Paixão
dos apóstolos, paixão e missão de uma Igreja.
A
Igreja celebra a solenidade de São Pedro e São Paulo nestes dias. Digo desta
maneira em decorrência do adiantamento desta comemoração para este final de
semana, vinte e sete e vinte e oito de julho, de acordo com as diretrizes da
Conferência Episcopal, a fim de favorecer a maior participação dos fiéis. Uma
vez que a celebração do martírio das colunas da comunidade cristã se consolidou
no dia vinte e nove. De qualquer modo, durante estes três dias, as comunidades de
fé se encontrarão envolvidas nesta atmosfera celebrativa.
Para
esta solenidade não preparei a reflexão habitual do evangelho proposto, porque
ele será meditado nos próximos domingos do tempo comum. Por isso escolhi as
duas leituras bíblicas que, a seu modo, mostram o sentido da vida e da missão
do Senhor abraçada por eles.
O
princípio e o fundamento da vida do discípulo é a existência e o modo exemplar
do agir do Mestre. Por isso, todos os dinamismos de Sua vida deverão se fazer
presentes em cada gesto e modo de ser de seus seguidores. Principalmente no tocante
à paixão. Assim sendo, a vida do verdadeiro discípulo-apóstolo também será
marcada pela paixão do Senhor. Por isso, os textos em questão são classificados
como a “Páscoa de Pedro” (At 12,1-11) e a “Paixão de Paulo” através de seu “testamento”
(2Tm 4,6-8.17.18). Sobre eles lançaremos nossos olhares e nos colocaremos a meditá-los,
a fim de recolher duas provocações importantes: ambos revelam, a seu modo, que
a Fé em Cristo Jesus é “testemunhal” e missionária. Isto posto, podemos meditar
os dois textos.
At
12,1-11:
O
livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito pelo evangelista Lucas, muito provavelmente
em meados de 80 d.C, primeiro século da vida das comunidades apostólicas, sendo
possíveis lugares de sua redação, Antioquia e Roma. O evangelista compõe esta catequese
narrativa como continuação de seu primeiro livro, o evangelho. A finalidade da
obra é a de narrar a vida dos primeiros discípulos e das primeiras comunidades
cristãs iluminadas pela Fé em Cristo Jesus, o Ressuscitado, e o anúncio de sua
Palavra a todas as nações “até os confins do mundo”. Nesse sentido, a vida,
missão, obra, bem como a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor serão prolongadas
através dos primeiros cristãos. Também os temas teológicos, muito apreciados
pelo evangelista, os quais já se faziam presentes em seu evangelho retornam com
força ainda maior neste segundo livro.
Lucas
estrutura a sua obra em duas partes. A primeira, que compreende de 1 – 13 é
chamada de Ciclo de Pedro. Nesta primeira fase da vida e da missão dos discípulos
e das comunidades, o anúncio da Boa Nova do Reino será narrado ainda dentro dos
limites de Jerusalém, a vida das mesmas comunidades será mostrada com traços muito
particulares e distintivos, bem como as dificuldades e perseguições sofridas. A
figura do apóstolo Pedro aparecerá com maior proeminência, assim como a comunidade
de Jerusalém, liderada pelos da família do Senhor (ex. apóstolo Tiágo,
irmão/primo do Senhor). Acontece ainda nesta primeira parte o surgimento de uma
personagem marcante, um certo Saulo de Tarso e os acontecimentos envolvendo a
ele na estrada para Damasco, isto é, sua reorientação à Cristo e seu Evangelho.
Então, de 13 – 28, tem-se o ciclo de Paulo, onde serão narradas a missão da
Igreja aos pagãos, e a expansão do Evangelho às nações, através do apóstolo das
gentes. Contextualização feita. Meditemos At 12,1-11.
O
texto proposto encontra-se na conclusão do ciclo de Pedro, o qual apresenta a
imediata transição para a segunda parte do livro dos Atos dos Apóstolos. Esta narrativa
é importante, pois servirá de impulso missionário para a comunidade cristã:
através da prisão de Pedro, a igreja deverá tomar consciência de que já não é
mais possível e seguro permanecer em solo hostil. Deverá sair dali e pregar o
Evangelho em outros lugares. Não se trata de uma fuga. Mas de uma abordagem
estratégica em vista do anúncio que não pode, em hipótese alguma, parar. Com
este capítulo, fecha-se a primeira parte da história da Igreja, cujo centro de
gravidade é Jerusalém. Assinala, portanto, a ruptura definitiva com o centro
religioso e com a fé judaica. Se abre, pois, um caminho novo para a missão
cristã.
