sábado, 27 de dezembro de 2025

REFLEXÃO PARA A FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA – Mt 2, 13-15.19-23:

 


Celebramos dentro deste tempo do natal, a festa da Sagrada família de Nazaré. Na dinâmica litúrgico-celebrativa, ela visa, em primeiro lugar, confessar uma verdade importantíssima dentro do mistério que vivenciamos na oitava de natal: a realidade da Encarnação do Filho de Deus. O Verbo, ao assumir a história humana, assume-a em seu realismo e em suas dinamicidades e estruturas, aceitando ser família, de modo a revelar à humanidade que também Ele, com o Pai e o Espírito formam uma família.

Mas qual a finalidade desta “assunção” da realidade familiar humana por parte de Deus? É a de propor à humanidade um convite: torna-la participante da família divina. Poderíamos parafrasear o v.14 do prólogo do Evangelho segundo João: “O verbo se fez carne e revelou sua Família entre nós”. Contudo, existe um critério, ou, se preferir, um caminho para se tornar integrante dela. É o que o texto evangélico proposto para esta solenidade nos convida a assimilar.

Antes de tudo, se faz necessário desconstruir aquelas idealizações concernentes à Sagrada Família. A família de Nazaré, José, Maria e Jesus não pode ser tida, a rigor, como modelo de perfeição ou daquela famosa imagem de “família tradicional”. Ela já começou fora dos paradigmas “humanos”, “culturais”, “religiosos”, “tradicionais” daquela época. Uma mulher que engravida, para todos os efeitos, fora das estruturas humanas e religiosas, fadada à mendicância, prostituição, e, em último caso, pena de morte. O esposo, que procura não assumir a sua prometida, e devolvê-la em segredo à família; o que revela, numa primeira leitura, um parceiro descompromissado e amedrontado. Uma situação destinada ao fracasso desde o começo. Aparentemente!

Agora, podemos entrar na narrativa do evangelho de hoje. O evangelista Mateus, se serve de um episódio já conhecido de seu povo e de sua comunidade, a matança dos meninos hebreus pelo Faraó, em Ex 1,22. O evangelista se serve da técnica de interpretação dos textos narrativos, utilizados pelos rabinos de seu tempo, o midrash. Ele se apropria desta técnica narrativa de interpretação para transmitir sua catequese sobre Jesus de Nazaré para a sua comunidade. Ele se serve de todo o patrimônio escriturístico, histórico e religioso de Israel para fazer conhecer a identidade de Jesus: para a comunidade de Mateus, Jesus é o novo Moisés, que assume toda a história e tradição de seu povo, para promover a nova libertação, o novo êxodo, e inaugurar o novo povo de Deus, através do qual Deus poderá exercer sua ação na história humana, ou seja, seu Reinado.

Uma trama diabólica existe por parte de Herodes. O mensageiro celestial informa a José que o tetrarca pretende atentar contra a vida do menino. “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo” (v. 13b). A expressão “Anjo do Senhor” é uma forma suavizada para falar de Deus mesmo. Como a mentalidade hebraica concebia-O como alguém muito distante, e por reverência ao nome divino usava-se a imagem de um ser intermediário, como um anjo. Já o sonho, na mentalidade bíblica, e sobretudo em Mateus, significa a disposição interior para compreender a vontade de Deus e colocá-la em prática. A primeira informação evidenciada aqui é a proteção constante de Deus na vida de Jesus, sendo também uma antecipação do seu ministério como oposição ao poder estabelecido. Mas Jesus será sempre guardado pelo Pai do Céu.

“José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito” (v. 14). Existe uma estrutura neste versículo: José – o menino – a mãe. Notemos que Jesus está ocupando o centro da frase. O evangelista Mateus quer ensinar para a sua comunidade qual deve ser o seu referencial: o Senhor. Ele deve ocupar sempre o centro de sua vida. José e Maria são, aqui, símbolos do antigo Israel que vai se abrindo à novidade da vida e da missão de seu Messias, tornando-se assim um novo povo.

O texto continua, informando a morte de Herodes e uma nova aparição do Anjo do Senhor a José (v. 19), com uma nova ordem: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos” (v. 20). Mateus quer identificar Jesus como o novo Moisés, que do Egito inaugura um novo êxodo. A partir de onde? Dos marginalizados e excluídos. A ida para Nazaré, na Galileia dos pagãos mostra esta nova aventura sendo gestada. Ali, naquele lugar desprezado pelos judeus piedosos de Jerusalém, Deus dará início ao seu projeto de salvação e de vida, através do anúncio do Evangelho do Reino proclamado por Jesus. A narrativa se conclui, e somos convidados a tirar as consequências das lições apresentadas pelas personagens deste texto.

Os textos bíblicos destes convida a contemplar como as personagens Maria e José buscam responder ao projeto de Deus. Na perspectiva do Evangelho de Lucas, Maria é tida como o modelo do discípulo do Reino, pois ela se abre e se dedica à escuta, acolhida (discernimento) e cumprimento da Palavra de Deus ( Lc 1,38ss; 2,1-15). José, no evangelho de Mateus assume a figura do discípulo exemplar, ele é justo, porque permite que a vontade de Deus se cumpra em sua vida e através dela, escutando, assim a Palavra de Deus e colocando-a em prática (Mt 1,16ss; 2,13-19, texto de hoje). Quanto a Jesus, sempre o veremos como fiel ouvinte da Palavra do Deus que ele chama de Pai, do começo ao fim de sua vida e ministério.

Existe, portanto, uma característica comum entre as três personagens que compõem esta família de Nazaré, tão histórica e concreta: ouvir e discernir a Palavra de Deus. Isso, para escapar das possíveis quedas retóricas e devocionais relacionadas à idealização da família e da “sagrada” família. Especialmente, é oportuno recordar que, na economia cristã e de acordo com as próprias palavras de Jesus, a realidade decisiva é a nova família de Jesus: aquela dos seus discípulos e discípulas, reunida ao seu redor pelo anúncio da Palavra de Deus e que não se baseia mais em laços de sangue, mas no “fazer a vontade de Deus” (cf. Mt 12,46-50).

Importante notar uma última característica desta família: ela se deixa iluminar pela Palavra de Deus. Ora, Deus protege, mas o ser humano participa da contínua libertação. Em momento algum o evangelista diz que Deus os transportou de um lugar para outro. Apenas os iluminou com a Sua Palavra. A iniciativa de partir de um lugar para outro foi sempre de José, ou seja, do agente humano. É assim também que deve fazer a comunidade cristã: à luz da Palavra, tomar iniciativas de libertação; não repetindo as práticas do opressor, mas criando e propondo alternativas de vida.

O texto de hoje nos provoca: 1) Que imagem de família (ou modelo) trago comigo, ela é conforme os moldes e padrões desta mentalidade, perfeitinha, “exemplo de moral e bons constumes”? 2) O exemplo de José pode ser assimilado por nós e nossas comunidades? 3) Nossas famílias, com todo o realismo e imperfeição que elas possam ter, são espaços de escuta, acolhida, discernimento e realização da Palavra de Deus? 4) Podemos ser contados entre os membros da Família de Deus, assim como a humana e histórica família de Nazaré, que se colocou na disponibilidade da escuta e do cumprimento da Palavra de Deus?

Pe. João Paulo Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO – MISSA DA NOITE DE NATAL (Lc 2,1-14)

 


A noite santa na qual a Igreja faz a memória da plenitude do mistério da Encarnação, a primeira vinda do Senhor, é iluminada por este riquíssimo texto de Lucas, Lc 2,1-15. A narrativa, mais do que transmitir uma crônica dos fatos deseja comunicar uma mensagem de salvação. A intenção do autor é teológica, ou, se se preferir, uma teologia da história.

O evangelista nos informa a respeito de um recenseamento de todo o mundo habitado (gr. Oikumênen) ordenado por Cesar Otaviano Augusto. Um levantamento do povo, por volta do ano 5 a.C, quando Quirino era governador da Síria, que incluía a Palestina (v.2). Otaviano foi o primeiro imperador que outorgou a si o título de “Augustus”, isto é, “aquele que é digno de veneração; o poderoso; o divino”. O censo tinha, na verdade, a seguinte intenção: saber se a população havia aumentado para arrecadar mais impostos e aumentar o contingente militar para as guerras.

Uma nota importante: sempre que os reis de Israel ordenavam, da própria cabeça, os recenseamentos do povo, Deus os censurava através dos profetas, porque Ele era o único Senhor do povo, e não o rei. Ao fazerem isso, os reis se colocavam no lugar de Deus na vida do povo. Nesse sentido, a atitude do imperador anotada por Lucas indica a pretensão dele de ser senhor de tudo e estar acima de tudo. Esta ideia, o autor quer logo corrigir: se Cesar Otaviano “Augusto” quer elevar-se, Deus em seu mistério de amor subverte a lógica e se põe no mesmo nível da humanidade.

Na plenitude dos tempos, Deus faz o movimento inverso, descendo até a humanidade marcada pela injustiça, pela dominação, pela morte. Diferentemente do imperador, que toma a vida e é sinal das estruturas de morte, o Pai comunica a Sua vida através do Filho. O catequista deseja mostrar precisamente isso: o contraste entre aquele que pretende ser divino, um salvador, e aquele que realmente o é. Por isso, nas primeiras linhas da narrativa de hoje apresenta duas personagens pertencentes a este mundo de poder: Otaviano e Quirino.

O evangelista Lucas, servindo da arte da contraposição (contraste), apresenta, as três personagens que farão oposição às estruturas de poder vigentes: José, Maria e o menino Jesus. Nos versículos seguintes (v.4-6) alguns dados importantes são postos em relevo: José, de Nazaré foi à Belém (v.4), sua cidade, juntamente com Maria, desposada com ele. Uma contextualização importante, para não cairmos em narrativas ou interpretações romantizadas acerca do fato: José e Maria já se encontravam na cidade de Davi, ao contrário do que muito se pensa, que ao chegar em Belém, a mãe teria dado à luz. Isso é impossível pois uma viagem de Nazaré à Belém era feita a pé, algo impensável para uma mulher no último mês de gestação.

