O
Domingo de Ramos da Paixão do Senhor abre a semana santa, na qual a Igreja celebra
a centralidade de sua Fé: o Mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus –
o seu Mistério Pascal. Para isso, a liturgia escolhe uma narrativa da paixão
dos três evangelhos sinópticos (Mc, Mt e Lc) conforme o ciclo litúrgico vigente.
No caso, nesta ocasião, a Igreja meditará o relato da paixão segundo Mateus. O
texto é denso, e, por isso dividido em duas opções: a forma longa e a breve.
Opta-se, aqui, em meditar algumas cenas da narrativa breve. Porém, serão
oferecidas as devidas contextualizações para que seja possível conectar uma
cena a outra. Pois, mesmo servindo-se do texto breve, este ainda é assaz longo.
Tanto o relato da Paixão em questão, como o relato da entrada em Jerusalém são extraídos
da mesma catequese mateana.
A intenção da liturgia, como caminho para o mistério celebrado será a de tentar mostrar a verdadeira identidade deste Jesus, de modo a gerar o seguinte questionamento no fiel: Quem é este Cristo que desejo seguir? Com qual Jesus se deseja subir para Jerusalém, a fim de se renovar a participação em seu mistério de Salvação?
O contexto amplo da narrativa breve, proposta pelos subsídios litúrgicos também, é o do julgamento de Jesus diante do Sinédrio, órgão máximo da justiça judaica no tempo da sociedade dos anos 30. O Cristo, capturado no Jardim é levando diante do conselho dos anciãos, sacerdotes e levitas, presidido pelo sumo sacerdote daquele ano.
Uma constatação histórica. Nenhuma parte da narrativa da Paixão tem sido mais discutida historicamente do que o julgamento de Jesus diante do Sinédrio judeu. Uma sessão no meio da noite, na véspera da maior festa judaica, em que o sumo sacerdote encoraja uma falsa testemunha e então intervém para dizer aos juízes que o prisioneiro é culpado, e em que eles próprios cospem no prisioneiro e o esbofeteiam — tudo isto violava a jurisprudência em geral e a jurisprudência rabínica em particular. A morte de Jesus foi um homicídio muito bem planejado.
Entre os altos e baixos do julgamento diante das autoridades, Mateus alterna a narrativa com as figuras de Simão Pedro e Judas Iscariótes, ambos discípulos difíceis que visam mostrar as dificuldades de assimilação acerca da missão e da identidade do Mestre, obtendo cada um, o desfecho narrativo diferente. Pedro, após a negação se retira para chorar amargamente. Judas, após devolver as trinta moedas do sangue do inocente, caindo na real, desesperado vai colocar fim em sua vida. Isto posto, o texto litúrgico breve se inicia com uma nova cena que abre o contexto imediato da narrativa: o julgamento romano, cuja a sentença será cabal: morte ao justo e inocente Senhor da vida. O objetivo de Mateus é claro e simples: Jesus era totalmente inocente e morre como o justo de Deus.
“Jesus foi posto diante do governador, e este o interrogou:
"Tu és o rei dos
judeus?"
Jesus declarou: "É
como dizes" (v.11).
A
cena que agora se desenrola é sóbria, mas rica em questionamento: quem é este
Pilatos, procurador romano? Uma pessoa temerária, apegado à sua reputação,
cioso do “poder e da autoridade” que possui, ainda que em nome de Tibério César.
Alguém que julga também pelo o quê ouviu falar. Pelas aparências. Um sujeito
inconstante e, de tão imparcial que deseja ser, consegue ficar em cima do muro.
Estas características não são uma psicologização da personagem. São oferecidas
pelo texto e pela compreensão da realidade sociopolítica da Palestina dos anos 30.
Ele se coloca diante de Jesus e o interroga. A resposta do Senhor: “É como dizes”,
é uma clara resposta de Mateus que deseja afirmar para a sua comunidade leitora
de seu evangelho e para a geração futura dos cristãos, que o Senhor nunca
afirmou isso. Ao responder desta maneira ao governador, ele está colocando em evidência
que esta é uma pergunta e uma concepção equivocada acerca de Jesus: “é você quem
está dizendo isto. Eu nunca disse tal coisa; jamais me auto revelei como rei.”
Na narrativa da Paixão em João a resposta é muito mais irônica (típica da
ironia joanina).