Lucas
nos contextualiza acerca da ânsia de Herodes Agripa (Júlio Agripa I, neto de
Heródes, o Grande) em colocar fim a seita do messias crucificado, Jesus, no
intuito de agradar a judeus e romanos. Manda prender as lideranças da igreja de
Jerusalém, e, em seguida, ordena matar a espada Tiago, “irmão do Senhor”, e
vendo que isso agradava os chefes dos judeus, mandou também prender a Pedro (v.1-3).
Aqui reside um ponto importante para a compreensão do texto. Algumas evocações
bíblicas dão à narração um tom religioso e um significado teológico. O discípulo
é preso como Jesus, na proximidade da páscoa, nos dias de festa “dos pães
não-fermentados” ou ázimos (cf. Lc 22,1). No plano de Lucas, o episódio pode
ser chamado “a páscoa de Pedro”, à semelhança de Lc 22-24, “a páscoa de Jesus”.
O apóstolo está sofrendo por causa do Evangelho. Assim como o Senhor foi
perseguido, rejeitado e morto pela Boa Nova do Reino. Assim, a vida do
verdadeiro discípulo apóstolo reflete a do Mestre e Senhor.
A
personagem importante, porém, é o mensageiro divino, e não o apóstolo ou a
comunidade. Por que? Lucas deseja ensinar que o Anjo do Senhor, que outro não é
que o próprio Deus. Sua extraordinária e poderosa iniciativa liberta e salva Pedro.
Assim como o Ele libertou Jesus da morte, o anjo do Senhor liberta o apóstolo da
prisão. A comunidade encontra-se apoiada em duas atitudes: oração e confiança, únicas
formas de resistência a esta situação. A primeira, a capacidade de colocar a
vida nas mãos do Pai, e a segunda, a certeza de que Ele jamais abandona. Ao
contrário, sempre presente.
Assim
como libertou Jesus da morte, de igual modo conduzirá a comunidade através dos
conflitos. Para que libertada, possa continuar anunciando o projeto de Deus e promover
libertação. A comunidade, por sua vez, vivendo sua missão em meio aos conflitos
e as crises, reflete e prolonga em sua vida a paixão e a páscoa de Jesus
Ressuscitado. Com isso, chegamos a
finalidade deste relato: a última palavra não é do prepotente humano, rei ou
senhor, que ao seu bel-prazer esmaga os homens, mas do Senhor único da
história, que dá liberdade aos oprimidos e defende os fracos e que sustenta o
anúncio do Evangelho, que nada e ninguém consegue deter.
2Tm
4,6-8.17.18:
A
Segunda Carta de Paulo à Timoteo é chamada de escrito pastoral por abordar uma
série de recomendações ao personagem Timoteo, destinatário, bem como para a
comunidade cristã sob a liderança deste proeminente Bispo. No entanto, há que
se esclarecer o seguinte, o escrito não é da autoria do apóstolo das nações.
O
escrito em questão é um típico caso – muito frequente na antiguidade – de pseudoepigrafia,
a técnica de se reunir as ideias (no caso, os ensinamentos ou pregações), coloca-las
por escrito e atribuir a autoria real ao personagem famoso. No caso, um
discípulo de Paulo pôs sob a autoridade do apóstolo o conjunto de orientações
para a organização da comunidade e as normas para a vida dos cristãos. Para
fazer isso, endereçou idealmente três cartas a dois dos mais conhecidos
colaboradores de Paulo, Timóteo e Tito, apelando para informações históricas
conservadas nos documentos escritos (cartas e At), na tradição ou escola
paulina.
