O terceiro domingo do advento introduz a liturgia
da Igreja na temática do primeiro advento, ou seja, a celebração memorial da primeira
vinda do Senhor em seu santo Natal. Para isso, a espera, a vigilância e a
conversão oferecem lugar ao tema da crise a partir da figura de João Batista. Recorde-se
que na semana passada, o profeta batizador do Jordão apresentava uma imagem
radical de Deus, ao chamar o povo à mudança de mentalidade, e, com isso, se
afirmava que ele também seria um dos que mais necessitavam desta transformação.
Hoje, através do texto de Mt 11,2-11, esta realidade emergirá.
A crise de João é a de todos aqueles e
aquelas que se deparam com uma maneira nova de Deus agir; que chama também à
mudança de perspectiva, mentalidade e de atitude. O texto mateano do capítulo
onze situa-se após o discurso missionário, Mt 10, o qual recupera o ensinamento
de Jesus acerca da missão destinado aos discípulos. Após concluir a catequese,
é o mesmo Senhor que sai em missão. Todavia, no caminho anterior a este
discurso missionário, Ele realizou dez gestos de poder, que teriam a finalidade
de revela-lo como messias poderoso através das obras (Mt 7,1 – 9), até
chegarmos à narrativa de hoje. É a respeito destes dez gestos de poder que o
evangelista se refere no v.2 do capítulo onze.
“João estava na prisão. Quando ouviu falar
das obras de Cristo enviou-lhe alguns discípulos, para lhe perguntarem: És tu,
aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (v.2-3). O evangelista faz
uma interrupção da narrativa após a conclusão do “discurso missionário” e
insere, novamente, a personagem de João Batista. Ele está preso na fortaleza de
Maqueronte, a mando de Herodes, que ficara incomodado pela denúncia que fizera:
ter tomado a esposa de seu irmão Filipe, Horodiades, e a ter levado mais sua
filha, para a morar na corte. O Batista denunciava a atitude do governante
porque lhe colocava numa condição de impureza por se tratar do relacionamento
com a mulher de seu irmão, conforme Lv 20. Isso incomoda a mulher e o monarca,
o que o leva a encarcerar a João. Flávio Josefo diz que o motivo era puramente
político, devido a influencia que o profeta exercia sobre o povo.
Muitos estudiosos do evangelho de Mateus
definem este trecho de Mt 11,2-12 e Mt 14 (a paixão e morte de João) como sendo
o momento da “crise do Batista”. No cárcere, João ouve falar das obras de
Jesus. E a crise emerge na personagem, precisamente por aquilo que ouve falar
acerca daquele galileu, que um dia fizera parte de seu grupo.
A crise se instaura em João devido a
incompatibilidade de sua mensagem frente ao agir de Jesus. Dito de outra
maneira, a ação e missão de Jesus fogem da regra e das expectativas de João, as
quais ele anunciara em sua pregação. O Batista havia declarado que o Messias
viria já com a foice nas mãos; que o machado já estava na raiz; que o batismo
do “mais forte” seria com o Espírito, para inserir os fieis na vida de Deus e
no tempo do messias; mas com o fogo destruidor, para aqueles que tivessem sido
infiéis ao querer de Deus. João envia, então seus discípulos a Jesus para
perguntar-lhe se era mesmo o messias esperado ou deveriam esperar outro (cf.
v.3).
Jesus responde aos discípulos de João:
“Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os
paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos
ressuscitam e os pobres são evangelizados” (v.4-5). No agir e no ensinamento de
Jesus não há uma palavra de condenação; de recusa ou de violência. Ao
contrário, gestos, atitudes e palavras de acolhimento, amor e perdão aos que
não mereciam: cegos, paralíticos, leprosos, surdos, os pobres e os que se
encontravam envolvidos em sistemas e estruturas de morte. Pessoas estas, que,
conforme a pregação de João e crença religiosa da época, não mereciam a
salvação por serem pecadores e enfermos. Às pessoas excluídas e marginalizadas
como estas eram lhes reservadas o fogo exterminador, o machado já posto na
raiz. Em Jesus, não se encontram tais atitudes, mas somente uma proposta de
plenitude de vida e um amor oferecido incondicionalmente pelos inimigos. Por
isso, este não poderia ser o Messias, segundo o pensamento de João, o qual deveria
vir com o poder, com autoridade, força e realizar o juízo de Deus, inclusive
para o Batista que se encontrava encarcerado naquelas condições injustas. Se
Jesus fosse o Messias, deveria agir em favor do próprio João, inclusive.
O que desconcerta João e o coloca na
condição da crise é o fato de que Jesus anuncia e vive um amor do Deus de
Israel, a quem chama de Pai, que se estende e se oferece a todos, injustos e
incompreendidos. Diante disso, Batista entra no processo pessoal da revisão da
vida, porque toda a sua pregação caiu por terra. Jesus respondeu aos discípulos
de João com fatos e não com teorias. A práxis de Jesus, ou seja, seu agir,
recupera, inclusive, a pregação dos profetas que anunciaram o tempo messiânico
a partir do surgimento de um tempo novo onde cegos, surdos, paralíticos,
leprosos, todo tipo de gente ruim, seriam acolhidos e reconciliados com Deus.
