sábado, 28 de maio de 2022

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – Lc 24,46-53:


O tempo pascal encaminha-se para sua conclusão. A liturgia da Igreja celebra neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor, na qual a comunidade professa a plenitude da ressurreição do Senhor. Jesus Ressuscitado, ao retornar para o âmbito de Deus leva consigo a natureza humana. Ele não volta sozinho para o Pai, mas leva a nossa humanidade e a (re)orienta para o seu fim último e definitivo: a vida de Deus.

A liturgia nos propõe o texto de Lc 24,46-53. Estamos no último capítulo do evangelho segundo Lucas, que iniciou com o relato do anúncio da ressurreição às mulheres, seguido da manifestação do Senhor ressuscitado aos discípulos na estrada de Emaús (Lc 24,12); continuando, depois, a manifestação à Simão e à toda a comunidade (Lc 24,34ss), até chegar à conclusão narrativa que temos diante de nossos olhos para a meditação.

No v.46, o evangelista nos informa que Jesus explicou o sentido das escrituras aos discípulos, após comer com eles, recordando que o Messias/Cristo deveria sofrer e ressuscitar ao terceiro dia. Esta recordação/memória que o Ressuscitado realiza junto com os seus corrobora a fala do mensageiro celestial às mulheres logo na introdução do capítulo. Elas deveriam, juntamente com o grupo dos discípulos, recordar o que Jesus havia dito sobre o seu destino. Para se fazer a experiência com o ressuscitado, a comunidade deve fazer a memória atualizadora da vida e da missão de Jesus. Atualizar sua presença, assimilando na vida cotidiana a exemplaridade da vida de Jesus. Ainda que a existência e vida histórica do mestre e Senhor passe pela morte. O discípulo não pode ter medo de se deparar com esse fato. É necessário e, igualmente importante, que eles acolham o acontecido com Jesus – sua paixão e morte – como a realização e cumprimento das escrituras, para que possam proclama-lo como Messias.

Nos vv. 47-48, o Jesus de Lucas toca no tema da missão. A missão da comunidade consiste em oferecer e testemunhar a reconciliação realizada por Jesus a todos os povos. O evangelista trabalha aqui com um tema que lhe é muito caro, a universalidade da salvação: a salvação é para todos, indistintamente. Ninguém fica excluído dela. A missão consiste em testemunhar a misericórdia de Deus através do dom da vida de Jesus. Assim, a comunidade assimila, vive e testemunha a missão de Jesus quando ela mesma assume a exemplaridade da vida dele. O que Jesus fez deverão fazer seus discípulos.

Para que os discípulos e a comunidade vivam profundamente a existência de Jesus, devem ser revestidos da “força do Alto”: o Espírito Santo. O evangelista usa do termo grego dynamis / δύναμις. A força do Alto é o dinamismo de vida do próprio Deus e de Jesus que anima e move a vida dos discípulos e da comunidade para viver a missão, vivendo a vida mesma de Cristo. Ora, a vida de Jesus foi toda pautada e conduzida pelo Espírito de Deus. No Evangelho de Lucas, tudo o que Ele realiza e vive, o faz segundo o Espírito. No relato do Batismo, é o Espírito que o investe para missão. No deserto, é o Ele quem o conduz. Na Sinagoga de Nazaré, declara-se ungido pelo Espírito. É por este momento que os discípulos deverão esperar, pela vinda da força do Alto.

O evangelista descreve a cena da ascensão, narrando a atitude de Jesus de “levar para fora” da cidade os discípulos, próximo à Betânia. Dois detalhes devem chamar nossa atenção. Lucas emprega um termo que alude ao tema do Êxodo. No relato da transfiguração (Lc 9), as duas personagens Moisés e Elias conversam com Jesus sobre o êxodo que ele realizaria através do dom de Sua vida, de sua Páscoa. Agora, o evangelista mostra para a sua comunidade a realização deste Êxodo. Outro detalhe é a localização, perto de Betânia. Seguir na direção de Betânia significa tomar o caminho contrário à Jerusalém: o caminho da entrada triunfante de Jesus na cidade santa, na ocasião da Páscoa. Se, de Betânia Jesus marcha para sua paixão e morte de cruz, seu êxodo de morte e vida, agora, na direção contrária de Jerusalém ele marcha definitivamente para junto do Pai.

Lucas, pele primeira vez mostra abençoando os seus, enquanto sobe para junto do Pai, e este gesto coincide com sua exaltação à direita de Deus, sua ascensão. A benção bíblica é, primeiramente, uma “bendizência”, ou seja, o ato de bendizer à Deus recordando seus feitos, aquilo que realizou em favor dos seus, para tornarem-se lugar da presença de Deus. Ela assume uma dinâmica performativa, ou seja, realiza aquilo que diz, transmitindo uma força eficaz e irrevogável. A benção bíblica (que a Liturgia eclesial assumiu em seu dinamismo celebrativo-litúrgico) comunica a essência daquele que abençoa nos que são abençoados. Assim, os discípulos, que são abençoados, difundirão a bênção e, através dela, farão novos discípulos.

Depois de abençoar os discípulos, Jesus foi elevado aos Céus. É necessário compreender a cosmologia da época, isto é, a concepção de universo, espaço e tempo do povo da bíblia. O céu é o lugar da habitação de Deus. É âmbito divino e expressa a condição divina. Aplicando essa imagem a Jesus, o evangelista pretende ensinar que Jesus cumpriu plenamente a missão de revelar a face misericordiosa do Pai. Por ter sido fiel a essa missão, isso foi levado em conta pelo Pai, que o enalteceu e o justificou, ao entronizá-lo a sua direita. Ação de elevar o Filho é realizada pelo Pai (“foi levado para os céus” encontra-se na voz passiva, que indica que a ação em relação ao Filho foi realizada por Deus-Pai), assim como a ressurreição. A sua elevação não é outra coisa que o retorno ao âmbito do divino. Aquele homem que havia sido condenado como blasfemo, e morto pelas lideranças religiosas e políticas, agora está à Direita de Deus. Porque Ele mesmo assim o quis. É uma maneira que o evangelista encontra para dizer que o Crucificado pertence a esfera da divindade.

“Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (vv.52-53). Adorar é a atitude típica do reconhecimento da soberania de Jesus. Os Seus discípulos sabem que Ele é realmente o salvador, e, por isso, da mesma forma que no início do Evangelho lucano os pastores se alegraram com o anúncio do nascimento do Messias (cf. Lc 2,10), os discípulos expressam uma “grande alegria”. A alegria é uma característica essencial do discipulado, na perspectiva de Lucas. Ela já foi antecipada no início da catequese também por Maria (cf. 1,47) e pelos anjos (cf. 2,8-20). E agora toca aos discípulos comunica-la ao mundo.

O Evangelho de Lucas começa e termina no Templo de Jerusalém. De fato, após o prólogo, encontramos Zacarias oficiando no Templo (Lc l,5ss): é o tempo de Israel que, aos poucos, dá lugar ao tempo do Espírito que anima a comunidade cristã, a fim de que ela saiba atuar na mesma perspectiva libertadora de Jesus, segundo o Seu Espírito que inscreve no homem a vida do Senhor.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

 

sábado, 21 de maio de 2022

REFLEXÃO PARA O VI DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 14,23-29:


Adentramos no sexto domingo do tempo pascal, seguindo com a leitura do testamento de Jesus no Quarto Evangelho, o qual constitui o Seu grande ensinamento sobre o mandamento (dinamismo) do amor, e sobre a entrega da própria vida. A liturgia propõe para a nossa meditação o texto de Jo 14,23-29. O texto situa-se no livro da glória, a segunda parte do Quarto Evangelho, onde Jesus revela aos discípulos que chegou a hora da glorificação do Filho do Homem. Esta hora decisiva revela-se na Cruz. Ali, Jesus leva a termo a sua Obra, a obra que recebeu do Pai, que através do gesto livre da doação da vida do Filho revela, pois, todo o seu Poder, seu ser e seu agir. Há que se recordar também que este “testamento” é transmitido pelo Senhor ao redor da mesa, o lugar da comunhão da vida e da relação mais profunda com o mestre.