O v.6 é carregado de densidade. Completaram-se os dias. Uma afirmação importante, pois ao utilizar o verbo completar, o evangelista deseja ensinar que o tempo tornou-se pleno. O texto original utiliza o verbo plerôo, que, traduzido da sentido de plenitude. Lucas informa que Maria dá à luz ao seu primogênito (hbr. Ya’hid/meu único), o filho por excelência, aquele que, na tradição religiosa judaica deveria ser consagrado ao Senhor. A quem são reservados todos os direitos jurídicos. A mensagem teológica e, portanto, de salvação é esta: este menino que nasceu terá toda a sua existência e vida consagrada ao Senhor.

No v.7, o relato diz que o recém-nascido foi envolvido em faixas e posto numa manjedoura. Aqui temos um detalhe interessante: Lucas recorre ao Livro da Sabedoria: “Envolto em faixas fui criado no meio de assíduos cuidados; "porque nenhum rei teve outro início na existência; "para todos a entrada na vida é a mesma e a partida semelhante” (Sb 7,4-6). Um discurso de Salomão, explicando seu nascimento, comparando-o ao nascimento de todos os seres humanos. O evangelista pretende assinalar a humanidade de Jesus, uma vez que foi um homem no sentido pleno de sua liberdade. As faixas simbolizam a condição frágil da humanidade.

O menino é deitado na manjedoura porque não havia lugar para eles na sala da hospedaria. Imaginemos o contexto social da época. As hospedarias eram espécies de grutas escavadas nas rochas. Dentro delas existiam galerias onde era possível arrumar um cantinho para ficar, enquanto que os animais ficavam próximos às manjedouras (nos cochos), na estrebaria. Mas nem um lugar nessas galerias havia para a família de Nazaré, conforme o relato lucano. Então, muito provavelmente, tenham ficado numa estrebaria, ou numa gruta destinada aos pastores da região. O evangelista deseja mostrar que Jesus está entre os excluídos.

O autor resgata, para isso, a profecia de Isaias: “O boi reconhece o seu dono; o burro o estabulo (cocho) do seu dono. Mas Israel não reconhece; meu povo não compreende” (cf. Is 1,3). Jesus está entre os não acolhidos da história. Há uma mensagem teológica, ao mesmo tempo que polêmica: desde a infância, Jesus sofrerá a rejeição e a exclusão. De modo mais sutil, o evangelista João, no prólogo de seu evangelho declarará: “Ele veio para os seus. Mas eles não O acolheram” (Jo 1,11).

Lucas, após o parto, descreve os acontecimentos seguintes com uma aureola em torno deles, ao mesmo tempo despojado e misterioso. Temos as narrativas dos pastores, os quais passam a fazer parte da temática da exclusão. Segundo o Talmud, nenhuma condição social poderia ser mais desprezada que a dessas pessoas. Os pastores eram os mais humildes e desprezados porque conviviam com os animais, viviam muitas vezes de pequenos furtos para sobreviverem, pagãos. Para os fariseus e judeus piedosos, aquele grupo não eram gente! Eles tornam-se símbolos de todos os que se encontram na exclusão.

Os pastores recebem então uma manifestação divina (v.9). São envolvidos por uma luz, e isso lembra, logicamente, outras manifestações de Deus ao longo do AT. Agora, o anjo do Senhor que, de acordo com a tradição judaica vem sempre com a espada nas mãos para exercer a justiça e castigar os pecadores e maus aparece aos pastores – símbolos dos pecadores. Não para julgar e castigar, mas para comunicar um evangelho de vida. Lucas quer ensinar para sua comunidade que o projeto de Deus, que se inaugura em Jesus envolve a todos; não exclui a ninguém; não condena os pecadores, mas os abraça. Os envolve. Por isso, o evangelista declara que a Glória (hbr. Kabod) do Senhor os envolveu. A Glória não é o brilho, o esplendor. Mas a presença real de Deus.

A Presença (A Glória) de Deus (o Senhor) abraçou (envolveu) a todos, sem distinção. Isso é muito interessante: o anjo lhes exorta, primeiramente, a não ter medo, porque o temor para com Deus não deve ser uma barreira.

Em segundo lugar, lhes dá um motivo: “nasceu para vós o Salvador, Cristo, o Senhor!” A palavra Salvador (gr. σωτήρ/Sôter) é, primeiramente a tradução do hebraico Yeshua – Jesus. Mas, ao mesmo tempo, era o título empregado ao imperador romano. Lucas quer assinalar que não é este o salvador. A salvação repousa no menino de Belém. Cristo é tradução grega do hebraico messias, que significa o “ungido”: é o delegado, o enviado, o portador e executor do senhorio e da vontade de Deus. Tudo isso acontece na Cidade de Davi.

O mensageiro celestial lhes dá um sinal para encontrar o menino: deitado numa manjedoura, envolto em faixas. Ou seja, um sinal nada grandioso! Não se encontra na opulência do palácio de Herodes ou de Otaviano. Tampouco no esplendor do templo de Jerusalém. Muito menos entre os poderosos. Mas colocado em meio a paus trançados – um cocho.

No recém-nascido, envolto em faixas encontra-se a Glória e a misericórdia de Deus feitas Carne. Na manjedoura de paus trançados, prefigura-se o mistério da Cruz. Porque ela torna-se, na verdade, o questionamento decisivo que o Deus de Jesus faz a cada pessoa, de todos os tempos e lugares: se desejais ver e buscar um Deus forte, potente, esplendoroso, glorioso, deveis procurar outro; este “não sou eu”. Na cidade de Belém já se vislumbra o que virá ser esse menino. Belém (do hebr. Beth-lehem) significa Casa do Pão. O menino será Pão para humanidade. Servirá de sustento, e será doador de Vida. Pão repartido, moído, despedaçado na Cruz para dar vida ao mundo.

Na narrativa, imediatamente após o sinal dado pelo Valente  de Deus (Gabriel – Gebehr), aparece uma multidão da corte celeste para proclamar que, a Glória (presença) de Deus, desde o mais alto dos Céus, agora se faz presente na terra, na história humana para inaugurar o Shalom, a paz destinada a todos. Porque todos são amados por Deus. Se quisermos ver o menino, deveremos lançar o olhar para a estrebaria e para a manjedoura. Ele está ali, com os últimos e excluídos. Está nas faixas da humanidade assumida, não nos panos luxuosos; encontra-se na casa do pão, porque é alimento de vida e salvação para todos. Estejamos entre os pastores que recebem este evangelho: Deus põe seu Agrado em nós, através de Jesus, seu Filho. Possamos estar onde o menino está; no lugar da opção feita por Deus. Eis o Mistério desta noite Santa.


Bom Natal!

Pe. João Paulo Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 20 de dezembro de 2025

REFLEXÃO PARA O III DOMINGO DO ADVENTO - Mt 11,2-11:

 


O terceiro domingo do advento introduz a liturgia da Igreja na temática do primeiro advento, ou seja, a celebração memorial da primeira vinda do Senhor em seu santo Natal. Para isso, a espera, a vigilância e a conversão oferecem lugar ao tema da crise a partir da figura de João Batista. Recorde-se que na semana passada, o profeta batizador do Jordão apresentava uma imagem radical de Deus, ao chamar o povo à mudança de mentalidade, e, com isso, se afirmava que ele também seria um dos que mais necessitavam desta transformação. Hoje, através do texto de Mt 11,2-11, esta realidade emergirá.

 

A crise de João é a de todos aqueles e aquelas que se deparam com uma maneira nova de Deus agir; que chama também à mudança de perspectiva, mentalidade e de atitude. O texto mateano do capítulo onze situa-se após o discurso missionário, Mt 10, o qual recupera o ensinamento de Jesus acerca da missão destinado aos discípulos. Após concluir a catequese, é o mesmo Senhor que sai em missão. Todavia, no caminho anterior a este discurso missionário, Ele realizou dez gestos de poder, que teriam a finalidade de revela-lo como messias poderoso através das obras (Mt 7,1 – 9), até chegarmos à narrativa de hoje. É a respeito destes dez gestos de poder que o evangelista se refere no v.2 do capítulo onze.

 

“João estava na prisão. Quando ouviu falar das obras de Cristo enviou-lhe alguns discípulos, para lhe perguntarem: És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (v.2-3). O evangelista faz uma interrupção da narrativa após a conclusão do “discurso missionário” e insere, novamente, a personagem de João Batista. Ele está preso na fortaleza de Maqueronte, a mando de Herodes, que ficara incomodado pela denúncia que fizera: ter tomado a esposa de seu irmão Filipe, Horodiades, e a ter levado mais sua filha, para a morar na corte. O Batista denunciava a atitude do governante porque lhe colocava numa condição de impureza por se tratar do relacionamento com a mulher de seu irmão, conforme Lv 20. Isso incomoda a mulher e o monarca, o que o leva a encarcerar a João. Flávio Josefo diz que o motivo era puramente político, devido a influencia que o profeta exercia sobre o povo.

 

Muitos estudiosos do evangelho de Mateus definem este trecho de Mt 11,2-12 e Mt 14 (a paixão e morte de João) como sendo o momento da “crise do Batista”. No cárcere, João ouve falar das obras de Jesus. E a crise emerge na personagem, precisamente por aquilo que ouve falar acerca daquele galileu, que um dia fizera parte de seu grupo.

 

A crise se instaura em João devido a incompatibilidade de sua mensagem frente ao agir de Jesus. Dito de outra maneira, a ação e missão de Jesus fogem da regra e das expectativas de João, as quais ele anunciara em sua pregação. O Batista havia declarado que o Messias viria já com a foice nas mãos; que o machado já estava na raiz; que o batismo do “mais forte” seria com o Espírito, para inserir os fieis na vida de Deus e no tempo do messias; mas com o fogo destruidor, para aqueles que tivessem sido infiéis ao querer de Deus. João envia, então seus discípulos a Jesus para perguntar-lhe se era mesmo o messias esperado ou deveriam esperar outro (cf. v.3).

