sábado, 11 de julho de 2026

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 13,1-9:

 


A liturgia deste décimo quinto domingo do tempo comum propõe para a meditação o capítulo treze do Evangelho segundo Mateus, o qual apresenta uma nova catequese importante do segundo evangelho a ser trabalhada também nos próximos domingos: o discurso em parábolas.

As parábolas eram utilizadas na antiguidade bíblica, bem como no tempo de Jesus. Pertencem ao gênero literário sapiencial denominado mashal. O narrador ou os rabinos se serviam dos acontecimentos e das coisas simples da realidade e do cotidiano para transmitirem o seu ensinamento acerca da interpretação da Lei. Elas possuem três funções características para atingir seu fim pedagógico: 1) chamar a atenção dos ouvintes a partir do exagero dos elementos simples; 2) provocar os mesmos ouvintes; 3) gerar uma mudança de comportamento na audiência, no público alvo – nos leitores. Jesus igualmente se serviu deste gênero para ensinar os discípulos e as multidões.

Qual o conteúdo central do ensinamento de Jesus? O Reino de Deus. Mateus reúne, pois, no capítulo treze, o ensinamento do Mestre acerca do Reinado dos Céus, maneira que o evangelista se refere a esta realidade, dado que sua comunidade é composta de judeus-cristãos, e, por reverência ao nome de Deus, não o menciona.

A vida de Jesus se pauta a partir de dois absolutos, a saber: a relação com o Deus de Israel que ele chama de Pai, e o anúncio do Reino. O Reino ou Reinado – como a exegese atual prefere assim nomear – é a ação soberana de Deus na História humana através de Cristo. Por isso, o Reino é uma pessoa, como já dizia Orígenes, nos primórdios da tradição eclesial. A adesão a pessoa de Jesus de Nazaré, confessado como Senhor e Cristo gera um novo modo de viver para o discípulo, na história humana; gerando e propondo um modo de ser e de viver, uma ética.

As parábolas de Jesus sobre o Reinado dos Céus, são, na verdade, modos diferentes de se mostrar – misteriosamente – a atuação de Deus na história. Mateus as reúne em número de sete precisamente para ensinar que este ensinamento é carregado de plenitude, uma vez que o número sete indica perfeição. Elas também cumprem um papel pedagógico importante em relação à vida do discípulo e da comunidade: São chaves para interpretar a ação de Jesus e o destino do Reino quando sua morte já está decretada (Mt 12,14), e os discípulos (daquele tempo e das gerações futuras) correm o risco de cultivar ideias equivocadas a respeito do Mestre.

Ao revelar os “mistérios do Reino”, isto é, como Deus age na história, Jesus quer alertar os discípulos. Por isso, as parábolas são decifradas e interpretadas somente para eles, em particular. As multidões, que ainda não aderiram ao Senhor o veem com suspeita. Por isso, são inaptas para compreendê-las; daí, que as parábolas permaneçam enigmáticas para elas.

A primeira parábola a ser meditada é a da semeadura. Dos vv.1-3, Mateus situa-nos na cena. Jesus está nas margens do mar da Galileia. Ali uma multidão se reúne para ouvi-lo. Toma a iniciativa de subir numa embarcação e começa a ensinar. O evangelista não quer que o Mestre seja comparado aos rabinos de seu tempo, que ensinavam em pequenos grupinhos e de modo privado. Sua preocupação centra-se, antes, no desafio de ser discípulo em contextos adversos. Por isso, o ensino se dá fora da casa (segurança), sobre uma barca (símbolo da Igreja), nas margens do mar (lugar das forças contrárias ao querer de Deus, onde o discípulo é chamado, junto de Jesus, a realizar a vida e a missão). Com essa atitude de sair de casa e ir às margens do mar, o Senhor convida a Igreja de todos os tempos a ser uma Igreja em saída. A comunidade cristã não pode fechar-se em si, nem buscar seguranças. Pelo contrário, deve lançar-se, colocar-se em saída e ir às margens.

De 4-9, Jesus começa a ensinar, servindo-se da imagem do semeador, que sai para semear. A semente que carrega consigo vai, ao longo do caminho caindo. Cai em terreno pedregoso, em meio a espinhos, em solo arenoso e, por fim, em terra boa e fértil. O elemento-surpresa da parábola que deve chamar a atenção do ouvinte e, posteriormente, do leitor discípulo do evangelho, que é, por si só paradoxal é o próprio semeador. O ouvinte ou leitor poderá se questionar: “mas que tipo de semeador é esse, que não percebe que as sementes vão caindo pelo caminho? Que desatento! Ou não sabe trabalhar!”. Esta provocação, como dissemos no início, é intencional. Ela serve para despertar o discípulo e manter a atenção na lição.

