sábado, 28 de novembro de 2020

HOMILIA PARA O I DOMINGO DO ADVENTO (Ano B) - Mc 13,33-37:

 


O ciclo litúrgico que se inaugura na Igreja a partir deste primeiro domingo do advento abre a leitura do Evangelho segundo Marcos. Para a meditação eclesial, a liturgia propõe o texto de Mc 13,33-37, a conclusão do seu sermão escatológico. Antes, porém, de nos colocarmos no horizonte do texto é importante que compreendamos três pontos: a especificidade dos dois primeiros domingos do advento, que se inserem no primeiro ciclo deste tempo litúrgico, que se encerra em dezessete de dezembro. Em seguida, compreender o contexto amplo do capítulo treze da catequese marcana, e, por fim, o contexto imediato do texto, a fim de colher e saborear sua mensagem.

O tempo do advento divide-se em dois momentos. O primeiro, que se estende até o dia dezessete do corrente mês, apresenta a temática do advento escatológico de Jesus. Ou seja, a liturgia faz com que o fiel, através dos textos bíblicos se abra para o horizonte da segunda vinda do Senhor. Já os domingos seguintes, são marcados pela temática simbólico-sacramental, ou se preferir memorial, da primeira vinda, celebrada com o santo natal. Ora, o Advento não é a espera de Alguém que ainda deve vir, mas é uma renovação do compromisso de tornar manifesto o Cristo que já veio e permaneceu com os seus. Portanto, o papel da comunidade cristã é tornar sempre mais visível a presença do Senhor através do amor. É o tempo para se abrir os olhos e reconhecer Deus no pequenino; no último. Compreendidas as especificidades do tempo do advento, principalmente situando-nos no horizonte do advento escatológico do Senhor, que prepara, portanto, sua segunda vida, e nos convida a estar vigilantes, é que se pode avançar na compreensão do evangelho dominical.

O contexto amplo do capítulo treze da catequese marcana situa-se no sermão escatológico concentrado pelo evangelista neste capítulo. Ele é chamado “apocalipse de Marcos”. Apocalipse significa revelação. Não se trata de tragédia ou catástrofe, mas da consolação do fiel, do povo, da humanidade por Deus. Este gênero literário serve-se de um vasto campo simbólico para transmitir uma mensagem de ânimo e de esperança em tempos de crise e de desolação. Na realidade, a literatura apocalíptica é essencialmente uma literatura de resistência, e a promessa de uma mudança radical para breve alimenta a força de resistência para a comunidade.

Importante consideração: o gênero literário apocalíptico não é uma futurologia, mas leituras da História, que está nas mãos de Deus em última análise. Fala do sofrimento do tempo presente, mas anunciam a intervenção decisiva de Deus, mantendo assim no povo oprimido a esperança, a vigilância e a firmeza. É este também o objetivo do discurso de Mc 13.

O texto que abre o tempo do advento situa-se na conclusão deste sermão escatológico. Imediatamente após estes ditos de Jesus (13,33-37), segue-se a narrativa de sua Paixão, Morte e ressurreição, segundo Marcos. Ora, os momentos finais da vida Jesus mostram o desfecho histórico de sua primeira vinda. Mas o mistério da Ressurreição abre a expectativa para a segunda vinda, a parusia – a plenitude do tempo novo inaugurado pelo anúncio do Reino proclamado por Jesus. Todavia, na incerteza do tempo, do momento em relação a esta volta do Senhor. Certo é, sem dúvida, o acontecimento. Incerto é o “quando”. Diante desta tensão, caberá ao discípulo acolher o convite de Jesus à vigilância.

Duas são as formas de ler o texto de hoje, unindo-as num mesmo horizonte; de acordo com o horizonte do texto, ao interno da narrativa de Marcos, o discípulo deverá tirar as pistas para superar o momento da tribulação pela qual passará o mestre, e saber se comportar diante dos eventos de sua paixão, morte e ressurreição; e a segunda forma é a da assimilação deste convite à vigilância frente a demora e da espera paciente da segunda vinda. A constante vigilância do cristão é toda ela um programa de ação. Mc 13 ensina a vigilância com vistas à nova vinda de Jesus, que quer encontrar os seus ocupados com as coisas do Reino, sobretudo a caridade fraterna.

Ao interno do texto, Jesus está com seus quatro mais próximos, Pedro, André, Tiago e João, sobre o monte das Oliveiras, olhando para Jerusalém e o templo. Nas narrativas anteriores, Jesus fez ver aos discípulos a oferta da pobre viúva no Templo; eles também se maravilhavam com os ornamentos do recinto. Fora dele, podem ver e contemplá-lo, uma vez que não sobrará pedra sobre pedra, conforme dissera anteriormente. Com esse panorama, os discípulos se inquietam e perguntam a Jesus “quando será?” “Qual o sinal de que tudo isso vai acontecer?”  Agora podemos adentrar no horizonte do texto e meditarmos sobre esta atitude. 

Dos vv.33-36, Jesus fala novamente em parábolas. Emergem, aqui, imagens que a comunidade cristã primitiva tinha acerca da parusia inaugurada pela ressurreição de Jesus. Os primeiros cristãos comparavam a ressurreição do Senhor a uma viagem para receber a glória de Deus Pai e seu retorno como a completude do Reino que ele inaugurou, com o ajuste final para todos de acordo com suas obras.

Alguns elementos da parábola merecem destaque. A figura do porteiro e dos servos refletem a imagem das comunidades cristãs às quais o evangelista Marcos escreve, mas também são símbolos dos discípulos que acompanham a Jesus no curso de sua vida pública. É o que o catequista bíblico pretende dizer, ao recuperar o dito do Senhor: “o que vos digo, digo a todos” (v.37a). Encarrega ao porteiro de vigiar, o que talvez represente a imagem dos líderes. O porteiro e os servos (incumbidos cada qual de seus afazeres) devem vigiar, pois não sabem quando virá o senhor da casa. Senhor da casa pode ter o sentido cotidiano de pai de família, dono, proprietário. A casa lembra, em Mc, a comunidade dos discípulos. Logo, o Senhor da casa alude ao próprio Jesus. De ambos se exige a mesma atitude: vigilância.

O termo vigilância aprece só nesta perícope por três vezes, juntamente com um sinônimo do verbo vigiar, “ficai atentos”. A exortação inicial “Cuidado! Ficai atentos” (gr. βλέπετε ἀγρυπνεῖτε / Blépete agrypneîte) é carregada de sentido. O verbo βλέπω (Blepo/Blépen) significa “ver”. Ele indica a capacidade do discernimento, da percepção; o termo ἀγρυπνέω (agrypnéo) significa ficar atento, estar acordado. Durante a narrativa os termos vão variando entre “Cuidado! Ficai atentos” (βλέπετε ἀγρυπνεῖτε), “vigiai, portanto” (γρηγορεῖτε οuν), e, vigiai (γρηγορεῖτε).

A vigilância bíblica não significa “não dormir”, “não cair (ou pegar) no sono”; também não é uma espera passiva. Pelo contrário. A vigilância é uma espera atuante, operativa. É a espera que se vive na atitude. É a capacidade de sempre estar de prontidão. Pois não se sabe a hora noturna em que o Senhor virá. Esta exortação de Jesus pode ser lida na realidade da primeira geração dos discípulos, que mesmo após a ressurreição esperavam a volta iminente – para já – do Senhor; como pode ser lida como uma exortação para as gerações seguintes dada a demora do retorno de Jesus, a parusia. Esta exortação (ordem – convite) de Jesus à vigilância serve de antidoto contra a tentação de ficar dormindo.