Qual a finalidade de Jo 14, 23-29 para a comunidade dos discípulos, para a geração posterior e para nós, hoje? Fundindo os horizontes da comunidade dos discípulos (tempo narrado, os anos trinta) e o da comunidade de joanina (a geração posterior dos fieis, na qual inclui-se todo o fiel-discípulo e leitor do Evangelho, pelos idos dos anos noventa), a intenção do texto atinge seu ápice quando a comunidade cristã lê, assimila e adere ao testamento/ensinamento de Jesus como sendo seu modo de vida, pautando o seu agir e sua identidade no modo de vida de Jesus, em seu ensino e em sua missão. Assim, o discurso de despedida que Jesus deixa aos seus serve para que eles e a geração seguinte possa balizar seu ser, viver e agir quando da ausência do mestre. Nesta perspectiva, a comunidade teria as ferramentas (os meios) para viver constantemente o convite e a realidade de uma vida ressuscitada garantida pelo dom do amor do Senhor e por seu Espírito, isto é, viver segundo o Filho de Deus.

Antes de tomarmos o texto de hoje, se faz necessário que nos versículos anteriores, Jesus prometeu o Espírito Santo aos discípulos. O Espírito Santo é o espírito de Jesus (Espírito do Ressuscitado) e do Pai. É o dinamismo de vida do Pai e do Filho, que, doado por ambos comunica vida, filiação e amor. É aquele que garante a continuidade da vida e a presença de Jesus para a comunidade, através da vivência do mandamento do Amor. Jesus prometeu manifestar-se à quem ama como ele ama. Isso posto, podemos entrar no horizonte do texto.

Jesus continua seu discurso, dizendo: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou”(vv.23-24). Jesus afirma a importância do amor e de guardá-lo como mandamento/Palavra. O Pai e Jesus se manifestam na vida daqueles que amam do mesmo modo de Jesus. Todavia, é necessária uma condição para receber e participar deste amor, de acordo com o evangelista João: amar a Jesus para receber o amor do Pai. O amor é a plena adesão e identificação a Jesus.

Mas amar a Jesus e, por conseguinte, viver a mesma vida dele, é também o critério para saber se a Sua Palavra é, de fato, guardada, ou seja, vivida. O verbo guardar (hbr. Shama) não significa reter para si, mas observar, no sentido de cumprir/viver o mandamento e a Palavra de Deus. Só o amor pode motivar a adesão à Palavra/mandamento de Jesus.

Jesus assegura uma segunda vez: “o defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (v.25). Na teologia do Quarto Evangelho, o Espírito é o defensor; tem a função de ensinar e recordar. O termo que João emprega é παράκλητος/paraklétos (gr. Pará = junto de, ao lado de / kalein (kaleo) =  chamar), que significa “estar junto de”, ou “ser chamado para ficar ao lado de”. Ao lado, enquanto presença ativa e viva do próprio Senhor junto do discípulo. Nesse sentido, o Espírito de Jesus está ao lado do fiel para que ele possa assumir o modo de vida de Cristo.

Outras duas funções são apresentadas pelo Jesus joanino, a de ensinar e renovar. Ambas as funções querem dizer a mesma coisa: atualizar. Ora, o verbo “recordar”, na fé e tradição do Antigo Testamento remente à atitude da memória bíblica significa tornar presente no hoje o ensinamento, a missão e a vida mesma de Jesus. O ensinar/recordar são duas atitudes imprescindíveis para a vida da comunidade. São as atitudes daqueles e daquelas que vivem a novidade do convite à vida ressuscitada de Jesus, e dela dão testemunho. O Espírito Santo é aquele que inscreve (escreve a partir de dentro) a vida mesma de Jesus em nós. Ele é a letra de Cristo que escreve no livro da vida humana a vida de Jesus. 

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe o vosso coração” (v. 27). Jesus fala da paz. É preciso entender de quê paz ele fala. É daquela que, no Antigo Testamento está associada à posse da terra prometida. Como consequência da posse da terra da promessa, o povo conquista a paz. Mas ela é dom e garantia do tempo do Messias. Significa que a espera acabou e que a promessa foi cumprida. Todavia, no Novo Testamento, a paz não se dá em virtude da conquista de um lugar geográfico como a posse da terra da promessa, no AT. A Paz se dá através da relação com Jesus. Nesse sentido, Jesus é a terra prometida. Ele é a promessa cumprida. Então, para os discípulos de Jesus, a Paz é um modo de ser e de existir. É ela uma qualidade de vida. Por isso, a paz que Jesus dá é Ele mesmo. Um modo de ser e de existir que é superior à “pax romana” (se queres paz, prepara-te para a guerra), aquela que visa oprimir, dominar, subjugar para manter a ordem, principalmente contra as minorias. A paz judaica é aquele típico bem-estar. E a Paz que Jesus dá, supera estas ideologias.

Na certeza de que Jesus e o Pai fazem morada em quem vive o mandamento do amor, cabe aos discípulos e discípulas de todos os tempos o esforço para que tudo isso seja manifestado também ao mundo.

 

Pe. Joao Paulo Sillio.

 

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 14 de maio de 2022

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 13,31-35:


 

O evangelho deste Quinto Domingo do tempo pascal retoma a narrativa da ceia de despedida de Jesus, no Quarto Evangelho (Jo 13,1-38). Estamos ao interno do chamado Livro da Glória. O texto de Jo 13,31-35 situa-se após o gesto profético do lava-pés, o gesto simbólico da vida de Jesus levada até as últimas consequências; do anúncio da traição de Judas e do prenúncio da negação de Pedro.

Mas, no contexto da catequese joanina, o texto de hoje encontra-se no bloco denominado testamento de Jesus (Jo 13 – 17), sendo quatro capítulos narrados ao redor da ceia, evento que não pode ser visto como ocasião para consumo de alimentos, muito menos resume-se na vivência de um rito, tampouco uma mera confraternização. A ceia é o lugar da partilha e da comunhão de vida entre o anfitrião e os hospedes. Por isso, o testamento que Jesus deixa aos seus se dá ao interno desta ceia.

O que seria este testamento que Jesus entrega aos seus? O testamento é o ensinamento e a exemplaridade da vida do mestre destinado ao discípulo que se decidiu por ele. O seu conteúdo é a revelação de Deus através da Sua vida, mediante a sua entrega, e o mandamento do Amor. É sobre este conteúdo que a comunidade de João e as gerações futuras deverão se debruçar. Por isso, a nível de catequese litúrgica, a Igreja oferece este texto para a meditação, a fim de que as comunidades de todos os tempos, tendo feita a experiência com Jesus ressuscitado, possam pautar a vida ressuscitada nos seus ensinamentos e no Seu modo de vida. Somente vivendo a partir do modo de vida de Jesus a comunidade continuará a experiência da ressurreição e prolongará sempre na história a vida do Senhor. Vamos ao texto.

