sábado, 20 de junho de 2026

REFLEXÃO PARA O XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 10,26-33:

 


A liturgia deste décimo segundo domingo do tempo comum propõe a continuidade da leitura do discurso missionário de Jesus, situado no capítulo décimo do Evangelho segundo Mateus. A seção literária consiste numa série de ensinamentos destinados aos discípulos acerca da missão. O que o mestre realizará, valerá, igualmente e integralmente para eles.

O discurso missionário foi motivado pelo inconformismo de Jesus em face a situação das multidões, cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, ou seja, abandonadas e exploradas pelos chefes religiosos da época. Nesse sentido, a missão consiste no anúncio do Reino que restitui a vida, a dignidade e a esperança das pessoas, denunciando tudo o que as impedia de viver plenamente. Consequência? Quem luta por isso, inevitavelmente, será vítima de perseguições e hostilidades, como previu o próprio Jesus (Mt 10,16-25). Diante dos sentimentos do discípulos-apóstolos em face a este cenário e contexto, o Senhor lhes faz o convite à coragem e à confiança Nele e no Pai, que sempre cuidarão com amor fiel de suas vidas.

O texto lido hoje – Mt 10,26-33 – já coloca a seção próxima de sua conclusão. Dos versículos 26-27, Jesus exorta aos discípulos, “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”.  O medo, ao interno da tradição bíblica, e na vida espiritual, constitui o contrário à Fé. Ele acomoda e paralisa a pessoa, impedindo-a de assumir e tomar as rédeas da vida e da história diante do horizonte de Deus. Chamados para a missão, todos devem saber as consequências inerentes a ela, sem sucumbir ao medo. É interessante notar que será por três vezes que Jesus repetirá esta ordem “não tenhais medo”.

O número três é, na teologia bíblica, um número completo. Ele indica a composição do ser humano (corpo – alma – espírito), conforme a antropologia bíblica (a compreensão acerca do ser humano naquele contexto). Nesse sentido, quando o leitor/ouvinte do evangelho se deparar com este tríplice convite deverá acolhe-lo como uma ordem que serve para a sua vida e existência como um todo, que quando aderida e assimilada na vida é capaz de cumula-la de sentido e de força; isto é, de plenitude.  

O dito de Jesus precisa ser muito bem compreendido, de modo a evitar confusões que possam gerar interpretações equivocadas ou mais medo ainda. O Versículo não é uma apologia à fofoca. Não é se trata de uma advertência a quem quer tenha feito algo de errado, que precise ser corrigido, ou então uma ameaça do tipo “olha, atento! Eu sei o que você fez e isso será descoberto!” Nada disso! O versículo não se trata disto.

O que havia de “encoberto” e que não poderia mais permanecer oculto era o que Jesus já tinha ensinado somente aos discípulos, até aquele momento! Eles deverão ser os porta-vozes do Mestre. Havia chegado o momento de tornar público, de espalhar, de transmitir e proclamar o que eles tinham aprendido, especialmente o modo de viver do Senhor. O ensinamento escutado “ao pé do ouvido”, isto é, no privado da vida e da relação Jesus-discípulo, deve ser revelado com toda a transparência e integralidade. Sem Medo. Sem omitir a nada (não se pode ceder a tentação de mascarar ou maquiar o evangelho). O imperativo “proclamai-o sobre os telhados” é um convite ao esforço e à criatividade no anúncio. Por que? Precisamente porque as autoridades religiosas do tempo de Jesus (fariseus, escribas, sacerdotes) e os poderes imperiais tratavam de sufocar a Boa Nova do Reino. O Senhor lhes assegura que estes não terão poder e eficácia na tentativa de frear ou intimidar o poder do Evangelho.

No v.28, Jesus é mais enfático ainda: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” Os discípulos-missionários não deverão se amedrontar diante dos que colocarem obstáculos para seu trabalho missionário. Antes, só temerão aquele que, além de tirar a vida física, pode privar as pessoas da vida eterna, ou seja, Deus. Só a ele se deve o temor.

O tema do temor a Deus precisa ser sempre reconstruído e bem compreendido. Quando se fala de temor se deve entender o seguinte: reverência, respeito, admiração que gera a confiança. Pois o verbo Phobeo/Phobeomai (gr. φοβέω/φοβέομαι) utilizado pelo evangelista admite esta compreensão. Nesse sentido se compreende também o dito acerca da destruição da vida. A perda total da vida de alguém não será jamais um castigo divino, mas consequência das próprias escolhas. Na perspectiva de Jesus, o Pai protege sempre. Cuida sempre. Está sempre ao lado dos seus.

Para desfazer qualquer mal-entendido acerca da realidade da perseguição que os discípulos sofrerão (e ainda sofrem), Jesus toca no tema da providência divina. Ele se serve de duas parábolas nos vv. 29-30, as quais ajudam os discípulos a tomar consciência da proteção que gozam da parte de Deus. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai” (v.29). Este dito precisa ser traduzido do original grego, pois a versão litúrgica enfraqueceu sentido e deu margens para interpretações erradas, as quais poderiam sugerir, inclusive, que o que acontece de mal, ou de forma acidental, ou mesmo os sofrimentos inerentes a vida humana fossem da vontade de Deus. Isso é um absurdo. Isso não é verdadeiro.

O texto original pode ser traduzido da seguinte maneira: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o vosso Pai”. Ou seja, nada acontece ou foge dos olhos do Pai do Céu. Se os pássaros caem, o Pai cai com eles. Se algo acontece com seus filhos, acontece também com ele. O Senhor está a assegurar aos discípulos o atento e intenso cuidado que Ele e o Pai tem para com os seus.  

Deus sente com os seus! Ele está atento às suas dificuldades e sofrimentos, a ponto de sofrer juntamente com eles. Mas, acima de tudo, comunicar-lhes a força de sua presença ao lado deles. Ora, se Ele está atento a um passarinho, o animal de valor mais baixo no mercado, isto é, com algo tão insignificante, quanto mais estará sempre atento e zeloso a um discípulo de Jesus e filho Seu!  A parábola do cabelo deve ser também compreendida nessa perspectiva. O cabelo era considerado o menor e mais inútil elemento do corpo humano e, mesmo assim, contado pelo Pai. A confiança na providência de Deus é o que encoraja o discípulo no decorrer da missão, pois Ele está sempre atento e providente às necessidades de seus filhos.

“Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus” (v. 32-33). Para viver a missão é preciso ter a coragem e a coerência de vida. Declarar-se a favor de Jesus significa, no decorrer da vida e da missão viver segundo a Sua vida. Assimilar seu modo ser; realizar o que Ele fez, isto é, identificar-se com o Senhor.

O testemunho corajoso do discípulo diante dos homens terá como contrapartida o testemunho de Jesus, a seu favor, diante do Pai. Ele se identificará com o discípulo, encontrando na vida daquela pessoa os sinais de Sua própria vida e missão. Pelo contrário, quem se deixa levar pelo medo e O renega será renegado por Ele diante do Pai no dia do juízo. Aqui não se trata de uma sentença dita por Ele, mas a consequência das escolhas da pessoa, apenas confirmadas pelo Senhor.

Que o evangelho deste domingo possa impulsionar o discípulo a viver a missão dada pelo Senhor sem medo. Possa crescer sempre mais na confiança no Pai, sabendo-se sempre acolhido e cuidado, assim como os pássaros do céu ou como fios de cabelo. E que possa encontrar-se constantemente identificado ao Senhor.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu - SP


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