 

Jesus responde aos discípulos de João: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (v.4-5). No agir e no ensinamento de Jesus não há uma palavra de condenação; de recusa ou de violência. Ao contrário, gestos, atitudes e palavras de acolhimento, amor e perdão aos que não mereciam: cegos, paralíticos, leprosos, surdos, os pobres e os que se encontravam envolvidos em sistemas e estruturas de morte. Pessoas estas, que, conforme a pregação de João e crença religiosa da época, não mereciam a salvação por serem pecadores e enfermos. Às pessoas excluídas e marginalizadas como estas eram lhes reservadas o fogo exterminador, o machado já posto na raiz. Em Jesus, não se encontram tais atitudes, mas somente uma proposta de plenitude de vida e um amor oferecido incondicionalmente pelos inimigos. Por isso, este não poderia ser o Messias, segundo o pensamento de João, o qual deveria vir com o poder, com autoridade, força e realizar o juízo de Deus, inclusive para o Batista que se encontrava encarcerado naquelas condições injustas. Se Jesus fosse o Messias, deveria agir em favor do próprio João, inclusive.

 

O que desconcerta João e o coloca na condição da crise é o fato de que Jesus anuncia e vive um amor do Deus de Israel, a quem chama de Pai, que se estende e se oferece a todos, injustos e incompreendidos. Diante disso, Batista entra no processo pessoal da revisão da vida, porque toda a sua pregação caiu por terra. Jesus respondeu aos discípulos de João com fatos e não com teorias. A práxis de Jesus, ou seja, seu agir, recupera, inclusive, a pregação dos profetas que anunciaram o tempo messiânico a partir do surgimento de um tempo novo onde cegos, surdos, paralíticos, leprosos, todo tipo de gente ruim, seriam acolhidos e reconciliados com Deus. Mateus mostra de forma muito clara o agir salvador e reconciliador de Deus através de Jesus, por meio dos dez gestos de poder que o Senhor realiza nos capítulos anteriores (Mt 8 – 9). São dez porque remetem às dez pragas que feriram o Faraó e os egípcios, em Ex 7 – 12. Elas tinham a função de mostrar o poder de YHWH e o chamado à conversão ao Faraó. São dez oportunidades para que o líder egípcio cai na conta da soberania de Deus, e mudar o coração, a ponto de deixar o povo hebreu escravizado partir.

 

O evangelista reinterpreta a passagem de Ex 7 – 12, e ao invés de mostrar o poder e a autoridade de Deus em Jesus exterminando e destruindo, mostrará o agir de Jesus ao purificar leprosos, curar surdos, fazer falar os mudos, perdoar pecado, o anúncio da Boa Nova do Reino aos pobres. Jesus responde aos discípulos de João com fatos. Com ações positivas que tem a função de realizar a recuperação da vida a todos aqueles e aquelas que se encontram destituídos, excluídos e marginalizados, que eram descritos simbolicamente assim.

 

Jesus profere uma bem-aventurança ao final desta resposta aos discípulos de João: "Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” (v.6). Ela é, ao mesmo tempo, um convite de conversão para o próprio João. Interessante notar que a imagem de um Deus que pune, condena, destrói, queima, não causa terror nas pessoas do tempo de Jesus e João (inclusive neste). Mas a imagem de um Deus que age salvando através do amor, do acolhimento, da restituição da vida e da história é a que mais gera escândalo. A palavra escândalo deve ser entendida aqui como barreira, obstáculo, impedimento, ou, literalmente, pedra de tropeço. “Bem-aventurados são aqueles que não encontram em mim qualquer impedimento para que Deus possa agir através destas minhas atitudes”, ou seja, não encontrar nas ações de Jesus qualquer impedimento para reconhecer Deus agindo. Ou seja, felizes serão todos aqueles que não encontrarem qualquer obstáculo no agir de Jesus, a fim de reconhecer Nele Deus agindo. Mas, os discípulos de João se retiram. Mostram que não estão de acordo com o ouviram. São pessoas ainda necessitadas de uma mudança de mentalidade.

 

Jesus, diante da dúvida posta por João e seus discípulos no tocante ao Seu agir, faz o contrário, elogia a missão e a vida do Batista: “Jesus começou a falar às multidões, sobre João: O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. Então, o que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. É dele que está escrito: Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti” (v.7-11). O Batista é um profeta, assegura Jesus! Ele não é uma cana agitada pelo vento, ou seja, frágil, facilmente de ser dobrado, alguém inconstante, conveniente, pende para onde o poder está, mas sim um homem coerente; não é um homem de palácio, ao contrário dos profetas da corte do rei que adulavam o chefe do povo, ao contrário, possuía um modo de vida austero e simples, e na contramão das expectativas do rei. João, declara Jesus, é o mensageiro enviado (gr. ἄγγελος/anjo) para preparar o caminho. Mas apenas para isso. João apresentou dificuldades para assimilar o caminho de Jesus. Por isso, deve também ele converter aquela imagem divina que tinha em seu íntimo e pregava.

 

O v.11 conclui esta passagem da catequese mateana com um dito de Jesus que é por demais revelador e, ao mesmo tempo, funciona como mais uma característica a ser vivenciada por aqueles e aquelas que querem ser discípulos do reino dos céus, e acolher o Senhor do Reino que está para chegar. “Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (v.11). Jesus declara a grandeza de João. Mas exige tanto do batista, quanto de seus discípulos a coragem de se tornar “menor”. O que Jesus quer dizer com isto? Para se tornar participante deste Reino que vem se faz necessário passar pelo nascimento segundo o Espírito, Aquele que é doado, segundo pregação de João Batista, pelo “mais forte”, o Messias-Jesus. Esta vida segundo o Espírito de Jesus, é a mesma vida Dele, que se fez menor entre as minorias marginalizadas de seu tempo. Assim, o discípulo precisa aprender a se fazer pequeno como o mestre.

 

Dito de uma forma mais simples: quem quiser fazer parte deste Reino e acolher sua chegada deve assimilar a vida de Jesus, suas atitudes, suas escolhas, ensinamentos e opções, porque ele sendo grande se tornou o menor entre todos, colocando-se ao lado das minorias de seu tempo. Esta é a vida de Jesus sendo conduzida pelo Espírito. Desta vida, carregada da plenitude de vida do Espírito de Jesus é que o discípulo é chamado a assimilar e participar. Eis a terceira atitude que o fiel-discípulo é chamado a assimilar neste tempo do advento, fazer-se menor entre todos e colocar-se entre os menores desta história e realidade, convertendo aquela imagem de um Deus castigador, destruídos, carrasco, para imagem que Jesus transmite com sua vida e missão, o amor, a misericórdia e a salvação.

 

 

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

 

Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 6 de dezembro de 2025

REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DO ADVENTO - Mt 3,1-12:

 


A liturgia do segundo domingo do advento, continuando a leitura do evangelho mateano apresenta o capítulo terceiro, que proporá para o leitor o tema da conversão. A tônica das duas primeiras semanas do advento é colocada sobre a segunda vinda do Senhor. No evangelho da semana passada (Mt 24,37-44), a pedagogia litúrgica fez a memória da atitude da vigilância requerida ao discípulo do Reino. Por se tratar da temática da espera do retorno do Senhor – a segunda vinda – a liturgia pretende formar a consciência dos  fiéis para as atitudes relacionadas à ética é exigida pelo Reino.

Não diferente, a temática deste segundo domingo mostra mais uma atitude que se espera daquele que deseja ser discípulo do Reino e de Jesus em face da Sua segunda vinda: a conversão constante que o homem e a mulher de fé deve empreender. Ela é apresentada através da figura do batizador, o profeta João. A seu modo, o evangelista Mateus insere a personagem na narrativa. E é sempre bom ter presente, que o autor do evangelho utiliza as grandes personagens e eventos da tradição histórica e religiosa (teológica) do povo de Israel para transmitir sua mensagem acerca de Jesus de Nazaré. Isto posto, podemos mergulhar no mar do texto.

“Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia” (v.1). Pela primeira e única vez, o evangelista utiliza a expressão “naqueles dias”. Mateus se serve dos eventos da tradição histórica e religiosa de Israel, e seu leitor-discípulo, ao ouvir esta expressão já ativa sua memória para um acontecimento pertencente ao AT, o episódio de Ex 2. Ali, Moisés cai em si e percebe os sofrimentos do povo Israel, rompe com a influência do Faraó, e inicia seu caminho como grande cooperador de Deus no projeto da libertação de sua gente. Esta expressão remete, então, a um tema do livro do Êxodo. Mateus deseja transmitir e ensinar à sua comunidade que, a partir de agora, Deus começará um novo êxodo na história, com a ajuda de uma personagem: João, cujo nome significa “Deus é misericórdia”. Esta nova história será levada adiante por Jesus, na continuidade do  evangelho de Mateus. Antes, porém, ela precisa ser preparada.

O Batista atua no deserto da Judeia. Uma localização importante, tanto geográfica como teológica. Evocando temas da tradição do Êxodo, o deserto é o lugar em que o povo recém-saído do Egito passa um período até conquistar, mais tarde, a terra prometida. Esta localidade é uma constante teológica para os israelitas, e, igualmente para aquele que deseja tomar parte do projeto de Deus. É o lugar privilegiado para se fazer a experiência da Aliança com YHWH, renovando-a e purificando-se. Este lugar é composto por um relevo acidentado, com elevações e depressões; com formações rochosas, que termina às margens do Mar Morto. Ele precisa ser rebaixado e aterrado. Preparado e aplainado, a fim de que o Deus de Israel possa passar. Assim sendo, o deserto é mais um lugar para o refazimento da experiência e da relação com Deus.

