A
liturgia do terceiro domingo da quaresma deixa de lado o evangelho de Mateus e
assume as leituras bíblicas extraídas do Quarto Evangelho, o qual fará parte das
catequeses quaresmais dos próximos domingos. O episódio proposto para a
meditação é o relato da Samaritana no poço, Jo 4,5-42, o qual se divide em três
momentos: 1) Jesus e a samaritana junto do poço de Jacó (4,1-26); 2) um diálogo
instrutivo aos discípulos (4,27-38); 3) o encontro com os samaritanos, que
passam a crer Nele a partir do testemunho da mulher, e pela escuta da palavra
do Senhor (4,39-42). Interessa para a nossa meditação o primeiro momento. O texto litúrgico é longo. Por isso, pinçaremos alguns versículos que
são capazes de oferecer chaves de leitura para a interpretação da mensagem evangélica.
Uma chave de leitura para se compreender o texto é o tema da novidade escatológica trazida por Jesus, que o autor do Quarto Evangelho vem apresentando desde o capítulo segundo, a partir da narrativa das Bodas de Caná (2,1-12), o primeiro sinal de Jesus. Ali, e na passagem da purificação do Templo de Jerusalém (2,13ss), o evangelista desejou mostrar que o sistema religioso, com as prescrições rituais e os sacrifícios levíticos estariam superados a partir da Obra realizada pelo Cristo. Nele estaria a presença toda nova de Deus agindo na história, possibilitando à humanidade uma nova experiência com Ele. Ele é a superação e a plenitude da palavra de Deus. No capítulo seguinte, Jo 3, desenrola-se um diálogo com um certo Nicodemos, chefe dos fariseus. Nesta homilia do capítulo terceiro destinado ao discípulo iniciado na fé (imagem simbólica de Nicodemos), o Senhor fala do novo nascimento através da Água e do Espírito. Na sequência, o Quarto Evangelista situa a narrativa do capítulo quatro, sob o prisma do nascimento da Água e do Espírito (gerando inclusive unidade literária e temática para a obra). Posto isso, se pode mergulhar na meditação do texto bíblico.
Nos vv.5-6, o evangelista situa o leitor na geografia: “Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó”. Ali, conforme Gn 33,19, Jacó havia comprado um terreno e dado a José, para que os seus descendentes fossem sepultados. Parece que o autor também se serviu do relato de Gn 24 (o poço de Nacar) como pano de fundo para esta passagem, pois havia ali uma fonte, ou mina d’agua. Optamos traduzir poço por fonte, porque dá a ideia de água corrente, imagem importante para o evangelista. Estejamos atentos a este simbolismo.
“Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber" (6b-7). João nos informa que Jesus parou para descansar, ao meio-dia, a hora Sexta. Interessante notar que por duas vezes o evangelista informa este horário. A primeira, neste texto. E a segunda, ao interno da narrativa da paixão, em Jo 19, quando Pilatos apresenta a Jesus açoitado, coroado de espinhos e com manto vermelho, dizendo “eis o homem”, e o catequista anotava “era por volta do meio dia”. Qual o ensinamento que ele deseja transmitir para a sua comunidade e para os leitores de seu evangelho? Que Jesus é apresentado como aquele que traz o dom de Deus.
Naquela
hora, conforme a narrativa, apareceu uma mulher samaritana para tirar água. Não
era o melhor momento do dia, uma vez que elas iam bem cedo, no frescor da manhã
para executar a tarefa. Ele, então, entabula um diálogo, pedindo-lhe água. Ela
lhe responde: “tu, que és judeu, pede de beber a mim que sou uma mulher
samaritana?” Não é sem sentido esta fina ironia do autor: pretende-se ressaltar
a diferença cultural e social existentes entre Judeus e Samaritanos.
Interessante, que o evangelista dá peso à cena, ao mostrar o diálogo entre elas
na ausência dos discípulos, uma vez que um judeu não conversava em público com
uma mulher. Muito menos com uma samaritana. Ora, aos olhos de seus adversários,
o fato de Jesus ter iniciado uma conversa com um samaritano já seria motivo de
grave falta, tanto mais o uso de um utensílio pertencente à um deles.