Jesus e Marcos se servem da imagem do sono (dormir) para ilustrar a condição do discípulo que não está respondendo ao projeto de Deus através de uma vida empenhada e frutificada nas boas obras, no serviço e no amor fraterno, que constituem a espera ativa e sempre pronta que é a vigilância. Devido ao “atraso” da volta do Senhor, as comunidades ficavam tentadas a abandonar tudo, a esfriar na vida Fé – na relação com Deus e no trato fraterno com os outros. Ainda, pensamentos e atitudes da seguinte ordem também eram perceptíveis ao interno das comunidades: bastava ter aderido à fé e viver descomprometido com a realidade, ou mesmo, como se não houvesse mais nada a fazer. Este é o sono, a dormência, que a comunidade dos discípulos de todos os tempos deve combater e evitar através do dinamismo da vigilância.  Quer diante da demora ou da iminência do acontecimento, cada momento é “o hoje de Deus”. Não devemos nos empenhar somente em vista de um fim próximo; devemos nos empenhar como se o Fim estivesse chegando sempre. O discípulo é chamado à “abrir os olhos” e não esperar que outros resolvam os problemas para si; ou mesmo realizem aquilo que cada um tem a capacidade de fazer. A comunidade é esta casa de servos, onde cada um deve realizar aquilo que recebeu para fazer, enquanto espera a vinda do dono.

O Fim ao qual queremos aludir é o próprio Senhor. E não ao fim enquanto término. Mas enquanto termo, completude, plenitude. Jesus é o Fim, a ultimidade, a plenitude para a qual tudo e todos se encaminham. O Fim, nesse sentido, é Jesus vindo sempre e a todo instante para cada um de nós. Com o advento do Cristo, O Fim, delimita-se o fim da história de injustiças, opressão e luta. Assim, é o fim deste mundo. Todavia, o “Fim” não se identifica com o fim da humanidade, mas sim com a instauração da comunhão definitiva entre a humanidade e sua história com Deus: o novo mundo, o novo céu e a nova terra, o reinado de Deus.

São tempos difíceis e de incerteza que todos e cada um vivemos; tempos estes em que foram nos tiradas todas as programações e certezas. Mas ainda nos resta a Esperança, que se enquadra neste horizonte da vigilância. Como nos encontramos ao final/recomeço deste tempo sempre novo? Vigilantes ou no perigo da sonolência, ou mesmo dormindo?

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família/Arquidiocese de Botucatu-SP


sábado, 21 de novembro de 2020

SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO - Mt 25,31-46:

 


Ha três domingos, o Senhor falava dos mistérios do Reino. A partir de três parábolas refletíamos sobre a ausência de alguém: o dono da casa, que havia saído; o noivo, que tardava em chegar; o patrão viaja e deixa seus bens em forma de talentos. E agora, na conclusão deste discurso escatológico segundo Mateus, o mesmo evangelista nos desafia e nos diz: aquele que pensávamos ausente, sempre esteve presente. O Filho do Homem sempre esteve presente em nosso meio, mais ainda tínhamos dificuldades em reconhecê-lo. Não conseguíamos ver a sua gloria porque ele se deixava ver através dos últimos, dos pequenos, dos desprezados e marginalizados; naqueles que tinham fome, sede; não tinham roupa nem terra; inclusive naqueles que estavam presos. Ele sempre esteve presente, mas, ao invés de vermos sua glória, enxergávamos tão somente sua pobreza.

A solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, apresenta a conclusão do discurso escatológico de Mateus (Mt 24 – 25), a última catequese que o evangelista reuniu a partir do ensinamento de Jesus, que antecede, por assim dizer, os momentos finais da missão pública do mestre, os julgamentos religioso e político e sua morte. É provocativo meditar o evangelho desta solenidade a partir do simbólico contido na parábola que mostra os critérios pelos quais se pautam o Filho do Homem glorificado. A realeza, se é que alguma vez Jesus tenha pretendido essa condição para si – o que vemos em sua vida e em seu agir é diametralmente contrário a esta ideologia régia – se pauta, acima de tudo, no serviço, na entrega e na doação de si para aqueles que se encontram na marginalização. O fio condutor, que será como que um baixo contínuo a ressoar será o dito “todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!”. O texto proposto para a liturgia deste último domingo do ano litúrgico é longo. Por isso deteremos nossa leitura sobre alguns versículos para podermos beber e saborear a mensagem contida neste texto.

Jesus continua seu ensinamento, ao interno do discurso escatológico, recorrendo a uma imagem muito presente na tradição de Israel contida no Talmud. Ali se lê “Na outra vida, o Santo, que bendito seja, tomará um rolo da Torá, o repousará sobre os joelhos e dirá, ‘os que estiverem trabalhando, venham, pois receberão a sua recompensa’”. Como mestre autorizado, Jesus muda o conteúdo deste pano de fundo da tradição de Israel para mostrar o seguinte aos seus discípulos: aquilo que determinará a vida do individuo não será a relação que estabeleceu com a Lei, mas a relação que ele estabeleceu com o seu irmão, porque, conforme dissera Mateus no início do seu evangelho, Jesus é Deus-conosco – Emanuel. Assim, com Ele, a relação da humanidade não se dirige unicamente à Deus, mas com Deus e como Deus ao homem. De modo que não existe relação com Deus que não passe pelas relações humanas. O Deus de Jesus não pedirá contas ao homem se este honrou-O com sua fé, mas se foi capaz de amar como Ele.

O Jesus de Mateus apresenta-se como o “Filho do Homem” glorificado. Esta personagem bíblica, aparece desde a literatura apocalíptica de Daniel, em Dn 7. É uma figura misteriosa, simbólica, que pode, por um lado aludir à condição humana da personagem em questão. De outra parte, representa aquele que foi escolhido e investido por Deus para a tarefa de executar o agir, o senhorio, o querer (justiça) de Deus mesmo na história. É dessa personagem que Jesus se serve também para conceber sua ação e seu ministério. Qual a atitude desta figura escatológica?

“Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” (v.32). Reunirá todos os povos da terra, separará as ovelhas dos cabritos. Interessante que Mateus se serve da expressão literal “todas as nações pagãs” (πάντα τὰ ἔθνη – panta tá Ethne), para indicar que a imagem do juízo não será aplicado a Israel, mas a todas as nações pagãs, isto é, que não fazem parte do povo israelita. Na perspectiva de Mateus, o povo já recebeu seu juízo ao recusar a ação de Deus em Jesus. A ação deste Filho do Homem será a saber separar, como um pastor, as ovelhas dos cabritos (lit. bodes). Sabe separar porque conhece bem aqueles que empenharam sua vida para o bem, daqueles que não assumiram este caminho. As ovelhas são símbolos para os que deram o passo ao discipulado. É importante notar que o julgamento se dá ao interno do rebanho.

Qual caminho é este? Jesus elenca seis atitudes. Estas atitudes não estão voltadas para o campo da religiosidade, da observância ritual. Mas no horizonte das relações humanas. Estas seis atitudes estão voltadas para as necessidades e pelas situações de sofrimento humano. Na perspectiva de Jesus, o que salva o homem não é um comportamento religioso. E sim um comportamento humano.

