que, desde o dia do anúncio do Concílio, numa visão do futuro, foram apresentadas por consultores competentes ou mesmo, por escrito e por voz; mas também àqueles que na Aula Concilii foram sustentados por vozes autorizadas.

A prescindir do fato que muitos problemas foram deixados suspensos, porque suas soluções podem ser confiadas somente à Comissões especiais que agora deverão se colocar à trabalho, o empenho da reforma pastoral deverá buscar um compromisso com o peso da tradição, e não só da venerável Tradição dos primeiros séculos, mas também aquela mais recente, na qual nós mesmos crescemos.

A linha de tal compromisso deve ser regulada segundo aquelas forças que, por hora atuais, são operantes na Igreja. Eis porque numerosos artigos revelam os caminhos do compromisso. Um exemplo: como, na discussão da segunda sessão, a respeito da pergunta se no conceito de Igreja se deveria colocar em primeiro plano a hierarquia ou povo de Deus, os padres responderam de forma diferente, assim também na preparação do esquema litúrgico se respondeu de forma díspar à pergunta se a Oração litúrgica adquire sua plena validade só se atuada sob a autorização da máxima autoridade hierárquica que legitima tal Oração em nome da Igreja, ou se para tal escopo baste o dado, de fato, de que a comunidade está reunida hinc et nunc sob a autoridade delegada do ministro oficial, sendo já, tal comunidade, Igreja.

Um problema teórico, do qual consequências de grande alcance derivam (conferir, a este respeito os artigos 13, 84, 98). Um outro exemplo de decisões de compromisso é a resposta dada ao problema se o breviário assim como ele nasceu da tradição da Oração coral dos monges e das comunidades dos cônegos, devesse ser substituído por um novo breviário para os sacerdotes seculares. Uma resposta decisivamente afirmativa a tal questão não seria muito audaciosa. E, todavia, foi escolhida uma via intermédia. Para concluir, muitos esperariam uma solução radical do problema concernente à língua da liturgia.

Nesta, e em outras questões semelhantes deve-se recordar que a obra reformadora da Constituição representa tudo aquilo que foi possível reunir no ano de 1963, por parte de uma assembleia de dois mil bispos provenientes de todos os povos do mundo, numa época em que não só no mundo, mas também na Igreja estava em caminho uma evolução. Muitas portas foram abertas e novas perspectivas de possibilidade litúrgicas foram autorizadas. Devemos agradecer a Deus por aquilo que ele nos deu.

(O presente artigo consta na Liturgisches Jahrbuch. Vierteljahreshefte fuer Fragen des Gottesdienstes, herausgegeben vom Liturgischen Institut, Heft 1-2-1964. Aschendorffsche Verlagsbuchhandlung, Muenster i. W. Tradução de uma versão italiana do referido artigo: Pe. João Paulo Sillio, presbítero da Arquidiocese de Botucatu – SP; bacharel em Teologia pela FAJE)



sábado, 14 de março de 2020

Homilia para o III Domingo da Quaresma (Ano A) – Jo 4,5-15.19-26.39-42 (relato breve):



O texto proposto para a liturgia deste terceiro domingo da quaresma é o relato joanino do encontro entre Jesus e a samaritana. O episódio divide-se em três momentos: 1) Jesus e a samaritana junto do poço de Jacó (4,1-26); 2) Jesus e os discípulos (4,27-38); 3) Jesus e os samaritanos, que passam a crer nele a partir do testemunho da mulher, e pela escuta da palavra de Jesus (4,39-42). Interessa-nos os primeiro e o segundo momento.

Uma chave de leitura para se compreender o presente texto é o tema da novidade trazida por Jesus. Novidade esta que é escatológica e que fora esboçada nos cap 2. Ali, João pretende mostrar, pelo gesto profético de Jesus purificando o templo de Jerusalém, que os sacrifícios do templo ficam impossibilitados e abolidos, mediante a novidade escatológica trazida por Jesus em sua carne. Já no capítulo 3, desenrola-se um diálogo com um certo chefe dos fariseus de nome Nicodemos. O chefe dos fariseus vê uma novidade na presença de Jesus.  Com um solene  “amém, amém”, o Jesus joanino introduz um discurso sobre a experiência com Deus, que se dá pelo novo nascimento, através da Agua e do Espírito, que, para o leitor-discípulo, alude ao Batismo, por meio do qual se dá a entrada na comunidade de Jesus. Este novo nascimento se dá no Espirito, visibilizado e assinalado pela água.

O quarto evangelista situa para nós onde e como se deu a cena. O quadro mostra Jesus voltando para Galileia. Ele vai a uma cidade chamada Sicar, e lá conforme Gn 33,19, Jacó havia comprado um terreno que deu a José, para que este enterrasse os seus descendentes. Havia ali uma fonte, ou mina d’agua. Parece que o quarto evangelista também se serviu do relato de Gn 24 (o poço de Nacar) como pano de fundo para seu quarto capítulo. Preferimos traduzir poço por Fonte, porque a fonte dá a ideia de água corrente, fator importante para se compreender o simbolismo do evangelista.

João nos informa que Jesus parou ali para descansar, ao meio-dia, a hora Sexta. Àquela hora apareceu uma mulher samaritana para tirar água. Não era a melhor hora, uma vez que as mulheres iam bem cedo, ao frescor da manhã. Jesus, então, entabula um diálogo com ela, pedindo-lhe água. Ela responde a Jesus de modo a ressaltar a diferença cultural e social entre Judeus e Samaritanos: “tu, que és judeu, pede de beber a mim que sou uma mulher samaritana?” Interessante que o evangelista dá peso à cena, ao mostrar o diálogo de Jesus com a mulher, na ausência dos discípulos, uma vez que um judeu não conversava em público com uma mulher. Ainda mais samaritana. Judeus e Samaritanos não se relacionavam, e por isso ela responde que não pode compartilhar com ele seus pertences. Ora, aos olhos de seus adversários, o fato de Jesus já ter iniciado uma conversa com um samaritano já seria motivo de grave falta, tanto mais o uso de um utensílio deles.

Jesus, como no caso de Nicodemos, começa o diálogo com a samaritana  mediante um paradoxo que reside no reconhecimento do Dom de Deus naquele que pede água para beber, pois este é que dá uma água que mata a sede. Ou seja, o paradoxo pretende ensinar uma novidade para samaritana: ela tem que aprender algo totalmente novo. A samaritana e Nicodêmos são figuras simbólicas dos candidatos à Fé cristã. Aquele que pede, na verdade é aquele que mais pode dar, pois dá algo de totalmente novo e além do que se pode esperar. Mas isso a samaritana, Nicodêmos e o discípulo-leitor (candidato ao batismo e a fé) devem ir compreendendo, porque ela ainda não entendeu, permanecendo na materialidade do símbolo da água.