João Batista apresenta o conteúdo da sua mensagem e pregação: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (v.2). A atitude da conversão. O evangelista apresenta o verbo converter no imperativo. Este verbo significa uma mudança de mentalidade; um refazimento da forma e do modo de pensar. Que depois se verificará na mudança da atitude. João se concentra sobre aquele anúncio do profeta Isaias, “deixai de fazer mal; fazei o bem(..) ainda que vossos pecados sejam escarlates, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Is 1,16-18). Assim, o Batista convida a uma mudança de mentalidade e de agir, a orientar a vida para bem do outro. O convite à conversão tem uma finalidade: acolher o Reino dos Céus.

Pela primeira vez no evangelho de Mateus aparece o termo Reino dos Céus. O catequista, respeitando sua comunidade de origem judaica se priva de mencionar o nome de Deus e, utiliza, portanto, a expressão “Céus”. Uma questão de respeito e sensibilidade, apenas. Não se trata de uma tentativa de delimitar o lugar do Reino. Ele não é um lugar geográfico, tampouco distante do ser humano; antes, significa o agir soberano de Deus na história, através de Seu ungido. Por isso é preferível utilizar o termo Reinado de Deus.

O reinado de Deus é (e sempre será) o Seu agir na história e pela história, através de seu Cristo. Então, o Reinado de Deus converge para uma pessoa, Jesus. E, evidentemente, as consequências éticas que derivam da adesão que o discípulo faz pelo Senhor ajudam a transformar/converter esta história, a realidade e a vida humana em Reinado de Deus. Não é uma vida ou reino para o além, mas a realidade em que Deus governa e exerce Seu agir, sua soberania e senhorio.

O evangelista, que gosta de utilizar as citações dos profetas da tradição de Israel, e com um enunciado próprio de um narrador, que interrompe a narração com uma informação que ajuda o leitor a entender ainda mais a narrativa, serve-se do profeta Isaias uma vez mais, “João foi anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (v.3). Todavia, Mateus realiza uma modificação no texto de Is 41. Lá, se lê: “Uma voz grita: no deserto, preparai (abri) um caminho para YHWH; na estepe, aplainai uma vereda para nosso Deus.” No tempo deste escrito, atribuído à Isaias, o povo vivia exilado na Babilônia, e este versículo canta e prepara a libertação dos israelitas e seu retorno para Jerusalém, na companhia de Deus. Desse modo, fazia sentido que o caminho fosse preparado no deserto. Porém, a forma como o evangelista modifica o texto do profeta evidencia que o novo êxodo começa por um caminho contrário; ou, inicia-se na contramão. A modificação operada pelo autor dá a entender que, a voz grita “no” deserto, ou seja, a partir do deserto, o caminho contrário à terra da promissão, que era símbolo do bem-estar e da benção de Deus para seu povo. Aquela terra e modelo de sociedade, na perspectiva do Batista não serve mais ao bem, havia se tornado modelo, esquema e estrutura de morte e ruptura com o projeto de Deus.

No v.4, João é caracterizado por Mateus nos moldes dos antigos profetas, por trajar uma vestimenta de pelos da pele de camelo, com um cinturão de couro a cingir os rins. Esta era a maneira de se vestir do maior profeta da tradição de Israel: Elias. Segundo a tradição religiosa e teológica do AT, o retorno do profeta Elias antecederia a vinda do Messias. Era austero em seu modo de vida, a ponto do evangelista informar que ele "alimentava-se de gafanhotos e mel", isto é, daquilo que o deserto lhe oferecia, ou seja, a dieta própria dos beduínos. Para o evangelista, João Batista encarna a predisposição profética de Elias, ou seja, simboliza e marca o retorno do carisma profético do grande profeta da fidelidade ao Senhor.

“Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia e de todos os lugares em volta do rio Jordão vinham ao encontro de João. Confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão” (v.5-6). João pregava um batismo de conversão, ou seja, de mudança de mentalidade e de vida, e as expectativas de todos os que habitavam aquela região de Jerusalém e do Jordão acorrem a ele. Eles compreenderam que os meios e os instrumentos utilizados pelos chefes religiosos (sacerdotes/saduceus, escribas e fariseus), e pela instituição sagrada não lhes serviam mais para favorecer lhes o encontro com Deus. Por isso, se dirigiam ao Batista e eram batizados. Este era já um rito conhecido pelos judeus: consistia numa imersão na água, que simbolizava a morte para o próprio passado, bem como a purificação e o nascimento para uma vida nova.

João, conforme a tradição dos quatro evangelhos, realiza o batismo nas margens do rio Jordão. Esta localização é, também, importante. Na tradição do Êxodo, ele representava a última etapa para que o povo, atravessando suas águas, pudesse conquistar a terra prometida sob a liderança de Josué. Mas, agora, este Jordão torna-se a etapa inicial para sair desta terra, deste esquema e estrutura contrárias ao querer de Deus.

O Batista anuncia o novo êxodo que depois será levado à termo por Jesus. Nesse sentido também, João acolhe as lideranças religiosas que se achegavam às margens do Jordão: “Raça de cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Produzi frutos que provem a vossa conversão. Não penseis que basta dizer: “Abraão é nosso pai”, porque eu vos digo: até mesmo destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão” (v.7-9). Com palavras inflamadas ele os acolhe, porque sabe que estes vêm para o cumprimento de mais um rito, apenas. Chama-lhes a atenção para uma mudança de mentalidade e de atitude, que são os frutos que comprovam a conversão. Todavia, estas pessoas, no decorrer do evangelho, não acolherão a palavra de João, tampouco a de Jesus.

Para concluir o trecho bíblico, que é muito rico, Mateus coloca na boca de João o seguinte: “Eu vos batizo com água para a conversão, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (v.11). Este gesto que o Batista realiza não é o mesmo que um Outro, que ele distingue como o “mais forte”, pode realizar. O profeta do Jordão sabe que não pode dar o Espirito de Deus reconhecido como Santo, o qual é o dinamismo de vida de Deus. Este possui a missão e a capacidade de mergulhar (batizar) a pessoa na realidade mesma do Pai e do Filho, isto é, na plenitude da vida divina. Já o  batismo de João, realizado na água, acena para o fato de ser submergido numa realidade externa/exterior ao homem realiza apenas o externo e não doa a vida divina. Somente o mais forte doará o Espírito de Deus, isto é, introduzirá a humanidade numa nova e plena vida, a vida divina.

Uma nota importante: a conversão para qual a liturgia de hoje nos chama não é tortura, tampouco sadomasoquismo; não se trata de uma mania escrupulosa que torna o fiel maníaco religioso. Ela é, acima de tudo, um processo existencial, que vai galgando os passos da vida, performando a história pessoal do discípulo. Jamais será um tratamento de choque, muito menos uma virada ou tomada de consciência heroica da parte do ser humano. Quando estas coisas acontecem, o processo pode ser chamado de tudo, menos conversão.

 A conversão é a mudança da mentalidade, conforme dito acima. Significa pensar de forma nova. Viver e crescer alimentando em si os mesmos pensamentos e agir de Deus. A conversão na vida do discípulo exige deste um pensar e agir conforme o agir de Deus, de Jesus e do Reino. E qual seria esta ética? Vive-se a conversão como processo quando o discípulo deixa de guardar, acumular e passa a partilhar com o irmão; quando deixa a idolatria do poder e do domínio e passa para a dinâmica do servir o próximo; ao quebrar a lógica da violência e assumir a dinâmica do amor; ao abandonar a vingança e abraçar a misericórdia e a reconciliação; ao romper com os individualismos e indiferenças e abraçar a fraternidade e a vida em comum; deixar toda a lógica de morte e abraçar e promover a vida do Reino; sair da zona de conforto para cooperar com a missão de anunciar o Evangelho de Jesus. Enfim, conversão não é heroísmo, mas processo existencial constante.

Que o evangelho deste segundo domingo do advento possa preparar o deserto de nossos corações e nossas vidas, para que Deus passe. Que estejamos sempre dispostos a viver as pequenas conversões de cada dia, mudando a mentalidade e transformando nosso agir. Que nossa vida e história possam ser o deserto a partir do qual Deus possa realizar seu novo e constante êxodo, e como o Batista, preparar a estrada para o Senhor que definitivamente virá, e que constantemente nos visita.

  

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Os desafios para combater a violência doméstica e garantir a segurança e os direitos das mulheres no Brasil

A violência contra as mulheres é uma realidade assustadora no Brasil. Ainda mais, quando praticada na esfera do lar, um ambiente que deveria ser lugar de acolhimento, proteção, desenvolvimento sadio das humanas potencialidades, mas subvertidos em verdadeiros campos de concentração, que respiram morte e impossibilidade de vida. Ironicamente, um pais altamente religioso é recordista neste quesito, desembocando, via de regra, no feminicídio. A sociedade brasileira, imbuída da cultura machista e misógina é devedora da sociedade patriarcal dos primórdios da humanidade e do tempo colonial, onde a mulher era considerada mercadoria e objeto. Acaba reproduzindo ainda hoje estas mesmas características em todas as suas esferas. Hoje tornou-se comum a veiculação de notícias e manchetes que denunciam a realidade nefasta de mulheres agredidas e violentadas desde o seio da vida familiar. Diante deste cenário surgem os desafios: combater este estigma desumano e garantir segurança e direitos.


A análise da realidade brasileira se faz necessária. Uma pesquisa feita pelo Instituto de pesquisa Datasenado, pertencente ao Senado Federal mostrou que só em 2025 3,7 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência domestica ou familiar. Só no primeiro semestre do corrente ano foram registrados 718 casos de feminicídio, 33.999 casos de estupro, média de 187 por dia. E o alarmante ainda é o fato de que para quase 60% das vítimas a violência ocorreu em menos de seis meses, indicando recorrência no ato. É interessante notar que em 70% dos casos os atos criminosos ocorreram na presença de outras pessoas, as quais foram incapazes de manifestar qualquer resistência ou defesa, revelando um cenário de cumplicidade e de medo estrutural. O perigo deste corporativismo de morte só legitima ainda mais a figura do agressor. Eis um primeiro desafio. A ruptura com esta zona de morte, perigo e medo. O segundo, consiste na situação socioeconômica da vítima, que muitas vezes não tem como se manter longe do amparo financeiro que o companheiro lhe oferece. Criam-se algemas de dependência e a ruptura torna-se quase impossível, o que alimenta ainda mais a influência do violador sobre si. Outro desafio que emerge, e aqui adentrando ainda mais na seara da psicologia, seria a culpabilização da  vítima. É dilacerante se deparar com a situação de uma mulher que internalizou em si a crença de que ela seja a culpada pela agressão recebida. Outro desafio é a "manutenção das aparências", onde a vítima deseja manter a relação para mostrar que está tudo bem e que tudo é perfeito, seja diante dos filhos, dos familiares, dos amigos ou da sociedade. 


