sábado, 27 de junho de 2026

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO – At 12,1-11 e 2Tm 4,6-8.17.18:

 


Paixão dos apóstolos, paixão e missão de uma Igreja.

 A Igreja celebra a solenidade de São Pedro e São Paulo nestes dias. Digo desta maneira em decorrência do adiantamento desta comemoração para este final de semana, vinte e sete e vinte e oito de julho, de acordo com as diretrizes da Conferência Episcopal, a fim de favorecer a maior participação dos fiéis. Uma vez que a celebração do martírio das colunas da comunidade cristã se consolidou no dia vinte e nove. De qualquer modo, durante estes três dias, as comunidades de fé se encontrarão envolvidas nesta atmosfera celebrativa.

 Para esta solenidade não preparei a reflexão habitual do evangelho proposto, porque ele será meditado nos próximos domingos do tempo comum. Por isso escolhi as duas leituras bíblicas que, a seu modo, mostram o sentido da vida e da missão do Senhor abraçada por eles.

 O princípio e o fundamento da vida do discípulo é a existência e o modo exemplar do agir do Mestre. Por isso, todos os dinamismos de Sua vida deverão se fazer presentes em cada gesto e modo de ser de seus seguidores. Principalmente no tocante à paixão. Assim sendo, a vida do verdadeiro discípulo-apóstolo também será marcada pela paixão do Senhor. Por isso, os textos em questão são classificados como a “Páscoa de Pedro” (At 12,1-11) e a “Paixão de Paulo” através de seu “testamento” (2Tm 4,6-8.17.18). Sobre eles lançaremos nossos olhares e nos colocaremos a meditá-los, a fim de recolher duas provocações importantes: ambos revelam, a seu modo, que a Fé em Cristo Jesus é “testemunhal” e missionária. Isto posto, podemos meditar os dois textos.

 At 12,1-11:

 O livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito pelo evangelista Lucas, muito provavelmente em meados de 80 d.C, primeiro século da vida das comunidades apostólicas, sendo possíveis lugares de sua redação, Antioquia e Roma. O evangelista compõe esta catequese narrativa como continuação de seu primeiro livro, o evangelho. A finalidade da obra é a de narrar a vida dos primeiros discípulos e das primeiras comunidades cristãs iluminadas pela Fé em Cristo Jesus, o Ressuscitado, e o anúncio de sua Palavra a todas as nações “até os confins do mundo”. Nesse sentido, a vida, missão, obra, bem como a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor serão prolongadas através dos primeiros cristãos. Também os temas teológicos, muito apreciados pelo evangelista, os quais já se faziam presentes em seu evangelho retornam com força ainda maior neste segundo livro.

 Lucas estrutura a sua obra em duas partes. A primeira, que compreende de 1 – 13 é chamada de Ciclo de Pedro. Nesta primeira fase da vida e da missão dos discípulos e das comunidades, o anúncio da Boa Nova do Reino será narrado ainda dentro dos limites de Jerusalém, a vida das mesmas comunidades será mostrada com traços muito particulares e distintivos, bem como as dificuldades e perseguições sofridas. A figura do apóstolo Pedro aparecerá com maior proeminência, assim como a comunidade de Jerusalém, liderada pelos da família do Senhor (ex. apóstolo Tiágo, irmão/primo do Senhor). Acontece ainda nesta primeira parte o surgimento de uma personagem marcante, um certo Saulo de Tarso e os acontecimentos envolvendo a ele na estrada para Damasco, isto é, sua reorientação à Cristo e seu Evangelho. Então, de 13 – 28, tem-se o ciclo de Paulo, onde serão narradas a missão da Igreja aos pagãos, e a expansão do Evangelho às nações, através do apóstolo das gentes. Contextualização feita. Meditemos At 12,1-11.

