sábado, 18 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,24-43:

 


A liturgia do décimo sexto domingo do tempo comum dá continuidade à meditação do Discurso em Parábolas de Jesus, contido em Mt 13 a partir do v.24, que já nos insere no horizonte do texto. A partir deste versículo, Mateus recorda três novas parábolas: o joio e o trigo, a semente de mostarda e o fermento (24-33).

“O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio e foi embora” (vv. 24-25). O joio (gr, ζιζάνια– zizânia), era uma planta muito parecida com o trigo. Mas o que a diferenciava? Os efeitos nocivos que possui, pois os grãos são tóxicos, capazes de provocar sérios danos à saúde de quem os consumia. Fora semeado pelo inimigo enquanto todos dormiam (v. 25), a noite, símbolo das trevas e da ausência de Deus na tradição bíblica.

A parábola apresenta o Reino numa realidade de tensão e hostilidade: a semente boa e a semente nociva; o mal e o bem; o amor e o ódio; a vida e a morte. Essa forma de conceber o Reino não agradava a muitos cristãos, inclusive aos discípulos, os quais imaginavam-se como uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas. O Mestre deseja ensinar o contrário: quem adere ao Seu projeto de vida deve estar preparado para conviver com o mal, sem compactuar com ele. Nesse sentido, a tentação a ser vencida pelo discípulo do reino, que ouve e se põe à discernir (“Quem tem ouvidos, ouça”) é a do puritanismo (querer ser uma comunidade separada, formada apenas por pessoas santas e justas), e vem expressa através da preocupação dos funcionários do dono da plantação, “Queres que vamos arrancar o joio?” (v. 28b). Eles simbolizam aquelas pessoas muito religiosas de todos os tempos. Dos fariseus dos tempos de Jesus aos cristãos-católicos piedosos de hoje. São as pessoas intolerantes que, por causa de um zelo fundamentalista e doentio alimentam e disseminam ódio e violência.

A estes, o patrão responde: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita” (vv. 29-30a). Ou seja, o discípulo e a discípula do reino não podem apresentar-se como juiz de ninguém. Julgar é prerrogativa de Deus apenas, e esse não julga pelas aparências, sem antes ver os frutos.

A segunda parábola é a da semente de mostarda. “O Reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (v.31-32).  Esta parábola é a resposta de Jesus aos desejos de grandeza e poder na sua comunidade. Diante da estrutura imperial e da grande organização da sinagoga, o projeto do Reino anunciado pelo Senhor era praticamente invisível, ou, conforme a mentalidade equivocada dos discípulos, ineficaz. Por isso, eles, sedentos de poder, não se conformavam com aquela situação. É necessário que a comunidade aceite a condição de pequenez em que se encontra e a reconheça como necessidade para compreender a dinâmica do Reino, o qual não pode impor-se por sinais de grandeza. Pelo contrário, precisa ser cultivado, e colocar-se no mundo a partir da dinâmica do serviço, agindo como abrigo e promovendo acolhimento para os mais necessitados, “Os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”.

A terceira parábola é a do fermento. “O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (v. 33). Trata-se de uma das parábolas mais revolucionárias de Jesus porque apresenta o Reino dos céus sendo comparado a um elemento considerado impuro pela tradição judaica, o fermento; e com a atividade de uma mulher.

Na tradição judaica, antes da celebração da festa da Páscoa, solene memória da libertação, a família, uma semana antes, realizava uma faxina minuciosa da casa, no intuito de se eliminar todos os alimentos levedados, bem como o próprio fermento (hbr. Chemetz/fermento velho), para se comer pão sem fermento (ázimo) e celebrar a vitória contra Faraó e a libertação da casa da escravidão. Ora, para a cultura e tradição da época a mulher não tinha voz e nem espaço. Pouco teriam a contribuir com um projeto de sociedade, principalmente como o do Reino dos céus e, no entanto, Jesus se serve delas.

A tentação que Ele quer fazer a comunidade vencer, na verdade, são duas:o desânimo e a impaciência, por não ver os resultados nem os efeitos gerados pela pregação e pela forma da vida cristã. Com uma parábola como essa, o Senhor quis injetar ânimo e perseverança neles e, ao mesmo tempo, desconstruir a imagem distorcida de um Reino marcado pela grandeza e pelos sinais exteriores.

O Reino de Deus, pelo contrário, se constrói no anonimato e na simplicidade, sua ação deve ser sempre como a do fermento, que atua escondido. Mas que só se vê e se sabe de sua presença devido ao crescimento da massa. Assim, só é possível ver a ação deste Reino (a massa que cresce) quando se constatam os sinais de sua presença: vida plena, fraternidade, igualdade, justiça, amor e misericórdia emanadas através da existência dos discípulos-missionários.

Dos vv.36-43, o Mestre explica aos discípulos – portanto, um ensinamento reservado – apenas a parábola do Joio. Ele a explica detalhadamente com uma alegoria, ou seja, destrinchando aos discípulos alguns elementos da parábola que ainda não haviam ficado claros. Cada elemento da ilustração é identificado com precisão. O semeador do trigo é o Filho do Homem, ou seja, Jesus. O campo é a humanidade, o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. A cizânia-jôio são os “filhos do maligno”. O termo “filhos” pode ser entendido como simpatizantes de uma causa. O semeador da semente má é o diabo, divisor e opositor do Reino. A colheita simboliza o fim do mundo. Mas última palavra em relação à qualidade das sementes será, única e tão somente, o mesmo Filho do Homem, que realiza a colheita em nome de Deus. Ele será o encarregado de constatar a qualidade do fruto. Somente ele terá a ultima palavra ao realizar o julgamento.

Quem pensa a si como boa semente precisa sempre estar consciente para não deixar crescer em sua vida o Joio. Se faz necessário estar em constante vigilância, pois poderá acontecer de se tornar semente ruim mesmo antes da colheita. E, para aqueles que vivem como cizânia sempre será tempo de conversão, até que chegue o tempo da colheita. Nada está definido na aventura da existência humana, pois a qualidade do fruto será atestada somente pelo Pai do Céu.

Mesmo incompatíveis com a Boa Nova do Reino, as três tendências a serem combatidas ao interno da comunidade, o puritanismo (farisaísmo), a grandeza (poder), o desânimo (impaciência) marcam a sua história, desde as suas origens com os Doze até os dias atuais. Por isso, motivados pelo texto, qual um espelho para (e da) nossa vida, cabe-nos questionar: a que grupo pertencemos? Que semente temos sido (trigo, joio ou mostarda)? A quais tentações temos cedido?

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco da paróquia santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

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