sexta-feira, 3 de abril de 2026

TRÍDUO PASCAL: Solene Vigília Pascal (Mt 28,1-10):


 

A liturgia desta noite santa, Mãe de todas as vigílias, nos convida a tomar o texto mateano que narra a experiência da ressurreição, Mt 28,1-10, o último capítulo da catequese do evangelista, o qual conclui de modo magnifico todo este evangelho eclesial. Mas qual a finalidade deste relato? Mostrar uma forma de se fazer experiência com Jesus ressuscitado. Fazer memória às Palavras de Jesus e refazer o sentido de sua vida, acolhendo o convite de retornar à Galileia.

Nenhum evangelho descreveu a ressurreição de Jesus. A imagem clássica e tradicional do Cristo triunfante, de fato, não pertence a tradição do Novo Testamento, mas a um escrito apócrifo do Século II, chamado “evangelho de Pedro”. Contudo, os quatro evangelistas dão indicações, através de seus escritos e das experiências comunitárias com o ressuscitado de como puderam encontra-lo. A ressurreição não foi um privilégio concedido a um pequeno grupo dois mil anos atrás, mas se torna uma possibilidade aos crentes de todos os tempos. Apropriemo-nos também desta experiência, meditando o texto.

“Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro” (v.1). O evangelista inicia o relato com uma observação temporal, “Depois do sábado”. O sábado era dia a ser observado rigorosamente pelo judeu do tempo de Jesus. Violá-lo significava falta gravíssima. Mateus coloca esta referência cronológica para transmitir uma mensagem teológica: a observância deste preceito faz com que a comunidade dos discípulos retarde a sua experiência com o Ressuscitado. Enquanto existirem esquemas antigos, ainda não rompidos, não se conseguirá fazer experiência de vida. O evangelista utiliza o verbo “ver” para descrever a atitude das mulheres. Este verbo não traduz apenas o sentido da visão física, mas também a atitude de se fazer experiência com algo ou alguém. É uma atitude também ligada aos afetos que nutriam pelo mestre. Mas elas se dirigiram ao sepulcro para vê-lo, ou seja, para fazer a experiência com a realidade da morte, apenas.

“Ao amanhecer do primeiro dia da semana”, o evangelista faz memória do primeiro dia da criação. O primeiro dia da semana constitui-se também como o oitavo, já que o sábado era o sétimo dia. O número oito, na Igreja primitiva foi associado ao Cristo ressuscitado. O evangelista pretende ensinar à sua comunidade que aquele oitavo/primeiro dia é, agora, o novo e definitivo dia da Nova Criação. A ressureição do Senhor é a nova criação, ou a recriação da história, da humanidade e do universo a partir, agora, de Jesus Ressuscitado.

“Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”, mas falta uma mulher. Recorde-se que, próximo à cruz de Jesus estavam Maria, mãe de Jesus, Maria de Magdala, e a mãe dos filhos de Zebedeu. Ela não está no grupo que vai ao sepulcro. Por quê? Era ela uma mulher ambiciosa, lembremos que ela havia pedido os lugares de honra para seus filhos, mas quando se deu conta de que aquele Jesus fracassou no seu projeto de messias, perdeu toda a sua esperança e não se tornou testemunha da ressurreição. Mateus pretende dar um sinal claro para seus discípulos e para nós: se quisermos fazer a experiência com Jesus, o vivente, é importante que todo o caminho do Senhor seja passado a limpo em nossas vidas, a fim de se crescer na consciência de que a vida do mestre é perpassada pela via da cruz.

“De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela” (v.2). O terremoto, na teologia bíblica é um sinal simbólico da manifestação divina. Acontece, ali, portanto, uma teofania reveladora. Ela já ocorreu uma vez, no calvário, quando Jesus entregou o seu espírito nas mãos do Pai. O terremoto é um indicativo de que um novo tempo está surgindo, pois no A.T, os autores bíblicos se serviam deste fenômeno da natureza para marcar o fim de uma época e o começo de uma nova história. Ora, se na morte de Cruz de seu Filho, Deus se revelou presente, tanto mais agora, na ressurreição, a fim de revelar que toda a vida deste Jesus recebe do Pai a aprovação. Se no Crucificado Deus revelou-se presente, ainda mais no Ressuscitado.

