sábado, 17 de janeiro de 2026

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DO TEMPO COMUM – Jo 1,29-34:

 



O segundo domingo do tempo comum apresenta para a leitura e meditação eclesial o primeiro capítulo do evangelho segundo João. Há poucos dias, a Igreja celebrava o Batismo do Senhor, e as personagens do Batista e de Jesus retornam, mas sob a perspectiva do Quarto Evangelho.

A narrativa de Jo 1,29-34, encontra-se no Livro dos Sinais – a primeira sessão do Quarto Evangelho – e corresponde à semana inaugural do ministério de Jesus. O autor se põe a narrar os acontecimentos do segundo dia da missão do Senhor. O catequista introduz as personagens: “João viu Jesus aproximar-se dele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (v.29). Uma declaração muito forte e plena de significado, e que merece ser compreendida a partir de cada palavra. Em primeiro lugar, a quem o Batista dirige estas palavras, haja visto que ele se encontra sozinho após o encontro com os sacerdotes e levitas vindos de Jerusalém para interroga-lo acerca de sua identidade e autoridade? Esta afirmação colocada na boca do profeta do Jordão, na verdade se trata de um recurso literário do autor. Ele utiliza o verbo eidon (gr. εἶδον) no imperativo, ἴδε (Íde), o que geraria a seguinte tradução, “Olhai/vede” no sentido de prestar atenção. O evangelista quer ensinar quem é que deve atrair o olhar do discípulo. Isto é, para quem se deve agora olhar e ter como referência para a vida. Este homem para o qual João aponta é declarado como cordeiro de Deus. Esta primeira declaração acerca da identidade de Jesus precisa ser bem compreendida.

O evangelista se apropria do ambiente levítico-cultual dos sacrifícios de expiação dos pecados, realizados no templo de Jerusalém. Os judeus costumavam oferecer, diariamente, no Templo, bois, cordeiros, touros para expiar os pecados. As vítimas oferecidas em sacrifícios tinham função expiatória e finalidade reconciliadora. Esta era a mentalidade religiosa do judaísmo vivido por Jesus. O autor do Quarto Evangelho, ao transmitir sua catequese para sua comunidade, se serve do texto de Is 53,4-12, no qual o profeta fala da ação do Servo Sofredor de YHWH, que carrega sobre si os pecados do povo. Ou seja, uma pessoa que fosse capaz de reconciliar as pessoas com Deus poderia ser comparada ao cordeiro do sacrifício. Mas a imagem do cordeiro pode lembrar também o cordeiro pascal para as comunidades cristãs nascentes. Não se pode perder os dois horizontes de leitura e de interpretação do texto: o tempo narrado e o tempo da comunidade.

João Batista declara que Jesus, na condição de cordeiro elimina o pecado do mundo. Muito importante esta afirmação. João utiliza o verbo aîro (gr. αἴρω) que significa precisamente eliminar. A intepretação equivocada deste versículo pode levar a entender que a vida e a obra do Cristo consistiriam apenas em expiar os pecados com sua própria vida, como se o Pai o enviasse somente para morrer. Se deseja ensinar que a existência e o dom da vida de Jesus eliminam o pecado. A forma da Sua vida, isto é, como ele agirá, o que realizará, o que ensinará terá a força de eliminar toda e qualquer realidade contrária ao projeto de Deus no mundo e na humanidade. Isso, claro, se o homem fizer a sua opção fundamental por Ele.

 Mais ainda, para o evangelista João, Jesus é o Salvador não somente por tirar o pecado da realidade do mundo, mas por torna-se solidário com aqueles sobre os quais pesa o pecado. Ele mesmo sofre debaixo desse peso, não como culpado, pecador ou castigado em lugar da humanidade, mas como pessoa que, por sua fidelidade ao Pai, ainda que passando pela morte, abre um novo modo de existir.

O pecado para o evangelista é a atitude de rejeição a Jesus a ao projeto de Deus. Desse “pecado fundamental” é que nascem os demais pecados, que são frutos da rejeição de Jesus e sua prática libertadora enquanto cordeiro e servo. Quem não o reconhece está no pecado e nas trevas (cf. 1,10). Por isso, o “pecado” que o Cordeiro-Jesus retira não deve ser entendido no sentido individualista e moralista (os pecados da listinha). É o pecado “do mundo”. Mundo entendido, aqui, enquanto realidade contrária ao querer de Deus; tudo aquilo que possa indicar um projeto oposto ao Seu amor, que gera sempre uma ruptura que parece dominar a convivência humana e a relação com Deus; um projeto destrutivo, que desde a origem da humanidade é obra do “príncipe deste mundo”. A vitória do Senhor se prolonga na sua comunidade a partir da Páscoa, quando é dado o Espírito para tirar o pecado do mundo (20,19-23). Portanto, tirar o pecado do mundo seria o mesmo que doar e infundir o Espírito de Deus novamente no mundo. Por isso o Batista diz que este Cordeiro de Deus é aquele que batiza com o Espírito Santo, isto é, a plenitude da vida divina. É acerca deste Jesus que João dá testemunho.

O tema do testemunho é muito importante nos escritos joaninos. No Quarto Evangelho, o Batista não tratado como o batizador, como a voz no deserto conforme apresentado pelos evangelhos sinóticos. Aqui, ele é identificado como Testemunha. O verbo testemunhar (gr. μαρτυρέω/Martirêo) significa atestar, dar fé sobre algo ou alguém. Todavia, só pode dar testemunho, e ser considerada uma testemunha qualificada, aquele que fez uma experiência de vida com Jesus, de acordo com o evangelista. Qual o conteúdo do testemunho de João, o Batista? O v.29 responde: Jesus como o Cordeiro que tira o pecado do mundo e doador da vida de Deus.

O evangelista e o Batista querem ensinar, com isso, que, Jesus é o substituto e a superação de todo um sistema religioso-ritual do judaísmo antigo. Será Ele, através do dom de sua vida e obra, o encarregado de levar para fora do mundo, isto é, a realidade criada e a existência humana (o sonho original que Deus tem para seus filhos), toda a logica da ruptura, da descomunhão; aquilo que pode separar a pessoa humana de uma autêntica e profunda relação com Deus. Jesus, na perspectiva do autor do evangelho e do profeta João, será definitivamente aquele que retirará da história tudo aquilo que pode separar o ser humano e Deus, em suas relações. Mas isso só pode acontecer porque este Jesus age através do Espirito de Deus, e é seu portador.

Que Jesus temos testemunhado? Corresponde, Ele, com o mesmo testemunho de João? Ou temos testemunhado um Jesus dissonante do Evangelho e da fé das primeiras comunidades? Minha vida tem sido o lugar por sobre o qual o Espírito de Deus e de Jesus paira e permanece, assim como aconteceu com o Senhor? Tenho permitido com que ele carregue para fora de mim tudo aquilo que pode ser obstáculo para que o amor e o querer de Deus em mim tenha espaço? Tenho cooperado com Ele na missão de retirar o pecado  da realidade e da história humana, das relações?

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré /Arquidiocese de Botucatu-SP.


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