Dar de comer e de beber significa restituir as necessidades básicas e vitais aos empobrecidos. É recuperar a dignidade humana e o direito de cada um, já assegurado no decálogo, no código da Aliança em Ex 19 – 24. A Lei de Israel já previa também o auxílio ao estrangeiro, uma vez que o próprio povo fora estrangeiro no Egito. Receber o estrangeiro, era, ainda, uma forma de se fazer experiência com Deus; a hospitalidade para com o estrangeiro era a oportunidade de acolher o próprio Deus que visitava seu povo. Basta recordar a experiência de Abraão, junto do Carvalho de Mambré (Gn 18,1-15).

Nos chama a atenção, duas categorias que o narrador da parábola enfoca: os enfermos e os encarcerados. Os enfermos eram, no tempo da sociedade de Jesus excluídos da vida social e religiosa, uma vez que a enfermidade era concebida como castigo, como consequência de algum pecado que a pessoa tivesse cometido ou, como equivocadamente se pensava, alguém de sua família o tivesse feito. A visita ao enfermo, nesse sentido, se torna um gesto de ruptura com aquela mentalidade. Significa recuperar a dignidade da pessoa através do cuidado para com ela, O prisioneiro era, no tempo e na cultura de Jesus, alguém que não suscitava compaixão ou piedade dos outros. Suscitava desprezo. Ir visitar um prisioneiro exigia também alimentá-lo, uma vez que os carcereiros não executavam essa tarefa. Via de regra, os encarcerados eram aqueles que o Império rotulava como subversivo, perigoso, revolucionário. Mas, todas as vezes em que se menciona a situação do cárcere no NT, este se deve ao Evangelho. Nesse sentido, visitar os prisioneiros seria, da parte dos discípulos do Reino, uma tomada de posição e de atitude. Significava voltar-se contra a ideologia imperial e optar pelo Evangelho.   

Depois destas atitudes descritas pelo Filho do Homem – no caso, o próprio Jesus que narra a parábola –, segue-se o questionamento daqueles que foram contados e separados como justos: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?” Segue-se a resposta da personagem apocalíptica: “Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (v.40). O menor, ao interno da parábola, é aquele é colocado como o último, o desprezado, marginalizado e excluído. São todos aqueles que, no tempo de Jesus, não eram contados como pessoas.

O outro lado da moeda também é descrito pelo narrador-personagem da parábola. “Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos” (v.41-46). O adjetivo “maldito” não pode ser entendido como uma sentença de Deus dada ao homem. Deus não amaldiçoa o ser humano. Este dito contido na parábola recorda o fratricídio de Abel, por Caim. Assim, Jesus é muito severo: não oferecer ajuda, não responder às necessidades mais elementares do ser humano, não socorrer o irmão em seus sofrimentos, equivale cometer a mesma falta de Caim. É o mesmo que um homicídio. São considerados malditos não da parte de Deus, mas devido ao seu egoísmo, ao fechamento diante das necessidades dos irmãos, se tornam malditos. A estas pessoas, Jesus não reprova por terem feito algo mal, mas por não terem empenhado a vida pelo bem do irmão, tornando-se instrumento de morte para o próximo.

Diante deste belíssimo texto, possamos fazer a revisão de nossa vida e de nossa missão.

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 14 de novembro de 2020

HOMILIA PARA O XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 25,14-30:


O evangelho deste trigésimo terceiro domingo do tempo comum segue na leitura e meditação do discurso escatológico de Mateus. Os capítulos 24 à 25 abarcam o último dos grandes discursos do evangelho segundo Mateus. Jesus, através desta catequese, dá instrução a seus discípulos a respeito da consumação da história e do destino da humanidade. O catequista bíblico recolheu este ensinamento do Senhor para a sua comunidade, visando oferecer as balizas para que o discípulo possa compreender como será julgado: a partir do modo como tratou, em suas necessidades, os irmãos mais fragilizados; frutificando a vida em boas obras..

Uma vez mais Jesus se serve do recurso das parábolas para ensinar seus discípulos. Conhecida como “dos talentos”, ela tem a intenção de ilustrar como a existência humana é o tempo oportuno e definitivo de fazer frutificar os dons recebidos de Deus e, assim, se preparar para o encontro com o Senhor. A parábola serve-se da realidade de um patrão que antes de sair de viagem confia a três de seus empregados uma soma de dinheiro. Note-se o seguinte: ele reuniu seus servos e confiou a cada um deles uma parte de seus bens. Ele não dá para reaver mais tarde; mas dá na gratuidade. É interessante, ainda, que Jesus mostra uma qualidade deste chefe: ele dá a cada um de seus empregados segundo suas capacidades. Ou seja, é alguém que conhece profundamente os seus. Sabe da capacidade que cada um possui.  

A um deu cinco talentos de ouro – unidade de medida da época. Cada talento equivalia a 34 quilos de Ouro. O primeiro recebeu o equivalente à 170 quilos de ouro. O segundo recebeu dois talentos – 68 quilos de ouro. Por fim, o terceiro recebeu um talento somente. Em seguida, o homem saiu de viagem. 

Os vv.16-17 narram a atitude dos dois primeiros, os quais conseguem lucrar cem por cento. O v.18, por sua vez, relata a atitude do terceiro empregado que decidiu-se por enterrar a quantia confiada a ele pelo patrão. Jesus realça o contraste existente entre os dois primeiros e este último: cem por cento contra zero de lucro.

Segundo a parábola, o dia do acerto chegou com a volta do patrão (v.21-23). O primeiro empregado apresentou-se com os seus talentos lucrados. De cinco talentos (170kg), devolveu ao patrão mais cinco (340kg). Foi elogiado pelo patrão, e recebendo a administração de muito mais, foi convidado a tomar parte da alegria do patrão. O segundo apresentou-se com mais dois talentos lucrados, dos dois que havia recebido (136kg); sendo elogiado pelo seu senhor, igualmente recebendo mais para frutificar e participando de sua alegria.

A quem se aplica a imagem dos dois servos que lucraram as somas recebidas? No tempo narrado, ou seja, no horizonte de Jesus e de sua missão, os dois servos são símbolos daqueles que aderiram ao Senhor e suas palavras, se tornaram discípulos e estão labutando no discipulado. Já no horizonte da comunidade de Mateus, os dois que participam do banquete escatológico já não são mais tratados como servos, mas os crentes comprometidos na fidelidade e que frutificaram em boas obras.

Por fim, chegou aquele que havia enterrado a soma de ouro que o patrão lhe concedeu cuidar. Ele veio logo se desculpando: “Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. Por isso fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence” (v.24-25). O patrão indignou-se com a postura do empregado, motivado por covardia, medo e acomodação. A sua postura frente ao terceiro empregado segue descrita pelo Jesus de Mateus, nos vv. 26-30. E será sobre ela que o relato parabólico se deterá. 

A personagem do terceiro empregado se aplica a quem? No horizonte da vida e da missão de Jesus, o terceiro servo é metáfora para as autoridades e chefes do povo, que através da atitude de enterrar a soma recebida, estão, na verdade recusando o projeto de Deus realizado por Jesus. A imagem é polissêmica – pode atingir vários significados. São certamente os observantes da lei que considerando ter cumprido, ponto por ponto, a vontade de Deus expressa nos mandamentos, e com isso se contentavam. E acabavam desconhecendo a exigência fundamental expressa na missão de Jesus. De fato, fechados na sua mentalidade mesquinha, rejeitaram o Messias, mostrando-se servos infiéis.

Todavia, no nível da comunidade de fé, os terceiros empregados são aqueles que, no ato de enterrar o talento recebido, não empenharam a vida para mais além do que aquilo que se é esperado; são aqueles que não perseveram ou não realizam a vida através da entrega ao projeto de Deus em Jesus, não frutificando nas boas obras. 