No v.31 temos uma delimitação importante: a saída de Judas. Ele se decidiu por romper com Jesus, com seu projeto e com o grupo dos Doze. Optou em não aceitar a dinâmica do lavar os pés. Escolheu as trevas (por isso João situa estes acontecimentos finais da vida de Jesus no período noturno). Somente após a saída deste discípulo é que o mestre entrega o seu testamento aos demais. Só pode tomar parte, receber e assumir o testamento de Jesus aquele que estabelece uma comunhão com o Seu modo de vida. Ao mesmo tempo, no horizonte do evangelho segundo João, a saída de Judas do grupo é o que desencadeia o ensinamento de Jesus sobre a Hora da Glória.

O v.32 toca precisamente no tema da Glória (da glorificação) de Jesus, a qual é o lugar tenente da Glória de Deus. O tema da Glória no Quarto Evangelho é importante e perpassa a obra joanina do começo ao fim. Glória, aqui, não significa brilho/esplendor. O evangelista serve-se do pano de fundo do Antigo Testamento, trabalhando com o termo hebraico Kabod, o qual se traduz por Glória, mas no sentido de “presença”. Assim, a Glória de Deus outra coisa não é que a sua presença na história. Na teologia do evangelho de João, a vida de Jesus torna-se o lugar no qual se dá a presença de Deus. Com efeito, a Glorificação do Filho do Homem, da qual fala Jesus é o ato de manifestar a presença de Deus através do dom da sua própria vida na Cruz. Por isso, é na Cruz que Deus revela todo o seu poder, sua presença e seu Ser no Crucificado.

Jesus assume para si a missão e identidade da personagem apocalíptica do Livro de Daniel (Dn 7,10), que na época de Jesus evocava um ser glorioso e potente. Geralmente, Jesus relaciona essa imagem ao seu sofrimento, tanto no Quarto Evangelho, quanto nos evangelhos sinóticos (cf. Mt 17,22; 20,18; Mc 9,12.31; 10,33; Lc 9,22.44), contradizendo o uso recorrente no seu tempo. Em João, glória e paixão estão intrinsecamente relacionadas.

O evangelista, no texto grego serve-se da voz passiva, a qual indica Deus como o agente  realizador da ação (“passivo teológico ou divino”). O termo “glorificar” pode ser entendido, ainda, no sentido de “manifestação da glória”, revelação da presença divina: “Foi glorificado o filho do Homem, e Deus foi glorificado nele”. Ora, a glória de Jesus, enquanto Filho consiste em realizar o querer e a obra do Pai. A glória do Pai, por sua vez, é ver o Filho amando até o fim, isto é, plenamente. E sendo-lhe fiel. Mas só poderá tomar parte da glorificação de Deus em Jesus os que são tidos como “filhinhos”, ou seja, aqueles que aderiram e aderem ao projeto e à vida de Jesus: os iniciados na Fé. É a linguagem do Mestre para com os discípulos. Mas “filhinhos” é também o termo que 1Jo 2,1.12.28 usa para se dirigir aos fiéis. Jesus fala agora aos fiéis como se já constituíssem uma comunidade eclesial, por que o Jesus joanino é o Jesus da comunidade, o Jesus eclesial.

Os filhinhos recebem, pois, uma novidade de vida: um Novo mandamento. “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (v.34). Existem dois adjetivos que correspondem a “novo”: o primeiro deles, “néos” (gr. νέος) significa algo novo que se soma ou acresce-se ao que já existe, no sentido da quantidade; o segundo, kainós (gr. καινός) significa algo que substitui o que é velho, superando-o e fazendo-o desaparecer. É esse segundo termo que João se serve aqui. Portanto, o mandamento novo dado por Jesus não vem a ser um acréscimo à antiga Lei, mas a sua completa superação, no sentido de leva-la à plenitude. Uma vez que o termo Lei (gr. nômos) não é uma tradução boa para o termo Torá. Esta poderia muito bem conservar o sentido original da tradução que ela recebe do original hebraico, como “instrução/caminho”.

Jesus ao comunicar um “mandamento novo”, está a dizer para seus discípulos (e à nós) que sua vida e o modo do Seu amor superam (plenificam, conferem plenitude e cumprimento/realização) a Instrução/caminho, a Torá de Deus. O amor tem a capacidade de superar uma Lei; de aperfeiçoar um “caminho” (Torá/instrução). Quer dizer que, vivendo esse mandamento, a comunidade não necessita de nenhum outro. É esse o modelo de amor que ela deve assimilar e reproduzir. O interessante é que Jesus não dá como testamento para sua comunidade um conjunto de normas ou ritos somente. Sim, é verdade que no "tomar e comer, e no tomar e beber", Ele nos dá a ordem de iteração "fazei isto em memória de mim", para que celebre-se sempre a sua vida através dos dons sacramentais. Mas a liturgia e o rito só adquirem a real eficácia quando verificados através do modo de vida de Jesus. E, ao mesmo tempo, os sacramentos atingem sua finalidade a partir do momento que inscrevem a vida de Cristo em nós. Por isso, seu testamento não é só delimitado pelo rito ou pelo preceito. Ele nos deixou um Mandamento novo, um modo de ser, agir e existir. 

Somente em João o mandamento do amor é dado com essa radicalidade e com este exemplo, ou seja, o amor de Jesus. Diante disso, a novidade apresentada pelo evangelista se torna ainda mais evidente, pois Jesus não reivindica nada para si e nem para Deus, o Pai; pede apenas amor recíproco entre os membros da comunidade: “amai-vos uns aos outros”; nesse amor recíproco entre os discípulos, obviamente, estará o amor a Deus, pois é Ele a fonte do amor e, consequentemente,  Jesus, o revelador do amor do Pai. O critério do amor que deve ser vivenciado na comunidade é o seu: “como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. Que não é um amor qualquer, mas é aquele capaz de dar a vida pelo próximo, cuja expressão visível é o serviço (cf. Jo 13,15).

A vivência deste Amor de Jesus torna-se o critério para reconhecer as comunidades e os discípulos de Jesus, “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (v. 35). Assim, se faz necessário questionar-nos um pouco: 1) Será que poderemos nos reconhecer entre os filhinhos ou estamos ainda na dinâmica existencial de Judas, que rompeu com a comunhão e com projeto de vida e amor de Jesus? 2) Poderemos ser distinguidos e identificados através do Amor de Jesus que deve permear e performar a nossa vida? 3) Nossas comunidades se alimentam e se balizam pelo mesmo amor de Jesus, sendo sinais e testemunhas deste Amor?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


domingo, 8 de maio de 2022

REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10,27-30:


O texto que a liturgia do quarto domingo da páscoa nos propõe encontra-se em Jo 10,27-30. O capítulo décimo do Quarto Evangelho apresenta a temática do Pastoreio, com destaque para a alegoria do Pastor Exemplar, ou “Belo Pastor”, dos vv.11-18. Este tema era muito presente na vida de Israel. A imagem do pastor/pastoreio e do rebanho nutria a fé e o imaginário religioso do povo de Deus, bem como alimentava as expectativas acerca da manifestação do Messias. Primeiramente, o rebanho/ovelha é um símbolo aplicado ao povo. Já a imagem do pastor era atribuída ao próprio Deus. Mas, no decorrer da história foi sendo atribuída às lideranças, os reis e sacerdotes, a alcunha de pastores (guias). Mas, a história mostrou que esta função não foi desempenhada “segundo o coração de Deus (cf. Ez 34)” pelas mesmas lideranças. No nível do contexto próximo (lugar literário onde o texto se encontra situado) é que também se deve lançar o olhar, a fim de compreender o discurso de Jesus. Por isso, devemos voltar para o capítulo nono, o sinal realizado por Jesus na cura do cego de nascença. 

