A
liturgia do segundo domingo da quaresma nos convida a meditar a narrativa da
transfiguração de Jesus. Ela se encontra três evangelhos sinóticos. Mas cada
evangelista deu a esse fato cores próprias, conforme as necessidades de suas
comunidades. A intenção deste relato no tempo quaresmal é a de fazer com que o
fiel se coloque na predisposição de se transfigurar mediante o seguimento a
Jesus. Ainda insistindo na dinâmica litúrgico-mistagógica podemos tomar o texto
de hoje e pô-lo em sintonia com o evangelho do primeiro domingo do tempo
quaresmal, no qual meditamos as tentações de Jesus. A última tentação à que foi
seduzido se deu no alto de uma montanha. Ali, foi lhe oferecido o caminho do
messianismo dominador e do poder.
O evangelista oferece a informação temporal e geográfica. A primeira, “seis dias depois”, conecta o texto de hoje ao episódio da confissão Simão Pedro acerca da identidade de Jesus como Messias e Filho de Deus, em Cesareia, e o primeiro anúncio que Ele faz de Sua Paixão e Morte. O discípulo-pescador de Betsaida não aceita essa lógica do Mestre, e se torna um opositor (satanás). A indicação temporal, portanto, relaciona o episódio do capítulo dezesseis com a narrativa proposta pela liturgia. Mas o número seis assume um significado simbólico: imperfeição, incompletude, falta. A intenção do evangelista será a de mostrar que algo de fundamental acontecerá que trará plenitude.
A narrativa evangélica não é uma crônica dos fatos; não é um texto jornalístico que pretende documentar e registrar os acontecimentos. Os evangelhos são catequeses narrativas, que se servem de elementos e linguagens muitas vezes simbólicas. É o caso do número três, que aparece neste versículo, quando identifica número dos discípulos levados por Jesus. Ele simboliza a constituição do ser humano na Antropologia judaica: espírito, alma e corpo. Portanto, é uma imagem da natureza humana. O evangelista deseja ensinar que o que está para acontecer diz e implica muito a condição humana tanto de Jesus quanto dos três discípulos. É verdade que os três personificam, também, o grupo dos Doze. E, na cultura e tradição judaicas atuam na função de testemunhas qualificadas, ou seja, aquelas que dão veracidade ao fato ocorrido e narrado. O que era exigido na época.
O aspecto geográfico funciona como motivo teológico. Mateus situa-os na montanha. A montanha, para a teologia bíblica, é o lugar ideal para se fazer a experiência com Deus, bem como o lugar de Sua manifestação (as teofanias). Ora, toda a possibilidade e ocasião de encontro com Deus acaba sendo uma “subir a montanha”. Neste sentido, é preferível que não se tente identificar a montanha desta narrativa com o Monte Tabor, uma vez que ela surgiu com Origenes (escritor e teólogo) entre os séculos II e III. A informação não se sustenta com a leitura da bíblia. É melhor mantê-la anônima, tomando-a somente como a possibilidade de um encontro com Deus.
Interessante. Fazendo uma relação com texto evangélico das tentações meditado anteriormente, aqui se realiza o contrário: na narrativa das tentações, satanás leva Jesus para um monte, e lá mostra e oferece-lhe todos os poderes e glórias deste mundo, tentando-O a usar a sua condição divina para dominar e ter poder. Na narrativa deste segundo domingo da Quaresma é o próprio Senhor que leva Simão (a quem chamou de satanás) e irmãos Zebedeu de temperamento inflamado para outra alta montanha, a fim de lhes mostrar o caminho contrário às seduções oferecidas sempre e constantemente pelo tentador. A presença destes três na cena não pode ser entendida como privilégio concedido pelo Mestre, mas a necessidade de corrigir lhes a mentalidade equivocada acerca do projeto do Pai e de Jesus. Eles seriam, como todo o grupo, os mais necessitados da experiência da transfiguração/conversão. Primeiramente da mentalidade.
