sábado, 27 de dezembro de 2025

REFLEXÃO PARA A FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – Mt 2, 13-15.19-23:

 


Celebramos dentro deste tempo do natal, a festa da Sagrada família de Nazaré. Na dinâmica litúrgico-celebrativa, ela visa, em primeiro lugar, confessar uma verdade importantíssima dentro do mistério que vivenciamos na oitava de natal: a realidade da Encarnação do Filho de Deus. O Verbo, ao assumir a história humana, assume-a em seu realismo e em suas dinamicidades e estruturas, aceitando ser família, de modo a revelar à humanidade que também Ele, com o Pai e o Espírito formam uma família.

Mas qual a finalidade desta “assunção” da realidade familiar humana por parte de Deus? É a de propor à humanidade um convite: torna-la participante da família divina. Poderíamos parafrasear o v.14 do prólogo do Evangelho segundo João: “O verbo se fez carne e revelou sua Família entre nós”. Contudo, existe um critério, ou, se preferir, um caminho para se tornar integrante dela. É o que o texto evangélico proposto para esta solenidade nos convida a assimilar.

Antes de tudo, se faz necessário desconstruir aquelas idealizações concernentes à Sagrada Família. A família de Nazaré, José, Maria e Jesus não pode ser tida, a rigor, como modelo de perfeição ou daquela famosa imagem de “família tradicional”. Ela já começou fora dos paradigmas “humanos”, “culturais”, “religiosos”, “tradicionais” daquela época. Uma mulher que engravida, para todos os efeitos, fora das estruturas humanas e religiosas, fadada à mendicância, prostituição, e, em último caso, pena de morte. O esposo, que procura não assumir a sua prometida, e devolvê-la em segredo à família; o que revela, numa primeira leitura, um parceiro descompromissado e amedrontado. Uma situação destinada ao fracasso desde o começo. Aparentemente!

Agora, podemos entrar na narrativa do evangelho de hoje. O evangelista Mateus, se serve de um episódio já conhecido de seu povo e de sua comunidade, a matança dos meninos hebreus pelo Faraó, em Ex 1,22. O evangelista se serve da técnica de interpretação dos textos narrativos, utilizados pelos rabinos de seu tempo, o midrash. Ele se apropria desta técnica narrativa de interpretação para transmitir sua catequese sobre Jesus de Nazaré para a sua comunidade. Ele se serve de todo o patrimônio escriturístico, histórico e religioso de Israel para fazer conhecer a identidade de Jesus: para a comunidade de Mateus, Jesus é o novo Moisés, que assume toda a história e tradição de seu povo, para promover a nova libertação, o novo êxodo, e inaugurar o novo povo de Deus, através do qual Deus poderá exercer sua ação na história humana, ou seja, seu Reinado.

Uma trama diabólica existe por parte de Herodes. O mensageiro celestial informa a José que o tetrarca pretende atentar contra a vida do menino. “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo” (v. 13b). A expressão “Anjo do Senhor” é uma forma suavizada para falar de Deus mesmo. Como a mentalidade hebraica concebia-O como alguém muito distante, e por reverência ao nome divino usava-se a imagem de um ser intermediário, como um anjo. Já o sonho, na mentalidade bíblica, e sobretudo em Mateus, significa a disposição interior para compreender a vontade de Deus e colocá-la em prática. A primeira informação evidenciada aqui é a proteção constante de Deus na vida de Jesus, sendo também uma antecipação do seu ministério como oposição ao poder estabelecido. Mas Jesus será sempre guardado pelo Pai do Céu.

“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito” (v. 14). Existe uma estrutura neste versículo: José – o menino – a mãe. Notemos que Jesus está ocupando o centro da frase. O evangelista Mateus quer ensinar para a sua comunidade qual deve ser o seu referencial: o Senhor. Ele deve ocupar sempre o centro de sua vida. José e Maria são, aqui, símbolos do antigo Israel que vai se abrindo à novidade da vida e da missão de seu Messias, tornando-se assim um novo povo.

O texto continua, informando a morte de Herodes e uma nova aparição do Anjo do Senhor a José (v. 19), com uma nova ordem: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos” (v. 20). Mateus quer identificar Jesus como o novo Moisés, que do Egito inaugura um novo êxodo. A partir de onde? Dos marginalizados e excluídos. A ida para Nazaré, na Galileia dos pagãos mostra esta nova aventura sendo gestada. Ali, naquele lugar desprezado pelos judeus piedosos de Jerusalém, Deus dará início ao seu projeto de salvação e de vida, através do anúncio do Evangelho do Reino proclamado por Jesus. A narrativa se conclui, e somos convidados a tirar as consequências das lições apresentadas pelas personagens deste texto.

Os textos bíblicos destes convida a contemplar como as personagens Maria e José buscam responder ao projeto de Deus. Na perspectiva do Evangelho de Lucas, Maria é tida como o modelo do discípulo do Reino, pois ela se abre e se dedica à escuta, acolhida (discernimento) e cumprimento da Palavra de Deus ( Lc 1,38ss; 2,1-15). José, no evangelho de Mateus assume a figura do discípulo exemplar, ele é justo, porque permite que a vontade de Deus se cumpra em sua vida e através dela, escutando, assim a Palavra de Deus e colocando-a em prática (Mt 1,16ss; 2,13-19, texto de hoje). Quanto a Jesus, sempre o veremos como fiel ouvinte da Palavra do Deus que ele chama de Pai, do começo ao fim de sua vida e ministério.

Existe, portanto, uma característica comum entre as três personagens que compõem esta família de Nazaré, tão histórica e concreta: ouvir e discernir a Palavra de Deus. Isso, para escapar das possíveis quedas retóricas e devocionais relacionadas à idealização da família e da “sagrada” família. Especialmente, é oportuno recordar que, na economia cristã e de acordo com as próprias palavras de Jesus, a realidade decisiva é a nova família de Jesus: aquela dos seus discípulos e discípulas, reunida ao seu redor pelo anúncio da Palavra de Deus e que não se baseia mais em laços de sangue, mas no “fazer a vontade de Deus” (cf. Mt 12,46-50).

Importante notar uma última característica desta família: ela se deixa iluminar pela Palavra de Deus. Ora, Deus protege, mas o ser humano participa da contínua libertação. Em momento algum o evangelista diz que Deus os transportou de um lugar para outro. Apenas os iluminou com a Sua Palavra. A iniciativa de partir de um lugar para outro foi sempre de José, ou seja, do agente humano. É assim também que deve fazer a comunidade cristã: à luz da Palavra, tomar iniciativas de libertação; não repetindo as práticas do opressor, mas criando e propondo alternativas de vida.

O texto de hoje nos provoca: 1) Que imagem de família (ou modelo) trago comigo, ela é conforme os moldes e padrões desta mentalidade, perfeitinha, “exemplo de moral e bons constumes”? 2) O exemplo de José pode ser assimilado por nós e nossas comunidades? 3) Nossas famílias, com todo o realismo e imperfeição que elas possam ter, são espaços de escuta, acolhida, discernimento e realização da Palavra de Deus? 4) Podemos ser contados entre os membros da Família de Deus, assim como a humana e histórica família de Nazaré, que se colocou na disponibilidade da escuta e do cumprimento da Palavra de Deus?

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

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