“o anjo do Senhor desceu do céu”, a personagem angelical aqui presente não pode ser tomada ao pé da letra; não é uma criatura intermediária ou etérea. O anjo, na bíblia, simboliza a ação de Deus, ao entrar em contato com o ser humano. No evangelho de Mateus, esta figura simbólica aparece por três vezes: para anunciar o nascimento de Jesus; para protege-lo do olhar homicida de Herodes; e, por fim, para anunciar àquelas primeiras testemunhas a novidade da vida indestrutível em Jesus de Nazaré.

Interessante: não é o terremoto que faz rolar a pedra, desobstruindo o sepulcro, mas o anjo de Deus, que é o próprio Deus. O Pai mesmo confirma a vida do Filho Jesus. Ele é soberano na vida de seu Cristo. O anjo senta-se sobre a pedra retirada do sepulcro:  na antiguidade, o gesto de se sentar sobre algo era símbolo da conquista e vitória. Ali, naquele sepulcro, Deus realiza sua soberania sobre a morte e a vida. A aparência e vestimentas do mensageiro celeste são descritas por Mateus com os mesmos tons e cores da cena da transfiguração em relação à Jesus, em 17,1-13: “Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve” (v.3). São as cores e os elementos pertencentes ao âmbito de Deus, ou seja, manifestam a sua glória.

“Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos” (v.4), nos informa Mateus. Diante de uma experiência que pertence ao âmbito da vida, qualquer um que pertença aos sistemas e realidades de morte, como os soldados do império, fazem apenas uma experiência de morte. O evangelista é irônico. Aqueles que eles pensavam estar morto, está vivo; e aqueles que pensavam-se vivos, ficam, agora, como mortos.

“Então o anjo disse às mulheres: 'Não tenhais medo!” (v.5). O medo, na bíblia, é o contrário da fé. Pois ele paralisa; ao mesmo tempo que mantém na zona de conforto, e, por isso, não possibilita realizar o confronto com a realidade. Se o discípulo deseja, verdadeiramente, fazer a experiência da ressurreição e com o ressuscitado, com sua nova vida, com as novas possibilidades e novos horizontes precisa, pois, vencer o medo. Que medo te impede, hoje, de fazer uma experiência nova de vida, a partir da vida plena que Deus através do Ressuscitado está a oferecer?.

E continua, “Sei que procurais Jesus, que foi crucificado” (v.5b). Muito importante esta nota, pois ele deseja acenar para a mentalidade que se nutria a respeito de quem fosse crucificado; era tido como maldito perante a Lei (Dt 21,22). Mateus deseja mostrar para a sua comunidade que essa concepção acerca de Jesus está equivocada. Por isso a declaração do versículo seguinte é explosiva.

“Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava” (v.6). Atenção! anjo não diz “ele não está mais aqui”, mas, “Ele não está aqui”, pois o sepulcro nunca foi lugar para Jesus, por isso ele não pode conter o vivente! Ele lhes apresenta uma prova, as palavras de Jesus: “como havia dito”. Elas são o critério para que os discípulos e a comunidade consigam realizar a memória de Sua vida e experimentar a ressurreição. O Sepulcro não é, e nunca será o lugar definitivo para a existência de ninguém. Não o foi para Jesus. Por isso, não o será para o discípulo e para a discípula do Reino.

As mulheres são chamadas a fazerem primeiro esta memória, e, com isso, a experimentar o triunfo da vida. Memória é um primeiro critério para que se possa fazer a experiência da ressurreição e mesmo com Jesus Ressuscitado. O que seria esta memória? A capacidade de recordar, ou seja, procurar no coração e na mente as Palavras do Senhor e seus ensinamentos; revivê-los e torna-los existencialmente vividos novamente através da vida e das histórias pessoais de cada homem e mulher que aderiu ao sentido de Sua vida. E, por fim, torna-las presentes e atuantes na história. Com isso, atualizar a vida e a presença do Cristo em meio. A memória é o passar a limpo a vida, missão, obra do mestre na vida do discípulo e da discípula.