Aqui exige-se acurada atenção, pois pode-se conceber equivocadamente que o terceiro empregado possa ser aquele que não tenha aderido a Jesus e feito resistência a ele tão somente. Pelo contrário, este terceiro servo pode ser inclusive aquele se diz fiel de carteirinha, mas que se acomodou no trivial; com o habitual; ou mesmo com o superficial da vida e experiência de fé. É para isso que Jesus se serve desta parábola, de modo a alertar os seus para tal perigo. De igual modo, Mateus a transmite para a sua comunidade.

A finalidade última é de caráter moral; exortar a comunidade a viver o presente na fidelidade e com empenho. E, nesse sentido, a vigilância se torna mais uma vez necessária, e atinge, aqui, seu alto caráter de concretização. Ela consiste na operosidade fiel e incansável, que põe a frutificar a palavra de Jesus deixada como dom aos seus. A lógica do Reino dos Céus é esta: quem soube frutificar, ao longo da vida o talento (os dons recebidos e colocados no horizonte de Deus e de seu Reino), obterá ainda mais quando for julgado pelo Pai. Ao contrário, quem não soube fazer frutificar os dons recebidos, na hora do juízo, ficará privado até mesmo do pouquinho que pensava possuir.

Quem Somos diante da parábola deste trigésimo terceiro domingo do tempo do comum? O que temos feito do talento gratuito que Deus nos deu, de acordo com nossas próprias capacidades? Que imagens temos de Deus: a de um deus patrão e carrasco ou aquela verdadeira de um Pai que dá o todo necessário para poder frutificar a vida, crescer e ser mais. 

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família/Arquidiocese de Botucatu-SP.

sábado, 7 de novembro de 2020

HMILIA PARA O XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 25,1-13:

 


O capítulo vinte e cinco do evangelho de Mateus abre o quinto e último discurso de Jesus em que subdivide-se a catequese mateana. Vale lembrar que o primeiro evangelho foi estruturado pelo seu catequista/autor em cinco grandes discursos a exemplo da Torah, que contém os cinco primeiros livros da tradição de Israel. Neste capitulo, pela última vez aparece o termo Reino dos Céus – que em última análise é o mesmo Reinado de Deus, isto é, sua atuação histórico-salvífica através de Jesus de Nazaré.

Mateus, inicia o chamado discurso escatológico, o qual trata da ultimidade/novidade e plenitude da ação de Deus em Jesus, recuperando e transmitindo à sua comunidade uma parábola contada pelo mestre, a qual trabalha o tema da vigilância. A parábola apresenta elementos inerentes a uma festa de casamento. Sabemos que as parábolas possuem três intenções: 1) servindo-se de elementos conhecidos da realidade, chamar a atenção do leitor-ouvinte; 2) provoca-lo; e estimulá-lo a mudar de atitude. Como vemos esses elementos presente na parábola de hoje?

Jesus opera mudanças significativas nos costumes da festa de casamento, ao iniciar a narrativa da parábola das dez virgens. De acordo com o costume, era o noivo que ia ao encontro das virgens. Aqui, Jesus subverte a lógica do costume, e diz que são as virgens que correm ao encontro do noivo. Outra subversão contida no ensino do mestre é a ideia do fechamento das portas, após a entrada do noivo. Uma festa de casamento, no tempo de Jesus, como bem sabe-se, era um evento aberto para todo o povoado. Jesus usa destas hipérboles, justamente para chamar a atenção do leitor-ouvinte para a mensagem que ele quer transmitir.

Quem são as dez virgens, das quais Jesus se serve para a parábola? Virgens, são aquelas que ainda não se casaram, nem foram ainda prometidas em casamento, no tempo da sociedade de Jesus. Mas que estão à espera do noivo. Segundo Jesus, elas tomam suas lâmpadas. No entanto, a melhor tradução seria “tochas”, em lugar de lâmpadas. A atitude delas foi a de sair ao encontro do esposo. Mateus serve-se da imagem preferida do profeta Oséias, na qual a imagem do esposo é aplicada à Deus. Ele seria o esposo e o povo, a esposa.

Das dez virgens, cinco eram prudentes, e as outras, imprudentes. Porém, Mateus utiliza um termo que Jesus proibiu de ser usado ao interno da comunidade dos discípulos, o termo morós (gr. μωραὶ/μωρός), o qual define uma pessoa tola, descrente, ímpia. Uma ofensa muito grande, que aparece já no Sermão da Montanha, em 5,22. As outras cinco eram inteligentes, prudentes e sábias. Mateus opera aqui uma inclusão, uma delimitação textual, como que fechando e amarrado os cincos discurso, ao relembrar através destes termos utilizados na parábola por Jesus, o Discurso inaugural em Mt 7,21-24, na parábola do homem sábio que construiu sua casa sobre rocha, em contraste com o imprudente que construiu sua casa sobre a areia. Neste capítulo vinte e cinco, bem como em Mt 7, considera-se sábio quem tem a capacidade de realizar o querer de Deus; cooperar com seu projeto criador e gerador de vida.

As virgens sábias (prudentes, inteligentes), segundo a parábola de Jesus, trazem consigo mais azeite. Ao contrário das virgens tolas. O óleo é também um símbolo para as boas obras do ser humano. As boas obras, nesse sentido, são o óleo que não pode ser dado ou emprestado. No que tocam as obras de justiça, as boas obras, cada um deve empenhar a vida nesse caminho.

O v.11 chama a nossa atenção. A cinco virgens tolas, ao voltarem com o óleo que saíram comprar, dão com as portas fechadas. De súbito, começam a chamar pelo noivo: “Senhor! Senhor! Abre-nos a porta”. Senhor é o título divino com o qual o judeu piedoso, ortodoxo, se dirige à Deus. A resposta contida no v.12 é muito importante: “Ele, porém, respondeu: Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!” Ela está relacionada ao mesmo dito de Jesus em 7,22-23, “Não vos conheço. Afastai-vos de mim, vós, que praticais a iniquidade”.

Jesus quer mostrar aos discípulos que não basta uma verdadeira convicção ou confissão de fé, se ela não se traduz na vida, através da atitude de colocar-se no cumprimento do querer e da vontade de Deus, mediante as boas obras. Nisto consiste a vigilância evangélica para a qual o Senhor nos convida a permanecermos e perseverarmos.  Por isso, a vigilância bíblica não está ligada ao estar acordado, ou ao fato de não dormir. 

A vigilância bíblica indica uma atitude operativa. Ou seja, a capacidade de estar consciente de que se deve fazer algo. Logo, falta da vigilância indica a decisão de não fazer nada. Assim, a vigilância para a qual Jesus convida ao final do evangelho, consiste na atitude, na capacidade operativa de cooperar com o projeto criador e gerador de vida de Deus.

Quem somos diante desta parábola? Quais atitudes temos trazido conosco? Temos estado vigilantes diante do querer e do projeto de Deus, para o qual Jesus nos direciona?

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família. Arquidiocese de Botucatu - SP



sábado, 31 de outubro de 2020

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS - Mt 5,1-12:


 

A solenidade de todos os santos nos propõe o capítulo quinto do Evangelho segundo Mateus. Na catequese mateana, este capítulo funciona como o discurso inaugural de Jesus, encerrando-se em 7,11. Esta primeira catequese de Jesus é de fundamental importância para a comunidade dos discípulos e para as gerações futuras.

Com este discurso inaugural, Jesus faz uma releitura ou uma reinterpretação da Torá, a Lei de Deus, contida no Decálogo. Mateus, em seu propósito catequético e redacional, identifica a Jesus como o novo Moisés, que dá, agora, um sentido novo à Lei, através do discurso inaugural do Sermão da Montanha. Este sermão abre-se com as bem-aventuranças.

