sábado, 7 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO PARA O V DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 5,13-16:

 


O evangelho proposto para a liturgia dominical segue na continuidade das bem-aventuranças, que são o início do Sermão da montanha, o discurso inaugural de Jesus no evangelho segundo Mateus (Mt 5 – 7). Os quatro versículos são poucos, mas muito densos e carregados de significado para os discípulos de todos os tempos e lugares.

Ao concluir as bem-aventuranças, Jesus apresenta aos seus ouvintes, a multidão e os discípulos, que subiram ao monte com Ele as exortações a seguir. Pode-se afirmar, que o texto evangélico deste domingo pretende ilustrar o meio através do qual o discípulo do Reino pode e deve viver as bem-aventuranças, e, portanto, ser discípulo do Senhor. Portanto, a cena evangélica de hoje aponta para a dimensão ética da vivência de Seu ensinamento e do projeto do Reino.

Jesus se dirige aos seus discípulos, usando imagens que são vitais, sobretudo porque são necessárias e insubstituíveis. O texto diz: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (v.13). Estas palavras, evidentemente, Jesus as dirige para seus discípulos, mas não se pode esquecer que ele também está falando para as multidões. Portanto, estas palavras possuem um alcance universal. Ora, trata-se de um projeto de vida aberto a todos; todos são convidados a viver as bem-aventuranças, como se refletiu no trecho meditado anteriormente (Mt 5,1-12).

O Sal era utilizado na antiguidade e no tempo de Jesus para dar sabor, conserva o alimento e para purificação. Adicionado ao alimento, ele o nutre de sabor. O Senhor usa este tempero para fixar na mente e no coração do discípulo o convite proposto pelas bem-aventuranças: o chamado a ser feliz a partir do projeto do Reino. Como o sal que conserva, o discípulo deve conservar o projeto de Deus em sua vida e na do próximo.

Ao mesmo tempo, Jesus, se servindo deste elemento, propõe um modo de ser para o discípulo: a discrição e a capacidade de servir. A discrição: como o sal, que está misturado no alimento, assim deve ser o discípulo, ou seja, ele deve estar misturado na realidade, na história, colaborando para com o nutrimento das pessoas. Ninguém consegue ver o sal quando já está mesclado ao alimento, mas se consegue sentir seu paladar. Assim também deve ser a atitude do discípulo: como o sal, “perder-se” no alimento, ao mesmo tempo que gera a nutrição no irmão. Uma forma muito simples e pedagógica de ensinar não se deve ser e estar em evidência, tampouco chamar para si a referência na missão, mas, a exemplo deste tempero que não se vê, mas se sente, apontar a direção, indicar o projeto do Reino, sem chamar a atenção. Sem barulhos. Mas com sabor, isto é, com aquela propriedade geradora e alimentadora de vida: as bem-aventuranças.

Jesus diz que o discípulo é “Sal da terra”. Interessante este acréscimo, o qual serve para reafirmar que a utilidade deste condimento não está exclusivamente destinada a uma tarefa, mas possui uma finalidade muito ampla: a terra como toda a realidade criada; em todas as circunstâncias. “Sal da terra” acena para o fato de que, independentemente da situação, ambiente ou circunstância que o discípulo se encontre deve manter verdadeiramente viva a Boa Notícia do Senhor, seja em sua vida ou na vida do outro, sem jamais deixa-la faltar.

Com razão Jesus adverte: “Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens” (v.13). Como entender este dito? Com o auxílio do texto grego do evangelista. O original traz outro termo par a palavra “insosso”, moraíno/μωραίνω. Aparecerá, novamente, no capítulo sétimo, quando Jesus falará do homem insensato que construiu sua casa sobre a areia. Moraíno (gr. μωραίνω) indica a perda da razão de sentido. Jesus está advertindo o discípulo, que, enquanto sal, pode correr o risco e a tentação de tornar-se insosso, ou seja, perder sua razão de sentido. Seria uma forma de Jesus dizer, “torna-se sem razão de sentido quem deixou de conservar a Boa Nova em sua vida, quem perdeu ou deixou perder o sabor do Evangelho”. Qual seu destino? Segundo o Senhor, ser jogado fora e pisoteado pelos homens. Entenda-se: este dito não expressa qualquer tipo de condenação, seja da parte de Deus, ou de Jesus àquele que perdeu o sentido evangélico da vida, mas tão somente uma constatação de uma consequência que o mestre faz. O sal era imagem da sabedoria; o sábio, portanto, deve ser semelhante ao sal; já o sal sem sabor era símbolo da pessoa que se tornara estulta e ignorante.

Jesus utiliza outra imagem para indicar a missão do discípulo: “Vós sois a luz do mundo” (v.14). Para um judeu piedoso, tal afirmação deste rabino que ensina gente simples seria inconcebível. Por que? A luz, conforme a tradição bíblica e religiosa do povo de Israel era uma imagem simbólica aplicada à cidade santa, Jerusalém, ao Templo e à Torá, enquanto Palavra de Deus. Mateus discorda e opera uma nova aplicação ao recordar o ensinamento de Jesus. Para eles, não são mais estas realidades que iluminam o mundo, mas os discípulos de Jesus, iluminado por seu ensinamento que tem estatuto de Palavra de Deus pode, portanto, ser luz no mundo e para o mundo. Iluminar a realidade e a história a partir de Jesus.

O v.16 encerra o texto litúrgico mostrando como que o discípulo ilumina a realidade e a história através das boas obras que realiza: “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus". As obras das quais fala Jesus são os frutos na vida do discípulo, iluminada pelo projeto do Reino, as bem-aventuranças. Através dela transparece e brilha a ação mesma de Deus. Neste sentido é que as pessoas poderão glorificar ao Pai que está no céu: porque Ele torna-se presente e visível através da ação e da palavra de Jesus e de seus discípulos que iluminam a história, a realidade, as situações, as circunstâncias e a vida das pessoas. Todavia, o ensinamento enfoca as obras de Deus, e não a luz própria do discípulo. Este apenas deixa que a luz e as ações de Deus perpassem a sua vida.

Que o evangelho de Jesus possa sempre mais fazer com cada discípulo acolha a vocação de ser sal e luz. Conservar-se a si mesmo no projeto e na realidade da Boa Notícia do Reino e, assim, conservar o irmão neste modo de ser e de existir proposto por Jesus. Que cada discípulo possa favorecer o nutrimento de cada pessoa através do sabor do Evangelho (do Cristo). Que a exemplo do Senhor, cada um possa ser foco de luz a iluminar caminhos, realidades, histórias através das boas obras, as quais revelam Deus-conosco.

 

Pe. João Paulo Góes Sillio. 

Santuário São Judas Tadeu, Avaré/Arquidiocese de Botucatu.