A
liturgia do segundo domingo do advento, continuando a leitura do evangelho
mateano apresenta o capítulo terceiro, que proporá para o leitor o tema da
conversão. A tônica das duas primeiras semanas do advento é colocada sobre a
segunda vinda do Senhor. No evangelho da semana passada (Mt 24,37-44), a
pedagogia litúrgica fez a memória da atitude da vigilância requerida ao
discípulo do Reino. Por se tratar da temática da espera do retorno do Senhor –
a segunda vinda – a liturgia pretende formar a consciência dos fiéis para as atitudes relacionadas à ética é
exigida pelo Reino.
Não diferente, a temática deste segundo domingo mostra mais uma atitude que se espera daquele que deseja ser discípulo do Reino e de Jesus em face da Sua segunda vinda: a conversão constante que o homem e a mulher de fé deve empreender. Ela é apresentada através da figura do batizador, o profeta João. A seu modo, o evangelista Mateus insere a personagem na narrativa. E é sempre bom ter presente, que o autor do evangelho utiliza as grandes personagens e eventos da tradição histórica e religiosa (teológica) do povo de Israel para transmitir sua mensagem acerca de Jesus de Nazaré. Isto posto, podemos mergulhar no mar do texto.
“Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia” (v.1). Pela primeira e única vez, o evangelista utiliza a expressão “naqueles dias”. Mateus se serve dos eventos da tradição histórica e religiosa de Israel, e seu leitor-discípulo, ao ouvir esta expressão já ativa sua memória para um acontecimento pertencente ao AT, o episódio de Ex 2. Ali, Moisés cai em si e percebe os sofrimentos do povo Israel, rompe com a influência do Faraó, e inicia seu caminho como grande cooperador de Deus no projeto da libertação de sua gente. Esta expressão remete, então, a um tema do livro do Êxodo. Mateus deseja transmitir e ensinar à sua comunidade que, a partir de agora, Deus começará um novo êxodo na história, com a ajuda de uma personagem: João, cujo nome significa “Deus é misericórdia”. Esta nova história será levada adiante por Jesus, na continuidade do evangelho de Mateus. Antes, porém, ela precisa ser preparada.
O Batista atua no deserto da Judeia. Uma localização importante, tanto geográfica como teológica. Evocando temas da tradição do Êxodo, o deserto é o lugar em que o povo recém-saído do Egito passa um período até conquistar, mais tarde, a terra prometida. Esta localidade é uma constante teológica para os israelitas, e, igualmente para aquele que deseja tomar parte do projeto de Deus. É o lugar privilegiado para se fazer a experiência da Aliança com YHWH, renovando-a e purificando-se. Este lugar é composto por um relevo acidentado, com elevações e depressões; com formações rochosas, que termina às margens do Mar Morto. Ele precisa ser rebaixado e aterrado. Preparado e aplainado, a fim de que o Deus de Israel possa passar. Assim sendo, o deserto é mais um lugar para o refazimento da experiência e da relação com Deus.
João Batista apresenta o conteúdo da sua mensagem e pregação: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (v.2). A atitude da conversão. O evangelista apresenta o verbo converter no imperativo. Este verbo significa uma mudança de mentalidade; um refazimento da forma e do modo de pensar. Que depois se verificará na mudança da atitude. João se concentra sobre aquele anúncio do profeta Isaias, “deixai de fazer mal; fazei o bem(..) ainda que vossos pecados sejam escarlates, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Is 1,16-18). Assim, o Batista convida a uma mudança de mentalidade e de agir, a orientar a vida para bem do outro. O convite à conversão tem uma finalidade: acolher o Reino dos Céus.
Pela primeira vez no evangelho de Mateus aparece o termo Reino dos Céus. O catequista, respeitando sua comunidade de origem judaica se priva de mencionar o nome de Deus e, utiliza, portanto, a expressão “Céus”. Uma questão de respeito e sensibilidade, apenas. Não se trata de uma tentativa de delimitar o lugar do Reino. Ele não é um lugar geográfico, tampouco distante do ser humano; antes, significa o agir soberano de Deus na história, através de Seu ungido. Por isso é preferível utilizar o termo Reinado de Deus.
O reinado de Deus é (e sempre será) o Seu agir na história e pela história, através de seu Cristo. Então, o Reinado de Deus converge para uma pessoa, Jesus. E, evidentemente, as consequências éticas que derivam da adesão que o discípulo faz pelo Senhor ajudam a transformar/converter esta história, a realidade e a vida humana em Reinado de Deus. Não é uma vida ou reino para o além, mas a realidade em que Deus governa e exerce Seu agir, sua soberania e senhorio.