Durante sua vida e seu ministério, Jesus nunca se aproximou desta imagem ideológica do rei. Ele sabia que esta concepção acerca do messias esperado era muito alimentada. Três eram as concepções acerca do Messias esperado: ele deveria vir como um grande profeta, assim como os grandes de seu povo; após o exílio, com o pano de fundo da promessa feita à Davi no fim de sua vida, o povo esperava a reconstrução da monarquia a partir de um novo Davi, por isso, crescia a ideia de um Messias rei. Mas, no período da reconstrução da vida do povo, após o exílio babilônico, a figura dos sacerdotes do templo foi muito valorizada, por isso, crescia a cresça a expectativa de um Messias de origem sacerdotal. Contudo, no tempo e na sociedade de Jesus é que as duas expectativas, régia e sacerdotal, se unem, dando a entender que o ungido para realizar o projeto de Deus seria de origem real e sacerdotal. O messianismo do Senhor não se enquadra nesta dupla imagem. Sua missão foi vivida inteiramente na linha dos grandes profetas do povo, assimilando também para si a identidade do Filho do Homem, isto é, o realizador da vontade e do Senhorio de Deus nesta história. Jamais rei! Disso, e de nada ele poderia ser verdadeiramente acusado. Aliás, as acusações feitas no Sinédrio não tinham fundamento algum; apenas distorções e manipulações.
Mateus mostra Jesus em silêncio, após responder denunciando o equivoco de Pilatos. Nada mais responde. Ele não tem nada a dizer a quem não deseja fazer uma experiência profunda com sua Pessoa. Nada adianta explicar ou ensinar a quem não quer aprender. Todavia, o autocontrole do Cristo nesta cena é o que mais impressiona. Ele não precisa se defender porque sabe que sua vida está nas mãos de um só: o Pai. É a imagem verdadeira do Justo que confia em Deus. Por isso, habilmente, o evangelista insere uma personagem feminina. A esposa do governador. Ela interrompe o julgamento.
Enquanto Pilatos estava sentado no tribunal,
sua mulher mandou dizer a ele:
"Não te envolvas com esse justo! Porque esta noite,
em sonho, sofri muito por causa dele". (v,19)
Como
toque dramático a inserção particular de Mateus é altamente eficaz: uma mulher
pagã, através de um sonho-revelação, reconhece a inocência de Jesus e procura
sua libertação. A esposa do procurador, na sua condição de mulher, pagã (não
pertencia a fé de Israel e nada conhecia sobre), injustiçada, sem voz, sem vez,
sabe reconhecer os que se encontram na mesma situação. Se torna uma denúncia
profética em nome dos muitos inocentes e justos que sofrem as injustiças desta
história. Ela reconhece que Jesus é inocente e Justo. Ao passo que as
autoridades judaicas, que tinham tudo em suas mãos para reconhecerem a ação de
Deus em Jesus permaneciam de coração fechado. Os peritos e especialistas da fé e
sobre Deus decidiram dar morte ao Filho de Deus.
Pilatos viu que nada conseguia
e que poderia haver uma revolta.
Então mandou trazer água,
lavou as mãos diante da multidão, e disse:
"Eu não sou responsável pelo sangue deste homem.
Este é um problema vosso!" (v.24).
Os
versículos 24-25 são catequéticos mais que polêmicos. Pilatos lava as mãos. Ao
que parece, o gesto pode ser interpretado como indiferença, como isenção de
responsabilidade, como imparcialidade. Mas Mateus se serve para transmitir uma mensagem
teológica. O governador é oprimido pela exigência de todos que queriam a
crucificação de Jesus; e assim, num dramático gesto, exclusivo do evangelista, ele
publicamente lava suas mãos para significar que, como sua esposa, o pagão
reconhece a inocência do Cristo. Recorda o Antigo Testamento ao descrever
aqueles que devem ser considerados responsáveis pela morte (2Samuel 3, 28-29;
Josué 2, 19; Jeremias 26, 15), pois que, quando alguém, no Antigo Testamento,
lava as mãos, esse ato significa inocência em relação a um crime de morte
(Deuteronômio 21, 6-9).
Jesus, após ser agredido, insultado pelos soldados e coroado de espinhos foi levado para ser crucificado. O auxílio de um desconhecido no caminho faz lembrar todos aqueles a quem o Senhor parou no meio do caminho da missão para servir e salvar-lhes. Agora são pessoas como estas que acompanham o Senhor, juntamente com as mulheres, ao passo que os discípulos debandam para longe do Mestre. Feita esta transição, podemos meditar os versículos do bloco final do relato da paixão.