Frente ao exposto se faz necessário pensar mecanismos de ação que visam garantir o amparo e a dignidade das mulheres. Marco fundamental foi a criação e promulgação da lei Maria da Penha (Lei 11.340, de 2006), considerada uma referência mundial na legislação que visa proteger a mulher. A lei tipifica diversas formas de violência domestica, a saber: física, psicológica, moral, sexual, patrimonial. Esta instituição visa garantir que mulheres em situação de violência sejam assistida com medidas protetivas, tais como o afastamento do agressor, proibindo aproximação em relação à vítima e aos seus familiares, suspensão do porte de arma (no caso de possuir). A lei, para sustentar-se como marco legal de fundamental importância, ainda prevê penas mais severas, superiores à três anos de detenção, e penas alternativas, como o pagamento de cestas básicas. Outro benefício que este dispositivo apresentou foi a criação de juizados especializados em violência contra a mulher para viabilizar todos os tramites processuais decorrentes dos crime dessa natureza, bem como a determinação da pensão e da guarda dos filhos. Ela prevê a assistência social, encaminhando as mulheres à atendimentos médicos, psicológicos e capacitação para o mercado de trabalho, visando gerar nelas a promoção humana. O amparo existe. Todavia, seguem casos de subnotificação ou falta de informação, ou mesmo a propagação de fakenews que desinformam acerca do tema, e isso necessita ser rigorosamente combatido.


A lei cumpre seu papel. Entretanto, se fazem necessárias novas formas e frentes de trabalho para se assegurar a integridade e a dignidade da mulher, bem como seus direitos diante do cenário da violência domestica. Por exemplo, organizar e fortificar a sua participação na política e nas instâncias de poder e de decisão. Grandes mulheres já se apoderaram destes cenário e, foram neles empoderadas. Digno de nota são Rosa Weber e Carmem Lúcia, ambas ministras do Supremo Tribunal Federal, que nos últimos anos deram voz e vez ao tema da violência contra a mulher. Esta inserção deve ser constante, de modo a favorecer a visibilidade delas. Há que se promover espaços de fala e de debate em todas as esferas da sociedade brasileira. Outra medida importante deve ser a valorização da mulher no mercado de trabalho, a fim de que possam ter salários iguais ou superiores aos homens, de modo a se sustentarem sem qualquer dependência emocional, afetiva ou financeira. Ou seja, o empoderamento sempre constante da mulher. Atrelado a este, deve estar a atitude do acolhimento, da escuta de suas dores e feridas, por meio de um sólido amparo psicológico, ou seja, o cuidado para com a saúde mental. Assim sendo, valorizar sua presença. Como diria a filósofa Simone de Beauvoir, em sua obra "O Segundo Sexo (1949)","No dia em que for possível à mulher amar em sua força, não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma, mas para encontrar-se, não para se demitir, mas para se afirmar, nesse dia o amor se tornará para ela fonte de vida e não perigo mortal".  


A guisa de conclusão, o presente texto visou pontuar o tema da violência contra a mulher no âmbito doméstico e familiar, realizando uma visão de conjunto, servindo-se de uma análise da sociedade brasileira, machista e misógina, mediante a observação de dados estatísticos. Apresentou também os desafios sofridos pelas mulheres neste contexto, bem como os recursos e as ferramentas necessárias para lhes assegurar a dignidade, tais como o marco legal 11.340, de 2006, a lei Maria da Penha, a inserção delas nas instâncias de atuação sócio-políticas que podem contribuir no combate à violência, ao mesmo tempo em que se cuida de sua dignidade e promoção humana.

sábado, 29 de novembro de 2025

REFLEXÃO PARA O I DOMINGO DO ADVENTO – Mt 24,37-44:

 


Um novo ano litúrgico se inicia na vida da Igreja universal com o primeiro domingo do advento. A partir de hoje, a liturgia proporá como alimento os textos do Evangelho segundo Mateus. Este tempo é marcado pelas dinâmicas da espera, da vigilância e pelo constante apelo à conversão. Ele se divide em dois ciclos: de hoje até 17 de dezembro. Os dois primeiros domingos, e, consequentemente, as duas primeiras semanas são marcadas pela temática da segunda vinda do Senhor. Portanto, um advento escatológico.

A escatologia é uma linguagem teológica para se falar da renovação definitiva desta realidade histórica, do mundo e do universo. Enquanto linguagem – isto é, forma de se dizer e expressar algo – ela assume um amplo vocabulário simbólico. Nesse sentido, todos os textos bíblicos a serem utilizados pela Igreja nestas duas primeiras semanas são enriquecidos de símbolos que precisam ser decifrados e entendidos, e, jamais interpretados de modo fundamentalista, ao pé da letra. É recolher a mensagem através da imagem, e não sua literalidade.

O tempo do advento tem a intenção pedagógica de ensinar, a partir dos dois primeiros domingos que tratam da segunda vinda de Cristo que é para esta segunda vinda que devemos esperar e nos empenhar. Isto posto, podemos iniciar a meditação do texto evangélico de hoje.

O texto que a liturgia propõe é um pouco difícil. Não por sua interpretação, mas devido ao fato de que ele está fora de seu contexto próximo. Sempre se correrá o risco de interpretar equivocadamente o texto quando retirado do seu contexto, traindo, inclusive, as intenções do próprio evangelista. A perícope situa-se no capítulo vinte e quatro, o início do chamado “discurso escatológico/discurso final” da catequese mateana, através do qual, o catequista bíblico tratará de recuperar o ensinamento do Cristo para seus discípulos acerca dos eventos relacionados ao fim. Por isso, discurso final. O tema do fim do mundo, da história e da realidade devem ser sempre refletidos e entendidos não como fim catastrófico ou trágico, mas como um convite a uma nova história. O fim na bíblia nunca é fim de um mundo, mas fim de uma época/era a fim de que outra, totalmente nova, possa surgir. Para falar do surgimento desta nova era (no sentido mais positivo do termo), os autores sagrados se servem sempre de uma linguagem com um vocabulário carregado de elementos e termos simbólicos. Contextualização feita, se pode, agora, mergulhar no horizonte do ensinamento bíblico de hoje.

Nos versículos anteriores, Jesus dirigiu palavras duras contra o templo, contra a cidade santa (cf. 24,1-25), e causou desconforto nos discípulos com as mesmas palavras simbólicas referentes aos sinais cósmicos e terrestres (26-34). Isto provocou neles a expectativa acerca do momento em que tudo isso se realizaria. Diante disso, em Mt 24,35, o Senhor advertiu a seus discípulos que aquela geração não passaria sem que tudo isso acontecesse, mesmo tendo passado o céu e a terra. E, tranquilizando a inquietação deles declarava no v.36 que, sobre aquele dia, somente o Pai teria conhecimento. É, precisamente, sobre este tema que Ele quer trabalhar com seus discípulos, isto é, o modo (o “como”) através do qual deverão balizar e pautar a vida, e não sobre o “quando”.

“A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé” (v. 37). Jesus recuperar para seus ouvintes a realidade vivida nos tempos desta personagem importante do Antigo Testamento. O que representa este elemento simbólico do dia de Noé? Ele faz referência ao dilúvio. Este, não pode ser interpretado como o fim do mundo, mas o surgimento de uma nova humanidade, em Gn 6 – 7. Nesse sentido, a vinda do filho do homem acontece para propor uma nova forma de vida, uma humanidade renovada. Já se sabe que esta personagem “filho do homem” pertence ao capítulo sétimo do Livro de Daniel, e se trata de um ser (humano) que realiza o querer divino na história com sua própria vida; é aquele que executa o projeto de Deus; que leva a termo o senhorio e o juízo divinos. Filho do Homem não significa a natureza humana apenas, mas a humanidade marcada pela condição divina. Com esta personagem também, é que Jesus se assemelhará para viver a sua missão.

“Nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam até que veio o dilúvio e arrastou a todos” (v.38). Jesus fala das atitudes de comer, beber e casar-se. E esse dito precisa ser bem entendido, de modo a evitar interpretações moralizantes e desconectadas da vida. O casamento e as refeições eram, no tempo da sociedade daquela época, acontecimentos comuns e normais. Ele está evocando, portanto, a normalidade, a cotidianidade, o comum enquanto lugar do acontecimento do agir de Deus, indo contra a lógica do extraordinário, do tremendo, do fascínio, do chamativo e gritante. É no “aí e no agora” que Deus acontece. Sabiamente dizia Santa Teresa de Jesus (Ávila, Espanha – Séc. XVI): “Deus está entre as panelas também”.

Jesus ilustra a sua catequese, agora, com a imagem do trabalho, onde dois homens e duas mulheres estarão realizando seus afazeres. Dois serão levados, enquanto que dois serão deixados. Deve se ter presente que a expressão “ser levado(a)” não se refere a algo negativo ou castigo. Ela precisa ser compreendida da seguinte maneira: “ser levado(a)” significa ser “tomado(a)” por Deus. Então, as duas personagens são “levadas” ou tomadas pelo próprio Deus. Significa que elas estão sendo acolhidas por Ele porque souberam acolhê-lo em meio à vida.

