sábado, 26 de setembro de 2026

REFLEXÃO PARA O XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 21,28-32:

 


A liturgia nos insere na leitura do capítulo vinte e um do Evangelho segundo Mateus. O evangelista, neste capítulo, transmite um ensino em parábolas de Jesus exclusivo de seu evangelho: a parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32). Para compreende-la, se faz necessário lançar um olhar para o contexto amplo no qual ela se situa. Este capítulo abre narrativamente a etapa final da vida do Senhor: a entrada em Jerusalém. Ali, passa a sofrer forte resistência e oposição por parte dos líderes do povo, os chefes do judaísmo. O catequista bíblico procura oferecer um panorama histórico para seus leitores/ouvintes através dos temas do pecado da rejeição e da recusa dos líderes que não acreditaram na missão de João (21,25 e 32), que mataram os profetas de Deus (21,34-36), e, que, concluirão a perversidade de suas ações tramando a morte do Filho de Deus (21,39).

O contexto imediato é delimitado pela cena anterior, a discussão com os chefes religiosos no templo. Eles questionam a Jesus acerca de Sua autoridade. O Senhor coloca uma condição para responder ao questionamento deles: “Responderei se me responderem uma pergunta: De onde vêm o batismo de João Batista, do alto ou dos homens?”. Diante da questão, os religiosos viram-se em apuros. Se respondessem que a ação profética de João era autorizada por Deus (vinda do alto), então estariam obrigados a reconhecer e responder que ele viria de Deus, e, que, portanto, estariam errados. Se respondessem que a missão de João era terrena cairiam na ira do povo, porque consideravam o Batista um profeta. A pergunta é envolvente e a resposta, comprometedora. Preferem dizer que não sabem. De sua parte, Jesus responde: “Então, eu também não direi com que autoridade eu faço estas coisas”.

Entretanto, com uma provocação que lhe é própria, o Mestre não perde a oportunidade de chamar-lhes a atenção através de uma parábola. Os seus destinatários são as lideranças do povo. No tempo da comunidade, Mateus se apropria do ensinamento para corrigir os rumos. Sempre é necessário unir (ou fundir) estes dois horizontes. Uma vez mais, a parábola se serve do tema da vinha. Já nos é sabido que ela sempre foi tida na tradição de Israel como metáfora do Povo de Deus. Isto posto, podemos mergulhar no texto bíblico.

O texto bíblico começa com esta pergunta para os chefes do povo, “Que vos parece?” (v.28), para narrar lhes a parábola de um pai de família, dono de uma vinha, que convida os filhos a trabalharem na plantação. A pergunta é típica e comumente usada pelos mestres daquele tempo, os rabinos. Contudo, possui ainda a função de provocação, pois ela tem a intenção de envolver os ouvintes, e, aqui, de modo claro, os chefes religiosos do povo.

“Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!” (v.28). O primeiro filho, diante do convite recusa, mas depois vai. Mas a cena deve focalizar a iniciativa do pai. Por que? No original grego não se utiliza o verbo “dirigir”. O evangelista se serve do verbo “aproximar” (gr. προσέρχομαι/proserchomai). Isso é muito importante pois deseja transmitir a imagem da proximidade que é própria de um pai em relação a seu filho. Diferentemente da imagem de um patrão que chega para intimar ou cobrar seu funcionário. Na perspectiva de Mateus, este dono da vinha é verdadeiramente um pai amoroso que sempre se aproxima de seus filhos com afeto  a fim de envolve-los com seu amor em seus projetos, para oferecer lhes o melhor que tem para dar.

O termo "filho" utilizado aqui no texto também comprova a ideia, pois é o termo Teknon (gr. τέκνον), que, literalmente, significa "aquele a quem foi dado à luz". Ou seja, o termo indica uma conotação materna. Trata-se, portanto, de uma atitude paterna profundamente carregada de uma imagem materna e cheia de ternura da parte do Pai que deseja que o filho tome parte de seu bem, a vinha, a qual é símbolo do Reino. Mesmo assim, filho recusa. É interessante: não há na parábola um juízo moral acerca dele. Por isso, se faz necessário compreender bem esta personagem. É aquele homem ou mulher que, diante da boa nova do Reino anunciada por Jesus tem consciência da exigência que brota ao aceitar este anúncio (conversão, vida nova, amor, fraternidade, justiça, entrega absoluta ao querer do Pai dos Céus e de Jesus; serviço e doação de si ao próximo), e que nega por não estar a altura deste projeto. Mas, após um exame de consciência, a ponto de perceber que o convite feito para assumir a vida da vinha, aceita e vai. Este compreendeu que seu pai não é um patrão; que Seu projeto corresponde a uma plenitude de vida.

