A
liturgia deste quarto domingo da páscoa apresenta sempre a temática do Bom
Pastor aplicada a Jesus. O texto evangélico é tomado do capítulo décimo do
Evangelho segundo João, variando os versículos deste capítulo. Para o ciclo
litúrgico A, o qual a Igreja este ano vivencia, os versículos propostos são os
iniciais, de 1-10. Mas, qual a função deste capítulo para a catequese do tempo
pascal? A de ensinar o discípulo a passar pela porta da vida que é Jesus
ressuscitado, deixando para trás os recintos de morte. Ouvir a palavra do
pastor Ressuscitado a fim de ter a vida plena, e, com Ele conduzir para fora
dos lugares de morte todos aqueles que se encontram presos nestas circunstâncias.
Para melhor compreender a mensagem evangélica deste domingo pascal, se faz
necessário algumas constatações.
O contexto amplo do texto precisa ser levado em consideração. O capítulo décimo, que apresenta a alegoria do pastor e o discurso de Jesus acerca do pastor ideal é precedido pelo capítulo nono. Se poderia pensar e facilmente afirmar que o tema do pastoreio-rebanho-pastor emerge no Quarto Evangelho precisamente em virtude do sinal realizado pelo Senhor no capítulo precedente, a cura do cego de nascença. Estes acontecimentos narrados em Jo 9 – 10 possuem como pano de fundo a festa das cabanas, uma das grandes festas de peregrinação do povo de Israel, na qual se fazia a memória do tempo em que o povo não havia conquistado a terra, vivendo em tendas. Após a dominação dos Selêucidas, no período dos Macabeus (1Mc 4), o templo destruído foi recuperado e dedicado. Por isso, à festa das tendas foi associada a da dedicação do templo. Importante: nestas festas solenes de peregrinação, o povo esperava a manifestação pública do Messias. É devido a este contexto de festa religiosa que Jesus se encontra na cidade santa, e faz lá suas declarações mais bombásticas: declara-se como Luz do mundo e Bom Pastor.
O Sinal em Jo 9 consiste na revelação do Senhor como sendo o enviado (hbr. siloé) para trazer a Luz para o mundo. O cego de nascença se torna metáfora para as lideranças do povo, cegadas pelo poder, que recusam conscientemente ver a Luz de Deus que se manifestava em Jesus de Nazaré. O capítulo décimo surge, então, como resposta e advertência à postura destas lideranças judaicas. Ao invés de cuidar, acolher, promover-lhes a vida e a dignidade, acabavam expulsando de seu meio as pessoas simples do povo; aqueles que lhes representavam alguma ameaça (entre estes, os seguidores do Nazareno), ou, porque, simplesmente viviam fora de seus “padrões”, como o ex-cego. Sabendo disso, Jesus vai ao seu encontro (Jo 9,35-37), e o discurso acerca do Bom Pastor é desencadeado. O Senhor se apresentará, portanto, como contraponto às lideranças religiosas do povo, que deveriam pastorear, tarefa que não estavam cumprindo, segundo o coração de Deus, o pastor supremo de Israel.
O tema do pastoreio era muito presente na vida do povo de Israel. É importante, primeiramente, saber que o rebanho/ovelha foi um símbolo aplicado ao povo de Israel. Já a imagem do pastor era atribuída ao próprio Deus. Mas, no decorrer da história do povo, foi deslocada para as lideranças do povo: os reis e sacerdotes. Após estas constatações, o texto pode ser meditado. Por isso, João utiliza como pano de fundo para redigir seu relato o texto do profeta Ezequiel, no capítulo 34, onde o profeta denuncia os maus pastores de Israel, os quais apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2). De acordo com o profeta, Deus tomaria a iniciativa de destituir os maus pastores e cuidaria, ele mesmo, do rebanho (cf. Ez 34,11). Com base nestas contextualizações, podemos tomar o texto nas mãos.
“Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas” (vv.1-2). João inicia o discurso com um solene “Em verdade, em verdade”, literalmente, “amém, amém”, que significa que “o que será dito é verdadeiro, é seguro; te digo com firmeza”. O autor quer mostrar que as palavras que se seguirão serão um ensinamentos importante, e, que, por isso, devem estar atentos. Qual é o conteúdo desta declaração? “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas”. Estas palavras são direcionadas aos fariseus, aos líderes do povo, os quais não exerciam esta função corretamente.
O evangelista usa o termo recinto (gr. αὐλή/aulé) – e não redil ou rebanho, como a tradução litúrgica sugere. Com “aulé/recinto”, ele se refere ao átrio do templo, o pátio onde se situava a casa dos sumos sacerdotes. Na perspectiva de João, o Senhor, mesmo estando no ambiente religioso judaico deseja, na verdade colocar-se como alternativa àquele recinto, isto é, ao Templo e a todo o sistema religioso, que já não eram capazes de colocar a pessoa na relação com Deus. E apontar para a superação de todo esse sistema de escravidão, opressão, domínio e morte em que a religião de Israel havia se transformado.
O evangelista pretende ensinar aos seus que as instituições religiosas do judaísmo são superadas e substituídas pelo dom da vida Jesus, o qual será o novo lugar, o pasto seguro e viçoso em que o homem encontrará vida e poderá se relacionar com Deus. Serão com os recintos/espaços de morte que o discípulo deverá romper!
A leitura e compreensão deste versículo não podem ser moralizantes, ou seja, viciar o entendimento desta passagem no aspecto do pecado, subentendido como recinto de morte. Para muito além o texto deve direcionar o olhar do leitor/ouvinte do evangelho. Ou melhor, muito para dentro! Isto é, para a experiência religiosa equivocada. O recinto mais perigoso do qual o discípulo deve sair é o daquela religiosidade que transmite e ensina uma imagem errada acerca de Deus e da vida de Fé. Não há recinto mais diabólico do que aquele que promove, inculca, forja e formata na pessoa humana uma experiência de Deus que oprime, que subjuga e que mata. Será deste recinto que Jesus, como pastor, conduzirá para fora a suas ovelhas. Serão de lugares e contextos como estes que o discípulo deverá sempre sair, permitindo ser conduzido pelo Cristo.
“Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v.2-3). Por que as ovelhas escutam Sua voz? Reconhecem e encontram na voz e na pessoa do Senhor a resposta para os seus anseios de vida. É bonito notar o nível da relação que Jesus estabelece com os seus. Não é superficial. Para Ele ninguém é um número, e sim uma pessoa bem concreta. Tal nível de relação faz com que a ovelha-discípulo seja “conduzida para fora”. O verbo utilizado pelo evangelista é exagein (gr. εξαγει), o mesmo usado no livro do Êxodo para indicar a libertação Egito para a terra da liberdade e da vida nova. O discípulo, que rompe com os esquemas de morte (recinto/redil) é convidado a trilhar um caminho novo de libertação e vida.
“E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (v.4-5). Jesus, depois de as fazer sair não as aprisiona em outro recinto, mas as conduz para a plena liberdade. Uma característica toda peculiar deste pastor joanino é a de caminhar com suas ovelhas. Não as deixa solta, sem qualquer compromisso com elas, mas vai a frente, conduzindo e caminhando junto. No v. 5 (“Mas não seguem um estranho”), o mestre não faz uma constatação. Na verdade, ele dá um conselho. É necessário fugir daqueles que se apresentam como pretensos pastores, que, como se verá mais adiante, serão lobos disfarçados. As ovelhas só escutam e reconhecem a voz Daquele que as ama, e não dos que desfrutam e usufruem de suas vidas. Só pode ser verdadeiro e exemplar pastor aquele que dá a vida, e não quem a tira.
