A
liturgia do quarto domingo da quaresma propõe para a meditação, a leitura do
capítulo nono da catequese joanina. É uma narrativa densa e cheia de
significado para a comunidade de João e para às gerações subsequentes. Para
compreender o texto litúrgico assimilemos a perspectivas do contexto e das
personagens, meditando alguns versículos centrais, a fim recolher a mensagem
útil à comunidade e aos leitores-discípulos de Jesus de todos os tempos e
lugares.
O capítulo nono encontra-se na primeira parte do Evangelho joanino, no assim chamado livro dos sinais. O Quarto Evangelho estrutura-se sobre dois blocos, o dos sinais, Jo 1,18 – 12,51, que tratam de introduzir o discípulo de Jesus no conhecimento acerca de sua identidade, vida, missão e obra. O segundo pilar é o livro da Glória, Jo 13 – 20, que trata de preparar para a contemplação da glória do Senhor, de seu enaltecimento, através da Hora da Cruz. Somente quando o fiel adere ao Seu projeto, conhecendo-o mediante os sinais, gestos simbólicos, sabendo por onde passa sua vida e sua missão, é que ele poderá dar o passo para a contemplação da hora da Glória do mestre. Neste capítulo, o autor apresenta a narrativa de mais um sinal realizado pelo Senhor. É o sexto que Ele realiza no Quarto Evangelho.
Outra consideração se faz necessária. É importante, para a interpretação deste relato utilizar a técnica da “fusão de horizontes”: o tempo narrado, ou seja, o sinal realizado por Jesus, curando o cego (anos 30); e o tempo da comunidade Joanina, a qual está passando por um momento de crise histórica e de fé (anos 90). Através desta técnica, se visualiza a situação da comunidade cristã frente ao judaísmo da época. O ex-cego torna-se símbolo tanto para o discípulo como para a comunidade joanina que, por professar a fé no Messias Jesus que fora crucificado sofre a perseguição e expulsão dos meios judaicos, como mostrará o relato nos versículos 12-34. Toda a polêmica criada pelos fariseus contra a atitude de Jesus pode ser vista nesta seção, mas o versículo 22 sintetiza a intenção deles: “De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias”.
O cego, como todo enfermo era tido como amaldiçoado, segundo a tradição de Israel. As enfermidades eram vistas como castigos oriundos de algum pecado cometido pela pessoa ou por seus antepassados. Como, no caso, a personagem era cega de nascença, evidentemente não seria ela a ter pecado, e sim seus pais, conforme a crendice religiosa da época. A cegueira era tida como o pior dos castigos, pois privava a pessoa de ter acesso à leitura da Palavra de Deus, para ler e aprender a Lei. Eram considerados pecadores públicos e não podiam ser admitidos ao Templo, ficando nas portas da cidade e dos locais de culto, vivendo da mendicância. Acreditava-se também que uma criança pudesse pecar ainda no ventre materno.
No entanto, para o Quarto Evangelho o cego tem sua polivalência simbólica. Em primeiro lugar simboliza os fariseus e as lideranças judaicas (os Judeus), cegas em relação à Jesus. Em segundo lugar, se torna símbolo daquele que ainda não fez sua opção pelo mestre. Mas num ponto importante da narrativa, após a cura, ele vai assumindo a identidade do discípulo que começa a dar os passos na fé em relação a Jesus. Torna-se, assim, uma figura do candidato à fé, que, ao interno da comunidade cristã assume o batismo.
Última contextualização. O contexto do capítulo nono é o da festa das tendas (Jo 7,1-2.14). Nela, se esperava a manifestação do Messias glorioso. A atmosfera de Jerusalém se confirmava devido a decoração da esplanada do templo, bem como toda a edificação do Santuário, que eram decorados com lamparinas. O evangelista deseja manter o relato do sinal do cego nesta festa para ensinar para a sua comunidade a identificação de Jesus como verdadeira Luz. Também a ambientação da cena próxima à fonte de Siloé pode conter uma mensagem importante: o Senhor é o enviado por excelência do Pai para comunicar sua água viva e sua Luz.
O evangelista informa que Jesus estava passando, ou seja, em movimento. Na verdade, ele estava em fuga, pois as lideranças dos judeus queriam apedrejá-lo devido ao seu ensinamento (cf. Jo 8). Mas ali, diante daquele cego, onde a vida era escassa e escura, ele se detém e coloca-se a sanar suas necessidades. Por onde passa, Ele vê, não importam as circunstâncias. Ninguém é indiferente ao Seu olhar.
