sábado, 18 de abril de 2026

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DA PÁSCOA – Lc 24,13-35:

 


A liturgia deste Terceiro Domingo da Páscoa nos apresenta o relato conhecido por todos como os discípulos de Emaús. Lucas conserva os dados comuns a Marcos, Mateus e João, mas transmite a experiência com o ressuscitado a seu modo para a sua comunidade e para as gerações seguintes. O texto, na verdade, tem a função de apresentar um verdadeiro itinerário para o discípulo fazer a experiência da ressurreição e com o Ressuscitado. Mergulhemos na cena.

“Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém” (v.13). Lucas situa a cena ao redor dos acontecimentos do dia da ressurreição. Mas revela que a comunidade ainda encontra dificuldades para fazer a experiência com aquele evento. Prova disso são os dois discípulos, um de nome Cléofas, e outro, anônimo, que pertenciam ao grupo dos Doze, dirigindo-se para o povoado de Emaús.

Por que seguem para Emaús? Para responder a essa indagação, se faz necessário compreender a teologia da catequese lucana e os expedientes literários dos quais ele se serve para transmitir seu evangelho (e também o livro de Atos) para sua comunidade também em crise. O projeto teológico de Lucas revela como meta e centro da missão de Jesus a cidade de Jerusalém. Desde o capítulo nono, se narra a viagem do Senhor para a cidade santa. Lá Ele revelará a ação de Deus, através de sua entronização a partir da morte de Cruz e da ressurreição. O evangelista se apropria da profecia de Isaias, que “de Jerusalém vem a Palavra de Deus”, para ensinar à sua comunidade que a vida, missão e obra (paixão-morte-ressurreição) de Jesus se tornam Palavra a ser revelada e anunciada a partir de Jerusalém.

Os discípulos se deslocam em direção a Emaús, caminho oposto à Jerusalém. Caminham na contramão da vida e da missão de Jesus. O fato de irem para a direção contrária à do grupo revela que ficaram, de fato, desorientados após a morte do mestre. Eles não conseguem assumir como meta para si o sentido da vida de seu mestre. Emaús, significa, portanto, o estado de ânimo do discípulo e da comunidade: frustrados, fracassados, desolados e desorientados. Isso se deve ao fato de possuírem uma noção equivocada acerca da identidade de Jesus. Nutriam falsas esperanças em relação ao mestre. Almejavam a restauração de um reino terreno, e por isso, concebiam um messias triunfante, dominador, guerreiro, revolucionário. No entanto, se deparavam com um crucificado, que, sob hipótese alguma poderia ser o ungido, da descendência davídica, pois o messias não poderia morrer.

“Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles” (v.15). Aqui, o evangelista se apropria daquela imagem de Jesus, enquanto pastor ideal (pertencente ao Quarto Evangelho), que não abandona suas ovelhas. Antes, caminha com elas. “Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram” (v.16). Por que não conseguem reconhece-lo? Enquanto mirarem pelo retrovisor para um sepulcro, para a realidade da morte, não conseguirão fazer experiência da vida; a medida em que vivem de coisas sem sentido, de expectativas frustradas e cultuando decepções não conseguirão fazer experiência com o Vivente. Não se darão conta de que é o Senhor quem caminha com eles.  

Diante da pergunta do peregrino acerca do conteúdo da conversa deles durante a viagem, eles o colocam a par dos últimos acontecimentos. Note-se, eles não abandonam o adjetivo nazareno, o qual aludia a condição de revolucionário. Ainda se prendem a essa expectativa. Mas a incompreensão é tamanha quando identificam a Jesus como um profeta. Não entenderam absolutamente nada acerca da vida e da missão do Senhor. Passaram tanto tempo em sua companhia e só o que conseguiram (ou quiseram) absorver é que ele era um poderoso profeta em palavras e obras. Não conseguiram vem Nele a presença de Deus. Eles ainda relatam que as mulheres do grupo lhes deram um susto, ou seja, não bastou o testemunho delas.

A resposta de Jesus a eles soa como reprovação: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória? (vv.25-26). O verbo utilizado por Lucas, “dever/necessidade” precisa ser bem entendido: a necessidade deste sofrimento só pode ser compreendida diante da liberdade de Jesus ao assumi-lo, não enquanto predestinação ou determinismo, mas como consequência de uma vida inteira vivida na fidelidade ao Pai.

O que Jesus faz, em seguida, é emblemático: lhes interpreta as escrituras, “E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele” (v.27). Mais do que explicar (conforme faz uso a tradução litúrgica) Lucas usa o verbo “interpretar” (Gr. διηρμηνευεν / dihermhenêuesen), verbo do qual provem o termo técnico hermenêutica, a arte ou a técnica de interpretar o texto. Jesus não se limita a narrar, dizer ou explicar lhes os textos das Escrituras, mas a interpretá-los. Ou seja, ler toda a sua vida e missão à luz das Escrituras, e vice-versa. Mas, para ler e compreender as Escrituras é necessário lê-la e interpretá-la com o mesmo Espírito que as inspirou, o amor criador e gerador de vida de Deus-Pai, por toda a obra da criação. E este será um critério que permitirá aos discípulos compreender as Escrituras sob o signo da vida de Jesus. Ele está, primeiramente, preparando e abrindo os corações dos discípulos a partir da Palavra de Deus.

“Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: "Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!" Jesus entrou para ficar com eles” (v.28-29). Informação interessante, pois o povoado nos evangelhos representa a mentalidade equivocada, a resistência e o fechamento. Ou seja, condiz com o estado dos dois peregrinos. Ao simular seguir viagem, o Senhor tenta provocar e instiga-los a não parar ali. A continuar o caminho; a refazer a trajetória.

Mas diante da insistência deles aceita ficar. Compreende lhes a dificuldade, pois é o pastor que não abandona seu rebanho. Uma outra lição importante: mesmo diante de um ambiente e contexto refratários e resistentes em que os discípulos e a comunidade estão, Jesus não deixa de ensina-los a fazer experiência de vida com Ele. Para mostrar que, mesmo diante das situações contrárias e das dificuldades, sempre é possível fazer experiência de vida com o Ressuscitado que está sempre presente ao lado dos seus.

Um critério a mais é necessário ao discípulo, para compreender o sentido (caminho, direção) da vida de Jesus. O qual emerge da cena, a seguir. O evangelista recorda a última ceia do Senhor através do gesto do sentar-se à mesa com os discípulos e partir o pão com (e para) eles: “Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. (v.30). A forma como o autor organiza a cena no relato é interessante: sentados à mesa estão Jesus, Cléofas e o outro, anônimo. Estas personagens são sempre um convite a colocar o nosso nome nelas. O discípulo anônimo pode ser cada um de nós. Pois, diante dos limites que trazemos conosco, há também lugar na mesa; podemos tomar parte dos gestos e dos ensinamentos do Senhor que, ao redor da mesa tudo refaz.

Os mesmos gestos, a mesma ação que Jesus realizara com os discípulos na ceia pascal. Lucas é o único evangelista que faz memória das palavras do Senhor naquela ceia, e, que, após narra a ordem de iteração “Fazei isto em memória de mim”. Assim, Jesus, realizando os mesmos gestos da Ceia da Nova Aliança atualiza para eles a sua presença. Isso faz com que os olhos dos discípulos se abram e possam reconhecê-lo.

Os olhos dos discípulos só podem se abrir diante de Jesus que parte o pão, porque primeiro foram abertos os corações a partir da escuta da Palavra de Deus que o mestre explicara e proclamara durante o caminho. Uma lição importante: para se fazer uma genuína experiência com o Senhor Ressuscitado os dois sentidos, audição e visão, precisam estar sintonizados na escuta da Palavra e no ver Jesus partir o pão.

Por que, precisamente, no gesto do partir do pão os discípulos reconheceram a Jesus? É no partir do pão que o Ressuscitado se apresenta todo inteiro; se faz presente todo o sentido de Sua vida em amor. Para se compreender melhor essa dinâmica se faz necessário retomar a narrativa da última ceia e recordar os gestos e as palavras do Senhor. Ao dizer “tomai e comei, isto é o meu corpo”, ele está afirmando “isto sou Eu”. É como se perguntasse aos discípulos (de todos os tempos): “vocês querem saber quem sou eu e como se vive o sentido da minha existência? Basta olhara para este pão. Eu sou (semelhante) este Pão. Toda a minha vida se oferece como se doa um pão para a vida das pessoas. Neste pão se encontra toda a minha vida e história”. Por isso, se o discípulo quiser unir a vida a de Jesus precisará comer do Pão, ou seja, assimilar todo o sentido de Sua existência.

Ao realizar a sua memória diante dos discípulos à mesa, Jesus tornou-se invisível aos olhos deles (v.31). O texto litúrgico diz que Ele desapareceu, o que não expressa bem o sentido dado pelo evangelista. A melhor tradução é “ficou invisível”. Desparecer significa não estar mais presente, alude ao perigo de conceber o Senhor como ausente, o que não é verdade. “Ficar invisível” significa permanecer presente sem ser visto, acenando para a certeza da sua presença, mesmo sem vê-lo. Esta é a mensagem que o Evangelista quer transmitir para sua comunidade: Jesus se torna visível todas as vezes que a comunidade se reúne para partir o pão, ainda que invisível, porque será a vida do discípulo e da comunidade a torna-la visível, atual e, portanto, presente.

Somado à Palavra de Deus reinterpretada por Jesus (à luz de sua vida), o pão repartido se torna critério para experimentá-lo como Ressuscitado. Assimilando seu gesto de entrega-em-amor, a comunidade poderá fazer o que Ele fez e viver como Ele vive. Poderá experimentar a força ressignificadora de Sua ressurreição ao ouvir Sua palavra e sentar-se à mesa, a fim de retomar o caminho certo.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São  Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP.

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