sábado, 7 de novembro de 2026

REFLEXÃO PARA O XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Mt 25,1-13:


 

O capítulo vinte e cinco do evangelho de Mateus abre o quinto e último ensinamento de Jesus que compõe a catequese do evangelista: o discurso escatológico, isto é, discurso final. O que significa esse termo? Literalmente, fim. É, portanto, uma reflexão acerca do fim definitivo das coisas, da realidade histórica, da pessoa. Mas entenda-se este “fim” enquanto meta, objetivo, realização plena.

Na perspectiva do Novo Testamento, as linguagens revestidas de temas escatológicos – o fim das coisas, dos tempos, da história - tem a finalidade de mostrar o destino, a meta e orientação última de tudo e todos que é Deus e seu projeto de vida alternativa, o Reino. Assim, a intenção do catequista bíblico, que assume esta linguagem, é a de chamar a atenção de sua comunidade para o modo de vida que ela deve assumir, ou seja, como ela deve viver, a fim de alcançar a meta final: Jesus e o projeto do Pai. Cristo é a ultimidade/novidade e plenitude da ação de Deus.

Mateus, inicia o capítulo com uma narrativa semelhante ao gênero das parábolas contadas pelo Mestre. Chama-se a este gênero literário de cenas de juízo. Qual a diferença? O tempo verbal. Nas parábolas, os verbos estão no presente ou no passado. Nas cenas de juízo os verbos se encontram no futuro, pois desejam mostrar como serão as ações de Deus em relação ao ser humano, mas também chamar a atenção do fiel para o modo com o qual ele deve conduzir sua vida, visando o futuro, o fim. Ao contrário do que muito se pensa, a vigilância não é o tema central desta passagem, mas as atitudes dos discípulos. O convite à vigilância, que aparece no final do texto, servirá de gatilho para despertar o discípulo para elas. A cena apresenta, uma vez mais, o contexto da festa de casamento. Mateus serve-se desta imagem preferida do profeta Oséias (e por toda a tradição profética do AT, e da concepção rabínica), na qual a imagem do esposo é aplicada à Deus. Ele seria o esposo e o povo, a esposa.

Jesus apresenta as personagens: dez virgens e o noivo. Interessante, não se sabe nada acerca da noiva. Ao narrar a parábola, ele realiza mudanças significativas nos costumes da festa de casamento, precisamente para chamar a atenção. De acordo com o costume, era o homem que ia ao encontro das virgens para acolher a sua prometida, trazida por elas. Aqui, subverte-se a lógica e diz que são as virgens que correm ao encontro dele, e, que, aparentemente, está atrasado.  E a noiva, onde está? Pela lógica da parábola – e, não pela lógica do costume, porque acerca desta tradição matrimonial pouco se sabe – poderia estar no recinto da casa. Outra mudança é o fechamento das portas, após a entrada do noivo. Uma festa de casamento naquele contexto era um evento aberto para todo o povoado e esperado por todos.

Quem são as dez virgens, das quais Jesus se serve para a parábola? Não se pode atribuir conotação moral ou biológica a estas personagens. Virgens eram aquelas moças que ainda não haviam se casados, nem tinham sido prometidas em casamento naquele contexto. Mas que estão à espera do noivo. Ora, no AT os autores sagrados se dirigiam ao povo de Israel chamando-o de “virgem”. Portanto, simboliza o Israel de Deus em sua totalidade. Por isso, o número dez (10). Elas assumem, portanto, a imagem da noiva. Porque, como foi dito acima, o noivo é a imagem para YHWH e a noiva, o povo de Deus.

Qual a característica das dez jovens? Das dez virgens, cinco eram prudentes, e as outras, imprudentes. Jesus, no Sermão da Montanha (5,22) havia proibido o uso do termo morós (gr. μωραὶ/μωρός), o qual define uma pessoa tola, descrente, ímpia, pois tratava-se de uma ofensa muito grande que o discípulo não poderia reproduzir. As outras cinco eram inteligentes, prudentes e sábias. Portanto, a chave de leitura para interpretar esta parábola é o texto do Sermão da Montanha, iniciado com as bem-aventuranças. Lá, o Senhor ensina ao discípulo o caminho para se cumprir a vontade do Pai: ouvir as Suas palavras e coloca-las em prática. Em Mt 7,21-24, na parábola do homem sábio que construiu sua casa sobre rocha aparece em contraste o imprudente que construiu sua casa sobre a areia. Neste capítulo vinte e cinco, bem como em Mt 7, considera-se sábio quem tem a capacidade de realizar o querer de Deus; cooperar com seu projeto criador e gerador de vida.

As virgens sábias (prudentes, inteligentes), segundo a parábola de Jesus, trazem consigo mais azeite. Ao contrário das virgens tolas. Elas não se prepararam. Parece que a resposta dada pelas outras jovens soa egoísta ou insensível. Não podiam elas partilhar um pouco do azeite? Não! Porque o óleo é símbolo para as boas obras do ser humano.

As boas obras, nesse sentido, são o óleo que não pode ser dado ou emprestado. É a parte que cada discípulo deve procurar fazer. É a resposta individual que cada um deve dar ao projeto do Reino, ao seguimento a Jesus. É aquela responsabilidade intransferível do “ouvir a Palavra e pô-la em prática” através das obras de justiça, as boas obras, cada um deve empenhar a vida nesse caminho.

O ensinamento desta imagem que Jesus transmite deseja incutir no discípulo é a respeito de sua atitude diante do projeto de Deus; um Deus que vem ao encontro de seu povo, de cada pessoa humana. A atitude não pode ser semelhante ao do antigo povo de Israel, que rejeita, que não acolhe, que não escuta a Palavra de YHWH, que se torna infiel à Aliança (simbolizado pelas cinco virgens imprudentes).

O v.11 chama a nossa atenção. A cinco virgens imprudentes, ao voltarem com o óleo que saíram comprar, dão com as portas fechadas. De súbito começam a chamar pelo noivo: “Senhor! Senhor! Abre-nos a porta”. Senhor é o título divino com o qual o judeu piedoso, terrivelmente religioso, se dirige à Deus. Soa como uma profissão de fé. A resposta contida no v.12 é muito importante: “Em verdade eu vos digo: Não vos conheço!” Ela está relacionada ao mesmo dito em Mt 7,22-23, “Não vos conheço. Afastai-vos de mim, vós, que praticais a iniquidade”. Jesus quer mostrar aos discípulos que não basta uma verdadeira convicção ou confissão de fé, se ela não se traduz na vida através da atitude de cumprir o querer e a vontade de Deus, mediante as boas obras.

“Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora” (v.13). A vigilância bíblica não está ligada ao estar acordado, ou ao fato de não dormir. As dez jovens dormem. Mas ela indica uma atitude operativa. Ou seja, a capacidade de estar consciente de que se deve fazer algo. Logo, falta da vigilância indica a decisão de não fazer nada. Diante do texto, com quais personagens me identifico? Tenho mantido a lâmpada acesa? A lâmpada da nossa fé tem suficiente o óleo das obras boas?


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

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