Jesus lança as bases do Reino dos Céus, cuja proximidade havia anunciado (Mt 5-7). O Sermão da Montanha corresponde ao modo de ser e agir, propostos aos que são convidados a se tornar discípulo do Reino. Jesus não prega um código dc moral. Suas palavras apontam, antes, para um ideal, um projeto de vida, que tem o Pai como fundamento e modelo (Mt 5,48) (VITÓRIO, 2017, p.42).

As Bem-aventuranças fazem parte do gênero profético de congratulações ou felicitações, podendo ser de estilo sapiencial ou escatológico. Este último alude à promessa de intervenção salvadora de Deus na história para salvar e libertar o ser humano e seu povo. É desse estilo que Jesus se serve nas bem-aventuranças que dirige aos seus.

Após dar início a sua missão, depois de ser batizado por João, o batista, e ter sido tentado no deserto quarenta dias, e retornar para a Galileia e reunir um grupo que se decidira por segui-lo, o evangelista começa o capítulo quinto situando o leitor-discípulo na narrativa, num novo cenário. Jesus, seguido de seus discípulos e de uma multidão que o seguia, conforme somos informados em Mt 4,25, chegou a uma montanha ali no território da Galileia. O autor nos descreve a atitude de Jesus.

Alguns detalhes nos chamam a atenção na redação deste texto das bem-aventuranças de Mateus: o número de ditos, que totalizam 8. E número de termos contidos, que somam 72. O número oito, na tradição cristã, alude ao dia da ressurreição, o oitavo dia, portanto o domingo. É, pois, símbolo para o Ressuscitado. Mateus quer acenar o seguinte para seus leitores, que quem se deixa guiar pelos ditos contidos neste texto possuirá já a plenitude da vida mesma do Senhor ressuscitado. O número setenta e dois alude numero das nações, em Gn 10. Mateus resgata essa ideia para a sua comunidade, a fim de fazê-la ver que o projeto contido na Palavra de Deus comunicada ao povo no Sinai, não se restringe a Israel somente, mas é um projeto de salvação universal, apresentado, agora, em sua originalidade por Jesus no Sermão da Montanha.

“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los (v.1-2)”.  Dois pormenores merecem a atenção do discípulo-leitor nestes dois versículos introdutórios. A personagem da “multidão” e a montanha (lugar teológico).

Jesus dirige seu ensinamento desde a montanha. Esta é muito mais que uma localização geográfica, mas um lugar teológico. Ela remete o leitor-discípulo do primeiro evangelho a outra montanha importante na história do Povo: o Sinai. Ali, YHWH dera a Lei, o decálogo, à Moisés. Mateus quer ensinar para os fieis discípulos de sua comunidade judeu-cristã, que o que Jesus faz equipara-se e supera o gesto de Moisés, ao transmitir ao povo no deserto a Lei que Deus havia dado.  

A multidão, ao interno do evangelho de Mateus, será sempre aquele grupo que ouve falar de Jesus, se encanta com suas palavras e com seus ensinamentos, mas não dá o passo para o discipulado, ou seja, não compromete a vida com o ensinamento e a vida de Jesus. Os discípulos, pelo contrário, são aqueles que aderem ao ensinamento de Jesus, saem da multidão e dão o passo do discipulado, permanecendo com Ele, para, mais tarde, tornarem-se apóstolos, missionários do Reino. O evangelista afirma que Jesus viu as multidões, mas os que se aproximaram foram os discípulos. Mas é claro que o ensinamento que Jesus dirige também contempla a multidão, visando provoca-la a dar o passo para o discipulado.

O ensinamento contido nas Bem-aventuranças não são palavras de consolação, muito menos uma pregação moralista para suportar, tendo em vista uma recompensa celeste. É um apelo de alegria e exultação, que prepara um anúncio de libertação e intervenção de Deus. Não se trata de oito diferentes tipos de pessoas, e, sim, oito diferentes ilustrações da vida do discípulo centrada no Reino. O vocábulo bem-aventurado, feliz, refere-se à condição de quem é abençoado por ter Deus como centro de sua vida (cf. VITÓRIO, 2017, p.42).

Jesus começa o ensinamento, dizendo: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus (v.3)”. Ele declara serem felizes os “pobres em (ou pelo) espirito”. Quem são estes? Pode admitir dois sentidos, a pessoa dotada da virtude da humildade, que corresponde à interpretação dos textos de Qumran (hbr. ‘anwê ruah), bem como a pessoa pobre no sentido econômico. Quer seja o humilde ou o miserável, este é declarado feliz quando tem a atitude de apresentar-se diante de Deus com as mãos vazias, porque soube abdicar de sua autossuficiência e atitude orgulhosa. E, mesmo sofrendo a exclusão social, se abrem para Deus e nele põem sua confiança. Possivelmente a melhor tradução para esta primeira bem-aventurança seja “pobres com espírito”. Aqueles que se recusam a escolher o caminho da idolatria dos bens deste mundo para mudar a situação. Jesus diz ser destes o Reino dos Céus. Em outras palavras, entrarão no mundo dos ressuscitados para a vida.

No v.4, Jesus declara serem felizes (bem-aventurados) os aflitos (os que choram, em Lc 6). Mateus mudou a versão de Lucas embasando-se na profecia de Is 61, onde se lê que “O Senhor enviou-me para consolar os aflitos”. Os aflitos são aqueles sofrem os golpes de uma realidade que ainda está sob influencia das forças contrárias ao Reino, o Mal. Vítimas da violência e da injustiça, que não tem a quem recorrer, mas que tem a Deus para consolá-las. Quando os valores do Reino não permeiam as relações interpessoais e o tecido social, as pessoas são cruelmente violentadas. São aqueles que se recusam a revidar violência com violência (Mt 5,39; Rm 12,17; 1 Ts 5,15). Jesus declara que Deus mesmo será o consolador, sofrendo com elas (Is 40,1; 61,2). A consolação prometida é a salvação final e definitiva.

Nesta mesma lógica, Jesus diz serem bem-aventurados os mansos (v.4). Os mansos, pela força de Deus, recusam-se a ser violentos e, desta forma, quebram a maldita espiral da violência. Portanto, serão herdeiros da terra que, com seu gesto de resistência não violenta, ajudaram a construir (SI 37[36]) (cf. VITÓRIO, 2017, p.43). Com certeza esta bem-aventurança foi criada por Mateus, inspirando-se no Sl 37. De certo modo ela repete a primeira bem-aventurança. Todavia, em primeiro plano nesta felicitação está a relação com o próximo. Diante dos outros, o manso apresenta-se desarmado, sem defesas nem esquemas ou autoproteção, colocando-se na dinâmica da não-violência. Um modelo perfeito desta bem-aventurança é o próprio Jesus (Mt 11,29, “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração...). Somente os não-violentos, aqueles que quebram a cadeia (espiral) da violência podem possuir a terra (que num sentido metafórico alude ao Reino de Deus).

