sábado, 10 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA A FESTA DO BATISMO DO SENHOR – Mt 3,13-17:

 


O tempo do Natal se encerra com a festa do batismo do Senhor. Nesta festa, celebrada no domingo depois da Epifania, a liturgia recorda o batismo de Jesus por João Batista nas águas do rio Jordão. E mais uma “epifania”: Jesus é manifestado como Filho de Deus e seu servo fiel. Para isso, o texto bíblico é retirado do evangelho segundo Mateus, o qual narra a cena em questão (Mt 3,13-17).

Os capítulos 3 e 4 de Mateus são a parte narrativa da primeira das cinco catequeses/livros que compõem o evangelho (caps.3-7). A narrativa do Batismo de Jesus pode ser dividida em três cenas: v. 13; vv.14-15 e vv. 16-17. O núcleo está nas palavras de Jesus a João Batista: “Devemos cumprir toda a justiça” (v. 15). As primeiras palavras do Senhor registradas no Evangelho de Mateus.

A narrativa tem, em primeiro lugar, uma função já nos primeiros versículos, a de eliminar uma polêmica emergente nas primeiras comunidades cristãs. Nos primeiros anos um conflito surgia entre os discípulos de João Batista e os discípulos de Jesus. O primeiro grupo defendia a superioridade do profeta do Jordão por ter batizado o Mestre. Por isso, o evangelista Mateus, nestes versículos trata de colocar o Batista em seu devido Lugar com a frase do v.14: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. Estabelecendo, pois, a superioridade de Jesus e de seu batismo em relação à João. O Messias de Nazaré é o enviado de Deus para realizar o seu projeto; ele deve ser o centro da comunidade dos discípulos do Reino. Sua missão, vida e obra superam a obra de João. Sua morte e Ressurreição são o novo batismo, o qual consigna o Espírito de Deus. Feita esta devida consideração, pode-se mergulhar no horizonte do texto.

A narrativa segue a localização geográfica comum a Marcos, nas margens do rio Jordão. Após a chegada de Jesus e o diálogo iniciado por João, este obtém uma resposta um pouco dura, mas repleta de densidade teológica: “Por enquanto deixa como está́, porque nós devemos cumprir toda a justiça!" (v.15) A Justiça da qual se refere Jesus não é um código de leis, mas a vontade de Deus. Isto significa dizer que o que João faz, batizar a Jesus, corresponde ao querer do Pai. Como esta sendo realizada a justiça, entendida como a vontade de Deus? Que vontade é esta? A salvação e a redenção de toda a criação e gênero humano. Isso causa estranheza ao Batista, porque sua imagem de Deus e de Messias correspondia a de um juiz escatológico implacável, que destruiria e eliminaria da história tudo e todos que fossem contrários ao querer de Deus. Pelo contrário, Jesus, com sua missão revelará um caminho novo de salvação e libertação a todos, indistintamente. Comunicará vida ao invés de destruição e morte.

Qual o sentido do Batismo de Jesus? Solidariedade. A função do Batismo do Senhor consiste em colocá-lo na fileira de todos pecadores desejosos de purificação. Corresponde à vocação anunciada pelo anjo de “salvar seu povo de seus pecados (Jesus)” (Mt 1,21). A presença do Senhor no meio deles tem caráter salvífico, enquanto sal e luz do mundo. A convivência com a multidão dos pecadores nas margens do Jordão, antecipa toda a Sua missão que será um constante resgate destes.

Mateus descreve rapidamente a cena do batismo. E descreve a teofania trinitária fora das águas do Jordão, justamente para assinalar que o batismo de João é inferior e está superado pela ação, vida e obra de Jesus. O verdadeiro Batismo de Jesus é quando o Espírito desce sobre ele e permanece. E na entrega do mesmo Espirito na cruz e no Pentecostes.

A manifestação divina do Pai e do Espírito recordam Gn 1,2, onde este pairava sobre as águas na narrativa da criação. Mateus, ao narrar esta manifestação do Espírito sobre Jesus deseja, primeiramente, ensinar que o Pai, em seu Cristo, está começando uma nova criação, a ser plenificada na obra da Ressurreição. Jesus é, portanto, a imagem e a realização do homem novo, da humanidade nova, recriada e reorientada para Deus. Em segundo lugar, afirmar que Jesus, em sua humanidade, é a morada definitiva do Espírito de Deus, e, com isso, toda a humanidade se abre a esta realidade. A simbologia da pomba é especial. Ela é a única ave que mostra sempre fidelidade ao seu ninho. Jamais abandona sua morada.

A vinda do Espírito, somado à voz de Deus apontam para o terceiro significado do batismo de Jesus, ou seja, a sua investidura messiânica. O Senhor é ungido pelo Pai para realizar a missão de anunciar e inaugurar o Reino dos Céus, através de sua vida e de seus ensinamentos. Jesus é reconhecido como filho querido do Pai: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (v.17). O filho amado é aquele que reproduz, imitando em tudo, o agir de seu pai na sociedade do tempo de Jesus. Não corresponde somente a condição biológica e sanguínea. Mas ao agir. Ou seja, as atitudes e ações de do Senhor serão sempre desejadas pelo Pai. Corresponderão ao desígnio salvador de Deus. Esta será sua identidade determinante como realizador e fiel obediente a Deus: filho.

A expressão “no qual pus meu agrado” é como que o eco de Is 42,1, que fala do servo de Javé: “Olhem o meu servo, a quem apoio, o meu escolhido, a quem eu quero bem!”. Com isso fica claro o que Mateus quer afirmar com essa citação. Para ele, Jesus é o servo de Javé. A narrativa se conclui, mas é necessário tirar as consequências dela para a nossa vida de fé.

Jesus não se comporta como um privilegiado. Se queremos salvar alguém, tirar alguém do poço, devemos descer até onde ele está. Por isso Jesus se deixa batizar no meio dos pecadores, cumprindo assim ajustiça, o plano do Pai. É o despojamento de sua grandeza divina e, ao mesmo tempo, manifestação do Espírito. Isso contém um significado para nosso próprio batismo. Para comunicar o Espírito no qual fomos batizados devemos mergulhar no mundo em que vivem os nossos irmãos e irmãs, mundo marcado pela presença do pecado. Jesus participou do batismo do perdão dos pecados porque participava da comunidade humana curvada sob o pecado.

O batismo cristão não significa meramente o perdão dos pecados, como o de João (muito menos mera bênção de saúde ou coisa semelhante). É participação no batismo de Cristo e na sua missão como Servo de Deus, no Espírito. Nosso batismo deve levar-nos ao serviço de nossos irmãos. Ser batizado é tomar-se Servo do Senhor com Cristo, o Servo por excelência

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP


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