O evangelista, que gosta de utilizar as citações dos profetas da tradição de Israel, e com um enunciado próprio de um narrador, que interrompe a narração com uma informação que ajuda o leitor a entender ainda mais a narrativa, serve-se do profeta Isaias uma vez mais, “João foi anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (v.3). Todavia, Mateus realiza uma modificação no texto de Is 41. Lá, se lê: “Uma voz grita: no deserto, preparai (abri) um caminho para YHWH; na estepe, aplainai uma vereda para nosso Deus.” No tempo deste escrito, atribuído à Isaias, o povo vivia exilado na Babilônia, e este versículo canta e prepara a libertação dos israelitas e seu retorno para Jerusalém, na companhia de Deus. Desse modo, fazia sentido que o caminho fosse preparado no deserto. Porém, a forma como o evangelista modifica o texto do profeta evidencia que o novo êxodo começa por um caminho contrário; ou, inicia-se na contramão. A modificação operada pelo autor dá a entender que, a voz grita “no” deserto, ou seja, a partir do deserto, o caminho contrário à terra da promissão, que era símbolo do bem-estar e da benção de Deus para seu povo. Aquela terra e modelo de sociedade, na perspectiva do Batista não serve mais ao bem, havia se tornado modelo, esquema e estrutura de morte e ruptura com o projeto de Deus.
No v.4, João é caracterizado por Mateus nos moldes dos antigos profetas, por trajar uma vestimenta de pelos da pele de camelo, com um cinturão de couro a cingir os rins. Esta era a maneira de se vestir do maior profeta da tradição de Israel: Elias. Segundo a tradição religiosa e teológica do AT, o retorno do profeta Elias antecederia a vinda do Messias. Era austero em seu modo de vida, a ponto do evangelista informar que ele "alimentava-se de gafanhotos e mel", isto é, daquilo que o deserto lhe oferecia, ou seja, a dieta própria dos beduínos. Para o evangelista, João Batista encarna a predisposição profética de Elias, ou seja, simboliza e marca o retorno do carisma profético do grande profeta da fidelidade ao Senhor.
“Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia e de todos os lugares em volta do rio Jordão vinham ao encontro de João. Confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão” (v.5-6). João pregava um batismo de conversão, ou seja, de mudança de mentalidade e de vida, e as expectativas de todos os que habitavam aquela região de Jerusalém e do Jordão acorrem a ele. Eles compreenderam que os meios e os instrumentos utilizados pelos chefes religiosos (sacerdotes/saduceus, escribas e fariseus), e pela instituição sagrada não lhes serviam mais para favorecer lhes o encontro com Deus. Por isso, se dirigiam ao Batista e eram batizados. Este era já um rito conhecido pelos judeus: consistia numa imersão na água, que simbolizava a morte para o próprio passado, bem como a purificação e o nascimento para uma vida nova.
João, conforme a tradição dos quatro evangelhos, realiza o batismo nas margens do rio Jordão. Esta localização é, também, importante. Na tradição do Êxodo, ele representava a última etapa para que o povo, atravessando suas águas, pudesse conquistar a terra prometida sob a liderança de Josué. Mas, agora, este Jordão torna-se a etapa inicial para sair desta terra, deste esquema e estrutura contrárias ao querer de Deus.
O Batista anuncia o novo êxodo que depois será levado à termo por Jesus. Nesse sentido também, João acolhe as lideranças religiosas que se achegavam às margens do Jordão: “Raça de cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Produzi frutos que provem a vossa conversão. Não penseis que basta dizer: “Abraão é nosso pai”, porque eu vos digo: até mesmo destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão” (v.7-9). Com palavras inflamadas ele os acolhe, porque sabe que estes vêm para o cumprimento de mais um rito, apenas. Chama-lhes a atenção para uma mudança de mentalidade e de atitude, que são os frutos que comprovam a conversão. Todavia, estas pessoas, no decorrer do evangelho, não acolherão a palavra de João, tampouco a de Jesus.
Para concluir o trecho bíblico, que é muito rico, Mateus coloca na boca de João o seguinte: “Eu vos batizo com água para a conversão, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (v.11). Este gesto que o Batista realiza não é o mesmo que um Outro, que ele distingue como o “mais forte”, pode realizar. O profeta do Jordão sabe que não pode dar o Espirito de Deus reconhecido como Santo, o qual é o dinamismo de vida de Deus. Este possui a missão e a capacidade de mergulhar (batizar) a pessoa na realidade mesma do Pai e do Filho, isto é, na plenitude da vida divina. Já o batismo de João, realizado na água, acena para o fato de ser submergido numa realidade externa/exterior ao homem realiza apenas o externo e não doa a vida divina. Somente o mais forte doará o Espírito de Deus, isto é, introduzirá a humanidade numa nova e plena vida, a vida divina.
Uma nota importante: a conversão para qual a liturgia de hoje nos chama não é tortura, tampouco sadomasoquismo; não se trata de uma mania escrupulosa que torna o fiel maníaco religioso. Ela é, acima de tudo, um processo existencial, que vai galgando os passos da vida, performando a história pessoal do discípulo. Jamais será um tratamento de choque, muito menos uma virada ou tomada de consciência heroica da parte do ser humano. Quando estas coisas acontecem, o processo pode ser chamado de tudo, menos conversão.
Que o evangelho deste segundo domingo do advento possa preparar o deserto de nossos corações e nossas vidas, para que Deus passe. Que estejamos sempre dispostos a viver as pequenas conversões de cada dia, mudando a mentalidade e transformando nosso agir. Que nossa vida e história possam ser o deserto a partir do qual Deus possa realizar seu novo e constante êxodo, e como o Batista, preparar a estrada para o Senhor que definitivamente virá, e que constantemente nos visita.
Pe.
João Paulo Góes Sillio.
Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.
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