 O texto proposto encontra-se na conclusão do ciclo de Pedro, o qual apresenta a imediata transição para a segunda parte do livro dos Atos dos Apóstolos. Esta narrativa é importante, pois servirá de impulso missionário para a comunidade cristã: através da prisão de Pedro, a igreja deverá tomar consciência de que já não é mais possível e seguro permanecer em solo hostil. Deverá sair dali e pregar o Evangelho em outros lugares. Não se trata de uma fuga. Mas de uma abordagem estratégica em vista do anúncio que não pode, em hipótese alguma, parar. Com este capítulo, fecha-se a primeira parte da história da Igreja, cujo centro de gravidade é Jerusalém. Assinala, portanto, a ruptura definitiva com o centro religioso e com a fé judaica. Se abre, pois, um caminho novo para a missão cristã.

 Lucas nos contextualiza acerca da ânsia de Herodes Agripa (Júlio Agripa I, neto de Heródes, o Grande) em colocar fim a seita do messias crucificado, Jesus, no intuito de agradar a judeus e romanos. Manda prender as lideranças da igreja de Jerusalém, e, em seguida, ordena matar a espada Tiago, “irmão do Senhor”, e vendo que isso agradava os chefes dos judeus, mandou também prender a Pedro (v.1-3). Aqui reside um ponto importante para a compreensão do texto. Algumas evocações bíblicas dão à narração um tom religioso e um significado teológico. O discípulo é preso como Jesus, na proximidade da páscoa, nos dias de festa “dos pães não-fermentados” ou ázimos (cf. Lc 22,1). No plano de Lucas, o episódio pode ser chamado “a páscoa de Pedro”, à semelhança de Lc 22-24, “a páscoa de Jesus”. O apóstolo está sofrendo por causa do Evangelho. Assim como o Senhor foi perseguido, rejeitado e morto pela Boa Nova do Reino. Assim, a vida do verdadeiro discípulo apóstolo reflete a do Mestre e Senhor.

 A personagem importante, porém, é o mensageiro divino, e não o apóstolo ou a comunidade. Por que? Lucas deseja ensinar que o Anjo do Senhor, que outro não é que o próprio Deus. Sua extraordinária e poderosa iniciativa liberta e salva Pedro. Assim como o Ele libertou Jesus da morte, o anjo do Senhor liberta o apóstolo da prisão. A comunidade encontra-se apoiada em duas atitudes: oração e confiança, únicas formas de resistência a esta situação. A primeira, a capacidade de colocar a vida nas mãos do Pai, e a segunda, a certeza de que Ele jamais abandona. Ao contrário, sempre presente.

 Assim como libertou Jesus da morte, de igual modo conduzirá a comunidade através dos conflitos. Para que libertada, possa continuar anunciando o projeto de Deus e promover libertação. A comunidade, por sua vez, vivendo sua missão em meio aos conflitos e as crises, reflete e prolonga em sua vida a paixão e a páscoa de Jesus Ressuscitado.  Com isso, chegamos a finalidade deste relato: a última palavra não é do prepotente humano, rei ou senhor, que ao seu bel-prazer esmaga os homens, mas do Senhor único da história, que dá liberdade aos oprimidos e defende os fracos e que sustenta o anúncio do Evangelho, que nada e ninguém consegue deter.

 2Tm 4,6-8.17.18:

 A Segunda Carta de Paulo à Timoteo é chamada de escrito pastoral por abordar uma série de recomendações ao personagem Timoteo, destinatário, bem como para a comunidade cristã sob a liderança deste proeminente Bispo. No entanto, há que se esclarecer o seguinte, o escrito não é da autoria do apóstolo das nações.

 O escrito em questão é um típico caso – muito frequente na antiguidade – de pseudoepigrafia, a técnica de se reunir as ideias (no caso, os ensinamentos ou pregações), coloca-las por escrito e atribuir a autoria real ao personagem famoso. No caso, um discípulo de Paulo pôs sob a autoridade do apóstolo o conjunto de orientações para a organização da comunidade e as normas para a vida dos cristãos. Para fazer isso, endereçou idealmente três cartas a dois dos mais conhecidos colaboradores de Paulo, Timóteo e Tito, apelando para informações históricas conservadas nos documentos escritos (cartas e At), na tradição ou escola paulina. 