Mateus informa: “E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (v.2). O verbo grego utilizado para ilustrar esta ação é “Metamorphein (gr. μετεμορφώθη)”, na voz passiva (lit. “Foi transfigurado diante deles”). O que indica que a ação é realizada por Deus (passivum divinum ou theologicum). Ou seja, o Pai revela quem Jesus é, a partir de dentro; a partir da humanidade do Filho. Atenção: não é o Filho que se autotransfigura, mas é o Pai do Céu a transfigurá-lo. É como se revelasse a incrível beleza de sua humanidade, jamais reconhecida pelos adversários, decididos a tirar-lhe a vida (Mt 12,14). O rosto (a face) indica a identidade da pessoa.
Ao realizarem esta experiência, os três discípulos estão em condições de fazer uma leitura distinta da morte injusta do Mestre (Mt 16,21). Nesta perspectiva, o texto cumpre sua função para o leitor-discípulo, a de mostrar como será o caminho de Jesus. O seu messianismo não será vivido na perspectiva do poder, do domínio, da força, da submissão, do prestígio como alertou no primeiro anúncio da paixão (Mt 16,21). Tampouco a morte violenta e ignominiosa terá a última palavra na sua vida, porque a cena narrada é uma antecipação da vida ressuscitada, tanto para o discípulo que o acompanha até o monte, quanto para o leitor do evangelho. Por isso, o detalhe cronológico que Mateus sublinha dos “seis dias depois”, torna-se ainda mais importante: Jesus mostra, mediante a transfiguração, a plena realização daquilo que Deus planejou para o ser humano. Esse dado merece consideração, porque o evangelista está pensando na semana da criação (Gn 1). No sexto dia Deus criou o ser humano.
Jesus transfigurado revela o ser humano redimido, salvo e, portanto, recriado a partir Dele. A condição divina de Jesus é obtida mediante o poder, mas com o dom total de si. Aos discípulos a filiação divina, condição nova a ser alcançada também deve acontecer da mesma forma: na entrega, no serviço e no amor.
No v.3, o evangelista continua a fazer uso da linguagem simbólica. Informa a presença de outras duas personagens, Moisés e Elias. Ambos simbolizam a Palavra de Deus e as expectativas e promessas do Reino. O primeiro, faz alusão à Lei; o segundo, à profecia. Ao lado de Jesus, eles O indicam como a plenitude e realização das Escrituras através de seu modo de vida. Um detalhe interessante: os dois personagens não se dirigem aos discípulos. Conversam apenas com o Senhor. Isto é, a correta compreensão da tradição religiosa de Israel passa pelo Mestre, para quem convergem toda a Escritura e Revelação Divina. Trata-se de uma chamada de atenção do evangelista para a sua comunidade: à comunidade cristã, a lei e os profetas não tem nada a dizer a não ser por meio de Jesus. Tudo o que no A.T não estiver em sintonia com a mensagem de Jesus, não terá valor para vida do fiel.
No entanto, a incompreensão e resistência dos discípulos diante do evento se fazem notar. Pedro interrompe a cena dizendo que a aquela experiência era boa (v.4). Muito se vê na atitude dele algo de negativo. Ele estaria desempenhando o papel de satanás, uma vez mais. Continua sendo pedra de tropeço para o Cristo, e seu agir segue sendo segundo “os homens e não segundo Deus (Mt 16,23). Com a proposta de construir três tendas, o evangelista alude a uma festa importante do A.T, a festa das Cabanas (Sukkot), a qual fazia memória da permanência do povo no deserto, habitando em tendas. A festa era celebrada durante sete dias na época de Jesus, e nela se esperava também a manifestação gloriosa do messias libertador de Israel. Expressando o desejo de construir tendas, o discípulo revela que sua mentalidade ainda está presa ao poder, domínio, privilegio; à mentalidade equivocada acerca do Messias de Deus. E, pior, deseja induzir a Jesus a revelar a sua condição divina e de messias como messias nacionalista amparado nas escrituras antigas.