Quando se fala da Água que brota para a vida eterna, na verdade está se referindo a Água que no crente produz a existência do eon (era ou século) vindouro de Deus, que põe fim à arbitrariedade do que reina neste tempo. Um convite para que a samaritana receba como dom esta água viva que faz brotar o era vindoura já presente em Jesus. É claro que o leitor joanino (que pode ser o iniciado ou catecúmeno na fé) pode associar esse dom ao batismo.

O v.12 traz, aqui, o recurso da Ironia Joanina: ‘Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?’ Estas palavras da samaritana, na verdade, pretendem afirmar que Ele é sim maior que Jacó.

Mas a samaritana não conseguiu romper com o nível material, pedindo uma água comum, para que não tenha mais sede, nem precise vir tira-la da fonte. Então Jesus experimenta uma didática mais radical para derrubar as resistências daquela mulher. Pede que ela lhe chame o marido. Imediatamente a mulher responde que não tem marido. Jesus confirma e declara que ela, de fato, possuíra cinco maridos e, que naquele momento possuia um sexto (emprestado), que não era dela. Neste ponto é que a mulher reconhece em Jesus algo de inexplicável. Ele consegue romper-lhe a resistência.

Compreendamos e não confundamos a identidade dos cinco maridos: eles são, no nível do texto, um símbolo para os povos que foram implantados pelos assírios ali na Samaria (2Rs 17), por ocasião da deportação em 722 a.C, quando da queda do Reino de Israel – persas, babilônios, elamitas. Estes povos trouxeram consigo suas religiões e seus deuses, os quais passaram a ser cultuados também pelos israelitas que ali permaneceram. Temos cinco deuses que não são próprios dali e um sexto deus que é tomado de empréstimo. A mensagem central desta simbologia é a seguinte: abandonar os esquemas antigos e de morte que ela vive para abraçar a novidade de Deus agindo em Jesus. E o primeiro passo, nesse sentido, seria o reconhecimento em Jesus, de um revelador que traz um conhecimento novo, o qual supera o conhecimento dela.

Interrogado por ela sobre o lugar autêntico para adoração de Deus, se seria o monte Garizim ou Jerusalém, no Templo, Jesus chama-a para uma reflexão no v.22.  Ele insinua que os samaritanos adoravam aquilo que não conheciam, porque abandonaram e negaram a pregação profética, fazendo até mesmo uma versão própria da Lei (da Torah). Já os judeus do sul conheciam Aquele que adoravam porque permaneceram fieis à pregação dos profetas, bem como à Lei. Para João, o critério para se tornar discípulo de Jesus e viver a novidade escatológica de Deus agindo através dele, e, com isso acolher o dom de Deus em Jesus como Seu revelador pleno, consiste na atenção à Profecia e à Lei. Elas revelam e testemunham quem Jesus é!

Nesse sentido, o v. 23 é realmente explosivo: “Vêm a Hora, e é Agora”.  É agora que se passa para o Novo Eon – a vida do âmbito de Deus – que irrompe no Eon atual. Aqui aparece pela primeira o tema joanino da Escatologia presente. A Eternidade de Deus já se torna presente através da atuação, vida e obra de Jesus. O tempo presente da adoração do Pai não é no Garizim, nem em Jerusalém, mas em ESPIRITO e em VERDADE.

O que significa isso? Primeiramente, desmistifiquemos aquela intepretação errônea de que a expressão “em Espírito e em Verdade” insinue uma adoração intimista ou individualista. A expressão joanina muito menos acenaria para uma concepção carismática da religião, com suas manifestações extraordinárias ou sobrenaturais tipicamente neopentecostais. O texto joanino não permite entender “adoração em Espírito e em Verdade” como fenômenos (psíquicos) que de carismáticos não tem nada, ou daquilo que se costumou identificar como os “repousos espirituais” ou “fenômenos das línguas”. Nada disso.

Em Espírito e em Verdade: adorar a Deus em Espírito e em Verdade significa para o discípulo assumir e viver a vida de Jesus em sua própria história; deixar que a Sua vida perpasse-lhe a vida e a história, e, por meio delas, ressoe e aconteça a vida e a história mesma de Jesus (suas opções, sua prática, seu modo de vida), que é a vida mesma de Deus. Adorar a Deus em Espírito e em Verdade é pautar a própria vida pelo Espirito de Jesus, que faz a vida e história do mestre e Senhor acontecerem novamente. Prestar culto agradável a Deus com a própria vida encarnada na história e iluminada pela fé. É uma conduta de vida extremamente encarnada na existência e na prática humana, orientada pela Verdade que é Deus e animada pelo Seu Espírito.

O v.24 dirá que “Deus é Espírito” João pensa no Espírito ativo que outra coisa não é que a força divina que impele a vida e ação de Jesus (e do discípulo) na história. Jesus veio para dar testemunho dessa Verdade (Jo 18). Nesse sentido, Jesus não testemunha um Deus inacessível, intangível, distante, mas um Deus presente naquilo que Ele testemunha a respeito de sua intimidade e comunhão de vida com o Pai. Assim, a verdadeira adoração em Espírito em Verdade é a acolhida daquilo que Jesus testemunha, e que a sua comunidade transmite.

Nessa lógica, a mulher diz no v.25: “Sei que o messias-Ungido vem. Quando ele vier, ele nos esclarecerá todas essas coisas”. Ela imagina o ungido de Deus como o novo Moisés, que explicará todas as coisas. Quando ele vier esclarecerá todas as coisas. Ele será a plenitude da Lei e da profecia. Nesse sentido, a (reveladora) declaração de Jesus assume um peso importante: “Sou eu quem está falando contigo”. Jesus se coloca como aquele que promete cumprir o desejo de conhecimento do Dom de Deus que a mulher samaritana tem. Este, não é como um professor que apenas explica coisas belas, mas um revelador-anunciador que traz em si a novidade escatológica: Jesus é o anunciador e revelador de Deus, e o dom de sua vida e Espírito constituem a água viva, que transforma a vida do discípulo numa fonte que jorra água viva.