“Os discípulos perguntaram a Jesus: "Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?" Jesus respondeu: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele” (vv.2-3), devem ser bem compreendidos. A cegueira não é vontade de Deus e nem punição à possíveis pecados cometidos. Também não é a condição para que a glória de Deus se manifeste, como poderia ser interpretada sua afirmação no v. 3. O dito do Senhor deve ser entendido assim: onde a vida é escassa, onde a criação não encontrou sua plenitude, há, então, espaço para que a glória de Deus se manifeste, sanando a deficiência.
As Palavras e os gestos de Jesus são carregados de simbologia e significado. “É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo. Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé (que quer dizer: enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando” (vv. 5-7). O evangelista deseja ensinar para a sua comunidade que Jesus é o realizador das obras do Pai. Tudo o que o Filho realiza é da vontade de Deus. Ao fazer barro com a Saliva, ele alude à criação; é a matéria prima do ser humano, conforme a mentalidade bíblica. A saliva é gerada pelo hálito, e esse é o sopro, o Espírito. Com isso, o evangelista quer dizer que Jesus repete o gesto criador de Deus (cf. Gn 2,7), ou seja, aperfeiçoa a criação do Pai.
O homem que vivia na escuridão da cegueira foi iluminado e passou a viver de verdade a partir do encontro com Jesus que lhe deu vida. Jesus o envia para se lavar na piscina de Siloé. Uma mensagem interessante, pois o texto não afirma que o Senhor o tivesse conduzido, mas que ele, após a sua cura (iluminação) se dirigiu à fonte. Isso significa a participação e a responsabilidade humana no projeto amoroso e redentor de Deus. Ele não espera e tampouco deseja um ser humano passivo, mas participante ativo de sua obra. Significa a capacidade de tomar a vida nas mãos! Ao se declarar “luz do mundo” (v. 5), Jesus está apontando o caminho e quem lhe obedece e segue encontra a luz e pode ver com clareza, como o cego, que “voltou enxergando” da piscina. Portanto, mediante o sinal realizado, o catequista e autor do evangelho quer recuperar para sua comunidade em crise a identidade do Mestre. Pois, “recuperar a visão dos cegos” era um dos principais sinais messiânicos anunciados pelos profetas (cf. Is 29,18; 42,7). Jesus é Luz do mundo, ou seja: o Cristo de Deus. Aqui fica, pois, entendida a intenção de João ao situar a narrativa ao interno da festa das tendas, na qual a cidade ficava toda iluminada.
Para um judeu piedoso, tal afirmação deste rabino que ensina gente simples seria inconcebível. Por que? A luz, conforme a tradição bíblica e religiosa do povo de Israel era uma imagem simbólica aplicada à cidade santa, Jerusalém, ao Templo e à Torá, enquanto Palavra de Deus. Para João eles, não são mais estas realidades que iluminam o mundo, mas o próprio Jesus.
O ex-cego, por ter aderido à Jesus e sua Palavra, acabou sendo marginalizado pela religião daquele tempo. Mas o Senhor se supera mais uma vez. Ele se manifesta novamente, ao saber que o homem tinha sido expulso da sinagoga e vai ao seu encontro (v. 35). Embora a versão litúrgica afirme que o Senhor “encontrou” o homem, a tradução correta seria “foi encontrá-lo” (v. 35), o que significa que Ele foi procurá-lo. Como sempre, Ele resgata o que a falsa e superficial religiosidade descartou. Os sistemas dominantes separam e divide, mas o Mestre une e reconcilia tudo; Ele liberta e ilumina.
O Senhor, luz do mundo, ilumina o ser humano para que este possa ver a si próprio como ser aberto e repleto de horizonte de vida e de possibilidade. Ilumina o homem não para o desmascarar mas para revelar a sua verdadeira condição de filho de Deus. Ilumina para que quem foi iluminado possa ser luz e iluminar a realidade que o rodeia.
Diante deste texto belíssimo, que ainda fica muito por comentar, dada sua profundidade e riqueza simbólica, quem somos no horizonte desta narrativa, o cego, que ao longo do percurso da fé vai deixando sua condição, porque se propõe a viver segundo a Palavra de Jesus, ou os fariseus que se recusam a acolher a novidade do Dom de Deus em Jesus, luz do mundo e no mundo? Qual cegueira necessita ser eliminada e iluminada por Jesus, Luz do mudo?
Pe.
João Paulo Sillio.
Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.

Nenhum comentário:
Postar um comentário