As realidades em que a semente cai ou é lançada merecem atenção. Estrada, areia, espinhos e o terreno bom são realidades ou situações que podem se fazer presentes na vida da pessoa e do discípulo, que podem favorecer ou não a acolhida para com a mensagem. Não se tratam de quatro tipos de pessoas. Tampouco são quatro tipos de corações ou de mentalidades.

A estrada pode simbolizar as situações de imediatismos. A Semente é lançada, e se esperam resultados rápidos. E como não há tempo para germinar e, portanto, acolhimento, ela fica exposta e os pássaros a comem, ou seja, algo a retira da vida da pessoa.

A areia, acena para aquilo que é frágil e superficial. A Semente do Reino que nela cai não encontra profundidade, brota logo, e, por não possuir raízes, que dependem de profundidade e nutrição, morre. Ela pode nascer, pode produzir fruto, mas será momentâneo, frágil demais – assim como a areia, leve e sem consistência.

Os espinhos, terceira situação ou contexto em que a semente é lançada ou pode cair, simbolizam tudo aquilo que possa sufocar e, portanto, impedir o desenvolvimento e a germinação da semente. Aquilo que pode ser obstáculo e impedimento na pessoa para que o Reino e o Evangelho encontre lugar e aconteça na vida dela.  

A terra boa na qual a semente cai é aquela situação ou contexto de acolhimento da palavra e anúncio do Reino. Nela acontece a germinação e o desenvolvimento da semente; ali ela produz.  Cem, sessenta e trinta por cento dizem respeito à capacidade de cada um acolher a mensagem do Reino e fazê-la frutificar em boas obras. Essa imagem exagerada dos frutos é importante: o máximo que se esperava de uma espiga de trigo eram trinta grãos. Aqui está uma demonstração da vida em plenitude que receberão aqueles que aderirem ao projeto do Reino. Os frutos que se esperam deste solo bom são o amor, o perdão, a reconciliação, a fraternidade, a justiça, desejados por Jesus, os quais são símbolos de plenitude de vida. Contudo, só quem tem discernimento é capaz de compreender o significado da parábola (Mt 11,15; 13,43). E, com muita reflexão, poderá captar a mensagem de esperança e encorajamento desse ensinamento do Senhor.

O texto propõe quatro eixos interpretativos, a saber, o cristológico (revela algo de Jesus), o teológico (acerca da ação de Deus), o eclesiológico (que toca a vida da comunidade) e, por fim, o escatológico (enquanto meta, finalidade, “para qual fim a parábola leva”).  

O semeador, numa leitura cristológica é o próprio Jesus. Na perspectiva teológica, a semente lançada é o próprio Reinado de Deus na história. No âmbito eclesiológico a missão do semeador é a missão mesma da comunidade. A missão do Semeador, e, consequentemente, dos discípulos, consiste apenas no lançar a semente. Ainda nesta perspectiva, a parábola serve de advertência contra as tentações do sucesso e do eficientíssimo, em decorrência disso, na pastoral do milagre e do sucesso. “Tudo aquilo que se faz deve ser bom!” Mas Jesus quer ensinar que o mistério do Reino vai acontecendo, sim, porém por força própria, mesmo em meio a muitas perdas. A força do crescimento desta semente depende de Deus. Por isso, o investimento deve ser total, principalmente nas pequenas coisas; naquilo que não se vê; que pode não chamar a atenção por não ser extraordinário ou diferenciado. Quando se começa a perceber muito sucesso, é porque a mentalidade do Anti-Reino entrou em suas estruturas

A dimensão escatológica se mostra na qualidade dos frutos. Somente no final da missão é que se verá, de fato, se aquele solo em que caiu a semente favoreceu a sua produção. Os que se acham os tais, poderão se reconhecer também como solos inférteis. Os que achavam que nada produziram poderão se descobrir como terra boa, que cooperaram para que a semente produzisse frutos em abundância.

Ao discípulo e à comunidade cabem somente a semeadura a exemplo do Semeador. Mesmo não vendo os frutos. Por isso, não deverá ter a pretensão do sucesso garantido. Não deverá julgar a sua identidade mediante a isso. Mas poderá medir sua autenticidade diante das muitas perdas. Percebamos que o próprio Jesus foi quem muito semeou, e, ao final de sua vida, não “colheu” nada aos olhos dos esquemas mundanos. Não poderá trazer para si a responsabilidade de determinar se alguém produziu ou não, se foi terra boa ou não. Esta tarefa pertence somente ao Senhor. Ele dará a ultima palavra no tempo da colheita.

Que a Igreja seja estimulada sair constantemente de si mesma para lançar a semente do Reino, a Palavra, em todas as circunstâncias. O importante é ter coragem de assumir as margens sem medo. É necessário, inclusive, ter a coragem de fracassar.

 

Pe. João Paulo Sillio.

Pároco e reitor da Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


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