A lição pragmática que o texto pretende dar ao leitor-discípulo é a seguinte. Aquele que faz a experiência da novidade que Jesus traz, o Dom de Deus, que na verdade é Deus mesmo, não pode ficar indiferente. Deverá deixar fluir de si a água da vida divina, para que os outros possam fazer a mesma experiência; não é atoa que o texto original prefere a palavra fonte à poço: fonte aponta para água corrente; em movimento constante! O discípulo que faz a experiência com Jesus e seu Dom (seu Espírito em nós), não pode se tornar um estanque que represa a água da vida, mas deve mover-se na direção do outro.

Assim, o capítulo 4 do evangelho com o célebre diálogo com a Samaritana, pretende nos ensinar que “Agora” se passa para esse Novo Eon. A Eternidade já presente. O tempo presente da adoração do Pai, que não se dá no Garizim, nem em Jerusalém. Se dá em ESPIRITO e em VERDADE. Ou seja, na prática concreta daquilo que a Verdade que é Deus, e seu Espirito em nós, que é sua força, nos mandar fazer

E, nesse sentido, a mulher samaritana aprendeu a lição: vai, então, anunciar essa novidade para os seus. Ela deixou ali o seu cântaro. Deixou ali aquilo que fora a razão de sua ida para o poço. Da condição de discípula, ela passa para a condição de missionária e vai anunciar aos seus. E nós, a partir de nossa experiência pessoal e comunitária com Jesus, somos poço (que retém a água, a ponto de deixa-la parada) ou somos fonte que está sempre em movimento?

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.

domingo, 8 de março de 2020

HOMILIA PARA O II DOMINGO DA QUARESMA (Ano A) - Mt 17,1-9:




A liturgia deste Segundo Domingo da Quaresma nos convida a meditar a narrativa da transfiguração de Jesus, que está presente em Mateus, Marcos e Lucas. Mas cada evangelista deu a esse fato cores próprias, de acordo com os objetivos de cada evangelho. No horizonte da catequese mateana, esse episódio é precedido por três importantes momentos interligados: a confissão de Pedro (Mt 16,13-20); o primeiro anúncio da paixão (Mt 16,21-23) e a declaração das exigências para o discipulado (Mt 16,24-28). Se trata de uma sequência narrativa que cumpre, primeiramente a função de revelar a identidade e do destino de Jesus, cuja conclusão é exatamente o episódio da transfiguração.

Antes de tomarmos o texto, se faz necessária uma pílula litúrgica: a intenção deste relato, ao interno do tempo quaresmal, é a de fazer com que o fiel se coloque na predisposição de deixar-se transfigurar por Deus, através do seguimento a Jesus. Ainda insistindo na dinâmica litúrgico-mistagógica, podemos tomar o texto de hoje e coloca-lo em sintonia com o evangelho do primeiro domingo do tempo quaresmal, no qual meditamos as tentações de Jesus, que foi, num determinado momento da narrativa, levado pelo tentador para o alto de uma montanha, para ser tentado pela riqueza e pelo poder.

Neste sentido, a liturgia deste segundo domingo da quaresma pretende mostrar outra montanha que o fiel-leitor e discípulo deve subir com Jesus, a da transfiguração, e, com isso, rejeitar as tentações da vida fácil e pautada por todas aquelas ideologias de poder, dominação e riqueza, que amparam os sistemas de morte, contrários ao projeto de Deus anunciado por Jesus. Em síntese, a montanha da transfiguração, na qual sobe Jesus com seus difíceis companheiros, Pedro, Tiago e João, se torna oposição e contraste ao monte sobre o qual Jesus foi tentado. O discípulo do reino deve rejeitar esta e optar por transfigurar-se.

O texto evangélico inicia-se situando as personagens e o lugar. Mateus introduz-nos na cena, dizendo que Jesus subiu com Pedro, Tiago e João, para uma alta montanha. Atenção às personagens. Tiago, João e Pedro sempre aparecem em primeiro plano nas narrativas, em detrimento aos demais. Essa preferência não se trata de privilégio, mas de necessidade de aprender profundamente sobre a identidade de Jesus e sobre a sua missão. Estes três eram os que mais necessitavam do ensinamento de Jesus. Não se trata de nenhum mérito da parte deles, mas o contrário: eles nada tinham de meritório. É verdade que os três personificam o grupo dos Doze. E, na cultura e tradição judaicas atuam também na função de testemunhas qualificadas, ou seja, aquelas que dão veracidade ao fato ocorrido e narrado.

Agora, o aspecto geográfico. Mateus situa-os na montanha. A montanha, para a teologia bíblica, é o lugar ideal para se fazer a experiência com Deus, bem como o lugar costumeiro de Sua manifestação (as teofanias). Não se trata de um mero lugar geográfico, mas, acima de tudo, teológico. Ora, toda a possibilidade e ocasião de encontro com Deus acaba sendo uma “subir a montanha”.

É preferível não identificar a montanha com o Tabor. Esta identificação surgiu com Origenes (escritor e teólogo) entre os séculos II e III. Este dado não se sustenta com a leitura da bíblia. É melhor manter a montanha anônima, tomando-a somente como a possibilidade e um encontro com Deus. O monte, com forte conotação teológica, é mencionado no evangelho com certa frequência (Mt 5,1; 8,1; 14,23; 15,29; 28,16). O monte é o lugar da revelação de Deus, aludindo ao Sinai (Ex 24,12-18). A expressão “seis dias depois” recorda Êxodo 24,13-16 (VITÓRIO, J, 2017, p.107).

Ali, Jesus fica transformado. A palavra grega para esta ação é “metamorphote (do verbo grego Metamorphein)”. O qual está na voz passiva (lit. “Foi transfigurado diante deles”). O que indica que a ação é realizada por Deus. Ou seja, o Pai revela quem Jesus é, a partir de dentro; a partir da humanidade do Filho. É como se revelasse a incrível beleza de sua humanidade, jamais reconhecida pelos adversários, decididos a tirar-lhe a vida (Mt 12,14). Portanto, os três discípulos estão em condições de fazer uma leitura distinta da morte injusta do Mestre (Mt 16,21) (VITÓRIO, J, 2017, p.108).

Nesta perspectiva, o texto cumpre sua função para o leitor-discípulo, a de mostrar como será o caminho de Jesus; como ele desenvolverá sua missão, e, qual será o desfecho. O seu messianismo não será vivido na perspectiva do poder, do domínio, da força, da submissão, do prestígio como ele alerta através no primeiro anúncio da paixão (Mt 16,21). Tampouco a morte violenta e ignominiosa terá a última palavra na sua vida. Pois a cena narrada trata de antecipar tanto para o discípulo que o acompanha até o monte, como para o leitor do evangelho, a Sua condição ressuscitada: seu destino e, e a de todos e todas que se decidem a viver o projeto do Reino.