Não era a melhor hora para uma mulher que se prezasse ir ao poço retirar água, como dito acima. Quem a visse nesse momento poderia suspeitar de sua fama. Estaria ela procurando uma nova relação? Por isso é necessário compreender o significado simbólico do poço. O primeiro, religioso, é que na tradição de Israel ele é símbolo para a Torá, a Palavra de Deus. Vale lembrar a denúncia do Profeta Jeremias, que chamava a atenção do povo por abandonar a YHWH, fonte de água viva, cavando para si as cisternas (Jr 2,13). O segundo, mais “social”, está vinculado a realidade esponsal. Foi na beira do poço que Eliezer e Rebeca se conheceram (Gn 24); bem como Jacó conheceu sua amada Raquel (Gn 29); também Moisés e Zippora (Ex 2,15-22).
João deseja ensinar que no encontro entre Jesus a samaritana, está para acontecer um novo encontro: neste poço, agora, conforme a narrativa evangélica, um novo casal se encontra para uma nova e definitiva história de amor, Deus e seu povo. A samaritana simboliza, em primeiro lugar o antigo Israel, bem como a humanidade, infiéis à YHWH e à Aliança, desposadas pelo noivo que é Jesus. Por isso, o texto não pode ser lido como se fosse crônica ou notícia de jornal. É preciso colher o dinamismo simbólico destas imagens e personagens. Haja visto também que a personagem feminina não possui nome. Nesse sentido, estaria ela servindo de espelho para que todos os leitores se enxerguem nela.
Jesus pede a ela, “dá-me de beber”. Semelhante ao que ele dirá na cruz: “tenho sede” (Jo 19). Dar de beber, e, no caso, oferecer água, na cultura semítica significa dar acolhimento. Diante desta simbólica personagem samaritana, Ele está pedindo para ser acolhido por ela; está pedindo a água dela. A água é símbolo do amor. Ou seja, ele mostra ter sede de nossa humanidade. Sede de nossa água, do poço da nossa vida. Ele deseja ter para si a nossa humana condição com tudo o que ela contém, para assim transforma-la numa fonte de água que jorra para a vida do âmbito de Deus. Ele pede “dá-me da tua vida”, “dá-me da tua história”, “dá-me de teus sonhos, desejos, projetos”, para que eu possa transformar esta água em fonte de água viva, isto é, de vida plena de força de sentido através do amor. Aquele que pede, na verdade é quem pode dar/doar, pois oferece algo totalmente novo e além do que se pode esperar. Neste encontro, somos chamados a acolher a realidade daquela que tem sede de sentido e significado da vida, e, portanto do divino, com aquele que tem sede da nossa humanidade, a fim de dar sentido a ela.
O v.10, “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva", e o v.14 “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna", podem ser compreendidos conjuntamente pois se referem ao símbolo da água. Em todas as culturas, a água é símbolo de vida. Quando Jesus fala da Água que brota para a vida eterna, na verdade está se referindo a vida que pertence ao âmbito de Deus que no crente produz a existência mesma de Deus. É um convite para que a samaritana receba como dom, oferta gratuita, esta água viva, que são o amor e a vida eterna presentes em Cristo.
A samaritana não conseguiu romper com o nível material, por isso pede água comum, a fim de não ter mais sede, nem precisar vir tira-la da fonte. Ela ainda pensa na água que gera mais sede. O que seria esta água? As paixões desordenadas, as posses e os acúmulos, o sucesso, o status, o poder, ou seja, tudo aquilo que gera ainda mais insatisfações no ser humano. Estas águas podem inclusive secar. Diferente daquela que Jesus dá. Com Sua Água viva Ela transforma o poço/cisterna de água acumulada e parada do discípulo em fonte que jorra.
A mentalidade equivocada ainda se faz presente na personagem. Por isso, Jesus experimenta uma didática mais radical para derrubar as resistências daquela mulher. No v.17, ele pede que ela lhe chame o marido. Imediatamente ela responde que não é casada. O mestre confirma e declara que ela, de fato, possuíra cinco maridos, e, naquele momento, possuía um sexto (emprestado), que não era dela. Quem são os seis maridos? No nível do texto, são símbolos para os povos que foram trazidos pelos assírios para a Samaria (2Rs 17), por ocasião da dominação e deportação de 722 a.C, quando da queda do Reino de Israel – babilônios, assírios, persas, elamitas, gregos e os romanos. Estes povos trouxeram consigo suas religiões, seus deuses e costumes, os quais passaram a ser cultuados e assimilados também pelos israelitas que ali permaneciam. Temos cinco povos e culturas que não são dali, e um sexto que é tomado de empréstimo (Roma). O estilo de vida (água) desses povos/maridos alimentava ainda mais aquela sede.