O Sinal em Jo 9 consiste na revelação de Jesus como o enviado (hbr. siloé) para trazer a Luz para o mundo. O cego de nascença é, ao mesmo tempo, instrumento através do qual Jesus revela a Glória de Deus, e metáfora para as lideranças do povo, as quais estavam cegas, optando conscientemente em não querer ver a Luz de Deus que se manifestava em Jesus de Nazaré. Isso é atestado pela mesma postura destas lideranças judaicas. Elas, que deveriam cuidar, acolher, promover-lhes a vida e a dignidade, acabavam expulsando do meio deles a gente simples do povo, aqueles que representavam-lhes alguma ameaça, ou, porque, simplesmente viviam fora de seus padrões. Sabendo disso, Jesus vai ao encontro do ex-cego (Jo 9,35-37).

O contexto imediato do texto é o da festa da Dedicação. Ocorre uma mudança de cenário e de festa religiosa. Isso é importante para a compreensão do capítulo de forma global. O evangelista situa Jesus nos arredores do templo, num clima de inverno, por ocasião da festa da dedicação do templo. Ela foi estabelecida por Judas Macabeu no ano 165 a.C., para celebrar a vitória dos macabeus sobre a dominação grega e a nova dedicação do templo e do altar, já que todo o templo havia sido profanado pelos gregos (cf. 1 Mc 4,36-59). A festa acontecia em Jerusalém e durava uma semana. Ela encontra seu substrato bíblico no texto profético de Ezequiel, no qual o profeta faz uma enfática denúncia aos maus pastores de Israel, que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2). Por isso, de acordo com o profeta, Deus toma a iniciativa de destituir os maus pastores e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11).

Neste sentido, na alegoria do Bom Pastor, o evangelista opera um contraste entre as lideranças do povo, que agiam na contramão do projeto de Deus, e Jesus, que age segundo o coração (de pastor) de Deus, mostrando-se um pastor exemplar, que realiza aquilo que as lideranças do povo deveriam fazer, e não faziam.

Antes de tomarmos os versículos em questão é importante recapitular, pelo menos, três ditos de Jesus. O primeiro é o contido no v.7: “Amém, amém, eu vos digo: eu sou a porta das ovelhas”. Jesus, após contar a parábola do redil das ovelhas, declara ser ele mesmo a porta pela qual devem passar as ovelhas. Ele quer dizer que para pertencer ao rebanho (ser discípulo) e possuir a vida eterna, isto é, do dom de Deus oferecido por meio Dele é necessário, primeiro, passar (aderir) à sua pessoa.

Outro dito encontra-se no v.11, onde Jesus declara, “Eu sou o Bom (gr. Kalós / Belo ou ideal) pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”. Ora, só quem passa pela porta que é Jesus pode ser do seu rebanho e viver do dom da vida que Ele dá. O terceiro dito é o que nos coloca no horizonte do texto: “Vós, porém, não me acreditais, porque não sois das minhas ovelhas” (Jo 10, 26). Jesus diz estas palavras aos líderes do judaísmo (fariseus e sacerdotes), dada a recusa de aceitar a novidade escatológica da presença de Deus Nele. Contextualizado o texto de hoje, então podemos meditá-lo.

No v. 27, Jesus declara: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. Ele indica aqui a condição para ser “ovelha” (discípulo) de Jesus: ouvir e segui-lo. Ao dizer as condições necessárias para ser discípulo e, portanto, participar do redil, Jesus denuncia que os líderes do povo não fazem parte de seu rebanho, porque não aceitam nem querem escutar, tampouco segui-lo.

Escutar e seguir são dois verbos importantes para a compreensão da mensagem de Jesus. O verbo “escutar”, no ambiente bíblico, não significa simplesmente a capacidade ou faculdade biológico-física da percepção de um som ou ruído, mas é acima de tudo dar adesão completa àquele que fala, deixar-se transformar e, consequentemente, conduzir-se pelas suas palavras. A atitude da escuta orienta para outra ação do discípulo, o seguimento. O seguimento a Jesus, como consequência da escuta, significa seguir os mesmos caminhos dele, com liberdade e disposição.

No v.28, Jesus garante que as suas ovelhas recebem o supremo dom que Ele pode doar, a “vida eterna”, a garantia de que elas jamais se perderão e que ninguém poderá tirá-las de suas mãos. O que seria esta vida eterna da qual fala Jesus? A vida que pertence ao âmbito de Deus. Não é a continuação desta mesma vida, mas um dom superior em qualidade e em dinamicidade que está em Deus mesmo. Todavia, ela não é um prêmio dado àquelas pessoas boas no futuro. A opção por Jesus e ao seu Evangelho simbolizada pela escuta da sua voz e o seguimento à sua pessoa, eterniza a vida. Não é uma vida pós-morte, mas é uma vida tão plena, tão cheia de sentido e autêntica, que se torna indestrutível. Logo, vida eterna é a vida de todo homem e toda mulher que escuta a voz de Jesus e abraça o seu seguimento, a sua vida, o seu projeto. Tem-se, em Jesus, e, a partir dele, a oportunidade de se viver uma vida em tons de eternidade, e, portanto, ressuscitada, desde já!

“Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” (29-30). Nestes dois versículos Jesus declara que o que vale em relação ao Pai vale também em relação a si, ou seja, os dois constituem uma única realidade. Por isso, ninguém consegue arrancar as ovelhas da mão de Jesus (cf. v 28b) pois tudo o que está em suas mãos, está, igualmente, nas mãos do Pai. A mão, conforme a antropologia bíblica, é metáfora do poder e do agir protetor de Deus, de Sua força e dos Seus cuidados enquanto pai e mãe.

Ora, o Pastor exemplar (melhor tradução para o termo kalós / καλός, Belo) do Quarto Evangelho não carrega ninguém ao colo. Pelo contrário, ele sai ao encontro das ovelhas, convive com elas, existindo um conhecimento mútuo entre eles; por isso, as conduz e aponta caminhos! Da outra parte, os que aderem a Jesus, assumindo a condição de ovelhas devem apresentar a característica da escuta e manifesta-la através do seguimento a Jesus. 

Por isso, o evangelho de hoje nos questiona: 1) Somos verdadeiras ovelhas de Jesus? 2) Temos ouvido (aderido) à voz (evangelho e vida) de Jesus e, portanto, seguido a exemplaridade da vida do Pastor Ideal?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré /Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 30 de abril de 2022

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 21,1-19:

 


O texto que a liturgia deste domingo pascal nos oferece para nossa meditação é retirado do capítulo vinte e um do Quarto Evangelho, também conhecido como epílogo do evangelho segundo João. O final original da obra joanina é o capítulo vigésimo, o qual pudemos meditar nos domingos anteriores (Jo 20, 1-30).

A comunidade de João, motivada pelas dúvidas e questionamentos sob a experiência pós-pascal dos discípulos com Jesus, tomou a iniciativa de redigir o capítulo vinte e um, fazendo a memória de outros fatos importantes, os quais são narrados neste epílogo. As motivações foram muitas, mas retemos nossa atenção pelo menos em três: 1) a reabilitação de Pedro, que depois da oposição ao projeto de Jesus, negando-O três vezes, precisou ser evidenciada no intuito de mostrar a sua “remissão” diante da comunidade dos discípulos e para as gerações posteriores; 2) a questão dos outros sinais realizados por Jesus ressuscitado exigiu da comunidade exemplos concretos; 3) o encontro entre o Ressuscitado e a comunidade dos discípulos que ocorre, agora na Galileia e a céu aberto, e não mais num ambiente fechado, acenando para a realidade da condição do Ressuscitado que não se limita mais e nem se deixa reter pela comunidade (a condição do ressuscitado não é limitada ao tempo e ao espaço). Por isso, o v. 30 terminava a narrativa afirmando que “muitos outros sinais foram realizados por Jesus, mas que não haviam sido colocados por escritos, mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo e, que, crendo, tenhais a vida em Seu Nome”. Vamos ao texto.