Para que a novidade de Deus agindo em meio a essa história, isto é, ser tomado por parte de Deus possam ser percebidas, se faz necessária a vigilância, a qual é e sempre será uma das virtudes do discípulo. “Portanto, ficai atentos! porque não sabeis em que dia virá o Senhor” (v.42). A vigilância  bíblica (também trabalhada na parábola do dono da casa alerta contra o ladrão) não é uma espera passiva e descomprometida, mas ativa/operante, daquele que sabe esperar cooperando com o projeto do Reino através de suas atitudes. É a capacidade da leitura da realidade unida à ação transformadora de Deus através de seus filhos e filhas. Significa romper com a tentação dos braços cruzados, do sentar e esperar cair dos céus, ou do “tudo está garantido”. Ela serve de lente histórica para ajudar a pessoa a enxergar a chegada e a presença deste Deus que vem para tomar-nos para si.

Diante desta vinda do Senhor (sacramentalmente celebrada e vivida através da Palavra e da liturgia) estejamos vigilantes, e não indiferentes como os do tempo de Noé.


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 22 de novembro de 2025

SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO: Lc 23,35-43:

 


A Igreja vive a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo neste último domingo do tempo comum. Com esta celebração, encerra-se o ciclo litúrgico C, dedicado à leitura e meditação da catequese evangélica de Lucas. Por isso, nos é apresentada para a meditação eclesial o texto do “proprium” lucano das narrativas acerca da Paixão e Morte do Senhor.

A pergunta incômoda, “como é possível um celebrar a realeza de uma pessoa a partir do fracasso?”, ou “Por que não mostrar a realeza de Jesus com outros textos que falam do seu retorno glorioso, ao invés destes textos que o mostram crucificado?” É bem verdade que a leitura do ciclo litúrgico A apresenta para esta solenidade o discurso escatológico de Mt 25, através do qual o evangelista pretende mostrar como será o reinado definitivo de Deus. Há um motivo, evidentemente.

O texto litúrgico começa a partir do v.35, situando-nos no contexto imediato, isto é, o calvário e a crucifixão. Os julgamentos diante do sinédrio (processo judaico) e o inquérito diante da autoridade romana, o procurador Pôncio Pilatos, se encarregaram de levar Jesus para ser torturado e sentenciado à pena de morte dos prisioneiros políticos, aqueles que pudessem representar algum perigo para o Império, à crucifixão. Aos pés da cruz encontram-se os chefes religioso do povo, os soldados responsáveis pela manutenção da ordem de execução, e, crucificados junto com ele, outras duas companhias, os malfeitores. É importante ler os versículos seguintes em unidade.

“Os chefes zombavam de Jesus dizendo: A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido! Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo! Acima dele havia um letreiro: Este é o Rei dos Judeus. Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo: Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (v.v35-39). Os insultos que Jesus que recebe na cruz são um eco das tentações sofridas no deserto, no início de seu ministério. Por isso, eles só podem ser entendidos a partir de Lc 4,1-13.

As tentações foram seduções oferecidas pelo Diabo, com o propósito de fazer com que Jesus se desviasse do projeto de Deus, lhe fosse infiel, e usasse seu messianismo para benefício próprio; elas tinham a intenção de causar a divisão, a cisão, a ruptura entre Ele e o Pai. O caminho mais fácil; a lógica do ser e do ter, do domínio, da submissão e do prestígio. Quando o tentador percebe que nada afastará o Senhor da fidelidade a YHWH, em 4,13, o autor narra: “Tendo acabado toda a tentação, o diabo o deixou até o tempo oportuno”.

Lucas coloca o calvário e a cruz como o tempo oportuno para a última tentação de Cristo. Nesse sentido, os chefes religiosos, os soldados e o malfeitor com suas zombarias e troças, personificam e amplificam a figura do tentador nos momentos finais da vida de Jesus. Assim, a Sua última tentação se dá no calvário e na cruz. Os insultos, são, na verdade, a tentação de se servir de um messianismo fácil, sedutor, poderoso, espetacular; diametralmente oposto ao caminho do Messias encarnado por ele enquanto justo (Sl 22; 33; 69) e servo sofredor (Is 49 – 55). Diante da tentação de salva-se ele se oferece ao Pai, não respondendo através do caminho mais fácil. Torna-se, pois, rei de si mesmo e de suas vontades.

No meio daquele vozerio, alguém fala com consciência: um malfeitor, que provavelmente, para estar ali, deveria ter cometido um delito muito sério, que lhe custasse a vida. Ao censurar a fala do outro bandido, reconhece em Jesus o Justo, aquele que realizou durante toda a sua vida a vontade e o querer de Deus; que, ali, naquele injusto sofrimento, padece com confiança total na silenciosa presença de Deus. O Justo, na sagrada escritura é aquela pessoa que cumpre o querer de Deus; que padece sofrimentos por conta de sua fidelidade, permanecendo fiel à Deus. Assim é reconhecido Jesus pelo malfeitor: “Mas o outro o repreendeu, dizendo: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado” (v.v. 40-42).

Jesus lhe responde com a absoluta certeza de quem confia plenamente no Deus do Reino que ele anunciou durante toda a sua vida: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (v.43). Só neste versículo, dois temas se entrelaçam, se correspondem e se tornam plenos: a salvação universal que Deus oferece indistintamente e o “hoje” salvífico de Deus. O reinado de Deus em Jesus é este: o agir amoroso e misericordioso de Deus, sempre inclusivo e acolhedor, humanizador e gerador de novas e plenas possibilidades de vida.

Igualmente importante é o tema do Hoje salvífico de Deus: esta salvação, dom e graça, oferecida a todos, sem distinções, acontece sempre no hoje da história pessoal do indivíduo. Por isso, a vida de todo aquele se abre para acolher a vida e a história de Jesus de Nazaré, do Reino anunciado por Ele, transforma-se num encontro salvífico constante com o Deus e Pai de Jesus.

Assim é o reinado de Deus em Jesus: amor, misericórdia, salvação universal, acolhimento. Assim é Jesus Rei, que, paradoxalmente, não reina de um trono ou de um palácio, envolvido pelas ideologias imperiais e monárquicas; não reina a partir do poder, do prestígio, da fama, da glória e da vaidade. Reina desde a cruz, expressão máxima da doação da própria vida; de que o seu reinado, seu agir em nome do Deus que chama de Pai, foge dos esquemas e da lógica mundana.

O discípulo que quiser tomar parte deste reinado deverá estar disposto a assimilar e assumir esta mesma lógica e dinâmica de vida de Jesus.

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 25 de outubro de 2025

REFLEXÃO PARA O XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 18,9-14:

 


A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum apresenta a continuidade do capítulo dezoito do evangelho de Lucas, com um texto muito desconcertante: a parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14). Ela traz em sua sentença final, uma provocação absolutamente questionadora que vai além da lógica humana, a qual tem a intenção de conduzir o leitor/ouvinte à uma mudança de mentalidade acerca do modo se relacionar com Deus – não o deus da religião, mas o Deus e Pai de Jesus – e com as pessoas. Nesse sentido, a pergunta desconcertante se expressaria assim: “Seria possível continuar ou viver uma situação considerada pecaminosa pela religião ou pela moral, e ser igualmente amado por Deus? 

A fim de compreender a mudança radical na relação com Deus, Jesus narra a parábola do fariseu e do publicano, destinando-a àqueles que pensam ser perfeitos, graças aos seus esforços, ou, na linguagem do evangelista, “aqueles que confiavam na própria justiça” (v.9). A parábola começa assim: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos” (v.10). As personagens já são apresentadas: duas pessoas com condutas opostas.

O fariseu era o observador zeloso da Lei, conhecendo-a nas suas minucias e em suas virgulas. Cumpria rigorosamente as 613 prescrições da lei de Moisés. Pessoas leigas e piedosas, profissionais do sagrado. Mais religiosas que os chefes da religião. Assim, considerava-se justo diante de Deus, e, com isso, separavam-se do povo. O publicano era um judeu que trabalhava para o Império, cobrando impostos de sua própria gente. Eram considerados como traidores e, nesse sentido, piores pessoas e pecadores públicos. Para estes não haveria nenhuma esperança de salvação. Nesta personagem, Jesus apresenta uma pessoa cuja a situação não consegue mudar!

“O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo” (v. 11). Jesus mostra a atitude e o conteúdo da oração do fariseu. Interessante, ele rezava em pé (para ser visto) e em seu íntimo. A tradução grega é melhor, pois mostra com realismo o modo com que ele rezava, “voltado para si mesmo”. Este homem se coloca diante do Senhor, mas permanece voltado para si, ainda que as palavras que saíssem de sua boca fossem direcionadas à Deus; um monólogo de sua própria santidade: fala para si mesmo e sobre si mesmo.

O fariseu, por sua vida separada, fazia da sua santidade a medida para julgar os outros: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos (v.12a)”.  Jesus denuncia a incoerência do fariseu, que através da sua mania de ostentar a sua justiça diante dos homens, na realidade serve somente para mascarar a profunda e real injustiça que existe diante de Deus. Ele, no templo, ao exaltar e se gloriar de sua dignidade e santidade, ao incensar suas práticas, não faz outra coisa senão usurpar o lugar de Deus. É o pecado da idolatria, porque ao glorificar-se com a mesma glória devida a Deus, se coloca como ídolo de si. Tal é a convicção equivocada dele, que a sua atitude de lançar um olhar de desprezo ao publicano lhe denuncia a insensatez e o desprezo: “não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos”.

A concepção equivocada do fariseu em relação à Deus é ainda mais acentuada na parábola, quando elenca as suas atitudes: “Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda” (v.12b). São centradas nas práticas da piedade judaica. Entretanto, nenhuma delas voltadas às relações com o próximo. Todas relacionadas ao cumprimento do dever religioso em relação à Deus, mas totalmente desinteressadas do bem ao outro. Por exemplo, a prática do jejum. Na tradição de Israel era prescrita uma única vez ao ano, no chamado Yon Kippur (dia da expiação/perdão). Mas, a tradição religiosa acrescentou mais quatro, aludindo às quatro grandes catástrofes nacionais do povo.