“Jesus contou-lhes essa parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer”. Qual o motivo da incompreensão dos fariseus? Resistência e não-pertencimento ao rebanho do Senhor. Antes, fazem-Lhe uma firme oposição. A incompreensão das parábolas de Jesus por parte dos discípulos ou dos chefes religiosos do povo não se deve a uma dificuldade intelectual. Mas à uma postura de resistência e oposição; uma mente e corações fechados e endurecidos. É impensável, para eles, reconhecer o erro e sair da zona de conforto, de domínio e de poder. No caso dos fariseus e saduceus, angariam seus próprios rebanhos para desfrutar aproveitarem-se deles.
“Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas (gr. εγω ειμι η θυρα των προβατων)”. O evangelista usa uma formula de revelação, “Eu sou (εγω ειμι / Egô eimî)”, que alude à revelação de Deus no Êxodo, YHWH. A intenção de Jesus é de revelar aos seus discípulos a presença de Deus através de sua vida e existência. Já a do autor do Quarto Evangelho é a de revelar à sua comunidade a condição divina de Jesus e de que ele é “a porta das ovelhas”. Ele se revela a porta através da qual as ovelhas devem passar, saindo do recinto da dominação e da impossibilidade de vida. Ao passar por Jesus tudo o que é antigo encontra-se superado. Ele não quer ninguém preso dentro das estruturas ultrapassadas.
“Eu sou a porta. Quem entrar por mim será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (v.9). Jesus declara-se, novamente, como a porta através da qual se adentra e se pode tomar parte do novo rebanho de Deus. O evangelista usa dois verbos, “entrar” e “sair” para enfatizar que o mestre não encerra – encarcera – suas ovelhas, mas as conduz para a liberdade. A porta, que é Jesus, não se encontra fechada. Somente pessoas maduras são livres. Por isso, é tarefa do pastor criar na ovelha/discípulo a maturidade. Esta, só pode crescer quando se cria a consciência no discípulo. Assim, a porta (que é Jesus) sempre estará aberta, indicando o caminho da liberdade. Este é o segundo critério do autêntico pastor.
Ora, somente seguindo ao Senhor se encontra plenitude de vida e liberdade, simbolizadas pela imagem da pastagem. O evangelista realiza um jogo de palavras com no original grego através do termo pastagem e lei. Ambas possuem o mesmo radical “nom”: nomén (gr.νομην) significa pasto, e Nômos (gr. νόμος), Lei. Em Jesus, o ser humano não se encontra com uma Lei a ser cumprida, mas com uma pastagem, ou seja, um alimento que dá vida.
Neste sentido é que Jesus declara: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (v.10). Trata-se de um convite de Jesus às pessoas para que tenham vida plena, ou seja, a emancipar-se das relações de poder e domínio, a libertarem-se dos pastores que impõem e obrigam, a deixarem os antigos recintos e ambientes de morte, contrários ao projeto de Deus, e que geram a experiência equivocada acerca de Deus. A fim de a acolherem o dom da vida plena e inextinguível que Ele, em Jesus, oferece incondicionalmente a todos que escutam sua voz.
Nesse sentido, o papel do verdadeiro pastor, de acordo com o evangelho de João não consistirá em carregar ninguém ao colo – símbolo da dependência, domínio, paternalismos infantilizadores, que não geram vida nem fazem crescer – mas apontar caminhos, conduzir (ir com) e caminhar junto (ou em meio) aos seus; fazê-los caminhar para a vida e para a liberdade, sem medo.
De quais recintos precisamos sair ou romper? Jesus aponta a pastagem, o alimento e o cuidado que só Ele dá; temos comido do alimento que ele nos oferece? Tenho ouvido a voz do Senhor, ou outras vozes dissonantes tem falado mais alto em minha vida? Nos caminhos da vida, Jesus está à frente e caminhando conosco, tenho ido após Ele, ou insisto em tomar-lhe o lugar? Permitamos que o Senhor nos conduza da morte para a vida, qual pastor conduz suas ovelhas, a fim de que possamos colaborar com Ele na missão de pastorear, isto é, apontar caminhos, trilhá-los juntos, criar e formar consciências, e oferecer vida plena aos irmãos.
Pe.
João Paulo Góes Sillio.
Santuário
São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

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