Dos vv.1-15 o evangelista narra uma pesca. Pedro e os outros se encontram a beira do mar da Galileia. Diferentemente das narrativas anteriores, este encontro com Jesus Ressuscitado se dá num lugar específico: a Galileia, em plena luz do dia e a céu aberto. Ela, mais do que um dado geográfico, é um lugar teológico. É o lugar daquela primeira experiência que os discípulos fizeram com o mestre; o lugar do primeiro chamado. Esta pesca, tem, pois, o sentido de reorientar os discípulos àquela primeira experiência com Jesus. Ela funciona como uma memória: um chamado para voltar e confirmar a vocação e a missão. Quem deixou-se seduzir por Jesus deve retomar a vida e os processos. No horizonte da Ressurreição e das experiências com o Ressuscitado acontece sempre a oportunidade e o convite de ressignificar a vida e a existência.

O evangelista faz questão de mencionar as sete personagens. Pedro, Tomé, os irmãos Zebedeu (Tiago e João) e outros dois discípulos, Natanael e o famoso discípulo amado. O número sete indica a plenitude (a completude), e quer acenar para o a realidade da comunidade. Mas alude também à universalidade da missão da comunidade. Ela é de todos e deve chegar a todos. Do anúncio e do encontro com a Boa Nova de Jesus não pode e nem deve ficar ninguém de fora.

Pedro – mais uma vez movido de ímpeto – toma a iniciativa de ir pescar (v.3). E os demais, seguem com ele. A pesca, mais do que uma informação dada pelo evangelista ou qualquer interpretação de que os discípulos voltaram a antiga função, simboliza a missão da comunidade. Todavia, a missão não pode ser tomada a peito, sozinha. Este é o equívoco da comunidade. Isso se verifica pelo fracasso da pesca dos discípulos.

João nos informa que “naquela noite” os discípulos não pegaram nenhum peixe. O indicativo temporal “naquela noite” acena para a ausência de Jesus. A noite, no Quarto Evangelho, é símbolo das trevas, e, por isso, da ausência de Luz. Para o evangelista, Jesus é a Luz. Ora, quando a comunidade empreende suas tarefas sem dar espaço para Jesus (sem que Ele esteja em meio), as suas iniciativas ou obras fracassam. Quando Jesus não está em meio, as obras, por mais bem intencionadas que sejam, perdem seu sentido. Abre-se espaço para um ativismo desmedido, um “heroísmo” egóico. É preciso reconhecer que sem Ele nada se pode fazer (cf. Jo 14).

Mas, no amanhecer do novo dia, Jesus vem-lhes ao encontro na margem do lago. Após o diálogo entre eles, o mestre diz para lançar as redes à direita da barca. Esse convite aguça os sentidos da fé do discípulo amado que, fazendo memória das palavras de Jesus reconhece ser o Senhor na beira da praia. Somente quem ama é capaz de fazer a memória e reconhecer que aquele que ordena lançar as redes é, de fato, o Senhor. Pedro, ao ouvir o discípulo amado faz algo que parece contraditório: toma a roupa e veste-se, pois estava nu, e lança-se na água. Que atitude descabida. Natural e lógico seria o contrário: se está na embarcação, na água, deveria tirar a roupa, mergulhar e nadar até Jesus e vestir-se depois. Todavia, o relato não pretende ser uma crônica dos fatos, mas transmitir uma mensagem salvadora e refazedora de horizontes. Retomando a simbologia da pesca, ela é metáfora da missão. Mas, ela só pode acontecer quando o discípulo compreendeu todo o sentido da vida e da missão de Jesus. O evangelista ao relatar que Pedro estava nu, pretende dizer que ele não estava preparado interna e externamente para o serviço. A roupa simboliza a dignidade da pessoa no ambiente bíblico, e se esta encontra-se cingida na cintura, significa que a pessoa está apta para o serviço a ser realizado. Por isso, a personagem se cinge após vestir-se, para indicar que está, agora, disponível para servir. E mergulha, portanto, nas águas daquele lago. É uma imagem que também evoca o Batismo. O discípulo precisa passar pelas águas para torna-se uma nova pessoa e viver a vida conforme a vida de Jesus, colocando-se disponível para o serviço.

A finalidade deste relato atinge sua intencionalidade, que é a de reconhecer o Senhor nas atividades concretas e cotidianas. É nesse momento que Jesus interage com os discípulos. No cotidiano da vida reconhecer a Graça de Deus que transforma a mesmice em tempo de Salvação. Na cotidianidade e na simplicidade de um trabalho até corriqueiro e rotineiro ver os sinais e a oportunidade de se fazer experiência com o Ressuscitado, a fim de retomar a missão e a vida. É o que a segunda parte do evangelho de hoje acena para nós.

Na segunda parte do relato (vv.8-19), o evangelista narra um momento intenso entre Jesus ressuscitado e os discípulos. Uma refeição. A refeição era o momento e o lugar privilegiado da partilha e da comunhão de vida, do amor e do servir os irmãos, como nos faz recordar a ceia com os discípulos (cf. Jo 13). O texto nos mostra que os discípulos trazem uma multidão de peixes para a praia e, para a surpresa deles, Jesus já lhes tinha preparado a refeição (vv.8-13). O evangelista ressalta para a comunidade através deste gesto de Jesus a realidade da Eucaristia. No gesto singelo e profundo de uma refeição eles fazem a experiência com o ressuscitado.

No v.15, o narrador aponta para outro momento forte do texto: o diálogo entre Jesus e Pedro (Jo 21,15-19). Sabemos das atitude de endurecimento de Pedro, de seu ímpeto e de suas resistências frente ao projeto de vida de Jesus, até no momento da ceia. Ali, dissera que seria capaz de seguir o mestre inclusive na atitude do “dar a própria vida”. Sabemos também de sua negação no pátio da casa do sumo sacerdote, por ocasião do julgamento de Jesus. A sua consciência devia pesar, e de fato era este o estado de Simão Pedro. O diálogo que se segue com as três perguntas acerca do amor do discípulo por Jesus serve de contraponto àquela tríplice negação durante o processo contra Jesus. O diálogo é profundo. Mas podemos captar lhe a essência.

A pergunta que Jesus faz a Simão pode ser entendida a partir de três perspectivas: 1) se o amor de Simão é mais intenso que o de seus companheiros; 2) se amor por Jesus é maior que amor que sente pelos seus; e, por fim, 3) se Pedro ama a Jesus mais que a seus empreendimentos, mais que a pesca? Isso é bem coerente, porque a pesca, como imagem da missão, só pode alcançar seu objetivo porque ela é fruto e motivada pelo Amor a Jesus. Para isso, devem chamar a nossa atenção as formas dos verbos em que são formuladas as três perguntas de Jesus. João emprega dois verbos importante, ἀγαπάω (Agapein/agapao, amor oblativo e operativo de Jesus, capas de dar a vida) e φιλέω  (Filein/Filêo, amor na forma de amizade).

Jesus é intenso na pergunta a Pedro, perguntando se ele O amava (ἀγαπᾷς με / agapás mê). Pedro responde nas duas vezes “Sim, senhor. Tu sabes que te amo (συ οιδας οτι φιλω σε / sy oidas hoti fîlo sê)” que pode ser entendido assim: “Senhor tu sabes que te quero bem, que sou teu amigo”. Pedro não tem estofo para captar a profundidade da pergunta de Jesus. O amor do qual fala e pretende indicar Jesus é aquela adesão, decisão e fidelidade. O discípulo só consegue dizer que é seu amigo.