Por isso, o detalhe temporal que Mateus sublinha, “seis dias depois”, torna-se importante: Jesus mostra, mediante a transfiguração, a plena realização daquilo que Deus planejou para o ser humano. Esse dado merece consideração, porque o evangelista está pensando na semana da criação (Gn 1). No sexto dia Deus criou o ser humano.

No v.3, o evangelista informa a presença de outras duas personagens, Moisés e Elias. Ambos simbolizam a Palavra de Deus. O primeiro, faz alusão à Lei; o segundo, à profecia. Na intenção de Mateus, Lei e Profecia representam a totalidade da Palavra de Deus. Ao lado de Jesus, eles indicam-no como a plenitude da Lei e dos Profetas, ou seja, Jesus é a realização plena das Escrituras, e as leva à seu pleno cumprimento através de sua vida.

Pedro interrompe a cena dizendo que a aquela experiência era boa (v.4). Muito se vê na atitude dele algo de negativo. Mas, na verdade, Pedro fica empolgado com a experiência maravilhosa e propõe a Jesus fazer aí três tendas, de modo a poderem eternizar a convivência com ele, Moisés e Elias. O número três é importante nessa cena. Na simbologia numérica judaica, corresponde ao número do ser humano. Sendo assim, a mensagem da cena da transfiguração diz respeito à humanidade de Jesus revelada à humanidade dos discípulos, que se deixam encantar por ele e querem contemplá-lo sem fim, para serem transfigurados por ele (VITÓRIO, J, 2017, p.108).

Todavia, se faz necessário também colher três elementos que devem ser recusados pelo discípulo-leitor do evangelho. O primeiro é o comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo, que configura uma nova tentação sugerida a Jesus. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, ao interrompê-lo.

O segundo elemento reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição e não reconhecimento de Jesus como o centro da vida: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias”, ocupando Moisés o centro da frase dita pelo discípulo, uma vez que era costume colocar a pessoa de maior destaque e importância no centro da frase, ou seja, nomeando-o em segundo lugar; infelizmente, Jesus ainda não ocupava o centro na vida de Pedro, e sim Moisés. O discípulo ainda insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas colocando Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu Evangelho como centro.

O terceiro elemento reprovável na fala de Pedro é o não reconhecimento de Jesus como a verdadeira tenda. Ora, no Antigo Testamento, sobretudo no contexto do êxodo, a tenda é a o lugar do encontro com Deus, o que agora é a pessoa de Jesus. A ideia de fazer tendas revela incompreensão e não aceitação de Jesus como o revelador de Deus por excelência (CORNELIO, F, Homilia dominical, in. Porcausadeumcertoreino.blogspot).

Outro símbolo importante é a “nuvem brilhante” que envolve a todos (Ex 24,15; Ml 24,30; 26,64). Ela aponta para a presença de Deus, designada no judaísmo como Shekiná (a tenda da Reunião). Da nuvem, ouviu-se a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado. Só nele eu encontro alegria. Fiquem atentos ao que ele diz” (Mt 3,17; ís 42,1). O Pai o credencia como o único que tem autoridade para falar e ser ouvido pela comunidade. Pedro ainda estava propenso a ouvir Moisés e Elias e o Pai lhe corrige. Moisés e Elias já disseram o que tinham de dizer; à comunidade cristã, só interessa o Evangelho.

A nuvem os envolve. Interessante este detalhe, que significa que os discípulos foram acolhidos por Deus, que fala de Jesus como seu Filho querido. O bem-querer do Pai pelo Filho, portanto, alarga-se a ponto de abarcar, acolher e abraçar os discípulos e toda a humanidade (VITÓRIO, J, 2017, p.108).

Jesus, porém, aproxima-se deles e os toca dizendo: “Levantem-se. Não é preciso ter medo”. Ter medo corresponde a não ter fé (Mt 14,30-31). Fé e medo são sempre atitudes opostas. A primeira, sempre deve estar presente na vida do discípulo; a segunda, deverá ser sempre evitada. Quem tem fé coloca-se diante de Deus com confiança filial, a exemplo de Jesus.  

O toque de Jesus, que é a sua própria palavra, levanta e transforma a comunidade dos discípulos: “Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus” (v. 8). Moisés e Elias desapareceram para que as atenções dos discípulos se voltem somente para Jesus, o centro da vida e da comunidade que já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus pela nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (cf. Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também ao Pai! A comunidade precisa sempre olhar em volta de si mesma e perceber que seu único referencial é Jesus Cristo com seu evangelho. Não vendo mais ninguém como referencial além de Jesus, a comunidade renovada é convidada a descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz (CORNELIO, F, Homilia dominical, in. Porcausadeumcertoreino.blogspot).

Só pode assimilar e viver uma vida transfigurada, aquele discípulo que se propõe a subir a montanha com Jesus e ouvir sua voz, ou seja, referenciar sua vida à vida mesma de Jesus, a qual supera a Lei (Moisés) e a Profecia (Elias), levando-as à sua plena realização. Assim, o discípulo e a discípula do Reino viverão uma vida verdadeiramente transfigurada, que outra coisa não é senão viver a vida do Filho de Deus. Viver a vida segundo o Filho de Deus consiste recusar a montanha da tentação do poder, da vida fácil e das mundanidades.

Peçamos a Graça de transfigurar como o Senhor, e a força de recusar toda a desfiguração que as forças e os projetos do Anti-reino oferecem.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

HOMILIA PARA A QUARTA-FEIRA DE CINZAS (ANO A) – Mt 6,1-6.16-18:





O evangelho proposto para o início deste tempo quaresmal é sempre tomado do capítulo sexto do Evangelho segundo Mateus, inserido no Sermão da Montanha, o discurso inaugural de Jesus no primeiro evangelho (Mt 5,1 – 7).


Os destinatários desse discurso são os discípulos, desde os de outrora até nós, no presente. No trecho em questão, Jesus faz algumas considerações a respeito das três práticas fundamentais da piedade judaica: a esmola (cf. vv. 2-4), a oração (cf. vv. 5-6) e o jejum (cf. vv. 16-18). É interessante perceber que Jesus não pretende cancelar o valor de tais práticas; ao contrário, seu objetivo é torná-las eficazes, ou seja, agradáveis ao Pai (CORNELIO, F, Roteiros Homiléticos in. h ttps://www.vidapastoral.com.br/roteiros/quarta-feira-de-cinzas-26-de-fevereiro).