Outras duas atitudes necessitam ser recusadas pelo discípulo: o comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo, que configura uma nova tentação. E o perigo do apego à tradição e não reconhecimento de Jesus como o centro da vida, ilustrada pela atitude de Pedro: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias”. Ocupando Moisés o centro da frase dita pelo discípulo, sendo elencada em segundo lugar, se induz a entender que a personagem principal para a qual se deve voltar a atenção seria Moisés. Uma vez que era costume colocar a pessoa de maior destaque e importância no centro da estrutura frasal. Ou seja, Jesus ainda não ocupava o centro na vida de Pedro e na dos discípulos, e sim a lei de Moisés. O discípulo deseja enquadrar Jesus nas pegadas de Moisés e não o substituir: o messias desejado por eles é aquele que se conforma à lei e às conveniências deles. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho do Senhor; na primeira vez, foi Ele quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, ao interrompê-lo.
Agora é Deus a falar. Outro símbolo importante, que aponta para a centralidade da pessoa e missão de Jesus, cume e ápice da Lei e da Profecia, é a “nuvem brilhante” que envolve a todos (Ex 24,15; Ml 24,30; 26,64). Dela, o Pai faz ouvir sua voz, declarando a autoridade do Filho: “Este é o meu Filho amado. Só nele eu encontro alegria. Fiquem atentos ao que ele diz” (Mt 3,17; ís 42,1). Deus O credencia como o único que tem a autoridade para falar e ser ouvido pela comunidade. É uma forma categórica de se afirmar que Moisés e Elias já disseram o que tinham para dizer. Eles foram apenas servos a comunicar uma aliança entre um Senhor e seus servos. A atuação de Jesus é diferente: é o Filho de Deus, que comunica uma Aliança entre Pai e filhos. Por isso, à comunidade cristã, só interessa ouvir o Evangelho do Cristo. A nuvem os envolve, indicativo de que os discípulos foram acolhidos por Deus, que fala de Jesus como seu Filho querido. O bem-querer do Pai pelo Filho, portanto, alarga-se a ponto de abarcar, acolher e abraçar os discípulos e toda a humanidade.
A experiência divina acaba, e os discípulos são, novamente, colocados na realidade. Os reabilita ao tocar neles para que se levantassem, no v.17. O seu gesto foi o mesmo utilizado para restituir a saúde aos enfermos e a vida aos mortos (Mt 8,3.15), e lhes dá força para levantar e assumir a missão que virá. O toque de Jesus, que é a sua própria palavra, levanta e transforma a comunidade dos discípulos: “Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus” (v. 8). Moisés e Elias desapareceram para que as atenções dos discípulos se voltem somente para Jesus, o centro da vida e da comunidade que já não precisa mais dos antepassados. Já não sai mais nenhuma voz de Deus das nuvens, porque quem vê Jesus, vê o Pai (cf. Jo 14,9) e, portanto, quem escuta o Filho, escuta-O também. Não vendo mais ninguém como referencial além de Jesus, a comunidade renovada é convidada a descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz.
Só pode assimilar e viver uma vida transfigurada, aquele discípulo que se propõe a subir a montanha com Jesus e ouvir sua voz, ou seja, referenciar sua vida à vida mesma de Jesus, a qual supera a Lei (Moisés) e a Profecia (Elias), levando-as à sua plena realização. Assim, viverão uma vida verdadeiramente transfigurada, que outra coisa não é senão viver a vida do Filho de Deus. Peçamos a Graça de transfigurar-nos como o Senhor, e a força de recusar toda a desfiguração que as estruturas e projetos contrários ao Reino oferecem.
Pe.
João Paulo Góes Sillio.
Pároco do Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu – SP.
Nenhum comentário:
Postar um comentário