Jesus pergunta uma terceira vez a Pedro se ele o ama. Aqui, o evangelista opera uma mudança nos termos: por duas vezes aplicou o verbo agapein (amor) na pergunta de Jesus, e por duas vezes para Pedro usou o verbo Filia/filein (amizade). Uma vez mais Jesus surpreende. A reviravolta está no fato de, agora, Jesus perguntar a Pedro se ele é seu amigo. O Senhor é entra e assimila as dinâmicas de Pedro. Ele vai ao encontro do discípulo; se dirige até onde o discípulo/humanidade pode ou tem condições de ir, nada mais, nada menos. Ele aceita e assume a medida do discípulo. Vai até onde Pedro está; assume as dinâmicas dele (e da cada um de nós) para reorientar e fazê-lo sair de si. Jesus alcança a medida de Pedro fazendo-o relembrar que somente o amor é o caminho da relação e da vida, e, por conseguinte, da missão. Então, percebe-se que o acento do diálogo entre Jesus e Simão não recai num acerto de contas com o discípulo complicado. Mas é uma forma de mostrar que mesmo com as fragilidades e limites, o amor precisa ser sempre renovado e confirmado. É do amor que depende o fruto da missão.

No v.17, Pedro responde pela terceira vez, mas acrescenta que “o Senhor tudo sabe”. Jesus, pela terceira vez faz o convite para apascentar Suas ovelhas. Apascentar significa cuidar, nutrir, e dar condições de vida digna para todos. Mas a base para o pastoreio é aquela fidelidade do amigo. Por isso, para exercer esta missão, Pedro precisa renovar seu amor e sua fidelidade: ser amigo do Senhor. O amigo, na tradição bíblica, é aquele que coopera com o agir de Deus.

O Jesus de João diz, então, a Pedro sobre os rumos que hão de tomar a sua vida e sua missão, “Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu te cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”.  Em seguida, ressignifica a vida de Pedro novamente, convidando-o: “Segue-me”. Pedro deve entender o caminho (a vida) do Senhor. A morte de Jesus está neste horizonte. Quando o discípulo, assim como Pedro, compreende o que significa a fidelidade e o amor a Jesus, que é perpassado pela experiência da vida levada, em amor, até o fim, é que poderá, então, seguir a Jesus no discipulado. 

O texto nos questiona. 1) temos ressignificado nossa vida e missão, e, por conseguinte, nossa vocação batismal no horizonte do Amor ao Senhor (vestir e cingir a roupa para o serviço e mergulhar nas águas da existência)? 2) Como tenho vivido a minha relação com o Senhor, tenho assumido sua amizade? 3) Tenho permitido que o Senhor se aproxime de minha medida, para tirar-me dela? Peçamos ao Senhor que Ele se aproxime de nossa medida e nos reoriente para o Seu Amor, a Sua medida.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 23 de abril de 2022

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 20,19-31:


A oitava pascal compreende o grande domingo da Ressurreição do Senhor. Por oito dias, a comunidade dos discípulos de todos os tempos se reúne ao entorno da novidade da ressurreição e dos encontros com Jesus, o vivente. E a narrativa proposta pela liturgia para a nossa meditação, que coroa estes oito dias memoriais da Ressurreição, é tomada da conclusão original do Quarto Evangelho, Jo 20,19-3, uma vez que o capítulo vinte e um do Evangelho segundo João é um apêndice da obra. O texto de Jo 20,19-31 é, sem sombra de dúvidas, uma narrativa de recriação, tanto do ponto de vista da comunidade, como do discípulo. O leitor situa-se na continuidade da leitura do capítulo vigésimo, omitindo apenas o encontro de Maria Madalena com Jesus Ressuscitado.

Nesta seção o leitor-discípulo é convidado a tomar parte da experiência da comunidade dos discípulos com o Ressuscitado. Não se trata de aparições, propriamente, mas de Encontros com Jesus, o vivente. É evidente, que para os discípulos não foi tarefa fácil encarar as horas e os dias seguintes ao “acontecido” com o  mestre. Por isso, o fiel e leitor do Quarto Evangelho, ou melhor, a geração posterior (na qual somos incluídos), deverá colocar-se no mesmo horizonte daquelas testemunhas oculares. Caberá a esta geração “Crer sem ver”, para ser considerada bem-aventurada. Para João, morte e ressurreição não são realidades estanques, mas dois aspectos inseparáveis da mesma realidade, a glorificação de Jesus.

A indicação cronológica e espacial que o autor informa é importante: “Ao anoitecer daquele mesmo dia (v.19)”. A narrativa insere-se na cronologia das cenas anteriores: o primeiro dia. Mas a variação temporal revela que a comunidade dos discípulos já deu passos significativos: ela transitou da “madrugada” daquele primeiro dia; da escuridão da incompreensão dos acontecimentos da primeira hora da ressurreição. A partir deste novo indicativo temporal, João dá mostras de que a comunidade está despertando de seu sono de morte. Está fazendo, processualmente, a experiência da ressurreição. Fundindo os horizontes do tempo narrado com o tempo da comunidade, esta indicação do “primeiro dia” pode acenar para a prática da comunidade de dedicar aquele dia para celebrar a Memória do Senhor Ressuscitado. Ocorre, igualmente, a transição de cenário. O espaço já não é o mesmo; a comunidade dos discípulos não se situa mais no sepulcro, mas noutro espaço, o da própria comunidade, a casa. Sinal de que ela saiu do sepulcro.

“Estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam” (v.19). A comunidade, mesmo se distanciando dos esquemas de morte e, tendo dado passos no processo da experiência da ressurreição, ainda estava bloqueada pelo medo. Na Teologia Bíblica, o Medo é sempre contrário à Fé. O medo preocupa, impede a missão; fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns. Acena também, para a ausência do Senhor. Todavia, é preciso fundir os horizontes novamente, pois o texto não é uma peça de museu, mas ilumina os processos históricos da vida da comunidade e dos discípulos de todos os tempos. O leitor é chamado a unir o panorama temporal da comunidade dos discípulos, que fazia a experiência com o ressuscitado com a realidade da comunidade joanina dos anos 90 d.C, que sofria perseguição por parte dos Judeus e das autoridades romanas.

Jesus põe-se no meio deles (cf. v.19b). É importante a informação dada pelo evangelista. O Ressuscitado não se manifesta aos discípulos colocando-se acima ou distante. Não se trata de um Jesus acima de tudo e de todos. É um Senhor em meio! Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado. Na comunidade de Jesus, o vivente (e na comunidade joanina) não existe supremacia, nem relações piramidais. Não há espaço para sentimentos de importância ou de inferiorização. Não existe maior ou menor.  Mas uma comunidade igualitária, livre de estruturas de domínio, de poder e de submissão; uma comunidade fraterna, tendo um único centro: Jesus. Encontrando-se com os discípulos (no meio deles), o Ressuscitado opera lhes a transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada.

“A paz esteja convosco (gr. ειρηνη υμιν / Eiréne ymín)” (v.19). Esta saudação se repete por três vezes, o que indica completude, e, ao mesmo tempo a plenitude do ser humano. O número três, na bíblia indica plenitude do homem. É o número do ser humano. Por isso, esta primeira palavra dirigida por Jesus aos seus possui conotações de manifestação da realidade divina. A Paz, no ambiente bíblico, alude à plenitude da Benção (ou garantia) dos bens no tempo do Messias. O Shalom (שָׁלוֹם) bíblico remete ao ambiente dos sacrifícios cultuais (Shelamim), cujo pagamento que o povo recebe em virtude daquele sacrifício é a Paz.  Aqui, parece implicar também a realização das promessas anunciadas por Jesus na hora da despedida: os seus haviam de revê-lo (14,19; 16,16s) com alegria (16,21s.24; cf. 15,11), e ele lhes daria a sua paz (14,27). A paz e a alegria contrastam com o medo mencionado no início. O Jesus joanino, ao desejar a paz pretende ensinar que através do Dom da vida de Jesus vivida, em amor até o fim, tudo encontra-se “pago”, “quitado”. As promessas feitas encontram-se cumpridas, ninguém deve mais nada.