A mensagem central desta simbologia é a seguinte: abandonar os esquemas antigos e de morte nos quais se vive para abraçar a novidade de Deus em Jesus. Deixar de lado a incompletude e a falta, uma vez que, ao interno da tradição bíblica, o número seis acena para a imperfeição e incompletude. A sede da personagem, que a faz ir ao poço ao meio-dia, revela a inconsistência, a falta, a insatisfação, a frustração da vida sem sentido que possuía, buscando sempre preencher seu vazio. É a vida atrofiada pelos esquemas antigos.
Os versículos se interconectam. A samaritana tem sede do divino, como exposto acima. Mas ainda está no nível material do lugar e do espaço. Jesus é reconhecido por ela como um profeta. Como alguém que sabe da Palavra de Deus, ele poderia ensinar o lugar correto para Sua adoração. Por isso ela interroga Jesus acerca do lugar autêntico para adoração de Deus, se seria o monte Garizim ou Jerusalém, no Templo (v.22). O lugar da adoração do Pai não é no Garizim, nem em Jerusalém, mas em Espírito e em Verdade.
O que significa isso? Primeiramente, desmistifiquemos aquela intepretação errônea de que a expressão “em Espírito e em Verdade” insinue uma adoração intimista ou individualista. A expressão joanina muito menos acenaria para uma concepção carismática da religião, com suas manifestações extraordinárias ou sobrenaturais. O texto joanino não permite entender “adoração em Espírito e em Verdade” como fenômenos (psíquicos) que de carismáticos não tem nada, ou daquilo que se costumou identificar como os “repousos espirituais” ou “fenômenos das línguas”. Nada disso.
Em Espírito e em Verdade significa, em primeiro lugar, um modo de ser e de viver, isto é, assumir e viver a vida de Jesus em sua própria história; deixar que o sentido pleno de sua história, missão, opção e modo de ser perpasse-lhe a vida, de modo a ser uma continuidade da vida do próprio Senhor. Prestar um culto agradável a Deus com a própria vida encarnada na história e iluminada pela fé. Em simples palavras: a adoração à Deus não se dá num lugar, mas através de um modo de viver. Uma vida pautada pelo Espírito e o amor-fiel (Verdade) de Deus, doada em serviço e em amor até o fim, que deram o tom da existência e da Obra de Jesus. Portanto, não se trata de um lugar, mas de um modo de ser e de existir que identificam o ser humano como um verdadeiro discípulo de Jesus.
Nessa lógica, a mulher diz no v.25: “Sei que o messias-Ungido vem. Quando ele vier, ele nos esclarecerá todas essas coisas”. Ela imagina o ungido de Deus como o novo Moisés, que explicará todas as coisas. Quando ele vier saciará a sua sede. Ele será a plenitude da Lei e da profecia. Nesse sentido, a (reveladora) declaração de Jesus assume um peso importante: “Sou eu que está falando contigo”. Ele se coloca na condição de cumprir o desejo de conhecimento do Dom de Deus que a mulher samaritana tem. É Ele o anunciador e revelador de Deus, e o dom de sua vida e Espírito constituem a água viva, que transforma a existência do discípulo numa fonte que jorra água viva.
A lição pragmática que o texto pretende dar ao leitor-discípulo é a seguinte. Aquele que faz a experiência da novidade que Jesus traz, o Dom de Deus, que na verdade é Deus mesmo, não pode ficar indiferente. Deverá deixar fluir a partir de si a água da vida divina, para que os outros possam fazer a mesma experiência.
Assim, a samaritana aprendeu a lição: vai, então, anunciar essa novidade para os seus. Ela deixou ali o seu cântaro. De poço seco e sedento de água, torna-se uma fonte de água vive, em movimento, na direção dos outros. Da condição de discípula, ela passa para a condição de missionária e vai anunciar aos seus o modo através do qual se vive a vida mesma Deus.
E nós, a partir da experiência pessoal e comunitária com Jesus, somos poço (que retém a água, a ponto de deixa-la parada) ou somos fonte que está sempre a nutrir? Vivemos o modo da existência de Jesus, “Em Espírito e em Verdade”?
Pe. João Paulo Sillio.
Pároco
do Santuário São Judas Tadeu, Avaré / Arquidiocese de Botucatu – SP