 Nesse sentido, pode-se dizer que as duas cartas à Timoteo são verdadeiramente paulinas, porque na sua origem, como fonte, está a pessoa, a obra missionária e o impulso espiritual de Paulo. Em outras palavras os dois escritos possuem o selo da autenticidade paulina não no plano histórico-literário, mas no espiritual. Provavelmente escritas na região da Ásia Menor por um judeu-cristão de diáspora, entorno dos anos 70 do Primeiro Século. Colocadas estas posições, poderíamos sem medo inferir que o redator da carta possa ter escutado, ou mesmo visto com vivacidade o testemunho de Paulo ou mesmo de seus colaboradores, devido a forma com a qual ele mesmo transmite – apaixonadamente – o testemunho contido no testamento do apóstolo e doutor das nações. Acompanhemos.

 O sangue derramado, ele o interpreta como sacrifício de valor expiatório: “já fui oferecido em libação” (v. 6a). A libação de vinho, água ou óleo era, nos sacrifícios judaicos, derramada sobre a vítima (Ex 29,40; Nm 28,7). Ou seja, o autor consegue transmitir aos leitores/ouvintes que Paulo está derramado sobre a vítima, isto é, o próprio Cristo, sugerindo, portanto, uma total conformação ou identificação ao Senhor Jesus. Ou seja, está unido a Cristo na totalidade de sua existência, até as ultimas consequências, a entrega da vida.

 Paulo interpreta sua partida como o soltar as velas do barco, permitindo que a embarcação possa partir. Começando uma viagem. Ora, para ele, a morte não é o fim, mas o início da nova viagem. É o último gesto de oferta de si, ou seja, a porta de entrada para a meta definitiva. Qual o destino? Nas palavras do apóstolo: “O Senhor... me levará para o seu Reino eterno” (4,18b).

 A dinâmica interna do gênero literário “testamento” propõe como recurso de compreensão para a mensagem o exercício de olhar para o passado, a fim de se fazer o balanço da vida. Paulo faz isso servindo-se duas imagens a fim de compreender o sentido de sua vida. Toma como exemplo o soldado que lutou com risco e seriedade: “combati o bom combate”, e o atleta que corre no estádio: “terminei a minha corrida”. Mas o fundamental para ele é ter corrido em vista da evangelização, conservando a fé (v. 7). E com isso, faz projeção para o futuro: tem esperança de receber a coroa da justiça. Também aqui ele faz uso de linguagem própria das lutas e disputas esportivas daquele tempo. Do mesmo modo que o atleta vitorioso recebia a coroa da vitória, o apóstolo (e todos os discípulos de Jesus) receberá a coroa da justiça, que é símbolo da imortalidade, da vitória, da alegria.

 A vida nova e definitiva que Paulo espera e tem a certeza de que possuirá, é a mesma vida ressuscita de Cristo Jesus, porque ele tem a firme consciência de estar vivendo a mesma paixão de Seu Senhor em sua própria carne e história. A paixão do mestre e senhor sendo abraçada pela existência de seu discípulo. Isso fica claro quando ele (ou o redator) relata os sofrimentos vividos por causa do Evangelho: levado ao julgamento, sem defesa ou amigos (companhia). Tal e qual o Senhor Jesus (“todos me abandoram”, cf. Mt 26,31). Mesmo assim não reclama vingança. Ao contrário, pede que não leve em conta a falta cometida pelos amigos, assim como o Senhor: “Pai, perdoa-lhes. Eles não sabem o que fazem”, cf. Lc 23,24).

 O apóstolo, como o Senhor, possui a consciência de que não está sozinho nem abandonado por Deus. Ele mesmo declara: “O senhor esteve ao meu lado e me deu forças. Eu fui libertado da boca do leão”. Assim, a paixão de Paulo é o prolongamento da paixão de Jesus (cf. Cl 2,14: “Completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo”).

 As duas personagens celebradas nestes dias festivos ensinam a toda Igreja o verdadeiro sentido de encontrar-se unidos a Cristo. Um discipulado que se espelhe e que reflita todo o sentido da vida do Senhor. Que seja capaz de viver o mesmo caminho de vida de Jesus, permanecendo sempre fieis à missão.


 Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


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