O v.20 é importante para a continuidade do relato, porque a paz comunicada acima só  se tornou possível por conta das mãos e do lado de Jesus. Ele mostra-lhes, então, as mãos e o lado marcados e feridos pelos pregos e pela lança. É intenção de João mostrar a continuidade existente entre Jesus Crucificado e sua condição ressuscitada. As mãos são sinais do serviço, do agir, e o lado é sinal do amor, pois representa o coração. Os principais traços característicos da identidade de Jesus são o serviço e o amor. “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (v. 21). A missão de Jesus estava fundamentada na tarefa recebida do Pai e na Sua fidelidade ao realiza-la; a dos discípulos, na de Jesus. Aqui, encontramos três termos importantes: os verbos apostellein e pempein (enviar, gr. ἀποστέλλω; mas aqui απεσταλκεν (apestalkén), cujo tempo verbal encontra-se no perfeito, que indica ação contínua) e a conjunção kathôs (gr. καθως, como). Os verbos e a conjunção têm a intenção de exprimir semelhança e a causa, isto é, a missão dos discípulos é continuação daquela que Jesus recebeu do Pai e encontra nela seu modelo e origem. Esta missão é um ato contínuo e continuado pelos discípulos de todos os tempos.

Os vv.22-23 são profundamente importantes para a finalidade do relato. Ao enviar os discípulos, Jesus sopra sobre os discípulos o seu Espírito. O gesto de soprar recorda a narrativa da criação em Gn 2,7, onde Deus soprou nas narinas do vivente seu sopro de vida. O Gesto de Jesus remete à Criação, e por isso, na Sua ressurreição acontece uma nova Criação. Ao receber o Espírito Santo, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. A ressurreição de Jesus é uma ressignificação na vida da Comunidade dos discípulos. A comunidade tem a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo (cf. Jo 1,29). Os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo. “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). O Espírito é dado à comunidade para que ela continue fazendo a Obra de Jesus. Essa missão é: tirar o pecado do mundo. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo; transformar as realidades. O que perdoa os pecados é o amor de Jesus; logo, ficam sem a experiência do perdão, o discípulo que recusa amar como Ele amou.

A comunidade não está completa. Falta um certo Tomé, que, diga-se de passagem, precisa ser compreendido bem. Ora, ele não se encontra ali, naquele ambiente fechado. O que pode acenar para o fato de que ele não compartilhasse da mesma mentalidade.  Dídimo (gr. διδυμος), cujo significado é gêmeo, era seu nome. Mas quem seria o seu outro irmão gêmeo? Teríamos um personagem anônimo na narrativa? Os personagens anônimos têm, no Quarto Evangelho (e em toda a Sagrada Escritura), a função de espelhos para a comunidade e os leitores. Ou seja, eles servem para que os leitores assumam aquela identidade; se identifiquem com ele. Um convite aos leitores e discípulos de todos os tempos a assimilar a Tomé como seu gêmeo: questionador, corajoso, atento, perspicaz e convicto; mas reconhecer também suas dificuldades. A sua coragem – atestada pelo fato de não estar no ambiente fechado da comunidade amedrontada – foi ofuscada pelo rótulo inadequado de incrédulo. O seu erro foi o de não aceitar o testemunho da comunidade. Por isso pediu os mesmos privilégios dos dez, ver, e, também, tocar o Senhor.

Oito dias depois (v.26), Jesus novamente se pões no meio deles, deseja-lhes a Paz; se dirige a Tomé. Convida-o a executar o gesto que havia pedido como prova. Ele, ao invés de tocar o Senhor formula uma confissão de fé de valor incomparável: “Meu Senhor e meu Deus!” (v.28). O título de Senhor (Kyrios) é o que cabe àquele que entrou na glória de Deus. João reserva este título para Jesus ressuscitado.

Aqui, revela-se a intencionalidade do texto. A bem-aventurança proclamada por Jesus: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto” (v. 28), reflete a preocupação do evangelista com as novas gerações de discípulos, muito questionadores chegavam a duvidar do anúncio, exigindo provas concretas da ressurreição.

O evangelista responde a essa realidade: não há necessidade de visões e aparições; basta integrar-se a uma comunidade de fé para experimentar a presença do Ressuscitado. A comunidade reunida é o lugar por excelência de manifestação do Ressuscitado.

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré-SP / Arquidiocese de Botucatu.


sábado, 16 de abril de 2022

REFLEXÃO PARA A SOLENE VIGÍLIA PASCAL (Ano C) – Lc 24,1-12:

           
                    (arte: Gleydson / pequeno rebanho)

Nesta noite santa a Igreja celebra o ápice e o centro de sua fé: o memorial da Páscoa do Senhor, de sua ressurreição dentre os mortos e de sua vitória sobre o pecado que afastava a humanidade de Deus. Nesta noite fazemos, ainda, a memória de nossa passagem pelas águas da morte-vida, que nos deram vida nova. É uma festa batismal. Para saborearmos o mistério, a liturgia nos propõe o texto do evangelho de segundo Lucas (Lc 24,1-12), o último capítulo do terceiro evangelho. Por isso, se faz necessário compreender o contexto e as motivações do evangelista ao escrever este relato pascal, cuja a primeira seção (ou primeira parte) somos convidados a meditar.

O último capítulo do evangelho de Lucas, que fala da ressurreição de Jesus, não é só a conclusão de sua trajetória histórica, mas a meta última de sua caminhada idealizada, o cumprimento de todas as promessas e expectativas de salvação. O autor situa os eventos pascais em Jerusalém. Para ele, a cidade tem um papel importante em sua redação. Ela, representante simbólica da antiga história da salvação, é a meta não só geográfica, mas teológica da caminhada de Jesus: em Jerusalém se revela a grande ação salvadora de Deus, a morte e a ressurreição do messias; aqui Jesus, como o “vivente” e glorificado, encontra-se com os seus discípulos para enviá-los a todos os povos. Nesse sentido, os relatos pascais são, acima de tudo, narrativas dos encontros entre os discípulos e Jesus Ressuscitado. Não pretendem narrar aparições, porque o Ressuscitado não é u fantasma ou “alma penada”, mas homem vivo; pessoa humana com uma vida qualitativamente superior, que se encontra com os seus.

Outra nota importante: Lucas organiza o relato em torno de três episódios: 1) as mulheres que vão ao sepulcro; 2) a passagem dos discípulos de Emaús; e, por fim, 3) o encontro com o grupo dos onze. Acontecem num arco de um só dia, o domingo. O que revela um motivo litúrgico.

Para nós, interessa o primeiro relato (Lc 24,1-12). As mulheres vão até o sepulcro onde havia sido posto o corpo de Jesus. Ao chegarem ao lugar, deparam-se com o sepulcro aberto e vazio (cf. v.1-2). Algo aconteceu ali: a pedra foi retirada do túmulo, e este encontra-se vazio. Mas atenção, a tônica do relato não deve ser colocada sobre o sepulcro vazio. Isso ainda é pouco. Diante do sepulcro vazio não nasce a fé, mas a perplexidade, a desconfiança, o medo, a inquietação e, o mais perigoso, a frustração. O acento ou a tônica do texto devem ser direcionados para o que virá a seguir.