O capítulo seis começa com uma exortação de Jesus aos discípulos, “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serem vistos por eles (v.1)”. O mestre chama a atenção dos discípulos para um tema muito importante dentro da fé israelita: a justiça de Deus (Justiça do Reino). Jesus já havia chamado a atenção dos discípulos e da multidão sobre a “justiça dos fariseus”, falando da necessidade da Justiça do Reino, que o discípulo deve viver, superar aquela justiça dos mestres da lei e dos fariseus (Mt 5,20).

A justiça na bíblia é a vontade soberana de Deus. Dito de outra maneira: é o senhorio (vontade) de Deus, acontecendo na história e na vida do discípulo do Reino, que através de sua vida tende a ser a expressão histórica do agir divino.

Mateus, recuperando o ensinamento de Jesus, quer ensinar que a prática do discípulo deve ser discreta, como o sal, que não é visto, mas que se sabe presente. Observa-se uma espécie de princípio: a religiosidade do discípulo do Reino não é exibicionista, e nem a religião deve se sujeitar a isso. Uma certa ala do farisaísmo, no tempo de Jesus, era muito exibicionista. Sua piedade era afetada, de modo a estarem sempre em evidência e serem considerados perfeitos e santos. Jesus adverte os discípulos contra esta maneira de se comportar, exortando-os a não fazerem as coisas para serem vistos e louvados pelos demais (VITÓRIO, 1998, p. 19). Então ensinará o modo certo de rezar.

No v.2-4 tem-se a orientação para a esmola: “Quando deres esmola não façais como os hipócritas... em público para serem vistos e elogiados”. As obras de caridade, a Lei e o culto eram considerados os três pilares do mundo judaico. Daí a importância da esmola (Tb 4,7-11.16-17; 12,9). O discípulo, porém, é exortado a não fazer como os hipócritas que dão esmola pelas ruas e nas sinagogas, onde se reúne muita gente, de modo a chamar a atenção sobre si e granjear elogios. Esta já seria a recompensa deles (VITÓRIO, 1998, p. 19).

“De modo que a mão esquerda não saiba o que faz a direita”. Na antropologia bíblica, a mão responsável por fazer o bem é a direita. A mão esquerda, faz o mal. A esmola, nesse sentido, torna-se discreta. O que a caracteriza como sendo um gesto autêntico de piedade, porque pautou-se unicamente pela gratuidade. A esmola dada ocultamente é testemunhada apenas pelo Pai, que a recompensará de maneira adequada. A esmola coloca, então, o discípulo em relação com o próximo.

Os v.5-6 tratam da oração: a oração deve ser do mesmo modo. Na intimidade e no silêncio. O discípulo do Reino não deve rezar de maneira teatral, como os hipócritas. Esses, nas sinagogas e nas esquinas das praças, rezam para serem vistos por quem passa. A oração do discípulo deve ser feita com simplicidade e discrição, no oculto do próprio quarto (2 Rs 4,33), de modo a ser visto apenas pelo Pai. O próprio Jesus rezava solitário (Mt 14,23; Mc 1,35; 6,46). Com isto, não está proibindo a oração em comum (Mt 18,20), prática muito antiga das comunidades cristãs. Ele mesmo participava das orações na sinagoga (Mc 1,21; Lc 4,16). Jesus, sim, questiona uma atitude equivocada por parte de quem reza (VITÓRIO, 1998, p. 20). A oração coloca o discípulo na relação com Deus.

Já os v.16-18, tratam do tema do Jejum. O Jejum é uma prática de controle contra as desordens interiores. É a possibilidade da integração relacional consigo mesmo. A maneira hipócrita de jejuar consiste ficar com a cara pálida de modo a ser percebido e, por isso, ser louvado pelos demais (VITÓRIO, 1998, p. 21). Se assim for, então este jejum não servirá, porque visa mostrar o exterior (a cara pálida de coitadinho), e não corrigir o interior.

É muito significativo que essas três práticas sejam tratadas juntas. Para Jesus, esmola, oração e jejum estão no mesmo nível e só têm sentido se estiverem unidas, pois são inseparáveis. A oração deve prolongar-se na vida concreta, mediante a caridade em favor do próximo, e o jejum deve transformar-se em oferta aos mais necessitados. Quando as necessidades do próximo são ignoradas, a oração e o jejum se tornam totalmente ineficazes e insignificantes (CORNELIO, F, Roteiros Homiléticos in. h ttps://www.vidapastoral.com.br/roteiros/quarta-feira-de-cinzas-26-de-fevereiro).

Com estes ensinamentos de Jesus, Mateus visa mostrar que o modo de ser homem e mulher, discípulo e discípula do Reino, presente no Sermão da montanha consiste na compreensão do ser humano como ser de relação: relação com o Pai; relação com sigo mesmo; com o irmão e com as criaturas. Uma relação Paternal, filial e fraterna.

Ora, a salvação na Bíblia é a salvação do humano e de suas relações. O Pecado rompe com o projeto da relação e da comunhão integrada com Pai; com sigo mesmo e com sua alteridade, bem como com as criaturas. Por isso, Jesus, ao ensinar a superação da justiça dos fariseus, centrada neles próprios, trabalhará o ser humano como ser de comunhão para restaurar a Comunhão primigênia, através destes ensinamentos de Mt 6,1-6.16-18. Ali está a salvação do discípulo do Reino, reencontrar-se neste caminho de comunhão e de relação.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu - SP.

QUARESMA, TEMPO (favorável) de VIVIFICAÇÃO E NÃO MORTIFICAÇÃO:








Nós sabemos que uma festa não pode ser bem-sucedida, se não for preparada com esmero. Aproximadamente 200 anos d.C., os cristãos, desejosos de saborear em plenitude os frutos espirituais da Páscoa, introduziram o costume de celebrá-la, precedendo-a por três dias dedicados à oração, à meditação e ao jejum, como sinal de luto pela morte de Cristo.

Esta grande solenidade, porém, não somente devia ser preparada, como também precisava encontrar uma forma de prolongar a alegria e a riqueza espiritual. Foram instituídas então as “sete semanas” pós páscoa, isto é, os cinquenta dias de Pentecostes que deviam ser celebrados com grande alegria, porque, como dizia um famoso bispo daqueles tempos, chamado Irineu, “constituem como que um único dia de festa, com a mesma importância do domingo”. Durante ‘os dias de Pentecostes’ rezava-se de pé, era proibido jejuar, e se administrava o batismo. Na prática, era como se ‘o dia da Páscoa’ tivesse a duração de cinquenta dias.