Mateus mostra de forma muito clara o agir salvador e reconciliador de Deus
através de Jesus, por meio dos dez gestos de poder que o Senhor realiza nos
capítulos anteriores (Mt 8 – 9). São dez porque remetem às dez pragas que
feriram o Faraó e os egípcios, em Ex 7 – 12. Elas tinham a função de mostrar o
poder de YHWH e o chamado à conversão ao Faraó. São dez oportunidades para que
o líder egípcio cai na conta da soberania de Deus, e mudar o coração, a ponto
de deixar o povo hebreu escravizado partir.
O evangelista reinterpreta a passagem de
Ex 7 – 12, e ao invés de mostrar o poder e a autoridade de Deus em Jesus
exterminando e destruindo, mostrará o agir de Jesus ao purificar leprosos,
curar surdos, fazer falar os mudos, perdoar pecado, o anúncio da Boa Nova do
Reino aos pobres. Jesus responde aos discípulos de João com fatos. Com ações
positivas que tem a função de realizar a recuperação da vida a todos aqueles e
aquelas que se encontram destituídos, excluídos e marginalizados, que eram
descritos simbolicamente assim.
Jesus profere uma bem-aventurança ao final
desta resposta aos discípulos de João: "Feliz aquele que não se
escandaliza por causa de mim!” (v.6). Ela é, ao mesmo tempo, um convite de
conversão para o próprio João. Interessante notar que a imagem de um Deus que
pune, condena, destrói, queima, não causa terror nas pessoas do tempo de Jesus
e João (inclusive neste). Mas a imagem de um Deus que age salvando através do
amor, do acolhimento, da restituição da vida e da história é a que mais gera
escândalo. A palavra escândalo deve ser entendida aqui como barreira,
obstáculo, impedimento, ou, literalmente, pedra de tropeço. “Bem-aventurados
são aqueles que não encontram em mim qualquer impedimento para que Deus possa
agir através destas minhas atitudes”, ou seja, não encontrar nas ações de Jesus
qualquer impedimento para reconhecer Deus agindo. Ou seja, felizes serão todos
aqueles que não encontrarem qualquer obstáculo no agir de Jesus, a fim de
reconhecer Nele Deus agindo. Mas, os discípulos de João se retiram. Mostram que
não estão de acordo com o ouviram. São pessoas ainda necessitadas de uma
mudança de mentalidade.
Jesus, diante da dúvida posta por João e
seus discípulos no tocante ao Seu agir, faz o contrário, elogia a missão e a
vida do Batista: “Jesus começou a falar às multidões, sobre João: O que fostes
ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem
vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos
reis. Então, o que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é
mais do que profeta. É dele que está escrito: Eis que envio o meu mensageiro à
tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti” (v.7-11). O Batista é
um profeta, assegura Jesus! Ele não é uma cana agitada pelo vento, ou seja,
frágil, facilmente de ser dobrado, alguém inconstante, conveniente, pende para
onde o poder está, mas sim um homem coerente; não é um homem de palácio, ao
contrário dos profetas da corte do rei que adulavam o chefe do povo, ao
contrário, possuía um modo de vida austero e simples, e na contramão das
expectativas do rei. João, declara Jesus, é o mensageiro enviado (gr. ἄγγελος/anjo)
para preparar o caminho. Mas apenas para isso. João apresentou dificuldades
para assimilar o caminho de Jesus. Por isso, deve também ele converter aquela
imagem divina que tinha em seu íntimo e pregava.
O v.11 conclui esta passagem da catequese
mateana com um dito de Jesus que é por demais revelador e, ao mesmo tempo,
funciona como mais uma característica a ser vivenciada por aqueles e aquelas
que querem ser discípulos do reino dos céus, e acolher o Senhor do Reino que
está para chegar. “Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram,
nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é
maior do que ele” (v.11). Jesus declara a grandeza de João. Mas exige tanto do
batista, quanto de seus discípulos a coragem de se tornar “menor”. O que Jesus
quer dizer com isto? Para se tornar participante deste Reino que vem se faz
necessário passar pelo nascimento segundo o Espírito, Aquele que é doado,
segundo pregação de João Batista, pelo “mais forte”, o Messias-Jesus. Esta vida
segundo o Espírito de Jesus, é a mesma vida Dele, que se fez menor entre as
minorias marginalizadas de seu tempo. Assim, o discípulo precisa aprender a se
fazer pequeno como o mestre.
Dito de uma forma mais simples: quem
quiser fazer parte deste Reino e acolher sua chegada deve assimilar a vida de
Jesus, suas atitudes, suas escolhas, ensinamentos e opções, porque ele sendo
grande se tornou o menor entre todos, colocando-se ao lado das minorias de seu
tempo. Esta é a vida de Jesus sendo conduzida pelo Espírito. Desta vida,
carregada da plenitude de vida do Espírito de Jesus é que o discípulo é chamado
a assimilar e participar. Eis a terceira atitude que o fiel-discípulo é chamado
a assimilar neste tempo do advento, fazer-se menor entre todos e colocar-se
entre os menores desta história e realidade, convertendo aquela imagem de um
Deus castigador, destruídos, carrasco, para imagem que Jesus transmite com sua
vida e missão, o amor, a misericórdia e a salvação.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Santuário São Judas Tadeu, Avaré /
Arquidiocese de Botucatu-SP.

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