O evangelista nos informa que apareceram dois mensageiros celestes. Eles se colocam ao lado das mulheres e lhes interroga, com uma pergunta em tons de afirmação: “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!” (v.5-6). O mensageiro celestial, que, na teologia bíblica é personagem simbólica para a ação do próprio Deus, faz uma revelação. Em outras palavras, O Pai mesmo se encarrega da revelação. Ora, se faz necessário acolher uma revelação do alto para que nasça a Fé, e olhar para o alto, deixando de contemplar passivamente um sepulcro vazio. É urgente elevar o olhar e deixar de olhar para chão. Devem se colocar atentas ao anúncio de uma Palavra de novidade que Deus as dirige. Escutar o anúncio da Palavra da ressurreição, ali, nas proximidades do túmulo.

A pergunta-revelação traz um conteúdo fundamental: Jesus está vivo. O texto grego nos ajuda a perceber esta afirmação. Ele soa mais ou menos assim: “por que procurais um vivo (vivente) entre os mortos?”. Um vivente. Ora, o evangelista usa de uma pergunta porque, evidentemente espera uma resposta. A revelação divina acerca de Jesus exige sempre uma resposta do ser humano. Esta boa-noticia não é uma palavra que se ouve e basta. Pelo contrário, ela exige um acolhimento na vida do discípulo.

Um detalhe importante. A presença de dois mensageiros, na antiguidade e na cultura do povo de Jesus, serve para dar credito (credibilidade) a um testemunho. Este só seria válido e autorizado pela presença de duas ou três pessoas (cf. Dt 19,15). Eles funcionam, pois, como testemunhas autorizadas da ressurreição, dado que o testemunho de mulheres ou menores de idade não eram validos na época. Eles atestam para as mulheres que Jesus é o Vivente. Não significa que Ele retornou à vida, mas que entrou na vida mesma de Deus. A ressurreição não é um ato tão somente, mas um estado, uma condição permanente!

A afirmação de que Jesus é o vivente está carregada da influência do ambiente bíblico, no qual Deus é chamado de “o vivente” (cf. Js 3,10; Jz 8,19). Na Igreja de Lucas, esta denominação é referida a Jesus ressuscitado (cf. At 1,3; 25,19) e é uma maneira de falar da sua ressurreição em termos compreensíveis, principalmente para gente estranha à cultura bíblica.  

Se Jesus é o vivente, não tem mais sentido procurá-lo no lugar onde estão os mortos; Ele não está mais no passado, mas vive no presente e é projetado rumo ao futuro como todo aquele que vive. Então, o sepulcro vazio não diz mais nada sobre a nova realidade; é simplesmente um sinal negativo e equivocado quando olhado isoladamente. Só a palavra de Deus, que se tornou a palavra ou a promessa de Jesus, oferece a chave hermenêutica para compreender a nova experiência salvífica. Por isso, Lucas relata as palavras de Jesus que explicam o sentido de sua morte, através da recordação que as personagens celestiais faze: “Lembrai-vos do que ele vos falou, quando ainda estava na Galileia: O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia” (v.6b-7).

Recordar para compreender. A aparição dos anjos e sua mensagem não trazem, a rigor, nada de novo ou de inesperado. Mas tem a função de reavivar, ou acordar, a memória do que já existia naquelas mulheres, enquanto ouvintes das palavras de Jesus. Na perspectiva dos mensageiros celestes elas deverão recordar, fazer memória, para poder compreender. Porque, para abrir-se à ressurreição não basta ver o sepulcro vazio, tampouco bastaria a visão dos anjos: mas fazer memória, o que não é uma simples recordação do passado – e, no caso, os eventos da paixão e morte de Jesus – mas repensar, reler, ressignificar e atualizar (trazer para o momento presente) aquele evento da vida, paixão e morte de Jesus. Ora, é partindo da ressurreição que se poderá lançar luzes e significados para sua vida e morte. Lucas sublinha repetidas vezes que a memória, a capacidade e o dom de reler/ressignificar, é necessária para abrir-se à ressurreição e à sua credibilidade. Sem ela, não se retém os sinais e o sentido da ressurreição.

Em outras palavras, a ressurreição de Jesus não poderá ser compreendida se não for relacionada à toda a Sua trajetória histórica, culminando na morte de cruz. E esta, por sua vez, não tem sentido a não ser no horizonte mais vasto de uma existência histórica de salvação que envolve todos os homens.

A ressurreição de Jesus é a grande afirmação da parte de Deus de que a vida do seu Filho se tornou uma vida salvífica e redentora. Em outras palavras, Sua ressurreição, operada pelo Pai, foi a afirmação, da parte de Deus, à toda a vida (existencialmente vivida) de Jesus de Nazaré (suas atitudes, gestos, palavras, opções). Deus diz uma palavra definitiva sobre a vida de Jesus: ela é indestrutível. Por isso, ele está ressuscitado, em pé (gr. ἠγέρθη / Egherthe).

Dos vv. 8-11 as mulheres retornam para junto do grupo dos discípulos – Lucas nos dá a conhece-las. Elas seguem a ordem dos mensageiros celestiais e passam para a condição de missionárias, anunciadoras daquela boa-notícia. Elas se tornam, a partir de agora, aquelas importantes testemunhas qualificadas que dão fé ao anúncio. O verbo usado por Lucas (gr. ἀπαγγέλλω / aphangello, anunciar) é um verbo missionário, que sempre indica o anúncio de um evento importante e inesperado (os quatro evangelistas fazem uso dele em suas narrativas pascais, Mt 28,8-10; Mc 16,10.13; Lc 24,9 e Jo 20,18).

Mas elas se deparam com a incredulidade do grupo. Para além do que foi dito acerca da credibilidade dos testemunhos das mulheres, a incredulidade dos discípulos para o evangelista é profunda e verdadeira. É um fechamento e endurecimento da parte deles da verdade divina acerca da ressurreição de Jesus e ao convite de fazer memória da vida e obra de Jesus, para poder fazer a experiência da ressurreição. O verbo usado por Lucas, ἀπιστέω (apisteuo), está no imperfeito e sugere uma incredulidade obstinada e contínua. Os onze resistem acreditar e em fazer a memória de Jesus.

Dentre os onze emerge a figura de Pedro. Ele toma a atitude diferente. Ainda que descrita de modo rápido, “levanta-se, corre até o sepulcro, encontra-o aberto, se inclina para olhar para dentro”, ela é importante, porque reforçada pelo verbo ver (gr. βλέπω / blêpo), que se refere a atitude de olhar com atenção. Este espanto e perplexidade são já um passo importante do discípulo. Mas ainda não é a Fé. Pedro percorreu uma lenta caminhada interior, de revisão de suas convicções: da crise e do medo, na negação de Jesus preso e humilhado, à dúvida diante da mensagem das mulheres, à admiração e ao estupor do túmulo vazio, até culminar no encontro com o Senhor que vive.

O relato conclui-se com a constatação da incredulidade: da parte dos discípulos é obstinada e fechada; de Pedro, é abertura e disponibilidade. Mas ainda se faz necessário um encontro e uma experiência pessoal com Jesus Ressuscitado. Todavia, as mulheres são exemplares: delas emerge a certeza e a abertura para fazer a memória da vida, paixão e morte de Jesus, para fazer a experiência da ressurreição. A ressurreição é a vida de Jesus passada a limpo pelo Pai e pelas comunidades dos discípulos de todos os tempos que se propõem a viver a exemplaridade da vida de Jesus em suas vidas, fazendo Dela memória constante. Isso significa viver uma vida ressuscitada.

Feliz e Santa Páscoa do Senhor!

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.