A bem-aventurança relacionada aos famintos e sedentos de justiça pode ser compreendida de duas maneiras: 1) Os famintos e sedentos da justiça não têm quem os defenda, para fazer valer seus direitos. Na Lei mosaica, todos e, especialmente, os mais fracos e desprotegidos deveriam ter um protetor (go’el). No projeto de Jesus, o Pai, em pessoa, será o go’el dos discípulos do Reino. Esta bem-aventurança é difícil de traduzir do original grego, que, literalmente poderia vir traduzida assim “Felizes os famintos e sedentos da justiça”. O artigo “a” faria referência à Justiça do Reino (cf. Mt 5,20). E, sendo assim, esta bem aventurança abre-se para uma segunda interpretação: 2) os bem-aventurados por terem fome e sede da Justiça do Reino são saciados quando colaboram para que esta Justiça (que é o agir e a vontade de Deus acontecendo na história) se cumpra, ou seja, se propõem a fazer aquilo que o pai quer.

No v.7, Jesus declara: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Um tema muito querido por Mateus. A misericórdia na bíblia não se trata de um sentimento, mas de uma atitude operativa em favor do outro. É uma atitude relacionada à vida concreta. Na mentalidade do evangelista, o Pai, no último juízo, se mostrará misericordioso com aqueles que viveram uma existência pautada pelo amor o pela misericórdia para com o próximo. Quem tem o coração cheio de misericórdia assimilou o modo de ser de Deus, cuja bondade é eterna (SI 136 [135]). Assim, será também destinatário especial da misericórdia do Pai (cf. VITÓRIO, 2017, p.43).

A bem-aventurança relacionada à pureza de coração deve ser entendida corretamente. São aqueles que são puros desde o íntimo do ser, para além das aparências. Não são pessoas de fachada. Sem falsidades e sem dolo. São transparentes, e essa condição os coloca lado-a-lado com Deus.

Os “fazedores de paz (gr. eirehnopoioí)” empregam toda sua vida para construir o Shalom (paz) neste mundo, propiciando um nível de vida humano e justo onde todos desfrutem do bem-estar e da prosperidade. Serão chamados filhos de Deus por construírem o mundo querido por Deus. São aqueles que colaboram para o diálogo, a concórdia, a reconciliação entre as pessoas, costurando novamente os fios corroídos e selando os laços afrouxados da relações humanas. Jesus diz que, no último dia, estes serão reconhecidos solenemente por Deus como autênticos filhos seus.

Nos vv.10-12, Jesus diz diretamente aos discípulos (bem-aventurados vós...) que estes são felizes por serem perseguidos por causa da Justiça, recebendo injurias, sendo perseguidos e alvos de mentiras por causa dele. Os discípulos deverão se alegrar e exultar, porque a recompensa nos céus será grande. Quem assume viver a dinâmica do Reino, abraçando a causa de Jesus, atrai sobre si insultos, perseguições, mentiras e maledicências. Todavia, os perseguidos por causa da justiça não devem temer, tampouco recuar, pois já possuem a recompensa mais valiosa: o Reino dos Céus. Essas situações difíceis são para eles motivos de alegria e de exultação, contrariando as expectativas do mundo que os quer tristes e derrotados. Sua sorte se compara à dos antigos profetas (cf. VITÓRIO, 2017, p.43).

As bem-aventuranças compreendem a síntese do programa de vida de Jesus e, consequentemente, dos seus discípulos e discípulas de todos os tempos. É um texto belo, mas muito fácil de ter seu sentido deformado, se interpretado de modo equivocado, como geralmente tem acontecido. Ora, falar em todos os santos e santas tem tudo a ver com o autêntico seguimento de Jesus de Nazaré. Por isso, é importante refletir cada vez mais sobre as palavras de Jesus que o Evangelho apresenta.

O discurso da montanha é um indicador de direção para o discipulado de Jesus e, portanto, para a santidade. Devemos, pois, concentrar nossa reflexão na mensagem evangélica, evitando que esta solenidade se transforme em mera apologia ao devocionismo ingênuo ou mesmo estéril; que faça pensar ou conceber a santidade, a que todos somos chamados, como sendo algo de outro mundo ou só possível a alguns “separados ou alienados” da realidade. A santidade vive-se na dinâmica relacional e histórica, ou seja, através das relações fraternas restauradoras da dignidade humana, e nesta realidade bem concreta. Por isso, é preciso ter clareza que o programa de vida de Jesus, as bem aventuranças, não se trata de um discurso alienante ou desvinculado da realidade concreta; tampouco um conjunto de ditos moralizantes, mas como processo de seguimento e discipulado, bem como balizas para se viver o projeto do Reino aberto e proposto a todos os batizados e batizadas.

No hoje de nossa vida e de nosso discipulado podemos nos considerar bem-aventurados pelo Senhor? Estamos na multidão já conseguimos dar o passo do discipulado, assumindo as Bem-aventuranças como nosso programa de vida? Nossas comunidades se encontram inseridas nesse projeto de seguimento e discipulado ou concebem-se santamente alienadas e separadas da realidade concreta e histórica onde é chamada a viver e testemunhar a verdadeira santidade de vida? Ora, não vivemos a aventura da santidade sozinhos. Somos chamados à santidade com os nossos irmãos e com eles e através deles nos santificamos também. Será conseguimos reconhecer os bem-aventurados de Hoje? Aprendamos também com eles. 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Sagrada Família /Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 24 de outubro de 2020

HOMILIA PARA O XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 22,34-40:

 


O evangelho deste trigésimo domingo do tempo comum continua a leitura do capítulo 22 do evangelho de Mateus, o qual apresenta o último conflito entre Jesus e as lideranças do povo. Devemos sempre situar a cena em seu contexto. Jesus está em Jerusalém e ali acirra-se a resistência, a recusa e a rivalidade por parte dos chefes do povo. Nesta perícope, o evangelista apresenta o último ataque empreendido por eles contra Jesus.

No templo, Jesus tratou desmascarar as ações dos chefes, acusando-os de ladrões e assassinos. Ladrões, porque cooptavam o povo simples para si, usurpando o lugar de Deus, e assassinos, porque o faziam pela força. Diante deste agouro provocado por Jesus, as autoridades tratam de deslegitima-lo diante dos seus seguidores. Todavia, Jesus sai sempre vencedor destes conflitos, e seus seguidores, por outro lado, seguem entusiasmados com Ele.

“Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus” (v.34). O narrador se refere ao questionamento que os saduceus fizeram a Jesus acerca do tema da ressurreição dos mortos. Os fariseus, tendo conhecimento do fato, “reuniram-se em grupo” para novamente testarem a Jesus. Aqui, o autor do evangelho serve-se do Sl 2,2, onde se lê que “os reis da terra se reuniram” contra o Senhor Deus de Israel. Mateus opera a reinterpretação do texto do salmo à luz de Jesus, de modo a iluminar a vida da sua comunidade de fé que passa à limpo a vide de Jesus de Nazaré, a fim de reconhece-lo messias esperado.

Quem lhe dirige a pergunta é um legista, ou seja, um doutor da lei, o qual tinha um valor e peso muito altos em suas palavras, somado ao fato de que era um perito da Escritura; os fariseus unem forças com esse outro grupo visto que no texto bíblico do domingo passado saíram frustrados ao juntarem-se com os herodianos na questão do imposto. Os fariseus, unidos aos doutores da lei querem tentar a Jesus. Mateus utiliza o verbo “tentar” (gr. πειράζων / peiráson), que já apareceu no capítulo 4, na narrativa das tentações no deserto, por parte de Satanás. Este verbo segue sendo utilizado pelo evangelista para ilustrar as ações dos fariseus, escribas, saduceus frente a Jesus. Ora, o que Mateus está querendo insinuar para a sua comunidade é que os chefes religiosos do povo, ao invés de serem instrumentos de Deus, estavam a serviço do opositor, de Satanás; do Diabo, aquele que gera a divisão. Enquanto o Deus de Jesus é amor que se coloca à serviço, o deus deles é o poder que deseja dominar. Aquele que está ao lado do poder age conforme Satanás.  