Os fariseus, para destacarem-se dos demais, jejuavam às quintas e às segundas-feiras, porque a quinta-feira era o dia em que Moisés, conforme a tradição, havia subido ao Sinai, e a segunda-feira, o dia em que ele havia descido da montanha. Este jejum bi-semanal era o seu distintivo. Pagavam o dizimo de tudo o que possuíam, e não somente sobre o que era exigido pela Lei, isso porque queria estar seguro de não transgredir nenhuma norma ou prescrição. Assim, faziam muito mais do que era estabelecido. Apresentavam a lista de seus pretensos méritos diante de Deus.

Agora, é importante lançar o olhar para o publicano. Ele vai ao templo com a intenção de rezar, mas não arrisca em fazê-lo. Jesus mostra muito bem a discrepância existente entra as duas personagens. “O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu” (v.13). Ele tem consciência de sua indignidade; sabe que não pode entrar numa casa de um judeu piedoso, muito menos no templo de Deus, porque poderia tornar impuro todos os que se aproximavam.

A forma e o conteúdo da oração do publicano é, por demais, reveladora, conforme narra Jesus: “batia no peito, dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” (v.13). Duas personagens num contraste abissal entre si, mas com atitudes iguais em relação à Deus: o fechamento. O fariseu, enquanto ídolo e deus de si mesmo, se fecha ao Senhor, que pede amor e não sacrifício; o publicano, que convive cotidianamente com o engano e com o roubo. Mas somente este é consciente de sua impureza, de sua indignidade. Mais curioso ainda, ele não promete a Deus mudar de vida porque não lhe é possível. Mas suplica para que lhe seja mostrada a misericórdia, mesmo em sua impureza: “Senhor, veja a vida desgraçada que levo. Não posso fazer outra coisa, não posso voltar atrás. Mesmo assim mostrai-me vossa misericórdia”.

A parábola, como dissemos no início, termina de uma forma inexplicável, com uma sentença desconcertante de Jesus, que faz refletir: “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (v.14). O publicano retorna para a sua casa justificado, ou seja, em paz e capaz de Deus. Mas isso é inquietante: o que esse fariseu fez de errado? Cumpria e realizava tudo o que ordenava a Lei, e muito mais. O seu erro consiste no fato de ter enaltecido a si mesmo, isto é, tomar o lugar de Deus. Fez se deus de si através da mercadoria de troca que seus méritos representavam. O que fez o publicano ser justificado? Apenas suplicou e confiou na misericórdia e no amor de Deus que lhe exige nada. Nem mesmo faz o propósito de mudar de vida, mas ser receptivo à misericórdia de Deus. 

A parábola de Jesus pretende mostrar como é a lógica do Reino de Deus: nesta nova realidade que Ele propõe, o Reino, não se torna grande e amado por de Deus quem se apoia em seus próprios méritos, mas é amado por Ele devido às suas necessidades. Méritos, ninguém os tem. Agora, necessidades, todos possuem. Então, a moral deste trecho precioso é esta: Deus ama, sem impor a mudança de vida; a comunhão com Deus não depende da conduta religiosa e dos méritos do homem, mas no acolhimento do amor e na vivência dele.

Quem somos, diante deste espelho do texto? O fariseu, mais religioso que os líderes (mais cristãos que o próprio Cristo; mais católicos que o papa; mais padres que os próprios padres)? Ou o publicano, consciente de ser indigno diante de Deus, ciente de não poder ter ou apresentar algum mérito? Como está nossa oração, dado que ela é o modo de se estabelecer uma relação com Deus: é uma relação que se baseia no mérito, enquanto “moeda de troca”; uma oração voltada a si? Ou uma relação que sabe ser grata e gratuita, e, portanto, livre diante de Deus, o qual nos ama livre e gratuitamente, sem esperar de nós os méritos?


Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.

domingo, 19 de outubro de 2025

REFLEXÃO PARA O XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - Lc 18,1-8:

 


O evangelho proposto para a meditação do vigésimo nono domingo do tempo comum, é retirado do capítulo dezoito, o qual encerra a seção dos ensinamentos sobre o tema da fé dos discípulos, iniciado no capítulo anterior – Lc 17,1-10 – com o pedido para que Jesus lhes aumentasse a fé, seguido do relato da purificação dos dez leprosos, dentre os quais, um samaritano, que, ao retornar para agradecer honra o Senhor com sua fé (Lc 17,11-19), que não pode ser lido no domingo anterior devido à Solenidade da Senhora Aparecida. Por isso, o texto de hoje conclui este ensinamento. A fé dos discípulos deve ser perseverante e orante.

A fé, nos mostrou o capítulo dezessete, é a capacidade de relação com Deus. É e sempre será a resposta que o homem e a mulher, o discípulo e a discípula de Jesus de todos os tempos e lugares oferece a Deus, diante de seu amor, sua misericórdia e seu perdão. Ela habilita o discípulo a se relacionar com Ele segundo a forma e a condição de Filho, e ser reconhecido como discípulo do Reino. Mas esta relação-resposta deve ser sempre conservada a partir da perseverança e da constância, mesmo diante dos desafios e das dificuldades no seguimento a Jesus. É o que o discípulo-leitor do evangelho deve procurar absorver do texto deste domingo, Lc 18,1-8, a parábola do Juiz iníquo e da viúva, personagens simbólicas a serem compreendidas e aplicadas à dois grupos.

Para compreender o texto de hoje é necessário compreender o contexto da comunidade de Lucas (e de todas as comunidades no Século I). Cresce e acirra-se a perseguição contra o movimento de Jesus por parte do Império, pelo imperador Domiciano, e da parte do judaísmo da época. A violência, o insulto, a rejeição, a exclusão e marginalização dos cristãos dos dois lados da sociedade geravam desânimo nos primeiros cristãos e até desistências. Sob este clima é que Lucas tece o relato parabólico que inicia o capítulo dezoito. Este episódio é exclusivo do evangelista, que soube redigir bem o texto, apropriando-se do ensino de Jesus e das personagens, articulando-as a fim de transmitir uma mensagem de ânimo, de encorajamento e de esperança para suas comunidades para fortalecer lhes a Fé, mesmo em tempos de crise.

O texto começa apresentando a intenção do Senhor, a qual revela-se a finalidade do ensinamento que vem a seguir: “Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir...” (v.1). Na verdade, o Senhor já trabalhou o tema da oração no capítulo 12 da catequese lucana. Por isso, este não pode ser considerado o tema central deste capítulo, embora apareça novamente. E, para que recordemos sempre: a repetição dos temas é um artifício do evangelista para mostrar as dificuldades que os discípulos-leitores estão apresentando na assimilação dos mesmos. No entanto, se faz importante recorrer ao contexto da comunidade uma vez mais, ou seja, os anos 80. Ela era composta, na sua maioria, por estrangeiros e pagão, os quais não tinham a prática e o costume da oração. Por serem de origem grega, a maioria estava habituada ao costume religioso grego dos sacrifícios apresentados nos templos, aos ritos.

A parábola apresenta duas personagens absolutamente opostas. Um juiz e uma viúva. Com muita precisão  são mostradas as características da personagem do magistrado: “um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum” (v.2). É um homem arrogante, autossuficiente, prepotente. Não temer a Deus significa que ele não o reverenciava. O temor bíblico não é sinônimo para o medo. Muito pelo contrário. É a atitude de reverência e de reconhecimento da dependência em relação ao divino. Este homem, mediante suas características, revela-se descomprometido com Deus e com outro (“não respeitava homem algum”).

A segunda personagem que Lucas apresenta como contraste é a viúva. É importante relembrar que esta classe, dentro da tradição religiosa do povo de Israel, devia ser protegida. Mas isso não era feito. Quando a mulher ficava viúva, sem herdeiros, e, não tendo ninguém que a amparasse, todos os seus bens e propriedades podiam ser dados ao templo, aos sacerdotes. Com isso, corria o risco de ficar na miséria, na mendicância, vivendo na marginalização. Muito provavelmente, esta viúva da parábola ao apresentar-se com insistência diante do juiz,  não tinha ninguém por ela. A sua característica é a insistência; a perseverança. Mesmo sabendo que o juiz poderia ser injusto com ela. Via de regra, no AT, as figuras dos magistrados das cidades eram sempre denunciadas pelos profetas por deixarem se corromper por seus próprios privilégios e vantagens, desfavorecendo os pobres que iam a eles pedindo justiça.

Não é o que acontece. O juiz se incomoda com a insistência da viúva. Ele expressa bem sua intenção: “Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum. Mas esta viúva já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me!” (v.4-5). A tradução está equivocada: o juiz não teme a agressão. Primeiro, porque Jesus jamais incentivaria essa atitude, tampouco os evangelistas inspirariam este comportamento para suas comunidades, que já sofriam por demais com a violência. A tradução literal é esta: “Vou fazer-lhe justiça, para que ela não me coloque os olhos negros”. Trata-se de uma figura de linguagem que pretende aludir para o medo de ter sua reputação manchada. Ora, é claro que o juiz injusto não estava pensado no bem daquela viúva ao lhe exercer justiça, mas na sua própria imagem. Ele pensa em si mesmo, tão somente. Não pensa na justiça que pode fazer porque sua preocupação não é o outro. Por isso, quem simbolizam estas personagens?

O juiz injusto é símbolo para a mentalidade e atitude do Império Romano, imbuídos de seus esquemas e sistemas de domínio, opressão, coação, injustiça, violência e morte. Em primeiro lugar, a viúva é na tradição judaica símbolo para o próprio povo de Deus, quando se encontrava oprimido. Para a geração de Lucas, a viúva insistente se torna símbolo para a comunidade cristã, ameaçada nesta história. Ela se torna exemplar e modelo para os discípulos por sua perseverança na fé, mesmo em tempos difíceis; mesmo onde a crise e a dificuldade tomam conta e parecem reinar. É o exemplo da fé insistente e perseverante que a viúva tem que o discípulo precisa assimilar. Sua conduta orante deve imitar à desta mulher. Ora, a oração é aquele momento de intimidade com Deus, de relação pessoal com Ele. Nela se discerne a vida, as opções, as ações. Através dela se pode assimilar o que Deus pede e propõe. A oração é a atitude de colocar os olhos nos olhos do Pai e do Senhor Jesus para ver a direção para a qual eles apontam. No caso, a oração insistente serve para que o discípulo possa saber o momento oportuno para agir e resolver os problemas a partir da ótica de Deus. É, então, esta personagem que deve servir de modelo para a comunidade ou para o discípulo que balança na fé.