Passaram-se mais 150 anos, e por volta do ano 350 d.C. os cristãos, percebendo que os três dias de preparação eram demasiadamente poucos, os aumentaram para quarenta... Surgia assim a ‘Quadragésima’, que em português é a ‘Quaresma’, explica o biblista Fernando Armelini.

Outro biblista, Alberto Maggi, sacerdote italiano, convida-nos a entendermos bem o sentido profundo da Quaresma não como mortificação, mas como tempo favorável para preparar a nossa vivificação. Com o rito da imposição das Cinzas inicia-se o tempo da Quaresma. Para entendermos bem o significado deste tempo litúrgico e especial para a nossa vida de fé, propomos uma nova leitura deste tempo litúrgico após o Concílio.

Antes do Concílio, o rito de imposição das cinzas vinha acompanhado da formula litúrgica retirada do Livro do Gênesis: “Lembra-te que és pó, e ao pó retornarás” (Gn 3,19). Se, por um lado o ambiente proposto pelo tempo quaresmal revestia-se em tons de tristeza, e lúgubre, por outro, a liturgia que fazia uso da formula do terceiro capítulo do livro do Gênesis, relembrava aquela maldição dita por Deus ao homem por conta de seu pecado. A quaresma era vista, então, como um período de mortificação, penitência e de sacrifício.

Hoje, a liturgia pós-conciliar, na imposição das cinzas, apresenta uma expressão evangélica – e não provinda do AT, que remetia àquela maldição de Gênesis – que convida a uma plenitude de vida: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Isto é, “mude a orientação da tua existência; coloque como valor absoluto o bem do irmão; e aceite a Boa Notícia da vida nova e plena”.

Enquanto anteriormente a Quaresma era permeada de tons lúgubre, agora o tempo quaresmal se torna um convite a um itinerário e a uma plenitude de vida e de felicidade, porque o evangelho, se acolhido no interior do coração humano faz florir na pessoa todo o significado de uma vida feliz e plena.

Antes, com a formula da maldição de Gn 3,19, o acento recaia sobre as práticas da penitência, da mortificação e do sacrifício. Agora, enfatizam-se as palavras de vida que o próprio Jesus nos dá. E, se perscrutarmos ainda mais à vida de Jesus, se dela fizermos um exame, não encontraremos nenhuma palavra que convide a mortificação; Ele nunca ensinou ou propôs qualquer tipo de sacrifício ou de penitência.

Ao contrário, Jesus ensinará seus discípulos e discípulas a pedagogia da misericórdia: “Ide e aprendei o que significa, “Misericórdia quero. Não sacrifício” (Mt 9,13). Os sacrifícios davam, naquele contexto, a ideia do luto; a ideia do homem pecaminoso, sempre culpado e necessitado de purificação. Jesus, ao contrário, propõe Misericórdia, acolhimento de seu amor e a sua comunicação aos outros. No vocabulário e na vida de Jesus não vemos nenhuma defesa destas práticas.

Tomemos contato com um certo Paulo de Tarso, que, conforme sua autobiografia, foi um fariseu ferrenho. Depois de reorientado em sua vocação para Cristo, escreveu à comunidade dos Colossenses, exortando o seguinte: “Ninguém vos condene por questões de bebida ou comida, de festas ou lua nova de sábados. Ninguém, a pretexto de humildade ou culto aos anjos vos impeça de alcançar a vitória. Esses preceitos parecem ter algo de sabedoria porque aparentam religiosidade, humildade e severidade para com o corpo, mas não possuem nenhum valor contra a autossuficiência da carne” (Col 2,16-20). Ou seja, todos estes ensinamentos pseudos espirituais não só impediam o homem de se aproximar do Senhor, como também afastavam Dele. Segundo Paulo eles não possuem nenhum valor, senão a satisfação do próprio EU.

Os ensinamentos sobre penitência, mortificação e sacrifícios são centrados na própria pessoa, fazendo com que ela se centre sobre si mesmo. E não há nada mais perigoso que uma pessoa centrada e curvada sobre si mesma que, buscando uma perfeição ideal – tão ilusória e distante do Evangelho de Jesus – acaba por tornar-se egoísta e gananciosa.

Jesus não convida a esta perfeição espiritual, mas à entrega e o dom de si de modo imediato e concreto, quanto mais imediato e concreto for a capacidade de amar e doar-se aos outros!

Assim, a Quarta-feira de cinzas não nos remete à sexta-feira da paixão, mas à manhã do Domingo de Páscoa, o Dia da Ressurreição. Nesse sentido, o tempo quaresmal não pode ser outra coisa que um itinerário de vivificação. Eis o significado concreto da cinzas que se espalham sobre a cabeça dos fieis. Uma oportunidade de vivificação.

No inverno rigoroso do hemisfério norte as cinzas são armazenadas para, com o término da estação fria, ser espalhada sobre o solo, nos campos, porque elas contém nutrientes que enriquecem e nutrem a terra para que ela germine, floresça e frutifique. Assim, com a imposição das cinzas sobre os fieis, se faz o convite a acolher o Evangelho como aquela força de vida e realidade transformadora que permite ao homem fazer florir todas as suas potencialidades e as suas possibilidades e capacidade de amar.

O tempo quaresmal é o caminho que permite ao homem descobrir todas as suas novas possibilidades e capacidade jamais vistas e expressadas anteriormente de perdoar e amar; de partilha generosa; da liberdade que emerge na pessoa de colocar-se ao serviço dos irmãos. O tempo favorável, “o dia da salvação” dito por Paulo à comunidade de Corinto em 2Cor 5,6, portanto, é todo o tempo da ressurreição de Jesus em diante e deve ser vivido todos os dias, como um “hoje” contínuo. Especificamente, a Igreja propõe a Quaresma como expressão desse tempo, como oportunidade privilegiada para cada pessoa viver a reconciliação, acolhendo o perdão de Deus e construindo relações fraternas e solidárias com o próximo, segundo o amor com o qual Cristo mesmo nos amou (CORNÉLIO, F, Roteiros Homiléticos in. https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/quarta-feira-de-cinzas).

Quando isso acontecer, então a páscoa será diferente, porque tendo alcançado aquela qualidade de amar teremos feito a experiência daquele que é chamado de O Vivente - O Ressuscitado.