Eis a tentação: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” (v.36). Novamente o título de mestre aparece na boca daqueles que se posicionam hostis a Jesus. Atenção: a pergunta não está colocada com a intenção de se recolher através da resposta um ensinamento importante, mas está posta na intenção de condenar. Os doutores e fariseu sabem qual é o maior mandamento da lei de Moisés: é o mandamento do repouso sabático; a prescrição para guardar o Sábado. A observância deste único mandamento correspondia ao cumprimento de toda a lei. Sua transgressão equivalia à transgressão de todos os outros mandamentos. Para isso estava prevista a pena de morte.

Mas por que interrogam a Jesus sobre isso? Evidentemente porque Ele já havia atuado em dia de Sábado, em favor da gente simples e sofredora. Quando Jesus foi interrogado pelo jovem em Mt 17, ao elencar os mandamentos, Ele deixa de fora da lista os três primeiros mandamentos e grandes mandamentos relacionados exclusivamente à Israel. E indicou aqueles que encontram-se ligados às relações humanas e fraternas, e, que, por sua vez, adquiriam relevância universal, e não aqueles que ficavam confinados ao povo de Israel.

Jesus responde à pergunta-armadilha sem citar os mandamentos. Ele responde com a profissão de fé religiosa do povo de Israel, contida em Dt 6,4, o Shemá (Escuta, ó, Israel), ainda que Mateus omita a ordem/verbo “escuta”, ao contrário de Marcos, que o explicita. “Jesus respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!” (v.37). Interessante é a mudança (ou releitura) que o próprio Jesus faz do Shemá. No texto contido em Dt, não aparece a palavra entendimento/mente, que Jesus se serve, mas a palavra “força”.

Ora, na compreensão e experiência de Deus que Jesus faz e transmite através de sua vida, o Deus de Israel não é aquele que se alimenta e consome-se da força vital do ser humano, do homem de fé; mas é aquele que dá a vida, que promove o nutrimento do homem. O Deus de Jesus não é um deus que pede, mas que dá, oferece-se e propõe-se em gratuidade.

Jesus acrescenta que este é o maior de todos os mandamentos. Mas este não é um mandamento. Ele, então, o eleva à condição de mandamento. Na perspectiva de Mateus, Jesus atua na ruptura, continuidade e superação da história de seu povo. Imediatamente, acrescenta: “O segundo é semelhante a esse: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (v.38). Ele toma a prescrição de Levítico relacionado ao amor ao próximo. Para Ele, não há relação de amor com Deus que não passe pela relação humana e fraterna com o próximo, com o outro.

Se faz necessário questionar-se sobre o seguinte: é difícil entender como que um doutor da lei interroga a Jesus sobre a pergunta mais simples: Qual o maior dos mandamentos. Qualquer criança do ensino básico, bem como o bravo israelita, ao acordarem pela manhã rezam a profissão de Fé “Shema Israel”. Imagine-se o doutor da lei, diante de Jesus, chamado por todos de mestre, fazendo uma pergunta concernente a um aluno de primeira série do ensino religioso.

Jesus responde tranquilamente. Ele sabe a resposta: “Amaras o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda alma e com todo o teu entendimento”, isto é, com todo o teu “ti mesmo”. Este é o maior e primeiro mandamento. O segundo é igual: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Interessante: à Deus, com o todo de “ti mesmo” e ao próximo como ti mesmo.

Na lista formal e oficial das seiscentas e treze prescrições, elaboradas por Maimonedes, o mandamento “amarás o teu próximo como a si mesmo”, ocupava o ducentésimo sexto (206º) lugar. Antes deste, portanto, vinham duzentos e cinco mandamentos. Jesus o desloca de lugar, colocando-o em segundo, e igual ao primeiro. Ora, recordemos que toda a cena deste confronto acontece ao interno do Templo de Jerusalém, quando todos estão ali para cumprir o Primeiro mandamento; quando todos estão lá para olhar para Deus e amá-lo. Daquele lugar, Jesus se lembra do próximo. Não há como amar à Deus sem que se ame o próximo. Toda a Lei e os Profetas se sustentam nestes dois mandamentos.

Não são dois mandamentos a mais, de uma lista maior. Não. Eles são os sustentáculos de toda a Escritura viva que norteia a vida do homem. Jesus já havia dito isso no Sermão da Montanha, quando disse “faça aos outros aquilo que os outros façam a você”, e acrescentou que toda a Lei e os Profetas, dependem disso. Um paralelo com o Evangelho de João é oportuno. O evangelista sintetiza os mandamentos num único mandamento: “amar ao próximo”. E é interessante que, no momento em que se discute sobre a autoridade de Jesus, ele recorda ao legista – aquele que tem autoridade de fazer e explicar as leis, e quase sempre em benefício próprio – que o poder de Deus está em comandar o que é impossível e exigente, o amor. Nenhum poderoso tem um poder tamanho que possa dizer “você tem que me amar”. Não se obriga ninguém a amar. No momento que Deus diz que o primeiro e o segundo mandamento enquadram-se no amor, Ele está renunciando a ser amado. Consequentemente, a única atitude que ele tomará será a de nos amar por primeiro, como nos dirá o Quarto Evangelho.

Toda a narrativa se dá ao interno do Templo de Jerusalém. Aquele templo que, na época de Mateus, já não existia mais. Havia sido destruído pelas legiões romanas. O evangelista, com esta reinterpretação feita por Jesus, que recupera para a sua comunidade quer dizer: “o verdadeiro templo é você mesmo”, “com o todo de ti mesmo, tu amas a Deus; como a ti mesmo, tu amas o teu irmão”. Este é o templo e o culto que agradam a Deus e que nos insere na pedagogia de Jesus.

Quando todos olham para Deus, então Jesus reorienta o olhar para o irmão. O amor à Deus passa pelo amor, pelo cuidado, pela compaixão para com o próximo. Este é o culto agradável à Deus. Não há outro. Qualquer outro é ilusão e mentira. Muitas vezes transformamos a religião em algo que é “para mim mesmo”; isso será o estrago maior para a religião.  Ela não é para mim. Ela é para Deus e para o irmão.  

Na sua resposta Jesus elenca não um, mas dois mandamentos presentes na lei mosaica, um do Deuteronômio (6,5), e o outro no Levítico (19,18). Em concreto, ele quer afirmar a equiparação prática entre o amor a Deus e o amor ao próximo. Os dois mandamentos estão implicitamente situados no mesmo pedestal.

Jesus conclui sua resposta, dizendo: “Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (v.40). Lei e Profetas são a síntese das escrituras sagradas de Israel. Jesus, ao elevar à condição de mandamento o amor à Deus e ao irmão, está dizendo que toda a Sagrada Escritura (Lei e Profecia) se alicerça nesta ordem relacional, neste modo de ser e de existir a partir do horizonte de Deus, encarnado na história, através do amor para com o próximo.

Por fim, uma vez mais Jesus sai vitorioso da armadilha pretendida pelos chefes do povo, no intuito de deslegitimá-lo. Jesus sai vencedor ao proclamar uma nova realidade nas relações entre Deus e o ser humano, não mais embasada sobre a prática e observância dos preceitos da lei, mas sobre a acolhida e a prática de Seu amor.