Às mulheres são destinadas as palavras de Jesus como chave de compreensão para o acontecido com o mestre. Esta é a uma profunda inversão dos esquemas e das lógicas humanas daquele tempo, pois elas não eram consideradas. Para se dar como verdade uma notícia ou um fato, a cultura e a sociedade de Jesus exigiam através da lei a verificação de duas testemunhas qualificadas, ou seja, homens e em número de dois. O testemunho das mulheres não tinha peso. Mesmo se fossem em número de duas, como o texto relata. Por isso, o testemunho do qual são elas incumbidas de dar tem muita força pois rompe com os padrões da época e é o que garante a veracidade do anúncio e do fato da ressurreição. Mulher alguma, ou, pessoa alguma se arriscaria por uma mentira. Mas, ao mesmo tempo, o evangelista deseja ensinar que a experiência da vida nova deve atingir a todos, sem exclusão; rompendo com toda e qualquer mentalidade sexista, machista, misógina, sectarista, elitista. Ou seja, a força de vida que contém a vida vitoriosa de Jesus deve ser doada a todos. Por isso, esta experiência não deve ficar “sepultada”, guardada unicamente para elas; antes, devem “ir de pressa contar aos discípulos que Jesus ressuscitou dos mortos”.

O mensageiro estabelece um segundo critério pedagógico para as mulheres, além das palavras de Jesus (da experiência da memória): retornar para a Galileia. Porque o mestre “vai à vossa frente para a Galiléia. Lá vós o vereis” (v.7). A localidade parece ser importante para o evangelista, porque ela aparece três vezes. Lá a comunidade dos discípulos poderá ver o ressuscitado. É importante o verbo “ver” de que Mateus faz uso. Ele aparece também nas Bem-aventuranças (Mt 5,8, “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”). Este verbo não indica apenas uma capacidade física atrelada aos sentidos do ser humano, mas uma profunda experiência interior com Deus.

Ligada a esta ordem divina, é o mesmo que afirmar, “na Galileia da realidade da vida é que vocês poderão fazer experiência com o ressuscitado”. Note-se, que Mateus diz que Jesus ressuscitado não se manifestará em Jerusalém, sede do poder e da dominação (cidade assassina dos enviados de Deus), mas na Galileia, lugar das primeiras experiências que os discípulos fizeram com Jesus; lugar de sua pregação e primeiro anúncio do Reino.

“As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos” (v.8). A medida que as mulheres vão se afastando do sepulcro, que remete à impossibilidade de vida, vão recuperando a alegria, e se preparando para transmitirem o anúncio. No meio do caminho acontece algo: “Jesus foi ao encontro delas, e disse: 'Alegrai-vos!” (v.9). Enquanto estão indo pelo caminho para anunciar a vida, o Senhor da vida lhes vem ao encontro, para com Sua presença reforçar o anúncio. Então as mulheres se aproximaram, prostraram-se e beijaram os pés de Jesus. A menção dos pés indica e confirma que as mulheres tiveram um encontro real com Jesus; indica a realidade física de alguém. Não com um espírito ou fantasma. O gesto da prostração recorda o reconhecimento e a reverência do ser humano diante da glória divina. Ou seja, elas reconhecem agora a Jesus como Deus e doador da vida divina. Na medida em que elas se dirigem para levar a alegria e a força da vida para os discípulos, elas fazem a experiência com o vivente Jesus, no caminho, isto é, na realidade e na concretude da vida.

De fato, trata-se do encontro com alguém que está vivo. Jesus fala com elas, e lhes recomenda, mais uma vez, a não terem medo. E confirma as palavras do mensageiro celeste: “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão” (v.10). Agora, elas são encorajadas a cumprirem a função do anjo: elas devem se tornar as anunciadoras da vitória do Mestre; devem ser as mensageiras da grande notícia do triunfo da vida sobre a morte. Devem fazê-lo, primeiramente aos discípulos, os quais são chamados de “irmãos”, por Jesus. Repete, novamente, a ordem de se dirigirem para a Galileia. Por quê esta insistência de Jesus, que Mateus recupera? Porque somente refazendo os passos de Jesus, de sua vida e de seu ensinamento se pode fazer experiência com o ressuscitado.

O texto evangélico nos provoca: 1) O que procuramos “ver”, um sepulcro, um defunto ou um Vivo? 2) Qual o nosso estado de ânimo: medo paralisante e “confortante” como as mulheres que se dirigem ao túmulo fazer experiência com a morte, ou como as mulheres que se permitiram transformar no caminho com o Vivente? 3) Estamos dispostos a atualizar a presença da vida do Senhor através da nossa vida (fazer memória)? 4) Estamos igualmente dispostos a refazer sempre e constantemente o caminho da primeira experiência com Jesus, voltar para a Galileia?

Ao nos colocarmos nestas provocações poderemos encontrar-nos no caminho com o Vivente, o Ressuscitado.

Feliz e santa Páscoa.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

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