Dos versículos 38-44 o evangelista registra uma série de insultos dirigidas a Jesus na cruz. Primeiro, a população passante, que recordava as palavras ditas (que foram distorcidas) contra o templo de Jerusalém, com a provocação “Se és filho de Deus, desce da cruz!”, que será repetido também pelos sumos sacerdotes, mestres da lei e os anciãos do povo, colocando a prova o amor de Deus por Jesus (“Confiou em Deus. Que ele o livre agora, se é que Ele o ama”); por fim, também os malfeitores o insultam. Note-se que a forma como estas provocações aparecem são semelhantes às tentações sofridas pelo Senhor no deserto. Satanás apresentava as seduções desta forma. Mateus quer ensinar que esta é a ultima tentação de Jesus: descer da cruz. Romper com a fidelidade e a relação com o Pai. Viver a sua condição de Cristo e Filho de Deus na contramão da lógica de Deus, utilizando sua autoridade e identidade em benefício próprio, baseado no poder, no domínio, na violência, segundo a lógica deste mundo. A tentação de fazer-se deus no lugar do Pai. Diante da prova mais difícil e dura é que o ser humano é colocado diante de sua fidelidade. Com Jesus não foi diferente. Mas sua resposta sim. Plenamente distinta.
“Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito:
"Eli, Eli, lamá sabactâni?",
que quer dizer: "Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?” (v.46)
A
atitude de Jesus não é a do desespero ou da descrença; da falência, da frustração
ou do fracasso, como a má compreensão acerca deste versículo pode sugerir. Não.
Ele não está chamando pelo profeta Elias. Mateus sabe muito bem escrever. Não se
trata de um erro de tradução ou de escrita, mas sim de interpretação, mas não
por parte do discípulo e da comunidade, e, sim, da parte dos que não aderiram a
fé em Cristo, bem como aqueles que podem ser resistentes. O grito de Jesus é
uma oração de confiança ao Deus de Israel, justo e libertador. Ele está recitando,
na cruz, o Sl 21 (22), que é a oração da confiança do Justo na ação salvadora
de YHWH. Esta é a forma com a qual Jesus responde aos insultos a à tentação
última de abandonar o Pai: colocando a sua vida e sua confiança e sua vida nas
mãos de Deus. Confiando que ao final de tudo, Ele intervirá para salvar o seu
justo. É assim que se conclui o salmo, no v.24: “Anunciarei o vosso nome a meus
irmãos e no meio da assembleia hei de louvar-vos! Vós que temeis ao Senhor
Deus, dai-lhe louvores, glorificai-o, descendentes de Jacó, e respeitai-o, toda
a raça de Israel!”. Nesta confiança inabalável de um justo é que o Senhor
entrega sua vida (v.50).
“E eis que a cortina do santuário
rasgou-se
de alto a baixo, em duas partes,
a
terra tremeu e as pedras se partiram” (v.51)
O detalhe da cortina que se rasga e do terremoto são importantes mensagens teológicas, e não notícias de jornal que desejam narrar com exatidão os fatos. Há uma mensagem de fé, e, portanto, de salvação, a ser colhida destas imagens. O véu do Santo dos Santos, no Templo, mantinha separado o lugar mais sagrado do santuário do resto do templo se rasga com a morte de Jesus. O evangelista deseja ensinar que com o dom da Sua vida, levada até às últimas consequências com sua entrega na cruz abrem e inauguram a nova relação com Deus. Não há mais nenhum véu/obstáculo entre o ser humano e Deus. A forma da vida e da missão de Cristo serão, agora, o novo modo com o qual a pessoa humana poderá se relacionar com o Pai. Não existe mais uma cortina a separar o divino do humano. O tempo antigo acabou. É o que o terremoto quer mostrar. No Antigo Testamento, para se falar do fim de uma época ou de um determinado tempo se utilizava da imagem do tremor de terra. Mateus deseja ensinar com essa imagem simbólica que tudo o que é ultrapassado, antigo, e, que não mais leva o ser humano à Deus acabou. A vida e a missão de Jesus inauguram o novo tempo de Deus nesta história para todos os discípulos e discípulas; para todos os seu filhos e filhas que abraçam a existência do Senhor como caminho de vida para si.
Jesus coloca a humanidade, através do mistério de sua vida, paixão e morte, na mesma condição que Ele possui: “Filho de Deus”. Eis o Cristo que o discípulo necessita aprender a assimilar em sua vida e história. Acompanhemos, pois, o Senhor em sua Paixão.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.
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