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família / Arquidiocese de Botucatu – SP.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

HOMILIA PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 22,15-21:

 


A liturgia deste vigésimo nono domingo do tempo comum continua a leitura do capítulo 22 do evangelho de Mateus, a partir do v.15, o qual apresenta-nos uma controvérsia entre Jesus e as lideranças do povo, os fariseus, seus discípulos e os herodianos. O tema do conflito é o imposto a ser destinado ao imperador. Os capítulos e versículos precedentes mostraram uma série de acusações feitas por Jesus às autoridades do povo. As autoridades do povo revidam, a partir de agora. É a vez delas atacarem e tramarem contra Jesus. Tratarão de desacreditá-lo diante de seus seguidores.

 

O texto original começa assim: “Então, os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra” (v.15). O adverbio “então” serve de conexão com o evento anterior, a parábola contada por Jesus sobre a festa de casamento, que denunciara a recusa dos primeiros convidados para as bodas, metáfora para as lideranças que agiam mediante a conveniência própria. Nesse sentido, o que virá a seguir será a reação dos chefes do povo em relação à Jesus. A conveniência é o que determina o agir das lideranças religiosas. A expressão “fizeram um plano (lit. reuniram-se / juntaram-se; gr. συμβούλιον)” nos evangelhos soa sempre negativamente, e indica uma trama, um complô. Atenção para a informação que Mateus dá à seus leitores.

 

“Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes” (v.16a). Fariseus e herodianos são os grupos que rivalizam com Jesus nesta narrativa. Porém, ambos se odiavam. Os Herodianos, partido de Herodes, assim como ele eram favoráveis à dominação romana, uma vez que o tetrarca era um fantoche do poder imperial. Os fariseus, por sua vez, eram contrários à dominação romana. Mas para ambos existe um perigo em comum: Jesus. Agora, colocam-se lado a lado para eliminá-lo.

 

Os rivais entabulam um diálogo com Jesus, chamando-o de “Mestre”. Este vocativo está sempre na boca dos adversários de Jesus ou daqueles que lhes são hostis no Evangelho de Mateus. Faz parte do vocabulário adulador. Todavia, a afirmação que fazem sobre Jesus é correta: “sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências” (v.16b). Reconhecem que Jesus mostra o caminho de Deus segundo a verdade, porque não se deixa levar pelas opiniões dos outros, nem julga segundo as aparências. Eis aqui uma diferença entre Jesus e os chefes do povo, que procuravam realizar as coisas visando admiração e procurando a própria vanglória. Jesus, ao contrário não faz isso; não se referencia a si mesmo, tampouco procura sua própria glória. Não faz nada visando suas conveniências, mas as o bem do ser humano. Quando se coloca o bem do outro acima de suas próprias conveniências, já não se faz mais conta das aparências. Já não se leva mais a sério a opinião dos outros. Na verdade, Mateus pretende mostrar através desta constatação feita pelos fariseus e herodianos, que Jesus é diferente daquelas autoridades.

 

No entanto, eis a insídia: “Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” (v.17). Observe-se que a fala dos chefes está na forma imperativa. Não se está, da parte deles, pedindo uma opinião. Antes, estão exigindo de Jesus uma resposta. Não é um pedido, e sim, uma imposição. Estão impondo a Jesus uma posição acerca do imposto que devia ser pago por todos (entre 12 a 65 anos) ao poder dominador: Roma. Trata-se de uma pergunta auspiciosa. O imposto já havia gerado muitas revoltas ao interno da vida do povo. Basta recordar a revolta liderada por Judas, o Galileu, que levantou contra o poder imperial por conta desse tributo. É, pois, uma armadilha em forma de pergunta. Dependendo da resposta se desencadeará o agir dos líderes.

 

Se Jesus responde afirmativamente irá contra a Lei, segundo a qual o único Senhor do povo é Deus, e, neste caso estaria afirmando ser Cesar maior do que Deus. Não esqueçamos o fato de que a cena se dá ao interno do pátio do Templo. Se Jesus responde de maneira negativa pode ser acusado de agitador e de subversivo frente ao poder romano. Jesus pode ser preso imediatamente pela guarda do templo, se se posicionar dessa forma.

 

Ora, se os chefes se dão ao direito de preparar uma armadilha a Jesus, este da mesma forma lhes devolve a resposta em gesto e pergunta. Depois de chama-los de hipócritas e constatar a armadilha, ele lhes pede uma moeda e põe lhes a pergunta: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda? Eles responderam: De César” (v.20). Os chefes mostram-no uma moeda romana. Estas eram confeccionadas com a efigie do imperador, no caso Tibério, numa das faces da moeda, em que se trazia a inscrição “Divus Augustus Pontificis Maximus (Divino Cesar, Augusto e máximo pontífice)”, e, na outra face da moeda encontrava-se gravada a efigie de sua mãe, representada pela deusa da paz. Mas ao interno do Templo era proibido trazer consigo moedas romanas, justamente devido ao fato de que elas apresentavam o imperador como um ídolo, e, segundo o Deuteronômio, se proibia fazer representações de figuras humanas, porque era isso que as religiões pagãs vizinhas de Israel faziam. Ora símbolos pagãos eram proibidos dentro do santuário. Por isso, a existência das bancas de cambio no pátio do templo, para trocar a moeda romana pela do templo. O que fazem ali com uma moeda romana as lideranças judaicas?

 

Precisamente é essa a denúncia que o evangelista deseja fazer: mostrar que são pelos seus próprios interesses que as autoridades do povo agem. Este é o verdadeiro deus a quem os fariseus prestam culto. Ora, aqueles que travavam com o povo uma luta sobre o que é puro e o que é impuro; eram escrupulosos e meticulosos no cumprimento do preceito, portam consigo, ao interno do templo, lugar da pureza ritual, algo que é impuro diante da Lei. Quando se trata do dinheiro e de suas próprias conveniências passam por cima de tudo; relativizam a tudo. Eis a armadilha que lhes faz cair Jesus.

 

Jesus não responde se é lícito ou não pagar o imposto. Ele usa outro verbo que dá a ideia de restituição. Ou seja, se as lideranças são contrárias a ideia da dominação romana, deverão, pois, devolver e restituir à Cesar a moeda que lhe pertence, e não ficar com ela em poder deles. Se não querem, portanto, a dominação de Cesar, não devem usar para benefício próprio aquilo que é dele. Devolvam-no, é o que quer dizer Jesus. Por isso, “Dai, pois, a Cesar o que é de Cesar” (v.21).

 

“A Deus, o que é de Deus”. O que é preciso dar a Deus, segundo Jesus? Aqui deve se recordar a parábola dos vinhateiros homicidas. Aqueles vinhateiros eram metáforas para as lideranças do povo, os quais usurparam o lugar de Deus na vida religiosa do povo. Portanto, o que deve ser devolvido a Deus é o seu lugar, tomado pelos chefes. Esta é tarefa realizada por Jesus em toda a sua vida e ministério público.

 

Dobrar os joelhos diante de Deus significa logicamente recusar dobrá-los diante dos homens. Reconhecê-lo como Senhor comporta a negação de qualquer pretenso senhorio humano sobre as pessoas. Devolva-se o imposto ao imperador, mas a Deus seja tributada a adesão total e exclusiva das nossas pessoas porque nós não temos um outro Senhor (BARBAGLIO, 1998, p.329).

 


Devolver a César o que é de César é, portanto, dizer não a todo poder que se absolutiza – seja ele religioso ou político – gerando usurpação, exploração e dominação. Dar a Deus o que é de Deus significa lutar para que todos tenham liberdade e vida, sejam quais forem as formas de dominação e de morte.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Sagrada Família / Arquidiocese de Botucatu – SP.