sábado, 23 de maio de 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE PENTECOSTES – Lc 2,1-11:


 

A Igreja celebra a conclusão do tempo pascal, o grande dia solene que o Senhor fez para o gênero humano e para toda a criação mediante a Páscoa de seu Cristo. O Pentecoste marca a plenitude do mistério pascal de Jesus, sua paixão, morte, ressurreição (ascensão). A nova criação (ou recriação) operada pelo Pai na páscoa do Filho atinge seu ápice com a manifestação e doação do Espírito à toda a criação e a cada pessoa. Nesta ocasião optamos por meditar At 2,1-11, o pentecostes lucano, com suas particularidades e simbolismos.

     O texto começa situando o leitor/ouvinte do texto: “Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” (v.1). Este primeiro versículo pode ser traduzido também da seguinte maneira: “Quando se completou o dia de Pentecostes”. O evangelista utiliza o verbo symplerousthai (gr. συμπληροῦσθαι) que comunica a ideia de plenitude/conclusão. Deriva do verbo “pleroô” (gr. πληρόω), que é comumente utilizado por ele para dizer que um tempo ou ciclo chegou ao fim e o início de um novo. Lucas deseja assinalar que o pentecostes da antiga lei chegou ao fim, e o Pentecoste do novo povo de Deus tem agora o seu lugar.

     O que era o pentecostes do Antigo Testamento? Era uma festa agrícola, dedicada à colheita e oferecimento dos primeiros dons da terra e dos animais à YHWH. Após a libertação de Israel da escravidão no Egito ela adquiriu características pascais. Exatamente cinquenta dias após a páscoa, o povo que caminhava no deserto chega ao Sinai e recebe de Deus, por intermédio de Moisés, as Palavras da Aliança, o decálogo. Portanto, o pentecostes judaico estava relacionado ao dom da Lei de Deus ao povo, através das tábuas de pedra.

         Lucas, ao narrar o dom do Espírito feito pelo Senhor, o faz coincidir com os cinquenta dias após a páscoa dos judeus justamente para afirmar a superação e a novidade que acontece através deste evento. Trata-se de um novo, definitivo e pleno Pentecostes: o Espírito do Pai e de Jesus, o Espírito Santo, derramado nos corações humanos e em toda a criação. Ou seja, o dom de Pentecostes não é mais uma lei gravada em pedras. Mas, a partir do dom da vida do Filho, Deus escreve (inscreve) dentro do discípulo o Seu Espírito. O seu dinamismo vital. Seu projeto de amor e de vida, a fim de que possam viver desta novidade de vida num tempo que é e precisa ser novo.

     Sinais de um tempo novo são os que Lucas descreve nos próximos versículos. Ele continua a narrativa servindo-se dos símbolos do patrimônio das escrituras de Israel ao narrar as manifestações divinas (teofanias). “De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles” (v.3-4). O vento (a tempestade) e o fogo são elementos puramente simbólicos que já apareceram no primeiro Pentecostes, em Ex 19,26 (// Dt 4,36). O fogo não se relaciona com a destruição. Antes, com a purificação. Como uma restauração. Ou seja, o fogo que simboliza a Força divina que vêm do Espirito de Deus é sinal da nova criação inaugurada em Cristo e reconfigurada a partir Dele.

         As línguas “como que de” fogo se repartem sobre os discípulos. Imagem bela e interessante. Ou seja, o Espírito não é um dom exclusivo para poucos, mas é doado a todos os que abraçam o projeto de Jesus. Aqui se evidencia um pouco mais do mistério da vida do Senhor a ser continuada pela comunidade dos discípulos: assim como sua vida e existência foi uma intensa e contínua doação e partilha de si, seu Espírito também, para continuar esta forma de vida e missão nos discípulos e na comunidade é doado e partilhado a todos. O Espírito não se divide para gerar divisão, mas para gerar amor, unidade, comunhão e vida. A ninguém é dado posse do Espírito, mas a graça de ser possuído, inhabitado, por Ele.

         Lucas mostra o efeito desta experiência com o Espírito: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (v.4). A língua de que fala o evangelista é muito conhecida pelo discípulo: a própria vida do Senhor. Muito se tentou explicar este versículo de At 2,1-11, tendendo muitas vezes à hipóteses forçadas. Uns apelavam para o fenômeno da glossolalia, muito comum nas comunidades entusiásticas do tempo de Paulo, e com as quais o Apóstolo das nações se confrontou, determinado que só se utilizasse este “dom carismático” se, e somente se, na comunidade houvesse algum interprete. Não é o caso. Também houve a tendência de interpretar este versículo a partira da tese da xenoglossia, a capacidade de falar línguas estrangeiras.

 A língua que os discípulos falavam a partir da experiência com o Espírito Santo consistia num idioma fundamental: a práxis do amor oblativo e incondicional do Senhor, da fraternidade, do serviço mutuo e solidário, da unidade, da comunhão e da paz. As pessoas que tomavam contato com Evangelho pregado pela comunidade dos discípulos viam e presenciavam este estilo de vida presente na existência dos discípulos e da Igreja nascente.

         O v.11 conclui a narrativa com esta constatação: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!”. Lucas não economiza ao recorrer ao patrimônio das escrituras para falar do alcance deste novo tempo inaugurado por Jesus através da comunicação de Seu Espírito. Este é um tempo e uma vida destinados para todos, após fazer o elenco das nações existentes naqueles idos dos anos 80 d.C, até mencionar Roma, a última fronteira que o Evangelho de Cristo deveria chegar e cruzar.

 O evangelista, para trazer uma vez mais um tema muito querido por ele, a universalidade da Salvação inaugurada e proposta por Jesus, menciona, nesse sentido, as nações além Palestina. Este é o tempo novo que a comunidade dos discípulos deve anunciar e viver diante de todos; é a forma da vida de Filho que cada pessoa, marcada com o selo do Espírito, e por Ele inundado deve testemunhar. Quando isso acontece, todos podem escutar a Boa Nova de Deus que é a realização de Suas maravilhas, seu amor fiel e sua vida, em suas próprias línguas.

         O dom do Espírito, neste novo Pentecostes, realiza o oposto de Babel em Gn 11,1-9. Lá, a humanidade foi dispersada e dividida depois da tentativa de construir um imperialismo religioso-político (a torre para se chegar até Deus), construindo um projeto contrário ao desejo de Deus. Agora, ela é reunida pela força do Espírito que unifica os diferentes grupos humanos ou qualquer diferença, respeitando e promovendo as características culturais, das quais a língua é expressão. Nem a força ou a repressão, nem a planificação econômica ou política podem assegurar a unidade dos povos ou dos grupos humanos, mas sim o poder do Espírito de Jesus Ressuscitado, que promove com a liberdade e o amor novas relações e cria espaços alternativos de comunicação.

         Temos vivido uma existência segundo o Espírito de Jesus? Quais novas línguas o Espírito nos inspira a falar hoje? A vida e obra do Senhor tem sido o nosso idioma? Nossas comunidades tem falado a linguagem do Espírito de Cristo, amor, fraternidade, serviço, unidade, comunhão e vida para todos?


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP

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