O segundo, prontamente responde de modo afirmativo, mas não cumpre o que diz. O relato é privado de colorido e de particulares, centrando-se sobre a contraposição dos dois filhos nas respostas e no comportamento. Esta personagem mostra a mentalidade equivocada que possui do seu pai. Considera-o um Senhor, isto é, um patrão. O termo grego que evangelista utiliza ao se referir à personagem do pai é Kyrios (gr. κύριος), ou seja, Senhor. Ele não reconhece a paternidade de seu pai. Apenas a sua utilidade: a de ser um patrão. A este é muito fácil desobedecer. Mas não a quem se ama. A quem se ama, é possível reconhecer no pedido ou na exigência feita que através dela se lhe oferece uma plenitude de vida. Mas a segunda personagem não vai. Não se compromete existencialmente com o projeto da vinha de seu pai. Evidentemente, por se tratar de uma parábola, esta personagem é a imagem do entusiasmado que não mede as consequências das escolhas que faz. Diz sim ao projeto do Reino, mas sabendo da exigência deste não assume e, portanto, não toma parte da plenitude de vida oferecida por Deus através de seu Filho.

Com a pergunta, “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31), Jesus amarra ainda mais o grupo dos fariseus e sacerdotes. As perguntas têm a intenção de envolver e comprometer os ouvintes tornando-os participantes do ensino, e identificando-se com as personagens. Deste modo, consegue colocá-los contra a parede tirando deles um juízo de autocondenação.

Eles respondem e são censurados por Jesus: “Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele” (vv.31-32). Com esta resposta, o Mestre joga na cara dos líderes religiosos do povo suas incoerências e resistências. Ele declara, de forma muito lógica que o caminho aberto por João foi conforme o querer do Pai; e, que os pecadores, as prostitutas e os publicanos acolheram a pregação dele. Ao passo que aqueles entendidos sobre Deus, não. Ora, Se o Batista veio preparar e abrir o caminho, Jesus é o realizador pleno deste projeto de Deus. Com isso, responde a pergunta que lhe fora feita acerca de Sua autoridade. Ela vem do Alto e é destinada a todos, sem exclusão.

Um olhar mais acurado para as personagens da parábola se faz necessário. O primeiro filho, que se nega a trabalhar na vinha, mas que depois vai, na perspectiva de Jesus, torna-se metáfora para os publicanos e às prostitutas, símbolos dos marginalizados, excluídos; dos sem voz e nem daquele tempo, os quais tanto a religião, como o poder imperial marginalizavam.

As lideranças do povo – os anciãos e sacerdotes – são caricaturados pelo segundo filho, que contradisse com a atitude o sim dos lábios. Não podem iludir-se e pensar que estão obedecendo à vontade de Deus apenas porque dizem ter aderido a ele, ostentando um culto estéril à lei, mas sem comprometimento com os excluídos e marginalizados.

Entendida as personagens da parábola, lancemos agora um olhar para a pergunta de Jesus aos líderes “Qual dos dois fez a vontade do pai?” O pai é o termo de comparação aplicado a Deus. Fazer a vontade de Deus era o eixo sobre o qual girava toda a religião do AT e do judaísmo. E a lei era sua expressão escrita e clara. Mas agora, a revelação plena e perfeita da vontade divina acontece em Jesus, que anuncia a vinda do Reino e chama à conversão (4,17). A obediência não é feita de palavras estéreis e descompromissadas, mas com atitudes concretas e precisas. Os verdadeiros obedientes são exatamente os pecadores, porque creram. A obediência, portanto, chama-se fé/adesão ao Filho.

Ora, se a parábola, no tempo de Jesus serve para denunciar a oposição e rejeição das lideranças do povo frente ao Projeto de Deus anunciado por Ele, para Mateus ela tem fins bem catequéticos e comunitários. Apresentar dois tipos de cristãos: os que vivem segundo o projeto do Reino e os que só falam, sem praticar. A comunidade do Reino não pode reproduzir as mesmas atitudes dos líderes antigos do povo. O evangelista deseja coibir, ao interno da comunidade, que o discípulo/fiel caia na tentação de levar uma vida de aparências, descompromissada e incoerente, que assume, inclusive, facetas puritanas e excludente com o intuito de se autopreservar.

A coerência do discípulo e da comunidade do Reino está na sintonia entre o falar e o fazer. Não se torna discípulo de Jesus e membro de sua comunidade somente pelo bonito, perfeito, acertado – e, portanto, ortodoxo – discurso que se verbaliza ou assimila; não se torna discípulo ao se decorar fórmulas, ritos e preceitos. A pessoa se torna discípulo (a) quando assimila e faz a vontade de Deus, que passa pela opção pelo Cristo e pela decisão de assumir seu modo de viver, no acolhimento aos excluídos e marginalizados desta história – a ortopraxis. Corre-se o risco de se viver muita ortodoxia (discurso correto), mas totalmente descolado da realidade, e, por isso, pouca ortopraxia (o agir correto). Diante da parábola deste domingo cabe-nos sempre a pergunta qual tem sido nossa atitude/resposta ao querer de Deus manifestado por Jesus? Qual dos filhos pode refletir nossa imagem?

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

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