A Igreja
celebra a conclusão do tempo pascal, o grande dia solene que o Senhor fez para
o gênero humano e para toda a criação mediante a Páscoa de seu Cristo. O
Pentecoste marca a plenitude do mistério pascal de Jesus, sua paixão, morte,
ressurreição (ascensão). A nova criação (ou recriação) operada pelo Pai na
páscoa do Filho atinge seu ápice com a manifestação e doação do Espírito à toda
a criação e a cada pessoa. Nesta ocasião optamos por meditar At 2,1-11, o
pentecostes lucano, com suas particularidades e simbolismos.
O texto
começa situando o leitor/ouvinte do texto: “Quando chegou o dia de Pentecostes,
os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar” (v.1). Este primeiro
versículo pode ser traduzido também da seguinte maneira: “Quando se completou o
dia de Pentecostes”. O evangelista utiliza o verbo symplerousthai (gr.
συμπληροῦσθαι) que comunica a ideia de plenitude/conclusão. Deriva do verbo
“pleroô” (gr. πληρόω), que é comumente utilizado por ele para dizer que
um tempo ou ciclo chegou ao fim e o início de um novo. Lucas deseja assinalar
que o pentecostes da antiga lei chegou ao fim, e o Pentecoste do novo povo de
Deus tem agora o seu lugar.
O que era o
pentecostes do Antigo Testamento? Era uma festa agrícola, dedicada à colheita e
oferecimento dos primeiros dons da terra e dos animais à YHWH. Após a
libertação de Israel da escravidão no Egito ela adquiriu características pascais.
Exatamente cinquenta dias após a páscoa, o povo que caminhava no deserto chega
ao Sinai e recebe de Deus, por intermédio de Moisés, as Palavras da Aliança, o
decálogo. Portanto, o pentecostes judaico estava relacionado ao dom da Lei de
Deus ao povo, através das tábuas de pedra.
Lucas, ao
narrar o dom do Espírito feito pelo Senhor, o faz coincidir com os cinquenta
dias após a páscoa dos judeus justamente para afirmar a superação e a novidade
que acontece através deste evento. Trata-se de um novo, definitivo e pleno
Pentecostes: o Espírito do Pai e de Jesus, o Espírito Santo, derramado nos
corações humanos e em toda a criação. Ou seja, o dom de Pentecostes não é mais
uma lei gravada em pedras. Mas, a partir do dom da vida do Filho, Deus escreve
(inscreve) dentro do discípulo o Seu Espírito. O seu dinamismo vital. Seu
projeto de amor e de vida, a fim de que possam viver desta novidade de vida num
tempo que é e precisa ser novo.
Sinais de
um tempo novo são os que Lucas descreve nos próximos versículos. Ele continua a
narrativa servindo-se dos símbolos do patrimônio das escrituras de Israel ao
narrar as manifestações divinas (teofanias). “De repente, veio do céu um
barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se
encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram
sobre cada um deles” (v.3-4). O vento (a tempestade) e o fogo são elementos
puramente simbólicos que já apareceram no primeiro Pentecostes, em Ex 19,26 (//
Dt 4,36). O fogo não se relaciona com a destruição. Antes, com a purificação.
Como uma restauração. Ou seja, o fogo que simboliza a Força divina que vêm do
Espirito de Deus é sinal da nova criação inaugurada em Cristo e reconfigurada a
partir Dele.
As línguas “como
que de” fogo se repartem sobre os discípulos. Imagem bela e interessante. Ou
seja, o Espírito não é um dom exclusivo para poucos, mas é doado a todos os que
abraçam o projeto de Jesus. Aqui se evidencia um pouco mais do mistério da vida
do Senhor a ser continuada pela comunidade dos discípulos: assim como sua vida
e existência foi uma intensa e contínua doação e partilha de si, seu Espírito
também, para continuar esta forma de vida e missão nos discípulos e na
comunidade é doado e partilhado a todos. O Espírito não se divide para gerar
divisão, mas para gerar amor, unidade, comunhão e vida. A ninguém é dado posse
do Espírito, mas a graça de ser possuído, inhabitado, por Ele.
Lucas
mostra o efeito desta experiência com o Espírito: “Todos ficaram cheios do
Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os
inspirava” (v.4). A língua de que fala o evangelista é muito conhecida pelo
discípulo: a própria vida do Senhor. Muito se tentou explicar este versículo de
At 2,1-11, tendendo muitas vezes à hipóteses forçadas. Uns apelavam para o
fenômeno da glossolalia, muito comum nas comunidades entusiásticas do
tempo de Paulo, e com as quais o Apóstolo das nações se confrontou, determinado
que só se utilizasse este “dom carismático” se, e somente se, na comunidade
houvesse algum interprete. Não é o caso. Também houve a tendência de
interpretar este versículo a partira da tese da xenoglossia, a
capacidade de falar línguas estrangeiras.
A língua
que os discípulos falavam a partir da experiência com o Espírito Santo
consistia num idioma fundamental: a práxis do amor oblativo e incondicional do
Senhor, da fraternidade, do serviço mutuo e solidário, da unidade, da comunhão
e da paz. As pessoas que tomavam contato com Evangelho pregado pela comunidade
dos discípulos viam e presenciavam este estilo de vida presente na existência dos
discípulos e da Igreja nascente.
O v.11
conclui a narrativa com esta constatação: “todos nós os escutamos anunciarem as
maravilhas de Deus na nossa própria língua!”. Lucas não economiza ao recorrer
ao patrimônio das escrituras para falar do alcance deste novo tempo inaugurado
por Jesus através da comunicação de Seu Espírito. Este é um tempo e uma vida
destinados para todos, após fazer o elenco das nações existentes naqueles idos
dos anos 80 d.C, até mencionar Roma, a última fronteira que o Evangelho de
Cristo deveria chegar e cruzar.
O
evangelista, para trazer uma vez mais um tema muito querido por ele, a
universalidade da Salvação inaugurada e proposta por Jesus, menciona, nesse
sentido, as nações além Palestina. Este é o tempo novo que a comunidade dos
discípulos deve anunciar e viver diante de todos; é a forma da vida de Filho
que cada pessoa, marcada com o selo do Espírito, e por Ele inundado deve
testemunhar. Quando isso acontece, todos podem escutar a Boa Nova de Deus que é
a realização de Suas maravilhas, seu amor fiel e sua vida, em suas próprias línguas.
O dom do
Espírito, neste novo Pentecostes, realiza o oposto de Babel em Gn 11,1-9. Lá, a
humanidade foi dispersada e dividida depois da tentativa de construir um
imperialismo religioso-político (a torre para se chegar até Deus), construindo
um projeto contrário ao desejo de Deus. Agora, ela é reunida pela força do
Espírito que unifica os diferentes grupos humanos ou qualquer diferença,
respeitando e promovendo as características culturais, das quais a língua é
expressão. Nem a força ou a repressão, nem a planificação econômica ou política
podem assegurar a unidade dos povos ou dos grupos humanos, mas sim o poder do
Espírito de Jesus Ressuscitado, que promove com a liberdade e o amor novas
relações e cria espaços alternativos de comunicação.
Temos
vivido uma existência segundo o Espírito de Jesus? Quais novas línguas o
Espírito nos inspira a falar hoje? A vida e obra do Senhor tem sido o nosso
idioma? Nossas comunidades tem falado a linguagem do Espírito de Cristo, amor,
fraternidade, serviço, unidade, comunhão e vida para todos?
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Paróquia São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de
Botucatu-SP
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