Boa Quaresma.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

HOMILIA PARA O V DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 5,13-16:





A liturgia deste quinto domingo do tempo comum apresenta para a meditação o texto retirado do sermão da montanha, o discurso inaugural de Jesus no Evangelho segundo Mateus. O Primeiro Evangelho (na ordem canônica, isto é, como vem apresentado na Bíblia, mas não na ordem cronológica, pois este é o Evangelho segundo Marcos),  foi redigido por Mateus em forma de cinco grandes discursos – catequeses, que visam formar o discípulo de Jesus no projeto do Reino. São eles, o discurso inaugural (Mt 5,1 – 7), o discurso missionário (Mt 10 – 11,1), o discurso em parábolas (Mt 13), o discurso eclesial (Mt 18) e, por fim, o discurso escatológico (Mt 24 – 25).

O texto bíblico de hoje situa-se, imediatamente, após as Bem-aventuranças, as quais abrem o discurso inaugural de Jesus. Elas são, da parte de Jesus, a reinterpretação ou releitura da Lei de Deus, segundo Jesus que, na perspectiva de Mateus, que escreve para sua comunidade judaica, é o novo Moisés, capaz de interpretar a Lei de Deus e de dá-la ao novo povo de Israel personificado nos discípulos que aderem a Jesus.

Confirma este ensinamento de Mateus, ao precisar geograficamente o lugar em que esse discurso inaugural se dá. Jesus está na montanha com seus discípulos e com a multidão. Esta localização geográfica foi sempre o lugar privilegiado para a experiência de Deus, no Antigo Testamento. Foi no Sinai que Moisés recebeu sua missão; e lá recebeu as tábuas da Lei. Mateus, ao localizar a cena na montanha pretende confirmar a identidade de Jesus de Nazaré como o novo Moisés.

Ao concluir as bem-aventuranças, Jesus apresenta aos seus ouvintes, a multidão e os discípulos, que subiram ao monte com Ele, estas exortações que o texto de hoje nos introduz para a meditação. Pode-se afirmar, que o texto evangélico deste domingo pretende ilustrar o meio através do qual o discípulo do Reino pode e deve viver as bem-aventuranças, e, portanto, ser discípulo de Jesus. Este texto de hoje aponta para a dimensão ética, da vivência do evangelho de Jesus e do projeto do Reino.

“Vós sois o sal da terra (v.13)”. Jesus se serve do utensilio do sal, usado na culinária para conservar os alimentos na época e para temperar, dar sabor. Na dinâmica da culinária, as pessoas sabem identificar se o alimento está bem temperado, ou não. Se sim, elas sabem que o sal está ali, ainda que seja imperceptível. E, na verdade, essa deve ser sua real função, ou seja, perder-se no alimento. Ninguém o vê, mas todos sabem e atestam, através do sabor, que ele está ali.

Mas na perspectiva bíblica, devemos tomar estas palavras do patrimônio sapiencial de Israel. O sal era imagem da sabedoria, o sábio, portanto, deve ser semelhante ao sal; já o sal insípido figurava uma pessoa que se tornara estulta e ignorante. “Vós sois a luz do mundo (v.14)”. A luz, no ambiente bíblico faz sempre referência às boas obras. Ora, a quem Mateus direciona este ensinamento de Jesus? À sua comunidade, evidentemente, isto é, a Igreja.

Assim, a presença do discípulo deverá ser discreta como sal, imperceptível fisicamente, mas marcante nos efeitos produzidos nos contextos em que atua. Como a luz, a atuação do discípulo deve difundir-se de modo mais amplo possível. Quanto mais puder iluminar, melhor. Nesse sentido, no Evangelho de Mateus, as metáforas do sal e da luz ilustram a maneira como o discípulo do reino deve agir: deverá inserir-se na realidade. Nada de se isolar nem formar guetos. Penetrar na realidade com o propósito de transforma-la com os valores do Reino (VITÓRIO, 2019, p. 74)

Mas existe o perigo e a tentação do discípulo e da comunidade de frustrarem a missão o projeto do Reino. É desse perigo que o Jesus de Mateus adverte ao falar do sal insosso e da lâmpada escondida, que figuram a imagem do discípulo inútil. O discípulo imprestável e relutante em fazer algo pelo Reino assemelha-se ao sal insosso que já perdeu o sabor e não serve, senão para ser jogado fora e pisoteado, e à lâmpada escondida, que não ilumina nada, a não ser a si mesma.

Com efeito, Mateus alerta para que a Igreja não esmoreça na sua altíssima tarefa, destruindo com as próprias mãos o seu significado no mundo. Pode acontecer que não irradie raios de luz para iluminar os homens, que deixe de ser campo de forças e energias fecundadoras da sociedade. O risco, para o qual sempre se inclina, é o de não dizer nada mais de fecundo e iluminador para a humanidade, pelo fato de não ser mais operativa na linha da existência própria dos filhos de Deus cujo testemunho são gestos de amor desinteressado. O evangelista tem diante dos olhos uma comunidade cristã cansada e preguiçosa. Ele deve sacudi-la. Para isso, recorre à perspectiva do juízo final que, no primeiro evangelho, tem função exortativa.

A imagem do sal, que se torna insípido, contém em si uma clara ameaça. A abdicação prática dos crentes em relação à sua tarefa não só priva o mundo do benefício do testemunho cristão, mas tem consequências gravíssimas também para eles: serão condenados no último dia. Indica-o a sorte do sal tomado imprestável, descrita por Mateus com termos claramente alusivos: joga-o fora e ê pisado pelas pessoas (BARBAGLIO, 1998, p. 117).

No v.16, tem-se uma exortação de Jesus que o evangelista resgata, que é de máxima importância. Mais do que chamar a atenção para si e incorrer na hipocrisia criticada e denunciada por Jesus (Mt 23,1-7), o discípulo deve ter consciência de que suas boas ações e obras tem que levar as pessoas à Deus, e a glorificar o Pai do Céu. Jamais se autorreferenciar! A glorificação e santificação do nome de Deus, através do testemunho do discípulo do Reino fiel ao querer divino, torna-se fruto da qualidade da missão vivida e assumida por ele (VITÓRIO, 2019, p. 74).

Cabe a cada um de nós, em nossa vocação batismal averiguar em que condição estamos diante do texto evangélico de hoje.

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.

sábado, 18 de janeiro de 2020

HOMILIA PARA O II DOMINGO DO TEMPO COMUM (Ano A) – Jo 1,29-34:




O segundo domingo do tempo comum, nos introduz no Evangelho segundo João. No domingo anterior, a Igreja celebrava o Batismo do Senhor, e as personagens do Batista e de Jesus retornam, mas sob a perspectiva do Quarto Evangelho. O texto que a liturgia dominical nos faz entrar em contato é Jo 1,29-34, o segundo dia da semana inaugural de Jesus, no evangelho joanino.