Jesus, conclui a parábola chamando a atenção dos discípulos para a conduta injusta deste juiz, para oferecer a eles a certeza de que ainda que aquele magistrado agisse assim, Deus age diferente. Com justiça, e esta é amor e misericórdia para salvar os seus. Nunca um juízo de condenação. O Pai não é como aquele juiz, que se posiciona ao lado de suas próprias convicções e bem-estar, agindo por seus próprios interesses. Pelo contrário, através da parábola, Jesus mostra que o Pai toma um lado na história: o dos  despossuídos, marginalizados e excluídos; ao lado das minorias.

Jesus coloca uma pergunta: “Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (v.9). Diante do fato do Senhor assegurar a constante ação de Deus em favor de todos os seus eleitos (o seu povo), Ele coloca a pergunta de modo a provocar os discípulos: diante da fidelidade de Deus, o homem permanecerá fiel à sua relação-em resposta à Deus? Será perseverante? Este será o desafio a ser vivido por aquele que deseja, de fato, seguir o projeto de Deus, tornar-se discípulo de Jesus.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu-SP.


sábado, 11 de outubro de 2025

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO APARECIDA – Jo 2,1-11:

 


A Igreja no Brasil celebra a solenidade de sua padroeira, Nossa Senhora da Conceição Aparecida. E propõe para a meditação eclesial o evangelho das Bodas de Caná, Jo 2,1-11. Episódio este contido na catequese do evangelho joanino. O Quarto Evangelho é constituído de duas partes. A primeira, o Livro dos Sinais, que inicia em Jo,1,18 e conclui-se em 12,51, e do livro da Glória, Jo 13 – 20. 

Os Sinais, na perspectiva de João, são gestos simbólicos de Jesus que apontam para a realidade profunda e essencial de sua identidade. Que Nele existe e desponta a novidade (escatológica, da ultimidade, da plenitude) de Deus agindo na história. Mas não devem ser vistos e meditados em si mesmos, e sim orientados para a Hora da Glória de Jesus. Esta é o momento do Seu enaltecimento, sua revelação como Filho de Deus e Messias. Por isso, só pode avançar para a contemplação da hora da Glória o discípulo que percorreu o itinerário descrito nesta primeira parte do evangelho.

O capítulo 2 do Evangelho segundo João apresenta o primeiro sinal realizado por Jesus. Ele o realiza em Caná, na Galileia, no terceiro dia de sua semana inaugural. Não é à toa que esse dado aparece. O episódio 2,1-11 parece dar sequência ao contexto de 1,19-51. Se “no terceiro dia” (2,1) faz soma com os quatro dias de 1,19-51, o episódio de Jo 2,1-11 completa uma “semana inaugural”. Portanto, o sétimo dia. Devemos recordar que o Quarto Evangelho é escrito para pessoas que já foram evangelizadas numa primeira vez, por isso a expressão “terceiro dia” alude ao dia da ressurreição. No horizonte da narrativa, no sétimo dia desta semana acontece um casamento em Caná. Todavia é preferível para esse episódio o termo “bodas”.

As bodas fazem parte do imaginário do povo de Israel. A imagem do casamento serve de metáfora/símbolo para a Aliança (relação) com Deus. Mais ainda, nas expectativas do povo, as bodas seriam o momento da inauguração da era messiânica. Ela representa, nesse sentido, a alegria e a expectativa das núpcias messiânica, que, a partir da mentalidade dos discípulos de Jesus Ressuscitado, se dará através das núpcias do Cordeiro. Adentrando no horizonte do texto, a personagem que encabeça a narrativa é uma mulher; a mãe do Senhor, primeiramente. Ambos foram convidados. Ora, a organização das festas geralmente ficava sob o cuidado das mulheres, as mães de família. Os homens ficavam ali como figuras decorativas. Mas o evangelista elenca também a presença dos discípulos.

A figura da mãe de Jesus deve ser compreendida, de modo a reorientar o olhar para Ele e sua atuação. O texto não tem a mais remota intenção de colocar ênfase na mulher. Um detalhe importante, ela não é mencionada pelo seu nome (é óbvio que o evangelista saiba, mas isso não ocupa lugar para a finalidade da narrativa). Sabe-se, que quando uma personagem aparece de forma anônima, na verdade, o autor está fazendo um convite para que os leitores/ouvintes se identifiquem com esta. Portanto, o texto das Bodas de Caná não pode ser interpretado em chave de leitura da intercessão de Maria.

A “mãe” é símbolo do Israel fiel à Aliança e submetido à Lei. Ou seja, esta personagem ainda está presa ao regime da lei mosaica e ao sistema religioso-cultual da época. O evangelista João propõe para seus leitores/ouvintes, fieis de sua comunidade, a superação e a substituição de todo o sistema religioso e cultual judaico a partir da pessoa de Jesus. Há que se superar estes sistemas antigos para se tomar parte da novidade de Deus presente na história. 

O vinho vem a faltar. A mãe de Jesus nota o fato. Uma festa de núpcias sem vinho! O vinho simboliza a alegria e o amor. Mas para a tradição de Israel, o vinho alude para a inauguração da era messiânica. A mãe se dirige à Jesus, conta-lhe o que está acontecendo e ele responde algo que dá a entender que isso não é assunto dele (lit: “O que há para mim e para ti?”. v.2). Soaria como um “Não é problema nosso”. Com efeito, em seguida, acrescenta Jesus algo que soa igualmente intrigante: “Minha hora ainda não chegou”. De que hora Jesus está falando? De qualquer maneira, ainda não é sua hora, mas o que acontecerá imediatamente será um sinal que encaminhará para este acontecimento.

A mãe diz aos que estavam servindo (lit. diáconos), “fazei o que Ele vos disser”. Aqui tem-se a transformação desta personagem. Recordemos que ela foi estabelecida como símbolo para o Israel fiel. Ao dizer aos servos para colocarem toda a atenção sobre o agir e a palavra de Jesus, ela reconhece Nele a novidade da presença de Deus. O Israel fiel à Deus e Sua Aliança saberão reconhecer Deus mesmo agindo de modo novo através de Jesus. Agora sim, esta mulher começa a fazer parte da Novidade escatológica apresentada pelo Senhor, e passa, então, a símbolo para a Comunidade dos fiéis.

O evangelista nos informa que ali estavam seis talhas de pedras, de mais ou menos cem litros, utilizadas para a purificação ritual (e higiênica) que os judeus costumavam fazer. Elas estavam vazias. Estão ali inutilizadas; já não servem mais, a não ser para o que serviam antes. Mas após a ordem de Jesus para enche-las, a atitude dos servos é de completa-las até a borda (lit. até o alto). Eram feitas de pedra. Foi sobre duas tábuas de pedra que, no Sinai, Moisés recebeu a Lei. No simbolismo judaico, a água é associada à Torá. Essa não falta, vinho sim — falta a alegria messiânica. Por isso, o número seis aparece. Na teologia bíblica, seis indica imperfeição, incompletude (contrário do número sete, que simboliza a perfeição). O narrador denuncia a inutilidade das práticas religiosas judaicas que, diante da novidade de Jesus, encontram-se superadas. Elas devem ser enchidas até a borda. Emerge aqui a ideia da abundância. Assim foi feito. Trazem as talhas ao Senhor, que pede para que as levem até o mestre-sala. O qual prova (v.9).

O mestre de cerimônias chama o noivo, que até agora tinha ficado incógnito. “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!” (v.10). Esta última parte do versículo adquire um peso devido ao adverbio de tempo “agora”. Ele expressa a realidade de que o “agora” está ai. Este “agora” é a novidade, que é marcada pela abundância do vinho bom, como recorda o profeta Amós no capítulo nono de seu livro, ao dizer que das colinas destilaram vinho em abundância. João recorda também a profecia de Isaias, que profetiza e celebra a abundância vivenciada no tempo messiânico (Is 61; 63; 66).

Qual é o verdadeiro noivo para o qual deveria ter sido dito isto? Jesus, que não deixa faltar o vinho novo e bom. Porque, ao mesmo tempo, o noivo e o vinho melhor são Ele mesmo. Assim, há um “noivo escondido” na história, que vem realizar as núpcias de Deus com a humanidade.

A mensagem final, no v.11 é sumamente importante: “Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galiléia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele” (v.11). Notemos que o Quarto Evangelista sublinha que este foi o princípio dos sinais (gr. ἀρχὴν τῶν σημείων/arché tón semeion). Arché (gr. ἀρχὴν / princípio , origem) faz um arco narrativo com o prólogo do Evangelho, quando o catequista bíblico inicia a obra com um solene “No princípio”, que remete ao primeiro dia da criação em Gn 1,1, com a conclusão provisória desta semana inaugural, que remete à nova criação.

Qual é a força de sentido deste texto do evangelho joanino para a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida? Apresentar Maria como aquela que, entre os processos da vida, sabe reconhecer e apontar o sentido da vida para todos os discípulos do Reino: “Fazer tudo o que Ele disser”, ou seja, a Pessoa de Jesus e a forma de sua existência. Ao mesmo tempo, indicar atitudes ternas e responsáveis dela que podem ser imitadas: a atenção com os acontecimentos ao redor de si (o discípulo precisa estar atento à realidade); o cuidado para com as necessidades dos outros (zelo para com os outros); a prontidão para se colocar a serviço (serviço); a cooperação na solução de um problema (ser presença solidária). Atitudes que podem sempre ser aprimoradas na vida e nos processos pessoais do discípulo e da discípula do Reino.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio.

Paróquia São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu-SP.