Nesse
sentido, pode-se dizer que as duas cartas à Timoteo são verdadeiramente
paulinas, porque na sua origem, como fonte, está a pessoa, a obra missionária e
o impulso espiritual de Paulo. Em outras palavras os dois escritos possuem o
selo da autenticidade paulina não no plano histórico-literário, mas no
espiritual. Provavelmente escritas na região da Ásia Menor por um judeu-cristão
de diáspora, entorno dos anos 70 do Primeiro Século. Colocadas estas posições, poderíamos
sem medo inferir que o redator da carta possa ter escutado, ou mesmo visto com
vivacidade o testemunho de Paulo ou mesmo de seus colaboradores, devido a forma
com a qual ele mesmo transmite – apaixonadamente – o testemunho contido no testamento
do apóstolo e doutor das nações. Acompanhemos.
O
sangue derramado, ele o interpreta como sacrifício de valor expiatório: “já fui
oferecido em libação” (v. 6a). A libação de vinho, água ou óleo era, nos
sacrifícios judaicos, derramada sobre a vítima (Ex 29,40; Nm 28,7). Ou seja, o
autor consegue transmitir aos leitores/ouvintes que Paulo está derramado sobre
a vítima, isto é, o próprio Cristo, sugerindo, portanto, uma total conformação
ou identificação ao Senhor Jesus. Ou seja, está unido a Cristo na totalidade de
sua existência, até as ultimas consequências, a entrega da vida.
Paulo
interpreta sua partida como o soltar as velas do barco, permitindo que a
embarcação possa partir. Começando uma viagem. Ora, para ele, a morte não é o
fim, mas o início da nova viagem. É o último gesto de oferta de si, ou seja, a
porta de entrada para a meta definitiva. Qual o destino? Nas palavras do apóstolo:
“O Senhor... me levará para o seu Reino eterno” (4,18b).
A
dinâmica interna do gênero literário “testamento” propõe como recurso de
compreensão para a mensagem o exercício de olhar para o passado, a fim de se
fazer o balanço da vida. Paulo faz isso servindo-se duas imagens a fim de
compreender o sentido de sua vida. Toma como exemplo o soldado que lutou com
risco e seriedade: “combati o bom combate”, e o atleta que corre no estádio:
“terminei a minha corrida”. Mas o fundamental para ele é ter corrido em vista
da evangelização, conservando a fé (v. 7). E com isso, faz projeção para o
futuro: tem esperança de receber a coroa da justiça. Também aqui ele faz uso de
linguagem própria das lutas e disputas esportivas daquele tempo. Do mesmo modo
que o atleta vitorioso recebia a coroa da vitória, o apóstolo (e todos os
discípulos de Jesus) receberá a coroa da justiça, que é símbolo da
imortalidade, da vitória, da alegria.
A
vida nova e definitiva que Paulo espera e tem a certeza de que possuirá, é a
mesma vida ressuscita de Cristo Jesus, porque ele tem a firme consciência de estar
vivendo a mesma paixão de Seu Senhor em sua própria carne e história. A paixão
do mestre e senhor sendo abraçada pela existência de seu discípulo. Isso fica
claro quando ele (ou o redator) relata os sofrimentos vividos por causa do
Evangelho: levado ao julgamento, sem defesa ou amigos (companhia). Tal e qual o
Senhor Jesus (“todos me abandoram”, cf. Mt 26,31). Mesmo assim não reclama vingança.
Ao contrário, pede que não leve em conta a falta cometida pelos amigos, assim como
o Senhor: “Pai, perdoa-lhes. Eles não sabem o que fazem”, cf. Lc 23,24).
O
apóstolo, como o Senhor, possui a consciência de que não está sozinho nem
abandonado por Deus. Ele mesmo declara: “O senhor esteve ao meu lado e me deu
forças. Eu fui libertado da boca do leão”. Assim, a paixão de Paulo é o
prolongamento da paixão de Jesus (cf. Cl 2,14: “Completo, na minha carne, o que
falta das tribulações de Cristo”).
As
duas personagens celebradas nestes dias festivos ensinam a toda Igreja o
verdadeiro sentido de encontrar-se unidos a Cristo. Um discipulado que se
espelhe e que reflita todo o sentido da vida do Senhor. Que seja capaz de viver
o mesmo caminho de vida de Jesus, permanecendo sempre fieis à missão.
Pe.
João Paulo Góes Sillio.
Pároco da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.
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