O Quarto Evangelho estrutura-se em duas partes: De 1,19 – 12,50, o evangelista situa os Sinais de Jesus – Livro dos Sinais. Por um lado, estes sinais são os anúncios de uma realidade que está por vir e conduzem o leitor na descoberta da identidade e da missão de Jesus como enviado do Pai, a fim de revelar a Sua Glória. Por outro, eles acenam para a um dado importante: por mais que os sinais induzam a ver em Jesus a Glória de Deus, ainda não chegou a Hora de revelá-la plenamente.

De Jo 13,1 – 20,30, inicia-se o livro da Glória. João, nesta altura, direciona o ensinamento de Jesus para os discípulos, aqueles que já fizeram a opção pela Luz. Neste ponto do evangelho é situado o Discurso de despedida de Jesus, o qual culmina na Hora da sua Obra levada à consumação: a cruz. Interessante notar, que, somente aqueles que fizeram o caminho “catecumenal”, através dos sinais e das palavras de Jesus, contidos no livro dos sinais é que possuem a “lupa”, por assim dizer, para compreender o ensinamento final de Jesus, em que consiste a sua Glória, e qual o momento de sua revelação plena e final.

O texto de hoje encontra-se, portanto, no Livro dos Sinais e corresponde à semana inaugural do ministério de Jesus. Esta semana inicia-se com as narrativas concernentes a João Batista e seu testemunho, culminando no sétimo dia, com o relato do primeiro sinal realizado por Jesus em Caná, na Galiléia (Jo 1,19 – 2,11). Nesta semana, o evangelista delimita os dias com o termo, “na manhã (no dia) seguinte”. Logo no segundo dia, o autor apresenta Jesus, através do testemunho de João. O tema do testemunho é muito importante no Quarto Evangelho. Testemunho (gr. Martirya) significa atestar, dar fé sobre algo ou alguém. Mas só pode dar testemunho, ou ser uma testemunha qualificada, na perspectiva do evangelista, quem fez uma experiência existencial com algo ou alguém.

Qual o conteúdo do testemunho de João, o Batista? O v.29 responde: Jesus sendo apresentado pelo Batista como o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Esta afirmação revela duas dimensões da identidade de Jesus: cordeiro de Deus e Filho de Deus, porque batiza com o Espírito de Deus (vv. 32-34).

O evangelista se apropria do ambiente levítico-cultual dos sacrifícios de expiação dos pecados, realizados no templo de Jerusalém. Os judeus costumavam oferecer, diariamente, no Templo, cordeiros para expiar os pecados. Deste modo, alguém que reconcilia as pessoas com Deus pode ser comparado ao cordeiro do sacrifício; é o que sugere Is 53,4-12 a respeito do Servo Sofredor. Mas a imagem do cordeiro pode lembrar também o cordeiro pascal (cf. “Cristo, nossa páscoa”, i. é, cordeiro pascal, em 1Cor 5,7; Jo 19,14.33.37), para as comunidades cristãs nascentes. Mas a lembrança do Servo Sofredor nos obriga a valorizar também o matiz “leva/carrega o pecado” (cf. Is 53,4a). O Salvador não tira simplesmente o pecado, mas torna-se solidário com aqueles sobre os quais pesa o pecado. Ele mesmo sofre debaixo desse peso, não como culpado ou sendo castigado em nosso lugar, mas como pessoa que, por sua fidelidade, através do conflito e da morte, abre um novo modo de existir.

O pecado para João é a atitude de rejeição a Jesus, enquanto resposta definitiva do amor do Pai. Aqueles que não o reconhecem (cf. 1,10) estão no pecado e nas trevas. Desse pecado único e fundamental é que nascem os demais pecados, que são frutos da rejeição de Jesus e sua prática libertadora enquanto cordeiro e servo.

Nesse sentido, o “pecado” que o Cordeiro-Jesus afasta não deve ser entendido no sentido individualista, moralista (os pecados da listinha). É o pecado “do mundo”, a realidade pecaminosa que parece dominar a convivência humana, o pecado que desde a origem da humanidade é obra do “príncipe deste mundo” — o qual, porém, é vencido por Jesus (cf. 14,30; 16,11.33). Esta vitória se prolonga na sua comunidade a partir da Páscoa, quando é dado o Espírito para tirar o pecado do mundo (20,19-23) (KONINGS, 2005, p.92).

O Batista declara, testemunhando, que viu o Espírito descer sobre Jesus em forma de pomba. Jesus é ungido pelo Espírito Santo para a missão. A descida do Espírito sobre ele representa sua unção como Messias. O simbolismo da pomba que desce e permanece em Jesus tem este significado: Jesus é a morada do Espírito, seu lugar natural e querido.

Mas o testemunho de João Batista é mais profundo ainda. O Espírito de Deus “permanece” sobre Jesus, diz o Batista: não se trata de um dom passageiro (como o Espírito dado aos profetas em Nm 11,25): Jesus é quem derrama o Espírito Santo sobre nós, quando leva a termo a sua obra (cf. 7,39). Segundo o v. 34, João Batista é testemunha de tudo isso e, por isso, proclama: “Este é o Filho de Deus” (cf. 20,31 // Mc 1,11). E seu testemunho continua válido, note-se que os verbos “testemunhar” e “proclamar” estão no grego no tempo perfeito, o qual apresenta uma ação consumada, com efeito no presente (KONINGS, 2005, p.93).

A intenção do evangelista, ao colocar este testemunho nos lábios de João, o Batista é a de ensinar à sua comunidade às gerações futuras dos crentes em Cristo que não são mais os ritos do sistema levítico-cultual da antiga lei capazes de levar o homem à uma experiencia autêntica com Deus, mas, agora, a vida de Jesus de Nazaré, que através de sua existência e práxis histórica, libertadora e salvífica religa a humanidade com o projeto de Deus. Em Jesus de Nazaré, todo o sistema antigo é superado, através da novidade de Deus agindo por meio da vida e obra do Filho.

Só poderá fazer a experiencia do testemunho de João sobre Jesus, aquele que, primeiro fez a experiência existencial e pessoal com Jesus. Só pode dar testemunho aquele que primeiro viu. Que Jesus temos testemunhado? Corresponde, Ele, com o mesmo testemunho de João? Ou temos testemunhado um Jesus destoante do Evangelho e da fé das primeiras comunidades?

Pe. João Paulo Sillio.
Arquidiocese de Botucatu – SP.